#07. reino unido se preparando pra guerra?
na nossa sétima fofoca geopolítica temos o governo britânico reescrevendo um manual secreto de crise da guerra fria e lançou uma campanha pedindo que as pessoas tenham água engarrafada, comida enlatada, lanterna e rádio em casa. essa parte é verdade. o que a internet fez com ela é outra história.
tem também a união europeia convidando o canadá a virar o primeiro "membro associado" da história do bloco, num status que não existe em lugar nenhum da lei europeia e que ninguém ainda definiu.
tem a guerra do irã chegando aos sete meses com as duas principais rotas de energia do planeta pressionadas ao mesmo tempo, um relatório da ONU que encontrou fundamento para acusar tanto os estados unidos quanto o irã no mesmo documento, e a assembleia geral da ONU em que os estados unidos aprovaram visto para uma delegação e negaram para outra.
e nesse episódio isso importa mais que o normal, porque quase tudo aqui depende de quem disse, em qual documento, e com que valor.
temos episódios novos toda segunda e quinta, e você me acha em todas as redes:
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- Reino Unido reescreve manual de crise e orienta população para emergênciasWar Book e sua origem·atualização dos planos de guerra·campanha pública de preparação·kit de emergência recomendado
- Guerra Irã-EUA e negociações para o fim do conflitodeclarações contraditórias de Trump·condições iranianas para negociações·ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz
- Rússia acusa Reino Unido de escalada do conflito na Ucrâniaconvocação da diplomata britânica·fornecimento de armas à Ucrânia·ameaça a instalações militares britânicas
- União Europeia convida Canadá para status de membro associadoproposta de Ursula von der Leyen·status inexistente na lei europeia·aproximação durante disputa comercial·apoio de Emmanuel Macron
- Relatório da ONU acusa EUA e Irã de crimes de guerraataques dos EUA em Minab e Lahmerd·repressão iraniana a protestos·rejeição das conclusões pelos governos
- Ataques Houthis no Iêmen e impacto nas rotas de petróleoataques a Riad e instalações da Aramco·localização estratégica de Ormuz·localização estratégica de Bab-el-Mandeb
- Vistos negados e concedidos na Assembleia Geral da ONUdelegação palestina barrada·status de Estado Observador da Palestina·votação para discurso de Abbas por vídeo·vistos concedidos à delegação iraniana
O governo do Reino Unido tá reescrevendo agora um manual secreto de crise. E no site oficial de emergência, ele orienta a população a ter em casa água engarrafada, comida enlatada, lanterna e rádio. A gente vê essas duas coisas juntas e pensa, gente, eles sabem de alguma coisa que a gente não sabe? E eu entendo a lógica. Até porque o War Book, né, que é esse manual que eles estão reescrevendo significa literalmente livro de guerra.
Nome super discreto pra tranquilizar todo mundo, né? Só que antes de você sair correndo pro mercado, calma que eu vou te explicar isso tudo. Porque tem uma história por trás do manual, outra completamente diferente por trás da lista de compras, e as duas se encontraram essa semana. Hoje a gente sai de Londres, passa pela França, entra no Oriente Médio e termina em Nova York. Pega sua água, seu café e vem comigo. Você tá ouvindo o Gabinete da Fofoca Geopolítica.
Eu sou a Gabi Pôncio e aqui eu conto história de gente e de países. Essa é a nossa sétima fofoca e o combinado é o de sempre: quando a informação vier de um governo ou de uma das partes de uma guerra, eu te conto de quem que é a versão. Vambora? Vamos começar por Londres. Imagina que falta energia numa parte do país, as comunicações ficam comprometidas e vários serviços simplesmente param ao mesmo tempo. Quem que vai tomar as decisões?
O que que cada ministério vai fazer? Como que o governo continua funcionando? Os britânicos têm uma tradição de colocar esse planejamento nos chamados war books. O nome significa livros de guerra e a origem é anterior à Primeira Guerra Mundial. Eles organizavam o que cada departamento tinha que fazer na passagem da paz para a guerra. Foram usados também durante a Guerra Fria e perderam espaço depois dela. O governo tá atualizando esses planos.
A ministra das Forças Armadas, Luiza Sander Jones, confirmou no parlamento o compromisso de reescrevê-los até o final de 2026. O planejamento é sigiloso. O que veio a público foi a atualização e o prazo, não o conteúdo completo dos documentos. E onde entra a história de guardar comida? Essa orientação, gente, tá numa campanha pública de preparação para emergências. A campanha já existia em 2024. O site recomenda água, comida que não precise de cozimento, medicamentos, primeiros socorros, lanterna, carregador portátil e rádio a pilha ou de corda.
