5. A desossa
Consuelo Dieguez percorre frigoríficos, confinamentos, incubatórios e granjas da JBS para acompanhar a trajetória do boi desde o nascimento até sua transformação em dezenas de produtos diferentes. O resultado é um mergulho na engrenagem industrial que transformou a JBS na maior produtora de proteína animal do mundo.
Mas a eficiência que impressiona investidores e consumidores também tem um custo. Ao longo da cadeia produtiva, surgem debates fundamentais sobre sustentabilidade, condições de trabalho e influência política.
Episódio novo para assinante piauí às segundas-feiras.
Episódio liberado às terças-feiras.
Consuelo Dieguez
Ana Paula dos Santos Silva
Célio Alves Elias
Cristiane Mazetti
Lucas Fernandes
Priscila Schwartz
- A diversificação de produtos e negócios da JBS a partir do boiJBS·hambúrgueres·molhos·carnes enlatadas·Flora·Biopower·couro·novos negócios
- As condições de trabalho e as irregularidades nos frigoríficos da JBSJBS·Ministério Público do Trabalho·NR-36·acidentes de trabalho·gestantes·trabalho análogo à escravidão
- A Fazenda Cigana como modelo de eficiência na pecuária brasileiraFazenda Cigana·JBS·pecuária sustentável·rentabilidade na pecuária
- O processo de abate e desossa de bois no Complexo de Lins da JBSComplexo de Lins·JBS·abate humanitário·processamento de carne
- A intervenção do Ministro Luiz Marinho para livrar a JBS da lista suja de trabalho escravoLuiz Marinho·JBS·lista suja de trabalho escravo·Ministério do Trabalho
- As críticas do Greenpeace à JBS sobre sustentabilidade e emissões de carbonoGreenpeace·JBS·emissões de metano·desmatamento·meta de emissão zero de carbono
Trovão Mídia. Município de Campestre, sul de Minas Gerais, maio de 2025. Ana Paula dos Santos Silva me recebe na entrada do escritório da Fazenda Cigana, propriedade do pai dela, Luiz Antônio Deus da Silva, também conhecido como Chico Boiada.
Então, a minha família vem muito de baixo, sabe? Meu avô era funcionário de fazenda. Funcionário. Meu pai era aquela criança, filho do caseiro, assim, sabe?
Ana Paula tá de calça jeans, botas e chapéu tipo cowboy. É o mesmo chapéu que ela aparece usando nas diversas postagens que faz no Instagram da fazenda cigana, contando o dia a dia do agro. Mas Ana Paula vai muito além do perfil influenciadora.
Então, eu fiz zootecnia e dentro da zootecnia eu fiz na USP, em Pirassununga, Eu procurei fazer a melhor formação possível, né?
Depois, ela estagiou nos Estados Unidos, trabalhou em multinacional, fez mestrado na Austrália, voltou ao Brasil e foi trabalhar na fazenda com o pai. Pode deixar as coisas aqui, né?
Pode.
Ana Paula levou a gente de caminhonete para rodar pela Cigana. A fazenda é o exemplo perfeito do primeiro elo da cadeia produtiva da pecuária. Vale lembrar, a pecuária é um pilar do agronegócio no Brasil, país que tem mais gado que gente. A Fazenda Cigana é cercada de montanhas e tem 387 hectares de pastagem. São quase 2 parques e meio do Ibirapuera só de pasto. Os bois! Nossa, menino, cada boizão!
Atenção, né?
Que boi é esse?
Tem boi de tudo jeito aqui. A raça predominante no Brasil hoje, que mais se fala, é o Nemoy, né?
Diariamente, 2 funcionários fazem a ronda, tanto no pasto como nos coxos de confinamento, para ver se todos os animais estão bem.
Bom, tem que respeitar os animais, porque eles são o nosso ganha-pão, né? Então eles têm que estar assim saudáveis. Então eles são monitorados diariamente.
