Episódios de Endörfina com Michel Bögli

#472 Ig Aronovich

09 de julho de 20262h19min
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Filho de argentinos, ele nasceu em Buenos Aires mas se mudou para o Rio de Janeiro ainda bebê. Aprendeu a andar de bicicleta bem cedo e nas viagens frequentes a Búzios com a família, costumava remar ou tentava velejar.

Sua mãe era antropóloga, historiadora e mantinha um laboratório fotográfico em casa. Ainda criança, assistia às revelações de fotografias em preto e branco e fez suas primeiras fotos durante shows e atividades do dia a dia.

Já morando em Sao Paulo, na adolescência passou a fotografar os amigos andando de skate. Sua primeira imagem publicada saiu na revista Yeah Skate. Mais tarde, ingressou no curso de Biologia da USP, mas interrompeu a graduação quando se mudou para os Estados Unidos. Durante os dois anos em que viveu por lá, adquiriu seus primeiros equipamentos profissionais, cobriu o Campeonato Mundial de Balonismo no Novo México, e começou a enviar fotografias para publicações brasileiras.

De volta ao Brasil, participou da cobertura do Rock in Rio II. Uma das imagens produzidas durante o evento foi publicada na capa da revista Trip. A partir daí, passou a colaborar com diferentes veículos editoriais e direcionou seu trabalho para esportes, viagens, aventura e comportamento.

Em 1995 e 1997, acompanhou uma equipe brasileira na Race Across America. Em 1998, cobriu uma das maiores corridas de aventura do mundo, o Raid Gauloises e o primeiro evento da modalidade no Brasil, a EMA. Ao longo dos anos seguintes, documentou campeonatos mundiais de triathlon, provas de corrida de aventura, mountain bike, rafting, dezenas de edições do Ironman Brasil e diversos outros eventos esportivos no Brasil e no exterior.

Paralelamente ao trabalho editorial, realizou expedições próprias. Pedalou pelo Salar de Uyuni, desceu a Estrada da Morte na Bolívia, remou no Alasca, cruzou dunas do Saara em uma expedição de sandboard, participou de campanhas da Sea Shepherd na Antártida e no Canadá e realizou travessias de bicicleta e caiaque em diferentes regiões do continente americano.

Ao longo de mais de três décadas de carreira, teve trabalhos publicados em jornais, revistas e livros no Brasil e no exterior. Expôs em cidades como Berlim, Innsbruck, Florença e Filadélfia. É autor dos livros Cruzando a América em Duas Rodas e Imagens de Uma Expedição, além de coautor de Graffiti Brasil.

Conosco aqui, o fotógrafo apaixonado por viagens, expedições, natureza e manifestações culturais, movido pela curiosidade de ver de perto e entender o mundo através da fotografia, o portenho Ignácio Aronovich.

Inspire-se!

Race Smart - check your heart

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A 2 Peaks Bikes é a importadora e distribuidora oficial no Brasil da Factor Bikes, Santa Cruz Bikes e de diversas outras marcas e conta com três lojas: Rio de Janeiro, São Paulo e Los Angeles. Lá, ninguém vende o que não conhece: todo produto é testado por quem realmente pedala.

A 2 Peaks Bikes foi pensada e criada para resolver os desafios de quem leva o pedal a sério — seja no asfalto, na terra ou na trilha. Mas também acolhe o ciclista urbano, o iniciante e até a criança que está começando a brincar de pedalar. Para a 2 Peaks, todo ciclista é bem-vindo.

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Participantes neste episódio2
M

Michel Bogli

HostApresentador do Endorfina Podcast
I

Ignácio Aronovich

ConvidadoFotógrafo
Assuntos12
  • Jornalismo EsportivoRace Across America (RAM) · Primeira EMA no Brasil · Perrengues em expedições · Fotografia em condições extremas · João Paulo Diniz
  • Experiências de Campo e AventuraExpedição de caiaque no Alasca · Experiência na Antártida · Amanhecer no Saara · Namíbia · Toco Lenzi
  • Compromisso mútuo na fotografiaMomentos humanos universais · Fotógrafo como testemunha · Expressões e emoções · Superação e limites · Unguarded moments
  • Marketing para fotógrafosFotografia como passaporte · Fotografia ontem e hoje · Essência de uma imagem · Fotografia e redes sociais · Fotografia e IA
  • FotografiaRace Across America (RAM) · Raid Gauloises · Expedições próprias · Fotografia de triatlo · Fotografia de corrida de aventura
  • Relação entre arte e memóriaValor histórico das imagens · Digitalização e restauração · Preservação de acervos · Fotografia como registro do tempo
  • A fotografia digital e a linguagem universalFotografia analógica vs. digital · Foco manual vs. automático · Uso de drones na fotografia · Tratamento de imagem · Câmeras sem espelho
  • Maternidade na AdolescênciaDesafios da adolescência · Influência das telas · Formação infantil e natureza · Yuri Aronovich
  • Longevidade e Preparação Física no EsportePreço da superação física · Sequelas e qualidade de vida futura · Evolução do treinamento esportivo · Mitos sobre envelhecimento · Manu Villaseca
  • A Bicicleta Açoriana: Viagens Físicas e SimbólicasAutonomia e independência · Ritmo e observação · Impacto ambiental reduzido · Simplificação da vida · Bike como ativismo
  • Experiências pessoais e inspiraçõesTito Rosenberg · Toco Lenzi · Ned Gillette · Fotógrafos inspiradores · Busca por caminhos alternativos
  • Cultura e Expressões Humanas RadicaisEscarificação e suspensão corporal · Kamikaze Twins · Modificação corporal · Fotografia de dança · Miss Tattoo
Transcrição277 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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IAIgnácio Aronovich

Oh, sorry, I almost couldn't breathe when I saw the discount they gave me on my first order. Oh, sorry. Namastê.

MBMichel Bogli

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IAIgnácio Aronovich

Enfim, eu sempre digo que a fotografia, ela é um multiplicador de vidas e a câmera fotográfica é um passaporte para você conhecer o mundo. Oi, eu sou a Fernanda Keller. Eu sou o João Amoedo. Sou a Poliana Okimoto.

MBMichel Bogli

Aqui é o Murilo Fischer.

IAIgnácio Aronovich

Aqui quem fala é o Ronaldo da Costa. Olá, sou o Henrique Avancini.

MBMichel Bogli

E esse é o Endorfina Podcast.

IAIgnácio Aronovich

Endorfina Podcast.

MBMichel Bogli

Tamo junto, hein? Sou Michel Bogli e aqui no Endorfina Podcast você conhece as histórias e opiniões de triatletas, corredores, nadadores e ciclistas profissionais e amadores. Descubra quem são e o que pensam os seres humanos que vivem um esporte e são movidos à endorfina. Olá, seja muito bem-vindo a mais um episódio do Endorfina Podcast. Esse, todos os episódios são editados pela produtora Pulsante. Esse episódio foi gravado no Estúdio Estema.

Se você busca um lugar para gravar o seu conteúdo de áudio e vídeo, webinars, lives, conteúdo para seu Instagram, considere gravar aqui no Estúdio Estema. Mande uma mensagem através do perfil do Estúdio Estema no Instagram, informe-se como é que você faz aqui para conhecer as instalações do Estúdio Estema. O Instagram do Estúdio Estema é @estudio, com S mudo, ou perdão, @estudio, com S mudo. Stema, também com S mudo e dois M's, @estudioestema, ambos com S mudo e dois M's, o Estema.

Bom, meu convidado de hoje que eu recebi aqui no estúdio, Estema, é um amigo aí de longa data, um fotógrafo super experiente, um especialista em seres humanos que acabou fotografando muito esporte. E numa época ele acabou se tornando aí quase que figura carimbada em todos os teatros que aconteciam aqui, as grandes provas que aconteciam aqui no Brasil. E depois foi para as corridas de aventura. Eu levei ele inclusive, acho teve duas participações para o Race Across America.

Ele foi fotógrafo da equipe, lançou um livro aqui junto com a gente do Race Across America. É o Inácio Aronovitch, um cara aí muito bacana, com anos de experiência. Mas como eu falei, ele é um especialista em seres humanos. Ele não fotografou somente esporte, ele não é um fotógrafo que tem um rótulo de fotografar um tipo de fotografia. Ele gosta de fotografar lugares, paisagens e seres humanos. E ele tem aí que histórias incríveis que ele vai contar aqui a partir dessa nossa conversa de hoje.

Então ele vai falar também sobre paternidade, sobre a fotografia ontem e hoje, sobre as vantagens e as desvantagens, na opinião dele, da gente ter acesso não somente a fotografar nós mesmos, né, através dos celulares, mas de consumir fotos, principalmente através das redes sociais, fotos e vídeos, né. Ele vai falar sobre a essência de uma imagem, ele vai falar sobre estar no lugar certo na hora certa e várias histórias vividas por trás das lentes da sua máquina fotográfica enquanto ele acompanhava aí diversas modalidades esportivas.

É isso que você vai ouvir nessa conversa de hoje. E antes de seguir para o episódio, quero agradecer aos patrocinadores desse episódio, desse episódio: a Z2 Performance, que agora tá com a linha Performance System, a Two Peaks Bikes e a 220, que faz o energy drink que te leva além. Aliás, energy drink esse da 220, que tem regado aí endorfina há mais de um ano, dos meus amigos Ciro Violin e do César Violin. Aliás, o Ribeiro já teve aqui duas vezes, um dos melhores triatletas amadores que o Brasil já teve.

E esse episódio apoia a iniciativa de outro convidado, Sérgio Zolino, que inclusive o Inácio conhece muito bem, que criou a iniciativa aí de despertar a nossa consciência para que a gente verifique a saúde do nosso coração antes de fazer qualquer atividade física, principalmente atividades físicas que te levem aí próximo ao seu limite. Então, Race Smart, Check Your Heart, esse é o Instagram dessa iniciativa que nada mais é, como eu falei, de nos lembrar de que não adianta você querer ser um Iron Man, não adianta você querer ser um super ciclista, um super corredor, se você não sabe se o teu coração tem saúde para isso.

Então vamos lá, antes prevenir do que remediar. Então Race Smart, check your heart. E se você curte os episódios do Endorfina no YouTube, eu peço, indique, dê um like, assine, comente. Tudo isso que você faz, toda essa interação que você faz através do YouTube, ajuda o Endorfina a descoberto cada vez por mais pessoas. E se o teu barato é ouvir o Endorfina, também faça a mesma coisa. Mande aí para os seus grupos de WhatsApp: olha, essa conversa aqui foi legal, esse cara aqui é bacana, esse cara fez isso, essa pessoa fez aquilo.

Isso ajuda demais o Endorfina. E se você quiser ir além, além de contribuir dessa maneira, você pode contribuir financeiramente já a partir de R$15 por mês. Basta você entrar na plataforma Apoia.se. E como é que você faz para entrar na plataforma Apoia.se? Bom, maneira mais fácil que tá aí na ponta dos seus dedos: entre no meu Instagram, que é o Endorfina BR, clique lá na bio. Na bio vai ter um link, você vai ser direcionado aí para uma paginazinha aí com várias abas.

Nessa aba tem, uma dessas abas tem ali escrito Apoia.se. E aí sim, então você vai ver como é que faz. É bem simples, você não precisa ter fidelidade, você pode fazer isso por 1, 2, 3, 4, 5 meses, não importa, né? E já a partir de R$15 por mês Qualquer ajuda vai ser muito bem-vinda. Então, se todo mundo colaborar com R$15 por mês, o Endorfina consegue pagar suas contas e muito mais, e continuar aqui independente para continuar trazendo conteúdo de alta qualidade como essa minha conversa aqui com Inácio Aronovitch.

Então vamos lá para mais um episódio. Afinal de contas, quem é que não gosta de uma boa fotografia? E quem é que não gosta de uma boa história, não é verdade? Filho de argentinos, ele nasceu em Buenos Aires, mas se mudou para o Rio de Janeiro ainda bebê. Aprendeu a andar de bicicleta bem cedo e nas viagens frequentes a Búzios com a família costumava remar ou ainda tentava velejar. Sua mãe era antropóloga historiadora e mantinha um laboratório fotográfico em casa.

Ainda criança, assistia às revelações de fotografias em preto e branco e fez suas primeiras fotos durante shows e atividades do dia a dia. Já morando em São Paulo na adolescência, passou a fotografar amigos andando de skate. Sua primeira imagem publicada saiu na revista Yeah Skate. Mais tarde, ingressou no curso de biologia da USP, mas interrompeu a graduação quando se mudou para os Estados Unidos. Durante os 2 anos em que viveu por lá, adquiriu seus primeiros equipamentos profissionais, cobriu o Campeonato Mundial de Balonismo no Novo México e começou a enviar fotografias para publicações brasileiras.

Já de volta ao Brasil, participou da cobertura do Rock in Rio 2. Isso denuncia a idade, né? Uma das imagens produzidas durante o evento foi publicada na capa da revista Trip. A partir daí, passou a colaborar com diferentes veículos editoriais e direcionou seu trabalho para esportes, viagens, aventura e comportamento. Em 1995 e 97, acompanhou uma equipe brasileira no Race Across America, e nós vamos falar sobre isso já já. Em 1998, Cobriu uma das maiores corridas de aventura do mundo, o Raid Galoás, e o primeiro evento da modalidade no Brasil, a Expedição Mata Atlântica.

Ao longo dos anos seguintes, documentou campeonatos mundiais de triatlon, provas de corridas de aventura, mountain bike, rafting, e dezenas de edições do Ironman Brasil e diversos outros eventos esportivos no Brasil e no exterior. Paralelamente ao trabalho editorial, realizou expedições próprias, pedalou pelo Salar do Uyuni, desceu a Estrada da Morte na Bolívia, remou no Alasca, cruzou dunas no Saara em uma expedição Sandboard, participou de campanhas da Sea Shepherd na Antártida e no Canadá e realizou travessias de bike e caiaque em diferentes regiões do continente americano.

Ao longo de mais de 3 décadas de carreira, teve trabalhos publicados em jornais, revistas e livros no Brasil e no exterior, expôs em cidades como Berlim, Innsbruck, Florença e Filadélfia. É autor dos livros Race Across America e Imagens de uma Expedição, além de coautor do Grafite Brasil. Conosco aqui hoje, o fotógrafo apaixonado por viagens, expedições, natureza e manifestações culturais, movido pela curiosidade de ver de perto e entender o mundo através da fotografia, o portenho Inácio Aronovitch. Seja muito bem-vindo, Inácio.

IAIgnácio Aronovich

Obrigado, Michel, é um prazer estar aqui com você e participar do Endorfina, que acompanho também há bastante tempo.

MBMichel Bogli

Que legal! Você sabe que a gente tá ensaiando essa conversa faz tempo, né, cara? Até peço desculpas que a gente não conseguiu, eu não consegui agilizar mais cedo, Mas eu tenho aqui, desde que eu vim para o estúdio, né, eu tenho como uma regra de colocar livros aqui atrás de mim de todos os convidados. Eu abri uma exceção para o livro do Race Across America, Cruzando a América em Duas Rodas, porque é um livro onde eu estou, da nossa equipe ali, do saudoso João Paulo do Seco, né, e do Kid, de toda a equipe daquela época.

Nossa segunda participação no Race Across America, segunda vez que brasileiros participam do Race Across América. Já lá se vão 31 anos, né, Inácio? Mas as fotos são suas, né? A gente já se conhecia e eu te convidei para fazer parte da equipe. Mas agora, finalmente, eu vou pedir depois um autógrafo seu. Agora eu vou colocar o livro agora de um convidado do Endorfina, que é o Inácio Oronovitch, já que você é o autor das fotos. E o Seco, que é o redator, o autor aí do texto, ainda não esteve aqui, mas eu vou chamá-lo.

Cara, um prazer te receber aqui, Inácio. Pô, tô muito contente, cara. A gente vai colocar o assunto em dia, com certeza.

IAIgnácio Aronovich

Muito bom estar aqui. Eu fotografei você em muitos lugares pelo mundo, situações diferentes, né, desde Mundial de Longa Distância início, né, você tava lá, não tava?

MBMichel Bogli

Pois é, tava.

IAIgnácio Aronovich

Opa, alguns Ironmans, alguns triatlons, corridas de aventura, as primeiras, né, e Race Across America, que tem história para várias edições de podcast. Só da RAM já dá para contar muita história.

MBMichel Bogli

Você sabe que já falaram isso para eu fazer mesas redondas aqui na época com João Paulo, com o Seco, com o Cid, com o Kid, né? Nunca já trouxe a mulher do Flávio, mas o Flávio Cardoso ainda não veio. Então aí depois, infelizmente, com a passagem do João, eu acabei ficando meio assim, falei, ah, será que eu faço, não faço? Mas eu preciso levar a cabo essa ideia porque também vai ser um bom momento da gente eventualmente ficar lembrando aí das histórias com o João no Sei Se É Cross América, que ele esteve lá conosco.

Mas, cara, você já me contou aqui um pouquinho. Eu não lembrava que a gente tinha a mesma idade, mas eu queria saber uma coisa. Eu vi o Yuri nascer praticamente. A gente, né, não lembro de que a gente se encontrou e o Yuri ainda era bebezinho. Eu lembro que ele tava com uma roupa do Yoda, você lembra? Essa foi a primeira roupinha de bebê, não lembro, barizinho, não sei como é que chama, que era do Yoda.

IAIgnácio Aronovich

É a primeira roupa que ele ganhou. A gente tem uma amiga na Califórnia que ela faz um baby exchange e ela tem containers na garagem dela por idades. E com a ideia de reduzir o consumo, as mães iam lá e os pais iam lá e trocavam. Ah, meu filho tá desse tamanho, deixa essas roupas aí, pega uma do tamanho seguinte maior. E aí a gente foi lá na casa dessa amiga, ela falou, pega o que você quiser. A gente pegou as roupas para os primeiros 2 anos dele assim.

E ela falava assim, isso não é roupa usada, isso é roupa pré-armada. Então é uma roupa que já tá, né, que já tem amor ali, de, né, tem uma coisa emocional, né? E aí a gente levou essas roupas e tinha umas roupas assim que eram muito legais. Então ele era todo estiloso desde moleque, desde bebê, né?

MBMichel Bogli

Você ainda tem essa roupinha do Yoda?

IAIgnácio Aronovich

Eu acho que se a gente guardou, se a gente guardou alguma coisa, eu acho que deve ter sido um pedaço assim.

MBMichel Bogli

Porque assim, essa seria legal guardar, porque, cara, eu achei muito inédito, cara. Assim, eu lembro de estar falando, meu, só pode ser o filho da Luiza e do Inácio, cara. Mas como é que você tá aí como um pai de um adolescente? Ele tá com 14, né? Eu não sei se ele tá numa idade já criando conflitos, mas ele vai chegar nessa fase já já. Como é que você tá reagindo a isso?

IAIgnácio Aronovich

Eu tô curtindo muito, né? Eu tive o privilégio de ter um pai muito legal e para mim ter um filho adolescente hoje, como acho que para qualquer pai e qualquer mãe, é um desafio, porque você tem as telas que são uma atração permanente. Você tem uma geração que tá questionando um monte de coisa, como todas as gerações anteriores, mas tá no momento onde o mundo tá diferente, porque você tem uma acomodação de achar que não precisa aprender muito porque a IA tá aí, resolve tudo, com prompt você pergunta e tem as respostas.

Então o formato da escola, ele não tá obsoleto, mas ele tá sendo questionado na forma, né, esse formato tradicional de sala de aula, tudo. Mas desde pequeno Eu coloquei uma sementinha desde pequeno. Ele foi pra escola de patinete, de skate, de mochila nas costas, de sling, de longboard, de BMX, e agora ele vai de bike. Então assim, desde o começo eu tive uma infância bem privilegiada de poder crescer perto da natureza. E morando em São Paulo é difícil oferecer a mesma coisa.

Mas a gente tem aqui o acampamento de aventura que ele vai desde os 8 anos, né, desde pequeno. E que pra mim foi uma coisa que ajudou em toda a formação dele de apreciar a natureza, de fazer esportes ao ar livre. De praticar esporte, de remar, de pedalar, de tudo. E jogou bola também um tempão. Aí ele se desinteressou um pouco pelo futebol e agora ele tá muito mais na bike, o que pra mim é um prazer.

MBMichel Bogli

Exato.

IAIgnácio Aronovich

Eu aprecio muito mais da— Isso que eu ia falar. Não tem nenhum problema com isso, acho ótimo. Mas encorajei ele o máximo possível no futebol, em todos os jogos dele, campeonato, assistia. Ele depois saía do jogo e falava, pai, você viu aquele passe? Você viu aquele gosto? Não sei o quê.

