Ele não?
Pois é, apesar de plana, a Terra ainda dá muitas voltas. Quando ela parou em 2018, ninguém poderia imaginar que estávamos a beira do fim do mundo como o conhecemos. E não é que sobrevivemos? Mas, até quando? O gigante ainda não acordou, mas pode dar um golpe em qualquer momento...
- Piadas e HumorPiadas politicamente incorretas · Autodepreciação · Síndrome de Tourette · Larry David · Mel Brooks
- Impacto das Redes SociaisAgressividade online · Eleições de 2018 · Bolsonaro · Umberto Eco
- Humor e Mudança SocialPreconceito e discriminação · Senso comum · Evolução da sociedade
A minha esperança quando eu te reencontrei era de encontrar aquele cara que eu conheci na década de 90, que era um cara engraçado, bem-humorado, tirador de sarro. E aí eu encontrei um cara que hoje parece muito amedrontado, talvez traumatizado pelas redes sociais.
Tá, sim.
A gente até conversou sobre isso num dos nossos podcasts aqui, se é que pode se chamar assim. Eu queria saber o que mudou, Bruno, que você tá com medo do quê? A gente não tem nada a perder, cara, na boa. Eu liguei o foda-se, cara, eu tô pouco me fodendo.
Eu fiquei muito preocupado com agressividade, sabe assim? Eu gosto muito dos meus parentes, das minhas primas. Eu tenho uma prima que eu gosto muito, que ela é arquiteta. E eu tinha rede social, então na época da eleição de 2018, e aí eu punha minhas posturas, né, falava, ó, esse, ele não, né, esse cara, ele tem, ele é fascista, ele é nazista, ele não tem nenhum projeto e tal. E pronto. E aí os amigos dessa minha prima começaram a me agredir, pois é, falando comentários ridículos, sem base nenhuma.
Eu, na minha inocência, eu contra-argumentava, não, você não entendeu bem, se você fizer uma análise do que com o que o Bolsonaro fala e faz e tem feito a vida inteira, compara ele com o movimento fascista, as relações que tem, é muito semelhante. Você não pode colocar um cara, um Mussolini, um Hitler, no governo de um país no século 21. Enfim, me destruíram, me destruíram. E eu me senti tão arrasado que no dia que coroou o meu desespero, que o Bolsonaro foi eleito, Eu saí da rede social no dia, saiu o resultado, eu saí e não consigo voltar.
Eu também tranquei a minha conta, fiquei alguns dias lá sem, né, fechado, com a conta fechada, também traumatizado por causa dos comentários e tudo mais. Mas o que que mudou? Porque quando você fazia televisão, você não tinha feedback. Quando você passou a ter feedback, você fazia as matérias, fazia com graça, etc. e tal, Ninguém reclamava porque você não tinha chat, não tinha essa pegada, né?
Eu vou lhe dizer, assim, eu tinha um retorno sim, era número de Ibope, tinha muito Ibope as coisas que eu fazia, subia muito.
Mas isso é só audiência, se você tiver curtida, por exemplo—
É, não, não tinha curtida. De vez em quando, eu lembro que uma vez eu fiz uma reportagem com pichadores, todo mundo odeia pichador, né? O cara, eu que pichei o terraço Itália, eu que fiz isso, um tanto de gente que aquilo é um valor para eles, né? Fazer, pichar alguma coisa é como se fosse eu que sou dono, é o que fiz.
Então você vê que esse ódio não adiantou nada, né? Porque é o seguinte, as camisas de seleção agora parece número feito por pichador.
Você já reparou isso? Parece.
De onde veio isso? Veio junto com resenha, né, cara? Eu não entendo isso. Pois é, mas continua.
E eles venceram. E aí no meio tinha um pichador que tinha uma namorada e tal, e eles aí Só sei que eles se beijaram na matéria que eu tava fazendo. Aí eu falei assim, tá vendo? Os pichadores também amam, cara. Uma bobagem. Me ligaram para lá, me ligaram para emissora. O que que é essa repórter idiota? Esses pichadores têm que morrer tudo. Esse repórter— e fui eu que atendi, né? Eu falei, não, talvez o repórter— esse repórter é um idiota!
Me xingou, me xingou. Eu não falei nada. Falei, não, fui eu que fiz. Então assim, pessoas odiando sempre existiu, né? É o que o Umberto Eco fala, né? Sim, concordo. Antigamente aquela idiotice que ficava na mesa de bar entre 3 pessoas hoje atinge milhões de pessoas por causa das redes sociais. Esse é o grande problema. Então talvez por isso, por causa do Umberto Eco, é isso, são milhões de pessoas odiando o que eu falava.