Esse cuidado todo não é só por amor ao animal, é uma questão de eficiência.
Sabe o ouro do dono que engorda o gado?
É isso aí! A Cigana é uma fazenda modelo, costuma figurar no topo dos rankings de rentabilidade entre pecuaristas. Ou seja, consegue vender mais cabeça de gado utilizando um terreno menor.
Por ano a gente abaixa aqui na Cigana 6.700 cabeças.
E não é à toa que eu fui parar lá. A própria JBS me recomendou. A cigana faz parte de um programa da JBS chamado Fazenda Nota 10, que dá assistência gerencial para um grupo de 500 propriedades. Enquanto circulamos por estradinhas sinuosas, Ana Paula vai me mostrando os processos da fazenda. O eucalipto vira mourão para as cercas. Das composteiras sai o adubo para as lavouras. A luz do sol vira energia elétrica. Tudo é reaproveitado.
Gente, o povo precisa comer também. A gente tem que produzir comida, mas vamos produzir de maneira sustentável, respeitando o meio ambiente, né?
Depois da cria, recria e engorda, Os bois estão prontos para o abate. É a hora de vender o gado para o frigorífico, mas antes tem o transporte da fazenda ao abatedouro. Se o animal chega estressado ao frigorífico, há uma descarga de ácido lático nos músculos e isso endurece a carne, reduzindo seu valor.
Uma vaca não vai reproduzir se ela tá estressada, ela não vai conseguir gerar o bezerro. Tudo isso sobre o cuidado, né? Seja na nutrição, seja na forma de lidar, no bem-estar, Então são bastante fatores, né? O agro é bem mais complexo do que as pessoas pensam.
Tudo é pensado para que o animal chegue ao frigorífico nas melhores condições possíveis para ser despedaçado. E é aí que entram os irmãos Wesley e Joesley Batista. Eles não são fazendeiros como Ana Paula. A JBS, com seus frigoríficos, entra na cadeia produtiva para abater e tirar o máximo dos bois. É nisso que eles são mestres. O osso tem que sair branquinho, branquinho, como me disse Wesley. Afinal, do boi só não se aproveita o berro.
E eu entendi isso na prática nessa minha viagem por fábricas da JBS, espalhadas pelo Brasil. Carne, couro, sebo, sangue, ossos, vísceras, chifres e cascos. Cada parte do boi é uma fábrica. Eu sou Consuelo Diegues e esse é O Berro do Boi, uma série original da Trovão Mídia com a Revista Piauí. Episódio 5: A Desossa. 500 km e cerca de 7 horas de viagem de carro separam a Fazenda Cigana do Complexo de Lins, uma área gigante da JBS onde se concentram inúmeras fábricas do grupo.
Cada uma delas é abastecida com uma parte do boi que vem não só da Fazenda Cigana, mas de outras centenas de fazendas do interior de Minas e de São Paulo. Só no frigorífico do Complexo de Lins são abatidos diariamente cerca de 1.200 bois. A carne processada ali é exportada para 40 países. O abate da JBS é o maior do Brasil. A gente pode ir ali?
Pode, pode sim.
O frigorífico foi o primeiro lugar que visitei.
A gente pode ir pela sombra aqui, ó, que os animais estão lá.
O gado que chega lá é colocado numa área chamada de relaxamento.
A gente faz a lavagem deles ali, porque geralmente eles vêm um pouco sujos, né, da fazenda. Então, pra ele tirar um pouco da sujidade do couro dos animais, né?
No dia seguinte, o boi vai pro abatedouro.
Ele tem um caminho, né, pra ir realmente pra sala do abate. Então, ele é tipo como se fosse uma fila indiana, né?
Os métodos, hoje em dia, são menos cruéis. Não é mais a marretada no meio do mato, como o Zé Mineiro costumava fazer em Brasília no século passado. E ele não vê—
o boi não vê o outro?
