Episódios de Neurociências por Adriano Freitas (UFF)

0327 - Fadiga Decisória

06 de maio de 202615min
0:00 / 15:58

Você já reparou que suas decisões vão ficando piores no correr do dia? Entenda o porquê com Adriano Freitas em mais um episódio do Podcast sobre Neurociências produzido em parceria com a Universidade Federal Fluminense.

Participantes neste episódio1
A

Adriano Freitas

HostPós-graduado em neurociência cognitiva, especialista em neurociência clínica e intervenção em neuropediatria
Assuntos4
  • Fadiga DecisóriaCérebro humano e volume de decisões · Micro decisões e consumo cognitivo · Córtex pré-frontal e autocontrole · Sobrecarga de decisões · Custo energético da tomada de decisão · Atalhos de pensamento e heurísticas · Vieses cognitivos · Decisões judiciais e fadiga · Modo de economia do cérebro
  • Estratégias para Gerenciar Fadiga DecisóriaPlanejamento de decisões importantes pela manhã · Redução do número de escolhas · Automatização de rotinas e hábitos · Evitar decisões críticas no final do dia
  • Evolução e Ambiente ModernoDecisões na evolução humana · Bombardeio de decisões no ambiente moderno · Homem das cavernas vs. ambiente atual
  • Neurociências e o PodcastPodcast sobre Neurociências · Universidade Federal Fluminense
Transcrição43 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

O som da mente vem vibrando No ritmo da ciência vou dançando Descobrindo o universo em mim Pelo caminho da neurociência

Você está ouvindo mais um episódio do podcast sobre neurociências, produzido em parceria com a Universidade Federal Fluminense. Eu sou Adriano Freitas, pós-graduado em neurociência cognitiva, especialista em neurociência clínica e intervenção em neuropediatria. Neste episódio eu falo sobre a fadiga decisória.

Adriano fala e a mente expande Cada palavra um novo horizonte Com cada episódio eu me conecto Quer saber mais sobre os projetos que eu desenvolvo? Acesse o meu site www.adrianofreitas.com E você também pode curtir as redes sociais Neurociência.af TikTok, Instagram, Facebook, Cora

E se você quer colaborar para a continuidade desse projeto, envie os episódios que você gostou, o canal para seus amigos, colegas de trabalho, compartilhe em suas redes sociais. Esse compartilhamento e audiência garantem a continuidade do projeto. E se você quer colaborar com dicas, dúvidas, elogios, sugestões, você pode escrever para a gente, código 22992221003. Mande um WhatsApp, uma mensagem. Vai ser muito bem-vinda.

Sons e palavras em harmonia Trazendo luz à neurologia A cada podcast uma viagem Constelação de sinapses Numa só imagem

Você já percebeu que de manhã você consegue decidir melhor? Mas que à noite parece que tudo desanda, né? Você até começa o dia mais organizado, produtivo, mas aí o dia vai avançando, você vai comendo pior, vai procrastinando mais, vai tomando decisões mais impulsivas. E a explicação mais comum das pessoas é, ah, é falta de disciplina, né? Porque ele não consegue manter aquela disciplina o dia inteiro.

Mas a neurociência fala outra coisa sobre isso. O problema pode ser simplesmente um cansaço mental, uma fadiga. E é justamente sobre isso que eu vou falar hoje, sobre a fadiga decisória, que é como seu cérebro perde a capacidade de escolher bem ao longo do dia. Ele começa com uma certa capacidade e vai perdendo ela até chegar à noite. O cérebro humano não foi feito para esse volume de decisões que a gente tem que tomar hoje.

Ao longo da evolução, a maior parte das decisões era muito simples, né? Era comer, não comer, fugir, não fugir, confiar em alguém, não confiar em alguém. Mas hoje nós não temos somente essas decisões, né? Hoje você defende...

Está o tempo todo decidindo se vai ou não responder uma mensagem, se vai ou não ignorar uma mensagem, o que comer, o que assistir, o que comprar, o que priorizar. Então, é um bombardeio de processos decisórios o dia inteiro que muita gente não se dá conta, acha que não, decisão mesmo tem poucas importantes. Não, mas até as pequenas decisões, que são aquelas que vem à mente quando uma notificação do celular aparece,

São decisões que consomem nossa capacidade cognitiva e cansam sim a nossa mente. Cada decisão, mesmo aquelas chamadas micro decisões, que é justamente isso que eu citei, né? Chegou uma notificação no celular, tá, o que eu faço? Eu leio agora, leio depois, espero acabar a reunião, respondo a pessoa, não respondo a pessoa, faço alguma outra coisa.