Rádio, gente, apesar de parecer que a gente tá voltando para os anos 50, Se faltar energia e a internet cair, ele pode continuar recebendo notícias pelas transmissões das emissoras. Não precisa de Wi-Fi nem de sinal de celular, porque o nosso celular nessas ocasiões vira basicamente peso de papel. Também tem uma orientação que aparece menos nas manchetes, que é montar o kit aos poucos, conforme for possível. Não é uma instrução para correr para o supermercado e comprar absolutamente tudo de uma vez.
O próprio site fala de situações como falta de água, apagão, tempestade e necessidade de sair de casa por segurança. Então assim, quando a gente tá escutando, né, que o Reino Unido tá orientando a população a guardar mantimentos, essa orientação existe sim. Mas o que ela sozinha não informa é que um ataque esteja prestes a acontecer. Na sexta-feira, agora dia 18 de setembro, veio uma notícia diferente. Essa foi diretamente ligada à guerra.
A Rússia convocou a representante britânica em Moscou para reclamar do fornecimento de armas à Ucrânia. Foi aquele chamado formal ao Ministério das Relações Exteriores. O governo chama diplomata, registra o protesto e transmite o recado. Basicamente um xingo diplomático. Moscou acusou Londres de contribuir para a escalada do conflito e afirmou que considera instalações militares britânicas em território ucraniano alvos legítimos.
Essa expressão é da Rússia e a localização importa. A ameaça citada se refere a instalações na Ucrânia e o Reino Unido, né, manteve o apoio militar a Kiev. Essas são notícias, né, que chegaram juntas ao público, mas elas têm histórias diferentes. A orientação doméstica já existia. A atualização do War Book já estava em andamento e a convocação da diplomata aconteceu na sexta. Não existe nessas informações confirmação de que a lista de emergência tenha sido publicada em resposta à ameaça russa.
Então, gente, isoladamente cada notícia é verdadeira. O que não é tão verdadeiro assim é a soma de todas juntas. Então vamos ficar assim: o governo tá se preparando de verdade e isso é público. E o mesmo governo garante que a Rússia não vai invadir semana que vem. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, por isso que a história deu pano pra manga do jeito que deu. E no mesmo dia que isso tava acontecendo na Inglaterra, aconteceu outra coisa do outro lado do Canal da Mancha.
Quarta-feira, 16 de setembro, Parlamento Europeu em Estrasburgo. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, faz o discurso anual do Estado da União. E na plateia tá sentado o Mark Carney, o primeiro-ministro do Canadá. E aí ela solta basicamente a seguinte frase: gostaria de trabalhar com você para abrir a porta para o Canadá se tornar o primeiro membro associado da União Europeia. Só que, gente, esse cargo não existe, não tem precedente, não tem formato definido, e nenhum dos dois lados explicou ainda o que que isso significa, significaria na prática.
Ela convidou um país para ocupar uma cadeira que vai precisar ser inventada primeiro. É tipo aquela relação que vira pública antes de ter nome. Alguém posta o outro no story, todo mundo comenta, e só depois vem a conversa séria sobre o que que é aquilo de verdade. Agora uma pergunta, né? Por que que o Canadá não pode ser membro comum? Porque para entrar na União Europeia você precisa ser um estado europeu, tá nos tratados. E o Canadá, por mais que a União Europeia goste dele, fica na América do Norte.
Agora, o que já existe no direito europeu são acordos de associação, e isso o tratado prevê. Mas o caminho é muito longo. O Conselho da União Europeia precisa autorizar o começo das negociações, a conclusão exige unanimidade entre os países, e ainda tem que passar pelo Parlamento Europeu. Ou seja, o convite foi feito, Mas o Canadá não entrou na União Europeia, não foi assinado nada ainda, tem muita gente que ainda precisa concordar.
Aí vocês me perguntam, por que agora? Essa aproximação, gente, acontece durante a disputa comercial entre Canadá e Estados Unidos. Eu contei sobre as tarifas e o Lago América no episódio 2, você pode ir lá escutar se ainda não ouviu. Teve até um antecedente, tá? Em junho, o presidente da Finlândia, soltou a seguinte frase: não seria adorável se o Canadá fosse o 28º estado da União Europeia em vez do 51º estado dos Estados Unidos?