MBMichel Bogli

Vocês jogam uma bolinha?

IAIgnácio Aronovich

Eu voltei a jogar por causa dele, né? Não jogava, não encostava numa bola há anos. E aí, às vezes, na copinha que ele jogava, tinha jogo que era com os pais juntos. Nossa, era divertido. Mas enfim, voltei e comecei até estádio com ele, né, que é uma coisa que eu jamais faria. E ele iria para fotografar, mas eu não tenho nenhum time de preferência. E ele foi no estádio a primeira vez, convidado por um amigo nosso, que ele entrou em campo com o time, com Palmeiras, no Pacaembu.

Primeira vez, ganhou uniforme, entrou em campo assim, primeira vez na vida. Então uma experiência que também faz parte da formação dele, de lembrar isso, né. Então eu acho que assim, é um desafio, né, nesse momento. Adolescência é sempre um desafio. Teve separação dos pais, que também ainda complica as coisas. Mas acho que todo mundo faz terapia e todo mundo vai ressignificando as coisas e lidando com as coisas da melhor maneira possível.

E eu acho que ele tá virando um carinha bem legal assim. Eu sou suspeito para falar, mas sou muito fã dele assim nesse momento.

MBMichel Bogli

E ele tá com assim, claro que ele é muito jovem ainda, mas ele tem algum gosto assim, alguma alguma característica que você já identifica ou que ele mesmo já identifica? Tipo, o que que você vai ser quando crescer? Que é uma pergunta que já tá obsoleta, né? Mas assim, que você já sente assim que ele vai para um lado de mais exatas, mais humanas, ele é mais artista? Você consegue já identificar algo assim? Eu pergunto por quê? Porque, cara, teu pai tocava violino, tua mãe era uma artista, né, praticamente.

Você fotógrafo, a Luiza fotógrafa. Vocês têm uma, vocês levam uma vida completamente diferente Imagino que você já deva ter ido palestrar várias vezes, né, na escola dele, né?

IAIgnácio Aronovich

Em qualquer lugar, escola dele foi legal.

MBMichel Bogli

Porque, cara, não é comum, né, meu, você ter um pai fotógrafo ou uma mãe fotógrafa como vocês são, né?

IAIgnácio Aronovich

É, eu acho que fotógrafo também com uma área de atuação que é mais generalista, né? Ao invés de se especializar numa coisa só, é o fotógrafo de publicidade, né?

MBMichel Bogli

O fotógrafo de casamento, né? Seu fotógrafo, cara, eu fiz aqui um micro resumo da sua vida fotográfica, que é ampla como, sei lá, o mundo, né?

IAIgnácio Aronovich

É, eu acho que isso é assim, eu sempre digo que a fotografia ela é um multiplicador de vidas e a câmera fotográfica é um passaporte para você conhecer o mundo. Então ele dá, desde pequeno ele já teve acesso a coisas de estar conhecendo o ateliê de um artista e tá indo numa exposição de estabelecimento e ver a montagem de uma exposição, backstage de um show, vendo evento esportivo. O ano passado teve o GP de slalom, de downhill, de slalom, de skate, no Museu do Ipiranga.

Eu levei ele, credenciei ele, dei uma câmera para ele fotografar. E ao invés dele ficar entediado depois de 10 minutos, porque o percurso de slalom é a mesma coisa, com cones vão descendo contra o relógio, quem faz melhor tempo. Você vê 10 minutos, meio que você já viu. A não ser que você seja um aficionado, você não vai achar aquilo lá tão diferente. Mas ele, ao ter que olhar para a performance através de uma câmera, Ele teve que pensar em composição, em momento, em estar atento ao que tava acontecendo, se alguém vai cair.

As coisas não se repetem, né? Então parte da fotografia é muito isso, você conseguir capturar momentos únicos. Então foi muito legal, ele gostou muito. Depois a gente editou junto, ele fez 1.200 fotos, a gente sentou depois para editar. Eu fiz uma crítica para ele do resultado dele, né, exaltando os acertos, mostrando onde podia melhorar tudo. Então eu acho que foi uma coisa muito legal. Eu não acho que ele tenha ainda, ele tá muito no momento, é bem eclético, né?

Assim como ele tem essa gama de, essa variação e essa diversidade de experiências, eu não acho que tá claro ainda o que que ele quer fazer, né? Até para essa geração eu não acho que tá muito claro, a não ser que eles tenham uma convicção muito definida, muito fechada. Confuso, viu, cara? Até para que as profissões estão mudando, né? Então eu acho que é o momento ainda de incerteza, mas o meu esforço tem sido sempre estimular ele em tudo que ele tem interesse.

MBMichel Bogli

Acho que é o melhor caminho, que eu acho que é o papel que a gente tem que fazer, né? Exatamente, não é forçar e nem ficar muito direcionando para alguma coisa. A gente vive, você vive fotografando e viajando, e ele pode se inspirar e pode querer seguir o caminho, como ele pode talvez achar que não é isso para ele, né?

IAIgnácio Aronovich

Porque a gente vai mudando com o tempo, faz parte assim.

MBMichel Bogli

Mas é muito legal, cara. Você nunca fotografou casamento, bar mitzvah, festa de debutante assim, sabe? Você teve que falar, porra, precisando de grana, pintou essa oportunidade. Mesmo que se for, mesmo que fosse um trabalho mais autoral, artístico, Você fotografou o meu casamento, foi isso?

IAIgnácio Aronovich

Eu acho que não, eu fotografei o teu não, acho que não.

MBMichel Bogli

Eu lembro, mas eu já fotografei, mas eu tô lembrando, meu primeiro casamento.

IAIgnácio Aronovich

Eu presenteei amigos fotografando o casamento deles, indo com câmera também, sem querer atrapalhar a equipe, porque tem uma equipe que tá lá, você não quer entrar na frente de quem tá sendo pago para documentar aquilo. Mas já levei câmera em casamento de amigos e já ofereci como presente fotos de casamento de amigos. Tem fotos de casamentos que são registros meus. E já fiz um trabalho com mais 3 fotógrafos que estavam cobrindo um casamento que foi um presente também de um dos noivos e falaram, eu quero montar uma super equipe, não sei o quê.

A gente foi lá fotografar e assim, casamento é um momento, a gente tem poucos momentos. Você tem o nascimento das pessoas, o parto, você tem o casamento, você tem momentos que são importantes e são milestones, são marcas na vida das pessoas e casamento é um deles. Eu acho um trabalho Que é difícil porque muitos dos fotógrafos fazem repetidamente o mesmo lugar, a mesma coisa, a mesma sequência. Então é difícil você se manter empolgado com isso, né, motivado a fazer isso.

Você não tem mais final de semana nunca porque geralmente são final de semana os casamentos. É longo o trabalho e você tem que lidar muitas vezes com demandas que são, embora sejam repetidas, a todos os parentes, as fotos todos os momentos, tudo. Então eu acho um trabalho que tem que ser muito respeitado E hoje em dia, em tempos de AI, é uma coisa que não dá muito para você fazer fake, né? Não dá para você, você tem que ter as fotos do momento verdadeiro.

Então eu acho um trabalho que é, que tem que ser muito respeitado. Eu admiro quem faz isso profissionalmente. Nunca quis fazer nada que me mantivesse no mesmo lugar fazendo a mesma coisa, porque o que me interessava era exatamente, era muito movido pela, sou muito movido pela curiosidade de ver coisas que eu nunca vi antes, né? A ideia de usar fotografia como uma uma justificativa para estar em lugares onde eu nunca estive e ter acesso a coisas, e um acesso privilegiado a coisas e lugares e acontecimentos que me proporcionam uma vida mais rica, né?

Não uma vida mais rica financeiramente, mas uma vida mais rica em experiências, que eu acho que são as coisas mais valiosas que a gente tem, né?

MBMichel Bogli

Dá para dizer, seguindo aí essa linha que você acabou de falar, que o fotógrafo, o fotógrafo profissional, ou mesmo o de amador que consegue exercer bem esse hobby, ele tem um olhar talvez mais, mais atento, mais, mais sagaz para o que tá acontecendo, principalmente depois de algum tempo, alguns anos, no teu caso décadas, que você vive fotografando. Você consegue captar assim às vezes coisas que talvez eu não capte. A gente vai no mesmo lugar, né, na mesma, no mesmo carro, no mesmo barco, na mesma bike, eu não vejo da maneira que você vê.

Porque você já tem um olho treinado para isso, dá para dizer isso, ou não é regra?

IAIgnácio Aronovich

Eu acho que não é regra porque depende do fotógrafo. Na minha fotografia eu busco muito a fotografia de momentos que eu considero momentos humanos universais, que são coisas de verdade que estão acontecendo. Se você vai num show, você vai num evento esportivo, você tem um momento de peak action, você tem um momento que é o auge. Num show pode ser o cara levantando a mão, vibrando, pode ser o momento de vibração de um atleta completando a prova.

Mas eu acho que muitas vezes a história e os momentos mais significativos estão naqueles momentos que estão entre essas coisas. E são os momentos que aí cabe o que você tá falando. Eu acho que algumas coisas ajudam. Por exemplo, você conhecer o esporte ou praticar o esporte te dá uma compreensão daquilo que te permite antecipar o que vai acontecer. Você vê na linguagem corporal que o atleta tá entrando torto numa curva, você sabe que o cara vai cair, você conhece o obstáculo.

Eu lembro de ter que fazer uma capa de Mundial de Ironman, Mundial de Triatlon na Nova Zelândia. E pô, no triatlon o cara tá com a cabeça para baixo assim, uma posição aérea. Como é que você, uma capa de revista, você tem que ter o rosto da pessoa. E se ele tá de cabeça baixa pedalando, sei lá, no reto, aonde que você vai fazer uma foto que o cara vai levantar na bike? Então eu lembro de fazer o reconhecimento do percurso, achar um lugar que tinha um bump numa ponte, que eu falei, aqui o cara vai ter que levantar na bike, ele vai ficar em pé na bike.

É uma coisa que quem pedala sabe, porque você não vai passar ali de cabeça baixa, porque você pode cair. Você quer estar numa posição segurando mais firme. Então eu, no dia da prova, eu tinha que fazer o Leandro Macedo. Aí saí, esperei o cara sair da natação. Tinha lá, sei lá, 2.000 atletas. Então é tipo, né, agulha no palheiro. Você tem que achar, todo mundo saindo com o mesmo, com a mesma roupa, de touca, inchado, todo mundo igual.

Aí você espera, aí acha o cara. Aí eu tinha um piloto de moto, ia de moto até o lugar. Passava o ciclista que eu queria, câmera com foco manual, não tinha autofoco, com slide, com uma, né, com uma tolerância ao erro de meio ponto para cima, a foto tá lavada, tá super exposta. Você não tem meio ponto para baixo, tá escura. Uma foto vertical com fundo limpo, com uma 300mm f/2.8, que o foco é uma lâmina fininha, que assim, o nariz do cara tá nítido, olho já não tá, em f/2.8 nessa abertura que tinha.

E como que a gente fazia uma foto dessas? Aí eu fazia a foto no chão. Eu esperava o cara entrar ali naquela área, sentava o dedo com uma câmera que fazia 4 fotos por segundo, que hoje o iPhone faz 20 por segundo. E aí você só sabia se você tinha essa foto ou não 2 semanas depois no Brasil, quando revelava o filme. Então, beleza, fiz essa aqui para garantir. A câmera tinha 36 cliques, então, né, faz as fotos rapidinho, já troca o filme, sobe de novo na moto e corre atrás para pegar o cara de novo e fazer mais um filme inteiro do cara de foto vertical em situações diferentes para ter opções.

Que não tinha só a foto da capa, tinha foto dentro também para abertura da matéria.

MBMichel Bogli

Aquela foto que você acha que é a foto ideal, se ela ficou boa, né?

IAIgnácio Aronovich

Tá cheio de histórias assim de— eu brinco que a mesa de luz, né, que tinha iluminado onde a gente viu os slides e viu os negativos no laboratório, era o lugar de muitas surpresas, muitas alegrias e muitas tristezas. Porque se eu olhar depois o filme revelado e falar, nossa, que legal, deu certo! Eu tenho uma foto, eu tenho uma história de estar fazendo um cara saltando de snowboard de um helicóptero e eu tava com duas câmeras, uma câmera mecânica manual e uma câmera que fazia 5 fotos por segundo.

Essa que tinha o motor drive congelou porque eu não tinha bateria de lítio ainda, eu tinha alcalinas. Então eu desci do helicóptero, a câmera congelou, eu tirei a tele da câmera que era eletrônica e pus na câmera manual. A câmera manual era um clique, uma alavanca para avançar até o próximo frame, foco manual. Então não tinha rádio, o cara ia saltar do helicóptero de snowboard As câmeras com espelho, né, que são as SLRs na época do filme, DSLRs depois na digital, o espelho sobe na hora que você faz o clique.

Então se você vê a foto, você não tem, né? Se você clicou, você não pode ver o monte. É isso. Então hoje em dia são as câmeras sem espelho, você vê a imagem, você não tem esse blackout do espelho. Então o cara saltou do helicóptero sem avisar, eu fiz um clique, eu só soube que eu tinha a foto 2 semanas depois no laboratório em São Paulo. Vendo na mesa de luz. E assim, helicóptero no sol, o fundo na sombra, neve, você tá fotometrando com uma câmera tudo manual e foco manual e um clique.

Só tem, não tem antes, não tem depois, porque não dá tempo. O cara saltou do helicóptero, tem um clique. E esse clique foi abertura da matéria. Então rolou essa foto. Então era uma foto que eu usava depois para ilustrar tudo, para contar essa história de que fazia diferença você saber o que você tava. Antigamente existia um craft, existia uma coisa mais artesanal da fotografia. Muito do— eu cobri essas provas e eu fotografei você em inúmeras competições esportivas, porque naquela época era um destaque você conseguir fazer foco manual com esporte.

O cara tá vindo em alta velocidade na tua direção, como é que você faz? Hoje em dia todas as câmeras contam foco com detecção de rosto, né, com olho, com tudo. Você tem um menu com o IA que você tem detecção de pássaro, de veículo, de carro, de rosto. Né, 3D, tudo. Então a parte técnica ela virou secundária. Então voltando para tua pergunta original, hoje em dia é muito mais valioso isso, o poder da observação e de você poder ter um olhar diferenciado, você poder enxergar, antecipar o que vai acontecer, se posicionar bem, saber enxergar a luz.

Porque o resto, a parte que era técnica, né, de foco manual, de exposição, de fotometria, de saber. Hoje em dia você tem tratamento de imagem para qualquer foto, você faz em RAW, você pode mexer na imagem depois, mudar o balanço de branco, um monte de coisa. Naquela época, escolher a película certa, que filme, que emoção você ia usar, já era uma coisa que era determinante, porque você colocava aquele filme ali, a qualidade da foto já começa, quer dizer, já começa, começava no seu olhar e na regulagem da câmera, mas ainda tinha esse processo pós, né?

É, quando a gente fez a RAM, primeiro ano eu fiz lá slide colorido, fiz preto e branco. Segundo ano eu falei, eu já fiz a RAM, então o que eu vou fazer agora? Eu tenho esses slides Então aí eu fui fazer, falei, eu vou fazer infravermelho. Pior ainda, só foi arrumar confusão para mim, porque infravermelho, o foco do infravermelho é diferente do foco manual e tem um anel na objetiva. Então você faz o foco para a luz e aí você muda para o IR e você não sabe como medir, você não tem como medir quanto tem de radiação infravermelho.

Então pode ser que as fotos saiam lavadas, pode ser que saiam escuras, você tem que usar um filtro, você tem que carregar e descarregar a câmera no escuro. Então foi arrumar confusão para mim, mas foi super legal porque eu fiz imagens com resultado visual que eram muito diferentes do que eu tinha feito antes. Então foi uma forma de não repetir, né? E ainda peguei e fiz outro filme que era slide preto e branco, né? E fiz o básico para cobrir, porque se desse tudo errado eu tinha o material básico.

MBMichel Bogli

Eu lembro você na van com um casaco, né, que parece que você queria mudar de filme, eu não sei o que que você fazia, que você se isolava, né, do no escurinho ali do casaco e tal para fazer a transição de filme. Eu não lembro agora que eu tô, que eu tô recordando dessa cena. Tem algum dia que você não fotografa nada? Porque você vê, a gente já sentou aqui, você já sacou, mas você não sacou o teu celular. Eu nem vi que celular que você tem, mas deve ser um celular com uma câmera boa.

Mas você já sacou uma câmera top aí que o Gabriel até se emocionou, e você fez uma foto minha, né, um retrato, eu acho, né? Tem algum dia que você não fotografa?

IAIgnácio Aronovich

Tem, tem.

MBMichel Bogli

Eu assim, nem com celular, você tá em algum lugar, de repente você tira uma foto do Uber, do táxi, da bike.

IAIgnácio Aronovich

O celular e a fotografia mudaram a forma que a gente enxerga a fotografia, no sentido de que a foto que antigamente era uma coisa materializada, que era um tesouro, olha só, tem uma caixa, tava no álbum aqui, olha essa foto materializada, ela tinha um valor diferente. Hoje em dia você tá numa fila e alguém te manda mensagem, fala, ah, tá cheio aí, você tira uma foto com o celular e manda a foto para mostrar a fila, você não responde, você mostra como tá a fila.

Então isso é o poder da fotografia, da imagem usada como uma forma de comunicação. Então mudou, desvalorizou nesse sentido, porque a imagem não é mais uma coisa você guardar como uma coisa valiosa, é uma coisa que é usada como uma moeda corrente o tempo todo, de uma forma de se comunicar. Mas eu gosto de fotografar sempre, mas nem sempre eu tô com uma câmera, eu tô sempre com o celular. E hoje em dia os celulares são capazes de fazer Boas fotos.

Eu não gosto da interface do celular, eu gosto de botão, eu gosto de lente, eu gosto de ótica, eu gosto de um monte de coisas que uma câmera— então o celular nunca me satisfaz, mas eu uso como um bloco de anotações. Eu já fiz foto, já publiquei foto do celular. Celular, às vezes eu fiz vídeo para instituto de pesquisa com celular filmando em lugares de pontos de venda que eles queriam mostrar hábitos de consumo de pessoas em lugares que você não pode, você teria que pegar autorização.

Você tira uma câmera, na hora vai vir o segurança, vai vir alguém te perguntar por que que você tá fazendo. E com celular é uma coisa totalmente corriqueira, a pessoa te aborda e fala: não, tô fazendo foto para minha esposa escolher que produto que ela quer. Você tá lá dentro do ponto de venda, ninguém vai te encher o saco, né? Então o celular, ele, ele te permite isso.

MBMichel Bogli

Você faz?

IAIgnácio Aronovich

Faço, faço.

MBMichel Bogli

Você tá em algum lugar, você tira uma foto assim, tipo: ah, vou tirar uma foto aqui da creatina aqui só para lembrar depois de olhar no site.

IAIgnácio Aronovich

Eu uso como bloco de anotações. Um bloco de anúncios.

MBMichel Bogli

Você não acha isso um sacrilégio, já que você tem uma relação, enfim?

IAIgnácio Aronovich

Não, pelo contrário, isso eu uso como todo mundo usa. Claro, você tá fazendo comparação de preço, você faz a foto numa gôndola e você vai em outro lugar para ver se o preço tá melhor.

MBMichel Bogli

É mais fácil do que anotar, né?

IAIgnácio Aronovich

Mais fácil do que anotar. Então assim, a câmera ela tá disponível para todo mundo hoje, é um recurso super útil, né? Todo mundo usa a câmera do celular para documentar alguma coisa, para fotografar alguma coisa. Ela virou um instrumento de denúncia, né? Quantas coisas de violência policial que a gente vê, de abuso de autoridade, de um monte de coisa, para você se defender de uma, sei lá, de uma, de qualquer coisa. O celular, ele é uma arma, né? Às vezes você tá sendo mal atendido no lugar, você quer—

MBMichel Bogli

é, quantas denúncias aí a gente vê. Não vou falar nem de, mas coisas policiais e tal, né? As pessoas filmam os outros, né, para tipo, olha, isso aqui é a prova cabal de que um agrediu o outro, de que houve uma batida, de que, né, um xingou, um arrancou o cabelo do outro.

IAIgnácio Aronovich

Exatamente. Em muitos lugares o celular é o que muda. Às vezes muda as versões, né? As pessoas, você tem um caso de abuso de autoridade ou de violência policial, alguma coisa assim, de repente aparece imagem de celular que mostra uma outra versão completamente diferente da oficial.

