“CONHECI A MALDADE HUMANA NO CONVENTO”, REVELA EX-FREIRA | Bruna Miranda - LendaCast #297
A ex-freira e educadora social, Bruna Miranda, retorna ao LendaCast para falar tudo o que viveu dentro do convento.
- Abusos sexuais na Igreja CatólicaHipocrisia e contradições internas · Abuso sexual por parte de clérigos · Patriarcado e repressão à sexualidade feminina · Influência política e apoio a candidatos · Omissão e silêncio diante de abusos · Padre Roberto Littieri · Padre Jonas Abib · Frei Gilson · Padre Eduardo Doget · Salvatore Cernúzio · Livro "Amor Ferido" · Livro "O Velho do Silêncio" · Teologia da Libertação · Renovação Carismática · Opus Dei · Canção Nova · Toca de Assis · Instituto Reste · Servas da Alegria · Bispo abusador de freiras
- A vida conventual como espaço de liberdade e resistênciaAbuso de autoridade e psicológico · Votos de pobreza, castidade e obediência · Rituais de trote e violência · Falta de liberdade e controle · Diferenças de tratamento entre freiras e leigos · Manipulação e controle psicológico · Desvalorização da identidade individual · Venda de artesanato e desvio de fundos · Trabalho com crianças em vulnerabilidade · Madre Maria José do Espírito Santo · Congregação das Carmelitas Mensageiras do Espírito Santo
- Papel da mulher em religiõesRepressão da sexualidade feminina · Dificuldade de expressar a sexualidade · Homossexualidade e vida religiosa · Abuso sexual e desejo reprimido · Votos de castidade e sua interpretação · O papel do homem na igreja versus a mulher · Brendo Silva · Padre Fábio de Mello · Augusto Cury
- Espiritualidade e autocuidadoEspiritualidade livre e não religiosa · Tarô como ferramenta de autoconhecimento · Crítica aos dogmas e doutrinas religiosas · Conexão com a natureza e o universo · A busca pela verdade e conhecimento · Santa Teresinha de Lisieux · São Francisco de Assis · Baralho Cigano
- Papel da religião na sociedadeO perigo da extrema-direita e fundamentalismo religioso · Anulação de minorias e diversidade · A relação entre religião e política · A importância do Estado laico · O papel da educação e do conhecimento
Olá, trevosos e trevosas, seres das trevas! Aqui é Daniel Pires, em mais um episódio do LendaCast, o seu podcast de terror e horror, talvez, para ouvir antes de dormir. Por que eu falo talvez? Porque a minha convidada de hoje já veio o LendaCast uma vez, em um episódio bastante polêmico, o que eu acho que não deveria ser polêmico, mas deveria ser mais esclarecedor do que polêmico, porque ela foi freira durante...
grande parte da vida dela, dedicou muito da vida dela para a igreja católica, como uma religiosa, fez os votos e tudo mais, e viu algumas coisas dentro do convento, algumas atitudes, algumas situações que não condizem com a igreja amorosa do pai, com os ensinamentos de...
Jesus, e aí sofreu bastante com essas situações e quando sai da igreja resolve falar sobre isso. E é um ato de muita coragem, ao meu ver. Aqui no Lenda Cast é um espaço que a gente ouve todos os lados e a gente também vai ouvir esse lado dela. E da outra vez ela vem junto com o Brendo Silva, que é o autor do livro...
A Vida Secreta dos Padres Gays. Eu amo esse título, um parênteses. Mas... Eu amo esse título. Acho incrível. Mas ela veio junto e o Brendo já veio sozinho depois daquela entrevista e agora eu queria entrevistá-la sozinha, porque eu tenho certeza que tem sempre coisas a mais pra... Não é pra remoer, mas pra gente ouvir e descobrir de que a Igreja Católica...
A Santa Igreja Católica não é tão santa assim. Com vocês, senhoras e senhores, a ex-freira, que hoje é educadora e taróloga. Inclusive, ela falou, não esquece de falar que eu sou taróloga. Bruna Miranda! Bem-vinda de novo. Obrigada, quero agradecer você pelo convite. Adorei estar aqui com você. Obrigado você, querida. E mais uma vez aqui, a energia é maravilhosa. Você gosta? Estar com você, adoro. É um ambiente maravilhoso.
Ai, que bom, obrigado. Gente, aqui é muito lindo. Tem um monte de coisa interessante. Obrigado. É muito bom. Acompanho o seu podcast, seus vídeos. Ela fala que é lindo, Sário, o meu cenário. Então, povo, não te deu medo. Não. Tem muitas coisas interessantíssimas. Boa. Ai, Bruna, obrigado. Imagina. Obrigado. Porque cada vez mais eu quero que os convidados e convidadas do LendaCast sintam-se acolhidos aqui em casa. E da outra vez foi um papo bom, né? Só que foi polêmico, né? É.
Sempre é, não tem como, né? O assunto que eu trago não tem como não ser polêmico, porque vai mexer em ferida, vai doer em algumas situações, né? Vai escancarar algumas situações que não é agradável de ver, mas que é importante ver pra quê? Pra você só ficar falando, ah, errado, errado, não. Pra transformação.
de situações dentro da própria igreja, para você repensar a vida até mesmo das freiras. Porque eu vejo no meu Instagram que muitas freiras vêm ver, né? Meu Instagram. Fica as freiras assim, só assim, ó. Isso. Todos os dias sempre tem alguém. Então, eu acho que se vem, é porque está gerando movimento. E não vem ninguém falar, você está errada. Não vem. Quem fala que eu estou errado são os leigos. Os religiosos não vêm, nem padres.
Quem fala que você está errada é quem nunca entrou ou num seminário ou num convento. Isso. Geralmente os leigos que é a galera que vai à missa. Isso. Que participa da igreja como povo de Deus. Isso, os leigos. Como povo de Deus. São eles que vêm e criticam as coisas que eu falo e dizem que é mentira. Agora, quem é religioso e padre é raramente alguém... Se você for procurar, por exemplo, no YouTube, alguém falando contra mim, uma freira falando o que a Bruna Miranda diz é mentira, você não vai encontrar. Eu já pesquisei.
Não vai, não vai. Porque o que eu tô falando é real. Infelizmente. Mas pode mudar. É verdade, você fala isso, né? Infelizmente é real o que você passou. Porque, inclusive, eu quis trazer você sozinha, igual eu falei na abertura, Bruna.
Porque da outra vez eu senti o seguinte, foi o primeiro impacto. Então o Brendo tava lançando um livro, eu já tinha, eu aproveitei o lançamento também, eu já tinha visto uns cortes seus em outros podcasts. Aí eu falei, bom, eu queria uma visão de um homem que estudou pra ser padre e uma mulher que estudou pra ser freira, né? E foi um, assim, eu acho que foi como uma porrada no estômago de muita gente assim. Porque, gente...
Tem tudo isso dentro da Igreja Católica, nos bastidores da Igreja Católica, e inclusive os seus relatos, pra mim, não que os do, pelo amor de Deus, não que os do Brendo não foram tão pesados, mas alguns que você me contou, aquele do gelo, que a gente pode contar, recontar aqui hoje, que você pode recontar, mas o do gelo, das coisas que você vivia lá, pareciam muito surreais. Até pra mim, que estou acostumada a ouvir.
histórias, digamos assim, impactantes ou polêmicas. E aí, por que eu te chamei de novo sozinho? Até pra falar sobre essa repercussão que teve da outra vez. Porque eu vi muitos comentários da galera realmente...
Duvidando de você. Sim. Falando que você nunca foi freira. Tem isso normalmente. Sim. Por isso que eu sempre faço questão de colocar as fotos no meu Instagram. Sempre tento mostrar a realidade. Documentar. Eu tenho muita coisa também que eu não mostro. Escritos. Por exemplo, eu tenho uma carta da madre. Que ela escreveu pra mim que é muito violenta. Ela fazendo várias acusações. E ela escreveu a mão. Eu tenho uma carta aberta que eu escrevi pras irmãs em 2022.
EFA relatando a expulsão de uma irmã de 22 anos de vida religiosa. Só que se eu soltar essa carta, vai ser um escândalo. Então, assim, e o que acontece? Como elas sabem que eu estou falando e que eu tenho provas, então nem eles nunca vieram fazer uma manifestação pública e falar o que a Bruna está falando é mentira. Nunca. A congregação veio. Eu tenho prints de irmãs do convento que, quando eu falei a primeira vez, algumas pessoas foram até as irmãs. Inclusive uma irmã que é muito famosa, que ela é da música das irmãs.
E ela falando, aquilo que a Bruna fala é real. Tudo aconteceu, é fato. Mas hoje não é mais assim. Ela quis dizer que hoje não é mais. Que mudou. Claro, algumas coisas mudaram porque a Madre foi destituída do cargo. Ela foi retirada pelo Vaticano. O próprio Vaticano retirou ela do cargo por abuso de autoridade. A Madre. A Madre fundadora. Que a gente fala de... É certo falar Madre Superiora?
É que superiora, ela é a superiora, ela é o cargo maior. É como se ela fosse o papa da congregação. Só que no caso de onde eu estava, além dela ser amada e superiora, ela era fundadora. Ela fundou aquela congregação. Então ela tinha um status muito maior. Por ela ser fundadora, ela é a portadora. Tipo, a igreja, em seus documentos, diz que o fundador é o portador do carisma. Então existe o quê? Uma ideia de santidade em volta de um fundador de uma comunidade.
Seja qual for, seja das carmelitas mensageiras, seja na Canção Nova. Por exemplo, você conhece a Canção Nova? Não tem o padre Jonas, que é o fundador da Canção Nova? Jonas Abib, né? Isso. Existe em volta dele uma aura de que ele é santo. Por quê? Porque ele é fundador. Mas ele mesmo, por exemplo, saiu da congregação dele. Ele era salesiano. Ele saiu dos salesianos e foi fundar a Canção Nova. Então, assim, são várias histórias e as pessoas criam uma ideia, uma mística em volta dessas pessoas. Mas, na verdade, são pessoas humanas. E...
Por exemplo, a Toca de Assis. Não sei se você conhece, que é muito famosa. Eu conhecia na época que eu era de grupo de jovens. Eles andavam com as roupas... Marrons. De São Francisco, né? Isso. Dos capuchinhos. Era conhecido como toqueiros. O fundador deles também foi destituído, foi tirado do poder. Quem que era o fundador? O padre Roberto Littieri.
Sim, ele foi retirado. Eu lembro do Roberto... Gente, você... Pum na minha cabeça agora, Jaque. A Jaque tá aqui também com a gente que veio da outra vez. Bem-vinda, viu, Jaque? Obrigado por vir. Tem uma voz linda. Daqui a pouco a gente separa pra ela no microfone, que elas vão cantar no final. Brincadeira. Mas o Roberto Letieri, ele era o fundador da Toca de Assis? Sim, ele foi destituído. Ele não pode celebrar. Ele vive isolado. Por quê? Foi afastado por acusações de abuso de autoridade, abuso sexual.
Sim, só que tem uma galera que não acredita. Você sabe por que eu tô com a boca do Máscara, né? Sabe por quê? Nossa, Roberto, você falou num nome agora, que eu me lembro que na época do grupo de jovens, tinha imagens desse padre. Ele era um padre que acho que tinha uma barba meio branca. Isso, parecia o Padre Pio. Ele falava muito do Padre Pio.
O cabelo meio ralinho, assim. Verdade, parecia o Padre Pio. E aí, na hora da consagração, eu lembro que tinha um menino do meu grupo de jovens, lembro até hoje o nome desse menino. Aí ele chegou pra mim e falou assim, ah, você já viu esse padre, Daniel? Na hora da consagração, da transubstanciação na missa, ele se deita, ele chora. Eu achei lindo isso. Eu falei, nossa, que bonito. Eu era uma gay super católica.
super, ele ia com uma golinha assim. Eu falei, gente, que coisa linda. E era bem bonito mesmo, assim, a celebração dele, né? Ele levantava a hóstia e chorava. Ficava um momento muito longo, né? Um momento longo, com música de adoração, aquela coisa. Ele se prostrava, falava, gente, que coisa linda.
E ele foi afastado? Sim, por abuso sexual, por abuso de autoridade, por várias questões. E hoje ele vive lá na TV Século XXI, mas ele foi acolhido pelo padre Eduardo Doget, que é o fundador da TV Século XXI, as últimas informações que eu tive. Ele vive lá, mas ele não pode celebrar missa publicamente.
Só que aí ele se apresenta como injustiçado. Ele se apresenta como se ele fosse o Padre Pio. O Padre Pio não foi proibido pela igreja de celebrar a missa? Uma época foi investigado. Isso. Só que o Padre Pio era uma outra questão. Era por causa das chagas. Uma questão diferente. Mas o Padre Littieri não. E aí ele foi retirado. A Toca de Assis passou também por... Isso se chama intervenção canônica.
Então vem lá do Vaticano um representante, vai estudar a congregação, vai investigar a congregação e se ficar provado que o superior ou o fundador tem os erros graves na esfera moral, criminal, enfim.
Nessas esferas, é destituído do cargo. Então, a Madre Maria José do Espírito Santo, que é a fundadora da minha congregação, que é a congregação do Frei Gil, ela é destituída do cargo. Mas, nas redes sociais deles, eles postam ela como santa. Tipo, ela fez aniversário no dia 11 de março. Eu não esqueço o aniversário dela até hoje. E aí eu vi lá... Eu amo que a Bruna lembra o aniversário. Hoje é aniversário, olha lá de quem.
Não, é. E aí eu vi um post que eles fizeram dela falando da santidade dela, que ela é a portadora do carisma, que através do sim dela aconteceu, né? A fundação dos irmãos e das irmãs. Eu achei um absurdo, porque coisas que ela fez, por exemplo, a história do gelo, ela fez comigo e com tantas outras. Isso não é só um abuso, é um crime, né? Você tá fazendo uma violência de esfera sexual. Só que na época...
Na época, não tínhamos noção disso. Porque a gente vai entender o processo, demora-se anos. Como você falou, eu fiquei bastante tempo e depois eu saí e falei. Eu fiquei quase nove anos como freira, todos os processos. Eu demorei dez anos pós saída para falar. Então, foram dez anos depois que eu saí para me formular dentro de mim o que eu tinha vivido. E para mim decidir fazer a primeira live e começar a contar.
Quando eu saí, eu prometi pra minha formadora, eu não vou falar nada do que eu vi aqui. Ah, teve essa promessa. E ainda eu não contei nem pra minha família. Eu demorei dois anos, pós saída, pra minha família começar a descobrir. E a minha família ainda descobriu coisas assistindo live, coisas que eles não sabiam. Então, assim, é um processo muito difícil de você entender. Porque muitas pessoas falam assim, mas por que você não saiu antes? Porque eu não deixava, a gente era presa.
Trancava a porta, tinha a irmã que era da portaria Quando tinha alguma freira em crise Já deixava avisado, ó, fulana tá em crise Porque era assim que chamava Então aquela irmã já tava responsável de não deixar você sair A gente tinha o hábito de andar de duas em duas Então a gente era constantemente vigiada Então a gente só ia sair com irmãs Que eram de plena confiança das formadoras Então tinha toda uma questão ali Teve várias freiras que fugiu Teve freira que pulou o muro Que machucou a coluna Essa freira, ela sempre conversa comigo E aí
Eu falo pra ela, eu queria muito que você contasse a sua história, porque o que aconteceu com ela? Ela pulou um muro da chácara flora. Quando ela pulou, ela caiu e batou a coluna. Aí ela saiu correndo, pegou um ônibus e foi parar numa congregação que acho que é as filhas de São José. Essas irmãs acolheram ela e ela ficou na cama, ela ficou travada por causa da coluna.
E as irmãs ligavam para a Madre e falavam assim, eu quero o documento dela para poder levá-la no médico. E a Madre falava, não vou dar. Que ela falou para ela ficar aleijada porque ela tinha sido desobediente. Jogou praga nela para ela ficar aleijada. Aí demorou uma semana. Essas freiras falaram, se a senhora não der o documento dela, nós vamos entrar na polícia.
Aí as filhas deram o documento e essas outras irmãs da congregação das filhas de São José ajudaram essa irmã. Então, às vezes eu converso com essa irmã e falo, eu queria muito que você tivesse coragem de contar a tua história. Porque, tipo assim, desejar que uma pessoa fique aleijada porque ela pecou contra a obediência. Então, para a madre, todas que saíam eram prostitutas, iam trabalhar como prostituta. Ela sentia prazer em contar se acontecesse uma desgraça. Eu saí, sofri um acidente, ela contava isso com prazer lá dentro.
Porque era como se fosse um castigo de Deus porque você foi infiel. Tipo, olha lá, você viu o que aconteceu com a Bruna? Mas ela não falava Bruna, ela falava defunta. Porque lá não se falava o nome de freira que saía. Ela dava algumas dicas de quem era, mas toda irmã que saía era defunta. E isso não é só na minha congregação, porque aí eu quero mostrar uma coisa que eu trouxe aqui. Esse livro aqui...
Ele foi escrito pelo fotógrafo do Papa Francisco. Ele é italiano. O Velho do Silêncio, posso dizer? Isso, pode. E eu encontrei esse livro e eu fiquei chocada, porque aí tem relatos de congregações do mundo inteiro. Ele reuniu esses relatos, isso. E neste livro, várias meninas, várias de outras congregações, relatam que nas congregações dela era chamado quem saía de defunto. Então isso faz parte de um modus operandi da vida religiosa.
Quem escreveu esse livro é o fotógrafo do Papa Francisco. Salvatore Cernúzio. Isso. E aí foi lançado aqui no Brasil. Então, abusos, violências e frustrações na vida religiosa feminina. Tem vários relatos pelo mundo. Estudos que a própria igreja faz sobre essa realidade. Então, isso aqui vem falar a meu favor.
Tem esse outro livro aqui, que a própria congregação que eu fiz parte, as carmelitas, elas ousaram fazer um amor ferido, abusos na vida consagrada e caminho para a cura. Eu venho aqui e denuncio a congregação delas, mas elas lançam um livro falando sobre abuso na vida religiosa.
Só que não foi elas que escreveu Elas traduziram, que é de um padre da cartucha Mas elas vendem aqui no Brasil Entendeu? Elas são responsáveis pela tradução aqui no Brasil Em língua portuguesa E vende dentro da loja delas Então, isso saiu até no Vaticano Então aqui, são livros que estão falando Sobre essa realidade Desculpa
Se você ler esses livros aqui, você vai ver. E o livro do Brendo também, que eu gosto de mostrar aqui, também traz um pouco disso. Ele fala na esfera da sexualidade, né? Mas também tem a questão do abuso. Porque muita questão da sexualidade entre jovens ali é abuso sexual. Você pega um menino de menor de idade...
E o do Brendo é, no caso dos homens, seminaristas, né? Isso. E os outros dois, no caso das mulheres. Isso. Mas pra você ver a diferença do patriarcado na igreja, porque o Brendo, a liberdade dos padres de viver a sexualidade é muito maior do que a das mulheres. Eu tava conversando com ele esses dias e eu falei, Brendo, enquanto eu estive no convento, eu nunca soube dessas histórias que você narra. Eu não sabia. Ele vai me contando hoje. Eu falo, a gente vivia, isso era escondido de nós.
E nós, como freiras, não podíamos expressar nossa sexualidade, era muito vigiado. Então, a sexualidade da mulher na igreja é muito reprimida. Os padres falam contra, para os leigos, mas eles vivem abertamente dentro da instituição. Já as freiras, é muito mais difícil você ver, por exemplo, um caso de duas irmãs que são namoradas. Existe? Existe. Mas é muito mais difícil. Eu, no período que estive, nunca vi.
De que uma se apaixonou pela outra. Houve um caso esses dias. Mas existe, mas era mais difícil. Por quê? Porque a gente não podia expressar os nossos sentimentos. Tudo era muito reprimido. Então, não é que não existia. É que não havia espaço para que isso acontecesse. Porque a vida religiosa feminina é muito mais austera do que a masculina. E principalmente quando é seminário. Mas hoje, eu e o Brendo...
a gente estava conversando, que a gente tem uma percepção muito mais ampla de tudo, né? Porque eu comecei a falar de abusos, o Breno começou a falar mais da parte da sexualidade. Só que hoje, ele mesmo falou, hoje eu entendo tantos abusos que eu sofri ali dentro, na esfera espiritual, na esfera psicológica. Só que isso exige uma maturidade, exige conhecimento. A gente tem que olhar pra nossa história e entender que essas coisas acontecem. Infelizmente, gente.
gostaria de chegar e falar assim, minha vida no convento foi maravilhosa, é um céu, mas não é. Não foi, né? Não foi e não é, entendeu? É uma vida de renúncia, porque quem entra pra vida religiosa não vai fazer, não vai realizar os seus sonhos, você não tem liberdade, porque sempre você vai ter o voto da obediência, que vai te colocar ali, sempre a vontade de um superior.
Olha quanta coisa a gente falou, né? A gente foi do padre Roberto pra tudo isso. Não, mas eu acho que tem a ver, porque assim, quando você fala pra mim que o padre Roberto tem acusações de abuso sexual dentro da instituição, foi dentro da instituição? Sim, da Toca de Assis. Da Toca de Assis. Sim. E aí você falou do Brendo também, que ele contou, porque quando o Brendo me conta os relatos, né? Ele conta que...
Ele fala que muitas questões sexuais ele quis também lá dentro. E eu vi muita gente atacar ele nesse sentido de... Mas por que você quis? Por que você aceitou? Então, pelo que ele me conta, parece que... Ele até usa esse termo no livro. Há uma vida pulsante gay...
E ativa, né? Você falou também que os padres, muitos deles, continuam falando pros fiéis. Não pode fazer sexo fora do casamento. Sexo homossexual de homem com homem, mulher com mulher. Não pode. Mas quando eles estão fazendo. Sim. Sexo de três, de trisal, alugar chácara. Quando ele contou da chácara pra mim.
que os padres alugaram uma chácara de uma senhorinha, coitada. A senhora ia pensando que os padres... Alugaram, não, emprestaram. Emprestaram, nem alugou. Não, emprestou. A senhora ia pensando que o padre ia fazer o quê? Fazer a campanha da fraternidade. Os padres estavam fazendo suruba lá dentro. É, você não sabe o que acontece. E aí, quando ele contou isso... Então, quer dizer, você fala que na vida dos homens, eles... É...
falam pra sociedade uma coisa, aquele ditado, né? Faça o que eu falo, mas eu não faço o que eu mesmo digo, né? Nem sei se é o ditado desse, errei todo, igual Chapolin. Não, faço o que eu digo, mas não faço o que eu faço. Isso, faço o que eu digo, mas não faço o que eu faço.
E aí, só que nas freiras, então, a questão é assim, vocês não podem nem falar nada. Então, por exemplo, se tiver uma freira bissexual ou homossexual, por mais que ela tenha que fazer os votos, tem voto de castidade também, né? Sim, castidade, pobreza e obediência. Por mais que elas façam o voto de castidade, elas não podem nem falar sobre isso. Olha, eu sou bi, mas eu tô fazendo... Cala a boca, que bi. Tipo assim.
Não existe conversa sobre sexualidade. Castidade é apresentada assim. Você vai ofertar a sua vida a Deus. É assim que se fala da castidade. Não se fala, por exemplo, sobre questões de desejo, sobre o corpo da mulher, sobre a questão de menopausa.
Não, tudo isso é muito... É tipo anulado? Muito anulado. Uma coisa que eu tava pensando esses dias, quando chegava, por exemplo, tinha que um homem fazer uma manutenção em alguma coisa dentro do convento que quebrasse e as irmãs não podiam, não sabiam fazer. Porque a gente tentava fazer quase tudo. Quando não podia, que tinha que chamar, eu lembro que a preocupação das irmãs era esconder o calcinheiro, que tinha o lugar de estender as calcinhas.
Aí esses dias eu tava pensando, mas por que que quando entrava um homem, a preocupação maior era esconder o calcinheiro?
Que isso? Sabe? Tinha, falava, esconde o calcinheiro. Porque assim, olha pra você ver. O cara não vê, por exemplo, quebrou o chuveiro aqui. Aí veio um cara arrumar e aí elas escondiam as calcinhas. É, tipo, tinha um lugar que a gente estendia, né? Um varal. E aí, tipo, cobria aquilo com medo que a pessoa que entrasse olhasse. Mas era a primeira preocupação. Eu ouvi essa expressão muitas vezes.
Então, assim, tinha essa mentalidade, apesar de você não poder falar de sexo ou de sexualidade, né? Porque sexo é ação, mas sexualidade é todo ser, enfim, né? Isso, isso, isso. Mais pluralmente, mas existia essa questão mental de que a preocupação de alguém ver uma roupa íntima sua, né? Então, assim, mas a gente não podia expressar. Ah, eu acho aquele fulano bonito. Jamais. Nada disso. Não, era muito reprimido.
Então, mas eu vou te fazer uma pergunta um pouquinho. Não é polêmica, mas é assim. E também não é colocando você contra a parede. Mas quando vai ser freira, não tem que fazer esses votos mesmo, Bruna? Como assim? Tipo, por exemplo, quando você entrou pra ser freira, você já não entrou sabendo que tinha que... Sim, se você faz... Não anular, mas assim, por exemplo, eu penso assim. Na minha cabeça, eu penso assim, olha, eu sou homossexual.
Pô, quero ser padre. Tá, eu vou conversar com o padre sobre isso. Essa conversa não existia. Tipo, você simplesmente vai anular a sua sexualidade. Eu não podia conversar, falar, padre, eu sou homossexual. Eu vou entrar, vou tentar não ser. Como que era para as mulheres? Vocês já não entravam sabendo? Não, não existia. Não existia os votos. Entrava sabendo que você ia professar os votos. Mas não existia. Se você falasse que você tinha tendência, você era lésbica, ela nem deixava você entrar. Já é rechaçado ali no encontro vocacional, sim.
Então, assim, já não deixava. Então, ninguém fala sobre isso. Entendeu? Para as mulheres. Não sei a questão masculina, mas para as mulheres, não. Só que tem uma grande coisa. As pessoas acham que o grande desafio da vida religiosa é um voto de castidade. Não é. É ficar sem inter-relações. Não é. O grande desafio é a obediência. Entendeu? Porque a obediência é você submeter a sua vontade toda a sua vida.
a autoridade de alguém. Já a castidade, você vai seguir, é um caminho solitário, assim, no sentido de que? Eu fiz opção, eu tenho desejo sexual, mas eu quero ser fiel na castidade. E eu posso ter várias situações, eu posso me masturbar, eu posso ter sonhos, eu posso ter pensamentos. Mas isso é um caminho meu solitário, nesse sentido de freira. Então eu vejo isso como pecado, eu vou lá, eu me confesso, é uma luta minha espiritual. Mas é um caminho solitário dessa forma. Mas eu posso viver ele aqui.
Ali. Agora, a obediência não. A obediência sempre vai ter outra pessoa acima de mim me dando ordens, dizendo o que eu tenho que fazer e eu tendo que me submeter muitas vezes quando eu não quero. E isso anula toda a minha vontade, os meus sonhos, os meus desejos, os meus projetos. Então é muito complexo você falar disso.
Só que dessa forma mais radical é para as mulheres. Para os homens não é, entendeu? É como o Brendo disse, ele entrou e ele descobriu ali, na verdade ele foi se descobrindo, ele era um adolescente. As experiências sexuais que ele vive, as primeiras experiências dele, onde que ele conheceu? Dentro do seminário, dentro da igreja, né? É uma realidade.
Quando ele contou as experiências, eu fiquei e falei, gente, tá acontecendo lá, né? Tipo, você pensa que não tem, que não tá rolando, que os padres não estão se conhecendo. Quando ele contou que tinha uma teia de padres que namoravam um com o outro, que era namoradinho do bispo, do padre, do padre, não sei o que, não sei o que, do pároco. Eu falava, gente, isso é uma vida realmente que existe lá dentro.
É, inclusive, né, a página do Brando caiu, que a gente tava falando, né, a vida secreta dos padres gays, né, porque ele foi processado, e aí eu falei, Brando, por que que você foi processado? Ele falou, mas eu reposto reportagens de outros lugares. Eu falei, mas o que acontece? Uma coisa sai em uma reportagem em um jornal, sai em outra, em outro. Tá espalhado, você agrupa isso num espaço só. Como é que fala? Né?
Você agrupa. Tem um nome isso. Como é que é o nome? Você cataloga. É. Vamos catalogar aqui os padres. Isso, ele junta isso ali na página dele. Então qualquer pessoa que vai ali vai ter muitas informações. Vai ter várias. Então aí de repente você vai se deparar. Olha aqui. Tudo isso aqui. E ele ainda mostra fotos. O Brendo também mostra.
