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Jesus Movement Ep.11 | Apatia Ativa e o Silêncio da Criação

14 de agosto de 202612min
0:00 / 12:46

Um ponto cego revelado: como a expectativa do Armagedom gerou desprezo pela ecologia. Analisamos o embate histórico entre James Dobson e Richard Cizik sobre o aquecimento global, onde salvar o planeta era visto como interferir no plano divino de destruição final. Entenda por que a teologia da "descartabilidade do mundo" silenciou a voz profética da igreja no cuidado com o meio ambiente. Fontes Históricas: Shawn David Young (Apocalyptic Music); Artigos da revista "Eternity"; James Dobson Archive.

Assuntos4
  • Apatia Ativa e Determinismo Religioso· ReligiaoApatia social·Determinismo religioso·Ação por negação·Teologia da descartabilidade
  • Jesus Movement e Teologia do Fim· ReligiaoJesus Movement·Teologia do arrebatamento·Contracultura hippie·Música cristã contemporânea·Hal Lindsey
  • Embate Ecológico Dobson Cizik· SociedadeAquecimento global·James Dobson·Richard Cizik·Cuidado com a criação
  • Vozes Dissidentes e Ação Social· SociedadeEsquerda evangélica·Jesus People USA·Resurrection Band·Cornerstone Music Festival·Jars of Clay·Sixpence None the Richer
Transcrição85 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Bem-vindo ao Na Mesa com o UOL, o podcast para quem ama bons livros, a história real da igreja contemporânea, documentários que expõem a verdade e teologia com profundidade e clareza. E este é o dossiê Jesus Movement, o avivamento hippie.

?Voz B

É isso aí.

?Voz A

Bom, no nosso dossiê de hoje, a gente vai adentrar com aquela visão de quem ama e vive a igreja, né, e que adora história e documentários, num capítulo bem tenso, muito tenso.

?Voz B

Capítulo sobre a apatia ativa e o silêncio da criação.

?Voz A

E exatamente, a gente tem como base o artigo acadêmico do Chong David Young sobre música apocalíptica e influência cristã na contracultura. E a nossa missão hoje é investigar sobre um crivo histórico, teológico e ambiental bem rigoroso como a teologia do arrebatamento gerou um desprezo prático pelas causas ecológicas.

?Voz B

Sim, e pela responsabilidade com o mundo criado, né? Aquela obsessão toda pelo fim do mundo por parte dos convertidos da contracultura, os chamados Jesus Freaks.

?Voz A

Isso. Mas olha, antes da gente mergulhar de cabeça, é bom deixar algo muito claro para quem nos ouve. Com certeza não vai rolar nenhuma tomada de posição política aqui, tá? Nada de direita religiosa contra esquerda evangélica.

?Voz B

Exato. A nossa pegada é ser uma reportagem imparcial. A gente só quer entender como essas crenças teológicas moldaram o comportamento social e político daquelas comunidades, sempre baseados nos documentos que a gente tem em mãos.

?Voz A

Perfeito. Então, para entender esse tal silêncio diante da criação, a gente precisa primeiro entender para onde esses jovens estavam olhando. E já dou um spoiler: não era para a Terra.

?Voz B

Nem um pouco. Eles estavam olhando para o céu o tempo todo.

?Voz A

Ok, vamos desvendar isso. Imagina a Califórnia no final dos anos 60 e início dos anos 70.

?Voz B

Ah, o berço do movimento hippie.

?Voz A

Pois é, aí surgiu o Jesus Movement, que basicamente pegou toda aquela estética hippie de Woodstock e misturou num liquidificador com uma teologia cristã super conservadora.

?Voz B

O que é fascinante aqui é esse paradoxo, sabe? Uma estética de rebeldia absoluta embalando uma das mensagens mais conservadoras que você pode imaginar. E quem deu uma escala absurda para isso foi o reverendo Billy Graham.

?Voz A

Ele validou a coisa toda, né?

?Voz B

Sim, ele serviu de ponte para a cultura dominante. Ele olhou para essa juventude meio marginalizada e deu um selo de aprovação. E aí a revista Time até chamou a música de meio especial do Jesus Movement.

?Voz A

Nossa, e a música foi fundamental. Foi aí que nasceu a música cristã contemporânea. Começou com folk rock e depois evoluiu até para heavy metal, tipo a banda Stryper.

?Voz B

Ah, o Stryper, clássico!

?Voz A

É quase como um cavalo de Troia, sabe? Porque eles usavam o vernáculo da rebeldia cultural, as guitarras distorcidas, as jaquetas de couro, para infiltrar uma teologia de fim de mundo direto no coração da juventude da época.

?Voz B

Uma estratégia e tanto. E as letras eram fortemente influenciadas por essa política do fim.