MBMichel Bogli

E já que o nosso assunto aqui vai ser prioritariamente o esporte, a cobertura esportiva através das redes sociais também mudou bastante, né? Eu queria, eu quero abordar aqui Aliás, deixa eu anotar aqui, senão eu vou esquecer. Não vou fotografar, vou falar aqui do Spielberg. Mas a gente vê hoje no Instagram, e eu vi uns jornalistas comentando isso anteontem, ouvi jornalistas especializados em ciclismo com muita experiência falando exatamente isso, né, assim, desse desafio de você ser jornalista hoje, porque se você faz um um podcast, eu apresento um programa na televisão que seja diário, muitas vezes a notícia já ficou datada, né?

Porque à noite, quando aconteceu o gol da seleção, ou que aconteceu, sei lá, o resultado do Iron Man, na hora que o jornalista vai dar essa notícia, ela já aconteceu ontem à noite, entre aspas. Muita gente já viu, quem é interessado já viu aquilo no seu Instagram, no seu Facebook e tal. Mas a gente, eu que sigo, né, os convidados do Endorfina e muitas coisas relacionadas a esporte, o meu Instagram é isso, meu algoritmo é isso, a gente vê imagens de pessoas que estavam na prova, naquele evento, filmando, que para aquele consumo de 10 segundos, né, eu acho que sacia e conta uma história, às vezes maior, às vezes menor, às vezes mais legal, às vezes não tão interessante, mas assim ficou muito mais o fotojornalismo esportivo, ele ficou muito mais dinâmico, né?

Então, na hora de você fotografar hoje um evento, e vamos falar do esporte, mas pode ser de grafite, pode ser de música, pode ser de dança, pode ser o que quer, um show, ficou muito mais, a concorrência ficou muito mais acirrada, né?

IAIgnácio Aronovich

Ficou. E hoje em dia você tem, dependendo da prova, você tem o próprio atleta fazendo, mostrando os bastidores de uma coisa que o jornalismo nem alcança.

MBMichel Bogli

Exatamente.

IAIgnácio Aronovich

Então isso é legal, você tem os bastidores, você tem a preparação, você tem um atleta que tá lá entrando em campo, você tá, alguém que tá antes da prova falando a emoção de estar ali, tudo. Então hoje em dia o fato de todo mundo poder documentar te deu um olhar muito mais plural, né, uma diversidade de olhares e essa multiplicação de olhares que é muito boa. A gente tem um excesso de imagem também, então tem uma fadiga.

MBMichel Bogli

Meu Deus do céu!

IAIgnácio Aronovich

E eu acho que assim, a entrega real-time ela virou uma demanda que é permanente. Eu faço eu fiz festival de música agora, na segunda música eles já estão publicando foto minha em rede social. Então é bom por um lado, porque quem não tá no show e tá, né, falando, poxa, eu queria estar lá, tá vendo o que tá rolando. Para mim é péssimo no sentido de que eu tô deixando de fotografar para transmitir, né, mesmo que eu esteja transmitindo rápido.

Então eu tô perdendo coisas que estão acontecendo para mandar naquele momento. E a imagem é muito diferente se editar no monitor grande depois, com tempo, e poder analisar, escolher e tratar um pouquinho do que você pegar e mandar da câmera para o celular e do celular direto para rede social, né, para quem tá publicando.

MBMichel Bogli

Para você e para quem consome, porque muitas vezes você, você e quem que tá consumindo até perde algum detalhe da foto, né, tipo não é apreciar uma foto, né. Eu tava agora vendo as fotos do nosso livro, cara, é legal, você olha, né, isso, olha aquilo, você não tá olhando só o objetivo da foto, objeto da foto, você olha mudou, né?

IAIgnácio Aronovich

É isso, acho que vale para tudo. A cobertura em streaming, tempo real, tudo isso ela é muito boa, mas quando você tem uma pessoa que entende de conteúdo, que entende de roteiro, e depois pega uma Cape Epic ou pega uma Race Across America ou pega uma corrida de aventura e monta um mini doc ou um doc sobre essa prova, você tem uma abrangência de cobertura, você tem uma história, você tem um arco dramático, você tem um monte de coisa que é muito mais rico.

E hoje em dia perde muito isso, né? Por um lado, eu lembro de ser adolescente e ler revista de surf, eu pegava onda também, e falar: nossa, olha só, 3 meses depois na Fluir as fotos do inverno na Havaiana, das ondas grandes. E agora, né, ver streaming e ver o cara acabou de pegar onda e o cara tá sendo entrevistado dentro d'água, né? O cara acabou de pegar onda na bateria, o cara tá lá com microfone dentro d'água e fala: e aí, não sei o quê, no meio da bateria.

Então, e você vê em streaming em tempo real lá o cara na Havaí. Então isso deixa muito claro o salto tecnológico, a evolução que a gente tem da cobertura. Eu acho incrível poder ter acesso e ver tudo isso. Eu gosto de ver uma coisa que tem uma fotografia mais elaborada, mais caprichada e tudo isso, e no streaming ou no tempo real nem sempre você consegue ter esse nível de excelência. Eu acho que a gente tem essa ansiedade, essa coisa atual da tecnologia de ter tudo em tempo real, mas só para dar um exemplo, eu terminei de cobrir um festival de música agora E eu fui na produtora do festival e levei impressões 40 por 60 centímetros impressas, as fotos.

E a reação com uma foto materializada, com print, que você vê o detalhe, tudo. Imagina que hoje em dia a maioria do que é produzido pelos fotógrafos e pelas pessoas que estão cobrindo é visto numa tela de um celular. Isso não é um formato, é um desperdício. Você quer da época das revistas, né, da mesma época do mercado editorial, você já tinha uma página dupla. Quantas vezes você via uma foto sua estava na abertura da matéria, uma foto página inteira, você fala: nossa, olha que legal, dá para ver muita coisa.

E numa tela de celular não faz jus à qualidade de imagem, à luz que a gente tá registrando, à composição, a tudo isso, né? Então o material é muito subaproveitado, né?

MBMichel Bogli

E a qualidade é altíssima, né, por causa dos 1000K que tem, os milhões de pixels, né? Mas a gente realmente, eu acho que raríssimas vezes as pessoas consomem, tipo, eu vou pôr agora à tarde na minha televisão de casa, eu vou chamar os amigos, vamos ficar vendo as fotos do Aero Mental, por exemplo, né? Acho que não rola isso.

IAIgnácio Aronovich

Acho que não rola. Acho que as pessoas perderam o hábito de imprimir as fotos há muito tempo. Então perderam, as pessoas não vão ter isso. Elas trocam de celular, aí não tem mais as fotos. O arquivo visual da pessoa é o feed dela no Instagram, na rede social. Aí se um dia ela perde a conta ou acontece alguma coisa, quem é dono dessas imagens não é quem tá publicando. Então em algum momento a gente pode ter uma mudança de plataforma e todo mundo migra do Instagram para plataforma seguinte, todo aquele arquivo cadê?

MBMichel Bogli

Cara, eu já perdi uma vez acesso, né? Eu caí num golpezinho bem bolha e eu caí que nem um pamonha num golpe, perdi a minha conta do Endorfina. As fotos não são minhas, são dos convidados, mas cara, eram, sei lá, 7 anos de trabalho.

IAIgnácio Aronovich

Eu falo, meu, é teu histórico, é o meu histórico, né?

MBMichel Bogli

Eu falei, cara, me deu uma sensação, mas tão ruim ruim, mas tão ruim que eu não consigo guardar todas as fotos de todos os convidados, porque também não faz muito sentido no contexto. Mas no perfil do Instagram do Endorfina é tudo, né? Mas, cara, mas me deu uma sensação tão esquisita, cara. Mas você vê, os arquivos de áudio e vídeo que eu tenho de todos os quase 500 episódios, eu tenho salvos em HD.

IAIgnácio Aronovich

Muito bom.

MBMichel Bogli

E tem 2 HDs, porque se um não der leitura, o outro provavelmente vai dar, né? Eu vi isso uma vez, fui na casa da Renata Falzone, cara, ela tem um, acho que entope essa sala aqui de HD, ainda mais em vídeo, né, que ocupa mais. E eu perguntei, cara, por que que você tem tanto HD? Ela falou, cara, são 2 HDs de cada um, é repetido, porque se um dá errado, o outro tem, se um dá errado, o outro tem. Então assim, é verdade isso que a gente tem com a foto hoje em dia.

Eu imprimo bastante, para ser bem sincero, que bom, né? Mas É uma coisa, ao mesmo tempo ficou muito prático, mas ao mesmo tempo ficou muito mais superficial, né? Agora as pessoas estão comprando foto, cara, porque assim, eu tô impressionado a quantidade de fotógrafos que tem na ciclovia. Não sei se você vai de vez em quando para ciclovia aqui, a nossa ciclovia aqui do Rio Pinheiros, na USP. E eu fazia anos que eu não ia para Romeiros, que é onde o pessoal treina, né?

Eu fui semana retrasada, cara, uma quantidade de fotógrafos da Fotopia, sei lá que marca que lá fotografando no meio do nada. Na USP eles levam uns holofotezinhos porque de madrugada agora tá escuro. E me disseram, cara, que o negócio vira, as pessoas compram foto. Meus amigos me mandam fotos eu pedalando com eles, eles compraram. Eu não sei nem quanto é que custa. Então assim, mas aí a pessoa posta e acabou, né, cara? Assim, acho que a pessoa não volta para olhar aquele momento que tava pedalando com um amigo, com a namorada, ou que tava, né, na corrida XPTO. Eu acho que muito menos imprimir, né?

IAIgnácio Aronovich

É, eu acho que assim, eu vejo com bons olhos essa ideia de que tem mais pessoas fotografando, porque ao invés de ter uma selfie, de ter uma coisa, ou de estar na ciclovia e tá tirando no celular—

MBMichel Bogli

Você faz selfie?

IAIgnácio Aronovich

Eu sou da época do autorretrato, né? A gente não chamava de selfie, né? Então assim, eu tenho fotos minhas que eu fiz com self-timer, com a câmera, tudo antigas.

MBMichel Bogli

Não, mas a selfie mesmo, aquela que você tem que ficar só na distância do braço, muito difícil, cara. Eu acho que eu tenho 10 selfies até hoje, porque aparece, né, também no celular, né? Tem lá, você pode ir nas selfies.

IAIgnácio Aronovich

É, não é muito, eu não sei nem tirar selfie direito, cara. É, não é uma coisa que eu faço também assim. Então, mas eu entendo que assim, eu vejo gente reclamando que a câmera frontal deveria ser melhor porque elas só fazem selfie, né?

MBMichel Bogli

Então desses iPhones top do Samsung top, a câmera parece que agora é igual de traje.

IAIgnácio Aronovich

O último modelo agora você não precisa mais virar a câmera para fazer horizontal, porque você segura ele na vertical e o iPhone atual faz horizontal para caber todo mundo, para aquelas selfies de grupo. Então essa é a inovação do último modelo, né? Então assim, não é muito minha praia, mas eu acho que toda essa cena tem uma motivação de ego aí, porque hoje em dia muito da rede social é a pessoa criar uma versão idealizada dela mesma.

Então ela treina, ela vai lá, é um personagem de você mesmo. E mostra uma versão que não tá lá lavando louça, não tá pendurando roupa no varal, ela tá viajando, ela tá no lugar bacana, tá mostrando que ela tá comendo, tá mostrando a performance dela, mostrando que ela treinou. Então assim, é uma projeção, né, uma forma de você mostrar sua melhor versão. E você ter fotógrafos profissionais oferecendo esse conteúdo para elas é bem-vindo, né, é bom que existe isso.

Ao mesmo tempo também virou um nicho que atraiu muita gente que não é da fotografia e vai lá e faz faz 3 mil fotos. Eu olho às vezes as fotos, pessoas estão postando e falo, nossa, essa foto não sei quanto pagaram, mas não vale muito, porque às vezes a foto tá ruim, né? Aconteceu, nunca tinha pensado nessa ótica, porque eu acho que virou meio uma espécie de Uber da fotografia também, onde muita gente por oportunismo vai lá e fala, como é que eu vou fazer?

Ah, vou ficar fazendo todos os treinos, não sei o quê. E assim, quem é fotógrafo e é mais old school e tem um cuidado com o que que tá no fundo, não é só o sujeito da foto, foto, tem o fundo atrás, você tem o momento certo. Na corrida você conhece muito bem, você tem o momento da pisada que é mais estético, que fica melhor ou não fica melhor. Você tem um momento que você tá no ar, você tem um momento que você tá— então tem expressão, tem tudo isso.

E o cara fazer 3.000 fotos e jogar 3.000 fotos para pessoa escolher ali por reconhecimento facial e comprar, falta um filtro aí, eu acho, de qualidade versus quantidade. Então, mas eu acho que é ótimo que exista isso. E agora tá Tá rolando tudo meditando com IA e já faz a pré-seleção das imagens, as fotos com olho fechado e a IA já descarta tudo isso. E também é uma coisa que eu também não quero usar ainda, porque às vezes uma foto de olho fechado é um momento de verdade, a pessoa fechou o olho por algum motivo.

Eu não quero descartar essa imagem, não quero que um algoritmo decida para mim se essa imagem é boa ou não, eu prefiro olhar.

MBMichel Bogli

Eu quero voltar, né, a gente vai voltar aí no assunto dos esportes, eu quero ouvir tuas histórias. Aliás, antes da gente seguir, eu ouvi ontem um podcast de um cara entrevistando um roteirista. Acho que é roteirista, screenwriter é roteirista, né? Um roteirista que trabalha com Spielberg, trabalhou com Brian De Palma, trabalhou com Coppola. Um cara, não lembro o nome dele, americano. E era sobre o novo filme que o Spielberg fez agora, que acho que é o Como é que é o nome?

O dia, o dia daqueles, chama Disclosure Day, que eles vão informar que tem alienígenas, alguma coisa assim, pelo que eu entendi, né? E o roteirista fala, ele explica primeiro o que que ele faz, né? Ele não, ele faz os diálogos. Eu não sabia disso. Ele é o cara que escreve. O Spielberg, ele fez o plot lá assim, olha, eu quero uma história que conte isso, nananana. Aí o roteirista desenvolve, transforma num livro, né? Só que o roteirista também pensa nas cenas.

Eu não sabia disso. E depois vai para o diretor de fotografia, né? Tem um processo enorme. Mas ele contou uma coisa muito legal, cara, que me veio à mente agora coincidentemente. Não sabia nem que a gente ia tocar nesse assunto aqui, mas que ele teve uma ocasião, acho que o Brian De Palma pegou o roteiro dele em cima da história do Brian De Palma para algum filme e falou assim, cara, eu adorei e tal. É o seguinte, essas primeiras 15 páginas você consegue transformar em uma cena?

O cara falou, olha, vai ser bem difícil. Aí o Brian da Palma falou, mas você vai fazer, você vai tentar, né, de um jeito bacana. E no resumo ele diz o seguinte, cara, uma imagem fala muito mais do que mil palavras, que é aquilo que a gente ouve aí, que é um bordão verdadeiro, né. Então pensando nessa, nesse teu ofício e pensando nisso tudo que você falou, me veio à mente isso, cara, como uma foto, se você observar ali, for uma foto de qualidade ela vai ter muito mais conteúdo do que aquilo de ficar fazendo scroll, que você olha e vai embora e acabou, né?

IAIgnácio Aronovich

Eu acho que hoje em dia, com tanta disputa de atenção, onde o período de atenção das pessoas é tão curto e o scroll para cima é uma questão de microsegundos, a pessoa bate o olho e não vai nem parar. Para você ter alguma imagem que faz a pessoa parar e observar aquilo, ela tem que se destacar das demais, ela tem que ser uma imagem diferente. E eu acho que assim, mais do que nunca nesse tsunami de imagens que a gente vive, você conseguir contar uma história através de uma imagem tem muito mais valor, né?

Então você vai num evento que você tem milhares de coisas acontecendo ao mesmo tempo, como que você sintetiza? Como que você resume aquela história? Qual que é a imagem que define o que aconteceu ali e consegue capturar? Eu acho que muitas vezes o desafio, né, uma frase do David Alan Harvey, né, que é um fotógrafo que eu conheci, e que enfim tem, que ele fala sobre fotografar what it feels like, o que você sente ao estar lá, e não what it looks like.

Quer dizer, você não é um mero scanner humano que tá lá digitalizando, fotografando, como a gente tem hoje câmeras robotizadas automáticas e um monte de coisa para capturar coisas. Então você tá lá com o desafio de tentar capturar a sensação de estar lá e de alguma forma você conseguir condensar toda aquela gama de experiências em um momento único, né? E eu acho que esse é o desafio. Isso é uma coisa que é permanente, que a gente busca em toda captação, que é tentar com um número reduzido de imagens tentar capturar o máximo possível qual que é a essência daquilo, qual é a sensação, qual que é a emoção.

Por isso que eu falo que a busca pelas imagens nem sempre ela tá no momento climático daquilo, ela pode estar no momento antes ou depois Ela pode estar às margens do que tá acontecendo. Então assim, eu tenho uma outra coisa que é quando eu vejo dezenas de fotógrafos em volta de um sujeito, eu quero ir na direção oposta, porque eu não quero fazer o que tá todo mundo fazendo. Eu quero ver de um outro lugar, quero me posicionar de uma forma que quando quem tá sendo fotografado sai desse bolo de fotógrafos, essa pessoa vai abaixar a guarda porque ela não tá mais posando.

E aí você tem uma foto diferente. Então tem um monte de coisa que pode acontecer que você pode buscar uma imagem que seja coisa singular, porque ser mais um no meio de todo mundo não é uma coisa que me interessa, né, cara?

MBMichel Bogli

Você acabou de me dar um reforço muito positivo, porque interessante essa tua ótica, né? Assim, e aí a gente vê isso, né? O time fez o gol, o jogador fez o gol, o time ganhou, ou ciclista cruzou a linha de chegada, o cara do triatlon, triatleta ganhou lá o Ironman, cara, você vê lá os fotógrafos em cima da pessoa mesmo. E é isso, acaba sendo várias versões do mesmo, vários ângulos da mesma, da mesma imagem, da mesma sensação. E talvez você esteja perdendo alguma coisa por estar ali naquele assim tão próximo daquilo.

IAIgnácio Aronovich

E a presença das câmeras transforma aquele momento em algo também performático.

MBMichel Bogli

Claro, cara, não é, é, eu penso muitas vezes nisso, cara, assim, eu penso muitas vezes nisso. Mas você vê, né, cara, assim, muitas das pessoas que eu trago aqui no Endorfina E eu lembro muito bem nitidamente, por exemplo, da Aretha Duarte. Ela escalou o Everest, ela tava com o Doro, né, com as EDL e tal. Eu falei, Doro, eu quero, né, eu já tinha gravado com ela antes, a Rosita me introduziu e tal. E eu falei, agora eu quero gravar com ela, subiu o Everest, eu queria gravar com ela, né.

Quer dizer, eu falei primeiro com ela, ela falou, agora eu tô com as EDL, ela ficou famosa e tal. Eu falei, ai, que bom, Aretha, parabéns, tal, vou falar com o Doro. Aí falei com o Doro, Aí ela falou, cara, só que agora a agenda dela tá concorrida. Eu falei, não, eu quero para daqui a 6 meses, eu não quero agora, porque agora ela vai dizer todas as respostas vão ser as mesmas.

IAIgnácio Aronovich

Sim.

MBMichel Bogli

E ela ainda não assimilou o golpe, né, o fato. Então assim, eu queria esperar uns 3, 4, 6 meses porque vai ser diferente.

IAIgnácio Aronovich

Exatamente.

MBMichel Bogli

Aquele calor do momento, talvez ela vai lembrar de coisas que ela no momento não lembrava, ela vai ter refletido sobre o que que ela fez, a grandiosidade, né. E eu fiz isso com muitos convidados, cara. Eu espero passar um pouco esse hit, que aí também todo mundo quer chamar para gravar, para conversar. O cara já fez mil vídeos ele mesmo no Instagram dele. E eu espero passar alguma coisa quando já tá esfriando, talvez ele já não é mais a bola do momento.

Falo, cara, agora eu quero ver para que ela mesma reflita sobre o que aconteceu com ela, ou qual foram as transformações depois daquele feito máximo que ela teve, né?

IAIgnácio Aronovich

Então, sabedoria diferente em retrospecto, né?