Que vai morrer, não. Agora os bichos não assistem a morte uns dos outros, já que o caminho até chegar em área de abate é tortuoso. Uma enorme porta de ferro preta separa os animais. Assim que passam por ela, recebem um choque no crânio e perdem o sentido.
A gente usa uma pistola de insensibilização através de ar comprimido, né? Ela tem uma velocidade com 13 quilos de pressão, realmente acaba fazendo o processo de insensibilizar o animal. Então ele é bem rápido esse processo, né?
Os funcionários do frigorífico dizem que os animais não sofrem com abate por estarem desacordados. De qualquer forma, é angustiante ver a procissão de animais para o abatedouro, tanto que a entrada ali é proibida para visitantes. Somente os funcionários têm acesso.
Isso aqui é a desossa, onde a gente pega e faz todos os cortes, né? Depois de 24 horas de maturação das carcaças.
Do frigorífico, as partes dos animais são distribuídas pelo complexo. No setor, é comum se dizer que a linha da JBS não é de montagem, é de desmontagem. A carne in natura, ou seja, que ainda não foi processada, é separada por cortes, dos mais caros e especiais aos mais simples e mais baratos. Preparados e embalados, 60% dos cortes são para o mercado interno. O restante é exportado. A gente tá saindo daqui, estamos indo para a fábrica de hambúrguer.
Outra parte da carne é utilizada na preparação de comidas prontas. Ela sai do frigorífico diretamente para a fábrica de alimentos preparados. Um deles é o hambúrguer que a JBS produz para duas das maiores redes de fast food do Brasil, cada uma com as suas especificações.
A gente cobre o Brasil todo, então todo lanche que você comer do Burger King, qualquer loja do Burger King no Brasil, Saiu de Lins.
São cerca de 30 milhões de hambúrgueres produzidos por mês em Lins. 2.500 toneladas de hambúrgueres que vão também para outros países da América Latina: Argentina, Chile, Paraguai, Bahamas e México.
E detalhe, nós estamos mais uns 2, 3 meses, a gente finaliza uma ampliação dessa fábrica que vai saltar para 4 mil toneladas, mais ou menos, quase 4 mil toneladas. Ou seja, tem mercado.
Depois fomos para outro setor da fábrica, onde fica a cozinha para preparação dos alimentos, com diversos tipos de molhos.
Por exemplo, esse aqui é um molho bolonhesa. A gente vende ele assim, então você chega em casa, você tira da embalagem, né, você pode aquecer ele e é um molho bolonhesa normal.
Deixa eu ver se esse molho tá bom. Dona Maria Braga. É bom, gente! Tem também carnes específicas para tacos, recheios, enlatados, que fazem muito sucesso na Europa. A venda de carnes enlatadas é tão grande que a JBS criou um setor para fabricar suas próprias latas. Não só para alimentos, como para desodorantes e cosméticos. Agora eu tô entrando na fábrica da Flora. A fábrica de sabonetes, xampus e desodorantes, a Flora, é outro ramo dos negócios derivados do boi.
Flora é o nome da matriarca da família, mãe de Wesley e Joesley. Na planta da Flora de Lins são feitos produtos de marca própria. Como Neutrox e Minuano, mas também se prepara ali a massa para outras marcas que escolhem a forma do produto, que depois receberá o corante e o perfume de acordo com cada fabricante.
É um negócio que a gente aproveita a cadeia do produto animal, né, do abate, né. Nós temos sabonetes que são sabonetes de origem animal, gordura animal e gordura vegetal.
É pra Flora que vai o sebo retirado do boi no frigorífico. 70% dos sabonetes fabricados no Brasil são feitos com sebo processado pela JBS. São 50 milhões de sabonetes por mês. A conta da empresa é de que a JBS tá presente em 50% dos banhos tomados no Brasil. E agora eu tô indo para Biopower, que é a fábrica de biodiesel. A gordura do boi e de outros óleos usados no preparo de alimentos no complexo também é usada para produzir biodiesel.