Mas eu acho que a gente está perdendo um pouco da espontaneidade, humor mais pesado, que, meu, que precisa de um pouco de inteligência, de sarcasmo. Nossa, eu tava usando um exemplo para você, a gente conversou um pouco antes de começar a gravar o programa, que é um cara que postou um negócio no dia do jogo do Brasil-Japão, que ele pegou a Matsunaga, né, do lado do Ancelotti, do cara lá, e o Ancelotti falando com ela assim, olha, Eu vou te dar umas facas aí, você cuida do time e tal.
Gente, por quê? O negócio passou, aconteceu, a mulher virou uma celebridade, tá numa série aí.
Bom, ela tá junto com a... Tremembé, né?
Tremembé, que ela tá junto com a Suzane Richthofen, então viraram ídolos as duas.
Então a piada já...
a coisa já perdeu o sentido, né, cara? Eu não sei até onde vai isso daí. O que você acha, Bruno?
Eu acho assim que esse tipo de brincadeira, durante muito tempo, reforçou preconceitos e discriminações, que eram brincadeiras inocentes, né? Eu lembro que há muito tempo, eu era criança, na fazenda do meu pai, alguém fez uma piada sobre negros, uma piada idiota. E aí todo mundo riu e tinha um negro que falou assim, eu lembro até que achei engraçado, que ele falou assim, eu tô muito satisfeito com minhas cor. Ele falou isso. Entendeu?
Que todo mundo era uma coisa leve, mas não é leve, machuca, entendeu? Tem muitas piadas que eram senso comum, que era engraçado, mas machuca, machuca as pessoas. Então a gente, como sociedade, eu imagino que a gente esteja evoluindo. Não dá para fazer piada, sabe? Se tem piada tão absurda— eu lembro que quando eu era menino, o cara me contou uma piada. Isso é uma piada ridícula, já tô avisando desde já, uma piada ridícula.
É uma piada ridícula, entendeu?
Vou te falar como é que as coisas mudaram. Que tava numa cena de parto, o cara contando um parto, a família toda olhando no aquário, o neném nascendo, o médico pegou o neném, sorriu, bateu na bunda do neném, o neném não chorava. Ele pá pá bateu, não chorava. Ele foi batendo cada vez mais forte, o menino não chorava. Ele começou a bater o menino pra todo lado, todo mundo abriu a porta, você tá ficando louco? Falando, cara, tá de sacanagem, o menino já nasceu morto, por isso que eu, sabe?
Isso era uma piada, isso era uma piada. O cara, então, aí, gente, como pode fazer piada com uma coisa tão cruel, sabe? Então eu acho que as pessoas não tinham lacre e não tinham limites. Então às vezes as pessoas precisam voltar. Isso não é piada, sabe, cara? Essencialmente poderia ter uma coisa engraçada, mas não é para ser engraçado.
Ele fez 100 anos agora, vai fazer Tá lançando um filme, né? E ele tinha essa pegada, cara, ele sempre foi. Pô, você quer, tem aquela piada do Frankenstein, né, do jovem Frankenstein, que ele vai roubar um cérebro e tem o abnormal, né, que ele pega um cérebro de um anormal. Isso é politicamente totalmente politicamente incorreto, né? E ele fez, e o jeito que ele fez, o jeito, a própria, o próprio Primavera para Hitler, né, que ele faz, eu não sei, eu acho Acho que tem, tem uma medida aí.
O Saturday Night Live até hoje faz coisas bem, bem pesadas, mas ele tem um jeito de fazer que ele não sacaneia a minoria, não sacaneia o mais fraco. Ele consegue fazer isso de um jeito interessante.
Mas está dentro da genialidade dele, né? Se ele consegue transitar nesse lugar e sem criar estranhamentos, entendeu? É uma genialidade.
Outra coisa— Larry David, você já viu alguma coisa?
Não, não.
Veja, o Larry David é um dos criadores do Seinfeld, né? Sim. Ele tem um humor assim, ele é um cara mal-humorado, ele sacaneia todo mundo, inclusive os judeus, que ele é judeu, como o Seinfeld é também. Então assim, ele tem um jeito de fazer a coisa que você fala assim, nossa, pegou pesado, mas isso é interessante, entendeu? Faz você pensar.