Então, isso choca a sociedade. Então, a própria igreja vem o quê? Derruba a página dele para que as pessoas não tenham acesso às informações que são reais. Então, o que a gente está falando, a gente não está contando só a nossa história e falando, ah, eu vi isso. Não, existem provas, existem movimentos. Hoje se fala muito disso. Só que aí, aquela pergunta que eu te falei.
usando o Frei Gil, porque ele é um grande pregador para os leigos, que denuncia os pecados da humanidade. Eu e o Breno estamos fazendo a mesma coisa, entre aspas, falando as coisas erradas que acontecem dentro da hierarquia. E por que ele é santo e nós somos o demônio? Será que nós também não somos profetas?
Estamos tentando desmitificar. Não que eu ache. Só estou jogando mesmo. Porque a gente está fazendo a mesma coisa que o Frei Gilson faz. Ou que outros pregadores fazem. A gente está falando. Olha, estão falando contra os gays aqui fora. Mas lá dentro está cheio. Se é pecado para quem está aqui fora. É pecado para você também.
Ou então não é pecado para você, também não é pecado para quem está aqui fora. Então respeite as pessoas aqui fora. Não incite a violência. Incite o respeito. Incite a construção social. Então é sobre isso que entra bem no aspecto da hipocrisia. Da vida mentirosa. Porque é isso que me pega. É a mentira existencial. Porque essas pessoas estão vivendo uma mentira existencial.
Ah, mas está dizendo que Padre Freira vive uma mentira? Em certo ponto, em alguns pontos, sim. Quando eles pregam para as pessoas aqui fora um ideal de vida, mas nos bastidores eles vivem outra realidade. É como se você... Sabe quando você é fã de um artista e você idealiza ele?
E na sua mente você cria ele de várias formas. Britney Spears, maravilhosa. Pode ser. Uma deusa. Aí, de repente, você vai conhecer a Britney Spears. Você vai se encontrar com ela e, de repente, ela é chata. Uma otária. Aí você vai olhar, todo aquele seu castelo vai cair. Poxa, mas por quê? Você idealizou artista, você idealizou o que ela quis mostrar pro público. É o que eu vi na televisão. Isso, mas existe uma Britney Spears pessoa, né?
Existe ela ali na vida dela cotidiana, que pode não te agradar. E é aí que... Só que isso não te impacta. Impacta.
Se ela for uma pessoa ativista socialmente, se ela militar pra alguma coisa. Mas já a religião não, porque a religião impacta a vida das pessoas. As pessoas, elas vivem a partir daquilo que tá sendo ditado ali por esse sistema.
elas moldam a vida delas a partir dessas regras. É que a gente é, pelo menos eu fui, eu percebi que eu, minha família, a gente é ensinado desde sempre que o caminho da retidão, o caminho correto é o caminho da religião, da igreja. Então assim, você tá mal, hein, moleque, na escola, vai na igreja, você é uma pessoa...
Você está deprimido, vai na igreja. Você é gay, você é lésbica, vai na igreja. Então a igreja, a religião, ela é tida como o baluarte. Quando você olha assim, é o que é o perfeito. Então quando você está lá, está tudo bem. Então, por exemplo, o fulano faz coisa errada, mas ele está indo na igreja, ele vai melhorar, ele está indo buscar. A igreja é esse lugar, como se fosse um refúgio do que é bom, isso que nos é vendido.
Quando vem pessoas igual você, igual o Brendo, e denuncia, e tantas outras também, né? Eu falo de vocês dois, mas eu conheço vocês dois. Mas tem tantas outras pessoas que denunciam, que escrevem livros, igual você mostrou. E essas pessoas, elas são vistas como o demônio. Sim.
como o antagonista. Não pode falar isso, Bruna. Você teria que ficar quietinha nas leis da igreja. Não reclamar. Que é o que acontece com tantos religiosos que estão quietinhos, não estão denunciando que as coisas da igreja...
que está acontecendo dentro da igreja e estão mostrando que a igreja é santa, una e não pecadora. E uma das coisas que a gente aprende dentro da igreja, que você também deve ter aprendido, o silêncio é uma virtude dentro da igreja. Então, a virgem do silêncio. Maria, ela aceitou, ela foi escrava do Senhor, ela não questionou. Então, a igreja, ela trabalha muito na sua mente.
O silêncio, a submissão e o não questionar. Quando alguém questiona, como você ousa questionar a instituição? Ou você ousa falar, seria mais virtuoso você falar. Não, hoje eu falo, é mais difícil falar do que ficar em silêncio. Porque quando você fala, você vai ser atacado. Eu sou muito atacada. Então, se eu tivesse permanecido no silêncio...
Pô, minha vida estaria tranquila, não teria sofrido tanto que eu já sofri depois que eu resolvi falar. Se você tivesse sofrido, chorado e continuado na igreja, você ia ser quase uma santa. Isso, mas é o que o Santos... É, isso. Pega a história de Santa Terezinha, ela sofreu vários abusos. Qual que é a história dela? A Santa Terezinha, ela era uma menina que nasceu numa família francesa. Com quatro anos, a mãe dela morreu de câncer de mama.
E o pai dela queria ser padre e a mãe dela queria ser freira. E eles não foram aceitos nos conventos. O pai e a mãe? O pai e a mãe. Ué, mas freira não tinha... Bom, acho que naquela época... Não, antes deles se casarem. A mãe queria ser freira e o pai queria ser padre. Os dois não foram aceitos. Aí eles se conheceram em Alençon, lá na França.
E aí eles não consumaram o casamento, porque eles queriam ser santos. Olha a ideia, já começa daí. Consumar o casamento é fazer sexo. É, não tiveram relação sexual. Eles tiveram que falar com o padre que deu a ordem pra eles consumarem o casamento. E eles tiveram várias filhas. O padre. É verdade. Ai gente, mas eu tenho mais o que fazer. Vai, transa, por favor. Ai, eu queria me perguntar se eu posso transar. É porque o sexo na igreja...
No casamento ele tem a função de procriar. Não é relacionado a prazer. Nada disso. Mas o padre Fábio Marinho já veio aqui. Atualmente está tendo uma nova forma. Os padres estão deixando transar.
Tá falando que agora você pode... O prazer agora tem que estar atrelado à união do casal. Mas dentro do catecismo da igreja católica, a função do sexo no casamento é a procriação. É unicamente procriar. Isso. Você não pode, por exemplo, tomar anticoncepcional. Você não pode ter métodos contraceptivos. É, isso não pode ainda. Entendeu? Você tem que estar aberto à vida. Porque a função principal...
O centro é a procriação. Então, aí eles tiveram filho. Aí, com quatro anos, a mãe da Santa Terezinha morreu. E aí, a irmã dela mais velha, chamada Paulina, ficou como sendo mãe dela. Acolheu ela. Só que a irmã dela, Paulina, resolveu ser carmelita de clausura. Santa Terezinha ficou em depressão, porque ela já era uma criança depressiva. Ela ficou doente, a irmã dela foi pra clausura. A Paulina. Aí tinha a segunda irmã dela, que ficou no lugar da Paulina, Maria. Maria também foi pra clausura.
Junto com a Paulina. O que é a clausura? Ao convento, o Carmelo. Então foi a Paulina, a irmã dela mais velha, foi a Maria, a segunda irmã dela mais velha, pro convento lá de Lisier. E aí Santa Terezinha também queria ser freira. Com 15 anos ela conseguiu entrar no convento. No mesmo Carmelo que estava a irmã dela, a Paulina, a Maria, ela.
Tinha outra irmã dela, a Leônia, só que a Leônia, segundo os estudos, ela era bem ranzinza, então ela não conseguia, ela foi em vários conventos, não conseguia parar nos conventos e voltava. E teve a Celina, que era a mais nova, que esperou o pai dela morrer e também entrou no Carmelo. Então, nesse Carmelo de Lisier, tinha Santa Terezinha, a irmã dela, Celina, Maria e Paulina. E Santa Terezinha morreu com 24 anos de tuberculose.
É uma das santas mais famosas da igreja. Ela, inclusive, é doutora da igreja, a Santa Terezinha. E aí o que acontece? Santa Terezinha era artista, então ela escreve poesias. E dentro dessas histórias, ela escreve que existiam várias irmãs abusadoras no convento dela.
E é só que ela escreve isso de forma poética. Então, por exemplo, para a Madre Maria de Gonzaga, ela escreve assim. Ela se chama de Passarinho. O cálice do passarinho está transbordando de tanto sofrimento. E quem encheu esse cálice foste vós, Madre querida.
É uma poesia de Santa Terezinha. Gente, parece lindo. Dá pra mandar isso num cartão postal. Não é? Mas por trás tá um drama. Um drama. Quem causava sofrimento? Ela tá sofrendo. Sim. Ela falava assim, eu sou um passarinho sem penas. Eu não consigo alçar o voo igual as grandes águias. As grandes águias eram as irmãs poderosas. Ela era um nada. Só que ela criou esse caminho do nada. Entendeu? Eu sou um nada. Então...
Dentro da igreja, principalmente na espiritualidade carmelitana de Santa Teresinha, tem muita essa visão do ser pequenino, Teresinha, Santa das Florzinhas. Só que, na verdade, ela tinha tuberculose, ela passava frio, no inverno, ela tinha uma saúde frágil, ela fala que ela deixava a mão dela de fora pra passar frio.
Que as irmãs tomavam, tipo, lá tomava sidra no inverno. Inverno da França. Ela ficava sem tomar. Então, assim, são várias questões. E tem um livro dela que eu li no convento que chama Santa Terezinha Carne e Osso. Que aí fala das fragilidades reais. Só que todo mundo conhece o que é a história da Santa Terezinha das Rosas. Os 24 Glórias ao Pai que cai rosa do céu. É essa história que as pessoas conhecem. Que história é essa de rosa do céu?
Ela morreu com 24 anos. E aí, quando ela morreu, falaram que ela era santa. E aí começaram a criar uma novena que você reza 24 glórias ao Pai em honra a cada ano de Santa Terezinha. E se você receber uma rosa, que já é uma superstição. Pra você ver, a gente critica a superstição na religião dos outros, mas no catolicismo tem. Se eu fizer um pedido e eu receber uma rosa, é porque o meu pedido vai ser atendido.
Tem uma música de Santa Terezinha que eu amo. Eu ouvi agora a música que eu estava fazendo assim. Qual? Como é que é? Na Pequena Via. Uma pequena via me levará para os teus altares, oh meu rei. Pequeno serei. Agora eu vou ficar vendo a letra para ver se tem coisa. Não, essa não tem. Pequeno serei, então encontrarei um lugar em tuas mãos. Um elevador que me fará.
Porque ela nasceu na época da Revolução Industrial. Então, na França, estavam começando os elevadores. Então, ela falava assim, eu sou um nada. Eu não consigo chegar até Jesus. Então, eu preciso desse elevador que é Jesus para me elevar. Então, toda a doutrina dela é o caminho da pequena via. Chama pequena via. Que é do nada, eu sou um nada.
E Deus me acolhe assim. Só que eu hoje, na minha percepção, esse nada vem disso. Por que eu sou um nada? Se Deus me fez, eu sou linda, eu sou maravilhosa. Os meus talentos, as minhas potencialidades, eu tenho que colocar pra fora. É como se você pegasse uma flor e você falasse assim pra ela, olha, você é uma flor linda. Dentro do seu DNA, você tem toda a beleza. Mas, ó, a humildade não desabroche.
se esconda, se esprema. Vive como um botãozinho de rosa. Vive como um botãozinho, entendeu? Não se abra, não se desabroche. E eu acredito que a evolução é o desabrochar, é o abrir. Então, assim, eu era devota de Santa Terezinha enquanto carmelita. Lia muito sobre ela. Só que eu comecei... Hoje, com a visão que eu tenho, eu questiono muito o caminho dela.
Dentro do convento. E ela sofreu vários abusos. E aí que é a grande coisa. As pessoas têm consciência disso. E elas falam assim. Santa Teresinha passou tudo o que você passou. Mas ela foi santa. Ela permaneceu e foi fiel. Você não. Você foi pecadora. Você saiu e ainda reclama. Você se rebelou. Isso. Mas a própria história de Lúcifer. No Gênesis. Do anjo caído. Ele é um que se rebela. Sim. Ele é um que... Mas voltou para o Gênesis. Mas...
Parece que essa coisa do questionar, se rebelar e falar assim, não, eu não sou pequeno, não. Eu sou grande, eu sou uma pessoa que tenho grandes qualidades, eu sou bonito e vou continuar trabalhando sendo belíssima. É o que eu acho de mim. Anos de terapia pra achar que eu sou bonito, entendeu? Aí, chego nesse momento que eu me acho bonito, você tem que se retrair. Mas você contando a história dela pra mim, Bruna?
Dá pra entender um pouquinho? Porque parece assim, pai e mãe meio que não conseguiram entrar ali numa vida eclesiástica. E aí tiveram as filhas, aí morreram, aí fica nas irmãs, as irmãs meio que deixam. Então dá até um pouco de dó da Terezinha. Porque ela é deixada, coitada. E ela tinha vários problemas psicológicos, entendeu? Imagina, uma família que... Ela não sabia pentear o próprio cabelo. Ela não conseguiu estudar. Ela era uma criança depressiva.
A vida que ela encontrou, na minha avaliação, a vida que ela encontrou no convento tá ótima pra ela, que é ficar na rua sem ninguém. Sim, sim, sim. Ela era uma família rica, né? Ela não era pobre, então ela tinha uma estrutura social. Eu não entendo isso de gente... Olha, eu não entendo igual o São Francisco.
São Francisco me deixa tudo pra trás. Podia fazer coisas e deixar tudo pra... É engraçado isso, falo brincando. Mas quando eu conto a história de São Francisco, as pessoas amam. Sim. Porque você se despojar, deixar tudo pra trás, não pode ser rico. Sim. Mas tem muitos religiosos aí que tem bastante dinheiro. Mas o fiel tem que ser pobre, tem que deixar pra trás. Eu acho que a galera, na verdade, eu acho que evite... Eu até queria te perguntar isso, Bruna. Sim.
Você vê que o público gosta dessas histórias de autoflagelação, eu sou um nada, nada sou. O povo gosta disso, né? Sim, sim. É bem essa linha aí. Só que Santa Terezinha era uma época diferente de São Francisco, né? São Francisco, acho que é século II... São Francisco é 1100 e pouco, ele morreu em 1226. Santa Terezinha é 1800, ali no final do século XIX.
Então ela conhecia um pouco o tipo da... O mundo estava em expansão, né? E naquela época a visão da igreja também era jansenista de Deus. O que é isso? Deus, ele é o justiceiro. Não existia essa coisa de Deus é amor. Então os santos tinham aquela visão do flagelo, de se é usar silício, de fazer sacrifício, fazer jejum, se automutilar. O que é silício?
Silício é aqueles espinhos que você enrola no corpo e você fica no seu corpo. Tipo uma corrente com espinhos que te fura por debaixo da roupa. Você vai ferir seu corpo. Sim. No documentário do Opus Deis, que tá na...
Na HBO tem lá, é atual. Meninas que usavam silício. Tem uma que conta que ela tava usando um silício na perna. E ela caiu. E aí entrou todos os espinhos. É como se fosse espinhos, né? O arame dentro da perna dela. E aí quando ela foi falar pra formadora dela, a formadora dela falou assim, não tem problema, você tem a outra perna. Então assim, isso é real dentro da igreja. E não é incomum. Parece filme de terror, Bruna. Parece, mas é real.
E da onde que vem as ideias dos filmes de terror? Não, ó. Filme de terror com convento.
É, não é, Jacque. Já assistiu, Jacque? Já assistiu a Freira, aqueles, né? Mas é, filme de terror com convento, você vê essa vida muito reclusa. Mas é isso. A madre superiora sempre não vai sair do quarto, vai passar fome. Mas no Carmelo era assim, tipo, se você fizesse uma coisa errada, você não podia dizer, você não fizesse. A professora Terezinha, ela tem uma história que a Freira quebrou o vaso, colocou no cantinho e não se acusou.
E aí a Santa Terezinha foi pegar o vaso, o vaso estava quebrado, e a Freira falou, foi você. Ela não podia dizer, não fui.
E ela tinha que deitar no chão e beijar o pé da superior. Então, essa era a regra do Carmelo. Então, quando Santa Terezinha fala assim, eu não consigo ser como os grandes santos, ela não conseguia se penitenciar. Ela não conseguia se autoflagelar. Ela não conseguia fazer esse tipo de coisa. Então, ela falava, o meu caminho é a pequena via dos pequenos sacrifícios. Então, tipo, eu sou um passarinho. Enquanto essas freiras que fazem todas essas mortificações são as águias, eu sou um passarinho. Mas ela tinha sempre essa ideia da pequenez, da pequenez, do nada.
Entendeu? Que a igreja... Como é que eu posso dizer? A igreja, ela favorece isso. Porque isso daí mantém você ali dentro dominado. Entendeu? É um discurso que é bonito até. É uma história de filme de Hollywood pra você achar a pessoa bonita. Porque a pessoa bonita, o personagem, quanto mais ele... Eu percebo isso na internet também. Se você postar uma foto sua e falar tipo...
Ai, gente, eu não tô tão bonita hoje. Eu não me achei nunca bonita. Mas hoje eu achei bonita. Fiz uma maquiagem, postei. A galera vai te exaltar. Imagina, Bruna, você é maravilhosa. Levanta essa cabeça, linda. Posta uma foto. Gente, eu sou gata. Sempre fui. Maravilhosa.
Eu faço o que eu quero porque eu tenho a beleza. Ih, querida. Você não tá se achando. E isso você, desculpa falar, mas você não é tudo isso não. E você nem tá tão bonita nessa foto. Então perceba que a galera gosta da teoria do menos é mais. Sim.
Não sou nada que... Eu bem ser tão pequeno. A gente vai falando e vai cantando, né? Um grão de areia. Você precisa ser menos. Parece que você quer... Mas aí tem um outro movimento da igreja também. Eu lembro que na renovação carismática... Eu nunca fui da renovação carismática há tanto tempo. Já fui em alguns encontros, não gostei. Mas na renovação carismática vinha o contrário. Você é importante pra Deus. Você é o tudo. Não tinha isso?
É, mas é assim, no sentido do seu relacionamento com Deus. Mas a filosofia é... Continua a mesma. Sim. E eu acho que é até mais forte do que... Eu acho que a renovação carismática é a que mais pega essa linguagem do você é nada. Essa música que você tá cantando mesmo é da renovação carismática. É. É tudo... Ó, é... Eu não sou nada e do pó nasci.
Mas tu me ama... Qual outras músicas que falam eu não sou nada? Tem muitas. Várias, várias. Se você for fazer uma lista... O grão de mostarda, que dá a maior árvore. Então, assim, agora... O povo gosta da humildade. A teologia da libertação já é diferente. A teologia da libertação já é mais livre, já é focada mais no desenvolvimento social. Eu acho que de todas as ideologias da igreja, pra mim, a teologia da libertação é a mais aberta.
Mas a renovação carismática, pra mim, ela é que mais pega esse ponto do pecado. Já os tradicionais, é aquela coisa, aquela rigidez, entendeu? Mas eles se acham, na verdade, os perfeitos. Pra mim, eu vejo os tradicionais se achando os perfeitos. Aqui tá a verdade, é dessa forma que é certo. E já a RCC, não. A RCC é você é pecador, você é um nada. Tinha uma música do Anjo de Resgate.
Não sei se você lembra que ele falava, pai, eu estou aqui, não sei o quê. Pai, era ele falando com Deus. Isso. Como é que era? Era pai, não sei o quê, só me basta. Chamando Deus de pai é o nome dessa música. Mas você sabe que eu tenho uma coisa com Anjo de Resgate. Eu não ouço muito músicas dele, porque eu ouvi uma vez...
Eu não sei qual é a posição da banda hoje, não estou nem falando mal da banda, mas no DVD deles, no primeiro DVD, eu lembro que o vocalista fala uma coisa que me pegou. Ele fala assim, se você não falar eu te amo para o seu filho, um assassino pode falar te amo para o seu filho. Se você não falar eu te amo para o seu filho, um homossexual pode falar eu te amo para o seu filho.
Eu não entendi... Porque eu sou homossexual, eu posso amar as pessoas. Eu não posso amar! Fico nervoso. Comparando, né? Colocando na mesma categoria. Nesse DVD do Anjos de Resgate, quando eu ouvi isso, eu amava Anjos de Resgate. E aí eu fiquei...
O que tem a ver uma coisa com a outra? E o homossexual não pode falar que ama outra pessoa, mas a gente entende o conteúdo. Pelo menos o que eu entendi é que assim, ó, cuidado com os homossexuais, que ele vai falar eu te amo pro teu filho, entendeu? Então, eu não sei qual que é a posição da banda hoje em dia. Era uma época que tava o Dalvin Margalo ainda, que eu adorava essa banda. Mas quando eu ouvi isso, me pegou. Eu fiquei muito chateado. E eu parei de ouvir música deles. Foi uma atitude minha.
Eu parei de ouvir músicas de resgate. Tem uma música dele que se chama Tua Família, que eu acho incrível. Eu choro muito. É muito bonita. Mas também tem algumas questões. Quando eu tocava Tua Família, falava Sua família é importante pra você, seu pai e sua mãe. Mas meu pai tava bebendo em casa e me batendo e não me aceitando. Então...
Tinha coisas que a igreja não sabia tratar. Também, às vezes, nem é papel da igreja. Mas a gente percebe que a igreja tem a teologia dela, que parece perfeita, mas quando aplicada no social, aí esbarra. É exclui. Exclui, é. Ela tem a verdade absoluta dela, ela é fundamentalista. E quando o diferente se apresenta...
Se não se encaixa ali, então você não faz parte daquilo. Você não faz parte. Mas que posso falar assim, a igreja... Tipo assim, em relação aos homossexuais. A igreja... A igreja, como é que é? Condena o pecado, mas acolhe o pecador. Olha como que ela fala sobre você. Não tem outra coisa. A sua existência é um pecado. Mas quem... Vamos supondo na que Deus te fez. Ele que te fez. E não quer que eu viva. Ele que te fez como você é. Por quê? Por que que você é um pecado?
Então, na verdade, eu acho que, cara, eu não entendo muito essa questão do porquê que a igreja bate tanto em nós homossexuais. Porque é uma coisa que, assim, vocês são dois adultos, mas não é o ser, pelo que eles falam, é a prática. Mas como que você vai ser algo e não vai praticar aquilo no sentido de você não estar fazendo mal pra ninguém? Então, é que assim...
A gente entende a... Eu entendo a igreja. Eu saí da igreja exatamente por isso. Muitas vezes... Eu tenho muitos seguidores que às vezes sonham com a minha volta. Falam assim... Ai... Um dia eu creio que você vai voltar. Que não sei o que. Eu falo, gente...
Eu acho que minha avó falava uma coisa que, assim, quanto mais perto, mais fede, né? Então eu fiquei muito tempo dentro da igreja. Eu não fui pro seminário, mas foram 18 anos cantando na igreja, vendo as coisas dentro da igreja. Então, assim, não tem condições de eu voltar pra ser católico. Como você também tem condições de você voltar a ser católico. Não, mas é tipo assim, as pessoas acham que eu deixei de ser católica pelas coisas que eu passei no convento e não foi.
foi quando eu comecei a estudar a igreja, quando eu comecei a estudar a Bíblia, quando eu fui entender como que a Bíblia foi escrita, como que é historicamente, entendeu? Quando eu fui para conhecer o Jesus histórico, aí, para mim, o catolicismo se desconstruiu todinho, como uma religião, para mim, eu vejo como uma instituição humana.
entendeu? Então foi isso que me fez sair e falar, hoje eu não sou mais católica. Não tem nada a ver com a questão do convento. Porque a questão do convento eu vivi com pessoas ali, mas eu também tinha pessoas boas ali dentro que me deram grandes lições de vida, entendeu? Não era todo mundo ruim. Não, não era todo mundo ruim. Tem muitas pessoas boas ali dentro, que eu tenho um amor até hoje. Por muitas pessoas. No entanto, morreu uma irmã esses dias, não sei se você ficou sabendo, uma irmã que morreu afogada.
Na Sicília. Deu a maior repercussão mundial. Vários meios de comunicação falando. Ela era a irmã Nadir, da congregação que eu estava. Quando eu soube da morte dela, eu senti profundamente. Eu gostava muito dela. Eu me entristeci profundamente. Eu fiz até uma postagem lá com uma rosa. Eu não quis falar claramente. Porque eu não quero usar disso pra mim. Mas eu senti profundamente. Então tem pessoas boas lá dentro. Então o meu afastar foi quando eu entendi que a instituição foi uma criação humana.
Essa forma como se vive hoje a igreja católica, ela veio do século IV, quando os primeiros cristãos lá, depois de tantas situações, se uniram ao Império Romano. No entanto, que muitas coisas que existem dentro da igreja vêm do Império Romano. Por exemplo, a questão do Papa, a forma como se veste o trono, tantas coisas, tantos elementos. E, quando a gente vai para a Bíblia e vai estudar que a Bíblia veio de vários lugares, ela foi escrita em determinados momentos.
Algumas histórias são fictícias, elas são fábulas, elas não são literal. Então isso pra mim, com comprovação científica, arqueológica, isso pra mim me afastou do catolicismo. Mas Bruna, te cortei? Não, não me cortou. Antes de saber por que você saiu, tem algumas pessoas até perguntando, ela é esfreira, foi freira? Talvez as pessoas não conheçam sua história, mas eu queria saber o que te levou a entrar ao convento?
entregar a sua vida como uma religiosa. Como é que foi? Sim. Então, eu nasci numa família do interior de São Paulo, muito católica, tradicional. Meu pai tocava na missa. A gente morava numa casa paroquial. Meu pai tocava na missa na cidade pequenininha. A gente morava numa casa paroquial. Então, eu respiro igreja desde que eu nasci. Como assim casa paroquial? Tipo, é uma casa... Era como se fosse a casa do padre, mas era um distrito. Então, o padre não morava nessa casa.
E como meu pai tocava na missa, deixaram meu pai morar na casa. Entendeu? Entendi. Então a gente morava nessa casa numa cidadezinha chamada Alfredo Guedes. É uma cidadezinha bem pequena. E aí, ali eu vivia. Eu participava de todas as celebrações. Ensaiava com meu pai, tinha ramos. E eu brincava de casinha na igreja. Então, minha vida foi toda assim. Quando eu tinha uns 10 anos, meu pai mudou pra uma cidade do lado chamada Areópolis.
Aí ele não quis mais tocar na igreja, porque ele não se identificou com o povo da comunidade, porque era da renovação carismática.
E esse povo que canta cinco cantos de entrada...
Meu pai gostava de tomar cerveja, de beber. Então eles criticavam isso. E lá na outra cidadezinha, não. Eles eram mais tranquilos em relação a isso. Você fica mais à vontade? Não, tranquilo. Tá de boa aí? Tá tranquilo. E aí meu pai não se identificou, né? Então aí ele não quis participar. E a gente deu uma meio que afastada, mas sempre com fé. Entendi. Quando eu fiz 15 anos, aí eu voltei pra igreja. E aí foi na renovação carismática nessa cidade.
E aí era grupo de oração. Aí era essa coisa, canção nova. Tinha uma camiseta que eles usavam castidade. Deus quer, você consegue.
Enfim, aí depois meus pais mudaram pra uma cidade de mineiros de ET, só que era numa fazenda.
Como é o nome da cidade? Mineiros do Tietê, que a minha mãe mora lá até hoje. Mineiros do Tietê. É que é tudo pertinho, assim, sabe? Uma do lado da outra. E aí eu conheci as irmãs no retiro de carnaval. E eu vi um folder delas na favela. E eu queria cuidar de criança. Tipo, o que eu faço hoje como educadora social é a realização do meu sonho de freira. Entendeu? Eu sou realizada. Entendi. Você trouxe freira porque você queria fazer esse trabalho.
Isso. Só que quando eu cheguei... Aí eu perguntei pra irmã, assim, vocês fazem isso, né? Com os pobres?
fazemos. Quando eu cheguei no convento, fiz fazer encontro vocacional, as irmãs pulavam, dançavam, cantavam, era aquela coisa. Imagina uma menina do interior que não conhece nada. Vem pra São Paulo fazer um encontro vocacional. Era bilhetinho pra tudo quanto é lado. Jesus não sei o quê. Mas quando eu entrei, aí eu vi a realidade.