O biocombustível abastece a frota de caminhões da JBS. A transportadora da empresa opera, por exemplo, para Unilever e para Ambev. O custo dela é mais baixo justamente porque os caminhões utilizam biodiesel ou energia solar. A gente tá passando aqui embaixo dos dutos que levam vapor para fábrica. O complexo tem sua própria usina termoelétrica, é a chamada Biolins. Em volta aqui da usina, o cheiro é de cana. A Biolins gera energia elétrica e vapor a partir de bagaço de cana comprado na região e outros insumos.
A energia gerada é suficiente para abastecer uma cidade de 300 mil habitantes. O complexo consome só metade disso. O resto é vendido na rede para outros clientes.
Foi através dessa operação aqui que a empresa tomou gosto pelo mercado de energia.
O couro do boi segue para a fábrica, onde é cortado e pigmentado de acordo com as especificações dos clientes locais e ao redor do mundo. As peças de couro de linhas 135 mil por mês vão exclusivamente para a indústria automotiva. Nas outras fábricas, o couro é processado para a indústria de aviação, sapatos, bolsas, vestuário. Marcas sofisticadas, tanto da moda como de carros, na Itália, na França, na Alemanha e na Inglaterra, usam couro tirado dos bois da JBS.
Agora eu tô saindo aqui da fábrica de couros e vamos continuar. Grande parte do material descartado no complexo vai para a fábrica de produtos reciclados, a Ambiental, para serem transformados em piso e móveis que são utilizados nas instalações do próprio grupo. Essa fábrica de reciclados faz parte da área de novos negócios.
São as empresas que transformam subprodutos em, o que a gente fala, em superprodutos.
Essa é a Tuany, diretora da Ambiental. Ela enumerou para mim todas as empresas que compõem essa área de novos negócios. A mais recente é a Genuin.
Ela é recém-criada, tem 3 anos.
É uma fábrica de peptídeos de colágeno que estão na moda hoje na indústria de saúde e beleza. São feitos a partir da pele, tendões e casco do boi.
Temos a Original, que faz insumos farmacêuticos. A Nucopron, colágeno funcional para ingredientes também para indústria de alimentos. A Casings, que é uma classificação das tripas para produção de envoltórios naturais.
E a lista continua.
A Ambiental, com gerenciamento de resíduos sólidos. A Biopower, com produção de biodiesel, e a Campo Forte, com soluções para agronegócio, que é o que a gente faz de transformação de resíduos orgânicos, tá?
Calma que ainda não acabou.
E temos o outro braço de apoio de novos negócios, que são soluções estratégicas, né? Então, a própria Zemplac, que produz embalagem metálica e fornece para o grupo.
A lista é realmente impressionante. São 13 fábricas, mais de 6 mil funcionários e 50 países atendidos só nessa área de novos negócios. Ou seja, é praticamente impossível você estar no mundo hoje sem ter consumido algum produto que não tenha saído de alguma forma das empresas de Wesley e Joesley Batista. Essa concentração do mercado de frigoríficos no Brasil, com a JBS à frente, gera reclamação entre parte dos pecuaristas. O argumento é que a relação é desigual.
O pecuarista passa anos investindo na terra, no pasto, na alimentação e na engorda, mas quando chega a hora de vender, quem tá do outro lado da negociação É uma empresa muito maior, com mais poder para determinar o preço. A falta de concorrência no setor, amplamente dominado pela JBS, acaba pressionando para baixo o preço pago pelo boi, embora no supermercado o preço da carne continue alto. Deixei o Complexo de Lins, em São Paulo, e viajei mais 293 quilômetros de carro até chegar no Paraná para conhecer as instalações da Seara, a fabricante de frango que a JBS comprou lá em 2013.