Sim.
Onde é que a gente se encontra, né, cara, para não pisar na bola.
Eu acho assim, eu deixo esse tipo de coisa para os especialistas. Assim, eu já fiz muitas, né, eu fazia muitas reportagens com a meia de humor, então eu fazia muita ironia diante de um senso comum, sabe, o governo, a justiça, sabe, mas era uma coisa muito genérica, não era ofendendo. Mas teve até uma vez que eu ganhei uma chamada de atenção do meu chefe quando o Fernando Collor foi absolvido nos anos 90. Aí eu fiz na reportagem que eu tava fazendo, eu me fiz de cego atravessando a Avenida Cruzeiro do Sul e a câmera mostrando o Carandiru, a penitenciária.
E eu assim falei assim, é aqui que fica a casa da Dinda? Sabe assim? E teve outro cara falando assim, da Justiça, da Justiça. Aí eu peguei e fiz assim, é a Justiça.
Mas, meu, tinha humorista cego que se sacaneava o tempo todo, né?
Mas aí é uma maneira dele lidar com isso, né? É uma coisa particular. Eu lembro quando eu fiz isso e ironizei a justiça, porque os crimes do Collor eram evidentes, né? Ele foi inocentado. Quando eu cheguei da rua, o meu chefe falou assim: hoje você quase falou mal de uma instituição. Aí eu falei assim, que instituição? Ele falou, você sabe. Eu falei, é da Justiça? Ele falou, é. Aí eu falei assim, mas eu quase falei ou falei? Ele falou, quase falei. Aí eu falei, então quando eu falar você me chama atenção.
Isso aí foi, então ele não tava preocupado com a cegueira, com a—
não, não, ele tava preocupado com a Justiça, né? É a cegueira da Justiça. Aqui é a casa da Dinda, né?
Que a Justiça sempre no Brasil sempre foi muito, sempre foi. Ali era uma crítica, né?
Mas assim, ele na condição de chefe, entendeu? Porque ali se der um problema, um processo, é ele que responde, né? Ele que é o responsável, não sou eu. Então isso, já fiz uma vez, eu fiz uma matéria com um homem que morava em cima da árvore porque não tinha onde morar. Eu lembro, eu lembro, é antiga. Essa ficou famosa, deu muita audiência na TV Bandeirantes. E aí eu falo, Fernando, o que que tá acontecendo? Quem era Fernando? Era o Fernando Henrique Cardoso, sabe assim?
E aí sim fazia umas coisas Essa ideia do seu pai fazer o auto-humor, isso é uma coisa que a Yara fala muito.
E fazia com português também, porque ele era português.
Sim, a Yara fala muito isso. A Yara tem um filho que é também da mídia, o Pedro. Ele também faz muitas postagens gozando da cara dele mesmo. Então o auto-humor funciona. Sim. Eu lembro que o Pedro sempre teve cabeça grande.
Autodepreciação.
É, o Pedro sempre teve cabeça grande. Uma vez ele foi fazer uma matéria na Venezuela e o voo tinha escala no Panamá. Então ele foi comprar um chapéu Panamá no Panamá e não tinha nenhum que cabia na cabeça dele.
Você sabe que não é do Panamá, né?
É, dizem.
Ele é feito no Equador, eu acho.
Ah, sim, mas é o nome dele, né? Chapéu Panamá.
É, o tipo, né?
É, tipo Panamá. E aí ele falou, eu sempre fui tão cabeçudo que eu não consigo comprar um chapéu Panamá que nenhum entrava nele. E ele tirando um alto sarro.
Ok.
Isso é legal. Agora, mas quando você fala de outra pessoa, aí você pode... Você tá suscetível a ferir, machucar, e depende do dia, da hora.
Você mesmo já brincou com a síndrome de Tourette, né?
Sim, eu brinco. Na minha família, todo mundo sempre levou a minha Tourette para o lado do humor. Até meu filho fala, nossa, pai, eu nunca vi isso. Meu filho mais velho, eu lembro que ele era criança.
Você percebeu como você fica contido quando você tá fazendo esse programa?
Contido como assim? Você não fica... Ah, peraí, deixa eu voltar. Tá vendo?
Faz bem pra você, cara.
Faz bem, faz bem. Melhora tudo.
Então vamos soltar isso no YouTube.
Então vamos soltar. Então qual é o tema? Ei, volta aqui, ô pariu! Volta aqui, ô pariu!