MBMichel Bogli

Uma muda muito, cara. Assim, da mesma maneira que a gente olha para trás, eu tava vendo aqui o nosso livro aqui, cara, e lembrando, mas é até umas fotos agora para o Pedro do Seco, principalmente que ele adora o Seco e tal. É diferente, né, a gente olhar, e a gente olhar esse livro um dia que saiu. O dia que saiu a gente tava felizão, tava lá no lança, foi no Mr. Fish, né?

IAIgnácio Aronovich

E tem a coisa dos usos e costumes, porque hoje você pode olhar com outros olhos também. Você vê que mudou a tecnologia, as mudaram, né?

MBMichel Bogli

É uma história, muda, muda, né? E é super legal a gente poder viver isso assim. Uma das coisas que eu tô curtindo de ter 56, 57 anos é isso, cara, assim, a gente poder olhar para trás e ver que, cara, a gente viveu, né, uma outra— no caso do esporte, na minha relação com esporte, eu tava vendo aqui a bike, o Polar que eu usava nessa época, os momentos, cara, enfim.

IAIgnácio Aronovich

E a evolução também, porque agora você tem tanta tecnologia, você tem a métrica, você tem a gamificação de tudo com Strava, com Garmin, com um monte de coisa, as tem a métrica de tudo, de saber a potência, de saber tudo que eles estão fazendo. E antes era uma coisa muito mais empírica, né?

MBMichel Bogli

Quase que totalmente a gente não sabia, né, que era, mas era total perto do que é hoje, né? Eu só fico imaginando como é que vai ser daqui a 10 anos, o que que vai mudar para o Yuri quando ele tiver 25, né?

IAIgnácio Aronovich

Assim, para ele já, se ele sair para pedalar e não tá o Strava rolando, para ele já tipo não vale, não vale, não treinou.

MBMichel Bogli

Eu ouço relatos de pessoas, inclusive algumas que tiveram aqui, que no meio da prova o Garmin apagou porque acaba a bateria em algum momento, dá um bug, não, né? É uma excelente marca, mas acaba, né, cara? A pessoa fica descompensada, a pessoa fica descompensada, cara, assim. E pensar que, meu, a gente não tinha nada disso, e os, pelo menos do triatlon, né, os grandes campeões ganharam e reinaram sem nada disso. Mas é difícil a gente imaginar hoje você não querer usar isso, não poder usar isso, né?

IAIgnácio Aronovich

Porque não está à disposição. Suplementação, Iron Man com o cara comendo cheeseburger, né?

MBMichel Bogli

Agora eu quero voltar um pouco, cara, né? Você sempre praticou diversos esportes e tal, mas você, como, como para cuidar do físico, da cabeça, tua relação, por que que a bike ela é um pouco mais constante? Você se locomove de bike, você é um cara que tinha bike bike mais, né, você foi remar no Alasca, você foi fazer sandboard no Marrocos, mas a bike ela sempre teve ali, né? Assim, eu acho que não necessariamente tipo vou treinar, vou para estrada, vou para USP, mas assim, a bike para você era uma coisa.

Por que que a bike tinha essa relação especial? Foi por causa do ET também? Foi por causa do BMX?

IAIgnácio Aronovich

Antes disso, eu acho que a bike ela funciona assim como a câmera também foi um multiplicador de vidas e um passaporte para ter um acesso. A bike ela tem o poder de encolher o mundo. E ela encolhe o mundo no sentido de que você ganha autonomia para conquistar distâncias maiores. Então você vira um pequeno explorador, né? Você é um molequinho e te soltam de bike no teu bairro, de repente o lugar que tava mais longe tá mais perto, né?

E você ganha autonomia, independência para fazer suas escolhas. Hoje eu quero ir para lá, agora eu quero ir para aquele lado que eu nunca fui, vou me perder aqui. E isso sempre me fascinou, né? A ideia de explorar, de estar em novos lugares. Então a bicicleta, ela tem muito isso. E em comum, você falou bike, caiaque. Eu fiz expedições e cobri fotografando expedições, como por exemplo, eu fiz de São Paulo para La Paz, La Paz para Porto Velho de Land Rover.

Depois fiz Santarém, antes eu fiz Santarém-Cuiabá de Land Rover na época de chuvas. E eu achava que assim, o acesso era incrível, né, de estar na Transamazônica, época de chuva, chega num rio, não tem ponte, tem que construir a ponte. Com os carros atolados. Tem uma história que eu conto que é engraçada, que a gente cruzou um garimpeiro. E aí a gente tava de 14 carros off-road preparados e a gente ultrapassa o garimpeiro com as coisas dele, a gente atola.

Depois ele ultrapassa a gente caminhando, depois a gente atola. Em 3 dias vendo o mesmo cara. E outra vez também, num pueblo pequeno na Bolívia, a gente chegou e o lugar é tão pequeno que a gente bebeu toda a cerveja da cidade. É, né, levanta poeira, tudo. E eu achei aquilo de um impacto enorme, me incomodava, porque a presença de tanta gente afeta o lugar. Exato, né? E aí eu fiz de novo Bolívia de bike, né? Eu falei, não, isso aqui é um, não é, eu quero chegar mais de mansinho, mais devagar, num outro ritmo.

E a mesma coisa caiaque, caiaque a cada remada vai mudando a paisagem. Então quando eu fiz, eu fiz com a Carmen e com o Fábio Paiva, a volta da Ilha Grande. Eu queria fazer em uma semana, a gente fez em 3 dias. Foi a maior frustração, porque muito rápido, né? São 102 km, assim, centenas de, né, uma centena de praias, e eu queria fazer curtindo. Eu tava no caiaque com a Carmen, que é super campeã de canoagem, de remo, né? Então a ideia de você ter um ritmo mais humano, né?

A bike te proporciona isso, né? O ritmo que você tá chegando, ele é mais lento, e isso te dá um poder de observação maior, né? E o impacto menor ao chegar nos lugares. Tudo. Você é muito menos um Jeep que chega preparado, 4x4, cheio de adesivo, com um monte de coisa, ou um número maior de Jeeps, como foi o caso das expedições. É um pequeno exército invasor, né? Você é um— e aí você chega de bike, é diferente. As pessoas te oferecem um chá, um café, um lugar para dormir.

É outro ritmo, né? Então isso me atrai muito, né? E é uma velocidade num formato que também te obriga a escolher o que você vai levar. Então te dá um, né, uma noção diferente sobre Quando você volta de uma expedição de 20 dias no Alasca, você volta e fala: nossa, não preciso de nada material, né? Você precisa de abrigo, de comida. Então é uma forma de simplificar a vida quando você fica autossuficiente. Então esse tipo de experiência para mim é sempre muito valiosa.

MBMichel Bogli

A gente é da época do camuflaje, lembra? Desmatando, né, para passar com um monte de veículo a diesel poluindo o meio ambiente, destruindo a fauna e a flora. Mas aquilo naquele momento momento você falava, meu, aquilo deve ser o máximo.

IAIgnácio Aronovich

Eu sou muito amigo do Tito Rosenberg. O Tito Rosenberg foi no Camel Trophy da Amazônia e de Bornel. O de Bornel foi tão difícil que eles tiveram que desmontar os Land Rovers, transportar de helicóptero até outro lugar, depois montar de novo. E ele ganhou duas vezes o prêmio que para mim é o mais legal do Camel Trophy, que é o Team Spirit Award, o melhor espírito de equipe. Porque ele era o cara que eu lembro muito bem assim das histórias dele, é o cara que quando tá tudo ruim, ninguém aguenta mais, tá chovendo, não tem nada, é o cara que ainda tá dando risada, ajudando todo mundo.

Então esse é o espírito, é o melhor companheiro de expedição, de viagem que você pode ter, né?

MBMichel Bogli

Claro, sem dúvida, sem dúvida. E para você se manter saudável, para fazer tudo isso que você fez, todos os perrengues, você tem uma rotina dentro de uma vida de quem viaja muito? Você consegue assim, você tem um ritual mental quando você tá em casa, de, pô, eu preciso acordar cedo, já vou logo para academia, eu vou, sei lá, pedalar, eu vou nadar, eu vou fazer alguma coisa para você também tá em forma e aguentar os perrengues. Porque por mais que muitas vezes o condicionamento físico não seja uma coisa que tá explícita no que você já fez de expedições e tudo mais, você precisa ter uma saúde boa, você precisa ter um condicionamento físico para aguentar os perrengues que essa expedição que enfim, que essa viagem vão exigir.

IAIgnácio Aronovich

É, eu abusei durante dos 20 aos 30 anos, abusei, carreguei peso demais. Ao invés de usar mala com rodinha, usava mochila, não usava assistente, comia qualquer coisa, era irregular em treino, um monte de coisa. E com o tempo a conta chega, né, em todos os sentidos. Então hoje em dia você entende que você ir mais leve você vai mais longe, que mais leve fica menos cansado no final do dia, te dá mais agilidade. Então eu acho que tudo isso conta, você precisa ter uma saúde, né?

E eu entendo que Race Across America, corrida de aventura, a privação de sono também era uma coisa que era absurda, né? Race Across America, nessas fotos do livro, eu acho que eu dormi 10 horas, né, em 5 dias.

MBMichel Bogli

Uma coisa, Race Across America, que você não tirou a bota o tempo inteiro, a sua high-tech.

IAIgnácio Aronovich

Então eu vejo você falando isso, eu acredito.

MBMichel Bogli

Não, você me disse. Então é, eu acredito, eu não tirei o óculos e o capacete, acho que você não tinha uma bota. Eu lembro você sentado na van sem banco, de qualquer jeito lá, meu, você não se incomodava com nada, meu. Tudo para você tava, você aguentava bem, né? Como dizia o índio, você aguentava bem, você aguenta bem. Mas eu lembro que você falou, cara, eu não tirei a bota. É bem aquela tua high-techzinha lá de cano baixo.

IAIgnácio Aronovich

Nossa, aquela high-tech ela foi, usei vários anos, né? Nem existe mais, né? Mas era o que Que Deus a tenha, né? Deus a tenha. Que bom que eu não sinto saudade dela. Mas eu lembro, eu lembro de chegar em Savannah e ter feito a foto da chegada e depois ter morrido no hotel, né? Assim, eu não sei se eu dormi 17 horas, 16 horas, não sei quanto eu dormi, mas eu morri, eu desapareci. Assim, eu lembro que eu entrei num quarto de hotel e não existia até o dia seguinte. Foi um negócio intenso.

MBMichel Bogli

Quantos anos que a gente tinha aqui? Que tá escrito aqui, a gente tinha 26 anos, Inácio. Pô, metade da idade, menos da metade da idade de hoje.

IAIgnácio Aronovich

E foi, e o Race Across America, embora seja a corrida que saiu na Dearvine e terminou em Savannah, eu fiz 4 vezes costa a costa nessa cobertura, né? Porque eu fui antes da prova levar os veículos, eu não lembro, voltei com a competição, voltei para Califórnia, encontrei a Luiza, a gente foi para Dakota do Sul, fotografou um George Harrison em Sturgis. Eu lembro direitinho, chegou em Sturgis, não tinha mais dinheiro da RAM, não tinha mais passagem, era assim Ah, você quer ir de Sturgis para Nova York? $600 cada um, $1.200.

Falei, não tem condição. Então beleza, vamos de ônibus. 3 dias de ônibus. O ônibus parava, ele parava 5 minutos a cada hora para descer todo mundo do ônibus e fumar.

MBMichel Bogli

Tinha smoke breaks, e a cada 8 horas trocava de motorista. E assim, nossa, meu, os personagens desse ônibus, você foi praticamente num ônibus urbano, né? De uma cidade, de uma atravessia da Amazônia, do Sítio do Roni.

IAIgnácio Aronovich

Não era nem o clássico Greyhound, não tinha Greyhound ali, era Jackrabbit o ônibus, assim. E assim, entrava os personagens mais— a mulher profissional de ônibus que chegava e já clipava o ventilador, o balde com 50 mil nuggets, o videogame para cada um dos filhos, assim. Outro cara que lutava kung fu descia do ônibus, ficava fazendo kung fu, aquela parada. Os personagens incríveis que davam um curta assim dessa história. E depois cheguei em Nova York e ainda fazia um monte de coisa em Nova York, tava o Supla lá naquela época.

Enfim, aconteceu um monte de coisa. E depois ir para Miami e voltar para o Brasil. Então foi essa ideia sempre de aproveitar uma demanda de trabalho e esticar a viagem, fazer uma outra coisa a mais, porque era uma forma de produzir conteúdo.

MBMichel Bogli

Já que eu tô aqui, né, esse já aqui para vocês funciona muito, né?

IAIgnácio Aronovich

Funcionava muito. Então assim, alterar uma data de volta de passagem era coisa fácil. Então altera e faz mais um conteúdo, faz uma matéria a mais, faz um, né, produz Tem algum, algum, algumas curiosidades aqui.

MBMichel Bogli

Tem alguma, algum país ou algum tipo de evento, sei lá, algum trabalho que você teve que você chegou a voltar algumas vezes ou 2, 3 vezes, que é que gera sempre muito conteúdo? Tipo assim, cara, eu, ah, te chamaram para fazer um job e tal, você fala, cara, esse eu não posso negar. Porque, cara, ali sempre rende. Você falou isso do ônibus dos Estados Unidos, são suas as fotos, né, que tem um, meu, tem slides ali muito legal que você pegava das cidadezinhas, aquelas cidades do Velho Oeste.

Então eu tenho isso muito na minha cabeça, cara, preciso mexer nesses slides. Mas assim, o Race Across America, ou cenas como essa, né, além de Sturgis, mas essa entra no ônibus, tem a cazinha com 500 McNuggets. Cara, os Estados Unidos, ele tem uma coisa, não sei se é porque eu já fiz muito Racer Across America, mas assim, tem imagem assim, uma riqueza de detalhes, de coisas que, cara, parece que eu tenho impressão que é só os Estados Unidos que tem, né? Não sei se a gente encontra isso em outros lugares, né?

IAIgnácio Aronovich

Eu acho que a gente encontra isso em qualquer lugar que você conseguir observar. Eu tive o privilégio de ter um trabalho que é uma marca de calçados que eu fotografava, decidiu lançar uma uma marca de roupas. Eu consegui convencer esse cliente a falar assim: ah, beleza, essas roupas são inspiradas no Vietnã, então me paga para ir para o Vietnã e vou produzir um ensaio fotográfico para você usar como inspiração para criar coleção.

É trabalho dos sonhos, né? Porque você vai fotografar o que você quiser e depois a tua entrega é a tua visão daquele lugar. E eu fiz Vietnã lá, os Cambojas, já estiquei a viagem, fiz um monte de coisa ali. E foi muito especial porque aí você olha e você vê usos e costumes, você vê coisas do dia a dia. Você vê o uniforme escolar, uniforme do carteiro, todas essas coisas podem ser referências para quem vai fazer uma roupa. O trânsito, deslocamento, o dia a dia, a forma que as pessoas estão vivendo.

Então assim, eu acho que para o Race Across America é muito frustrante você cobrir, porque você tá focado 24 horas por dia no ciclista, e o que você vê você não vai ver de novo, e vai passar ali. Colorado passa voando. Quando você vê Utah, Arizona, é tudo muito rápido, tudo muito rápido. Então eu me esforçava em tentar fotografar o máximo possível. E o intuito da ida para levar os carros para largada era exatamente esse. Só que deu tudo errado, né?

Porque a gente chegou lá, né, tava, tava na Carolina do Norte ali, tava em rally, e a gente perdeu 3 dias do que era uma semana para atravessar Estados Unidos. Então, em vez de ter 7 dias para fazer com calma, a gente teve 4, tinha que fazer mais de 1000 km por dia, né, para não chegar atrasado e pegar todo mundo. Que a gente perdeu esses dias para montar os carros e colocar os racks para as bikes, toda a parte obrigatória que tinha de sirene, de luzes e tudo aquilo. Então isso acabou demorando mais, então a viagem acabou sendo uma maratona, né?

MBMichel Bogli

Quando que a fotografia ganhou essa relevância na tua vida assim? Teve um fato, um momento, foi essa publicação na EA Skate, foi a capa da Trip? Aliás, a Trip das Saudades, né, cara? Eu tava ouvindo o Paulo Lima gravando com o editor da Rádio Eldorado, né, no último dia da Rádio Eldorado. E uma pena também a Rádio Eldorado ter—

IAIgnácio Aronovich

eu enviei boletins para Eldorado, né, então veio do Alasca, então era o irmão do Marcelo Maciel, né, acho que trabalhava lá, né, ela era locutor.

MBMichel Bogli

Mas aí me deu uma saudade também da revista, né, cara, assim, virou digital como um todo.

IAIgnácio Aronovich

A Trip tinha uma coisa de ser uma revista que ela ela teve uma relevância importante naquela época e ela te dava espaço para publicar coisas que você não publicaria em outros lugares.

MBMichel Bogli

Exatamente.

IAIgnácio Aronovich

Então tinha interesse de assunto.

MBMichel Bogli

Muita foto publicada na Trip, muito esporte, né?

IAIgnácio Aronovich

Ficou um tempo, um monte de coisa. Fotografei dentro do Carandiru, né? Fiz matéria sobre Deus, sobre religião, visitando templos diferentes e coisas de religiões diferentes. Fiz matéria policial com a do lixeiro.

MBMichel Bogli

Você foi com a gente? Foi você?

IAIgnácio Aronovich

Não, mas eu lembro de você correndo. Achei genial, eu lembro, muito legal.

MBMichel Bogli

Achei que tinha sido você. Bom, mas deu uma saudade da revista. Agora, cara, teve algum trabalho que você não foi? Tipo, você falou, ah, cara, eu vou priorizar outra coisa e tal, e que você se arrependeu assim demais? Tipo uma viagem, uma cobertura, ou que você negou mesmo? Não, cara, esse final de semana eu não vou, essa semana eu não não faço, não quero, ou a grana não me atrai. De repente você se arrependeu porque aquilo poderia ter, pelo que você viu, pelo que você ouviu, poderia ter sido uma coisa bacana para você.

IAIgnácio Aronovich

Teve um trabalho que eu não pude pegar e que eu indiquei um amigo meu que foi, fez fotos incríveis, e eu não pude pegar porque a duração era muito longa e eu não podia estar fora de São Paulo tanto tempo que eu tinha outros compromissos. E era um trabalho com os povos intocados, com Sidney Pozzuolo, na Amazônia, com Tribos incríveis. E era uma expedição da Kodak com um barco flutuante com material para fazer diagnóstico em várias tribos diferentes, tudo.

Ele fez imagens incríveis e a expedição foi embargada por uma juíza. Caiu o avião da juíza, a juíza morreu, uma história muito louca. E essas imagens ficaram embargadas um tempão e depois ele acabou explodindo no MIS. Então assim, super legal o trabalho, a cobertura, tudo. E pela duração que acabou sendo, eu poderia ter ido porque ela foi diminuída a duração. Então é uma pena que eu não fui. Mas eu tô muito feliz que eu indiquei um amigo que fez um trabalho incrível.

Tem, ele me deu um print depois de uma foto da exposição. Eu tô feliz que rolou, mas é uma coisa que eu gostaria de ter feito. Mas eu acho que assim, não dá para ter, tem muitas coisas que eu gostaria de ter feito de cobertura no passado de competições, algumas que hoje em dia ou não acontecem mais ou não tem a mesma importância, tudo. Então eu acho que faz parte da gente poder escolher e de do acesso que a gente consegue, né?

Mesmo corridas de aventura, elas tiveram seu momento, seu auge. E depois, se você não tem veículo e não tem demanda e não tem onde publicar, fica difícil você viabilizar a tua cobertura, né? Então eu não tenho nenhum arrependimento assim. Tem inúmeras provas que eu adoraria ter feito cobertura e competições, tudo. Eu acho que o que me atrai nisso é essa coisa de poder ver de perto a superação, né? Você vê performance de alto nível, de pessoas fazendo coisas incríveis, e a gente vê como ser humano é capaz de superar adversidades e tudo isso, né?

MBMichel Bogli

Eu acho que o fato de você também ter estado, né, no comecinho do triátlon no Brasil, as primeiras corridas de aventura, você, né, ter estado no Rádio Galoás, e depois o Alexandre te chama e vamos fazer a EMA, no Race Across America você não foi em 94, né? Foi o Milton Misputin. Dentista. Ele fotografa ainda?

IAIgnácio Aronovich

Não acompanho. Eu acho que eu sigo ele no Instagram, mas ele não—

MBMichel Bogli

mas enfim, você foi na segunda participação de uma equipe brasileira, já com uma estrutura mais bacana, mais profissional e tal, e acabou gerando esse livro. Também é bacana você tá num lugar assim, tipo, que você sabe que talvez você não tenha total a noção, mas assim, você tá entrando para história daquele momento, daquele esporte, daquela modalidade no Brasil, naquele segmento, né? Isso também talvez faça você se empolgar mais com o que você tá fazendo, meio se atirando numa coisa que você não sabe. Como é que vai ser a primeira corrida de aventura do Brasil?