Então, agora a gente está entrando no incubatório da Seara, em Rolândia, aqui no Paraná. A gente passou por um banho de desinfecção e super cuidado, porque não pode entrar nada. Tudo bom com a senhora? Não pode correr nenhum risco de infecção dos ovos que estão aqui incubados. A incubação para produção de frangos é de 665 mil ovos a 1 milhão de ovos por dia. Centenas de prateleiras com os ovos, todos marcados, a origem, a procedência. Os ovos vão para vacinação.
Ó, ficou naquela sala, ficou 19 dias, vacinou, veio para o nascedor, nasceu pintinho, agora essa sala tem uns 200 do lado.
Após o nascimento dos pintinhos, poucos dias depois, as aves seguem para sexagem.
Consegue identificar o macho da fêmea pela disposição da pena das asas. A fêmea tem duas camadas, uma menor e outra maior, e o macho, as duas camadas de pena são iguais.
É maior, né? Parece que tem um cílio. Deixa eu adivinhar aí.
Macho?
Esse é macho, é, não tem cílio. Macho?
É. Fêmea?
Esse é fêmea, tem um cílio bem bonito. Um grupo de mulheres trabalha de pé identificando o sexo de cada um e separando machos e fêmeas por caixas. Um trabalho desgastante numa área de luz artificial, de baixa temperatura, onde elas passam 8 horas por dia com rodízio de 2 em 2 horas. Da sexagem, os pintinhos são vacinados e aí seguem para a sala de estocagem. É uma sala escurinha, com uma luz azul, para eles ficarem calminhos. E aí, daqui, eles seguem para as granjas.
Os pintinhos vão para as granjas associadas à JBS para serem criados. Diariamente, uma fila de caminhões deixa o criadouro da Seara levando caixas com até 70 mil aves. Não se pode atrasar um dia. Já que as aves têm que estar prontas para o corte no prazo estipulado.
É a primeira vez que tu entra?
É, nunca tinha visto. É um negócio muito legal, né? Nossa, é um mar de frango! É um mar de frango. Tanto o complexo de Lins como as instalações da Seara são estruturas gigantes que utilizam maquinário de última geração. É difícil não se impressionar. Enquanto eu viajava pela fazenda e pelas fábricas, me lembrei do Wesley lá no escritório dele na Marginal Tietê, em São Paulo, falando do poder do Brasil do agro.
Você vai pro interior do Paraná, você vai pro interior de Santa Catarina, você vai pro interior do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, o agronegócio, as coisas tão funcionando.
Uma indústria brasileira que gera milhares de empregos diretos e indiretos, movimenta a economia do país, produz tecnologia, abastece o mercado interno e exporta pro mundo inteiro. Mas a vida de quem trabalha nos frigoríficos é dura.
A organização do trabalho em frigoríficos, especialmente na linha de produção, caracteriza-se pelo trabalho penoso, mal remunerado, ritmo intenso, temperaturas extremas, altas ou muito baixas, umidade, posturas inadequadas, risco de acidentes, perfurocortantes, Vazamento de amônia, dentre outros, acumulando simultaneamente inúmeros fatores de risco à saúde humana, em especial às gestantes.
Esse é o trecho de um relatório do Ministério Público do Trabalho apresentado em setembro de 2025. Pela forma como é montada a linha de produção, os trabalhadores ficam mais expostos a esforços repetitivos. E já foi pior. Antes da NR-36, norma do Ministério do Trabalho que trata da segurança e saúde em empresas de abate e processamento de carnes e derivados, publicada em 2013, os trabalhadores de frigoríficos não tinham licença nem para ir ao banheiro.
Durante o governo Bolsonaro, as indústrias do setor de frigoríficos, entre elas a JBS, tentaram derrubar a NR-36. Mas houve uma pressão grande do movimento sindical para impedir as mudanças.
A primeira coisa que eu vejo é essas empresas tratarem os trabalhadores como seres humanos, certo? Porque hoje o frango, ele é muito mais valorizado do que o próprio ser humano.