Aí foi totalmente oposto. É igual quem tá querendo ser freira e ver as freiras que fazem o beatbox, os padres dançando. Gente, isso aí é tudo propaganda vocacional. E eu vivo falando. Essa coisa de dancinha de freira, não é nada disso. Gente, eu achei incrível essas freiras. E a outra... Eu nem sei fazer beatbox. E aí a outra dançando, eu falei... E aí levanta um padre, um padre bonitão, dançando assim. Eu falei, nossa, que legal, deve ser o convento. Então isso é... E aí
cara, que você fez... Então isso é meio propaganda, Bruna? Total. A propaganda vocacional não condiz com a realidade da vida vocacional dentro do convento. E eu bato muito nessa tecla. Porque eu fui uma jovem que entrei com uma idealização...
E quando eu entrei, era outra realidade. Claro, tem congregações que são mais tranquilas, tem congregações que são mais tranquilas, mas todas as congregações têm o modo desoperante do voto de pobreza, castidade e obediência. E dentro da igreja existem documentos que direcionam essa vivência. Então, existe a submissão, existem várias questões. Tem algumas congregações que são mais leves, mas umas que não são. Então, quando alguém quer ser religiosa, se vem me perguntar alguma coisa, eu não vou falar não vá.
Porque cada um tem o direito de escolher. Mas se me perguntar qual que você indicaria? Eu falo, ó, vá pela menos radical. Vá pra aquela que parece menos santa. Principalmente essas da renovação carismática, pra mim, são as piores. Porque é muita santidade. Sabe, é muito...
muita perfeição, muito sacrifício, e isso dá espaço para líderes narcisistas, líderes abusadores. E eu posso falar isso com propriedade, não só pela minha história, mas pelas histórias que eu escuto diariamente. Porque as pessoas não têm coragem de vir aqui falar, porque isso traz um peso. Mas eu escuto ir de congregações famosérrimas, dessas que estão no auge, Récide. Já fiz uma live lá no...
Eu tenho, às vezes, um canal que eu faço entrevistas. Já fiz com a Raia, da HESD. Ela falou um monte de coisa e o povo fala que é tudo mentira. Eu já li dossiê. A HESD é o Instituto? HESD é esse? É, da Kelly Patrícia.
Então, essa Kelly Patrícia é uma freira Ela é uma freira Ela entrou no Carmelo, acho que ela foi noviça Do Carmelo É não ela que entrou num evento de moto, buzinando Não, essa daí é a irmã do convento dela Que é a irmã Joana, Maria Joana Hoje quem representa o Instituto Reste A Kelly Patrícia é a mais famosa porque ela é cantora Mas quem representa o Instituto Reste Hoje é aquela irmã Raquel
E essa irmã Maria Joana. Isso. Que faz as lives de madrugada. Então elas são hoje praticamente o novo rosto do Instituto Récide. Entendeu? Só que a realidade ali dentro não é nada disso. Tipo, as freiras, elas têm caixa 2. O que é isso? Por exemplo, eu preciso de um sabonete.
Eu tenho que pedir pra minha família ou pra alguém esse sabonete. Se a minha família ou minha madrinha não der, eu vou pegar da congregação, mas eu vou ficar devendo. Aí fica lá anotado. Irmã Bruna está devendo um sabonete. Irmã Bruna está devendo alguma coisa que eu preciso. Você jura? Juro. Juro. Ah, e conta.
Ela contou e eu li um dossiê que foi feito, só que os bispos ignoraram. Por que eu perguntei dessa irmã que entrou de moto? Porque, pra mim, você me falando agora, eu já tô vendo o outro lado, né? Que é tudo como uma divulgação pra, ó como somos legais, mais ou menos assim. Mas eu falei, nossa, que incrível, né? Você ter uma freira que vem, que fala com as pessoas, que fala com os jovens, entra de moto, bebia, galera.
Isso aí é pra chamar atenção. É tudo marketing vocacional. E aí na hora que, tipo, vem pequena Bruna, entrou, fechou a porta do convênio...
Cadê a freira legal? É outra realidade. E o Instituto Hestid é assim. As freiras dormem no chão, enquanto as fundadoras têm uma outra vida. Porque dentro dessas instituições tem a realidade dos fundadores. A Jaque tá preocupada ali com você. Não, mas o que eu tô falando... Não, Jaque, mas o que eu tô falando... A Jaque tá aqui assim, ó... Não. Sabe por quê? Porque é só lá vem pra isso. Aleluia!
É só ver a entrevista da Rai. É só ver a entrevista dela. Ela falou publicamente sobre isso. E tem assim, eu tenho os prints. A Rai é uma esfreira do Instituto Reste. E aí eu fiz um canal que eu entrevistava algumas pessoas, chamava Potes Libertar. E ela foi fazer a entrevista comigo. E falou tudo. E falou tudo isso. Então o que eu tô falando já tá publicamente. Não tô falando nada que não tenha sido falado publicamente. Mas eu também li, dossiê.
E dentro da live, os vários ex-Reste entraram e comentaram um monte de coisa. E foram falando.
Eu tenho todos os prints. Ex-héced. Ex-héced. Ex-héced. Isso. Só que, assim, é difícil pras pessoas falar. Porque você tem que se curar, né? É a sua dor. Então, assim... Mas tem várias pessoas... Tipo, eu entrevistei gente que era da Shalom. Lá no meu canal. Entrevistei várias pessoas.
Só que as pessoas não querem aceitar. Mas a REST, e assim, a REST, eles falam assim, o Instituto REST doa comida pros pobres. A Raio falou, não, eles têm uma parceria com a Mesa Brasil, já ouviu falar na Mesa Brasil? Que é uma ONG que doa alimento pra ONGs, pra instituições de caridade, e essas instituições distribuem esses alimentos. Então, quando o Instituto REST doa a cesta básica, ela não tá doando cesta básica da doação que as pessoas estão fazendo. É do Mesa Brasil.
que dá essa doação e elas repassam. Então ela falou que acontece muito disso. Só que o que é divulgado não é isso, entendeu? O que é divulgado é tipo assim, eu sou a freira e estou dando comida para o pobre. Assim como nós, como carmelitas, a gente ganhava leite da prefeitura, de uma ONG, que não era destinado para nós. Era um leite que dá para as crianças, e nós, como freiro, todo leite que eu tomei minha vida inteira no convento, foi leite que foi desviado das crianças, que era da prefeitura. As crianças, coitadas. Sério? A criança cresceu, assistindo essa live.
Por isso. Leite, né? Não, assim como orfanato. Tipo, eu sempre vendi biscoito achando que eu tava vendendo biscoitinho pras crianças do orfanato que as irmãs tinham. Porque as irmãs tinham lá no folder e a gente tem orfanatos, né? Que era abrigo. Só que depois, quando eu fui no meu último ano...
Cinco meses antes de eu sair, que eu fui morar num lar, eu descobri que quem mantinha o lar era os Lopes, a construtora Lopes, eram os mantenedores. Então, eles pagavam tudo, absolutamente tudo daqueles abrigos. As irmãs eram como se fossem funcionárias, então não tinha gasto nenhum. Mas a imagem pra sociedade era como se as irmãs trabalhassem em prol daquele lar. É, eu sempre tive essa ideia de freira. Que freira vai ajudar os pobres.
Então, por exemplo, você pega um Instituto Marcelina, um Hospital Santa Marcelina, é o SUS.
Não é as Marcelinas, elas podem, elas administram. Mas ali tem a parte particular que elas lucram e os pobres que ela atende ao SUS. Então poderia ser qualquer outra rede. Mas está lá a imagem delas. Não que elas não façam um bom trabalho, não é isso. Mas é que as pessoas têm que entender que, muitas vezes, não é a instituição religiosa que está bancando. Ela está atrelada a algum órgão, alguma ONG. Alguém que banca. Ou ao próprio Estado.
fazendo esse trabalho. Que é justo. Isso. Que eu acho justo. Não vejo problema nisso. Meu problema é quando você usa essa imagem como sendo totalmente sua e você vende isso pro público e ainda você arrecada dinheiro do público para isso. E não é para isso. Que aí vai ter outro fim. Entendeu? Então, isso acontece muito. E... E... E...
Então você teve essa imagem, né? De você ver o folderzinho delas. Sim, foi isso. Foi exatamente isso. É, mas eu nunca fiz. Eu nunca fiz. Na minha história dentro do convento, eu nunca fui nesses espaços fazer evangelização, trabalhar com essas pessoas. E se chegava um pobre no convento, o tratamento era completamente diferente de uma pessoa rica. Então um pobre pedia uma comida no porto do convento, muitas vezes tinha irmã que não queria dar, era criticado. Agora, se um rico batesse lá...
e elas vissem que tinha uma possibilidade de ter uma doação, você decidiu que tinha de melhor, já tinha as freiras próprias que iam atender essa pessoa. Gente, mas pra mim, isso que você tá me falando é completamente inimaginável do que a gente pensa que seria um convento de verdade. Que é o contrário. Chega uma pessoa pobre, você a trata da mesma maneira que a rica. Ou melhor, ou melhor não. A Chá que tá ali atrás assim, ó.
Ó, supondo que chegasse assim, ó, chegasse uma pessoa rica e eu abrisse a porta. Não, chegasse uma pessoa pobre e eu que abrisse a porta. E falasse assim, irmã, fulano quer conversar, tá com problema espiritual. Ai, pode conversar. Eu ia lá, atendia, beleza, tchau. Eu chegasse e falasse assim, irmã, chegou fulano de tal. Uma pessoa famosa. Ah, peraí.
peraí, manda ele sentar, colocava no melhor lugar que tinha, descia as freiras específicas e ali começava toda uma construção de relação não só pra atender aquela pessoa na necessidade, mas pra ter um vínculo com aquela pessoa, porque ela tem um benefício pra trazer. Isso eu vi inúmeras vezes acontecer. Tipo, tinha uma mulher que ela era responsável pela queda do avião da TAM. As irmãs estavam ajudando ela porque ela não queria ser processada. Como assim responsável?
Ela era uma das que era responsável quando caiu o avião da TAM. A gente morava perto do aeroporto. Aqui, aqui em Congonhas. Isso. Ela era uma das que estavam sendo processadas por esse acidente. Então, ela ia no convento para as irmãs rezar por ela e ajudar ela. Então, existia toda uma proteção com ela. Ah!
Entendeu? As irmãs iam na casa dela. Então, agora se fosse um... O Daniel Pires. Não, se você chegar lá, vai te tratar bem? Porque você é famoso. Ah, famoso. Famoso mal faladíssimo aqui no bairro. Não, mas você seria bem tratado. Porque você é da mídia. Vamos supor que iria... Queria a minha mãe. Minha mãe chegava lá... Tadinha, a mãe dela olhando assim, assistindo a live. Ah, é Bruna?
Não, é, minha mãe, que tipo... Uma pessoa que não é da mídia. Isso, uma pessoa simples, vai se passando na rua, falasse assim, irmã, tô precisando de algo. Te atenderia ali na porta, nem te convidaria pra entrar, talvez. Isso acontecia. Então, eu via isso, eu achava um cúmulo do absurdo. Entendeu? Então, porque assim, ó, a gente também tem um outro lado dessas instituições religiosas, né, Bruna? Porque precisa de dinheiro, tudo é dinheiro.
Sim, sim. Então, por exemplo, eu lembro quando a gente tava, a nossa comunidade, quando minha mãe participava,
Eu lembro que a nossa comunidade, não faço parte mais, mas a comunidade onde a gente participava, na época, ela não tinha nenhuma sede. Então as primeiras missas eram feitas num campinho, perto da casa da minha mãe. Aí eles foram arrecadando dinheiro, então fazia festa e tal, tal, tal. Eu lembro que a comunidade tinha um sonho.
de ter um espaço próprio, uma igreja própria. E conseguiram, a igreja ficou linda, ficou incrível, com três andares, sauna, piscina, brincadeira. Mas tinha três andares e tudo, e ficou bonita, ficou uma igreja bonita. E isso era... Eu lembro que quando ele inaugurou a parte de cima, a minha banda cantou. Então, para nós era, puta, que legal. Precisa-se de dinheiro. Mas...
ao seu ver, como é que é esse tratamento? Poderia ser diferente? Não, eu acho que, tipo assim, pobre ou rico tem que ser tratado igual. Da mesma maneira. Eu não posso tratar você bem porque você tem dinheiro pra me dar. Você é uma alma. Ainda mais... Eu sou freira, não sou mãe das almas. Eu sou mãe tanto das almas das pessoas pobres, supondo, como das pessoas ricas.
Ainda mais em instituição religiosa, né? Por exemplo, você vai pegar, vou dar um exemplo, da Canção Nova. Canção Nova, você vai lá no acampamento. Quem que vai estar lá no palco ou naquelas áreas restritas? Só pessoas de nome. Líder de Estado. Não vai estar as pessoas. Os pobres estão tudo lá embaixo. Ou agora, por exemplo, pega o padre Marcelo. Acabou de ter a missa de 40 anos, se eu não me engano, de vida sacerdotal do Dom José Negri.
Quem que estava no palco, na festa, na celebração? Estava o Tarcísio, o Ricardo Nunes. Só pessoas da alta.
Da política. Da política. E embaixo tava quem? O povão. Então o povão, ele sempre vai tá, ele vai ser escorre, ele nunca vai ter um lugar de... De destaque. E aí, se a gente pega Jesus Cristo, o que ele falava quando chegarem num banquete? Procura o último lugar. O último lugar. Entendeu? Não o primeiro. Não o primeiro.
e o que a gente vê é o contrário. Então, eu acho que o tratamento tem que ser igual, o respeito, o carinho tem que ser para todos. Isso não acontecia na instituição que eu estava, e eu sei que em muitas não acontecem. Então, eu não acho justo ter essa diferença. Agora, a questão de dinheiro, se eu tenho dinheiro para doar, legal, que bom, ajude, entendeu? Mas eu estou dizendo para você que muitas vezes você vai ser bem tratado dentro da instituição só pelo seu dinheiro.
Como eu vi, gente, que perdeu o status e a madre maltratou. Perdeu o status onde? Dentro da igreja? Não, tinha uma pessoa que trabalhava com a gente no Espaço Kids e ela era vice-diretora da Ajuda à Igreja que Sofre. E aí, quando ela era vice-diretora, a madre tratava ela a pão de ló. Só que ela ficou doente muito depressiva e foi demitida. Quando ela foi demitida da Ajuda à Igreja que Sofre, ela virou a escória do convento. A madre veio brigar comigo porque eu tinha dado espaço pra ela participar da gravação do DVD.
E aí eu escrevi uma carta, eu tenho até hoje, eu falei assim, enquanto ela estava com status, ela foi convidada a sentar do lado da senhora, quando a senhora fez 50 anos na mesa dos poderosos. Quando ela perdeu o status, ela não serviu para mais nada. Então, isso eu questiono e sempre vou questionar, entendeu? Eu acho que o religioso, ele deve ser um sim. Ele é um sim. Tipo, às vezes batia pessoas na rua, no convento, batia e falava assim, tinha uma pessoa, uma pessoa falou assim, irmão, eu tenho uma vontade de tomar um caputino.
A gente não tinha. Eu dei um jeito. Sabe o que eu pensei? A tinha irmã que falava assim... Você quer com chantilly ou sem? Não, a tinha irmã que falou assim... Ai, que folgado. Eu falei, não, mas... A pessoa não pode querer um chingaputino? Sim, sim. Aí eu peguei e fiz. Um cara, uma vez, que ele falou assim pra mim... Irmã, eu preciso de uma extensão. Porque eu vou cortar... Olha a minha inocência. Eu vou cortar grama na casa do fulano e não tenho uma extensão.
Olha a minha inocência. Era muito boa. Aí eu emprestei a extensão da irmã. Ele não devolveu. Já.
Já era. Já era. Aí a irmã me brigou comigo. Ai, você pegou minha extensão, não sei o quê, não sei o quê. Eu falei, eu vou pagar. Porque tinha que pagar, né? Aí tive que conseguir doação pra pagar. Aí eu cheguei na capela, assim, e falei assim, nossa, Jesus, tô me sentindo tão idiota. Porque a pessoa me enganou. Tirei a extensão da freira, ela tava assistindo a Rede Vida. De repente, eu pensei, eu falei assim, não. Eu agi com a minha verdade. Entendi, é. Eu sou uma freira e eu quero ser um sim.
Para as pessoas. Porque não, eles já têm em todos os lugares que eles vão. Eu dei um sim para ele. Se ele não soube valorizar o meu sim. É, o problema é dele. Se ele me enganou, isso é com ele. Então, eu tive essa lição interna dentro de mim, entendeu? Qual que foi a sua ordem que você entrou? Carmelitas Mensageiras do Espírito Santo. Carmelitas Mensageiras. Elas têm clausura, essas coisas? Têm clausura. Só que não aqui no Brasil, na Europa, né? Elas têm.
O que é clausura? Eu perguntei agora há pouco, mas clausura é o quê? Você não pode sair do convento? São freiras que vivem trancadas no convento. Aqui no Brasil a gente era apostólica, então a gente tinha um período de clausura, assim, durante o dia, mas a gente podia sair pra evangelizar e pra trabalhar.
Mas com a espiritualidade do Carmelo, que é de clausura, contemplação. Quando você entrou, quanto tempo demorou assim pra você perceber? Falou, caramba. Não, não percebi. Na verdade, eu saí sem perceber. Quanto tempo você ficou? Os abusos, eu fiquei nove anos. Nove anos? Só que aí eu achava que eu era ruim.
entendeu? Porque eu vivia dentro de mim um questionamento interno muito grande com tudo isso que eu tô falando. E aí quando eu saía, a Madre macetando, a Madre fazia reunião correção fraterna, reunia todas as freiras, descia o pau na gente. Ela falava que a gente tinha uma quadrilha, porque a gente falava que a gente tinha que ser como irmãos.
A gente questionava essas coisas dentro do convento. Então ela macetava a gente. Mandava a gente, separava a gente, mandava pra comunidade. A gente não podia sentar perto. Eu ia já que a gente era amiga, com outros grupos de amigas, a gente não podia sentar perto. A gente tinha que sentar longe. Era tudo separado. Aí eu falei assim, eu cheguei num ponto assim, que eu falei, eu não quero mais viver isso. Eu tava depressiva, doente.
E decidi sair. Só que quando eu decidi sair, eu falei pra minha mestra assim, olha, eu prometo que eu nunca vou falar nada do que eu vi aqui. Eu saí prometendo isso.
E quando eu cheguei na minha casa, eu falei assim pra minha mãe, mãe, eu tô vindo embora porque eu quero realizar um projeto de evangelização infantil. E a congregação não comporta isso, as minhas ideias, porque a vida religiosa não comporta. Eu menti pra minha mãe. Ela foi descobrir as primeiras coisas dois anos depois. Eu não conseguia me expressar, eu não conseguia falar, eu não tinha identidade. Eu não conseguia colocar uma roupa, entendeu? Eu não conseguia pintar a unha, eu não conseguia. Eu não conseguia.
Colocar uma roupa em que sentido? Uma roupa de leigo, assim. Minha mãe falava assim, vou levar você na loja pra comprar roupa, eu não conseguia. Então eu usava o que tinha de doação das pessoas. E eu achava que eu era pecadora, que eu tinha sido infiel a Deus. Demorou anos, foram 10 anos, pra eu começar a entender. Não, peraí, não sou eu que tô errado. E tá errada a instituição. Não só comigo, mas com tantas. Entendeu? Demorou 10 anos pra você entender que você sofreu alguns abusos, muitos abusos lá dentro. E depois...
Demorou 10 anos pra entender e depois de quanto tempo você começou a falar? Então, depois de 10 anos, por que que acontece? Teve uma freira no convento que ela tinha 22 anos de vida religiosa e ela foi expulsa em plena pandemia. E quando ela chegou na minha casa, ela chegou parecendo uma mendiga.
E aí ela começou a me mostrar todos os documentos, porque antes dela ser expulsa, ela sofreu exclaustração. O que é isso? Exclaustração, ela recebeu autorização para sair por um tempo, seis meses, permanecer fora seis meses. Nesses seis meses, as irmãs ajudaram ela com 500 reais. Como que a pessoa sobrevive? Ela não tinha família para acolher ela.
Depois, as irmãs prolongaram essa exclaustração por seis meses, chama-se exclaustração imposta. Porque tem a exclaustração que eu, como religiosa, posso pedir. Claro que na nossa, a Madre gritava, eu não dou exclaustração, então ela tirava todos os nossos direitos, não deixava a gente ler o Código de Direito Canônico, mas dentro da igreja existe o Código de Direito Canônico. E se eu estou em crise e quero tirar seis meses de exclaustração, sair fora, como religioso, eu posso.
Para ver o que eu vou fazer da minha vida. Mas, no caso dela, foi imposta a congregação que impôs a ela isso, em plena pandemia.
E aí depois, na segunda exclaustração, foi 250 reais. E aí depois expulsaram ela e não ajudaram ela em nada. Mas por que estavam fazendo essa exclaustração dela? Não queriam ela lá? É, porque depois de 22 anos dizia que ela era uma pessoa que não sabia se relacionar bem com as outras freiras. E não tinha uma justificação. Porque no Código de Direito Canônico tem uma lei lá que fala que o religioso só pode ser expulso por três situações. Se ele contrair matrimônio, se ele fizer...
Não é apostasia. Como é que fala quando você... Quando você fala alguma coisa contra a fé. Me fugiu a palavra. Blasfêmia. Blasfêmia. Apostasia, blasfêmia. Se ele falar alguma coisa contra a instituição... A fé em si, o dogma, a doutrina. E tinha uma outra questão lá. Se cometer um crime, um crime social. Então são esses três pontos. E no caso dela, não tinha. Ela não... Não casou.
Não, o motivo é porque você não sabe se relacionar bem com as freiras. Aí a freira chegou, eu escrevi uma carta aberta, 17 páginas, e eu detonei. E eu comecei a denunciar tudo e falei assim, pegando o Código de Direito Canônico e perguntando por que isso, por que aquilo. Fiz uma reunião com elas e falei, se vocês não indenizar essa irmã...
Eu vou nos meios de comunicação. Elas indenizaram. Indenizaram. É, só que a gente era tão inocente que a gente pediu um valor de um salário mínimo porque ela nunca pagou INSS. 22 anos sem recolher INSS. Então aí eu falei, eu quero que vocês paguem o valor de uma... De uma...
aposentadoria no valor do celular o mínimo vigente. Depois de muita discussão, elas aceitaram, fomos em cartório, eu falei assim, e vai ser em cartório, porque eu não confio na palavra de vocês, e elas tentando ludibriar. E aí, até hoje, elas pagam essa irmã, mas tem irmãs que nunca recebeu nada, tem irmã que cata latinha na rua, pra sobreviver. Gente! Sim, muita coisa triste. E aí, depois desse fato, eu fiquei muito mal, eu fiquei doente, porque isso me feriu muito.
E nessa reunião que eu tive, com a madre atual delas, elas têm hoje uma madre atual,
estávamos na reunião, e aí essa madre atual olhou pra essa irmã, que tava lá toda humilhada, e falou assim, irmã fulana. Porque a gente chamava de irmã. De repente, ela olhou pra ela e falou assim, não, irmã não. Fulana. Ali, ela retirou o último status que ela tinha de ser freira, e ela não queria deixar de ser freira. Aquilo, pra mim, foi como se ela pegasse meu coração e macetasse. Não era comigo que ela tava fazendo. Era com aquela irmã do lado.
Mas também foi comigo. Então, ali, eu percebi, eu falei, não, isso aqui é uma mentira existencial.
E aí eu fui me afastando cada vez mais. E também a questão política, que elas fizeram propaganda para o Bolsonaro. Entraram na política. Então, eu também não aceitei isso, porque eu não aceito... A gente veio de uma instituição abusadora. E como que a gente pode defender candidato? E para mim... As freiras fizeram apoio? Sim, fazer jejum, oração sim.
Jejum? Sim, eventos. Fazia oração pelo Brasil, jejum pelo Brasil. Depois, quando o Bolsonaro perdeu, ficavam falando, postando um monte de coisa. A minha primeira live foi três dias depois que o Bolsonaro perdeu. Eu ainda esperei.
A igreja pode apoiar publicamente um candidato? Não pode, mas faz. Por exemplo, quando hoje Dom José Negri faz 40 anos de sacerdócio e no altar dele, na missa de celebração, lá na igreja do padre Marcelo, com milhares de pessoas, eu tenho no meu altar Tarcísio e Ricardo Nunes. O que eu estou querendo dizer para a população? Está no altar? Estava no altar? O que eu estou querendo dizer para a população?
É indireto. Eu não vou chegar e vou abraçar e vou falar assim, olha... Esse aqui é o nosso candidato. Mas isso acontece também, porque dentro de eventos da renovação carismática, tinha uma parte, quando eu participava, que eles faziam lá, vamos formar a bancada católica. E ali eles apresentavam os candidatos e iam se falando, vamos votar nesses candidatos, porque são eles que vão defender aquilo que a gente acredita.
É, na teoria, né, a igreja não apoia, mas eu também já passei isso na minha comunidade. Tinha um candidato que era ministro e tudo, e aí a comunidade apoiava, tanto que o padre chamou a gente, a gente fazia o jornalzinho, falou assim, ó, estamos apoiando o candidato tal e vocês também têm que apoiar no jornalzinho. Eu falei, não. Aí ele falou, bom, se vocês não apoiarem, o jornal acabou. E aí, o jornal acabou. Então, olha isso.
A gente fez o jornal durante, acho que, uns 15 anos, alguma coisa. E aí ele só foi circular de novo quando esse padre faleceu. A gente fez uma edição especial para comemorar. Brincadeira. A gente fez uma edição especial para... Brincadeira, né? Não foi para comemorar, não. A gente fez uma edição especial desse padre, que aí a gente encerrou o jornal mesmo. Mas esse padre, ele, na verdade, ele chamou a gente. E aí foi o momento.
Mas é isso, né? Você está muito perto, você vai vendo as coisas da... Assim como você vê a teologia da libertação, que é mais progressista e vai para o lado da esquerda, e tem a renovação carismática e os tradicionalistas, que são mais para a direita. O grande problema para mim não é esquerda e direita, o grande problema para mim é extrema-direita. Entendeu? Isso é o grande problema. Porque a gente se aproxima, se você for estudar o nazismo, o fascismo, você vai ver muitas coisas que acontecem hoje no Brasil que é semelhante.
Quem não dá a opção, por exemplo, para o Brasil ter a terceira via são os cristãos. São eles que não dão. Por exemplo, tem muita gente que não gosta do PT e não gosta do Bolsonaro. Mas o que essa pessoa vai fazer? Ela não tem uma opção hoje no Brasil. Eu, cara... Ela não tem opção. Eu estou nessa coisa de... Eu sempre olho os candidatos e eu olho todos os candidatos, independente de direita ou de esquerda. Eu olho todos. É claro que alguns...
Você vê na mídia que as coisas que eles falam não dá para votar no cara. Sim. Aí cada um avalia ali.
Mas hoje em dia parece que as pessoas têm que ter um lado. Ou você é esquerda ou você é direita. Se você, por exemplo, se você fala você é esquerda, então você ama o Lula. Não, mas eu não gosto muito do Lula, eu queria outro. Mentira, você é da esquerda. Tem até um vídeo do Porta dos Fundos que é assim. O cara fala, né? Você não gosta do Bolsonaro, então você é da esquerda. Não, eu não sou. Não, você não gosta do Bolsonaro, você gosta do Lula. Não, eu não gosto do Lula, não.
Então você gosta do Bolsonaro? Também não. Ou Lula ou Bolsonaro. Eles ficam, ou Lula ou Bolsonaro. E a cabeça dele explode no vídeo. É, não tem. Porque você não tem um lado pra ir, né? Hoje em dia, agora é o Flávio ou é o Lula. Então não tem uma terceira via. Não tem. E quem não deixa é os cristãos. Aí você fala assim, qual que é o perigo de tudo isso? Pra mim, o grande perigo à extrema direita é porque ela anula as minorias. Ela anula.
Anula a existência dos homossexuais. Mais uma pergunta, sim. A igreja não anula também?
Sim, por isso que a igreja apoia praticamente a extrema-direita. Entendeu? Porque assim, agora bota a plaquinha de polêmica. Cara, eu vejo uns padres claramente gays falando contra gays. Sim. Eu tenho vontade de chegar, tem um padre que ele é muito gay. E aí ele tá aí, ele fala umas coisas e eu olho. E eu dou vontade de chegar pra ele e falar, vem cá.