IAIgnácio Aronovich

Acho, eu adoro. Eu fotografei o skate para meninas, que era o primeiro campeonato de skate só para mulheres, e quem ganhou foi a Letícia Buffoni.

MBMichel Bogli

Uau!

IAIgnácio Aronovich

Então é legal ver, ela era pequenininha e dominou. Então assim, para mim, qualquer cena emergente, você pegar um esporte no começo ou pegar Porque você vê as pessoas que estão fazendo aquilo antes daquilo ter patrocínio, antes de ter grana, antes de ganhar uma dimensão maior. Então me interessa muito pegar isso porque essa coisa mais roots, essa coisa do esporte, a gente antes de ter corridas de aventura teve o mountain bike da selva, você lembra dessa prova?

MBMichel Bogli

Lembro.

IAIgnácio Aronovich

Na Bocaina, então, e que ia ter uma na Amazônia que acabou não rolando. Então assim, tudo que for a primeira vez, tudo que tá acontecendo pode ser uma roubada, e às vezes é. Eu fui plantar-te na primeira expedição da Sea Shepherd e a gente foi no navio que a gente não sabia, mas tava afundando, né? O navio que tava com—

MBMichel Bogli

ah, é?

IAIgnácio Aronovich

É, ele tava com rombo no casco e tava fazendo água. Não é que a gente tava afundando, ia morrer todo mundo, mas ele não tava. Era um navio lento, antigo, enfim, tinha uma série— a gente não tinha helicóptero, tinha uma série de limitações. Mas a partir dessa experiência, a Sea Shepherd ganhou experiência para fazer outras vezes e depois conseguiu ter êxito em mudar, né, e conseguir ter impacto real sobre a caça às baleias, tudo isso. Então é um privilégio muito grande.

MBMichel Bogli

Mas enfim, eu acabei também falando aqui, acho que não te interrompi, teve alguma, algum fato marcante que falou assim, cara, eu quero seguir fotografando? Porque, cara, você ainda tentou biologia, que para mim parece que tem muito a ver com o que você acabou se tornando, né? Assim, esse teu interesse e curiosidade pela vida, pela natureza, pela fauna, pela flora, pelo ser humano obviamente, mas teve alguma, algum fato assim que você falou, cara, eu vou, você chegou para os seus pais e falou, pai, eu não vou voltar para biologia de jeito nenhum, mãe, eu não vou?

IAIgnácio Aronovich

Eu não acho que foi um fato apenas, eu acho que foi a ideia de que a fotografia poderia me proporcionar acesso e experiências que me atraiu muito, né? Então poder ver de perto as coisas, né? Eu tava em Washington e de repente teve um dia que é por direito constitucional nos Estados Unidos de manifestação a Ku Klux Klan foi fazer um protesto na frente da Casa Branca. E eu nunca tinha visto uma convulsão social tão grande, com tropa de choque, com gás lacrimogêneo, com gente sendo presa, com a população indignada com os caras que estavam lá, né, querendo propagar racismo.

E fotografar isso de perto foi uma coisa de falar, nossa, são temas que são relevantes, são importantes, antes de tudo isso. Então esse momento foi importante, sem dúvida, para mim, no sentido de poder ver que era importante documentar, que aquilo era uma coisa histórica, que era uma coisa que tava acontecendo ali. Tem imagens desses momentos tudo, e tá na rua e vê isso de perto, a ideia de fotógrafo como testemunha das coisas que acontecem, né?

Então enfim, mesmo morando nos Estados Unidos, o Mundial de Balonismo foi especial para mim porque Naquela época, a Kodak, a Fuji tinham motorhomes. Você ia e, credenciado como fotógrafo, os caras te davam filme, revelavam tuas fotos depois, estavam expondo as melhores fotos do dia. Aí você ficava lá voando de balão, 2000 balões voando, um lugar incrível assim. Primeiro voo de balão que eu fiz, na hora do batismo, que você pousa a primeira vez, abrem champanhe, tudo, comemoram.

Tava tudo meio estranho, tinha batido um balão no fio de alta tensão, tinha morrido duas pessoas assim. Então todas essas coisas fazem parte, né, da tua experiência, de você ver lados diferentes de análise de risco, de um monte de coisa que pode acontecer numa cobertura, e de entender como as coisas funcionam. Então eu acho que não dá para dizer que teve um momento único. Teve um momento onde eu entendi que dava para viver disso, né?

Quando eu comecei a publicar e comecei a ter, né, veiculação de imagem remunerada, tudo deixou de ser uma coisa como todo mundo começa, meio como hobby, de ah, eu gosto de fotografar, e de repente você começa a pagar umas contas com a fotografia, né? Começa a viabilizar isso.

MBMichel Bogli

Depois de tantas décadas convivendo com atletas e nos últimos anos ouvindo e aprendendo com os convidados aqui no Endorfina, está claro que evoluir no esporte não depende apenas de dedicação e consistência. Passa também por fazer boas escolhas, especialmente quando o assunto é equipamento. Saber o que faz sentido para o seu momento, para o seu objetivo e para o terreno onde você pedala faz toda a diferença. Esse entendimento você encontra na 2Pix Bikes, patrocinadora do Endorfina.

A Tupix Bikes é importadora e distribuidora oficial no Brasil de marcas como a Factor Bikes, a Santa Cruz Bikes e a Yeti, além de outras referências do mercado. Mais do que vender bicicletas, vestuário e acessórios, a proposta deles é orientar você. A Tupix foi criada para atender quem busca dar o próximo passo no esporte, seja no ciclismo de estrada, no mountain bike, no gravel ou no triatlão. A lógica é simples: cada ciclista tem uma necessidade diferente, e o papel da equipe da 2Pix Bikes é ajudar você a fazer escolhas melhores, mais conscientes e mais eficientes.

Essa filosofia se reflete também nos espaços físicos. Na loja do Rio de Janeiro, o ciclista encontra manutenção de alto nível, bike fit, café e espaço para encontros e eventos. Em São Paulo, na Avenida Faria Lima, além de uma oficina especializada, a unidade recebe clientes e amigos para treinos aos finais de semana. Já a loja de Los Angeles segue exatamente o mesmo padrão, a mesma curadoria e a mesma essência. Por tudo isso, é um prazer ter a Two Peaks Bikes ao lado do Endorfina.

E fica o convite: se você está buscando orientação para melhorar seu equipamento, entender melhor suas escolhas ou simplesmente pedalar com mais qualidade, vale conhecer a Two Peaks Bikes, distribuidora oficial da Santa Cruz e da Yeti no Brasil. Siga @2peaksbikes. Eu vou soletrar: @2peaksbikes. Siga @2peaksbikes no Instagram. Você consegue dizer, por exemplo, 3 momentos, 3 situações, eventos que você, eu daria tudo para voltar e viver aquilo de novo, assim, os que mais te marcaram?

Não vou dizer nenhum, vou falar 3, que fala, meu, putz, isso aqui era uma coisa que eu voltaria, sabe? Claro, eu digo assim, você voltar no tempo e viver aquilo de novo porque foi tão especial, seja pelo motivo que for.

IAIgnácio Aronovich

É sim e não. Sim, porque tem muitos lugares que eu quero, adoraria revisitar, queria muito voltar para o meu filho, como por exemplo levar meu filho para o Alasca e fazer uma expedição de caiaque com ele e poder ver esse lugar, que esse lugar ainda tá bem preservado. Então você passar um tempo onde você perde a referência humana, porque não tem construção, não tem casa, não tem poste, não tem nada, e você tem ali, você tem montanhas de 5.000 metros que saem do nível do mar, é a maior cadeia de montanhas costais do mundo.

Então você tá remando ali de caiaque e você não tem nada de interferência humana, muda a forma, porque a gente tem um senso de escala aqui, a gente vê prédio, vê casa, tudo. E quando de repente tá no nível da água e vê montanhas de 5.000 metros, tua escala muda. Você fala, ah, vou remar até ali, você rema o dia inteiro, você não chegou nem na metade onde você acha que você vai remar, porque as distâncias enganam. Então, sem dúvida, a expedição de caiaque no Alasca é uma experiência que eu adoraria fazer de novo.

Ir para Antártida não tem preço, né? Eu lembro de entrar dentro de um iceberg, nunca vou esquecer o que que é entrar dentro. É uma coisa que é arriscada, porque 9 décimos do gelo estão embaixo d'água, só 1 décimo tá para fora d'água. A gente viu uma catedral de gelo, colocou um bote, um zodíaco na água e saiu, entrou dentro do iceberg. Lá dentro a gente jogou as cinzas de um cara que tinha se suicidado, um voluntário da Sea Shepherd, que a família queria que jogasse as cinzas na Antártida.

E jogaram dentro do iceberg ali. É um momento inesquecível, né? E meio cômico também, porque bateu um vento, as cinzas na nossa cara. Eu olhei, tá todo mundo com as cinzas do cara ali na cara, assim, tragicômico, né? Enfim, acontece essas coisas, né? A gente falou, bom, tudo bem. E tá nesses lugares e, né, de poder ver essas coisas. Eu lembro que assim era desesperador na Antártida porque eu tinha uma câmera digital já, mas eu tava tendo que racionar meu filme.

E a gente vendo foca, baleia, pinguim, iceberg de todas as cores, tudo umas coisas incríveis assim. E é uma experiência que todos os dias dessa expedição, no nascer do sol, eu tava no deck vendo o nascer do sol no mar. Então é uma coisa que para mim tem muito valor. Então esses momentos, amanhecer no Saara, de sair no escuro, sentar numa duna e ver o sol nascer com a prancha de sandboard, depois descer umas dunas, todas essas coisas, todas essas expedições.

A fotografia era meio uma desculpa para ir para lugares e passar por essas experiências assim. Então são 3, mas poderiam ser inúmeras outras de de fotografar coisas também que tava acontecendo mesmo em São Paulo, de coisas que estavam acontecendo, de coisas que aconteceram, protestos na rua por direitos, demandas, né, de por causas sociais, todas essas coisas eu considero importantes documentar e que são retratos de um momento que não vai se repetir dessa forma, né.

Então eu acho que existe um trabalho, existe um cuidado de arquivamento, de indexar, de tudo imagens pensando com olhar que remete um pouco ao trabalho que era um pouco que a minha mãe fazia, que é o trabalho de como historiadora, né?

MBMichel Bogli

É valor histórico, né?

IAIgnácio Aronovich

De entender que com o passar do tempo uma imagem que pode ser meio banal hoje em dia, mas daqui a 20, 30 anos a gente pode olhar de outra forma para aquilo.

MBMichel Bogli

Só uma curiosidade aqui antes da gente seguir: você vem digitalizando os seus filmes, os pendrives, sei lá qual que é a ordem, os disquetes, os flops, você fez, você tá tendo já que rescanear, porque hoje você consegue escanear com uma qualidade melhor, rescanear, redigitalizar, né? Não sei qual que é o nome, porque assim, você já tem uma foto que era no filme que você conseguiu digitalizar, mas se você fez isso há 20 anos, acho que provavelmente a qualidade hoje você consegue fazer uma qualidade melhor daquela imagem para ela refletir o que de fato ela era quando era em papel, né, quando era em filme.

Tem também isso, ou o que você, o que foi feito foi feito e você só vai redigitalizar se houver a necessidade, a demanda? Porque, cara, é um trabalho infinito, né, porque com a tecnologia mudando a cada ano.

IAIgnácio Aronovich

É, e você tem que também definir até onde você quer. Por exemplo, com o tempo os pigmentos das imagens, eles vão se degradando e eles não se degradam na mesma velocidade. Então uma cor vai sumindo, outra menos. E você tem tecnologia para você restaurar as cores. Eu trabalhei com o Walter Salles no filme Ainda Estou Aqui, trabalhando nos créditos do filme, digitalizando as imagens do pai do Marcelo, Rubens Paiva. Do Rubens Paiva que tava nos créditos do filme, o filme Insider da ficção, e aparece as imagens da família.

Eu trabalhei com essas imagens exatamente tentando restaurar algumas coisas, tudo, e era uma decisão do diretor, quanto a gente traz isso nessa, a gente usear, a gente vai restaurar alguma coisa, a gente mantém essa marca do tempo, essa degradação. E eu acho que faz todo sentido manter e mostrar como as imagens são, o que restam nessas imagens hoje, mas tratar com carinho, com cuidado, para tentar ter a melhor qualidade possível dentro do que isso, né, do que a gente consegue.

Então eu acho que assim, esse trabalho ele não acaba. Hoje em dia você tem como pegar uma imagem escaneada há uns anos atrás e trazer, né, uma resolução maior, interpolar. Você pode usar IA para trazer detalhes, mas eu acho que quanto mais próximo a gente tá do original, mais a gente tá sendo fiel ao que foi, né. Nem todo mundo pensa nisso, mas um slide, os slides que você tem da RAM, eles são um pedaço físico que incidiu a luz pela lente por dentro da, né, aquele pedaço é um pedaço, é um artefato arqueológico daquele momento, ele tava lá.

É quase É meio que um fóssil, né? Um fóssil que ele tava lá, ele foi a luz que incidiu, a luz que tava lá. Não é um scanner que transformou, né, com uma conversão analógica digital. Ele é o pedaço de filme que tava presente naquele dia, naquele momento. Ele tava presente naquele lugar. Então isso tem valor.

MBMichel Bogli

Pô, cara, eu vou mexer nesses negócios hoje à noite quando eu voltar para casa, mostrar para minha filha mais nova, cara. Eles estão guardadinhos numa caixinha verdinha dividida no meio. Aquilo também ajuda a preservar. Né, porque não fica exposto à luz nem nada. Ainda existe a Capodarte, lembra? Ele na, como era o nome daquele lugar de revelar foto que você que me indicou que eu ampliava? Capovila ainda existe lá, não é no mesmo lugar, né?

Eu acho que deve existir ali quase na Rebouças, ali à esquerda, na Morato Coelho.

IAIgnácio Aronovich

É, eu acho que deve existir, existem outros laboratórios hoje assim.

MBMichel Bogli

Tinha um na Bandeira Paulista, né, que você também recomendou que eu ia lá ampliar as fotos.

IAIgnácio Aronovich

É que lembro demais que era da Fuji, né, da Bandeira Paulista. Tinha vários laboratórios e assim, ir até os laboratórios era parte da rotina. Eu ia de bike, era isso.

MBMichel Bogli

Você falava, encontrou algumas vezes lá.

IAIgnácio Aronovich

Exatamente isso, era coisa de usar bike em São Paulo, né? Eu lembro de falar de coisas tuas na— você falou da Trip, eu tinha uma coluna de bike na Trip, eu escrevia, assinava uma coluna sobre bike, né? E eu falava, né, quando você falou da Falzone também, eu falava nessa época que eu ia para redação da Trip de bike, eu falava sobre usar bike como meio de transporte. E as pessoas ficavam, falavam, vai treinar na USP, vai treinar na estrada, São Paulo não é lugar para pedalar.

E hoje em dia é uma realidade. E você vê todos os entregadores de bike, a ciclovia, você vê a Faria de Ipanema lotada.

MBMichel Bogli

Meu Deus.

IAIgnácio Aronovich

Então eu, como ativista, né, naquela época de propor a bike como meio de transporte, a Falzone fez isso brilhantemente, né. Naquela época tinha os passeios noturnos, os night bikes, tinha tudo aquilo. É muito legal ver que embora tenha demorado 20, 25 anos para a gente ter, hoje em dia meu filho desde pequeno ele vai para escola de bicicleta. Então é legal ter vivido essa mudança, né? Ainda não é ideal, mas a gente já avançou muito, né?

MBMichel Bogli

Ô Inácio, quem são as pessoas que te inspiram, da foto ou não, assim, que você fala, puta, esses caras eu curto, sabe? Tipo, você segue no Instagram. Instagram, não para seguir, mas assim, para você, que você curte assim.

IAIgnácio Aronovich

Nossa, eu sigo acho que 6 mil pessoas no Instagram, eu tenho uma gama de interesses muito, muito grande, né?

MBMichel Bogli

Muito, muito, que te inspiram de alguma maneira. Então pode dizer 3 também assim, sabe? Pessoas, fala tipo uma da foto, uma geral, ou sei lá, um assim.

IAIgnácio Aronovich

O Tito é um guru, Tito Rosenberg, porque ele é um cara que viajou muito mais do que eu e é um cara Ele soube, é um cara que assim, ele foi Namíbia, tá na surfer dos anos 70, tá na geração dos surfistas do arpoador.

MBMichel Bogli

Foi para Namíbia? Foi fantástico, cara. Meu, assim, dos países que eu conheço, é o país que eu mais gostei, cara.

IAIgnácio Aronovich

Eu também. É o segundo país mais espaçamente populado do mundo, só perde para Mongólia. Então assim, você tem longas distâncias onde você não vê ninguém, as estradas são boas. Então quase morri, né? Na Namíbia, com um Porsche vindo a 200 por hora na contramão. É, sair da contramão, você que tava na contramão, eu sei que a mão invertida, mas ele tava na contramão ultrapassando outro carro, eu fui para o acostamento. Mas assim, foi um dos momentos de estar perto da morte de uma coisa banal que a gente, que, né, pode acontecer.

E lá, e eu fotografei em teste numa comunidade que era como se fossem iglus inteiros feitos de partes de carros. Né? Eles falam galhos, tudo.

MBMichel Bogli

Eu acho que eu passei lá, eles vendem umas pedrinhas assim na estrada. Eles, eu acho que eu passei nesse lugar, cara.

IAIgnácio Aronovich

E assim, são como se fossem iglus todos e feito assim, olha assim de perto, é funilaria. É isso mesmo. E eles usam, né, que ela é seca, tudo se aproveita.

MBMichel Bogli

Exato.

IAIgnácio Aronovich

Então de graça, de graça, né? Então o país tem uma história de um genocídio também, né? O uso de de armas químicas, de um monte de coisa. Então muitas partes do país ainda são zonas proibidas porque são de extração de diamante. Mas um país incrível, né, para conhecer, muito especial.

MBMichel Bogli

E agora que vão lançar, né, o filme do 100 Dias do Amir Klink, eu não lembrava, né, porque foi em 84. Ele saiu da Namíbia, né, saiu da costa da Namíbia. Cara, eu fiz uma viagem de moto fantástica lá depois uma das minhas Cape Epics. Fiz duas, mas é por isso que eu fiz duas, podia ter feito mais. Mas, cara, é um país que eu adoro. E, cara, eu lembro direitinho eu chegando depois de ter andado, sei lá, 4, 5 dias pelo deserto, em estradas desertas.

A hora que eu fui entrar numa cidade, cara, eu entrei completamente numa rotatória na contramão, meu, de moto, meu. Tomei um susto, cara. Não vinha carro, por sorte, mas eu atinei que eu tava na contramão, né? E numa das curvas eu saí da no meio da estrada, tava sozinho. Por sorte eu não me machuquei, eu não cheguei a cair, mas eu fiquei paralisado em pé nos arbustos. Mas, cara, é um país fantástico. E do ponto de vista da fotografia é incrível, né, cara?

Porque as imagens— e eu tô lembrando dele agora porque você acabou citando do Tito, mas eu vi um documentário agora recentemente sobre a fauna da Namíbia. Incrível, cara, os seres também que habitam aquele deserto absurdo ali do Namíbe. Mas quem mais é?

IAIgnácio Aronovich

O Toco Lenzi, que foi meu, que foi comigo para Bolívia de bike, foi comigo para o Alasca. Ele tá terminando agora a viagem em volta ao mundo de moto, né? E o cara fez, pegou pandemia na Austrália, ficou um tempão na Austrália acampado, depois Timor-Leste, Indonésia, e depois fez Mongólia, China, Rússia, enfim. E ele já tinha feito travessia do Saara a pé, já tinha feito um monte de coisa. O Toco é um cara que é E o Toco, eu conheci ele numa choperia, né?

Foi muito legal. O pai dele tinha uma choperia, ele tava no caixa, que ele odiava estar ali, e a gente se conheceu. E depois a gente tava junto na Bolívia. E é um cara que também viajou a vida inteira e super companheiro de viagem. A gente fez Alasca junto de caiaque também. E o Toco, ele não é arquétipo do aventureiro, né? Porque eu lembro na Alasca ele era mais gordinho, tudo. E assim, o cara que vai fazer vídeo, ele tem que ir na frente de todo mundo, filmar todo mundo chegando, aí passa todo mundo, ele filma todo mundo indo embora, depois ele tem que alcançar todo mundo.