Esse é o Célio Alves Elias. Ele foi dirigente sindical por 36 anos em Santa Catarina.
Se você vai num aviário aí e tem qualquer adoecimento, você isola aqueles frangos para fazer o tratamento com medicação, né? E o trabalhador não tem esse tratamento, né? Você mesmo doente, você é obrigado a estar trabalhando.
Nesse cenário que combina grandes investimentos em fábricas modernas com trabalho em ritmo de revolução industrial do século 19, os frigoríficos são objeto de fiscalizações e processos por parte das autoridades públicas. Com a JBS não é diferente.
Dentro destes frigoríficos que foram fiscalizados no último ano está a JBS, a Seara na verdade, né, de Seberi.
Essa é a Priscila Schwartz, ela é procuradora do Ministério Público do Trabalho e coordena o projeto de adequar as condições de trabalho em frigoríficos no Rio Grande do Sul.
E nessa unidade nós já ajuizamos 7 ações, né, por conta das irregularidades que foram verificadas no ambiente de trabalho.
Todas essas 7 ações contra a JBS, feitas pela força-tarefa de que a Paula faz parte, foram aceitas pela justiça.
Nós verificamos também uma situação bastante grave na unidade, né, no que diz respeito à gestão em saúde.
Dentre as 7, algumas chamam mais a atenção.
Embora sendo uma JBS, né, maior produtora de carnes do mundo, né, de proteína animal do mundo, nós verificamos um setor médico que não tinha prontuários médicos dos trabalhadores.
Ou seja, era impossível analisar de forma cronológica os adoecimentos e as situações que levaram esses trabalhadores a buscarem o setor médico. Além disso, o Ministério Público identificou a subnotificação de 3.753 casos de acidente de trabalho no âmbito da empresa.
A comunicação de acidente de trabalho, ela é obrigatória, ela é compulsória. Toda vez que ocorre um acidente de trabalho, ele precisa ser comunicado Para que então surjam, né, todos os direitos tanto individuais para o trabalhador quanto se possa, em termos de saúde pública, né, organizar e verificar como que uma atividade, um setor econômico promove adoecimento e qual o perfil desses adoecimentos no país.
Outra ação ajuizada pelos procuradores foi em relação à exposição de gestantes a ruídos excessivos nessa mesma unidade da Seara da JBS.
E aí a gente pensa em um feto que obviamente não usa nenhum tipo de proteção, por óbvio, né, porque está dentro do útero da mãe e ele está exposto a esse ambiente. Nós encontramos mulheres com 8 meses de gestação expostas, né. Isso gera inclusive nos primeiros meses um aumento, por exemplo, da possibilidade de desenvolver pré-eclâmpsia por conta da pressão arterial, né? Então nós pedimos, ajuizamos uma ação para afastamento das gestantes dos ambientes com ruído acima do nível de ação.
E essa liminar, ela foi deferida, então determinando o afastamento dessas gestantes.
Também foi ajuizada uma ação relacionada aos vestiários da unidade. Lá eles são separados em feminino e masculino, mas não existem cabines individuais. Todo mundo precisa se trocar Para colocar o uniforme na frente de todos. Infelizmente, não é incomum esse tipo de irregularidade em frigoríficos e fábricas no Brasil. O que é sim incomum é a forma como a JBS lida com isso.
A gente sempre faz um diesel entre as empresas para não ficar indo sempre na mesma. Mas as empresas sabem que a gente faz esse tipo de atividade, elas firmam o termo de ajuste de conduta, elas tentam minimamente cumprir.
Firmar um termo de conduta, como outras empresas do setor já fizeram, é dizer: ok, reconheço essa irregularidade, tá aqui um cronograma para resolver a situação.
A JBS não, ela tem uma política que não firma termo de ajuste de conduta. Então, necessariamente, a gente precisa judicializar.