Você é claramente gay, você tá falando contra gay, mas ele tá falando a favor da igreja que ele segue, né? Digamos assim, né? Mas talvez nos bastidores ele nem viva isso que ele tá falando. E tem essa questão, que aí é o grande problema. Mas será que não tem? Já assistiu o filme O Crime do Padre Amaro?
Não, já. Ou já leu o livro? Acho que eu já leu o livro. O Crime do Padre Amaro é uma obra portuguesa, se eu não me engano. Acho que é essa de Queiroz. Acho que é. Eu lembro que eu assisti na escola, minha professora passou para a gente e eu fiquei chocado. E aí tem uma cena que o padre, o Amaro, ele fica falando contra o aborto, contra a traição de casamento, no cavamento e tudo. Só que ele se envolve com uma moça da comunidade.
Tem até uma cena que ela vai se confessar com ele e ela fala que ela tem tesão por Jesus. Ela fala assim, eu imagino um homem, toda vez que eu vou me tocar, eu imagino um homem. Aí ele fala, é pecado e tudo, não pode se tocar, não pode se masturbar. Ela fala, mas esse homem é Jesus. E aí ele, bom, então reza tantas ave marias e tal. E aí quando eles vão ter a primeira relação, ele veste ela de Maria.
É pesado o negócio. E eu assistindo... A minha professora... Aí, ó! E é do realismo, né? É um movimento chamado Realismo, que mostra o que tá acontecendo. E aí ele coloca um manto azul nela, assim, e lasca a lenha na coitada. Ela engravida dele. Ela... Ele paga alguém pra tirar o bebê. Ela morre.
para resumir o filme, né? E ele faz o velório dela e tem uma cena que tem uma família tomando... Assistam esse filme ou leiam o livro para explodir a cabeça de vocês. Eles estão, uma família tomando café e aí o marido da família, o homem da família, fala assim, mas você viu que coisa o padre fez? Esse padre...
fez o velório da moça que abortou e morreu no aborto. Mal sabia os coitados que eram filhos do padre. E aí a moça... Nessa hora me deu uma raiva. A moça colocando o café para ele e falou não, mas esse padre é santo. Por isso que ele fez isso.
Porque ele é santo, ele tem uma santidade de Deus. E aí mostra o caixão dela dentro da igreja e ele fazendo a missa. E aí tem uma hora que ele pega e vai pro bispo, acho que antes da menina morrer ainda, e aí eu me lembro do bispo falando claramente, não pode. Aí ele, ai, me desculpa bispo, eu não aguentei a carne, eu saí com ela. Aí o bispo, não tô falando que não pode sair com ela, não pode deixar que as pessoas saibam.
Aí o bispo fala, você acha que eu não tenho os meus contatos também? Você acha que eu não pego um monte de gente da comunidade? Mas não pode saber. Então eu percebo que essa... Eu não sou padre, eu não posso afirmar isso. Mas a gente percebe, pelo seu relato, pelo relato do Brendo, que me parece que existe um pacto lá dentro. Qual que é o pacto? A igreja, ela é santa. Então você vai falar sempre o que é igreja e o que é religião.
E o que a religião determina. Não pode ser homossexual, não pode usar Dio, não pode transar pra outros fins. Não pode, não pode, não pode. Se você vai fazer isso, pouco me importa. Mas, por favor, prega isso. E aí os padres falam.
É, mas é fácil. Porque é fácil. E quando você fala a verdade, eles falam assim, ai daqueles que escandalizam os pequeninos. Então quem é leigo é visto pela igreja como um pequenino. Então eu falar a verdade da igreja, eu estou escandalizando você. Eu estou fragilizando a tua fé. Então eu vou ter uma condenação por isso. Ou quando um leigo fala...
Contra um consagrado fala, ai daqueles que tocam nos ungidos do Senhor. Então você percebe as frases de efeito que existem dentro da igreja? Ai daqueles que tocam nos ungidos do Senhor. Ai você que está aí fora fala mal de um padre e de uma freira. Agora um padre e uma freira que peca, se for falar para vocês...
é, ai daqueles que escandalizam os pequeninos, melhor seria que colocasse uma pedra e se jogasse no fundo do mar então, isso são frases que existem dentro da igreja e que trabalham em prol disso daí que você está falando e isso é real, ou vamos pegar um filme brasileiro Alto da Comparecida, quando não pode rezar para a morte da cachorra em latim maravilhoso essa cena ô padre, eu amo essa cena
Vai lá rezar pra cachorra. Imagina que coisa. Você acha que eu vou rezar pra cachorra? A animal não tem alma. Eu vou rezar pra cachorra. Ah, é uma pena que não pode rezar pra cachorra do governador. Do Antônio Moraes. Do Antônio Moraes. Ah, é dele? Mas por que não me disse antes, coitadinho dos animaizinhos? E daí ele vai rezar. Isso aí quando fala pro bispo, não pode ainda em latim.
Mas ele me deu cinco contos de réis. Ah, então, quanto dá uma padiocese, não sei o que. É isso daí, gente. O Alto da Compadecida descreve muito claramente... O que é a igreja. Essas coisas, entendeu? Que é a hipocrisia, né? Mas eu queria te perguntar o outro lado. E aí eu queria... Você falou da irmã...
Uma irmã que faleceu, o que? Afogada? Que você sentiu muito? Isso. Morreu afogada por quê? Foi nadar? Foi... Segundo a história, ela estava na Sicília e aí elas foram ter um dia de descanso numa praia da Sicília e elas estavam na beira da água, só que lá o mar pegou e puxou elas pro fundo, né? E aí essa irmã tentou... Quatro irmãs estavam se afogando e elas ajudou ali, tirou a outra e ela acabou perdendo a vida tentando ajudar uma irmã, mas ela não aguentou, engoliu muita água e quando as irmãs tiraram ela, ela tinha morrido.
Então, você falou dessa morte, mas você teve momentos bons dentro do convento? Sim, teve momentos bons assim, no sentido das pessoas que eu conheci. Porque a nossa vida ali realmente era muito dura, entendeu? A gente não tinha muito lazer. A gente não tinha lazer, a gente trabalhava de segunda a segunda. Qual que era a rotina? Não sei se dá pra falar assim de todo dia, mas qual que era a rotina de você escrever? Todos os dias a gente acordava às cinco e meia da manhã.
Já não gostei. Cinco e meia. Isso. E nos sábados a gente podia acordar seis e meia ou nas solenidades. Esse era o máximo de horário que a gente podia acordar à tarde. E domingo? Não, domingo era cinco e meia também. Só no sábado seis e meia. Porque domingo era um dia muito ativo, né? O dia que as irmãs iam para as paróquias.
Então não existia dia de descanso. Padre ainda tem a segunda-feira, que geralmente a segunda-feira é o dia de descanso do padre. Nós, religiosas, ali onde eu estava, não tínhamos. Então a gente trabalhava do acordar ao dormir. Aí a gente fazia oração, acordava, ia para a capela fazer oração, que eram as laudes. Aí ficava até umas 10 horas, porque tinha missa, tinha oração. Depois a gente ia para os nossos afazeres, quem ficava na casa e a cuidar dos afazeres da casa, dos ofícios.
Quem trabalhava fora, em paróquias, em secretarias, em outras coisas, saía para os seus trabalhos. Chegava tarde, a gente se reunia novamente para rezar, jantava, e nos recreios, que era a hora que a gente se reunia em comunidade para conversar, que era a hora que podia conversar, assim...
brincar, né? Pra conversar com quem? Não, todo mundo junto. Era uma sala, sentava todo mundo e ali a gente ficava trocando ideia, assistindo televisão, jornal, mas quando tinha comercial, tinha que abaixar o volume, não podia eu ver comercial. Porque? Porque não podia, era proibido. Era proibido, abaixava.
Não podia ver nada de comercial. Novela não podia também? Nunca, não existia isso. Não assistia Avenida Brasil? Nunca. Era totalmente alienado, nem acesso à internet, não tinha celular. Pra falar com a família, a gente tinha que estar, tinha um telefone que era coletivo, uma área chamada. E aí quando a gente ia, se a gente era formanda, aspirante, postulante e noviça, a nossa formadora ficava sentada do lado enquanto a gente estava falando com a nossa família.
Tudo era muito vigiado, entendeu? Gente, Bruna, parece mesmo filme de terror. Cartas que a gente recebia, quem abria sempre a nossa superiora. Nunca existia isso. Ou se a gente escrevia uma carta pra nossa família, tinha que entregar pra ela. Ela ia ler, ela ia fechar, ia colocar. E se ela julgasse que tivesse alguma coisa que não fosse bom, ela ia mandar você reescrever. Se você recebesse alguma notícia da sua família que ela julgasse que não era bom, ela não ia entregar a tua carta. Era assim.
E no recreio, nesse momento coletivo, que era depois da jantar e depois do almoço à tarde, a gente sempre tinha que estar fazendo um trabalho manual, crochê bordado, porque a madre vendia essas coisas na Europa. Então, a gente nunca estava parada. Nem no momento ali que era para dar um respiro, não tinha. Vendia na Europa? Ela vendia os nossos crochês na Europa. Ela levava malas e malas e vendia de toalhas, bordados. Então, todo mundo tinha que aprender a fazer. E o dinheiro disso, e para onde?
A gente não sabe. Não era pra vocês? Não era pra manter o convento? Supostamente era, né? Mas a gente não via. A gente não tinha acesso a dinheiro, absolutamente nada. Se a gente saísse na rua, a gente não tinha um dinheiro pra comprar nada. Nunca. Eu fiquei nove anos da minha vida sem ter acesso a dinheiro. Eu não sabia o que era. Quando eu saía, eu não conseguia entrar numa loja pra comprar um lanche. Mas, Bruna, por que isso? Por causa da pobreza? Do voto da pobreza?
Os três votos são... Pobreza, castidade e obediência. Então, pobreza, ela abrange tudo isso. A pobreza, na verdade, na igreja, é tipo assim, não tenho nada no meu nome, porque muitas congregações não vivem a pobreza. Que nem a gente vivia a pobreza num ponto...
mas a gente morava nos lugares mais caros de São Paulo, quando era a solenidade, ou a gente, tipo, nas férias, que tinha cinco dias que ela deixava a gente descansar no final do ano, a gente ficava em casas bem chiques, que tinha piscina e tal, mas o dia a dia era o nosso.
De baixo, a ralé. Agora o dela, não. Quem morava na Europa era outra realidade. Quando ela viajava para a Europa, era outra realidade. Então, assim, essa coisa da pobreza é muito mesclado. Depende da instituição. A pobreza é para uns, não é para outros. Entendeu? A pobreza, então, inclui isso de não ter nada no seu nome. Isso. Mas inclui também de não ter muita roupa, essas coisas. No nosso caso, sim. Eu tinha três roupas. Eu tinha uma que era nova, quando era solenidade.
Tinha uma que era pro dia a dia pra missa e tinha uma que era pra ficar em casa. Então tinha três roupas, três véus, dois sapatos, três camisetas. Era o hábito? É, chama hábito. A roupa das freiras chama hábito. Que é aquela mesmo da freira convencional mesmo, né? Isso, tinha véu, tinha véu, tinha nágua, tinha blusa pro bar. Eram muitas roupas. Tipo, tinha uma saia, tinha uma camiseta branca. Isso era ficar pelado pra gente. Eu jamais podia ficar pelada na frente de uma freira. Então o máximo que uma freira me via de nua era com uma camiseta e uma saia.
Aí depois tinha como se fosse um vestido. Não, tinha uma camisa. Aí tinha uma golinha por cima da camisa. Aí tinha o vestido, que era o hábito. Depois tinha um escapulário. E o véu tinha uma toca e tinha o véu. E ficava só o rostinho pra fora. Isso. E quando era solenidade, ainda colocava uma capa por cima toda grande. Assim, que cobria todo... Desculpa. Nossa, é um... Que cobria tudo. É uma... É um figurino, né? Isso, todos os dias. A mesma roupa. Mesmo calor, mesmo frio. Mesmo calor, mesmo frio. Todos os dias.
Gente, passado. Tipo, no calor, você não podia dormir. Você podia dormir coberta com lençol, mas você não podia descobrir seu corpo. Você não podia dormir, porque você dormia de pijama. Mas você não podia tirar a coberta e ficar só de pijama. Isso era considerado errado. A madre não podia. Mas e banho? Pelo menos banho você se tomava sozinha. Sim, sim. Não ficava outra freira lá. Não, e era de balde. Só nas solenidades que podia tomar banho de chuveiro cinco minutos. Nos outros dias era de balde. Gente, mas...
Ai, Bruna, mais uma pergunta que pode parecer polêmica. Mas por que você foi se enfiar nisso, Bruna? Eu não sabia que era assim. Você não sabia. Qual era a sua ideia? A ideia era essa, que eu ia entrar no convento e ia trabalhar com as crianças da favela. Essa era a minha ideia. Mas não te falaram nada? Não falava. Você vai ter um quarto? Nada, Jaque? A Jaque também está ali. Não falava nada disso. Não falava, não. Não falava nada disso.
Só ficava falando de espiritualidade. De Deus, de Jesus, da Bíblia. Agora o dia a dia... Agora a pergunta é meio boba. Você perguntou?
Mas, Freira, vem cá. Eu vou que estou pensando em entrar. Como é que é lá? Você fica alienado. Você já começa a ser alienado desde o período vocacional. Alienado ou apaixonado? Os dois. Acho que um apaixonado pode ser alienado, né? Porque ele não enxerga as coisas claramente. Quando você se apaixona por alguém, primeiro vem, né? É verdade. Vem primeiro a fantasia. A paixão é perigosa. Isso. E a vida religiosa, o caminho da vida religiosa é dessa forma. Você se encanta com aquilo.
Você idealiza, só que na verdade é aquilo que eu falo. Você viu a freira dançando beatbox ou correndo de moto. Uau, que legal, que moderno. Que legal, quero entrar, não quero ser freira. Eu quero ser isso. Você imagina, tipo, você é uma freira assim, uau. Mas não é. Você vai passar por períodos formativos. O conto da Aya, pra mim, da experiência que eu tive, é o que mais se aproxima de tudo que eu vi até hoje. No entanto, que eu não consigo nem terminar de assistir. É tudo aquilo?
O que é diferente é que a gente não tinha questão sexual. Mas daquela forma é daquele jeito. A violência da formadora, aquelas tias, é como se fossem as formadoras. A diferença é que elas não batem fisicamente. Mas aquela opressão... Mas é psicológico. Isso, isso acontecia. Tem uma cena do conto da Aya que quando elas saem por um caminho mais longo... Não sei se você assistiu, mas elas têm que sair pra comprar alguma coisa. E aí elas pegavam um caminho mais longo. Sabe? Aí começa a chover. Eu chorei nessa cena.
Porque eu fiquei me lembrando de quando eu vendia biscoito. Eu e a minha outra companheira, a irmã Juliana. Uma vez que a gente andava pelos caminhos mais longos. Pra gente demorar pra chegar no postulado. Aí eu me pergunto. Mas por que que naquele momento a gente não se rebelou? Porque falavam que era o demônio. Quando você entra, eles já falavam assim.
Você não vai falar nada do que acontece aqui pra sua família, porque eles não vão entender. E qualquer tentação que você sofria, falava é o demônio tentando tirar sua vocação. Então já começa ali todo um processo. Aí você fica um tempo sem falar com sua família. Quando você vai falar que sua formadora está do teu lado, você vai ousar reclamar? Você não vai.
Não teve nunca ninguém que se rebelou lá no meio? Se rebelou, era expulsa. Quando você já chega com o espírito queixar, você falou, você não perguntou. Se eu perguntar no encontro vocacional, eu já sou mandada embora, você não tem vocação. Imagina as freiras. Porque não é eu que decido. As pessoas acham que eu vou para o encontro vocacional, sou eu que decido. Não é, as freiras estão de olho em tudo que você está fazendo. Elas vão te avaliar se você tem um perfil. Se elas veem que você não tem um perfil, elas vão falar, você não tem vocação.
E mesmo os processos formativos são as suas formadoras que estão te avaliando. Não é você que está decidindo o seu caminho. Por exemplo, é diferente... Eu entro numa faculdade. E eu vou ter um processo formativo. Cada semestre eu vou ter que passar. Só que é um esforço meu. Eu vou ter que estudar. Eu vou ter que cumprir as datas. Eu vou ter que tirar nota. É meu.
Eu vou ser aprovado por aquilo que eu me esforcei. Dentro da vida religiosa não é assim. Entendeu? Eu vou ser aprovado se a minha formadora e meu formador achar que eu devo. Se ele não for com a minha cara, se eu for uma pessoa questionadora e não for com a minha cara, eu tô lascado. Porque ele vai me deixar... Eu vi muito disso. Por mais que você faça as coisas certinho... É, por mais que você faça as coisas certinho, existe muito disso.
Existe muito lado pessoal. Mas assim, questionar jamais. Que as pessoas falam, ah, você não perguntou. Não, não existia isso.
Você lá dentro, você era Não questionava também, você era a Bruna Certinha Eu era muito certinha, eu questionava internamente Muitas coisas dentro de mim Mas eu não tinha coragem de chegar e me posicionar e falar Quando eu comecei a me posicionar Aí eu me tornei a rebelde Quando eu fui fazer votos perpétidos Tinha irmãs que não queriam que eu fosse aprovada
Teve uma irmã lá que ela não queria que eu fosse aprovado. Sabe por quê? Porque eu fui num retiro, pregar um retiro de carnaval perto da minha cidade. E a minha mãe foi. E aí a minha mãe ia comprar um terço na lojinha das irmãs. E eu falei assim, mãe, não compra na lojinha delas, não. Compra na lojinha do lado da paróquia. Porque o das irmãs é super faturado. Elas cobram muito caro.
A freira não queria que eu fosse aprovada. Mas ela descobriu isso que você falou? Descobriu, porque eu falei na frente. Porque eu falava, os terços de vocês é muito caro, vocês cobram além. E eu falei isso pra minha mãe. Aí ela pegou e falou assim, como é que a Bruna vai ser aprovada pra ser freira se ela falou que o nosso terço é caro?
E um monte de baboseira. E não é caro? Quanto é? 600 reais. Nada demais um terço desse. Não, é tipo assim. Eu achava que era super faturado. Entendeu? Mas assim, você falou pra sua mãe não comprar. Falei pra minha mãe não comprar. Perto da freira. E ela ouviu. Ela ouviu. E ela já não gostava de mim, essa freira. Estou lá até hoje, se traste. Ainda levanta a mão pra orar pras pessoas. E ela é muito ruim. Entendeu?
E aí, era pra fazer o quê? Os votos perpétuos? Isso. E aí, uma das ligações que eu não podia fazer votos perpétuos era por isso. Entendeu? Porque eu falei com o Terço das Irmãs. Ah, gente, mas assim, não. Ah, e porque eu lia livros de autoajuda. Porque eu lia Augusto Cury e porque eu lia Padre Fábio de Mello. Aí foi proibido de ler os livros do Augusto Cury e do Padre Fábio de Mello. Ué, mas o Padre Fábio de Mello não é da casa? Não é um padre?
É, mas os livros dele eram na linha psicológica. Então, tipo assim, a Bruna, ela vive em crise, porque ela quer se autoentender. Então, ela não tá preparada pra fazer votos perpétuos. E, de verdade, não tava mesmo. Porque eu só tava em crise. Mas pra Madre, não, né? A Madre não admitia que eu não fizesse. Então, assim, eu fiz, mas eu não queria fazer. Mas a Madre não permitia que eu não quisesse. O que é o votos perpétuos, Bruna?
É a última fase. É a última fase, aí você vai ficar pra sempre. Você vai ser carmelita pra sempre.
Voto pra sempre de pobreza, castidade e obediência. Pra sempre. É um casamento pra sempre. Porque tem as fases. Tem o aspirantado. Primeiro você entra, você é uma vocacionada. Depois você é uma aspirante. Depois tem postulante, noviciado. Votos temporários e depois os perpétuos. Então demoram anos pra você seguir o teu caminho. Quando eu cheguei no processo dos votos perpétuos, eu não queria fazer.
Quantos anos depois que você entrou? Uns seis anos depois. Eu não queria fazer votos perpétuos. Eu queria sair, eu queria terminar os meus três anos, porque lá eram três anos. Acabou os seus três anos de votos temporários, a igreja te dá a liberdade de sair. Isso é uma norma. Então, a madre não podia proibir isso. Mas ela não deixava, então ela ficava na nossa cabeça.
Ah, você vai ter que fazer. Aí eu prorroguei meus votos perpétuos. Era pra mim ter feito em setembro, eu não quis. Aí prorrogou pra três meses à frente. O que ela fez? Ela falou pras irmãs que eu não ia fazer votos perpétuos. Não porque eu não queria. Mas porque tinha muitas irmãs da Europa pra fazer em setembro. Então o meu ficou pra dezembro. Porque ela não admitia que as irmãs entendessem que eu não queria fazer. Porque eu sempre fui uma irmã... É... Bem...
bem acolhida ali pelas irmãs. Eu não tinha problemas dentro do convento. As pessoas vão achar assim, a Bruna tinha problemas, brigava. Nunca. É, Fera, não brigava. Nunca. Não quebrava as coisas. Nunca. Não, porque às vezes, pelo que você tá me contando hoje, talvez as pessoas tenham essa ideia de que não, mas ela causava desde lá de dentro. Nunca. Nunca. Não dava problema. Nunca tive uma discussão com nenhuma freira dentro do convento. Nem com as madres superiores. Nem com as madres. Nunca.
Eu só falava o meu ponto de vista quando eu tinha a oportunidade de ter uma conversa particular. Mas era assim, de uma forma doce. Nunca alterei a voz com uma freira. Nunca falei nada grosseiro. Nunca existiu isso. Eu não tenho isso na minha vida. Diferente da Jaque, né? A Jaque já brigava mais. A Jaque? A Jaque tem uma cara de boazinha. A Jaque era briguenta, né? Você brigava, Jaque?
Já que o jeito dela lutar Pelos direitos da gente que era minoria Ela discutia, porque ela é explosiva Eu não Eu ficava quieta Eu acreditava que o silêncio E eu ofertando isso em silêncio Gerava uma força espiritual Para a congregação Então eu nunca tive discussão Só que aí eu não queria fazer votos perpétuos E a Madi sabia disso, mas ela não aceitava E aí o meu diretor espiritual Falou assim, olha E aí
Se você não fizer, a madre vai tirar você de ter direção comigo. Porque ela vai dizer que eu te orientei a não fazer. Então, o que eu te aconselho? Quando você for fazer votos temporários, você faz no seu coração para Jesus. Não faz para a congregação. Faça para Jesus e depois a gente vai percorrer o caminho de discernimento vocacional e a gente vai discernir o que você vai fazer. Então, eu fiz. Quando eu fiz votos perpétuos, no momento que a Liz tinha que falar Congregação Carmelitas Mensageiras do Espírito Santo, no meu coração eu falava assim, para Jesus Cristo.
É tipo assim, eu... Não pra elas. É, eu fiz isso. Então hoje, sabendo, eu nem sei se meus votos foi válido. Porque na verdade eu não fiz com isso. Porque é como se você estivesse fazendo uma figuinha, né? Isso, é, isso. Foi uma coisa que eu fiz ali naquele momento. Então ali eu não... Porque eu não queria mais. Só que eu não tinha coragem. Porque é difícil, gente, de sair. É muito difícil. E as pessoas no seu ouvido falando assim, você tem vocação, você tem vocação.
E aí você fica naquela, né? Puta, será que eu vou desistir? Será que eu saio mesmo? Não, vou fazer. É, e fiz, mas na verdade eu não queria fazer, mas ela não permitia sair. Ela me mandou pra casa de psicólogo duas vezes, tive que ficar hospedada na casa da mulher. Era uma opressão, pra você sair era um inferno. Às vezes era melhor você ficar... Na minha última visita à psicóloga, eu decidi voltar, porque elas queriam me dopar.
A psicóloga falou, se a Bruna ficar, ela surta, se ela sair, ela surta. Aí ela pegou o remédio e me deu.
Que remédio? Eu não sei que remédio. Aí ela falou, o remédio é o que eu tô tomando. A psicóloga falou, esse eu tomo. Ela pegou a caixa de remédio e falou, toma, Bruna, pra você tomar. Aí eu olhei pra ela e falei assim, mas você não pode me receitar remédio, porque você é psicóloga, você não é psiquiatra. Aí fui embora pra minha casa e eu falei assim, ok. Porque a psicóloga falando que eu tava surtada. Aí eu liguei pra esse meu diretor espiritual, porque ele era psicólogo também, e falei, o senhor é psicólogo, o senhor me atende há três anos como diretor espiritual. O senhor acha que eu tenho que tomar remédio? Ele falou assim, ainda não.
Ainda não. Ele falou, mas se elas te obrigarem, você coloca debaixo da língua e depois você vai e joga. E não engole. Isso. Só que aí o que acontece? Aí eu falei, tá bom. Aí eu peguei e chamei a responsável da minha casa, que era a coordenadora, e falei, ok. Vocês acham que eu preciso de psiquiatra? Eu aceito. Mas eu quero que a minha família escolha o psiquiatra que eu vou. Não vai ser vocês, porque eu não confio em vocês.
E a partir disso, nunca mais se falou nada sobre psiquiatra. Só que demorou cinco meses eu saí fora. Porque eu liguei pra minha mãe escondida. Falei, mãe, tô indo embora. Cheguei pra Madre, liguei pra minha mãe. Ela deu um grito. O que é que você fez? Você é maluca? Eu falei, não, minha mãe já tá sabendo. Porque o que acontecia? Quando a gente conseguia falar com a nossa família, a nossa família ia ver o que tava acontecendo. Então, essa foi a minha forma até mesmo de fugir. Fugir.
E pedir ajuda, né? É, eu pedi uma ajuda, entendeu? Mas não falei, mãe, eu tô precisando de ajuda. Eu só liguei e falei, tô indo. Dali, minha mãe já ia. Se eu falar assim, não tô indo mais, ela ia ver o que tava acontecendo. Mas, ô Bruna, então até esse momento de você ligar no desespero pra sua mãe, sua família não sabia de nada disso? Nunca, nunca. Pra sua família, talvez tava todo mundo em casa, ai, a Bruna é freira, que bom, né?
Isso. Tá lá no convento, como ela tá? Tá bem, tá bem. É, sim, e a gente ia de férias 3 em 3 anos, então eu via minha família, caso 3 anos.
Três em três anos? Quanto tempo de férias? Quinze dias. As nossas férias eram assim. Hoje elas têm férias anuais, depois que o Vaticano vem e interviu. Mas a gente é de férias de três em três anos. Mas assim, por que a freira te maltratava, te tratava dessa maneira, te mandando pra psicólogo, querendo te dar remédio? Por que ela queria você lá?
Não, a madre gostava de mim porque eu criava projetos de evangelização infantil, trabalhava com arte, isso dava muito dinheiro. Quem me maltratava não era a madre em si, eu não convivia muito com ela, eram as freiras que estavam abaixo dela que coordenavam as casas. E não somente a mim. O que me irritava era muito mais quando maltratava outras. Eu mesma tinha muita oportunidade dentro do convento.
Eu tinha chance de fazer as pastorais que eu gostava. Eu podia viajar quando tinha as missões. Eu tinha um respiro. Eu tinha pastorais, trabalhava na paróquia. Mas tinha outras que eram macetadas, eram humilhadas. E eu não suportava isso. E eram essas daí que eram as suas algozes, digamos assim. Não, as humilhadas não. As superioras.
As que coordenavam. Porque na casa tem a coordenadora e aí tem a gente que era súdita. A gente tinha que obedecer tudo que elas falavam. Então quem judiava da gente e quem eram as coordenadoras. Só que de mim judiavam, mas era diferente.
do que era com as outras. E aí era onde eu questionava. Por exemplo, essa irmã de 22 anos, a vida inteira só trabalhou na cozinha, porque ela era negra. Ela tinha vontade de tocar violão, ela não tinha oportunidade, ela não podia aprender as coisas. Por quê? Por que quando uma irmã mais simples, que vinha de um lugar mais simples, ela não podia desenvolver? Eu questionava isso.
Entendeu? Mas a irmã pedia? Pedia, mas não podia. Já era direcionado. Desde quando você entrava, já era direcionado. Já via seu perfil. Ah, essa aqui tem perfil pra isso. Elas que determinavam o perfil. Isso. Elas que determinavam. Então, como eu tinha muita habilidade artística... Tipo, eu não pregava. Tipo, eu venho hoje e falo aqui em podcast, no convento, eu nunca falei.