Eu lembro da gente, acho que segundo, terceiro dia remando de cá aqui no Alasca, e a gente rema assim, fala, cadê o Toco? A gente encosta, desce do caiaque e tal, a gente fala, Toco sumiu, né? Aí de repente a gente começa a ouvir assim um som, será que é isso que a gente tá ouvindo mesmo? Aí começa a tocar Daniela Mercury e a gente falando, nossa, a gente tá ouvindo Daniela Mercury aqui no Alasca! E chega o Toco remando com duas caixinhas da Sony assim, tipo, remando de cá, e a gente tipo curtindo ali o momento, tipo, bom, esse é o louco, né?

Tipo, o cara que tá— então assim, eu lembro da gente na Bolívia, primeiro dia a gente pegando um trem para Uyuni para ir fazer o Salar, tudo. Ele deixa cair a câmera para fora do trem, pula do trem, pega a câmera. Então assim, o cara que não tem tempo ruim, super com pena de viagem, e é um cara que consegue viabilizar. Ele tá fazendo, né, completou agora 7 anos de viagem assim, uma viagem linda tá chegando. Ele tá, embarcou a bike, a Gadara, que é a moto dele, para o Chile, tá Depois vem para o Brasil.

Então é um cara que é uma inspiração, porque é um cara que conseguiu viabilizar esse meio de vida de estar na estrada e conseguir viajar. Então são dois amigos próximos que eu admiro, que eu gosto. E aí tem um monte, tem amigos e fotógrafo.

MBMichel Bogli

Um fotógrafo aí que você fala, meu, esse cara, que seja de música, de natureza, sei lá.

IAIgnácio Aronovich

Fotógrafo tem muitos, né? Tem fotógrafas incríveis, né? Tem fotógrafos que não estão mais aqui que me inspiram, me inspiraram, né? Você tem o Ned Gillette. O Ned Gillette foi um cara que foi campeão olímpico de cross-country de esqui e ele depois virou aventureiro. Ele foi morto com a namorada no Paquistão por pessoas que tentaram assaltar e mataram ele na barraca com a namorada atirando de fora. Nem tentaram atirar e depois foram roubar os pertences deles.

Mas esse cara é uma inspiração porque ele era um cara que conseguia fazer uma coisa que pouca gente faz. Ele fez travessia do do Drake, ele fez o veleiro dele. E fazer foto quando a luz tá boa, quando tá tudo bom, todo mundo faz. Ele era o cara que quando o tempo tá, o barco dele tá quase capotando, não sei o quê, ele conseguia fotografar também. Eu acho que esse é a inspiração que vem da ideia de que quanto pior melhor, no sentido de quando não tem condição para fotografar, essa imagem que é mais difícil de capturar, né, que é a do caos total, a do do clima absurdo, que a hora que para você salvar você tá guardando a câmera muitas vezes, mas você conseguir ter a presença de espírito de fazer essa imagem.

Então o Ned é um cara que ele tava fazendo Rota da Seda de camelo, é um cara que sempre foi uma inspiração assim como exemplo de um cara que buscava fazer o próprio caminho, né, de tentar fazer as coisas diferentes. Eu acho que fazer o que todo mundo faz Mas tudo bem, assim, você pode tentar fazer e fazer de uma forma diferente, com abordagem diferente. Mas esses caras que buscam fazer coisas de outras formas são os caras que me inspiram e que mostram que é possível ter abordagens diferentes e fazer coisas legais que não foram feitas antes.

MBMichel Bogli

Você já pensou que se você tivesse que escolher entre um nicho de fotografia assim, qual que você escolheria para fotografar? Para sempre assim? Não, eu prefiro seguir esse aqui, que é o que em geral me dá mais satisfação, me preenche mais. Tem algum?

IAIgnácio Aronovich

Eu acho que a resposta óbvia para isso, que te daria uma oportunidade, uma gama de experiências maior, seria o fotojornalismo. Porque aí eu tô roubando, né? Tipo, eu tô falando, fotojornalismo você vai acabar aí.

MBMichel Bogli

Mas especializado o quê? Em natureza? Em guerra? Em— cara, eu vi no teu Instagram, né? Você tem fotos de animais legais demais, você tem foto de dança, de grafite, do Red Bull, não sei das quantas, a de dance. Aliás, não tem de esporte, né, no teu Instagram?

IAIgnácio Aronovich

Tem pouco, né?

MBMichel Bogli

É, eu acho que não tem de esporte, acho que não tem. Se tiver, muito pouquinho assim, muito, muito en passant. Mas qual que é o tema assim que mais te— se você tivesse que escolher um, manja comer todo dia o mesmo, mesmo sucrilhos?

IAIgnácio Aronovich

Qual seria? Não escolher um só, né? Eu acho que eu me sentiria meio preso num numa coisa, é um desafio. E eu admiro quem faz coisas, quem se especializa em alguma coisa, porque é uma escolha. Mas eu prefiro não escolher, eu prefiro dizer não, não me recuso a escolher. Agora, se eu tivesse que escolher alguma coisa, escolher fotografar a condição humana, que eu acho que é uma resposta genérica também.

MBMichel Bogli

Mas o homem, ser humano, é o ser humano nas suas—

IAIgnácio Aronovich

é uma resposta genérica, mas que também eu estaria abdicando de coisas da natureza que me interessam muito. Então, mas quando eu digo da condição humana, porque a nossa presença aqui, ela tá, a gente tá destruindo o planeta, é evidente isso, né? A gente tá no país super populado, o país não, mundo super populado, tudo isso. Mas ainda assim eu acho que existem coisas fascinantes para a gente documentar na condição humana, mas eu não queria me restringir a um assunto só, um tema só.

MBMichel Bogli

E para você essa liberdade é fundamental, né? Assim, dá a impressão que dá é que, de novo, assim, eu te vejo desde quando eu te conheci, cara, que assim, você é de fato um artista, né? Eu não te vejo como um fotógrafo por per se, ficar fazendo boas fotos, mas por conta dessa tua variedade de interesses. E a impressão que eu tenho é que você nunca disse não para um trabalho, a não ser assim quando você não condição de estar, né?

Mas assim, tipo, você não nega. Você podendo, você não nega, né? Porque você tá aberto a isso. E eu, pelo que eu entendi, é isso que te fascina, né? Você não sabe exatamente o que você vai encontrar indo para os Estados Unidos fotografando Race Across America, né? Que a princípio é um negócio que você fala, putz, meu, vou ficar dentro de um carro fotografando gente pedalando o dia inteiro sem parar e tal. Negócio que é repetitivo, mas tem um cenário fantástico, tem os detalhes, tem os momentos, né? Pena que esse livro não Não existe mais, né? Você tem esse livro?

IAIgnácio Aronovich

Tem, tem.

MBMichel Bogli

Eu acho que eu tenho 2 ou 3 cópias.

IAIgnácio Aronovich

Eu também devo estar com as últimas que eu presenteei para algumas pessoas.

MBMichel Bogli

Exato, acho que eu dei um para o Seco, sei que acabou ficando sem, que ele foi presenteando, e acho que acabei dando um para o Seco. Mas enfim, é isso mais ou menos, minha leitura está correta? Você é um cara que valoriza essa liberdade, não somente física, mas essa liberdade de poder escolher também ir para os lugares e e fotografar tudo que tá ali à sua disposição para que você registre aqueles momentos e se surpreenda com o que você tá vendo.

IAIgnácio Aronovich

Eu acho que tá certo a liberdade. Eu dei muito valor, e foi um momento meio pivotal, ao fotografar no Carandiru. E eu fotografei no Carandiru, eu fui lá primeiro fotografar, fazer uma matéria sobre Deus, sobre religiões. Eu fotografei um pastor que tinha cometido 13 chacinas, assim, um personagem singular. E eu lembro muito bem de sair do carandiru e falar, nossa, eu posso ir para lá, eu posso ficar sentado aqui, eu posso ficar parado, eu posso ir para o outro lado.

E a gente, em inglês a expressão é take for granted, né? A gente não dá valor, a gente não reconhece o valor de coisas banais, como que não são banais na verdade, como a liberdade, no sentido de que a liberdade de ir e vir, a liberdade de escolha, né? Todas essas coisas são valores muito importantes na vida. E ter essa liberdade no trabalho é uma coisa que para mim não tem preço. É a gama de experiências que você tem de fotografar desde, sei lá, um presidente da república até um presidiário, desde uma pessoa bilionária fazendo alguma coisa ou uma pessoa sem nenhuma condição financeira.

E toda essa gama você pode aprender com todas essas experiências. Então é isso que me atrai. Eu acho que quando eu falo que a fotografia é um multiplicador de vidas, é sobre isso que eu tô falando, a ideia de que você pode usar um Race Across America como uma desculpa para, de repente, tá fotografando lá o motorista de caminhão, você tá na cidade fantasma que tem 6 habitantes, você tá vendo o cara na categoria solo ali apoiado na bike, dormindo, caindo na bicicleta pedalando, os caras empurrando ele, ameaça de tornado no Oklahoma.

Tipo, vamos embora, vamos para cima e ver a superação, esse momento da chegada, as pessoas que concluem, né, uma prova dessas, o que que elas passam, como é que é toda essa essa mudança, né? Eu acho que é um privilégio muito grande. Eu me sinto muito privilegiado de ter tido a oportunidade, e não apenas de ter feito essa gama de experiências diferentes, mas de ter vivido esses momentos diferentes que vêm desde a fotografia de película, do auge do mercado editorial das revistas, podia tocar o telefone e alguém falar: tem mundial de windsurf em Aruba, você quer ir?

Quero, vamos embora, né? E de fotografar. Então, de estar aberto para isso, eu acho que isso foi uma das coisas que aos poucos Ao fazer, ah, cobrir uma expedição na Transamazônica de Land Rover, ah, cobrir uma outra não sei o quê. E de repente aí toca o telefone, você quer ir para Zâmbia fazer Mundial de Rafting, né, Rio Zambezi? Quero, vamos embora. E isso vai, uma coisa vai somando a outra e você acaba virando o cara que eles, ah, quer ir para Antártida fazer açaí?

MBMichel Bogli

É o pau para toda obra, né? Você é um cara que topava isso, não fazia exigências nem nada, né?

IAIgnácio Aronovich

Você era o cara que Eu fazia algumas, né? Para ir para Antártida eu pedi um seguro de vida, eu pedi um EPIRB, eu pedi um monte de coisa assim específica para poder fazer de uma forma segura.

MBMichel Bogli

Mas é o mínimo, né? Você não é um cara que põe uma exigência tipo de, entre aspas, de frescura, né? Assim, um capricho seu, né?

IAIgnácio Aronovich

É, acho que não cabe. Você vai pedir um motorista particular na Ram e falar, ah, eu só vou dormir no meu motorhome? Não tem isso.

MBMichel Bogli

Então É, agora, cara, eu quero, a gente vai falar de esporte para terminar aqui, para falar das suas lembranças de Ride Galoás e de todas as suas aventuras. Eu quero que você relembre algumas, seja de triatlon e tal. Mas, cara, eu não queria passar em branco a história da escarificação, daquele, as pessoas sendo erguidas por anzóis. Meu Deus do céu, cara, existe isso ainda, meu?

IAIgnácio Aronovich

Existe muito.

MBMichel Bogli

Como é que você foi parar nisso, cara? Meu, você fotografou essas pessoas que são erguidas pelo mamilo?

IAIgnácio Aronovich

Não, não apenas fotografei, como depois, quando elas voltaram para o Brasil, ajudei a promover. E a gente, a Rosita, eu liguei para Rosita e falei: Rosita, a gente precisa fazer uma tirolesa com um cara com ganchos nas costas passando por cima do público. E ela fez, né, com segurança, o cara com cadeirinha, com backup, tudo, mas ele tava pendurado pelos ganchos nas costas. Então assim, eu fotografei Meu, que doideira, né, cara?

MBMichel Bogli

Meu, cada coisa do ser humano, meu.

IAIgnácio Aronovich

Ah, escarificação, suspensões, a primeira mulher fazendo suspensão no Brasil. A gente fez o— eu fotografei o show do Kamikaze Twins, fiquei amigo deles, foi demais. Porque como é o nome?

MBMichel Bogli

Eu não conheço.

IAIgnácio Aronovich

Kamikaze Twins era o John Kamikaze e o Helmut, né? Uma dupla, os caras assim, Engolidor de espada que engole a espada você já viu, mas o cara que engole um tubo de neon, apaga a luz do palco, e você vê o cara iluminado por dentro com neon vermelho aceso assim, tipo ET, né? Os caras abriam garrafa com olho, atravessava um cabide pela bochecha, saía do outro lado, se pendurava com gancho. A gente teve que pegar 2.000 garrafas de cerveja de vidro e fazer uma piscina de cacos de vidro, eles nadando com snorkel, pé de pato, na piscina de cacos de vidro.

É assim, são pessoas que têm uma tolerância à dor que é diferente do que a gente tá acostumado, né, do que a gente já viu. E fazendo um show assim com humor, né, então não é uma coisa que as pessoas ficavam horrorizadas. Eles pediram 2000 ursinhos de pelúcia, eles davam os ursinhos de pelúcia, os coelhinhos de pelúcia para o público ali. Então assim, era uma coisa, começava tocando o Requiem de Mozart e terminava com o cara grampeando na testa dele um pergaminho que parecia escrito The End e tocando Dancing Queen do ABBA no fim, com o cara vindo voando por cima do público com gancho.

Eu nunca ouvi falar desses caras. São caras que vêm do circo e que depois vem de modificação corporal e de coisas assim, e que fazem isso de uma maneira— o cara que fazia isso, ele era um cara tão doce que o cara que foi na minha casa e falou, ah, posso pegar um pedacinho desse cacto? Ele gostava de cacto porque tem espinho, né, o cara cheio das agulhas e tudo. Então, ah, quero levar esse cacto para casa, quero não sei o quê. E no palco o cara fazia coisas absurdas, né, engolir lâmpada, comer vidro, enfim, os caras eram bizarros.

E me interessava tudo isso, né, como é que o cara passa por dentro de uma raquete de tênis? Como é que você faz isso? O cara fazia essas coisas. Então é bizarro, mas faz parte da ideia. Antes disso Fotografei Miss Tattoo em Floripa, teve um, eu lembro, a segundo lugar indignada, queria bater no primeiro lugar, tipo assim, situações muito divertidas.

MBMichel Bogli

Essas expressões artísticas, sei lá como é que a gente chama isso, talvez mais radicais do ser humano, você também teve bastante interesse, né?

IAIgnácio Aronovich

Assim, eu acho que todas as expressões humanas, né, embora não seja nada extremo, fotografar dança é uma coisa que me atrai muito, porque dança é movimento, né? Então você conseguir pegar o momento que é que é mais estético ou que é incrível, o momento, né, com uma luz diferente, tudo. Então tudo isso me atrai. Então isso vai para o esporte também, né? Esporte não é só performance, né? Você tem momentos de extrema plasticidade com luz, com sombra, com peak action, com auge da ação, com um monte de coisa acontecendo.

Então eu acho que tudo isso tá meio nesse bolo de coisas da diversidade, da experiência humana, né?

MBMichel Bogli

Exatamente. Exatamente, no fim se resume ao ser humano, enfim, realizando coisas que são incríveis, né, cara?

IAIgnácio Aronovich

Era demais. E tudo isso tem a ver também com superação, porque da mesma forma que você tá indo muito além do seu limite numa prova dessas, essas pessoas estão fazendo essas coisas, estão lidando também com os próprios limites da sua própria forma, né?

MBMichel Bogli

Exato. Bom, fazer um break aqui para falar da Z2, que é patrocinadora. Inácio, a lançou o Performance System, uma linha pensada em organizar a suplementação ao longo da rotina do atleta, com produtos como a creatina, que cumprem papéis específicos dentro da performance do atleta. E um produto muito bacana que é o Salt, que agora lançou, a AZ2 lançou em pastilha, reposição de eletrólitos num formato inédito no Brasil. São pequenas pastilhazinhas, parecem balinhas, dissolve na boca, repõe sódio, potássio e magnésio na hora sem precisar de água.

É compacto, ideal para treinos e provas, no sabor de menta e sabor limão. Então siga Z2 Performance no Instagram para ficar por dentro das novidades, essas e outras, e saber como é que você faz para adquirir os seus produtos da Z2. Aliás, para você ou para o Yuri, tá aqui, ó, um kit com um sampling aí dos produtos da Z2, os produtos aí do momento, os géis e os salts e as barrinhas. São muito legais, aliás, as barras, as São muito bacanas aí para o lanche, inclusive no meio de um job aí, de uma foto e tal.

Inácio, cara, eu queria que você relembrasse aqui algumas histórias que lhe vem à mente de eventos esportivos que você cobriu e que você presenciou cenas inéditas, e que você passou por perrengues mirabolantes. Não ficar 6 dias sem tirar as botas, que isso não é nada, né, cara? Mas demonstra aí muito da tua personalidade, do teu empenho ali na sua cobertura do Race Across America conosco. Fala aí o que você lembrar aí, cara, de histórias de triatlão, de expedições, da EMA, do Raid Galoás. Que que te vem à mente aí?

IAIgnácio Aronovich

Nossa, eu lembro do, da Rema. A gente foi embora de posto de gasolina, abasteceu o motorhome, uma van, foi embora sem pagar. É por isso você foi atrás da gente, né?

MBMichel Bogli

Esqueceu de pagar, né?

IAIgnácio Aronovich

Esqueceu de pagar que a gente tava sem dormir, né? Então esse tipo de coisa é um clássico da WEM. Eu lembro, né, a diferença entre o estilo de vida. Você pega o João Paulo em São Paulo, não sei o quê, tudo, e de repente ele lá no quarto de WEM pegando embaixo do banco uma batata ali, comendo. Caiu ali, caiu ali, ele comendo a batata que tava, né, ele desesperado. Ah, para, encosta aqui, vai no banheiro. Aí ele tá lá nos arbustos indo no banheiro, abre a tiazinha da casa assim, da geral, e olha e fala: o que que esse cara tá fazendo?

Essas situações assim são inúmeras situações, né? Eu lembro lá partando os dois massagistas, acho que na segunda remo, os caras um querendo bater no outro 3 da manhã porque um achou que o outro tava fazendo menos massagem que o outro, não sei o quê. Então conflitos de equipes, né, dos integrantes da equipe, que isso é uma coisa que é um desafio numa situação extrema. Eu vi isso em corrida de aventura, escalador renomado, não sei o quê, descrachando uma atleta feminina porque não sabia lidar com, né? O cara se achava, né?

MBMichel Bogli

Então assim, a gente ter situações onde essa foto aqui do João é muito legal, cara, né?

IAIgnácio Aronovich

É exatamente, é isso, a fadiga, né?

MBMichel Bogli

O cara assim, o cara com uma cara tipo, meu, tá no final do final do final, e né? E um cara que Quer dizer, ninguém precisava estar lá, né? Mas assim, é para uma imagem que tem o estereótipo do João, né, cara, que as pessoas acham que ele tinha que ser de uma maneira, esse olhar é muito bacana, né, cara?

IAIgnácio Aronovich

É, e é um olhar que é diferente porque tem uma imagem ali que não é, não é uma imagem posada, é uma imagem de um momento real que tá acontecendo, e dá para ver na cara dele, né, a fadiga. Eu lembro das imagens, lembra dos pés do Said, né, corrida de aventura, porque no começo da corrida de aventuras as pessoas não sabiam.

MBMichel Bogli

Eu fiz um post, né, ele me cedeu essa foto, né, do pé de hambúrguer dele.

IAIgnácio Aronovich

É, então as pessoas não sabiam cuidar dos pés. Eu lembro no Galois tem o Roman Dial, o Roman Dial é um cara do Alasca que fez uma matéria de hell biking no Alasca que saiu na National Geographic e que foi uma matéria que eu lembro que assim não é toda hora.

MBMichel Bogli

O que é hell biking, cara?

IAIgnácio Aronovich

Hell biking é os caras faziam packrafting levando Então o cara tem uma, um inflável que é para descer corredeira na mochila, uma mountain bike, e os caras faziam umas travessias que os caras desciam o rio com corredeira, com a bike presa nesse packraft, que é uma quase uma câmara de ar de caminhão assim, é um bote pequeno assim com reminho também desmontável. E os caras faziam, escalavam uma montanha, fazia comida montanha, pedalava o trecho que dava para pedalar, e depois desciam o rio com corredeira com a bike presa nessa, nessa boia, nessa câmara de ar assim.