No caso das gestantes, por exemplo, fica difícil não se revoltar.
É difícil de acreditar, né, que uma empresa se oponha a esse tipo de coisa. Por que não retirar as gestantes? São 21 postos de trabalho. Isso não representa nada, isso é um percentual ínfimo no âmbito da empresa. Por que discutir judicialmente e não cumprir? Por que escolher submeter essas crianças a esse ambiente? Que criança nenhuma deveria estar, né?
Os problemas da JBS com seus trabalhadores se estendem também às suas prestadoras de serviço. Em dezembro de 2024, 10 trabalhadores de uma empresa fornecedora da JBS no Rio Grande do Sul foram resgatados de condições análogas à escravidão nas modalidades de trabalho forçado, condições degradantes, jornadas exaustivas e servidão por dívidas.
A JBS era a tomadora do serviço, né? Contratava essa empresa para que fornecesse mão de obra para ela para fazer apanha de frangos.
Lucas Fernandes é procurador do trabalho no Rio Grande do Sul e participou desse resgate. Ele conta que as condições de moradia, alimentação, higiene e descanso eram totalmente inadequadas, e a falta de registro era uma regra.
Uma das fotos mais marcantes dessa operação é que nós abrimos uma geladeira, pedimos para olhar, e a única coisa que havia dentro era um frango frango ainda com penas, né, um frango que tinha sido descartado da produção, e o produtor, né, o dono da granja, ofertou aos trabalhadores. E era a única coisa que havia para eles se alimentarem, é um frango ainda com penas dentro da geladeira, enrolado numa camiseta uniforme da empresa.
A JBS de novo não reconheceu culpa ou responsabilidade. Afirmou em nota na época que tinha tolerância zero com violações de práticas trabalhistas e de direitos humanos. Encerrou o contrato com a empresa fornecedora de aves e bloqueou a prestadora de serviços.
É que a terceirização, como aconteceu aqui, para alguns passa a ideia de um cheque em branco, né? É, eu terceirizo e automaticamente eu me desonero de qualquer responsabilidade, e não é verdade. Forma conveniente, é vultosa, a empresa prefere não saber o que é, qual é a realidade dos trabalhadores, se eles estão recebendo, se eles estão com jornada exaustiva, se eles têm alimento, se o alojamento é adequado.
Fato é que para a justiça a JBS tinha responsabilidade porque controlava a cadeia de produção e foi autuada. Com base nessa autuação, a JBS deveria, por lei, ser inscrita na lista suja de trabalho escravo do Brasil. Então, algo surpreendente aconteceu.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, decidiu fazer uma revisão final incomum de uma investigação que pode colocar na lista suja do trabalho escravo do Brasil.
Uma unidade de aves do frigorífico JBS, por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão.
De forma inédita, o ministro Luiz Marinho interveio no caso.
O normal para qualquer empresa que estivesse na mesma condição seria estar na lista suja hoje, mas para JBS tudo é diferente, né? Então, para JBS não houve essa inclusão porque o ministro do Trabalho avocou os autos desse processo no âmbito do Ministério do Trabalho e impediu então a inclusão da empresa na lista suja de trabalho escravo.
No juridiquês, Marinho avocou, ou seja, puxou para si a revisão do processo. Algo que, embora esteja previsto na legislação trabalhista, nunca tinha sido feito antes. No popular, Marinho salvou a pele da JBS. Estar na lista suja gera uma cobrança dos consumidores, da mídia e da sociedade civil organizada. O BNDES, por exemplo, não pode ofertar crédito para empresas da lista. O dano reputacional e econômico nesse caso para a JBS seria imenso, com repercussão internacional.
Vários auditores que coordenavam os projetos de trabalho escravo, eles abdicaram dos seus cargos. Por conta dessa interferência, que ela é absolutamente excepcional, né?
