Episódios de Psicomanas - Entre Surtos e Insights

T3#03 - Os Desafios da Maternidade Solo (Clara Liberato)

27 de agosto de 20261h4min
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Como é construir uma vida quando você precisa ser, ao mesmo tempo, mãe, profissional, cuidadora e protagonista da própria história?

Neste episódio do Psicomanas: Entre Surtos e Insights, recebemos Clara Liberato, mãe solo, educadora e neuropsicopedagoga, para uma conversa emocionante sobre maternidade solo, resiliência, escolhas, perdas, recomeços e os desafios de construir uma trajetória sem abrir mão da capacidade de amar e seguir em frente.

Adotada com apenas 10 dias de vida, Clara se tornou mãe solo aos 30 anos e encontrou na educação e na neuropsicopedagogia uma forma de transformar sua própria experiência em acolhimento e cuidado com outras pessoas.

Falamos sobre maternidade solo, criação dos filhos, carreira, identidade, rede de apoio, resiliência e os caminhos para reconstruir a própria história.

Porque nem sempre podemos escolher o primeiro capítulo da nossa vida. Mas podemos escolher como escrever os próximos.

Um episódio para mães, filhos, famílias e para qualquer pessoa que já precisou recomeçar.

Participantes neste episódio3
D

Danielle Gomes

Host
D

Dra Giovana Castro

Co-host
C

Clara Liberato

ConvidadoEducadora e neuropsicopedagoga
Assuntos6
  • Os desafios da maternidade solo e a importância da rede de apoiomaternidade solo·rede de apoio·insegurança
  • A experiência de Clara Liberato como filha adotiva e o sentimento de rejeiçãoadoção·sentimento de rejeição·terapia
  • A reconstrução da identidade como mulher e mãe solo após a gravidezreconstrução pessoal·maternidade solo·identidade feminina
  • A violência psicológica e verbal sofrida durante a gravidezviolência psicológica·violência verbal·genitor do filho
  • O acolhimento e apoio incondicional dos pais de Clara durante a gravidezapoio familiar·amor incondicional·rede de apoio
  • A escolha da pedagogia e neuropsicopedagogia como propósito de vidapedagogia·neuropsicopedagogia·desenvolvimento infantil
Transcrição157 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
DGDanielle Gomes

Boa tarde, pessoal! Oi, bom meio-dia! Meio-dia em Brasília, 12 horas. E aí, gente, vocês estão gostando dessa ideia do tema da temporada? Família, maternidade, parentalidade, tanta coisa, né? Feedbacks tão legais! Nossa, também, também é o tipo de assunto infinito, né?

?Voz B

Infinito. E assim, muita gente comentando, muita gente se identificando comunicando e deixando uns recadinhos e falando com a gente. Encontra, fala, gente, a gente amou esse tema, tem tanta coisa para falar, né?

DGDanielle Gomes

Exato. E acho que agora, para complementar, né, como segundo episódio, que a gente queria colocar uns de início que são muito importantes, sim, e ao mesmo tempo assuntos que não são tão falados, sim, né? A gente procura esses assuntos na internet, claro, tem Mas você parece que precisa procurar um pouco mais a fundo. Então a gente preferiu colocar esses assuntos como prioridade no início da temporada. E hoje a gente vai falar sobre uma coisa muito importante e que acomete muita gente nesse país e no mundo inteiro, que é a maternidade solo.

?Voz B

E aí, se identificou?

DGDanielle Gomes

Por acaso você sabe? Por acaso você vive isso? Você conhece alguém? Acho que todo mundo conhece, né? E quando a gente fala de maternidade solo, as pessoas pensam somente na falta geográfica do pai. Não necessariamente, tá, gente? Muitas vezes a maternidade solo tem ali o parceiro, ausência concreta, né? É a pessoa que tá lá só de corpo presente. Sim, mas nesse caso a gente vai falar sobre realmente a maternidade solo. E eu tô muito feliz com a nossa convidada porque é uma pessoa que eu admiro demais por muitos aspectos.