?Voz A

Totalmente. E o fascínio pelo apocalipse não veio do nada. Teve um empurrãozinho gigante de um livro, o The Late Great Planet Earth, do Hal Lindsey.

?Voz B

Esse livro foi um fenômeno, um manual de sobrevivência praticamente. E a música ajudou a fixar isso. O Larry Norman, por exemplo, fez aquela música I Wish We'd All Been Ready.

?Voz A

Ah, eu conheço essa. É bem gráfica, né?

?Voz B

Muito.

?Voz A

A expectativa iminente do arrebatamento ficou cravada na mente dele. Deles. Mas o paradoxo continua, porque esses jovens se rebelaram contra a igreja institucional, mas abraçaram uma visão literalista bíblica, um premilenianismo dispensacionalista bem engessado.

?Voz B

Exatamente, onde qualquer evento no Oriente Médio era visto como um relógio de contagem regressiva para o juízo final.

?Voz A

Caramba! E uma vez que essa contagem regressiva começou na mente daquela galera, A forma como eles interagiam com os problemas terrenos mudou drasticamente, o que nos leva ao nosso glossário teológico de hoje.

?Voz B

Vamos a ele.

?Voz A

Primeiro termo: apatia social. O que o material nos diz sobre isso?

?Voz B

Bom, a apatia social ali era uma inércia e um desinteresse generalizado perante problemas comunitários, sabe? Crises humanitárias e tal.

?Voz A

Uma cegueira deliberada.

?Voz B

Sim, alimentada pela crença de que a realidade terrena é tipo descartável. Para que arrumar a casa se ela vai ser demolida amanhã?

?Voz A

Entendi. E isso se conecta com o segundo termo, que é o determinismo religioso.

?Voz B

Isso mesmo. É uma distorção teológica. Reduz a complexidade da história a uma passividade total. A ideia de que qualquer tentativa de alterar os problemas mundiais seria interferir num decreto divino imutável.

?Voz A

Ou seja, se Deus falou que vai ter guerra e fome, tentar resolver a fome é ir contra Deus.

?Voz B

Na cabeça dele, sim. E isso gera o que a gente chama de ação por negação.

?Voz A

Ação por negação. Explica melhor como isso funciona na prática.

?Voz B

É um conceito sociológico muito irônico. A expectativa milenarista produziu essa apatia ativa. Não era só preguiça de se envolver, era um ato de recusa absoluta. Eles focavam inteiramente na fuga iminente, no arrebatamento.

?Voz A

Mas espera aí, eu fico muito curiosa e até um pouco chocada com isso. Se a mensagem original de salvação lá nos evangelhos sempre andou de mãos dadas com o alívio do sofrimento material das pessoas, curar doentes, alimentar os pobres, ignorar a dor material porque o mundo já vai acabar, não seria uma falha enorme no próprio sistema de crenças deles?

?Voz B

É uma ótima pergunta. E a resposta que a gente encontra nos documentos é que para essa ala dominante, os encontros espirituais pessoais e os valores morais simplesmente superaram a justiça social.

?Voz A

Eles inverteram as prioridades?

?Voz B

Totalmente. Tentar consertar a pobreza ou a guerra era visto como colocar um Band-Aid numa ferida que só o plano cósmico divino poderia curar.

?Voz A

Nossa.

?Voz B

Para eles, tentar arrumar o planeta era quase uma falta de fé de que Jesus estava voltando logo.

?Voz A

Que é onde a coisa fica realmente interessante, porque essa ação por negação atingiu um ponto de ruptura institucional enorme, principalmente na questão do meio ambiente. Sim, o embate histórico envolveu figuras gigantes, Richard Sisig e James Dobson. Certo, exato.

?Voz B

O Sisig era vice-presidente da Associação Nacional de Evangélicos, a NAE, E ele foi a público declarar que o aquecimento global era uma realidade científica urgente.

?Voz A

O que pra época, dentro daquele círculo, era jogar gasolina na fogueira.

?Voz B

E como foi. O James Dobson, que liderava a Focus on the Family e tinha uma influência política absurda, exigiu severamente a demissão do Sisig.

?Voz A

E a motivação do Dobson nem era só política ou lobby de empresas de petróleo, né? O documentário foca muito na motivação teológica por trás disso.

?Voz B

Perfeito. A motivação era defender a teologia da descartabilidade. O Dobson enxergava qualquer tentativa de salvar o planeta como uma interferência no plano escatológico.

?Voz A

É a tal da premissa de que o mundo material está irremediavelmente condenado à destruição pelo fogo. Isso.

?Voz B

Então, o saneamento ambiental, a justiça climática, coisas que a gente vê como mordomia da criação lá em Gênesis, Tudo isso foi silenciado e taxado de distração secular. Exatamente. Foi uma asfixia da voz profética da igreja sobre o cuidado pela vida.

?Voz A

Sabe, eu fico pensando numa analogia para isso. É como se todo mundo estivesse a bordo de um navio furado.