Eu nunca tive oportunidade de me comunicar, elas não deixavam eu pregar. Porque se eu pregasse, eu ia pregar do jeito que eu estou pregando aqui. Eu ia falar do amor, que toda vez que eu tinha oportunidade de falar, eu falava do Jesus pobre, do Jesus que acolhe. Então a minha fala não era importante para elas. Mas, por exemplo, os bonecos que eu criava, vendia. O livro infantil, os teatros que virou DVD, que vendia. Eu fazia muito artesanato, tinha muita habilidade manual. Então eram coisas que rendiam dinheiro para a congregação.
Você fazia esses trabalhos dentro do convento? E pra onde esses trabalhos iam? Nos eventos que as irmãs iam. Sabe quando você tem as lojinhas nos eventos católicos? Então, cada evento que as irmãs iam, elas levavam essa lojinha. E vendia. Vendia na lojinha das irmãs. Você fazia bonequinhos. Fazia bonecos. Fazia muitas coisas. Muitas. Tinha muita habilidade manual. Então, assim, vendia. Porque, tipo, fazia uns anjinhos que era a coisa mais linda de pendurar na porta. Tipo, vendia como água, entendeu?
Colocava onde pudesse ir, fazia. Então, curioso isso, né? Porque, ao meu ver, né? Se as irmãs vissem em você... Se elas viam em você uma artista, uma pessoa... Meu, trata bem a pessoa. Mas tinha gente que não concordava. Porque tinha a questão da inveja, entendeu? Que aí vem outras que não tinham habilidades. É porque é muito difícil você conviver com um ser humano. É muito difícil. Sabe assim? A gente tá pro Big Brother.
É um pouco parecido com aquilo, entendeu? Big Brother de freira. Se você soubesse... Não, é verdade. Quando eu assisti o Big Brother pela primeira vez, eu vi o convento ali. É? É. Porque, tipo, os paredão eram as correções fraternas. Você enxerga, você tá dentro de uma bolha.
Você tá enxergando o mundo a partir daquela bolha. A sua convivência principal é aquele monte de mulher, aquele monte de filha. Cada um tem uma forma. Eu tenho, por exemplo, eu quero tocar violão. Mas eu não tenho esse dom. Mas aquela irmã ali, ela tem, ela viaja, ela toca. Ah, eu queria fazer o que ela faz. Eu não queria ficar lavando a louça. Eu não queria ficar no convento lavando louça, lavando roupa. Se eu não tiver isso trabalhado dentro de mim... Eu vou atacar. Eu vou atacar.
E isso acontecia muito Dentro do convento Então ao meu lado artístico Eu odiava a palavra artista Eu tinha ódio Por causa dos meus talentos Porque eu falava assim Por que eu tenho tanto talento Porque eu sou uma pessoa assim Tudo que eu faço dá certo Em qualquer lugar Se eu vou fazer um trabalho manual Eu não tenho dificuldade Às vezes eu fingia que eu não sabia fazer Alguma coisa Para dar oportunidade para outras E eu vou fazer um trabalho
Só que isso me feria, porque aí eu me anulava, entendeu? Enquanto pessoa. Porque eu queria fazer, eu queria viver, eu queria criar. Só que aí quando eu percebia que o meu criar só podia acontecer, porque ele gerava um retorno financeiro. E não porque isso fazia parte da minha essência e não alcançava as pessoas. Por exemplo, eu queria trabalhar com crianças da favela.
Eu queria colocar a minha arte, o meu conhecimento, o meu talento com as crianças da favela. E eu não podia fazer isso. Mas eu podia fazer com as crianças ricas da fraternidade secular. E isso não me preenchia.
Mas você nunca falou? Falou, gente, eu quero ir lá na favela. Eu falava, mas não existia pastoral na favela na época que eu entrei. Não existia. As irmãs não faziam. E a Madre gritava assim pra mim. Eu não trabalho com pobre. A gente não trabalha com pobre. Nosso carisma não é pobre. Gente, eu fico passada. É sério. Teve um dia que tinha feijoada no convento. A irmã reuniu essa irmã que eu falei que ela... Que traste que tá lá ainda.
Ela reuniu todo mundo e falou assim. Olha, a gente vai abrir os portões do convento, mas não quero saber de mendigo aqui dentro.
Aí uma pessoa comprou vários bilhetes e me deu, né, da feijoada. Falou, irmã, eu não vou poder pegar a feijoada, dá pra quem a senhora quiser. Eu dei pros mendigos da rua. Aí eles entraram pegar e a freira veio. Outra. Pode botar eles pra fora, o que foi você que colocou aqui dentro? Falei, não.
Eles têm o bilhete. Eu falei, eles têm o bilhete, eles vão pegar. Mas olha isso. Nem com o bilhete eles podiam ir lá pegar a comida deles. Mas eu fiz de propósito, só porque ela falou. Entendeu? Só porque ela falou que não podia, eu fiz de propósito. E aquilo me feria. Me feria. Claro, ai Bruna, você é uma responsável. Você vai querer abrir as portas do convento pra todos os mendigos. Não é isso. Mas é o respeito com as pessoas. Aí chegava na...
Domingo de Ramos, né? Tinha uma tradição do Carmelo que a gente tinha que andar pela rua, achar um mendigo e trazer dentro do convento e preparar uma mesa linda como se fosse um rei. E cantar usando a rei pra ele. Não, e o mendigo comer lá dentro. Ninguém queria fazer. Aí eu ia já, porque fazia todo ano. E aí eu ia. Era o meu dia mais feliz, porque eu ia andando pela rua tentando encontrar e tinha mendigo que não queria, né?
Eles achavam estranho. A gente falava, vamos. Ele chegava lá, sentava na mesa toda preparada. A gente fazia a coisa mais linda. Ainda dava uma marmitinha pra ele. Mas aquilo me feria também. Lembra uma vez que a gente foi... O cara tava doente de pneumonia. Ele não aguentou levantar. Tadinho. E a gente não podia fazer nada por ele. A gente só foi lá. A gente levou comida pra ele. Mas tipo assim, eu queria fazer mais.
Eu queria poder ter levado ele no médico, ter ligado de alguma forma, mas eu não podia. Então essas coisas eu questionava. Eu falava, por que no domingo de Ramos pode? Só num dia. Eu pegava a criança debaixo da ponte e levava pra ser coroinha. Eu levava. E eu cuidava da roupa deles na minha casa e eu era criticada por isso.
Mas aí eu pensava assim, meu Deus, eu tô no lugar errado, eu devia ser toqueira. Eu não devia ser carmelita. Toqueira da toca de acílio. É, cuidava de pobre. Aí quando eu pensava que eu queria ser toqueira, a madre vinha pra cima que nem um gavião. Nossa, um dia brigaram lá. Quem falou? Uma freira falou, Bruna, você não tem vocação pra ser carmelita, você devia ser toqueira. Nossa. Acabou com a freira.
E a Freira estava certa. Então, quando falaram, não faz votos perpétuos, você está em Cristo, está lendo o padre Fábio de Mello e Augusto Cury, estavam certos. Quando falaram, você não tem vocação para ser carmelita, estava certo. Só que não existia essa visão ali dentro, entendeu? De tanto que eu queria prender a pessoa ali, ou ter vocações, ou ter número de vocações, eu anulava a essência da pessoa. Então, o que eu falo? Eu acho que as congregações têm que entender que, mesmo você sendo religioso, você tem uma identidade. E respeitar essa identidade.
Você não tem que se anular, você tem que pegar o seu potencial, a sua força. Trabalhar. E trabalhar isso em prol do bem, entendeu? Assim como você e as outras também. Isso. Porque às vezes a outra pessoa tá lá olhando e falando, nossa, ela tem esse dom aqui. Não, mas você também tem um, vamos juntar. Isso, isso. Essa unidade não era trabalhada. Cada um, me parece do jeito que você tá falando, que lá ficava Deus dará e elas ficavam com inveja.
Irmã, não precisa ficar com inveja da Bruna. Se você não faz um boneco, um artesanato, não toca violão, mas você sabe fazer uma outra coisa. O que você sabe fazer? Isso não é atrabalhado. Por exemplo, essa irmã que eu tô falando dos 22 anos que só ficava na cozinha, ela tinha um talento pra decoração enorme. Aí quando a Madre fez 50 anos, eu também decorava. Aí a freira chegou e falou assim pra mim, Bruna, eu quero que você decora a festa da Madre de 50 anos.
Sabe o que eu fiz? Eu falei, tá bom. Falei, mas eu quero que você deixe eu escolher as freiras.
Aí ela, mas a irmã fulana não vai deixar. Eu falei, não, eu só decoro se você deixar, eu escolhi as freiras. Aí quem que eu escolhi? As freiras mais humildes do convento. Aí eu peguei e falei assim, ó, eu não vou fazer. Vocês vão fazer. Aí elas fizeram arrasar. E quando chegaram e falaram, nossa, Bruna, que lindo que você fez. Falei, não, não fui eu. Não fui eu. Foi, não foi, Jaque? Falei, não fui eu que fiz. Foi ela, ela e ela. Porque tem outras que tem talento aqui. Entendeu?
Você foi sempre muito justiceira. Não, eu sempre fui assim. Não, mas eu sempre fui assim. É sério. Sabe o que me lembrou? Lembra do filme Mudança de Hábito? Sim. Que tinha o coral. E aí você via que a regente do coral antes não sabia usar os dons de cada uma. Isso. Eu lembro que tinha uma que era bem franzina. Sim, com a franjinha. Com a franjinha. E ela ficava... E aí você...
Um dia ela solta a voz, que é a Rupi Goldberg, né? Que era a freira, a personagem dela. Aperta ela aqui e ela solta a voz. Tinha uma outra que também canta. Então, quer dizer, tem certeza que todo mundo tem o seu dom. Sim. E se trabalhado, todo mundo faz uma equipe, né? E sim, tem a oportunidade, né? De crescer e de desenvolver. E não você taxar a pessoa. Ah, essa fulana só serve pra lavar louça.
Que isso existia muito, entendeu? Existia classe, né? Na verdade, a sociedade também é assim, né? Dentro do convento tem essa questão... É como se fosse uma sociedade. Quem pode ocupar os altos cargos e quem tem que ficar abaixo e servir. E eu não concordava com isso. Eu acho que todo mundo... Tinha freira lá, tipo, que não lavava a louça. Que o dia de lavar a louça dela... Porque ela era do status. O dia de lavar a louça dela era na sexta-feira, que era o dia do jejum.
Ela nunca ia pra cozinha. Ela não tinha esse ofício. Por quê? Por que ela não tinha?
Ela era igual a todo mundo, nós não éramos todos. Lá na regra de vida está tudo entre vós há de ser comum. E não era. Então, eu ficava questionando essas coisas. Só que não questionando, brigando, apontando, não. Eu, por exemplo, refrigerante. Para a mesa das perpétuas era coca. Para as coitadinhas das postulantes era dole. Vocês estão rindo, mas é verdade. O que eu fazia? Eu ia lá e pegava a minha coca e dava para elas e tomava o dole delas.
Na hora que saía capas da gente perpétua, elas tinham que carregar a nossa capa e eu não deixava. Ah, irmã, mas tem que carregar. Eu falava assim, Jesus faria isso? Jesus ia obrigar você a carregar algo dele? Não. Ou quando a gente saía para uma missa e todo mundo tinha que carregar um pouco o violão das postulantes. Aí eu ia pegar a minha vez? Não, irmã, você não, porque isso é perpétua. Eu falava, se Jesus estivesse aqui.
Ele não ia carregar também a parte dele. E eu falei, então, é a minha parte. Então, eu tinha muito disso. A minha parte. Eu quero ser igual a vocês. Eu quero que seja tudo igual. E tinha freiras que não. Tinha freiras, você está aqui para me servir. Postulante está aqui para me servir. Tinha uma freira que eu tinha que ir de companhia com ela. Eu era postulante. Chegava no convento. Ela me largava lá sentada. Ela não ligava para a minha comunidade me buscar.
Porque eu não podia ir embora sozinha. Ela deixava eu a manhã inteira sentada lá embaixo. Estava, ó.
Não tava ligando pra mim. Aí passava uma outra que tinha dó e falava, vamos, Bruna, que eu levo você pra sua comunidade. Então, assim, eu não suportava essa coisa de súdito, de rainha. Entendeu? Então existe isso. Você falou dos três votos. Eu só tô batendo nos três votos porque são três votos, mas cada um deles é um mundo, né? Você falou da pobreza. O segundo é a castidade. Isso.
A castidade envolve tão tudo assim. Relação sexual, namorinhos, não existe isso. Não existe, não. É uma anulação total, né? Da vida sexual mesmo. Não tem relação sexual, você não pode ter relacionamento. E entra até mesmo no âmbito de amizade. Você não pode ter um tipo de afeto. Afeto, apego.
Você tem que viver o seu coração, tem que ser totalmente para Jesus, para o seu amado. Tudo que excede fora, que é, você não pode ter uma melhor amiga, você não pode, entendeu? Isso é chamado de amizades particulares, então era rechaçado. Mesmo amizades com leigos, pessoas de fora do convento também não podia.
Que os leigos, eles acham assim, ai, eu sou padrinho. Quem tá aí, muitos que estão aí. Você já ouviu falar em padrinho e madrinho espiritual? Enganação. É só pra catar o seu dinheiro, entendeu? Ih! É! É! É verdade! O que é o padrinho e madrinho espiritual? É aquela pessoa que fala assim, ai, eu vou rezar por você. Você reza por mim? Mas aí você tem que fazer uma doação, aí te pede, você pode doar isso pra mim? Você pode me dar isso?
Entendeu? E é que eu fazia. Os meus padrinhos, eu tinha um padrinho que era mendigo.
que todo dia ele era bêbado da rua, o Cacau ele ia todo dia de manhã na missa do Sagrado Coração e chegava na frente de Jesus assim e ficava lá na cruz rezando eu falei, pois é esse daí que vai ser meu padrinho aí eu cheguei e falei pra ele, falei, Cacau, você quer ser meu padrinho? ele, que que é isso? falei assim, você só tem que rezar por mim, aí ele, mas eu não tenho nada pra te oferecer, eu falei, não, a única coisa que eu quero é que toda vez que você for ali na frente daquela cruz que você lembre de mim, mas eu fazia isso de propósito só pra, tipo, escandalizar as freiras, porque ele não ia poder me dar nada E aí
Mas a Mário teve um Natal que ela macetou a gente a noite de Natal. Porque vocês não arrumam padrinho, porque vocês não arrumam madrinha, não arruma benfeitor. Então, assim, às vezes você acha, nossa, eu sou madrinha, eu sou padrinha daquela freira. Fique bem atento pra ver se ela não tá, tipo, só usando de você financeiramente. Gente, isso eu nunca ouvi falar, tá vendo? Os...
Fique atento, claro, pode ter relações verdadeiras, pode ter relações verdadeiras, mas na maioria do caso é uma forma de criar um vínculo, só que esse vínculo é muito mais de interesse patrimonial, na minha opinião, pelas experiências que eu vi, do que de interesse de vínculo afetivo, que não é, que aí é só mais no âmbito espiritual mesmo.
Então se você tivesse um padrinho e ele te desse dinheiro, esse dinheiro ia ficar pra você? Não, você tinha que dar pra congregação. Ah, então não tem vantagem nenhuma. Pra Madre tinha, né? Pra instituição. Por isso que ela queria, né? Isso. E você me contando, assim, eu percebi que...
Aí você me corrige se eu estiver errado. Mas eu percebi que, então, na questão das freiras, os abusos são muito mais psicológicos, são abusos de hierarquia. Talvez, assim, você tenha... Uma análise minha, tá? Você tenha sofrido mais porque você via desigualdades e queria mudar isso. Pode ter... Tinha alguma lá que não ligava e ficava de boa? Tipo, foda-se, vou viver minha vida? Não.
As que tinham privilégios e que mandavam, né? Ah, mas é porque tinha privilégio, né? Agora, quem não sofria... Tipo, tem muitas irmãs que permanecem lá que sofreram muito. E ficavam quietas. E ficaram quietas e estão lá até hoje. E comendo pão com diabo maçã, entendeu? Então, e aí...
Só que aí, fazendo um contraponto com o que o Brendo contava, eu falo do Brendo porque são relações similares, mas falando de um homem e de uma mulher. Mas no Brendo tinha muito mais questões, por exemplo, até agora você me contou várias questões psicológicas, abusos psicológicos e não abusos, por exemplo, sexuais.
Mas tem também de freiras, de padres que abusam de freira. Eu nunca vi. Essa parte no convento, eu nunca presenciei. Relações de freiras lésbicas. Ou padre abusando de freira. Mas tem padres que abusam de freira, que começam com direção espiritual. Por exemplo, não sei se você foi na Aparecida do Norte atualmente, que tem uns ícones que tá pintado do lado de fora. Não sei se você foi. Tá linda, não tá?
lindo, aqueles ícones eu vi lá na Itália, na igreja no Santuário do Padre Pio tem uma hora, tem um corredor assim, que você entra antes de ver o corpo dele, em San Giovanni Rotondo
que dos dois lados, de um lado tem a história de São Francisco, toda naquele, parece umas pedrinhas, e no outro a história do Padre Pio. Aí as histórias deles vão na parede. Lindo. Tá sim a parecida também, né? Tá, mas eu não sei se esse de São Pio é o mesmo artista. De Lourdes é o mesmo artista que fez lá. Que fez a parecida do Norte. Esse bispo é um bispo de uma congregação. Ele abusou de 30 freiras.
E ele trabalha com mulheres. Na Aparecida, quando eu fui, tava lá. Ah, esse projeto é do bispo tal. Bispo, pá, não sei como é que fala. É artista tal, né? Ele é um sacerdote que ele desenvolveu com mulheres. E depois, ele foi até tirado. O Papa expulsou ele. E ele recebeu denúncias de mais de 30 freiras que ele abusava.
Então, as obras que estão agora na Aparecida são de um padre abusador de mulher? Sim, sim. Quer ver? Vou pegar o nome dele. Eu tô sem celular. Gente do céu. Pesquisa o nome dele aí. Sim. Mas ele foi afastado? Foi. O Papa Francisco, foi da época do Papa Francisco. Ele tirou ele. E ele, não sei se ele responde o processo, e ele teve que ser expulso da congregação dele.
Só que assim, agora existe um grande debate. Porque ele fez Lourdes, ele fazia os santuários marianos. Então, aparecido. Agora, tem uma grande polêmica. Retira a obra dele? Ou deixa? Isso que eu ia perguntar a organização. Porque é milhões, né?
Quer ver? Ela vai pegar o nome dele. E as pessoas não sabem disso, porque isso é bafado. Poucas pessoas sabem. Agora 2.200 pessoas sabem. E pode pesquisar. E pode pesquisar. Quem fez os ícones que está na parte externa de Aparecida. É lindíssimo. Sim, ele é um artista, mas...
E foram umas 30 freiras durante, desculpa, durante todo o caminho dele. Então, assim, existe abuso sexual de freira, assim, na igreja. É que eu não posso contar isso em primeira pessoa, porque eu não vivi isso nesse sentido e também não vi onde eu estava. É isso que você está contando no caso do que veio à mídia. Isso, mas fora do Brasil é muito comum. E fora do Brasil, na Europa, tem várias freiras que vão e contam. Tem uma ex-freira que ela fala sobre isso também fora da Europa. É que o nosso Brasil é um país muito ainda...
ligado à fé, as pessoas têm muito essa piedade, então a igreja ainda tem uma blindagem. Agora a Europa não. Por que que os colonizadores vieram pro Brasil e os jesuítas vieram? Todo mundo acha que lindo, os jesuítas eram missionários. Mentira. Quando houve a colonização, colonização, né, a invasão do Brasil...
estava acontecendo a reforma protestante na Europa. Então, Martinho Lutero estava explodindo, a igreja estava perdendo o poder, perdendo o terreno. Então, os jesuítas vieram aqui também em busca de terra e de poder. E trouxe toda essa religião para cá, e a gente continuou com a piedade. Já a Europa...
foi se desvinculando. Então, a Europa tem uma outra visão de vida da igreja. A igreja na Europa não é igual à igreja do Brasil. E muitas congregações estão fechando, estão falindo, porque não tem vocações. E eles vêm para os países de...
mais pobre para recrutar pessoas. Então, eles vão na África, eles vão na Índia, vêm aqui no Brasil como missionário. E aí, quem vai para a Europa, daqui do Brasil, por exemplo, eu sou missionário na Europa. Aí tem uma coisa que eles falavam assim, a Europa nos evangelizou, agora nós evangelizamos a Europa. Tem até uma fala dessa. A madre vivia falando sobre isso. Agora somos nós que evangelizamos a Europa. Mas por quê? Porque as pessoas na Europa não são tão ligadas à religião. Então, o número de vocações é bem menor.
Se você for avaliar pessoas que se entregam à vocação, está decaindo. Por mais que a igreja possa falar que está aumentando o número de católicos no mundo. Será que esse dado é real mesmo? Porque o número de vocações não está. Porque as pessoas hoje têm mais acesso a estudo, têm mais oportunidade de conhecimento. E isso faz com que você avalie...
a sua escolha. Por exemplo, em todo o tempo que eu estive no convento, eu me lembro de ter entrado somente uma irmã que tinha faculdade e as outras, de todas que eu convivei, ninguém tinha. Não. Porque a gente entrava jovem, então a gente tinha acabado de fazer o ensino médio e só uma que tinha faculdade.
Não tinha estudo. E a madre também não permitia que a gente estudasse. E como tem hoje movimentos na igreja que são contra as universidades. Então, assim, a educação é o caminho. Quando eu falo educação, é conhecer o mundo. Eu posso ter minha fé, posso ser católica, posso ser evangélico, posso ser qualquer religião, mas eu tenho que conhecer o que o mundo. Eu tenho que ser globalizado. Eu acho que não tem mais como você viver dentro de uma bolha. Só que hoje a gente... Até tem.
Não, então, é assim, tem, porque as pessoas criam que a ideia de você viver dentro de uma bolha é o melhor, né? Então eu tenho uma bolha da família Deus, Pátria e família, e qualquer outra instituição de família, qualquer outro formato de família não é família. Qualquer outro Deus também, né? Isso, é. Qualquer outro Deus, qualquer outra religião. Então, assim, essas bolhas ideológicas, elas são prejudiciais, porque eu sou fundamentalista, eu só enxergo a minha verdade como algo certo e o resto do mundo tá errado.
Ok, eu acho que a forma como eu penso a vida é certa, é meu direito. Mas é direito do outro pensar diferente. Então, eu acho que tem que ter o equilíbrio em teu respeito. Que às vezes eu vejo que não acontece. Você ainda que foi de um convento, está me contando, você contou que demorou 10 anos para falar sobre isso. Com a sua família, depois foram dois anos. Que acaba sendo um trauma que está lá dentro e tudo mais. E a gente não consegue ver outras religiões. Você fala isso porque você veio de um convento. Eu não fui de convento.
Eu fui de grupo de jovens, eu fui dessa vivência, né? Do leigo, de grupo de jovens, da banda. Eu fui do jornalzinho, da igreja. Tudo porque eu quis. Eu passei momentos muito bons. Mas eu realmente não olhava pra outras religiões. Eu não olhava. Pra mim era tudo errado. Quando você sai disso, né? E você começa a olhar outras religiões de outros. Eu sempre falo assim, a pessoa que vive numa bolha, ela tem uma vivência muito...
pequena. Então, por exemplo, geralmente a pessoa que fala que a religião e o Deus dela é verdadeiro, e não é sendo classista ou elitista. Não. Eu fazendo parte da elite, tô longe disso. Mas a pessoa que fala isso, ela não viajou pra fora. Sim. Ela não conhece outras culturas. Sim. Ela não foi pra um país que ninguém nunca ouviu falar de Jesus, ou se ouviu falar Jesus. Tipo assim. Você tem países que não ouviram falar, ou já ouviram a história de Jesus, mas não seguem. Sim.
Tem igrejas virando biblioteca, porque não tem uso pra elas. Virando hotel, virando boate. Exato, tem uma igreja. Entendeu? Na Europa tem, sim. Tem também. Então, quer dizer, quem fala isso, geralmente, são pessoas bem humildes. São pessoas que não têm uma cultura pra fora de olhar. E, às vezes, elas chegaram numa idade que elas não têm mais interesse. Sim.
disso. Então elas ficam ali. Não, a minha religião é a verdadeira. Quando as pessoas falam, leiam a Bíblia. Eu falo, mas por que só a Bíblia? Leiam a Torá. Leiam o Corão também. Leiam coisas que contestem a Bíblia e tudo mais. Então quer dizer, são coisas, né, Bruna, que a gente percebe que...
às vezes a religião, e pelos relatos que você me contou, às vezes a religião, ela usa desses artifícios, da pessoa que não tem estudo e tudo, pra te doutrinar, é mais fácil, né? Sim, e eu sou desse resultado, porque eu vim de uma cidade do interior, onde eu não tinha cultura. A cultura de onde eu vim era a festa do peão, entendeu? Não sou contra a festa do peão, acho legal, mas lá era só isso, churrasco de final de semana, não tinha uma biblioteca, não tinha alguém que incentivava a ler, não tinha.
Então, pra mim, por que eu consegui ser manipulada por tanto tempo? Porque era a única visão de mundo que eu tinha. Isso, isso. A única que foi de passada, né? E quando eu entrei no convento, me fechei numa bolha maior ainda. Então, quando eu saí, quando eu comecei a sair da bolha, parecia que era errado.
Nossa, mas eu lembro que a primeira vez que eu fui fazer uma visita num centro espírita, meu Deus. Parecia que eu tava fazendo uma coisa errada. Entendeu? E tava mesmo pra eles, né? É, e pra mim também, de alguma forma, né? Hoje, não tenho problema nenhum. Hoje, na verdade, eu não tenho religião, né? A religião, pra mim, não consigo me identificar com religião. Eu sou espiritualidade livre. Não consigo ser até, porque tive uma experiência com a morte do meu pai.
Mas também não consigo me ligar a nenhuma religião. E gosto de ler sobre todas as religiões. E hoje a gente tem informações. A gente pode não ter dinheiro para viajar para fora de um país. Mas a gente pode assistir um documentário. A gente pode pesquisar na internet tantas coisas. Hoje a comunicação é muito mais ampla. Quando eu era criança eu não tinha internet.
Pra mim assistir um desenho Sim, eu sou da geração que pra mim Ver um desenho eu tinha que acordar de manhã E assistir no horário que tava passando na televisão Se eu perdi, eu não assisto Eu sou dessa geração Agora a geração atual não Um clique você tem Você viaja pelo mundo, você entende o mundo
Só que a geração que é dominada por isso é a geração que não teve acesso à tecnologia. Se a gente for fazer um plano, os mais idosos... E aí a gente vê um contraponto, porque a geração atual também não quer saber de mais nada. Aí já vai por tantas outras coisas. Tipo, eu como educadora vejo que a geração atual é tão automática que também eles se perdem.
nesse processo acelerado e estão indo também por um caminho que também não é muito legal, entendeu? Então, eu acho que a humanidade tem que olhar para si, despertar. E isso é uma discussão, ninguém está aqui falando que é errado ser freira, não é sobre isso. Mas é sobre, da forma como foi durante todo esse tempo, até hoje, historicamente, eu acho que tem que mudar.
Pra mim não faz sentido existir esse sistema de vida nesse formato que é até hoje. Não faz sentido, pode ser radical, mas eu não consigo olhar. Ou eu não consigo, por exemplo, olhar pra Freira dançando beatbox e achar... E falar, ai que legal, né? Ao contrário. Ao contrário. Eu não consigo, entendeu? Ou a Freira andando. Mas é porque a minha história perpassa por um outro caminho. Mas quando eu não conhecia a realidade, eu achava a coisa mais linda do mundo.
A produção me falou pra você dar uma arrumada na sua roupa, que às vezes a gente quer. Os botões nos traem, né, vida? Ô, Bruna, teve um relato que você me contou, que eu ainda acho que vai nesse segundo grau dos votos, né?
Que eu fiquei muito... Da outra vez que você veio, que você me contou, que eu fiquei muito perplexo, assim. Eu fiquei muito tocado com esse... Tocado mesmo. Falei meio... Como que isso acontece? Que foi exatamente quando você fez os votos perpétuos, né? O que aconteceu? Que foi aquela história do gelo, né?