Então era uma boia mesmo, mas enfim. E o Romain Dial, esse cara, ele fez essa expedição e depois ele foi fazer o Galoás. Eu já tinha visto a matéria dele dessa época, já tinha sido uma coisa que tinha me impactado porque as imagens eram incríveis dos caras fazendo, né. A corrida de aventura, ela meio surgiu do interesse, né, de pessoas que viram, tem a história da Patagônia, do cara sobrevoando a Patagônia e olhando e falando, nossa, imagina que legal se tivesse uma competição que passasse por essas paisagens, por esses terrenos, e não fosse num percurso, né, demarcado, não sei o quê.

E aí é meio da onde vem o formato, né, de motorsport, de corrida de aventura, de usar a propulsão humana para você se deslocar por esses lugares. E no, eu lembro do Romain Dail chegando, eu tenho essa foto, a gente pode compartilhar tudo, carregando mochilas de outras pessoas e vendo na corrida de aventura essa coisa de que numa equipe o a velocidade que determina uma equipe é a velocidade do mais fraco, né? Porque você tinha que chegar junto nos lugares, tudo.

Então eu via, eu lembro da equipe dos bombeiros de Paris lá, os caras chorando, e as mulheres da equipe consolando os caras: não, não chora, você vai aguentar. Então assim, foi uma das vezes, eu já tinha visto em longa distância, Ironman, tudo assim, mas foi uma das vezes que eu vi as mulheres muito mais fortes do que os homens, né? Uma diferença nada sutil assim de aguentador, de ultradistância, de performance, tudo isso. E hoje em dia a gente vê, exato, hoje tá muito mais, muito mais evidente isso, né?

Mas naquela época eu lembro de mulheres chegando, atletas carregando 2, 3 mochilas. Eu lembro da Robin Benincassa, que era super forte também. Então é várias atletas assim. Eu lembro de ter ficado super impactado com isso, equipe só de mulheres da Espanha. Depois aqui no Brasil fotografei até lá. Então foi especial para mim testemunhar e ver isso de perto, né, a força e a diferença, né. De, né, eu lembro dos caras assim, começo do Galoás, ah não, tá tudo bem, não sei o quê, e depois ver os caras se arrastando, né.

Então o Galoás especificamente, eu soube que até o Galoás no Equador eu tinha facilidade de conseguir passagens. A Loja Diário Boliviano no marketing dava passagens para gente, e a contrapartida é que a gente ligava para Dourado dava boletins e assinava os boletins citando a companhia aérea. Então era uma forma de viabilizar coberturas. E eu soube que ia ter, e era fax na época, então mandei o fax para Nelly Fuzil, a esposa do Geraldo Fuzil.

Falei, eu quero cobrir o Galoás. Ela falou, não, a gente não quer a tua cobertura porque não tem atleta do Brasil, não tem equipe brasileira, o patrocinador nem tem essa marca no Brasil, então não interessa para a gente cobertura do Brasil. Eu lembro meio folgado assim, meio tipo Eu mandei outro fax, falei, não, mas eu vou cobrir mesmo assim porque eu já vou estar lá mesmo. Então minha matéria vai ser como eu cobri sem estar credenciado.

Ela falou não. E aí ela respondeu, falou, não, não, tudo bem, pode vir. Que ela sabia que eu ia mesmo assim. E a gente chegando lá, a gente era muito vira-lata, tipo, enquanto os caras da Outside americana, os caras da Europa estavam voando, a gente tava escalando com o Topaxi, né? Não voei, não cheguei nem perto do helicóptero, né? E a gente tava, colocava a gente numa van, furava o pneu da van, não tinha estepe, pegava carona com pneu furado até a próxima cidade, consertava o pneu, voltava.

E esse tipo de perrengue acontecia, né? A gente acampado, choveu a noite inteira, barro, não sei o quê. Eu lembro uma vez a gente fez isso, a gente passou e viu todos os carros de organização num hotel, a gente falou, vamos ali. A gente tomou café da manhã no hotel, assinou o nome da diretor da prova e foi embora. A gente fez umas coisas assim, enfim, e foi cobrir a prova dessa forma. E o legal é que eu voltei para o Brasil, não tinha Corrida de Aventura ainda, né?

Publiquei a matéria na Playboy. Na época, a Playboy tinha 1 milhão de exemplares na banca, 800 mil exemplares tinha.

MBMichel Bogli

A Playboy, eu lembro disso, a Playboy dava espaço, né, para umas matérias completamente não da capa, né, não das mulheres.

IAIgnácio Aronovich

Aquela coisa clássica das pessoas falarem, ah, eu vejo a Playboy pelas entrevistas, eu vejo pelas matérias, não sei o quê, né. E a revista naquela época ela tinha o Nylan do Beirão, tinha, então tinha uma pretensão literária, tinha, né, tinha uma coisa de fazer um jornalismo de qualidade. Então assim, tinha espaço para publicar coisas. E naquela época eu já tava indo na contramão de fazer coisas que as pessoas que eu tava fazendo.

Então volta da Zambia, Mundial de Rafting, evento da Camel, sai na Playboy. Volta do Galoás, sai na Playboy, faz a matéria. E conseguia emplacar matérias de Sturgis, né? Voltei do Race Across America, Sturgis sai na Playboy. Então era um veículo que pagava bem, pagava por exclusividade e tinha limitação do espaço, né? Então assim, você não ia publicar a quantidade de imagens que você queria, mas era demais publicar numa revista que, sei lá, tava tiazinha na capa ou feiticeira, não sei quem.

MBMichel Bogli

Então as pessoas viam essas revistas e comentavam, atingia um público gigantesco, era um tiro de canhão, mas você conseguia chegar numa grande quantidade de pessoas que talvez se interessassem mesmo, né?

IAIgnácio Aronovich

É. E aí acontece a Elf, aí tem Atena na Elf, e a Playboy fala: vai lá cobrir, mas só a equipe das mulheres, tenta pegar momentos sensuais. Não tem momento sensual, não tem momento sensual, não é coisa de aventura. Não tem. O editor falando: não, tenta pegar elas tomando banho, não sei o quê. Fala: não vou tomar banho, meu, não tem momento sensual em corrida de aventura.

MBMichel Bogli

Aliás, essa é uma pergunta boa para fazer para a própria Xubi, para fazer para o Rafael, se existe um momento sensual em corrida de aventura, cara.

IAIgnácio Aronovich

Então, e aí ia cobrir a Elf, era demais. Aí tinha esse privilégio de— e aí o repórter que tava junto era o Antônio Prata, que super escritor, filho do Mário Prata. Então tinha chance, né? Ele fez acho que a segunda EMA como repórter. Voltei com a Rosita e ele de helicóptero para São Paulo, rolou umas coisas super legais. E E foi um privilégio enorme ver, né, esse momento do esporte surgindo aqui, né? Pois é, que aí você tinha um cara que vinha do triatlon, um cara que vinha do mountain bike, era demais ali no começo. Aí chegava turma da Nova Zelândia dando aulas ali, né?

MBMichel Bogli

Você viu minha conversa com o Cabeça, com Marcelo Maciel? Legal, né, cara?

IAIgnácio Aronovich

Foi aí que eu te contatei de novo, falei, pô, tem que falar, Cabeça é demais, cara. É, esse é um dos meus favoritos assim, que Cabeça é um cara incrível. A Pedal na época apoiou minha expedição de bike para Bolívia, né, arrumou minha bike, tudo. Eles foram super legais. E assim, eu gosto muito do Dani, gosto de todo mundo, foi muito legal.

MBMichel Bogli

Aliás, o Dani tá indo passar umas temporadas em Floripa, né?

IAIgnácio Aronovich

Não sei se você sabe, ele tá lá, né?

MBMichel Bogli

E do triatlon, você tem alguma memória, alguma lembrança? Porque também naquela época o triatlon era visto muito mais também como uma aventura, né? Eu acho que é diferente da imagem que a gente tem hoje do triatlon e, claro, da popularização do Ironman, tipo, praticamente qualquer um consegue fazer. Naquela época eram meio que uns doidos, né? Eu lembro que umas matérias da Trip eram também focadas, não sei se as fotos eram suas, mas eram focadas em aspectos que não eram aspectos necessariamente da competição, mas do desafio em si, né?

Você se recorda de alguma, de algum momento, de alguma cena, de algum evento que te chamou mais atenção, que teve alguma cena?

IAIgnácio Aronovich

Já tem coisas Tava fotografando na caçamba de uma Toyota Bandeirante em Porto Seguro, no Iron Man, Fernanda Keller pedalando, e o motorista da Toyota foi num baseado gigante assim, tipo titi-antionga assim, sai da fumaça. E eu falando, cara, tá indo a fumaça na cara da Fernanda pedalando ali, tipo assim, Porto Seguro, Bahia, né? Era o motorista que conseguiram, né? Lambada truando no sonho, o cara assim Parecia que eu tava no Cheech and Chong, assim, o filme.

Olhava e falava, olha isso, né? Então, sobrevoando Ilhéus com helicóptero ali também, um triatlon, e o piloto de helicóptero maluco destelhando as casas, o cara voando baixo com helicóptero. Prova que faleceu um atleta porque não tinha água na chegada. Aconteciam coisas, né? Prova de mountain bike, de downhill, que tinha, não tinha proteção, cerca de arame farpado, a gente resgatando os caras que se ralavam no arame farpado ali, era péssimo desenho, né, falta de segurança. A gente chegar na Nova Zelândia, você tava no Mundial da Nova Zelândia?

MBMichel Bogli

No Mundial da Nova Zelândia, não, de Wellington, não, não. Eu fui para o Mundial da Austrália, que aí depois eu fui para Nova Zelândia, né.

IAIgnácio Aronovich

A gente desembarcou na Nova Zelândia e aí na fila da imigração vem uma mulher com cachorro e o cachorro Aí ninguém fala nada, não sei o quê. Aí passa assim e de repente quando a gente pisa, sai da, pega a bagagem, vem um cara de cada lado. Acho que era o médico, não sei se era o médico, não posso. E prendeu o cara, ele tava com os baseados assim, sei lá, na cueca, não sei o quê. E foi ruim para delegação, né, porque chega, já tem notícia e tudo. Enfim, e era um cara que eu lembro que o cara fumava no banheiro do avião.

MBMichel Bogli

Então assim, nossa senhora, meu, que roubada, cara.

IAIgnácio Aronovich

E aí, né, tive essa cena assim, tipo, olhar e falar, nossa, que que é isso? Então, mas assim, muito da— eu lembro dessa época assim, lembro quando surgiu o Manzan, eu lembro dessa disputa do Manzan com Leandro, eu lembro da Fernanda incrível, né, como ela, Fernanda Keller, na época assim era uma coisa que tava no outro nível assim.

MBMichel Bogli

Até hoje, né, assim, ela obviamente, aquela competiu centésimo Iron Man dela em Floripa, mas ninguém tá nem perto de chegar no Hall of Fame para sempre, né, ela é incrível assim.

IAIgnácio Aronovich

Fiz publicidade com ela de iogurte, de Nestlé, de coisa assim na época, porque a gente teve um momento que teve dinheiro, né, no teatro, e teve dinheiro também no Coelho da Juventude, e foi, e teve investimento, e tinha cenas, provas tinha helicóptero, tinha um monte de coisa, tudo, várias roubadas de helicóptero, inúmeras coberturas. Hoje em dia eu sou feliz que tem drone, né, porque não precisa mais, precisa mais correr esse risco.

Eu voei em vários helicópteros que que morreram depois, gente que morreu, helicóptero que eu voei.

MBMichel Bogli

Também se aprendeu a pilotar o drone, a fazer fotos, imagens de drone.

IAIgnácio Aronovich

O drone é um super aliado, né? Hoje em dia ele é super bem-vindo porque é prático, né, cara? É assim, você tem um drone de 250 gramas que faz imagens incríveis e você tem a multiplicação de ângulos de cobertura, você poder ter uma área e dar contexto onde estamos, né? Poder mostrar isso. Então isso é fantástico assim, a tecnologia, câmeras remotas, Eu gravei no X Games com o Tony Hawk, Tony Hawk falando sobre como a GoPro e o YouTube mudaram o skate.

E ele, a gente gravou uma entrevista, conteúdo para ESPN entre as competições do X Games, falando. E ele fala muito sobre como hoje em dia, através tanto do celular e da GoPro e do YouTube, um cara faz uma manobra nova na Califórnia hoje e gente do mundo inteiro já tá tentando essa manobra no dia seguinte, porque vê no Instagram, vê no YouTube, tudo. Então isso alavancou e conseguiu impulsionar, né, e acelerar e melhorar a evolução de muitos esportes diferentes através dessa facilidade de comunicação.

Porque eu sou da época que a gente recebia uma fita VHS, cópia da cópia da cópia da cópia, e ficava todo mundo vendo, né, ávido para receber. Era difícil a gente ter acesso às coisas, né. Eu lembro disso para tudo, né. Eu lembro de DJ Falando, ah, traz para mim. Eu ia viajar para os Estados Unidos, o cara dava uns dólares e falava, traz vinil para mim. O que que você quer? Tudo, qualquer coisa nova, porque era difícil conseguir as coisas aqui.

Peças de bike, eu lembro BMX, eu lembro uma vez que eu fui, trouxe, sei lá, pé de vela, pedal, manopla, tinha da Oakley umas manoplinhas legais, não sei o quê. Era o máximo conseguir trazer alguma coisa de fora, né? Porque era aqui, era muito limitado que a gente tinha, né? Muito, muito, durante muito tempo, muito.

MBMichel Bogli

Cara, uma pergunta mais ampla. Você já demonstrou o teu interesse principal em fotografar o ser humano, porque através do ser humano ele realiza tudo isso que nos fascina, né, cara? Tem algum traço humano que você consegue identificar que naquele momento você enxerga porque você tá, né, olhando ali na, nem sei mais como é que chama, no visor, né? E que talvez não é todo mundo que capta. E é uma coisa meio frequente, por exemplo, numa foto dessa do JP, né, assim meio, sabe, naquele momento ele devia estar, meu, que desespero, o que que eu tô fazendo aqui e tal.

Você consegue identificar um traço ou traços que você por estar prestando atenção naquele momento, você identifica?

IAIgnácio Aronovich

Eu acho que sim.

MBMichel Bogli

Eu acho que tem momentos que a gente pode dizer que são momentos de quase que uma intimidade entre você que tá ali, tem a câmera entre vocês e o objeto, ser humano que tá do outro lado.

IAIgnácio Aronovich

Existe a expressão, que inclusive é título de livro de fotógrafos, tudo que chama de unguarded moment, o momento onde a pessoa abaixa a guarda, né? Porque a presença de uma câmera em qualquer lugar, ela transforma tudo em performance, né? Isso é uma coisa clássica da fotografia, de você tá com uma câmera ali, você já tá alterando aquela cena. Isso para bem e para o mal. Fotógrafos de guerra já salvaram vidas por estarem presentes, porque impediram que atrocidades ou execuções fossem cometidas, porque eles estavam ali para documentar.

Então existe uma coisa que é a própria persistência de você ficar tempo suficiente, e aí que o documental de longa duração, de ficar tempo passando tempo com uma equipe 5 dias direto, tudo chega uma hora que você já fica invisível, né? Porque as pessoas já estão acostumadas com a tua presença, elas abaixam a guarda. Nesses momentos você consegue, né? Você pode apontar a câmera e o cara fazer alguma expressão, e ele tá posando porque ele tá ciente que a câmera tá ali, mas depois de algum tempo ele vai ficar entediado com a tua presença ali e ele vai revelar alguma expressão, alguma emoção.

E cabe a você estar atento a isso para você conseguir pegar algo que que vá além dessa performance, dessa coisa que a pessoa tá querendo mostrar seu melhor, alguma coisa assim. E eu vi desde fotografando UFC, momento que um lutador desiste, você ouve, você tá do lado da, né, e você vê o impacto. E se o cara pode não ter sido nocauteado, mas você vê que a partir daquele segundo ali, você tá vendo pelo viewfinder, que você tá olhando na cara dele, você vê que ele já perdeu, ele perdeu, que ele se entregou.

Você vê na corrida de aventura Quando o cara chega num PC e ele já tá com uma expressão ali de que você sabe que o cara não vai sair daquele PC, que ali ele já parou. E você vê a superação, que é sempre fascinante ver, da pessoa tirar força, ninguém sabe da onde, né, da vontade de superar, de conseguir ultrapassar seu limite, e de ver esse momento, e de ver também esse momento de euforia, de realização, de alívio, de, né, de euforia, de todas essas coisas que acontecem, que a gente vê no esporte, que me fascinam, né, que eu acho que é uma das coisas mais legais de ver, que são esses momentos humanos por trás de tudo isso.

Porque todo mundo treina, todo mundo tenta fazer seu melhor, mas por trás tem um ser humano que tá ali lidando com inúmeras outras coisas, né? Todo mundo tem alguma coisa que tá acontecendo na sua vida e que tá carregando junto nesse momento também. Então, em alguns momentos, as pessoas entregam isso ou mostram um pouquinho disso, e é legal poder capturar um pouco dessa verdade universal assim.

MBMichel Bogli

E é legal a gente dizer uma coisa que me ocorreu agora para ficar claro para quem tá ouvindo e assistindo. Quando você— a gente queria registrar a nossa ida em 95, né? Eu não lembro nem como é que surgiu você, mas para mim foi uma escolha meio óbvia, né? O Milton era dentista e tal, mas não é que assim, ah, vamos chamar o Inácio para ele ser o fotógrafo. Não, Inácio é integrante da equipe, você vai dirigir, você vai navegar, você vai ficar segurando os holofotes à noite que podia, né, para iluminar a estrada nas descidas e tal, vai encher garrafinha e ainda vai fotografar, né.

Então assim, e você topou na hora, né, assim, você falou, não, cara, eu vou ficar lá, vou fazer tudo que tem que fazer, mas eu vou dar meu jeito de fotografar. E se eu não me engano, a gente colocou como prioridade, ó, cara, você vai ter que primeiro trabalhar assim para ajudar a equipe, o ciclista.

IAIgnácio Aronovich

Segundo ano foi mais ainda, linda isso, né? Eu acho que no primeiro ano eu tive um privilégio de ter mais tempo para fotografar. No segundo ano eu lembro que assim teve desentendimento de equipe, que eu olhava e falava assim, me dá esse notebook aí, vamos navegar isso aí, vai, é para lá o caminho, vamos, né? Deixa eu dirigir que eu vejo que o cara tá saindo da estrada ali sem dormir, vai dormir um pouco. Então acontecia isso, né?

MBMichel Bogli

Mas isso é mais, não é mais legal para vocês?

IAIgnácio Aronovich

Eu acho que é mais legal no sentido de que você tá documentando, você tá vivendo Você tá vivendo aquilo, né? Você tá vivendo tudo, você tá junto naquela roubada, naquele perrengue, naquela situação de limite. E você pode não estar na performance na bike, mas você tá ali sem dormir, sem tomar banho, com os outros, né, que também tem que registrar.

MBMichel Bogli

Mas você tá vivendo tudo que a equipe inteira tá vivendo, né?

IAIgnácio Aronovich

Eu acho um privilégio enorme, né, poder ver de perto, poder ter feito uma competição que é o prêmio da Brama ainda. Tem martelo ainda? Não, não tem mais.

MBMichel Bogli

Eu pensei em trazer um martelo aqui, cara.

IAIgnácio Aronovich

Tenho Para mim, o martelo é tão simbólico.

MBMichel Bogli

Além do martelo que eu uso para martelar em casa, eu tenho 3.

IAIgnácio Aronovich

É muito simbólico que o prêmio da Olimpíada seja um martelo.

MBMichel Bogli

Naquela época era legal demais.

IAIgnácio Aronovich

É muito roots.

MBMichel Bogli

É muito roots. Então assim, não, e é um martelo comprado, né, na casa de ferragens. Não é um martelo artesanal, artístico, feito.

IAIgnácio Aronovich

Eu acho super simbólico o martelo. Tipo, dá na cabeça do cara. Que ideia foi essa, né? Tipo, de ficar pedalando sem parar. Vai contra tudo que eu acredito muito no sentido de você quer atravessar Estados Unidos, curte o caminho. E não tem curtir o caminho, é tipo só performance, soca a bota e vai, né? Então assim, eu acho que é bem como outras competições que tem, sei lá, você pega a Barkley, você pega umas competições bizarras assim, você fala, nossa, é tipo é um sufferfest, né, meu?