No início deste ano, 2026, o ministro Luiz Marinho anulou os autos de infração que responsabilizava a JBS nesse caso. Em entrevista para a Folha, negou que a decisão de livrar a JBS tenha sido política. Se fosse uma empresa pequena, eu trataria do mesmo jeito.
Tem uma série de evidências mostrando que o modelo produtivo dessa empresa é predatório e atrelado a muitas emissões de metano, particularmente, né? Né, porque é uma produção enorme de gado.
Essa é Cristiane Mazetti, coordenadora do Greenpeace. A ONG ambientalista vem há tempos denunciando a atuação da maior processadora de carne do mundo. Afinal, 14,5% das emissões de gases do efeito estufa no mundo vem da criação de gado. No Brasil, é ainda pior. A pecuária responde por 51% das emissões totais e a abertura de pastagem para gado é um dos maiores vetores do desmatamento no país.
Como pode uma empresa com um histórico vasto de irregularidades socioambientais, escândalos de corrupção, vai conseguir esse prestígio de se listar na Bolsa de Nova York? Isso legitima um modelo produtivo que é predatório, né?
A JBS se defende das acusações e vem há alguns anos lançando programas dentro da sua área de sustentabilidade. Em 2021, a empresa se comprometeu com a meta de emissão zero de carbono até 2040.
A JBS, uma das maiores produtoras de alimentos do mundo, apresentou um compromisso global JBS Net Zero.
Esse é o comercial da empresa que foi ao ar em horário nobre. Tem uma linguagem toda bucólica, com imagens em tons de verde e sons de pássaro ao fundo.
Não vai ser fácil, mas será feito para tudo isso sair do papel. JBS Net Zero 2040. Alimentar a mudança é o nosso compromisso.
Só que 5 anos depois, a JBS voltou atrás na promessa. Abandonou a meta. Como lembrou o jornalista Gustavo Faleiros, em coluna na Agência Pública, a JBS captou US$1 bilhão no mercado internacional em 2021, em títulos financeiros atrelados justamente à meta de zerar emissões. Agora, o diretor de sustentabilidade da JBS disse que a meta era muito ousada e que a empresa não tem como controlar as emissões causadas pelas fazendas de seus fornecedores.
A emergência climática não parece ser uma prioridade de Wesley e Joesley Batista, e seus novos movimentos já estão longe dos pastos. Agora o foco é energia, mais especificamente petróleo, mais especificamente ainda Venezuela. Para entrar nesse país, Conflagrado entre o chavismo de Nicolás Maduro e o intervencionismo de Donald Trump, os irmãos precisaram usar seus superpoderes, que têm exercido sem timidez de Caracas à Casa Branca.
E tem uma personagem que entrou no radar de novo, de novo. Ele tem sido chamado nos bastidores aqui de Brasília, do Congresso Nacional, de o Chanceler 03. Porque é o seguinte, tem o 01 que fala que é o Celso Amorim, o chanceler verdadeiro. Depois vem o Mauro Vieira, que é o chanceler. E tem o 03, que é o Joesley Batista.
Eu te conto mais no próximo e último episódio de O Berro do Boi. Berro do Boi é um podcast original da Trovão Mídia e da Revista Piauí. Ideia original de Ana Bonomi, José Orenstein e Luna Greenberg. Criado e dirigido por Ana Bonomi e José Orenstein. Eu, Consuelo Diegues, faço a reportagem e escrevi o roteiro com a Ana Bonomi e o José Orenstein. Consultoria de roteiro da Luna Greenberg. Assistência de produção da Ana Azevedo e da Laila Moalem.
Edição de som, montagem e mixagem por Pedro Pastoriz. Trilha sonora original de Arthur Decloé e Pedro Pastoriz. Checagem por Gilberto Porcidoni. Pela Revista Piauí, compõem o núcleo editorial: diretor de redação André Petri, editor executivo Daniel Bergamasco, e a produtora executiva Mari Faria.