Então, sempre quando a gente passava de uma fase no convento, seja de aspirante, postulante, noviciado, votos temporários, tinha como se fosse um trote. Aí elas brincavam, vendavam os nossos olhos, colocavam capuz, levavam a gente para outra casa, porque a gente ia mudando de casas.
por exemplo, você só podia entrar no noviciado quando você se tornasse novícia de aspirante postulante você não podia entrar então aí elas faziam brincadeiras trotes, batiam colocavam o seu pé em coisa gelada só que sempre falavam assim, ai quando chegar nos votos perpétuos, ai vocês vão ver sempre tinha aquela brincadeirinha
E aí quando eu fiz votos perpétuos, o grande acontecimento do trote era colocar gelo nas nossas partes íntimas. Então aí no meu caso, não levantaram o meu hábito, ou eu não lembro. Mas colocava o gelo nas nossas partes íntimas. Teve Freda que falou, levantou e colocou. E ficavam falando assim, você não queria casar com Jesus? Você não queria casar com Jesus? E pra mim isso foi uma violência muito grande. Quando eu lembro que quando aconteceu eu fiz assim, tipo, que isso?
Sem saber o que estão fazendo. E todas as freiras da minha época, todas passaram por isso. Só que eu não entendia isso como uma violência. Eu fui entender isso anos depois, mesmo sentindo uma ojeriza disso. E eu lembro que eu não reproduzia.
Eu, nos trotes que tinha com as irmãs, eu nunca participei da parte da agressividade, de bater, de judiar. Eu sempre participava da parte de fazer o quarto, porque tinha o quarto também. Acabava de pôr o gelo nas nossas partes íntimas, aí tinha o quarto como se fosse um quarto de núpcias. Então, preparava ali a cama com uma cruz de rosas, a luz de velas, cada um. É.
Tão bizarro, Bruno. É, mas era. Não é? Jesus é o seu esposo. Está casando com Jesus. Nem tanto que na cerimônia de votos, em perpétuo, você coloca aliança. Você usa uma aliança de ouro no dedo. Acho que a mão esquerda de casado você usa. Eu tinha aliança. Então, assim... Só que assim, colocou o gelo na sua parte íntima e aí abre um quarto de núpcias.
E quem fazia esses quartos? As outras freiras? É, as freiras perpétuas. Cada freira ia se dividindo. Então tinha tipo, ah, irmã, você vai arrumar o quarto da freira. Eu nunca fiz de perpétuo. Eu sempre fiz dos abaixos, né? Tipo, votos temporários também tinha. Então eu sempre gostei de fazer essa parte, de arrumar o quarto, que vai acolher a freira, bonitinho, com mensagem e tal. De perpétuo, acho que de perpétuo ainda colocava cruza, não me lembro. Tipo assim, agora você casou com Jesus pra sempre, entendeu?
mais a violência do gelo e não podia contar pras outras fases. Era um segredo. Mas por que que tinha isso de... Não sei por que que tinha. De trote. Eu também não sei. Desde que eu entrei. Porque, por exemplo, meu, tinha milhões de maneiras, dava pra fazer um trote legal. Ó, a gente vai fazer um trote hoje com você que, sei lá, a gente vai quebrar um ovo na sua cabeça. Tipo, não é.
Não sei, você vê isso como uma violência, por exemplo? Quebrar um ovo. Você quer participar? Eu quero. Por exemplo, trote de faculdade. Era quebrar ovo, jogar uma farinha. Ou sei lá, vamos jogar uma meleca em você. Agora sim, bater, colocar gelo. É, acaba empurrando a gente, assim. Era uma coisa louca.
E por que o gelo nas partes íntimas? Por causa da virgindade? Eu não sei. Eu realmente não sei o porquê, mas isso acontecia. Mas isso era uma coisa que acontecia só no seu? Então, eu não sei se outros conventos... Tinha outras freiras que falavam que tinha trote no convento delas. Mas a Madre não permitia que a gente tivesse contato com outras congregações. Então, assim, esse fato do gelo aconteceu comigo, na congregação que eu estava, e com as freiras que moravam.
Mas eu já li relatos de jovens que colocavam gelos na parte íntima pra se mortificar.
Que era uma prática dentro, tipo, pessoa homossexual, pra colocar gelo. Mulheres? Não. Tipo, homens gays. Eu li um relato, colocava gelo no pênis pra não sentir desejo. Mas era a própria pessoa que tava fazendo isso como um ato de mortificação.
O que a gente falou agora, que você falou um pouco do... Como é que era? Silícios, isso. Silícios, né? Mais ou menos igual. Tipo São Francisco, que diz na história, né? Que ele teve uma tentação e aí ele rolou no gelo, tirou a roupa e rolou no gelo. Não sei se você ouviu essa história. Não. Tentação do quê? Sexual? É. Aí ele pegou e rolou no gelo, nos espinhos. Tem vários tipos de histórias de santo que se rolou no espinho, que se jogou no gelo. Pra não... Pra matar a carne, entendeu?
E aí essa história do gelo, se você me falar assim, quando começou, não sei. Mas desde que eu entrei no convento, em todas as fases tinha um trote. E essa parte do votos perpétuos era sempre dita assim, vai o segredo, e aí era isso. Mas aí se você falasse, não gente, dá licença, não gosto disso. Não existia, não existia isso.
Não existia. Ainda era vendado. Você não sabe quem fez, entendeu? Porque colocava uma venda e um capuz. Já tinha tudo certo. A madre tinha essas vendas e esses capuz. A madre sabia dessas coisas? Ela participava. Ela participava. Você foi a madre. Na Jaque foi a madre que fez. Ô Jaque, fizeram esse abuso com você também? De gelo? É. E todo mundo... Qual que era o clima? Galera rindo. Tirando sarra da cara. E a gente passava...
É que eu nunca assisti, porque quando eu fiz votos perpétuos, a irmã da minha comunidade não deixava eu participar das reuniões perpétuas, ela me oprimia. Então eu sempre tinha que voltar pra casa e ficar com as postulantes. Então eu nunca vi, eu fiquei dois anos e meio de votos perpétuos, eu nunca participei do trote das perpétuas. Mas a Jaque viu, né? Mas eu também nunca fiz isso. Não, você nunca fez, mas você via fazendo. Você nunca fez, Jaque, isso, mas já viu fazendo.
Não, não fala os nomes, né? Não, claro que não. É, a Joana, a Antônia, a Cecília... Não, mas a Madre, enfim. Não, o meu quem fez foi a Madre. A Madre fez em você.
Jaque, conta ali, dá um migo pra ela. Não, vai ali, porque a história, você não precisa aparecer, a história é interessante. Você fala que eu vou trazer um dia a Jaque aqui pra sentar aqui com a gente. Como é que foi isso, Jaque? O meu foi a própria madre que fez. Eu estava indo a caminho da minha comunidade, onde eu tinha sido enviada pra missão. E aí a madre, eu estava no refeitório, a madre veio, a gente estava vendada, como a Bruna falou, e ela veio e colocou por debaixo do nosso hábito, que a gente usava.
colocava um gelo na parte. E a gente fica assustada. Só que a gente não tem um... A gente fica assim paralisado. A gente não sabe o que fazer ali naquele momento. É a minha situação. A madre superior é a que fez comigo. Então você imagina. E tirava sarro. Não faz. E tirava sarro da cara da gente. E aí? Qual que era a reação? Vocês tiravam? Não, ela só colocava. No meu ela só colocou e já tirou. Não, no meu empurrou na parede.
Comigo, comigo, eu tava sentada, eu tava sentada e ela pegou e colocou assim por debaixo. Só que não ficou, tipo, não ficou me tocando, fazendo nada, só colocou o gelo e logo ela tirou. Parecia que era um, sabe gelo do leite? Parecia isso. Parecia que elas pegavam o saquinho de leite, a impressão que eu tive. Porque nós tínhamos... Vocês não viram, né? Não, porque já vem dados. Mas no meu caso, tava de pé na parede, tipo, já tinha socado todo mundo na parede, assim.
levantou e tipo assim, na hora que fez isso eu fiz assim, que que é isso? tipo, uma coisa assim e falava assim, você não queria ser esposa de Cristo? você não queria casar com Jesus? ai, todo mundo rindo isso debochando
Ai, gente, eu não... Bom, pra mim, isso é muito um desejo sexual pulsante ali, sabe? Acho que o Brendo falou isso da outra vez, quando ele veio. É uma vontade, vamos aproveitar esse momento agora pra gente colocar pra fora as nossas... Ah, vontades. Que loucura. Eu nunca esperava isso. Não esperava. Aí eu lembro que a minha reação, assim, foi muito fria. Falei, o que é isso? Aliás, é todas as brincadeiras. E tipo assim, eu era... Ah, Bruna é chata, porque ela não tá curtindo.
Como é que eu ia curtir uma coisa que era violento pra mim, que eu não gostava? Na verdade, eu nunca participava nem das outras fases, porque eu nunca concordei com isso, né? Eu achava muito chato você... Era humilhante você ver a freira ali com capuz e o povo macetando ela. E todas as freiras participavam dessa brincadeirinha? Todas. Não tinha uma que falava, gente, as perpétuas. Só de votos perpétuos, não de votos perpétuos.
Só de juniorista, não de juniorista. Aí noviça era todo mundo. Tipo, tinha o dia dos santos inocentes, que é no final... Acho que é no começo do ano.
Que era quando Herodes mandou matar os inocentes lá, os bebês, de caso de Jesus. Aí era o dia que a gente tinha que judiar das postulantes das noviças. Aí fazia um monte de coisa assim, tipo de trote, de judiar delas, de vendar, de acordar assustando. Era muita coisa.
Bruna, você já pensou em escrever um livro? Tô escrevendo. Tá escrevendo. Tô escrevendo. Cara, tem que escrever. Sim. Isso é um filme. Vai virar um filme. Eu já vejo no cinema. Sua cara assim, ó. Trá!
Não, porque, gente, não é já que é um filme de terror. Assim, dá pra ir pro lado do terror, do sobrenatural, daquela freira, tipo, maldosa. Como dá pra ir pro lado da tortura psicológica. Porque isso é um abuso psicológico, um abuso sexual. É uma tortura, é uma violência, é tudo junto. Dentro de um convento. Dentro de um convento.
Eu vi tudo isso dentro do convento. Eu digo, eu conheci a maldade humana dentro do convento. Eu era uma jovem de 18 anos. Eu tinha acabado de completar 18 anos quando eu entrei no convento. E eu conheci a maldade, a manipulação lá dentro. No mundo eu não tinha conhecido. No mundo era bem superficial. Sabe por quê? No mundo existe, só que é diferente.
Por exemplo, se eu tô num trabalho e eu tô passando por situações assim, eu tenho uma liberdade de sair, de pedir demissão. Não, e óbvio, se você tá numa empresa que alguém faz isso com você, é um processo absurdo. E vai ser uma pessoa ou duas ali. Agora ali dentro. Agora ali é um sistema, me parece. É um sistema, isso.
É um sistema. E pra você entender que isso foi um abuso, tipo assim, sabe quanto que eu fui entender? Eu contei essa história a primeira vez no Vilela. E eu contei assim como eu tô contando pra você. E a gente tem hora que a gente dá risada e a gente fala assim, meu, como que eu pude aceitar? Aí de repente a Rose, que ela também é do convento que eu estava, ela foi fazer uma entrevista no Daniel Gontijo. Inclusive eu agradeço ela por ela ter tido essa coragem.
E aí quando ela foi contar, ela narrou isso, mas ela narrou de uma forma muito mais... Ela mostrou a violência, ela chorou. E aí eu falei, gente, o que a gente sofreu foi realmente um abuso sexual. Aí de repente é como se tivesse caído uma venda dos meus olhos, né? Porque a gente vai apagando lembranças da nossa mente, sabe? Mas isso foi muito violento. E isso tem resquícios depois.
Eu não falo da minha vida pessoal, não vou falar da minha vida pessoal, mas isso tem resquícios depois quando você sai, entendeu? Com certeza, pra sempre, né? Isso, na sua experiência de vida fora. Isso traz muitas consequências, né? Quem sabe um dia a gente pode falar sobre esse outro lado, mas é uma situação muito difícil, entendeu? Você fala do outro lado, sua vida pessoal. É, depois, tipo assim, quando você sai, que você vai viver uma outra realidade aqui fora.
E aí você vai ter outras questões, outras dificuldades que vai ser fruto dessas situações que aconteceu ali dentro. Eu imagino, porque quando a gente fala de abuso, sexual principalmente, tem vários abusos, mas o abuso sexual, geralmente, pelo que eu vi, não sou estudioso desse caso, mas a pessoa que sofreu um abuso, por exemplo, quando criança ou quando adolescente, ou sofreu um abuso em algum momento da vida.
De repente ela não consegue mais ter relação com outras pessoas. Ela quer ter um namorado, uma namorada. Não consegue mais. Porque aquilo acabou com a vida da pessoa. Então você precisa passar por um... E ainda assim, quando você consegue passar por um processo de...
terapêutico, né? Pra você entender que aquilo foi um abuso. Ainda quando você vai, vamos supor, consegue um namorado ou uma namorada e vai pra relação, ainda é um processo lá dentro. A pessoa que tá com você tem que ter muita, entre aspas, paciência pra não, entendi, ela é ou ele é uma pessoa que sofreu um abuso. Porque, cara, acabou com a vida da pessoa, né? Sim.
Então tudo isso tem consequência. Todos esses tipos de ações. Por exemplo, eu trabalho na educação. E todo mês tem parada pedagógica no meu trabalho. Eu tenho pavor da reunião de parada pedagógica. Porque é o momento que a gente vai discutir problemas. E eu tenho medo porque no convento, toda vez que era reunião, assim, era BO.
Então eu tenho gatilhos. Então, de repente, se alguém falar um mais grosso um com o outro, eu tenho gatilhos. Eu já saí de várias vezes de reuniões pedagógicas chorando. Aí depois eu paro pra pensar, mas por que isso me afetou tanto? Aí eu vou buscar lá atrás, vou falar por causa disso. Ou alguém falar de uma determinada forma comigo. São várias questões. Eu trato isso na terapia, entendeu?
É difícil te perguntar, você faz terapia? Isso sim, faço. Sempre que tem oportunidade, já fiz. E faço, e converso, e sempre volto em outras questões. Porque são vários processos, você vai recordando. Tem coisas que ficam guardadas no seu subconsciente. E que lá na frente ainda, tem coisas que não abriu aqui ainda, que vai abrir lá na frente. Então é difícil tudo isso. Não é algo simples. Esses dias eu vi um vídeo de uma psicóloga na internet. Até eu faço esse paralelo.
com o que você está me contando. Ela falando que o nosso cérebro, a psicologia já está estudando de um lado, de que o nosso cérebro, ele registra tudo como se fosse fotografia, mas tudo em 4D, né? Que é a imagem, o áudio daquilo, o cheiro, às vezes, daquilo, a cor que aquilo tinha. E, às vezes, ele registra e joga lá para baixo, joga no arquivo. E a gente não lembra, porque se a gente for lembrar de tudo, a gente endóida.
E aí, às vezes, tá lá, você fala, gente, eu tô triste, por quê? Por que que eu tive... Igual você falou agora, por que que eu tive... Porque o cérebro tá guardadinho lá. Então você lembra de uma madre que gritou com você. Às vezes é uma pessoa que você fala assim, ah, eu vou falar uma coisa, um erro dessa questão pedagógica. Alguém fala um pouquinho mais alto, você já lembra. Mas não mais alto porque a pessoa é brava, mas porque... Sei lá, aconteceu. Ou é o jeito da pessoa.
Então, assim, esses gatilhos estão vivos, né? Estão muito vivos. E você é uma pessoa muito nova, né? Não sou nada. Vou fazer 40. Ela me chamou de velha, Sarah. Não, não, não. Eu tô falando que eu vou fazer 40. Para a gravação. Eu fiz 40 e eu me considero um menino. É, então também sou uma menina. É, nós somos. Mas é jovem. Os 40 de hoje...
Não é igual os 19 do Em Nome do Amor. Lembra do programa do Silvio Santos? Sim, eu vi esses dias. 19, Silvio. Um velho careca. Meu Deus do céu. Verdade. Ai, Bruno, eu só lamento. Eu me lembro de... Eu só lamento por toda a sua história. Sim. E é bom que você venha e conte. Eu acho que já é um...
Já é uma força, né? Já mostra que você tá... É um processo de superação, você vê isso? Sim, com certeza. O fato de falar? Sim. Até porque eu prometi que eu nunca ia falar, né? Verdade. E aí eu me pergunto por que eu prometi algo que eu nem entendia.
que eu nem entendia, entendeu? Mas eu prometi. Eu lembro que a pessoa que eu gostava, que era minha formadora, que era minha mestra de novistas, quando eu saía, eu escrevia uma carta pra ela, um livro pra ela, falando tudo que eu tinha aprendido com ela, mais o porquê que eu saía. E eu li pra ela.
e ela escreveu um bilhete para mim, que eu tenho até hoje, e no bilhete ela falava assim, eu vejo a sua história como a história de José do Egito. E aí hoje, esses dias eu estava conversando com uma pessoa, e eu falei assim, José do Egito, quem foi ele? Ele foi aquele que foi vendido pelos irmãos, jogado no poço, foi para o Egito, para uma terra estranha, e aí quando esteve lá, ele cresceu, se instalou naquela região que não era dele, e quando houve a...
A falta de alimento, os irmãos dele foram lá pra comprar, se depararam, ele fez os irmãos dele se deparar com a verdade, prendeu o irmão mais novo e falou, vai lá buscar nosso pai. E aí, quando eles foram buscar o pai, contou toda a verdade do que tinha acontecido. Então, o que eu tô fazendo hoje é mais ou menos dessa forma. Eu tô tocando o dedo na ferida e mostrando algumas coisas, mas porque eu acredito que isso pode mudar a vida de gente que tá lá dentro, como eu já ouvi pessoas falando, olha, a gente já mudou muita coisa porque a gente sabe que você tá aí fora. Eu já ouvi.
De quem tá lá dentro. Porque a gente sabe que agora a gente tem voz. Então, nenhuma congregação quer a sua cara estampada no meu Instagram. Entendeu? Não quer ver eu falando, olha, uma pessoa da congregação tal... Faz tal coisa. Isso, não quer. Então, assim, eu posso parecer uma vilã, né? A minha imagem é de vilã, mas eu não sou vilã. Na verdade, eu quero... Eu quero...
Amo muitas pessoas que estão lá. Eu sou grata também por coisas que eu aprendi lá. Se eu sou quem eu sou, também sou porque eu passei por aquele lugar. Porque eu era uma menina medrosa. Uma menina do interior. E hoje eu estou aqui falando sobre isso. Então, eu acredito que tem uma força de transformação no mundo. Pode não acontecer hoje. Pode não acontecer amanhã. Talvez, por exemplo, o Brendo está tocando o dedo na ferida dos padres.
gays, mas talvez os próprios padres gays da instituição vão ter coragem mais pra frente de se levantar e lutar pelos seus direitos e falar, olha, eu sou um padre gay, não vai ter medo de falar quem você é. Eu sou um padre gay. Qual que é o problema? Por que que um gay não pode ser padre? Eu não vejo por que não pode.
Eu percebo você falando isso, pode ser que tenha muita gente que está nessa congregação, nessas congregações, muitas freiras que estão lá ouvindo quietinhas assim, ai meu Deus, a madre nem está sabendo, pensando que ela está ouvindo o que? O Rosário do Pai Marcelo? Ela está ouvindo podcast com uma ex-freira contando tudo aquilo. Você falou uma coisa, que as pessoas me veem como vilã e eu não sou vilã.
Eu não entendo muito isso. Eu custo entender como que você vem, conta o que você passou, as coisas que você passou e ainda você tá errada. Como que você vê isso?
Eu acho que é a questão da pessoa viver presa nessa bolha. Ela ainda não despertou. Ela não despertou. Então, ela está presa no sistema. Essa pessoa acaba sendo uma vítima também. Também. A vítima do próprio pensamento, das próprias crenças. Ela é manipulada. Ela só vai conseguir entender o que eu estou fazendo...
Ou se ela passar por uma situação semelhante, ou se ela se colocar, realmente se abrir pra olhar por um outro lado. E eu queria deixar uma parte aqui bem importante, assim, aproveitar, que era me direcionar à congregação das Servas da Alegria. Não sei se você conhece a Canção Nova, tem um padre de Mils, que ele é dos Jovens Sarados. E eu faço a Demi... Jovens do quê? Jovens Sarados, que ele fundou um... Sarado de... Não, Sarados de Cura do Coração. Gente! Pra mim, Jovem Sarado é tipo... E aí, galera?
Tem isso mesmo, jovens sarados? Esse nome? Isso, dos jovens sarados. E o que eu quero falar aqui? Sarado de... Estou... Curado. Tipo, a dor do meu coração, a ferida, sarou. Eu sou ferido, eu sou pecadora, eu sou sarado, sou curado.
É uma forma de falar sarada. Eu falei sério, porque a palavra sarada hoje em dia, tipo, essa deve estar sarada. Mas eles usam, tipo, pra fazer... Ambiguidade, né? É, bem ambiguo e pra chamar atenção. E o que acontece? Eu faço a denúncia da freira que tá como cofundadora dessa ordem, né? Dos jovens sarados? Isso, porque ela foi a minha abusadora, porque ela quase me matou, porque tem a questão da menina que tinha câncer na cabeça, que ela negligenciou, a menina quase morreu.
Tem a minha história do coração, que ela fez eu caminhar 30 minutos com o clima, que eu tenho problema no coração. Como que é essa história?
O que ela fez comigo? Ela fez, eu tava tendo crise do coração, eu morava na comunidade dela, e eu acordei e tive crise do coração. E aí eu falei pra ela que eu tava passando mal e que não aguentava ir na missa. Eu fiquei o dia inteiro passando mal. Quando deu três horas da tarde, ela obrigou eu ir na missa caminhando. E aí a madre participava dessa missa, era um sábado, toda a missa das quatro no Sagrado Coração de Jesus, a madre participava. Quando eu cheguei lá passando mal com meu coração, tipo, eu tava com...
Devia estar batendo mais de 200, gente. O que você tem no coração? Eu tenho presença de prolapso da válvula mitral. Então, meu coração dispara, ele acelera. E não é ansiedade. É um problema de saúde. Tem que tomar medicamento. Você está tratando ainda. E aí, o que acontece? Eu cheguei lá na igreja com essa crise e falei para a Madre. Madre, eu estou passando mal. Ela falou assim para mim. A irmã fulana já me ligou e já falou do seu PT.
Aí eu não tive atendimento nem por ela, nem pela amada, passei o dia inteiro mal. Aí eu sentei na missa e eu olhei assim, tinha uma irmã que eu gostava, ela estava fazendo um pedido na missa, na intenção da missa, e esses pedidos eram apresentados na hora do ofertório da missa, sabe, a cestinha. E aí eu fui lá e escrevi assim, Jesus, por favor, regulariza as batidas do meu coração com o seu coração.
Então, na hora da missa, eu passando mal o tempo todo, aí na hora que levantou a cestinha, eu senti como se fosse uma mão que apertava o meu coração. De verdade. E ele começou a bater naturalmente. Assim, voltou. Normal.
beleza, passou esse fato, aí era vigília de Pentecostes, tivemos que passar a madrugada, a noite, acordado o tempo todo, e eu tinha acabado de passar mal. Quando eu tive essa crise aqui fora, eu fui no médico, na hora que eu cheguei, o médico colocou classificação de risco no meu braço, passei a noite na UTI, ele pegou uma cadeira de roda e falou, ela não dá um passo a mais. Pelo amor de Deus. Então aí você imagina que eu andei 30 minutos de ida, 30 minutos de volta, passei o dia inteiro passando mal.
E ela me negligenciou. E tantas outras coisas, como ela fazia com as meninas de lá. E a menina que era postulante, que estava com dor de cabeça, e gritava de dor de cabeça, e vomitava. E ela gritava, eu já te dei cerumim. E não levou a menina no médico. A menina era italiana, teve que voltar para a Itália. Quando chegou lá, depois de quatro dias, passando mal, as irmãs de lá levou no médico. Ela estava com câncer na cabeça do tamanho de uma laranja.
Inclusive, no meu Instagram, eu coloco vídeo da própria menina contando esse relato como testemunho. Porque aí depois, quando ela tirou o câncer e acabou sobrevivendo, que ela é viva até hoje, eles contam como um grande testemunho, como um grande milagre. Mas ali a menina fala que ela começou a passar mal de postulante, que quatro dias depois ela chegou na Europa. Então, tem tudo isso como prova ainda gravado pela própria pessoa.
Então, essa irmã, hoje ela é fundadora de uma congregação, que é a Servas da Alegria.
E eu realmente bato na tecla que eu acho que ela não deveria ser fundadora, que ela era abusiva. Mandei pra eles, eles me responderam, nem aí, beleza. Mas te responderam ou não responderam? Não, responderam falando que Jesus perdoa todas as coisas. E quem fez ela se tornar a ponte é o Frei Gilson, que fez ela se tornar a amada fundadora lá. Mas por que eu falo que aí eu quero direcionar as meninas que são dessa congregação? Eu quero dizer pra elas que quando eu tô falando da irmã fundadora e male superiora delas,
É para que elas saibam quem ela é e para que ela nunca abuse delas. Então, quando ela ousar ter uma atitude abusiva com elas, que elas olhem para essa irmã e falem, olha, você não pode fazer isso comigo, porque eu conheço você e sei quem você é. Então, você vai ter que agir direito comigo aqui dentro. Você vai ter que me respeitar, porque você é igual a mim. Então, é só por isso. Então, para as meninas da serva da alegria, eu espero que quem conhece mande para elas.
Fale para, olha, a Bruna falou tal coisa lá no podcast. Não é para destruir a obra de vocês. Não é. É simplesmente para que vocês não olhem para uma pessoa e idolatrem ela como santa, porque ela não é. Ela é um ser humano. Claro, ela pode...
se arrepender, pode, mas ela não veio pedir perdão, nunca veio, então assim, você como cristão, você tem que ter vários posicionamentos, então é isso. Então assim, pra que essas meninas que estão abaixo da hierarquia, pra que elas falem, não, ninguém vai abusar de mim. Eu tenho que ter voz, eu tô aqui doando minha vida. Não importa se eu sou aspirante, postulante, noviça, eu tô doando minha vida, tô doando meu tempo, e eu tenho que ser respeitado. É somente isso. Mais uma pergunta, vai adiantar elas falar, será?
Não sei. Mas aí elas estão conscientes. Já está com o alerta ligado. Elas estão conscientes. Então, por exemplo, se elas vêem essa irmã tendo uma atitude abusiva, elas não vão estar ignorantes a isso.
Entendeu? Então eu quis retirar dessa irmã esse poder. Entendeu? Eu fiz de propósito pra retirar dela o poder de poder abusar de outras pessoas. De alguma forma. Entendeu? Mas você acha que você tem esse poder? Você consegue? Não, acho que não. Talvez não. Em algum momento não. Mas em algum momento também. Uma hora cai. É, porque eu recebo relatos, por exemplo, de meninas que entram em congregações e falam assim Olha, antes de eu entrar, eu assisti seu vídeo.
Quando eu cheguei lá, eu tenho vários. Quando eu cheguei lá, eu vi tudo que você falou. Porque aí a pessoa começa a identificar.
Porque ela não é mais passiva, ela é ativa. Então, ela sabe identificar. Coisa que eu não sabia. Eu não sabia identificar. Então, por isso que eu, muitas vezes, passei por isso. Eu não soube. Então, agora eu estou dando ferramentas para você saber identificar. E você sabendo identificar, você vai se posicionar. Se a instituição quer mudar, ela vai encontrar um outro caminho. Entendeu? Então, eu acho que é aí que começa a transformação. A partir da consciência.
E do posicionamento. Onde que é essa... Elas estão na Canção Nova. Elas têm o apoio do padre de Milso, né? E estão dentro da Canção Nova e estão crescendo. Como é o nome? Servas da Alegria. O que elas fazem? São freiras. Estão montando uma instituição de freiras. Servas da Alegria. Isso. Você nunca pensou em montar uma instituição sua? Não!
Não dentro da igreja, mas uma instituição, sei lá. Eu já quis ter uma casa de artes pra acolher crianças, mas hoje eu não tenho mais esse desejo. Não tem mais vontade? Não, não. Não tenho mais esse desejo. Tenho o desejo de fazer isso que eu tô fazendo, de falar de autoconhecimento, de transformação, daquilo que eu tô vivendo na minha vida, sabe? Porque foi um processo muito dolorido, e é um processo dolorido. E assim, eu sei que eu gosto da frase da música do Raul Seixas.
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.