É uma mulher extremamente inteligente, é uma pessoa extremamente empática, carinhosa, e é uma mãe fenomenal. E tudo isso numa pessoa só, gente, não é um orgulho?

?Voz B

É muito orgulho. Eu tô conhecendo hoje, né, já converso com ela há um tempo, mas pessoalmente tive o prazer de conhecê-la hoje. Vou conhecer a história dela hoje também junto com vocês. E você vai se apaixonar, com certeza.

DGDanielle Gomes

Certeza. A gente tá aqui hoje com Clara Liberato, maravilhosa. Seja bem-vinda! Ai, que delícia!

CLClara Liberato

Eu já vou começar emocionada.

?Voz B

Ah, mas a gente gosta assim.

DGDanielle Gomes

Exatamente. Clarinha, fala, seu sobrenome provavelmente vai chamar atenção de muita gente, já vou avisar. Já avise.

CLClara Liberato

Não sou parente do Gugu.

DGDanielle Gomes

Ela não é parente do Gugu, é Clara Liberato.

CLClara Liberato

A vida inteira perguntando às pessoas, você é parente do Gugu?

DGDanielle Gomes

Não é parente do Gugu. Você, Clara, eu vou pedir para você se apresentar para as pessoas, porque eu tenho o privilégio de já conhecer muito bem, mas eu gostaria que você se apresentasse.

CLClara Liberato

Bom, meu nome é Clara, né, mais conhecida como Clarinha na minha família. Tenho uma avó Clara, uma tia Clara, então fui a última que cheguei, né, e as pessoas carinhosamente me apelidaram de Clarinha. Sou mãe do Mateus, né, Mateus tá com 8 anos agora. Tenho 3 formações antes, né? Então sou formada em hotelaria, sou formada em gastronomia e minha última formação foi pedagogia. Depois fui fazendo especializações voltadas para a área da educação e sou mãe solo, né?

Ponto como a Gi trouxe, né? Um ponto que muitas pessoas às vezes acabam não falando, né? Eu acho que é difícil você de fato se colocar nessa posição, assumir, poxa, eu sou mãe solo. Né? E eu acho que isso traz uma insegurança muito grande. Eu tive muito isso, né, quando eu me tornei mãe solo e eu percebi de fato que eu ia ter que assumir isso, por mais que eu tivesse uma rede de apoio incrível, e que é até hoje.

DGDanielle Gomes

Galera, valeu! O que é raro também, né?

CLClara Liberato

Pois é, isso também, porque é um ponto muito, né, onde você precisa daquele apoio, por mais que você não esteja, né, ali, um outro, um parceiro. Então eu me vi muito nessa situação. E aí foi quando eu olhava para a sociedade, né, e a sociedade toda me dizia, não, você não tem um parceiro, você não, seu pai, seu filho não tem um pai, um genitor, o que quer que seja a figura, né. E eu me sentia completamente estranha, né. Eu falava, cara, e aí, né?

Parece que é tipo todos contra um. E numa dessas, num post na internet de uma influenciadora que eu sigo, né, que eu gosto, ela fez de fato um post falando sobre maternidade solo. E eu comecei a perceber pessoas que começaram a comentar e falar, olha, isso também é a minha realidade, eu também me sinto muito sozinha. E aí me deu uns 5 minutos que eu falei, cara, eu vou começar a chamar essas meninas para conversar, né, para saber a história, para ver que eu não tô sozinha.

E aí foi quando eu criei um grupo no WhatsApp e eu comecei a passar o meu telefone falando, olha, né, eu sou mãe solo também, sou daqui de São Paulo e, né, tô querendo me conectar com pessoas que que são parecidas comigo, que tem uma história parecida, aonde a gente vai, né, dividir coisas positivas, negativas, a gente vai se apoiar. E aí surgiu esse grupo, né, é um grupo que eu levo. Não tem um nome assim, né, já teve transições, mas sempre é tipo assim Mãe Gata Solo, sabe, assim coisas que puxem a gente para cima.