MBMichel Bogli

Muito, muito, muito. Você tá acompanhando? Não sei se você ouviu o meu episódio com a Manu Villaseca, que agora tem essas provas de 400 300 km, 500 km. A última ela passou mal lá, eu mandei uma mensagem para ela, eu falei, ó, por acaso eu ouvi um podcast com a menina que ganhou e bateu o recorde total da prova.

IAIgnácio Aronovich

Sensacional! E ela usou a Manu como uma referência, ela citou, e foi melhor premiação, melhor reconhecimento que pode ter.

MBMichel Bogli

Ontem, cara, que legal! Meu, mano, ficou super contente, que ficou emocionada.

IAIgnácio Aronovich

É bonito de ver, né?

MBMichel Bogli

Uma pessoa legal, né? E a Manu tá mais nessa pegada agora, Agora, né, já tá numa fase da carreira que não quer mais necessariamente vencer a qualquer preço e tal. Ela quer mesmo é trazer essa inspiração.

IAIgnácio Aronovich

Você sabe muito bem, tá vivendo isso, que é assim, uma coisa que eu noto agora com o passar do tempo tudo é que tem um preço alto a pagar por fazer todas essas coisas, né? A conta chega, né? Eu lembro, encontrei a Robin no Michael Ocean e ela falando, ah, eu tive cirurgia de hip replacement, né, de prótese super comum, né. Aí eu falei, o que aconteceu? É overuse, não sei o quê, não sei o quê. Eu falei, mas e agora? Ela falou, ah, não consigo correr, mas eu consigo andar.

Então os caras, eu ando rápido e tudo bem, fala que dói. Então assim, eu vejo essa geração, né, que eu fotografei agora, a gente que não pode mais correr, que não pode mais, né, que sofreu lesões, tudo. Então a gente já entende que assim existe um é legal superar os limites, tudo, mas existe um preço a se pagar de longevidade, de qualidade de vida mais na frente, né? E que isso existe, né?

MBMichel Bogli

É, isso é uma— ainda é um sentimento dúbio aqui para mim, sabe? Tudo isso, você sabe que eu pus 3 estentes, né? Então tem uma carga genética, não tem como não ter, mas parece que pelas últimas pesquisas mais recentes tem uma relação direta com o endurance praticado durante muitos anos.

IAIgnácio Aronovich

Faz sentido, né?

MBMichel Bogli

Faz sentido. Então assim, e às vezes eu fico pensando, né, cara, por sorte eu não tenho nenhum impedimento para nada, mas eu tenho 3 estentes, né? Assim, eu sou um doente do coração, né? Quando eu vou fazer qualquer exame, eu tenho que dizer, eu tomo remédio diariamente, permanente, e tem um problema cardíaco que tá resolvido, mas eu tenho aqui 3 coisas que não são minhas, que estão, não me pertencem, mas eu tô aqui vivendo com elas. Então assim, ainda é polêmico, cara.

IAIgnácio Aronovich

E eu fico pensando, né, eu lembro de você em dezenas de momentos que eu fotografei que você tava assim indo além do limite, com, né, cara.

MBMichel Bogli

Eu falei outro dia também para um cara aí lá no clube, eu falei, cara, teve um triatlão de Porto Seguro, né, que era o meio Ironman de Porto Seguro, esse que você falou aí do Tchutchunchong, que, cara, a minha, com esse meu polar que tá na foto do livro aqui, que era um polar televisão, A minha média, não pegando a natação porque não tinha como medir na natação, minha média deu 182 batimentos. Não foi nem o melhor, melhor 70.3 que eu fiz, melhor meio aerométrico.

E claro que eu fiquei quebrado depois, eu medi direitinho que eu fiquei muito estragado. Não era para ter ficado tão assim. Mas, cara, a gente fez coisas por ignorância total. E claro, quando a gente é jovem, né, a gente dá respostas como você deu a resposta lá para mulher do Galoasi, a gente, a gente não sabe, abusa. E eu fico pensando hoje nessa minha perspectiva, que eu tô aqui desse lado da mesa de conversar com pessoas de muito menos idade e que estão performando absurdamente, para saber se da maneira como hoje o esporte evoluiu, conhecimento, métricas, nutrição, recuperação, né, que as pessoas chamam de recovery, mas é praticamente uma disciplina.

Acho que dá para ser considerado uma disciplina do seu treinamento, é o recovery. Como é que essas pessoas vão estar daqui algum tempo se dessa maneira como eles estão treinando hoje, que não é mais, mais, menos, mas é talvez com uma orientação muito melhor, se eles vão ter menos sequelas? Agora, alguma coisa todo mundo vai ter que chega nesse nível e que principalmente desses esportes de ultra resistência. Você vê a Manu, né, não conseguia correr, mas ela foi fazer 3 provas de 400, 500 km a pé.

Aí você fala, cara, a cabeça do ser humano é fantástica, né? Mas o corpo às vezes não aguenta isso, né, cara? E cada um é cada um. Tem gente que ainda tá super bem, tem gente que não tá bem. Eu me considero que eu tô até bem porque eu consigo fazer as coisas, exato. Mas tem gente que tá afetado, tipo um Leandro Macedo, acho que o Galíndez já não consegue nem correr porque tem dores constantes, né? Eu gravei agora recentemente com Walter Tucci, fez o Ironman agora depois de tantos anos, cara, tem 65 também, quis fazer um Ironman, que é legal, né?

Você fala, pô, o cara de 65, né? Mas ele quis fazer, mas ele quase não correu e ele teve que andar muito na maratona, mas ele fez um Ironman. Para ele aquilo lá significou muito pessoalmente, mas Enfim, vamos ver o que que os jovens, né, vão levar dessa vida jovem onde eles estão fazendo tipo um Miguel Hidalgo desses, que, cara, voa, né, o Messias que corre um absurdo, para ver como é que eles vão estar com 30, como é que eles vão estar com 40 e depois, né.

Porque uma coisa que a gente não tem a noção quando a gente é garoto, não sei se você também tem isso, Inácio, mas assim, a gente achava na nossa época que 40 era muito. Nossa, 50 então, cara, já morreu, acabou, tá aposentado, vai morar no Guarujá e acabou a vida.

IAIgnácio Aronovich

Aqui, né?

MBMichel Bogli

A gente já tá na sobrevida, né, da nossa, da nossa ótica quando a gente tinha 20 ou 30 anos. Mas a verdade é que qualquer atleta de alto rendimento, ou de médio rendimento, ou de baixo rendimento, mas que se aventura em fazer um Ironman, uma Cape Epic, um Race Across America, então, cara, ele vai viver muito mais anos, vai, pós-atleta, o pós, desempenho do que ele vai viver com o desempenho, né? E como é que vai ser a vida, né, desse cara?

A gente que tem filho pequeno, é isso, cara, você tem que dar um pique, cara. Exato, né?

IAIgnácio Aronovich

E você tá encurtando tua vida, você tá alterando tua qualidade de vida, né, futura. E qual que é o preço que você paga por isso, né?

MBMichel Bogli

Isso, isso.

IAIgnácio Aronovich

Mas eu acho que a evolução que a gente tem, tanto de suplementação como todos os estudos sobre, né, qualidade do sono, recovery, tudo isso Eu acho que eles apontam para uma coisa, a gente se pode otimizar e não acabar, mas minimizar um pouco, ter menos sequelas, para que você ainda tenha uma vida funcional, ativa e com qualidade, independente de até quando que você chegue de idade.

MBMichel Bogli

Mas eu acho que esse é o caminho, assim, eu até acredito, talvez com algum grau aí de certeza, que, cara, os médicos talvez já preveem isso. Né, com o avanço nos conhecimentos de todas as áreas que envolvem aí o uso do corpo, talvez essas pessoas, como esses que eu citei, o Miguel Hidalgo, Manuel Messias, que correm muito, vão chegar com 40 sem ter que fazer uma reposição de quadril, né, porque eles estão fazendo muito mais fisioterapia, muito mais recovery, muito mais acompanhando.

Não deixam de exigir do corpo, mas exigem de uma maneira que de alguma maneira tá preservando, né? E isso eu não vou entrar aqui no mérito da questão porque agora acabou o nosso tempo, mas assim, quando João Paulo faleceu, cara, foi uma coisa que me— porque foi nessa época, né, cara, que ele teve o diagnóstico. Lembra que a gente foi com lancha e o Abílio não queria deixar?

IAIgnácio Aronovich

Eu vi recentemente o Zolino também fazendo até campanha, tudo, tá muito legal.

MBMichel Bogli

Então assim, o João escolheu viver ainda uma vida esportiva, ele ele puxou muito a bola para baixo, ele realmente se acalmou, mas ainda continuou no nível que para 99,9% dos humanos é absurdo, né? Mas me colocou em perspectiva o meu próprio problema do coração. Eu falei, cara, putz, né? Aí assim, eu ainda não tenho uma opinião formada sobre isso, sabe, cara? Mas eu acho que isso é legal de ser, enfim, discutido e levantado e abordado, porque eu acho que as pessoas têm o direito de saber isso.

E naquela época a gente não tinha nem noção nenhuma, cara. A gente não tinha, não se falava disso. A gente se achava e era considerado super atletas, e eram super atletas na época, mas era um lado meio inconsequente dessa história. É assim, tipo, e aí, o que que vai acontecer com você quando você tiver 40 anos? Você fala, não vou pensar em 40 porque não sei nem se eu vou estar aqui, né? Então assim, é essa ambiguidade ainda me gera algum, enfim, alguma reflexão para terminar.

Todos esses anos, cara, fotografando e vivendo todas essas experiências, Inácio, que eu imagino que, cara, você é um dos convidados que eu tenho inveja, no bom sentido. O Rafael foi um deles, Rafael Campos, pelos lugares que ele viajou e tal, pelo que ele viveu. Mas você é um desses que eu falo, meu, por onde você passou eu queria ter tido, sabe, um uma oportunidade de viver 10% do que você viveu, porque eu acho que deve ser mágico, né?

E com certeza isso te mudou, né, no alto dos teus 56 anos. Como que isso mudou? Como que isso, como que você se enxerga? Como que você mais se transformou pela vida que você levou, que tá intrinsecamente ligada à fotografia, a tudo isso que a gente conversou aqui nessas 2 horas?

IAIgnácio Aronovich

É uma pergunta muito boa. É difícil de responder. Eu acho que a gente consegue. Eu me coloco no lugar de primeiro de agradecer a cada dia, de entender que a vida— eu pedi muitos amigos na pandemia, eu pedi por ter circulado por tantos meios diferentes, do esporte para arte, para um monte de coisas diferentes no meio disso tudo. Na pandemia eu pedi uns 30 40 conhecidos, né? E eu saí do Facebook porque eu me sentia escrevendo um obituário, um escritor de obituário.

Todo dia eu tava memorializando alguém, publicando a foto de alguém e lembrando de alguém que tinha, e relatando qual que tinha sido o impacto dessa pessoa na minha vida, como tinha sido o privilégio de conhecer essa pessoa, tudo. Então eu lembro disso como uma coisa que me fez repensar muito e de dar valor, né, a cada dia. Eu Eu começo o meu dia todos os dias agradecendo o privilégio de estar aqui. Eu acho que a vida é um privilégio muito grande.

Eu agradeço as oportunidades que eu tive. Eu sigo me sentindo como um aprendiz porque a gente— eu tive o privilégio também de acompanhar essas mudanças, né? A gente é uma geração que saiu do analógico, do filme, tudo para o digital. E tava voando de helicóptero, agora tem drone. E tava publicando em meio impresso e agora tá tudo né, online. Então eu não sou saudosista no sentido de falar, nossa, naquela época que era bom, não sei o quê.

Pelo contrário, eu acho que é um privilégio enorme. Eu sou muito agradecido por ter vivido tudo isso. E eu acho que o aprendizado é o aprendizado de apreciar a vida, no sentido de que você tem a oportunidade de estar aqui por um período que é breve. Eu perdi já muitos amigos. Então isso é uma coisa que sempre causa reflexão, de entender que a gente tá por um período curto e de entender que cada dia conta, né, que cada dia a gente deve fazer valer a nossa, esse presente que a gente tem, que é a vida, de poder estar aqui e de se esforçar para tentar fazer com que a nossa interação com as outras pessoas seja uma coisa que de alguma forma seja sempre uma soma, seja sempre positivo nessa troca que tem de se relacionar com pessoas, né.

Então eu tenho privilégio agora de ter um filho Eu acho que eu aprendo tanto com ele quanto eu posso tentar ensinar para ele, de tentar, depois de todas essas experiências, entender que no fim a gente é muito parecido, né? Assim, tem uma coisa, tem coisas universais, né, nos seres humanos, e que são, que me atraem, que me fascinam, que são essa coisa da experiência humana, de passar por aqui. A gente tá no momento com muitas mudanças no mundo, de coisas de tecnologia, de coisa climática, de muita coisa acontecendo, e ainda assim ter um olhar de fascínio, de curiosidade para todas as coisas, e tá feliz em poder ter a oportunidade de estar aqui e de aprender que a gente ainda é aprendiz em tudo, né?

Embora a gente tenha uma soma de experiências e bagagem, tudo, ter a humildade de entender que a gente tem muita coisa para aprender em todas as áreas e que É um privilégio muito grande estar aqui e poder ter essa oportunidade de viver.

MBMichel Bogli

E você segue se surpreendendo com o ser humano, né?

IAIgnácio Aronovich

Todos os dias, né? Para bem e para o mal, assim, para tudo, né? A gente, eu acho que a gente tem uma gama, né? Eu acho que as coisas menores, né, no dia a dia, isso como pai você vê isso diariamente, né? No trabalho, ou a forma que você se relaciona, como você interage com as pessoas, tudo. Então eu acho que tem, é muito rico, né? A gente ainda tem muita coisa para fotografar, muita coisa para ver, muita coisa para ter experiências.

Então eu tô acompanhando agora o Pedrão na REM, eu tô acompanhando as coisas, eu vejo as mudanças e vejo, né, como estão acontecendo essas coisas a cada, e como as coisas mudam e evoluem. Algumas coisas pioram, outras melhoram, outras coisas são só diferentes. E eu acho isso fascinante assim. Acho que é isso.

MBMichel Bogli

Qual que é o teu Instagram mesmo? Igoronovic, tudo junto. É, o teu sobrenome é difícil de soletrar, mas eu vou colocar no post do episódio de hoje, tá aqui na capa do episódio também para quem tiver assistindo e ouvindo. Inácio, muito obrigado, cara. Fazer um brinde aqui à saúde, meu. Vida longa aí para você. Aliás, a tua profissão não tem prazo de validade, né, cara? Você pode fotografar até 100 anos de idade, né?

IAIgnácio Aronovich

É, há quem diga que acabou a profissão também, dependendo de quem você perguntar, né?

MBMichel Bogli

Ah, eu duvido, cara.

IAIgnácio Aronovich

Eu acho que assim, a gente ainda tem uma arte, cara. É, acho que a profissão é uma coisa, a prática dessa atividade é outra, e eu não acho que uma coisa exclua a outra. Pelo contrário, eu acho que é uma coisa que ainda existem pessoas que têm interesse em ter registros e documentação e fotos e imagens de coisas verdadeiras acontecendo. Exato, é isso.

MBMichel Bogli

Eu acho que é uma coisa que nunca vai entrar em desuso, nem com a inteligência artificial, nem com robô. Vai ter robô fazendo foto, vai ter inteligência artificial criando imagens, sim, mas esse olhar que depende mesmo da retina e do cérebro de quem tá do lado de cá da câmera, acho que não vai conseguir ser substituído. Legal, cara, adorei. Muito obrigado, saúde para você. Foi um prazer.

IAIgnácio Aronovich

Obrigado pelo convite, sucesso para o Endorfino. Acompanho há Insiders, muito legal.

MBMichel Bogli

Valeu, obrigado, abraço, cara. Valeu, é isso. Muito obrigado a você também pela sua audiência. Espero que você tenha curtido mais esse episódio, o terceiro fotógrafo aqui no Endorfina. E eu vou te falar, eu devia estar chamando mais fotógrafos. Há alguns aqui já no meu radar. Se você tem algum fotógrafo que você gostaria de ouvir aqui, mande no meu Instagram e justifique like, né, qual é a sua motivação para sugerir. Já tive aqui a Rosita Belin, que já tive aqui muitos anos, a Fernanda Paradiso, que era especializada em corrida, é especializada em corrida, a Rosita Belin, que também aí cobriu aí muitos eventos muito legais aqui no Brasil e para o mundo afora.

E agora Inácio Aronovitch. Adorei bater esse papo com o Higgy. E muitas pessoas que o Inácio fotografou e que a gente Aventura juntos, obviamente já passaram pelo Endorfina. Notadamente aqui o João Paulo Diniz, meu amigão aí que já passou aqui dessa para uma melhor. O Daniel Aliperti, a gente falou aqui também do Marcelo Maciel. A gente não— a gente falou aqui da Xubi, falamos do Said, falamos do Said Ayak, a Xubi Guimarães. O Alexandre Freitas também já passou dessa aqui para uma melhor, mas já teve aqui o pai das coisas de aventura no Brasil.

É o Cid Lopes Cardoso, que foi o brasileiro aí que incentivou a ida dos brasileiros a primeira vez para o Race Across America em 94, e depois esteve conosco lá também 95, 97. Renata Falzone, quem mais que eu anotei aqui? O Nestor Freire, a gente não falou, mas o Nestor Freire também tem uma relação muito legal aí com a bike nessa história de chegar nas cidades, de fazer essa expedição, de as expedições de bicicleta. E foi isso que o Inácio falou aqui, uma certa altura me lembrei do Nestor.

Enfim, você encontra esse e todos os episódios do Endorfina aqui mesmo onde você tá consumindo esse episódio, seja no YouTube, seja no seu agregador de podcasts de preferência. Não se esqueça de dar um like, de comentar, de espalhar essa palavra do Endorfina, dos convidados do Endorfina, para quem você acha que pode curtir. E é isso, eu espero você no próximo episódio com mais uma história fantástica. Afinal de contas, quem é que gente não gosta de uma boa história, não é verdade?

Depois de tantas décadas convivendo com atletas e nos últimos anos ouvindo e aprendendo com os convidados aqui no Endorfina, está claro que evoluir no esporte não depende apenas de dedicação e consistência. Passa também por fazer boas escolhas, especialmente quando o assunto é equipamento. Saber o que faz sentido para o seu momento, para o seu objetivo e para o terreno onde você pedala faz toda a diferença. Atendimento você encontra na Tupix Bikes, patrocinadora do Endorfina.

A Tupix Bikes é importadora e distribuidora oficial no Brasil de marcas como a Factor Bikes, a Santa Cruz Bikes e a Yeti, além de outras referências do mercado. Mais do que vender bicicletas, vestuário e acessórios, a proposta deles é orientar você. A Tupix foi criada para atender quem busca dar o próximo passo no esporte, seja no ciclismo de estrada, no mountain bike, no gravel ou no triatlon. A lógica é simples: cada ciclista tem uma necessidade diferente, e o papel da equipe da 2Pix Bikes é ajudar você a fazer escolhas melhores, mais conscientes e mais eficientes.

Essa filosofia se reflete também nos espaços físicos. Na loja do Rio de Janeiro, o ciclista encontra manutenção de alto nível, bike fit, café e espaço para encontros e eventos. Em São Paulo, na Avenida Faria Lima, Além de uma oficina especializada, a unidade recebe clientes e amigos para treinos aos finais de semana. Já a loja de Los Angeles segue exatamente o mesmo padrão, a mesma curadoria e a mesma essência. Por tudo isso, é um prazer ter a Tupix Bikes ao lado do Endorfina.

E fica o convite: se você está buscando orientação para melhorar seu equipamento, entender melhor suas escolhas ou simplesmente pedalar com mais qualidade, vale conhecer a Tupix Bikes. Distribuidor oficial da Santa Cruz Bikes e da Yeti no Brasil. Siga @2peaksbikes. Eu vou soletrar: @2peaksbikes. Siga @2peaksbikes no Instagram. Obrigado por ouvir esse episódio do Endorfina. Acesse o endorfinabr.com, vá no post do episódio de hoje para conhecer um pouco mais sobre o meu convidado e alguns assuntos abordados em nossa conversa.

Lá você ainda encontra todos os episódios do Endorfina. Siga o Endorfina BR no Instagram e confira imagens inéditas e inusitadas dos meus convidados. Participe enviando comentários e sugestões. Se você curtiu, colabore assinando o Endorfina no seu agregador de podcasts preferido e compartilhando com seus amigos. We have the tech to get food delivered in 15 minutes, but we all have horror stories about buying tickets. The Gametime app gives fans the advantage. Get amazing tickets in just a few taps.

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