Então pode ser que daqui a 20 anos minha cabeça vai ser completamente diferente de hoje. E não importa. Eu só quero evoluir. Eu não quero ser presa a uma ideia, entendeu? Eu quero conhecer o mundo. Eu quero conhecer as pessoas. Eu quero conhecer pensamentos. Conhecer...
experiências diferentes. E mesmo que eu não goste de tal experiência, mas eu não tenho o que julgar. Eu comecei a fazer faculdade de sociologia, uma das coisas que eu gostei, quando eu comecei, foi falando assim, olha, pra você ser um sociólogo, você não pode ter sua opinião. Você vai estudar todas as culturas, você vai estudar antropologia, você vai olhar o ser humano. Mas a verdade não está na sua opinião pessoal.
Então você nunca vai se posicionar como algo sendo certo ou errado. E para você poder se posicionar como sociólogo, você tem que viver a experiência. Não é só ler sobre algo. Então os grandes sociólogos iam dentro, por exemplo, de uma tribo, viver a realidade daquela tribo. E ele tinha que se despir das suas crenças e dos seus pensamentos e viver aquela realidade e sentir aquilo. E a partir daquilo ele ia escrever o estudo dele. Então eu gosto disso.
Pra mim também só tem isso. Você só pode falar com propriedade de algo quando você viveu aquilo. Tipo, eu não sinto as suas dores. Primeira coisa, eu não sou um homem gay, eu sou uma mulher. Então jamais eu vou entender a sua realidade. Exato, exato. É diferente, entendeu? Eu falo isso também, Bruna. Dentro da comunidade LGBT, eu não sou uma pessoa trans.
por mais que a gente esteja, entre aspas, agrupado dentro de uma comunidade, LGBTQI, APN+, eu sou um homem gay que me identifico como ser homem. Eu nunca quis ser mulher. Não, eu nunca me achei mulher. Eu nunca quis... Então, assim, mesmo dentro de uma comunidade, a transexualidade é uma coisa muito diferente pra mim. Mas a gente tá dentro ali. Eu não sei o que é uma lésbica passa, eu não sei o que... Você entende? Sim.
E é isso, tem que se viver aquilo para entender. É verdade. E respeitar o outro, as escolhas do outro, aquilo que ele quer. Eu acho que isso é muito importante para a vivência em sociedade. Eu posso ter a minha verdade, a minha crença pessoal e buscar... Eu acredito que ser perfeito é dessa forma, eu tenho todo o direito. Mas eu não tenho o direito de ir lá e julgar o outro que vive diferente. Eu não tenho o direito de apontar.
Eu não tenho o direito de querer que o Estado tenha as leis só para aquilo que eu acredito.
Porque o Estado é laico, ele tem que estar para todos. Entendeu? Então, eu tenho que entender que tem que ter um ponto em comum para todos nós. Eu tenho minhas crenças pessoais e é isso. Você sabe que esses dias que eu fiz uma live com o Sheik aqui, aí eu sabia o que era um Estado laico, mas aí eu soube na prática. Porque ele falou assim, não vou lembrar qual é o país, posso estar... Mas acho que ele falou que o Irã é judeu, né, Sara? Acho que é isso. E a Arábia Saudita...
é muçulmana, da religião islâmica. Acho que é isso. Mas ele falou assim, porque lá as leis que valem é a lei da religião.
Você imagina isso aqui no Brasil? Que é isso que o povo quer. Tem umas bancadas aí que querem isso. Aí eu fui entender o perigo disso. Você imagina a lei católica, por exemplo, valendo na Constituição. Não pode casar com outro homem. Porque eu posso me casar no papel com meu marido. E isso que eu acho que os religiosos se tremem.
Eu fico nervoso. Porque eu sempre perguntava isso. Mas as pessoas, muitas religiosas, claro que não todos católicos, não todos evangélicos, mas que todos os religiosos falam contra, por exemplo, o casamento gay, o casamento gay,
o anticoncepcional que não pode, a questão do aborto e tal, porque eles querem que as leis que sejam válidas sejam as leis das religiões deles. O que é muito perigoso. E lá é o que acontece. Ou seja, você não pode não ser da religião. Você tem que usar véu lá, sendo uma mulher. Sim, sim. Olha, aí quando ele falou isso, minha cabeça veio assim.
Porque lá é a lei... Gente, aí a gente cai... Eu com 40 anos, juro pra vocês. Vocês podem assistir a live do Sheik. Me caiu a ficha na hora, porque eu fiquei assim, ó. Sabe aquele emoji com a cabecinha explodindo? Eu falei, gente, é verdade. Imagina aqui no Brasil, lei católica valendo na lei. Lei de evangélico valendo na lei.
Sim, e aí eu lembro que criticavam assim quando teve aquela lei que tinha que tirar símbolos religiosos de espaços públicos. Perfeito. Ah, está tirando a cruz de Cristo. Tira. Tá, sim, porque eu posso ter um santo de humana? Eu posso ter a Maria Padilha? Não pode. Eu posso ter o... Teve um cara reclamando esses dias numa sacola, falando assim, essa aqui é um santo. Eu vi, eu tenho essa sacola. Não, a sacola é um cara um sambista. Do Rio de Janeiro. O Zé Pilintra. E aí ele falou, não, mas você está vendo?
Mas qual o problema se fosse, Zé Pilintra? Mas tem o Cristo Redentor atrás. Então tá atrás, tá pequenininho. Mas ele não reclamou do Cristo Redentor. Ninguém reclama. Eu vi. E eu tenho essa sacola. Pois é. Agora que eu vou usar essa sacola. É lá do açaí. Não é? Tô pagando pra vocês. É, ó.
Ô, Bruna, se... É só rindo, né, Bruna? A gente vai rindo, levando com alegria. Mas é um protesto, ó. Usar essa sacola... Se a gente for chorar com todas as coisas, né? Eu acho que a live de hoje, eu tava falando pra Sarah. A live da Bruna é uma live muito... Além de polêmica, eu acho que é pesada, né? Tudo que você conta são histórias pesadas. Mas a gente tem que levar com... Sim, sim. Com alegria, às vezes. Tem que rir também, né? Tem que rir, às vezes. Senão a gente vai só deitar no chão e vai chorar.
Muito que bem. Pra você que tá em casa, então, você aceita responder umas perguntinhas do povo? Com certeza. Tá preparada? Tira o chapéu do Tia Kesslana.
fazer um quadro aqui de tira o chapéu, tira. Ó, então o seguinte, pra você que tá em casa, se quiser mandar perguntas pra Bruna Miranda, que é ex-freira, contou aqui os relatos dela da parte sombria do convento em que ela participou. Se quiser mandar pergunta, pode mandar aqui pelo chat, que ela vai te responder, beleza? Quanto tempo de live já, Sara?
Quase três horas de live. Quase três horas que nós falamos aqui. Mas está ótimo o papo. Já tem pergunta. Inclusive, vou aproveitar o momento das perguntas. Para quê? Para fazer um convite para você. Porque em novembro nós vamos viajar para a Itália. Está preparado para viajar para a Itália comigo em novembro? Bora. Já fui para a Itália. Já fui para alguns lugares da Itália.
E queria te convidar para viajar comigo por alguns pontos maravilhosos da Itália. Inclusive, tem um ponto que eu sempre esqueço de falar, que é as catacumbas dos capuchinhos, que é lá em Palermo, que tem um monte de cadáver na parede. Foi um dos lugares mais sombrios que eu visitei.
Então a gente vai visitar alguns pontos católicos também. Você vê que a gente falou hoje da Igreja Católica de lado sombrio. Mas tem lado sombrio lá também, porque a Igreja Católica tem os corpos dos santos, né? Que estão expostos e a gente vai visitar. Se você quiser saber mais, está aqui o QR Code. Abre a câmera, joga para o QR Code para que a gente possa fazer essa viagem.
juntos em novembro. A Sara vai tirar essa arte e vai entrar outra. Lembrando que no pacote já está incluso as passagens de ir e volta, hotéis quatro estrelas, café da manhã e jantar. E serão duas semanas incríveis na Itália. Eu e você, você e eu.
Beleza? Vamos para lá então. Vamos para as perguntas? Vamos. A Brenna Kessler falou o seguinte. Dan, pergunta para a Bruna como ela se sente sabendo que as pessoas que fizeram essas atrocidades contra ela não vão ser punidas. Porque não vão, né? E ainda tem encargos, né? Estão encargos ainda, né? É muito difícil. É triste porque, assim, não vão realmente. Não vão e muitas vezes vão viver no poder como vivem no poder.
Eu me sinto, assim, às vezes, muito triste mesmo. Eu, decepcionada, gostaria que tivesse alguma consequência, mas não tem. Isso aí eu nem espero. Você não espera? Não. Principalmente no caso dessa irmã que eu acabei de falar, quando eu fui lá e falei pra instituição, olha, essa irmã, eu acho que ela não é apta pra assumir este cargo. Por que ela não é uma irmã mais simples? Não, ela tem que ter o poder, porque ela tem desejo de poder.
E a pessoa falou, ah, Jesus perdoa todos os pecados. Então, na verdade, quem é ruim sou eu. Aí eu falei assim, nossa, Jesus perdoa todos os pecados dela. Mas eu, dane-se a minha vida. Então, assim, é uma sensação de indignação, de vazio. Mas eu não tenho esperança de que algo mude. Não tenho.
Isso aí eu não espero. Entendeu? Eu espero que a consciência das pessoas se abram e que elas se posicione caso ela encontre pessoas que tenham esse tipo de perfil agindo contra elas. Então, qual que é o meu trabalho? É que meninas escutem a minha live e se entrar, que elas saibam identificar. Esse é o meu único objetivo. Agora, falar que eu acredito que a instituição, que alguém do poder vai descer e vai... Ou que tal pessoa que está em alta vai cair.
Não acredito. Não, não acredito nisso. Não é o meu objetivo. Porque eu não acredito mesmo. Infelizmente.
Daniel Sabag, Bruna, como é que está hoje a sua fé? Você acredita em Deus, em Jesus, depois de tudo isso que você passou? Então, hoje eu não tenho religião, eu me denomino espiritualidade livre, eu acredito em Deus, acredito na espiritualidade, não no Deus cristão, nessa forma como a Bíblia diz, não acredito dessa forma, não acredito na igreja católica como religião, como religião não, ela é uma religião.
Mas os dogmas e as doutrinas da Igreja Católica não fazem sentido pra mim. Então, assim, eu me conecto, eu gosto da natureza, eu gosto de contemplação, eu gosto de aprender, mas meditação, mas falar pra você que tem uma religião, que eu falo assim, ó, essa religião aqui eu me identifico, não.
Sou taróloga, encontrei no tarô muitas respostas para a minha vida, mas na linha do autoconhecimento, sabe? Não é aquela coisa assim, ai, de previsão de futuro, não é nessa linha, é na linha do autoconhecimento, na jornada dos arcanos maiores. Então, transformou a minha vida. Então, eu busco me conectar com o universo, com a espiritualidade, com o transcendente.
de uma forma livre. Gosto, por exemplo, da espiritualidade cigana. Acredito que existe uma comunicação com seres espirituais. Por exemplo, pessoas que morreram. Acredito que a nossa vida não é só por aqui. Não sou ateia. Mas também não sigo religião.
Você sabe que da outra vez que você veio, quando você falou que você era taróloga, muita gente também te atacou por isso, né? Sim, eu sou muito atacada por isso. Porque aí desqualificam a minha fala. Ah, por isso que ela saiu da igreja. Isso. Porque ela queria ir pro tarô. Ah, mas o tarô veio bem depois.
Ah, não veio... Não foi junto, não. Você nunca jogou tarô pra nenhuma freira dentro do convento. Não, na verdade... Não, na verdade eu conheci o tarô através de uma freira dentro do convento. Ah, é? É, que ela era minha amiga. Não vou falar o nome dela, mas ela era de família cigana. Aí um dia ela falou pra mim no convento assim... Ah, sabia que quando eu era cigana eu descobri que o meu pai traia a minha mãe nas cartas?
Você descobriu no tarô? É. Aí eu falei, no Baralho Cigano. Ah, Baralho Cigano. É, o tarô é diferente, né? Mas é a mesma linha, assim, de cartas. Assim, pra ler. E aí ela falou, eu falei assim, sério, é verdade? Ela falou sim. E aquilo ficou na minha mente. Então, quando ela vinha na minha casa, que a gente tinha amizade, eu falava, tira a carta pra mim. Então, eu sempre zoava com ela, assim, querendo. E ela falava não. Mas ela me disse.
Ela falou, é real. E aquilo ficou dentro de mim. E eu gosto muito desse tipo de cultura. E aí, depois, no decorrer do caminho, eu conheci o tarô.
E eu fui estudar o tarô, né? Então, aí fez muito sentido pra mim. Mas eu não saí da igreja por causa do tarô e nem por causa das freiras. Eu saí da igreja porque eu fui estudar, como eu falei, Jesus histórico. Eu fui estudar as culturas. E aí eu vi que o mundo era muito maior que tudo isso. E aí não fez mais sentido pra mim ficar preso nessa ideia de catolicismo que a gente conhece. Não fez mais sentido. Então, por causa disso. Não é por causa de pessoas, não.
A Kátia Maranzato fez uma pergunta legal aqui, que vai em outra linha. Bruna, você passou por algo sobrenatural no período que você foi freira? Acho que, assim, o sobrenatural que ela quer saber, não sei se é isso, Kátia, mas envolve tudo. Essa do Jesus, de você sentir o seu coração diminuir, é algo sobrenatural. Teve alguma outra situação?
Eu acho que ali a gente sempre estava tentando se conectar com o sobrenatural, né? Porque a gente sempre estava envolto à espiritualidade. E eu acredito nessa força. Mas eu lembro um episódio, assim, que é mais sombrio, né? Que as pessoas gostam de saber. Que uma vez a gente estava numa reunião dessas que chamava Correção Fraterna.
E aí a gente resolveu se posicionar e falar das irmãs abusadoras. Foi um dia que elas foram... Uma reunião? É. Tava todo mundo e a gente começou a apontar esses erros que eu estou falando aqui de uma forma... Todo mundo ali deu um posicionamento. E tinha uma porta que era do telefone, que ela era blindada. E a porta estraçalhou. Na hora que foi falada uma verdade, a gente tava lá embaixo. Porque assim, tinha um claustro, a gente tava embaixo.
E em cima tinha uma sala. A gente só escutou estilhaço. E a porta era blindada. Ela se lançou...
Todinha. Ela não ficou nem grudada. Sabe assim, quando tem aquela camadinha que o... Que ela estilhasse e fica. Mas ela fica, não, ela fez... Tipo, se desfez, né? No momento que vocês estavam falando dos abusos. No momento que a gente estava falando de coisas de abuso ali dentro. Então, assim, isso é uma coisa que me impactou muito. Porque eu vi ali como uma força. Entendeu? Mas aconteciam muitas coisas ali. Muitas coisas espirituais também. Você lembra de alguma trevosa? Alguma coisa que te assustou? Não teve?
Não, tinha muito, assim, tipo, manifestação, às vezes, de pessoas, né? Eu lembro que tinha uma postulante, uma vez um cara lá foi rezar por ela e ela ficava falando com outras vozes, assim. Mas eu não quis ver ela, eu tava do lado de fora da capela. Eu falei, eu não quero saber quem é, porque como eu morava com ela e à noite a gente tinha que acordar a fazedora. Então eu não era muito dessa área. Meu Deus! Aí eu falei, eu não quero saber quem é.
E a minha colega de quarto, e a colega de quarto, o dedo assim. É, mas era assim mesmo.
Era. Aí eu não sei o que ela tava acontecendo com ela. Porque hoje eu não tenho mais essa ideia, tipo, satanás, demônios, céu, inferno. Ah, você não tem mais medo disso? Não, não tenho. E não era nem medo, assim. Eu só não quis saber, eu não queria julgá-la. Então eu falei, eu não quero saber quem é. Eu não quero olhar pra uma pessoa que mora comigo e pensar, essa pessoa teve essa tal coisa. Então eu não quis saber, mas isso acontecia.
Mas esse nunca foi o meu ponto dentro do convento. Eu nunca fui ligada ao... É...
Eu não fui ser freira por causa de espiritualidade sobrenatural, essas coisas. Eu fui por causa que eu queria fazer um trabalho social. Eu não entendia que eu tinha uma personalidade do lado social. Eu não entendia isso. Então, eu misturei todas as coisas. Eu quero fazer a bondade. Eu achava que o convento era esse lugar que iria me proporcionar fazer essa bondade.
E cá entre nós, né? Tudo que você sofreu lá não dava nem tempo de ver fantasma. Você já tava vendo os demônios real, né? Botando gelo em você, te agredindo. Isso é o mal verdadeiro, né? É o mal real, né? É o mal real. É o mal real. Que é as pessoas... Quando a gente não é curado, quando a gente olha pra gente e a gente não tem uma autoestima, a gente pode prejudicar muitas pessoas. Mas são pessoas feridas também, né? Ali tinha muita gente com transtorno, sabe? Hoje, quando eu paro pra avaliar, muitos transtornos.
Porque vinha... Transtorno psicológico. Isso. Pessoas, assim, tipo, que vinham de situações de muita... Porque eu vim do interior de uma vulnerabilidade, mas era diferente. Porque, assim, eu escolhi ser freira, mas eu tive a oportunidade de... Eu estudava, meus pais minimamente davam a condição... Se eu tivesse querido fazer uma faculdade, meus pais teriam dado um jeito. Eles eram pobres, mas teriam dado um jeito. Mas tinha pessoas lá dentro que vêm de uma outra estrutura.
E aí você olhava pra aquela pessoa e ela... Ela era... Ela te humilhava. Por quê? Porque...
Era uma forma dela sobreviver e dela falar, eu tenho uma força, eu sou alguém. Era o tal do poder vira lata, né? É. Que a gente fala assim, você dá um pequeno poder pra pessoa, ela te humilha. Isso. Ao invés dela se recolher e falar, estamos juntos. E eram muitas questões psicológicas, pessoas diferentes, educação diferente. Você imagina, você casa, você tem um marido e você forma a sua família.
Você tem um monte de conflito. Você imagina um convento com 40 freiras, com 40 mulheres, cada uma vindo de um lugar com uma geração diferente, conflitos de geração. Era essa a realidade do convento. E cada vez você não tem uma vida fixa. Principalmente ainda no convento de clausura, ainda mora mais tempo. Mas a gente que era missionária, sempre estava mudando gente na comunidade. Tinha algumas que ficavam e outras que iam. Então, por exemplo, parecia que ser enviada para a Europa era um status.
E você ser enviada para o lar, lá por fanato, não era. Então, a Madre, por exemplo, geralmente ela mandava para os lares ou para a costura, as irmãs mais simples e aquelas que ela achava que tinha, mandava para a Europa. E outras pessoas que sofreu racismo, que sofreu xenofobia, eu não sofri, mas eu tenho relatos de pessoas que sofreu e que eu via isso sendo praticado. E eu queria que essas pessoas viessem e falassem, porque é a dor delas. Eu contar é uma coisa, mas quem viveu, tivesse coragem e falasse.
Tipo assim, as pessoas iriam compreender também. É, mas a gente não sabe a realidade das pessoas íntimas, né? Não, é, eu compreendo. Sim, eu compreendo. Elas não conseguem, às vezes. Ou às vezes nem querem, viu? Ai, não vou mexer nesse vespeiro, não. É, porque dói mexer. É que quando você tem coragem de se posicionar e falar, você vai agregar uma força, né? No debate, né? Porque, por exemplo, a luta dos LGBTs.
Só acontece porque as pessoas têm coragem de subscionar. Se todo mundo ficar quietinho no seu mundinho, os outros vão crescer e vai engolir. Então, chega o momento que você tem que fazer o enfrentamento. Mas eu entendo quem não consegue. Não estou julgando ou cobrando. Mas é que não é a minha história. É muito diferente eu falar sobre racismo sendo que eu não sofri. Eu não sofro racismo. Então, é diferente eu estar nessa posição.
É complicado tudo isso. Cada pessoa é um universo, né? Isso. A Tiem Ashimura perguntou, e como que foi o momento, logo depois, assim, quando você chegou em casa?
Olha, foi algo muito interessante. Quando eu saí do convento, eu peguei o ônibus e eu sentia... Eu postei esses dias, sabe o filme Agneta? Que tá em alta, que é uma mulher que ela era casada e ela vai pra França e separa o do marido. Ela se autoanulava pela família e ela vai realizar o sonho dela de comer croissant. Coisa simples, ela se descobre. E aí ela sai correndo assim, pelada, só de sutiã.
E gritando assim no campo de lavanda. Foi seu assentimento. Quando eu assisti aquele filme, eu postei esse dia e falei, foi assim que eu me senti saindo do convento. Me senti livre, me senti em paz. Eu não senti tristeza, eu senti uma paz. Parecia um passarinho que tinha aberto a gaiola, mas eu tava de dentro ainda, só que eu sabia que aquela porta tava aberta. E a hora que eu quisesse pular fora, ninguém ia me prender. Então foi uma sensação maravilhosa. Aí quando eu vi minha tia me esperando.
E minhas priminhas, que eram pequenas, que hoje são tudo adultas, gritando, pulando de alegria. Eu fui super muito bem recebida pela minha família. Eles me acolheram, me ajudaram, me deram tudo o que podiam. Então, eu tive essa graça, mas tem gente que não tem esse apoio. E para você se reerguer, você precisa do apoio da sua família e dos amigos. Sozinho você não se reergue. Seja financeiramente, seja psicologicamente, seja espiritualmente.
Então, eu tive esse apoio. Então, é importante. Se você vê que uma religiosa ou um padre sai da instituição, acolha.
Não julgue, não aponte, acolha, abrace. Se você poder ajudar, ajude, porque é um momento muito delicado. Você sai ali destruído, sai destruído. E foi um processo, mas eu senti muita alegria. Foi algo assim, eu não sei explicar. Eu falo, bendito dia que eu decidi sair. Eu sou muito grata por esse dia na minha vida. Eu só tenho gratidão.
Tua família nunca desconfiou de nada do que você contou? Enquanto eu vivia, não. Minha mãe só... Eu só era muito magra, né? Mas minha tia falava assim... Nossa, a Bruna parece uma caveira. Eles falavam. Mas nunca desconfiou, porque eu nunca contei nada. Minha mãe nunca soube nada. Não, mas quando você contou de todos os abusos... Na verdade, eu nunca sentei com a minha família e contei. Ah, então eles veem tudo aí pelas redes.
Elas nem assistem. Minha mãe nem assiste mais. Minha irmã... Nem assiste mais. Ó, mas você tá falando de um retrato, talvez, de mãe, viu?
Porque minha mãe, quando eu entro em assunto polêmico da igreja...
Não quer ouvir. Sua mãe é meio assim também? Não, a minha mãe só tem medo de eu falar e sofrer alguma retaliação. Então, isso que eu ia te perguntar. E aí? Você sofre retaliação? Eu só sofro críticas, mas nunca sofri uma violência de alguém me ameaçar. Igual o Brendo sofre, não. Assim, das pessoas falarem que vai me matar, não. Só a pessoa falando. As pessoas desqualificam a minha fala. Eles me atingem querendo dizer, você é mentirosa. Tudo isso que você tá falando é mentirosa. Você não é curada. Você é revoltada.
Então eles sempre tentam jogar que tudo bem, você passou por isso, mas a forma como você tá lidando é que é errada. Então você não é curado, você é fraca, você não teve força. Mas falar assim, vou matar você, me chamam de prostituta, de meretriz, não tenho vocação. Que boa crítica, né, eles? A crítica deles é te xingar. Mas no começo me feria, quando falava assim, você não tem vocação, nossa, parecia assim.
Eu falava, gente, me sentia diminuída. Hoje não, hoje eu aprendi a lidar. Pode falar, o que você quiser. Eu não me importo. Você fala assim, ó, a igreja vai te excomungar. Tudo bem, eu não me importo. É que eu perdi, sabe, eu só consigo falar porque, na verdade, eu perdi qualquer reverência pela instituição. Então, a instituição não exerce mais poder sobre mim. Então, quando a instituição perdeu o poder sobre mim... Mas isso é pra tudo na vida. Isso, é. Quando você perde o poder sobre algo...
Quando a pessoa deixa de temer aquilo, ela não é mais escrava. Mesmo que ela tenha que se submeter. A gente está numa sociedade que a gente é obrigado a se submeter, mas dentro da gente a gente é livre. A liberdade começa dentro da gente. Então, eu acho que é isso. Isso eu tenho muito como premissa aqui no meu podcast. As pessoas que sentam...
na frente comigo, elas podem falar as barbaridades que for, não pode gay, não pode não sei o que, eu vou ficar só aqui assim, ah, tá bom então, porque não vai me atingir, você não vai, a pessoa não vai chegar e não vai mudar, porque ela vai pra casa dela, no sábado eu vou pra balada gay.
Não tem algo que me proíba, entendeu? Então é isso, quando a pessoa não exerce mais poder sobre você, a igreja não tem mais poder, até a própria família, né? Porque a gente sofre muito, pelo menos nós LGBTs, sofremos muito poder da família durante um tempo. Eles acham que tem poder sobre a nossa sexualidade. Meu pai, quando eu contei, ficou bravo. Aí eu falei, mas por que você tá bravo? Eu já não moro mais aqui, eu já não pai. Ele, é porque eu queria um filho hétero. Eu falei, mas querer não é poder.
Mas eu acho que é a mesma sensação dessa liberdade. Tipo, minha família, eu amo minha família. Você pode amar seu pai e sua mãe. Mas eles não têm esse poder sobre sua vida. Você tá reguindo seus caminhos. É a mesma coisa eu. Não tem. Gente, pai e mãe, eles vão cuidar dos filhos até certa data. Até certa idade. Mas tem uma hora que o filho vai escolher o caminho. Isso.
O meu pai era o pai mais ferrenho, do tipo, meus filhos são todos héteros comedores. São todos héteros. Ele falava isso. Meu filho mais velho, quando eu me assumi, ele falou, eu vi você lá com o sacão roxo, que agora você é viada. Eu falei, mas o sacão roxo continua. Ótimo, perfeito. Só não uso porque você... Então, quer dizer, quando a pessoa perde o controle do outro...
cai o castelo, né? Sim, e foi isso que aconteceu comigo. Então, tipo assim, eu não me importo. Pode vir uma freira aqui na minha frente querer falar pra mim e querer usar a Bíblia pra falar comigo. Você vai falar assim, ah, é Mona. Então tá bom. Eu vou questionar ela, entendeu?
Não consegue ter esse poder. Não tem. E eu acho que é a esse ponto que eu me sinto livre pra falar, né? Porque eu não me importo realmente. Falar assim, você tá excomungada. Tá bom. Mas o que muda na minha vida? Eu nem sou da religião. Você sofre processo? Processo judicial? Nunca sofri. Nenhuma notificaçãozinha extrajudicial? Nada. Eu falo meu Instagram. Meu Instagram é simples. Não tem verificação. Nunca caiu. Eu não sei como. Entendeu?
Só que assim, eu sempre tomo cuidado, eu sempre tento falar de uma forma educada. Não agressiva. É, eu tento. Às vezes eu... Uma comunicação não violenta. É, quando eu sou mais violenta, é porque eu coloco uma música, tipo que vai... Por exemplo, aquela música da Isa que fala, é fé pra enfrentar esses filhados da puta. Eu acho que esse é o máximo de...
De xingamento. Isso que eu faço, porque eu acho que eu quero que as pessoas entendam e me respeitem como eu respeito as pessoas. E eu sei que o que eu tô falando é verdade. E também eu tenho como provar o que eu tô falando, né? Então eu tenho muitas coisas guardadas. Mas eu acho que é isso que mata a galera, né?
Não quero ver... Meu, o Brendo posta uns prints que eu fico só lá na fofoca. Não é? É. É, porque ele posta mesmo. Tem vezes que eu falo assim, já que olha o que o Brendo postou. Eu também, eu também. Eu mando pra ele, ele é maluco. É, eu falo, gente, olha o que o Brendo tá postando na cara. Teve um que ele postou que eu... Ah, eu nem posso falar, pra vocês não saberem qual que é o meu. Não, teve um que ele colocou uma música. Teve o padre Silvio Andrei que ele colocou uma música.
Não, teve um padre que ele postou lá, que o padre mandou pra ele assim, eu tô com a testosterona 570.
Eu falei, gente, mas... Ai, gente, o Brenda... Não, mas esse daí, desse padre que eu vi a música, eu falei, gente, de onde que ele achou essa música? Eu nunca tinha ouvido a música. E ele se pisculachou. Então, assim, a minha forma, às vezes, de ser um pouco mais... Não é essa. Não, é, a minha forma, assim, quando eu quero ser um pouco mais... Agressiva. Azeeda, agressiva, eu coloco alguma música que... Mas eu... Que falha por si. Você não vai... As pessoas não vão ver a Bruna, tipo...