E é muito gostoso porque o Matheus foi basicamente quando ele nasceu, então já deve ter mais ou menos ali em torno de uns 7 anos e pouco que tem. Muitas meninas passaram, né? Você percebe que foi um momento de passagem para elas, que elas precisavam daquilo e que depois, por algum outro sentido, a vida levou elas para outro lugar. Mas grande parte ficou, né? E grande parte dessas pessoas eu não a conheço pessoalmente, porque tem gente desde Norte, Nordeste, Centro-Oeste, tem de todo lugar assim, tem um pouquinho.

Algumas já conseguiram se encontrar, mas eu não conheço pessoalmente. Tem uma que eu conheço pessoalmente.

DGDanielle Gomes

Acho que a gente precisa agitar esse incômodo, né, gente?

CLClara Liberato

Pois é, e a gente se fala, e a gente conversa, e assim, várias delas reconstruíram a vida, né, casaram, estão no segundo filho. Várias não quiseram casar, mas assim, se reconstruíram financeiramente, tocam as coisas. Então são mulheres que eu admiro extremamente.

DGDanielle Gomes

Se reconstruíram, né?

CLClara Liberato

E eu acho que isso foi muito importante, né, porque por diversas vezes eu percebo que essa rede de apoio é exatamente isso, né, é o papel de muitas vezes você ouvir sem julgar. Né, você simplesmente tá ali para falar, cara, eu acolho o que você tá sentindo, né, e o que você precisar eu tô aqui. Então, por diversos momentos eu encontrei isso muito nelas, muito. E por diversos momentos eu sinto também que eu passei, né, isso para elas também.

Então eu sou extremamente grata, né, essas meninas, gosto muito, muito, muito. Mas é isso, né, são os desafios dessa maternidade solo. Que cada dia é um dia diferente, né? Cada situação é uma situação diferente. Querendo ou não, a minha situação é uma situação onde é de fato, né, ali um total, né? Não tenho contato algum, não tenho nada, né? E até muitas vezes eu agradeço, porque também acho que se não me ajuda, também não me atrapalha, né? Então assim, a gente vai se desdobrando, vai fazendo o que dá.

DGDanielle Gomes

Muito bem. E é interessante porque aqui é, vocês sabem, todo episódio eu falo do ex-marido da minha querida. Eu faço questão de acabar com a raça dele, pois babaca, né? E você também vive isso. Sim, também. Então nós temos aqui vocês duas como mãe solo para trazer esse assunto tão importante, né? Realmente, porque o que eu vejo, né, eu vejo que é muito comum com pacientes, enfim, acontecer situações como, por exemplo, reuniões de escola.

É muito comum, dependendo, claro, né, gente, eu não tô generalizando, tá, mas vai ter um evento com as mães da escola na casa de fulano, muitas vezes as mães solo não são convidadas. E a justificativa, na grande maioria das vezes, é ciúmes. Ah, mas ela vai, mas ela é solteira, ela tem o meu marido aqui. Principalmente se é bonita, imagina, vocês duas devem passar.

?Voz B

E é muito comum, né, Gi, essa coisa não convida, essa segregação, né? Exatamente, essa segregação. E muitas vezes também a gente se sente um pouco constrangida de participar um pouco, né, porque ficam aqueles nichos, né, e você se sente muitas vezes muito deslocada, dependendo do que, do que seja, né?

DGDanielle Gomes

Principalmente quando são casais.

?Voz B

Exato, principalmente é isso, principalmente quando são casais, principalmente quando você ainda tá naquele início do entender o que você tá passando, aquele, aquele começo mesmo de falar, olha, agora eu tô passando por essa situação, que que vai ser? Claro, depois a gente falou, a Clarinha muito bem falou da reconstrução. Eu acho que a reconstrução ela é como um todo, independentemente de você encontrar um uma nova pessoa, não.

É você se reconstruir, é aquele processo novo de reindividuação, de você saber, poxa, onde eu tô agora, qual é o meu papel. É ser mãe, mas não esquecer que a gente também é um ser humano, é uma mulher e tem vida, e tentar integrar tudo isso, né? Então é um desafio muito grande, né? E a Clarinha, a gente tava falando disso, é muito engraçado, né? A gente se conecta por este assunto, é claro. E também ela ser da área, né, da minha área de atuação, também foi uma coisa que a gente também conversou, e quanto que isso também faz com que a gente esteja muito em contato com esse, com esse cenário, né.