Isso, por mais que não seja uma decisão que a gente conscientemente classifique como uma decisão importante, mas são micro decisões que sim consomem a nossa capacidade cognitiva e consomem sim energia do nosso cérebro. E essa energia que consome, ela não é abstrata.

ela depende de sistemas específicos do cérebro, principalmente do córtex pré-frontal. Então, não é uma coisa assim, ah, tá, consome alguma coisa, aquela coisa assim que não é muito mensurável, aquela coisa quase que fantasiosa de que está consumindo. Não, ela de fato faz o nosso cérebro desviar a atenção, mesmo que por microsegundos.

para poder tomar aquela decisão. E envolve várias áreas do cérebro, vários processamentos, até que a gente tenha a simples decisão de ignorar a mensagem. E aí, como eu falei, eu já expliquei isso aqui várias vezes, né?

principalmente o córtex pré-frontal, que é uma área que concentra tudo isso, está envolvida, que ela é responsável pelo nosso autocontrole, pelo nosso planejamento, o que a gente vai fazer, a gente vai aguardar, não vai aguardar, vai ignorar, vai responder. Então esse planejamento do que a gente vai fazer é tarefa dele.

Então, assim, avaliar também a consequência, se eu respondo agora o que acontece, se eu não respondo o que acontece. Então, tudo isso está focado numa área. As decisões racionais são controladas por essa área. Então, a gente acaba tendo uma sobrecarga de decisões no dia inteiro, de grandes decisões a micro decisões diárias, todas envolvendo uma área principal do cérebro ali.

Então ela acaba sendo, sim, sobrecarregada e acaba tendo uma fadiga, um cansaço por esse trabalho. Até porque a tomada de decisão envolve áreas e segmentos do cérebro que consomem muita energia. Então as tomadas de decisão são caras do ponto de vista energético.

E essa energia é limitada, não tem como o cérebro ter uma energia ao infinito. Ela tem o seu limite energético, aridiário e tal. E aí, uma coisa importante da gente entender é o seguinte, conforme o dia vai passando, esse sistema de tomadas de decisão vai se desgastando, ele vai cansando, ele vai perdendo energia.

E quando isso acontece, o cérebro não para, ele não desliga, ele não fala, não vou mais decidir nada. Isso não acontece, ele continua tendo que tomar decisões o dia inteiro, até a hora que a gente dorme. Porque se ele parasse de tomar decisões, a gente não faria nem tomadas de decisões cotidianas, se escovar o dente, se alimentar, então isso não acontece, ele vai continuar tendo que tomar decisões.

Mas então o que acontece quando ele se desgasta? Ele começa a mudar a forma como ele decide. Então decisões que eram tomadas de uma certa maneira com um certo gasto energético, ele tenta simplificar isso para que tenha menos gasto energético e menos desgaste. E aí o cérebro começa a usar atalhos. Atalhos de pensamento, atalhos...

para tomada de decisão. Aí eu recomendo fortemente que quem ainda não ouviu retorne lá de novo. Eu sempre falo isso aqui naqueles episódios onde eu converso com Antônio Matheus de Sá sobre vieses cognitivos e heurísticas, porque aquilo...

são atalhos decisórios também. Então, além de vários outros mecanismos de atalho, as heurísticas, os vieses cognitivos, eles acabam ficando mais ressaltados, porque são formas de pensar com menos energia.

um pensamento pré-moldado. Então, quem quiser entender essas heurísticas, essas tomadas de decisões através de viéses cognitivos, voltem lá nos episódios onde eu falo sobre viéses cognitivos e escutem a série, que aí vocês vão ter o maior entendimento também.

Mas o importante é a gente entender isso, sabe? A partir do momento que a gente começa a cansar essas áreas do cérebro, você passa a escolher o que é mais fácil, o que é mais rápido, o que é mais imediato. É por isso que você come pior à noite, você gasta mais impulsivamente, você procrastina mais, você perde paciência mais rápido. Existe até um padrão...

que é observado em decisões judiciais, que é o seguinte, os juízes tendem a dar decisões mais favoráveis no início do dia e vão ficando mais rígidos e automáticos conforme o tempo passa. É uma coisa intencional? Nem sempre. Em geral, justamente por esse desgaste de ter que estar o tempo todo tomando decisões que são importantes.

E isso consome muita energia e isso realmente gera um desgaste mental grande. Ou seja, não é só você, é o cérebro humano funcionando. Não é a sua personalidade, é a nossa máquina em ação. Então, o que acontece, na verdade, é o cérebro entrar no modo de economia.

Ele tenta preservar a energia, se preservar para evitar um desgaste maior. Ele troca decisões complexas por padrões automáticos. Ele começa a tomar decisões que repetem coisas que ele já fez antes, evita escolhas difíceis. Então, tudo que é aquelas decisões que parecem muito difíceis, ele fica querendo procrastinar e buscar uma recompensa imediata. Ele precisa de energia imediata.