?Voz B

O mundo material.

?Voz A

Isso. A água está subindo. Aí o oficial do navio diz que eles precisam pegar baldes para tirar água. Mas uma galera ali não só se recusa a pegar o balde, como tenta jogar o oficial no mar.

?Voz B

Nossa, é bem por aí mesmo.

?Voz A

Porque eles acreditam fielmente que um helicóptero de resgate vai chegar antes de afundarem, e pegar o balde seria duvidar do helicóptero.

?Voz B

Isso levanta uma questão importante sobre como a política e a fé se misturaram de um jeito tóxico. Porque essas suspeitas em relação ao governo e à ciência se entrelaçaram com as suposições sobre o fim dos tempos.

?Voz A

Qualquer objetividade sobre o cuidado com a vida foi pro ralo.

?Voz B

Sufocada completamente. O meio ambiente virou inimigo do roteiro profético.

?Voz A

Mas ainda bem que a história tem suas nuances, porque apesar desse embate dominar o cenário todo, o próprio movimento gerou vozes dissidentes, né?

?Voz B

Ah, sim, a prova de que a música apocalíptica não precisava resultar apenas em apatia.

?Voz A

Pois é, a gente tem a chamada esquerda evangélica, que saiu do mesmíssimo movimento, o grupo Jesus People USA, em Chicago. Eles eram radicais de um jeito diferente.

?Voz B

Muito diferente. Eles formaram a Resurrection Band, uma banda de hard rock de primeira.

?Voz A

E o mais legal é que eles operavam a partir de uma bolsa comum, viviam em comunidade, focados em ajudar famílias de baixa renda e pessoas em situação de rua nos centros urbanos degradados.

?Voz B

Eles não ficaram no conforto dos subúrbios esperando o mundo acabar. Eles foram para a linha de frente. E se conectarmos isso ao panorama geral, eles organizaram o Cornerstone Festival.

?Voz A

Ah, Woodstock cristão, basicamente.

?Voz B

Um espaço multicultural, ecumênico, tinha punk, metaleiro, gente comum, tudo convivendo e desafiando aquela hegemonia conservadora e higienizada da indústria musical dominante.

?Voz A

É incrível como a mesma contracultura que gerou a apatia ativa também gerou essas comunas urbanas radicais, gente combatendo socialismo através do cuidado material mútuo.

?Voz B

E isso pavimentou o caminho para transição dos anos 90.

?Voz A

Verdade.

?Voz B

As bandas do modelo integracional, bandas como Jars of Clay e Sixpence None the Richer, eles abandonaram um pouco aqueles hinos de guerra espiritual e focaram em questões humanitárias.

?Voz A

O foco mudou do céu depois para terra agora, o que muda até o nosso entendimento da palavra apocalíptico, né?

?Voz B

Com certeza. A raiz da palavra em grego não significa explosão ou fim do mundo. Significa revelar o que está oculto, tirar o véu.

?Voz A

Nossa, isso é poderoso!

?Voz B

Sim, essas bandas e organizações humanitárias mudaram o foco daquela fuga escatológica para realmente revelar e consertar as dores ocultas do mundo atual. A arte apocalíptica passou a expor a injustiça e a degradação em vez de só marcar o tempo no relógio profético.

?Voz A

Bom, recapitulando a nossa jornada de hoje para nossa audiência, a gente começou lá nas origens dos Jesus Freaks e daquela música de contagem regressiva, né?

?Voz B

Passamos pelo perigo daquele determinismo religioso que paralisou tanta gente.

?Voz A

Vimos o auge disso no conflito institucional entre o Sisic e o Dobson. E terminamos com essa redescoberta da ação social através dos grupos marginais e da nova geração dos anos 90.

?Voz B

É uma trajetória que deixa uma lição enorme. A gente precisa concluir refletindo sobre a urgência de resgatar uma visão bíblica integral da redenção, sabe?

?Voz A

Por favor, desenvolve isso.

?Voz B

O Criador que salvou a humanidade para a eternidade é o mesmíssimo que confiou a nós a responsabilidade de ser guardiões desta terra. Enquanto a gente respirar aqui, o cuidado com a criação não é uma distração secular. É uma vocação original.

?Voz A

Excelente ponto. E eu queria lançar um último pensamento provocativo para quem tá acompanhando a gente, uma reflexão para mastigar durante a semana.

?Voz B

Manda bala!

?Voz A

Se a arte apocalíptica daquela época deixou de ser um cronômetro para o fim do mundo e passou a ser uma ferramenta para revelar as nossas falhas atuais, que verdades desconfortáveis sobre a nossa própria apatia moderna a música pop de hoje está tentando nos revelar e nós estamos simplesmente nos precisando ouvir. Fica aí a reflexão. Até o próximo episódio.