DGDanielle Gomes

É interessante isso que você falou, porque a Clara tem um outro detalhe, né. Quando a reconstrução que você busca, essa individuação, você lembrar quem você é, etc., você vem de um cenário também que você é uma filha adotiva. Sim, então de certa forma eu quero muito saber essa história de você nesse aspecto, porque quando você é um filho adotivo, tem muitas crianças que sentem, dependendo da idade, dependendo da criança, depois que descobrem que são adotivos, eles se perdem.

Quem sou eu, né? Então é um primeiro processo de encontrar quem é você E depois, com seu filho, sendo mãe solo, é um novo processo. São dois processos aí.

?Voz B

Identidade inicial depois, né, é muito—

DGDanielle Gomes

não que isso seja uma regra, mas eu quero saber de você, como que é essa história toda?

CLClara Liberato

Falar desse processo assim como um todo foi um processo bem desafiador, eu acho, né? Porque eu sempre soube, meus pais sempre me contaram, né? Eu nunca era a filha que tinha nascido da barriga, mas eu tinha nascido do coração. E eu sempre, né, conforme a idade ia passando, eles iam me dando um pouquinho mais, eu ia entendendo um pouquinho mais o que é ser filho do coração, né, da onde eu vim, qual de fato é a realidade. E eles sempre deixaram como um livro muito aberto, né.

Eles na época não conseguiam ter filho, né, a minha mãe não conseguia engravidar. E aí eles tinham entrado para uma fila de adoção, até que um belo dia, né, ligaram e falaram, olha, Vem buscar essa criaturinha aqui, vem buscar. E aí eles pegaram um avião, eu nasci no Paraná, e eles foram me buscar no Paraná.

?Voz B

Bebezinha, bebezinha.

CLClara Liberato

É, eu cheguei aqui em São Paulo, eu conheci meus pais, eu tinha, não tinha nem 10 dias de vida. E aí foi uma coisa que, né, assim, eu sempre cresci com isso. Então para mim nunca foi uma situação de descobrir de repente, ah, você é adotada. Não, eu cresci com isso. Mas ao mesmo tempo que eu cresci sendo munida de informações, sempre existiu um gap muito grande, né? Eu detestava ir fazer exame, as pessoas falavam assim, na sua família tem alguém com doença cardíaca?

E eu falava, gente, eu não sei, não posso te dizer, né? Então eu tinha muito esse gap. Além disso, tinha uma coisa que me incomodava muito também, que era um sentimento de rejeição, né? Eu não conseguia entender, eu, Clara, pessoa, como uma mulher que sonha em ter uma família, ter filhos, como que alguém consegue dar um filho para adoção, né? E aí foi um processo aonde eu sempre tive que trabalhar muito isso em terapia. Isso eu sou muito grata aos meus pais, porque eles sempre me proporcionaram também esse espaço para conseguir me conhecer, conseguir colocar para fora as coisas que eu sentia.

Mas era muito difícil acessar porque a gente é muito imaturo, a gente não tem repertório, né? Então assim, a gente não consegue de fato ir chegando naquele ponto. Eu tinha um conforto muito grande nesse sentimento de saber que sim, eu era amada, mas eu tinha aquele buraco que eu não conseguia entender o porquê tudo aquilo tinha acontecido. E aí isso vem de encontro muito com a situação de eu ter me tornado uma mãe solo, porque eu acho que foi com 30 anos quando eu descobri que eu estava grávida, que eu descobri que eu seria mãe solo, que eu não teria apoio do filho, né, do genitor do meu filho.

E que na situação, numa conversa com ele, passou, né, pela cabeça, pela conversa ali, do tipo assim: e aí, você vai fazer o quê da sua vida, né? Você tem algumas opções, pensando. E eu falei: cara, eu não tenho opção, essa criança vai nascer.