E isso é adaptativo. Isso não é um problema de vontade ou de querer se organizar. Isso é adaptativo, é um problema do ambiente moderno. Que há um tempo atrás da evolução do homem não existia com essa intensidade. No homem das cavernas não tinha celular apitando toda hora com mensagem que ele tinha que tomar decisão. Há um tempo atrás o homem tinha que caçar, comer.

E é isso, né? Lutar, brigar, fugir e acabou. Eram as decisões que ele tinha que tomar no cotidiano dele. E agora não, são uma enxurrada de decisões. Então ele começa pela manhã tomando as melhores decisões, vai se exaurindo e vai começando a entrar nesse modo de economia, nesse modo automático. E aí começa a fazer besteira do meio do dia para frente. É mais ou menos essa a ideia. As pessoas podem estar perguntando assim, mas então o que faz? Então só trabalha metade do dia?

Então a primeira coisa é entender que não é sobre ter mais força de vontade ou ter menos força de vontade. Não é ter algo tentando fazer exercícios e tal como se isso fosse um mero querer ou um mero desejo ou uma falta de vontade, uma procrastinação pura. É sobre você saber como usar da melhor forma os recursos que você tem.

Você conseguir distribuir esses recursos ao longo do dia ou usar nos horários melhores, ao invés de tentar usar mais recursos do que você tem. E aí existem algumas estratégias. Você se planejar para que as suas decisões mais importantes e mais relevantes, que você considera mais fundamentais, sejam sempre tomadas na parte da manhã.

concentrar esse tipo de decisão na parte da manhã. Então, no meio corporativo, por exemplo, se você tem decisões que vão afetar a vida das outras pessoas, a vida da empresa, ou o que for, ou a sua vida, você puxar essas decisões para amanhã. Se está chegando no fim do dia e você puder adiar elas para o dia seguinte, pela manhã, melhor, porque as decisões vão pegar o cérebro no seu pico energético.

Outra coisa, reduzir o número de escolhas. Então se você tem que estar o tempo todo escolhendo, o tempo todo decidindo, isso automaticamente vai entrar naquele declínio de desgaste de energia que eu já falei. Então qual é a ideia? O que você puder fazer de forma rotineira...

vai te ajudar nisso, porque vai tornar o cérebro mais automático nessas atividades. Então, se é uma decisão ou se é uma...

pequenas escolhas que você tem que fazer todo santo dia, ou que não seja todo dia, mas com muita frequência, que você tente sempre tornar uma rotina, buscar fazer no mesmo horário, da mesma forma, do mesmo jeito e no mesmo lugar. Porque aí o teu cérebro vai começar a automatizar isso tudo e tirar...

do teu córtex pré-frontal, essas tarefas de desgaste energético. E aí você consegue economizar energia que seriam para outras atividades.

Uma outra coisa interessante é você automatizar hábitos bons. Então, principalmente aqueles hábitos que fazem alguma coisa que seja boa para a sua rotina ou para a sua vida, tenta automatizar eles também, de forma que você não corra o risco de tomar decisões ruins nesses momentos que seriam bons.

Evite deixar as decisões críticas para o final do dia, que é basicamente, acaba sendo a mesma coisa do que você deixar as importantes para o início do dia. Então todas aquelas decisões que podem causar danos, se forem feitas de forma equivocada, você evita tomar elas do meio do dia para frente.

porque a chance de você já estar entrando em heurísticas e viés cognitivos, em procedimentos automatizados, no modo economia, já é grande. Então você corre o risco de tomar decisões muito erradas. Então tente concentrar essas decisões mais críticas no início do dia, que é quando ele ainda não está no modo de economia.

E aí a moral disso tudo é que, no fim das contas, o problema talvez não seja a falta de disciplina. Talvez seja você só tentando decidir coisas importantes quando o seu cérebro já está cansado demais para decidir. Adriano Freitas no comando Descobrindo os segredos é o...

Neurônios dançam em sinfonia As sinapses brilham por a energia Cada ideia é um clarão no escuro No podcast da mente sem música

Você ouviu mais um episódio do podcast sobre neurociências, produzido em parceria com a Universidade Federal Fluminense. Eu sou o Adriano Freitas, pós-graduado em Neurociência Cognitiva, especialista em Neurociência Clínica, Intervenção e Neuropediatria. Neste episódio eu falei sobre a fadiga decisória.

Quer colaborar? Envie esse episódio e o canal para os seus amigos. Compartilhe em suas redes sociais. Essa audiência garante muita continuidade do projeto. Nos ajuda bastante. E eu aguardo vocês aqui no próximo episódio. Até lá. No ritmo da ciência vou dançando Descobrindo o universo

Neurociência, enfim

0327 - Fadiga Decisória | Castnews Index — Castnews Index