O Korni disse que recebia bem a ideia, mas avisou que quem decide a estrutura final é o parlamento canadense. A próxima parada concreta é a cúpula União Europeia-Canadá em Montreal, no final de outubro, que a gente provavelmente vai ter mais informação sobre isso. E teve uma atualização hoje domingo que eu tô gravando para vocês. O Emmanuel Macron manifestou apoio à ideia de associação durante um encontro com o Korn em Saint-Pierre e Miquelon, um território francês perto do Canadá.
Os dois também anunciaram cooperação em áreas como energia, defesa e tecnologia. Isso é mais um apoio político à proposta, né, mas o formato da associação continua em discussão. Agora, do outro lado do mundo, a conversa tá um pouco mais difícil. No Oriente Médio, gente, a semana teve novas declarações sobre como encerrar uma guerra que já passou dos 200 dias. Ela começou, né, em 28 de fevereiro, com ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel ao Irã.
Na quarta-feira agora, dia 16 de setembro, o Trump disse esperar que o conflito estivesse perto do fim e afirmou que os iranianos queriam um acordo. Só que no dia seguinte ele disse ao Axios que ele tava avaliando retomar ataques maciços contra o regime iraniano. São dias diferentes, a mesma pessoa em público. Numa noite falou em acordo, no dia seguinte falou em aniquilação. E do lado iraniano, o Mohsen Rezaei, chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional, disse que o país tinha encaminhado condições para retomar as negociações.
Entre elas tinha encerramento dos combates em todas as frentes, liberação dos recursos iranianos congelados e suspensão do bloqueio naval americano. A gente já viu essas propostas sendo colocadas na mesa pelo Irã antes. De acordo com ele, né, gente, isso foi transmitido a Washington por mediadores, que no caso é o Catar e o Paquistão, e o Irã tá esperando a resposta. O presidente do parlamento iraniano, o Mohammad Bagher Ghalibaf, amarrou tudo no estreito.
Ele disse que o Ormuz não vai reabrir enquanto as condições não forem atendidas. Agora vocês vão me perguntar, Gabriela, por que que o petróleo aparece tanto nessas conversas, né, que a gente tem? Vamos localizar duas passagens, tá? Mesmo sem mapa você vai conseguir acompanhar. A primeira é Ormuz, que fica entre o Irã e o Omã. É a saída do Golfo Pérsico para o Golfo do Omã e depois para o Oceano Índico. Um navio que sai de vários dos portos petrolíferos do Golfo precisa passar por lá para alcançar o deserto.
A segunda é Bab-el-Mandeb, entre o Iêmen e a costa africana. Ela fica na entrada sul do Mar Vermelho. Mais ao norte tá o Canal de Suez, que dá acesso ao Mar Mediterrâneo. São passagens diferentes. Uma liga o Golfo Pérsico ao oceano e a outra dá acesso ao caminho marítimo que leva a Suez. E é no Iêmen que atuam os Houthis, o movimento armado apoiado pelo Irã que eu trouxe para vocês no episódio passado. Pois bem, gente, no sábado, dia 19 de setembro, os Houthis disseram ter atacado alvos em Riad, a capital da Arábia Saudita, e instalações da petrolífera Aramco em Inabu, na costa do Mar Vermelho.
O grupo afirmou ter usado mísseis e drones. As autoridades sauditas falaram que interceptaram sim um míssil lançado contra Riad, mas a lista de alvos apresentada pelos Houthis, né, é uma reivindicação do grupo. Ela não confirma por si só quais instalações foram atingidas nem o tamanho dos danos, até porque a gente não teve mais informações das autoridades sauditas. Então assim, a gente tá no seguinte, da seguinte forma, né, uma parte fala que atacou, a outra descreve a própria resposta.
E naquela mesma noite, o Departamento de Estado americano pediu que americanos reconsiderassem seriamente viajar pra região. Pois bem, gente, nessa mesma semana, uma missão de investigação da ONU divulgou conclusões sobre ataques no Irã e sobre a repressão do governo iraniano a manifestações dentro do país. Vou te explicar o que essa missão faz, porque a palavra ONU pode dar a impressão de que houve algum tipo de julgamento ou qualquer coisa do tipo.