Seu filho da... Ah, sua madre num caramba. Ah, é muito difícil. O máximo que você chama é traste. É. O máximo. Ó, a Cristina Fernandes falou o seguinte, você é uma mulher inteligente. E o que que te levou ao convento? Foi esse...
É que eu não era assim. Eu era uma menina, eu era uma jovem que não tinha conhecimento, que vivia no interior de São Paulo e que acreditava que a igreja era um caminho bom, que as pessoas eram boas e que eu ia poder... Então, tudo que eu falo hoje, eu fui adquirindo. No pós-saída, dentro do convento, a gente não podia ler livros. A gente só podia ler os livros... Não podia nem ler o do padre Fábio Maldimeno. Não, e só podia ler livros que a formadora autorizasse.
Então, só de espiritualidade, só documentos da igreja. Então, tipo assim, eu não podia ler um...
Filosofia, nunca. Filosofia, não podia ler filosofia, não podia ler nada disso. Nada que abrisse a mente, só coisas condicionadas à espiritualidade. O máximo que abria a mente era o padre Fábio de Mello e Augusto Cury, que foram proibidos, né?
Que elas estavam certas quando diziam a Bruna tá em crise. Eu tava em crise, mas ninguém tinha coragem de falar, Bruna, abrir a porta da gaiola e falar, vai viver sua vida, menina. Ninguém tinha, né? Ou vamos sentar aqui, vamos conversar. O que que tá acontecendo? Sim, sim, sim. Eu lembro que a psicóloga foi e fez um encontro com a gente e falou assim, olha, falando de identidade, e ela disse assim, vocês têm que ter identidade do carisma.
Aí eu olhei pra ela e falei assim, tá, eu tenho que ter identidade do carisma, ser carmelita mensageira do Espírito Santo. Mas quando eu nem sei quem é a Bruna Miranda, eu lembro que eu falei isso pra ela, ela ficou em choque. Só que hoje eu sei que, na verdade, ela ficou em choque porque a missão dela era me transformar em carmelita mensageira do Espírito Santo e não Bruna Miranda. E não descobrir a Bruna Miranda. Isso, e quando eu perguntei isso pra ela, ela se deparou com o que ela tava fazendo, talvez, naquele momento, como psicóloga. Ela se tocou, né? Isso.
De alguma forma, não que ela mudou o posicionamento dela. Mas eu lembro que ela teve uma reação, assim, tipo... Ela ficou sem resposta. Ela não me deu a resposta e ela continuou. Mas ali eram lapsos de consciência. Tipo, eu entendia que eu era Bruna Miranda. Ser carmelita era uma consequência. Mas maior em mim é ser Bruna Miranda. E, por exemplo, quando você entra em convento, hoje nem tanto, mas antigamente você mudava até seu nome.
Então, eu ia perguntar, você tinha nome? Não, lá na nossa congregação não tinha, mas muitas congregações mudavam, entendeu? De nome. Então, olha só, como você perde a sua identidade. Até mesmo no nome. Você acaba adotando o nome, por exemplo, inspirado num santo, né? Tinha as récides mesmo, eles trocam de nome. Então, a irmã, a Teresinha, não sei, da Sagrada Fácil. Por que você chama... E nem é você que escolhe, viu? Quem escolhe é sua superiora. Você pode dar sugestão, é.
Você dá a sugestão, isso já vi em vários lugares, você dá a sugestão, parece de três nomes, e aí a sua formadora lá que vai decidir qual é o seu nome. Então nem essa liberdade você tem. E aí, por exemplo, supondo, eu quero me chamar Maria Terezinha, Maria por Virgem Maria, e Terezinha por Santa Terezinha do Silêncio, porque eu quero a virtude do silêncio. Você começa a se configurar isso, você tem que se configurar essa espiritualidade. Quase um alter ego? É, é.
E é, entendeu? É um alter ego. Pra mim é, mas aí eles vão dizer que não, entendeu? Gente, eu queria chamar Dan Pio.
Dan Pio. Dan Pio do Padre Pio. Adoro a história do Padre Pio, embora tenha as suas polêmicas, né? Mas o Dan Pio é uma... Gente, Bruna, pra isso mudar de nome? Sim. É um alter ego. E aí você passa a ter a sua forma de viver a partir daquilo que é aquele santo. Então, Terezinha, quem é a Terezinha? Ela é um nada, ela é a pequena. Então, eu vou ser uma irmã pequena do silêncio. Então, eu não vou reclamar, eu vou sempre silenciar tudo aquilo que eu sinto.
A Terezinha era daquela história que você contou também do alfinete? Sim, do alfinete no ombro. Como que é essa história? Que a freira foi colocar o hábito dela e tinha que colocar o alfinete, acabou passando o alfinete no escapular, no ombro dela. E ela permaneceu o dia inteiro com o alfinete, oferecendo para Deus como sacrifício.
Gente, mas amor, tira! É só você fazer... Ai! Tirou, acabou! Mas no convento a gente ganhava do padre Sandro, que era um padre da cartucha, a gente ia confessar, a gente dormia na adoração. Ele dava alfinete pra gente se furar pra não dormir na adoração, que a gente tinha que acordar de madrugada. Então a gente tinha aqueles alfinetes grandões e ficava se furando assim.
Eu sentava assim, eu nunca sentava encostada. Minha vida era só sentar assim, porque se eu sentasse assim, eu já dormia. Eu ia na missa, eu ficava assim, ó. Aí eu sentia, tipo... Porque senão eu dormia, entendeu? E eles te davam um alfinete pra... Pra se furar na duração pra não dormir. Era um alfinetão, assim. Ele tinha vários. Aí a gente ia confessar e ele dava. Tem uma história que você contou que você falou assim, eu lembrei. Essa história é magnífica. Essa história é magnífica.
Você falou assim... Gente... Eu tinha esquecido dessa história. Por que eu fui lembrar? Gente, você é demais.
Mas eu fiquei com essa história na cabeça. Porque essa freira que falou isso, ela ficou ressentida, viu? Porque a outra foi embora. Como é que era essa história? Uma freira que foi embora. Isso, teve uma freira que ela foi embora do convento. Não vou contar detalhes da vida dela, porque ela é minha amiga e eu não quero... Ah, ela é sua amiga até hoje. É, e aí eu não quero expor detalhes da vida dela. É a Jaque. Não.
Mas ela foi embora do convento, porque ela se apaixonou. Não sou eu. Ela se apaixonou e teve um relacionamento. E aí a Madre me chamou, eu era noviço, ela pegou e me chamou e falou assim, a irmã fulana foi embora por causa de um pedaço de carne desse tamanho, fez assim pra mim. Entendeu? E falou o pedaço. Eu não esqueço essa história.
Eu não esqueço essa história. Essa história buga a minha cabeça. Imagino a madre de habituzinho. Ela foi embora por um pedaço de carne assim. Eu sempre vou repetir. Às vezes vale a pena ir embora por um pedaço de carne. Gente, ela falou isso mesmo? Falou, quando eu era novícia. Eu lembro até hoje. Eu lembro que eu tava assim, abaixada. Ela tava sentada. E eu tava meio que de joelho, assim, conversando com ela. E ela falou.
Porque ela achava que eu... Ela queria me convencer que aquela irmã era ruim. Porque quando uma irmã saía, ela difamava a irmã. E eu gostava muito dessa irmã e a gente era da mesma cidade. O padre que ajudava essa irmã me ajudou. Então a gente tinha meio que uma ligação até mesmo de comunidade. Então a madre achava que eu ia querer sair por causa dela. Então veio falar comigo sobre a saída dela. Explicar como foi as coisas. E aí falou isso.
E tipo, difamando ela, né? Isso. Mas isso nunca valeu pra mim, porque eu continuei... Quando eu ia de férias... Gostando dela. Eu acho que eu era revoltada, porque quando eu ia de férias, eu estava ali escondido. E ela casou mesmo. Casou, tem família, coisa mais linda. Já visitei ela. E quando eu saí do convento, que eu vim pra São Paulo, quem me ajudou aí na minha primeira entrevista de emprego foi ela. Quem fez o meu primeiro currículo foi o marido dela. Não foi a estreira do convento.
Foi ela que era uma citada pelas freiras. Então, assim, ela é maravilhosa. Eu adoro ela. Eu só não conto detalhes da história dela. Porque vai saber quem é pra manter a gente. Isso, eu não quero expor isso, mas eu amo ela de paixão. Então, tipo assim, mesmo a Madre falando tudo aquilo, pra mim, eu não tava nem... A Madre tava com inveja. É.
Porque ela olhava, foi embora por causa de um pedaço de carne. Você vê a ex-freira, ela tá lá corada, querida. Tá feliz da vida com o pedaço de carne dela. Ah, freira. Muito que vem, senhoras e senhores. Bruna Miranda, ex-freira, aqui no LendaCast. Obrigada.
Querida, obrigado. Prazer em receber você de novo. Imagina, maravilhoso. É uma história de muita superação. É uma história que... Você passou por muitos momentos tristes, mas é uma história que eu digo que merece ser contada. Obrigada.
E eu agradeço a oportunidade. Adoro vir aqui. Uma energia maravilhosa, gente. É lindo. Obrigada. É um lugar muito lindo. É muito artístico. Muito bonito. E é uma delícia conversar com você. Obrigada. E eu vejo suas coisas, seus vídeos, onde você passeia, assim, nos turismos, nas coisas que você fala. Eu acho demais. Ai, que legal. Quando eu falei pra você, eu acompanhei lá do Carla Coutts. Você vê que eu falo, a gente fala da igreja, né? Igual na outra live.
Lascou a lenha na igreja e depois cantou música católica. Mas é também muito importante deixar claro, né, Bruna? Que às vezes as pessoas olham essa live, eu recebo muito comentário assim, muitos não, alguns, né? Nossa, Daniel, você fala muito mal do cristianismo, você fala muito mal da igreja católica. A gente não tá falando mal de um todo, né? A gente tá falando, porque com certeza tem freiras e padres que são muito felizes nas suas decisões, nos seus seminários e nos seus conventos, né? A gente tá falando de uma experiência que foi a sua, né? Sim.
Sim, com certeza. E eu tô contando a minha história agora. Tipo assim, tem gente que vem aqui padre e que vai falar é maravilhoso ser padre. Então, cada um tem um ponto de vista. Então, é. Cada um vai ter o seu ponto de vista. E talvez pra ele é maravilhoso, porque ele não enfrentou o que eu enfrentei, né? Isso, isso. Então é isso. É a experiência única de cada pessoa. Eu quero ser respeitada da minha fala e ter o direito de falar. Porque eu fui tão silenciada que agora eu quero falar. Entendeu?
E eu acho que quando se descobre o poder, tudo que você passou, e o poder de fala, você quer mais é falar mesmo. Isso, isso. E assim, como... É a sua arma agora, né? Isso, e os católicos falarem e a virtude do silêncio. Olha, é muito mais difícil falar do que ficar quieto. Mas você não é mais católica, então não serve pra você. Não, mas é pra eles que eu quero falar. Por quê? Porque assim...
parece lindo a virtude do silêncio, só que às vezes o silêncio, ele a verdade, Jesus, vamos pegar Jesus que eles seguem, que Jesus falava Jesus denunciava, Jesus apontava mas olha, esse negócio de silêncio é muito perigoso tá, você que tá em casa sofrer abuso
por qualquer religioso, seja você homem, seja você mulher, seja você mãe que descobriu um abuso de padre com seu filho, porque tem, seja de freira, seja do que for, não vai nessa do silêncio. Vai e denuncia e fala e vai contra o sistema. Porque não dá pra ficar em silêncio. Até teve uma pastora esses tempos aí, a Raquel Helena, que não é da igreja católica, mas falou que não tem que ficar orando pra marido que bate mulher.
Tem que denunciar aí na delegacia. E ela fala um outro ainda. Ela fala, você criança, olha aqui pra tia. Ela fala como se fosse te falando com uma criança. Se alguém tocar nas suas partes, onde o papai e a mamãe falaram que não pode tocar, você vai ligar no número 100. E vai denunciar. Então quer dizer, não existe isso de silêncio. Se alguém estiver fazendo alguma coisa errada e te pedindo silêncio...
É crime. Vai na polícia. Sim, até o Disque 100, sabe que eu lembro, só pra encerrar, esses dias eu vi um Frade, e aí fizeram uma pergunta assim pra ele. Frade, eu sou coroinha. Só que eu tô gostando do menino que é outro coroinha. O que eu devo fazer? Sabe o que o Frade falou? Pra um adolescente? Ah, eu vou ligar pro Disque 100. Eu vou ligar pro Conselho Tutelar. Onde já se viu você querer gostar de outro coroinha? Aí eu escrevi assim pra ele. Falei, você sabe o que significa o Disque 100? É pra abuso.
serve pra padre abusador? Ou pra isso que você tá fazendo, associando um adolescente que sente atração sexual? Estão se descobrindo, né? Sim, mas associando? Não, é, ele tá associando. Eu achei um absurdo. Eu falei assim, você tem consciência do que é o Disque Sem? Uma coisa que não tem nada a ver, é.
E ele falando assim, eu vou chamar o conselho tutelar. Eu fiquei pensando e falei, gente, tipo assim, mas ele é uma liderança religiosa. Olha a responsabilidade de você usar um meio desse de denúncia. O que você está fazendo? Você está conscientizando e usar de brincadeira para dizer... O que é crime também, né? Usar isso. Isso. E colocar um adolescente que sente atração por outro como se ele fosse um criminoso. E tirar a responsabilidade de adultos que...
Então, eu acho que a sociedade precisa pensar muito sério sobre isso. E é muito importante. Então, o silêncio não. Fala, fala mesmo. Grita. Eu, quando participava da igreja, que eu participei de grupos de jovens, como eu já disse, participei de grupos de jovens, da banda e tudo.
O padre da minha comunidade, ele não era um padre que ficava muito nessa picuinha de saber se um era gay ou não. Só que uma vez uma beata da igreja, uma ministra da igreja, mostrou para ele um texto que eu tinha feito, que era um texto falando a favor da diversidade sexual. E como eu cantava na igreja, o padre, até escrevia esse texto, chamava O Padre Quer Conversar. Ele me chamou para conversar com ele.
E nesse primeiro momento, ele foi um padre muito autoritário, falando, Daniel, é o seguinte, você canta na minha igreja, você faz jornal daqui, você é líder dos jovens, vamos ter que ver isso porque eu vou ter que te afastar. Você está assumindo publicamente que você é homossexual? E aí eu falei, ué?
Mas todo mundo sabe que eu sou homossexual. O senhor sabe? Ele falou, não, eu não sabia. Sabia até agora. Falei, então o senhor como padre está um pouco ausente da comunidade. Eu sou homossexual. Eu não neguei na frente do padre. Eu sou homossexual. Eu nunca deixei... Não vou deixar de ser, não acredito. E não vou deixar de praticar. Isso é importante. Porque é...
Na época eu falei, né? Deus me fez assim. Mas hoje eu acredito que eu sou assim. Mas eu não vou deixar de praticar. E o senhor vai me tirar? E ele falou, não, eu não vou te tirar não. Mas eu quero deixar claro que se você trouxer um namorado aqui. E tiver alguma manifestação de...
namorinho, manifestação de amor com outro cara, seja um beijinho no rosto e tal, eu vou ter que te afastar. E aí o que eu percebi? Que a igreja, ela quer muito viver da aparência, né? Você não pode... Ele entendeu, ele era psicólogo, então ele entendia que ser homossexual, a sexualidade, você não anula isso.
Você pode não praticar, mas você vai sempre ser homossexual. Eu, como homossexual, como entendo como homossexual, se eu casar com uma mulher, eu vou continuar sendo homossexual. Eu posso falar com ela um acordo, falar, não vamos transar, vamos ser amigos, nós vamos casar no papel, só pra sociedade, mas nós não vamos transar, nós não vamos ter relações. Mas isso é completamente fora, isso pra mim é uma aberração. Você negar quem você é, não é?
Isso pra mim é uma aberração, você casar com uma mulher ou casar com um homem e falar assim, olha, eu sou, vou continuar aqui pra sociedade, que se exploda a sociedade. Vai viver o que você é, claro, dentro da lei. Dois homens adultos que estão tendo relação, duas mulheres adultas que estão com consentimento de relação, não tem problema nenhum. E aí eu me lembro que o padre percebeu isso, e ele percebeu que ele não podia avançar pedindo pra que eu não fosse homossexual.
Então é importante a gente entender o que a gente é, ainda mais nesse mês, que é junho, que é o mês do orgulho e tal. Posso fazer uma pergunta um pouco íntima? Pode. Você é heterossexual? Heterossexual. Ah, heterossexual. Então aí é um problema a menos, digamos assim, porque se você fosse bi ou lésbica, já podia ser uma forma de ataque que o pessoal podia usar.
Mas eu nunca tive, sendo freira, eu nunca tive problema com pessoas que eram gays ou lésbicas. Isso nunca foi uma questão pra mim. Uma premissa da igreja nunca te pegou pra falar isso. Bruna, presta atenção. Fala aí pros seus amigos gays que não pode ser gay. Nunca. Nunca tive esse tipo de discurso. Nunca concordei. Dentro do convento, se falasse pra mim, você vai pregar contra isso. Jamais. Eu não conseguia. Eu achava isso um absurdo.
Por isso que às vezes eu me pergunto, mas o que eu fui fazer nesse convento? Porque tudo que estava lá eu não concordava. Quando tinha aquelas pregações sobre falsas doutrinas, metendo o pau na religião dos outros, eu ficava olhando aquilo e ficava assim, meu Deus, quanto tempo perdido criticando os outros. Por que eu não uso esse tempo para falar do amor de Deus? Eu tinha esses pensamentos. Então é uma coisa que eu realmente não compreendo, essa forma de preconceito.
Porque eu acho que existem... Você é você. O que muda na minha vida? Tipo assim, o que vai mudar na minha vida se você gosta de homem e de mulher? O que vai mudar na minha? Mas pra igreja, talvez é aquilo que a gente falou do poder. Porque se você fala pra igreja...
pra religião, eu vou continuar fazendo, eu não acho que isso... Ela não tem mais poder sobre você. Mas foi que você fez culpado, você falou. E aí ele percebeu. Só que numa segunda que ele me chamou, aí eu chamo você pro podcast, mas vou contando minhas histórias. Não, mas é muito interessante porque a gente vai partilhando experiências.
Mas só numa segunda vez que ele me chamou, ele me chamou porque eu tinha postado uma foto figurando uma revista com uma mulher nua. E aí era dia do homem, eu postei pra tirar um sarro. Aí eu postei assim a foto e ele me chamou pela segunda vez. E aí na segunda vez eu falei, Padre, chega. Chega, eu não quero na minha vida ninguém olhando o que eu vou fazer, o que eu não vou fazer. Se o senhor quiser me tirar da pastoral, pode me tirar e tal.
Ele falou, não, Daniel, mas é que você tem que ter postura, postura de cantar na missa. Aí eu peguei e falei assim, o problema não é eu ser homossexual? Aí ele fez... Aí parece que eu senti ele saindo do padre. Aí ele falou, não.
Não é esse o problema. É a postura que você tem que ter mediante o que você faz na igreja. O que você faz lá fora, não me importa. E aí eu vi um padre humano, sabe? Ele faleceu, já é falecido esse padre. Mas aí eu vi um padre humano. E aí ele passou a mudar comigo o jeito de ser. Ele parou de querer pegar no meu pé por essas coisas.
Porque tem muito padre que ele percebe que ele não vai poder agir na sexualidade das pessoas. E aí ele para de... E também, vamos falar, né? A gente tem muito padre que é homossexual. Que ele prega a favor do que a igreja prega. Mas ele sabe lá no íntimo dele...
que ele nunca vai poder contar. E aí acho que é um acordo que ele fez com a espiritualidade, com ele mesmo. E é muito interessante essa sua experiência, porque assim, você é muito maior do que uma pastoral, porque você sabia quem você era, porque você tinha a sua construção da identidade, só que tem gente que não vai ter essa construção e vai se submeter por causa de uma pastoral, porque vai preferir coordenar um jornal. Vai parar, né?
A sua força. Eu nunca parei. Não tinha como, você não tem como ser dominado, não tinha.
Olha tudo que você fez, tudo que você faz, não tem como, tá na sua essência. E você sabe que eu tenho até hoje uma coisa comigo, assim, eu não sou mais católico, mas eu tenho comigo uma coisa como missão, assim, né? Eu digo que se Deus existir, se eu acreditar num Deus, eu acredito que esse Deus fala pra mim, vai e fala pra todo mundo que homossexualidade não é pecado, que não tem nada disso.
Que você tem que se evoluir como ser humano. E que eu não tô nem aí com quem você tá transando. Vai, faz o bem pra galera. Eu tenho isso como uma missão comigo assim. É o que eu penso também. Mas não sou religioso mais. Você também tem isso com você. Total. Você também tem uma... A Bruna ainda tem uma missão, né?
É, mas, tipo assim, eu, pra mim, eu não me importo se a pessoa gosta de homem, de mulher. Na verdade, isso nunca me importei. Porque eu não fui criada, assim, dentro da minha casa, não existia esse tipo de coisa, de conversa. Assim, ai, fulano, não existia, entendeu? Ou, por exemplo, castidade. Minha mãe nunca falou, meu pai, ai, você tem que casar virgem. Então, pra mim, eu nunca me preocupei com questão, por exemplo, de virgindade.
Isso não existe na minha família. Então, pra mim, é muito livre. Eu pensava, assim, na caridade, no amor, entendeu? Independente de qualquer coisa.
A única coisa que eu fui fundamentalista é mais na questão religiosa, quando comecei pra renovação carismática, que eu abandonei as coisas que eu gostava, achando que era pecado. Mas hoje, se você não ferir o outro, se você não matar o outro...
É isso, é respeito. Segue na tua vida, segue na tua missão. Ô Bruna, fica à vontade, sua câmera é essa pra você divulgar suas redes sociais. Se você tem canal no YouTube, TikTok, Instagram, o que você tiver.
Na verdade, eu uso mais o Instagram, né? Bruna Miranda, Underline Arte. Às vezes eu faço live no YouTube, num podcast que eu criei, Pode Se Libertar, mas ainda tô começando porque às vezes eu prefiro ficar em silêncio. Como é o nome do podcast? Pode Se Libertar. Que aí vai vários ex-religiosos, já foi padre, já foi psicólogos, ex-freiras também. Só que aí eu dei uma parada porque eu sou...
Às vezes é difícil por causa do meu tempo de trabalho, das outras coisas que eu me dedico. Mas no Instagram, eu acho que é onde as pessoas vão mais me encontrar mesmo. Bruna Miranda Underline Art. Então, mais ali. No TikTok, eu tenho até, mas eu não faço. Facebook também não. Então, assim, é ali no Instagram mesmo. YouTube também não. Não, YouTube tem esse... Pode se libertar, mas é... Ah, pode se libertar é o canal. É o canal, mas é esporadicamente, não é sempre.
Mas tem lá vários vídeos, quem quiser ver Tem a história da Raik, da Hesed Da Esfreira, tem a irmã Suhaila Suhaila, né? Que é do mesmo convento que eu Que ela também conta a história dela Tem o Brendo, tem o Júlio Tem vários, vários que fizeram comigo ali Contando suas histórias Então é isso, tô seguindo aí a vida Boa, então você que tá em casa Obrigada
Também vai ver uma foto minha e com a Bruna. Vamos tirar uma foto e a gente posta e marca nós dois. Aí o pessoal já passa a te seguir. Isso, tá bom. Obrigada. E eu agradeço pela oportunidade, por tudo. E continua o seu trabalho fazendo tudo isso que é necessário. Você amplia a visão de mundo para as pessoas. Você dá a oportunidade das pessoas.
conhecer. Eu acho que o seu podcast é muito sobre conhecimento. Não é só as histórias, são super legais, mas eu acho que é o conhecimento. Você está ampliando o repertório das pessoas que te assistem. E isso educando também as nossas mentes, as nossas consciências. É muito importante esse tipo de papel na sociedade. Boa. Tenho isso como missão mesmo. É uma missão.
embora não sei pra onde eu vou, se eu vou pro paraíso com patinho, ou se eu vou pro lago de enxofre, mas a minha parte eu vou fazer, né? A minha parte eu vou fazer. Eu também. Eu falo assim, se existiu o inferno dos cristãos, se ele for real, então eu vou ter que ir pro inferno mesmo.
Porque se as minhas ideias me levam pro inferno, então eu falo, pode me jogar lá, porque é o que eu penso. Não tem outro lugar pra mim, entendeu? É isso, não tem. Então, assim, se a condenação é eterna, queimar no enxofre, eu também. Vou nadar nele. Vamos nadar e vamos queimar. E eu gostei do nome do seu podcast. Pode se libertar. Vamos usar essa palavra hoje, Sarah? Acho que é uma boa. Sempre que a gente termina a live, a gente escolhe uma palavra. Ah, legal. Bruna, pro pessoal que chegou até, quanto de live?
3 horas e 22. Então, pra você que chegou até o final dessa live, comenta, pode se libertar. Porque pode, todo mundo pode se libertar. Sim, sim, se libertar. Já que criou o nome, e é isso. Ser livre. Muito que bem. Jaque, obrigado pela sua presença aqui também. Quando eu fizer o Lenda Cast Musical, você vem cantar? Ela pensa assim, ó. Ô, nada, sai fora. Mentira. Tem vergonha? Tem vergonha? Mas você tem vergonha de aparecer ou de...
Mas ela vem, se é vergonha. Vem, vai ser maravilhoso. Uma voz maravilhosa, uma voz divinal. Obrigado, Bruna. Eu que tenho que agradecer. E vamos embora. Vamos junto. Comenta aí. Pode se libertar, para que você possa também se libertar de todas as amarras e de tudo que não te faz bem. E não fica muito silêncio, não, tá? Denuncia mesmo. Denuncia, porque se tiver coisa errada...
É bom denunciar. Vamos lá pra câmera geral. Até o próximo LendaCast. O seu podcast de terror e horror e espiritualidade e pode se libertar para ouvir antes de dormir. Quinta-feira, depois de amanhã, tô de volta aqui com o Rogério Oliveira pra falar de contos juninos.
De terror, beleza? Então pode se libertar. E a Bruna? Essa Bruna artista, essa Bruna que tem vontade de cuidar de crianças em situação de vulnerabilidade, ela existe ainda, essa Bruna? Existe, eu trabalho numa instituição católica.
Tu trabalha no meio de instituição católica? Eu falo, não sei como que o padre não me demite. O padre assistindo lá agora. Bruna, amanhã eu vou fazer uma reunião. Não, eu não sei como. Eu falo assim, gente, eu não sei como que o padre não me demite. Mas é isso. Mas o meu trabalho é de excelência. Você não brigou com a instituição, mas você brigou com as pessoas que fizeram mal pra você. É, isso.
E ele é um padre mais light, assim, e também eu faço um bom trabalho, eu cumpro a minha, exerço a minha função, né? Então, o meu papel ali na instituição é fazer o trabalho com as crianças, e eu me dedico 100% a isso que eu faço, que eu amo fazer. Então, é que eu não posso mostrar isso, porque eu não tenho autorização de imagem, de...
Colocar menor nas minhas redes. Mas, diariamente, minha vida é no metrô, na hora de ir, na hora de ir embora, pegando aquela lotação e indo para a ONG, onde eu trabalho, lá no centro de São Paulo, na região da Cracolândia, com várias situações de vulnerabilidade gravíssimas. Mas eu amo o que eu faço. Amo. Essa Bruna que começou lá com desejo, ela ainda está viva.
E eu realizo esse desejo. Hoje eu faço... Eu falo, eu sou uma pessoa realizada, porque eu realizei meu sonho de cuidar, de trabalhar com as crianças. Agora mesmo, você está falando de junina, a gente está fazendo uma dança maravilhosa de festa junina, que é a dança da fita, e vai ter São Pedro e Santo Antônio no mastro. E estou fazendo com as crianças, entendeu? Porque é cultura também. Então, é isso. Eu consigo separar essa realidade. E estou ali. Ainda bem que o padre não me demite.
Espera só um pouquinho. Oi, padre. Ah, tá bom. Ele falou aqui pra você não esquecer de comentar. Pode se libertar. Tchau, gente. Até quinta-feira. Tchau, Bruna. Tchau, Jaque. Tchau, Sara. Beijo bom. Não, eu ia falar bom final de semana. Que bom final de semana? Boa quarta-feira, quinta-feira. A gente tá de volta. Tchau.