Mas não, gente, essa missão basicamente reúne e analisa evidências. Ela não é um tribunal e ela também não condena ninguém. O material pode sim ser usado em futuras investigações e processos, mas é basicamente uma análise ali, uma apuração, né, se existem fundamentos razoáveis pra crer que alguma coisa aconteceu. São duas conclusões em direções opostas. Sobre os Estados Unidos, os investigadores disseram ter encontrado fundamentos razoáveis pra atribuir a eles ataques contra uma escola em Minab e uma instalação esportiva em Lahmerd no primeiro dia de guerra.
A missão concluiu que os ataques constituíram crimes de guerra. Em relação ao ataque, né, na escola primária em Minab, segundo as autoridades iranianas, mais de 150 pessoas morreram ali, sendo 120 delas crianças. O segundo, né, em Lahmerd, num centro cultural esportivo, morreram 22 civis incluindo 4 crianças. E tem uma camada extra aqui: em março, o comando militar americano disse publicamente que não tinha atacado Lamed naquele dia, mas a missão da ONU concluiu o contrário.
Sobre as autoridades iranianas, a conclusão foi de crimes contra a humanidade na repressão aos protestos iniciados no fim de dezembro. E essa parte não é sobre a ação militar contra os americanos, é sobre a violência do próprio Estado iraniano contra civis iranianos. A Casa Branca rejeitou as conclusões sobre os Estados Unidos e o Irã rejeita de forma geral as alegações de violações sistemáticas. Essas são as conclusões dos investigadores e as posições dos governos, né?
O relatório, ele não equivale a uma sentença judicial. Continuando em ONU, a semana de Assembleia Geral da ONU também começou com decisões sobre quem poderá viajar para Nova York. Antes, um adendo: a Assembleia Geral da ONU tem uma particularidade. A reunião é internacional, mas a sede fica nos Estados Unidos. Então participar depende de uma autorização de entrada emitida pelo governo americano. Na quarta-feira, o Departamento de Estado negou vistos a uma delegação de alto nível da Autoridade Palestina, incluindo o presidente Mahmoud Abbas.
E é o segundo ano seguido que a Autoridade Palestina é barrada de participar. A justificativa oficial de Washington citou o descumprimento de compromissos pela liderança palestina. Entre as razões apresentadas estão ações contra Israel em tribunais internacionais e pagamentos a familiares de pessoas condenadas por ataques contra israelenses. Essa é a justificativa americana. A Autoridade Palestina contestou a decisão afirmando que ela prejudica as relações com os Estados Unidos e os esforços por uma solução de dois estados.
E aí vocês vão me perguntar, né, como que a Palestina participa da ONU? Gente, desde 2012 ela tem o status de Estado Observador Não Membro. Isso permite participar de trabalhos da organização, mas não dá todos os direitos de um membro pleno, como por exemplo votar na Assembleia Geral. Então é esse o termo pra Palestina, Estado Observador. Depois que o Abbas, né, e a comissão foi barrada, a Assembleia Geral fez uma coisa. Na quinta-feira, os países votaram para permitir que o Abbas discurse por vídeo.
Foram 152 votos a favor e 3 contra, incluindo Estados Unidos, Israel e Paraguai, e tivemos 4 abstenções. A autorização também abrange a participação remota de outras autoridades palestinas nas condições previstas pela resolução, caso elas sejam impedidas de entrar nos Estados Unidos. Mas, gente, o presidente iraniano, o Pezeshkian, e o chanceler Abbas Araghchi, receberam vistos para participar da assembleia. A delegação do Irã vai ter restrição de deslocamento e de gastos durante a visita.
Os vistos permitem a viagem para o encontro. A guerra e as negociações entre os governos continuam sendo tratadas de forma separada. Hoje a gente começou com uma lista de emergência britânica e terminou com autorização para entrar numa reunião internacional. No caminho teve um convite europeu que ainda precisa ganhar forma, condições para negociar. O fim de uma guerra e um relatório que acusa dois lados no mesmo documento. E juntos os casos, presta atenção: o War Book tá sendo reescrito e ninguém vai ler o que que tem dentro.
As condições iranianas foram entregues e a gente só conhece a versão de quem entregou. O relatório da ONU acusa dois lados e cada um vai usar só a metade que interessa. Por isso eu insisto tanto em te dizer de onde vem cada informação. Quem conta muda o que sobra da história. Me conta qual dessas histórias você quer acompanhar mais de perto. E se você gostou do programa, segue o Gabinete da Fofoca Geopolítica, deixe seu comentário e a sua avaliação na plataforma que você tá escutando.
Isso faz muita diferença para mim. A gente se encontra na próxima fofoca e um beijo para todo mundo.