DGDanielle Gomes

Não, não era uma opção, nunca foi, nunca foi.

CLClara Liberato

Eu cresci, né, ali com pais que são católicos, e assim Não tem, né? Deus dá e Deus tira a vida. E não existia essa opção de, ah, você tira o filho. Cara, não vou tirar. Essa criança tem direito de viver. E se eu não tiver condições, essa criança vai sim ter o direito de ter uma pessoa que vai amá-la, que vai cuidá-la, e ela vai ser feliz. E aí foi com 30 anos que meio que me deu um— eu falei, cara, Eu nunca fui rejeitada, pelo contrário, eu sempre fui amada.

Porque se eu que cheguei nessa posição aonde o meu sonho era ser mãe e eu sonhava com isso, e de repente me veio aquela sensação de que se eu não tiver condições, se a minha família não me apoiar, se eu ficar sozinha, eu vou fazer isso e essa criança vai ser feliz. E aí foi onde eu entendi muita coisa da minha vida, que eu nunca tinha sido rejeitada, que eu nunca precisei de fato fazer, me fazer valer, né? Porque eu acho que eu sempre buscava aprovação muito dos outros, porque eu não queria estar nesse espaço de rejeição, porque aquilo me doía, me doía muito.

Então eu sempre tive que ser a mais bonita, mais legal, a mais, né, descolada na escola, mais inteligente, né? A que tem o cabelo mais bonito, a unha não sei o quê, a mais magra, o corpo mais bonito, porque eu precisava de algum jeito tentar agradar as pessoas para que as pessoas não me rejeitassem, porque me rejeitar despertava esse sentimento que eu tinha de abandono. E aí foi quando eu comecei a entrar num processo de, né, até de cura, de reconstrução, e de entender que não, ele teria o direito de ser feliz, essa criança ia encontrar uma família.

E aí eu comecei a vir com isso de, não, eu sempre fui amada, né, do jeito que eu sou, da forma que eu sou, e tá tudo bem, né? Eu não preciso ter o cabelo mais bonito. Quem gostar de mim vai gostar pelo que eu sou, pelo que eu me pelo que eu me refiz. E aí veio essa primeira situação onde eu tive que, ali dentro de uma gravidez, ter esse sentimento e ao mesmo tempo o término de um relacionamento, porque na época eu tinha um relacionamento com uma pessoa, viver esse luto desse término e ainda entender como seria essa maternidade solo.

Então eu confesso que nos 3 primeiros anos foi bem difícil, né? A gente se fecha muito porque é um processo interno. É um processo extremamente doloroso esse autoconhecimento, porque você vai sim ter que cutucar feridas.

DGDanielle Gomes

Que treco, né?

?Voz B

Que chato, que muita coisa. Que dói, que dói, com certeza.

CLClara Liberato

Só que a partir do momento que você decide que você quer chegar num lugar porque você merece ser feliz, amada, porque você merece viver liberta desse sentimento que muitas vezes a gente carrega, né, de tristeza, de ânsia, cara, Você vai ter que passar por isso. E eu confesso que depois que eu passei, é libertador, é uma delícia você olhar e você fala, cara, eu sou foda.

DGDanielle Gomes

E isso eu imagino que também espelhe, Clarinha, nos seus relacionamentos posteriores, né? De não se permitir aceitar certas coisas que antes você acabava permitindo. Como é que foi esse término de relacionamento? Como é que foi a gravidez? Como é que foi a Houve algum companheirismo? Como é que foi isso?

CLClara Liberato

Não foi uma gravidez planejada, né? Aconteceu.

?Voz B

Você tinha um relacionamento?

CLClara Liberato

Eu tinha um relacionamento, né? Eu tava com uma pessoa na época, era um relacionamento que já tava bem desgastado. Posso nem dizer que era um relacionamento saudável, porque não era, né? Tinham situações ali muito delicadas e desafiadoras, e já era uma situação que não tava dando certo, né? Mas querendo ou não, ainda tinha uma ligação de ambas as partes. E aí acabou que eu descobri que eu engravidei, né? E aí quando eu descobri que eu engravidei, foi meio que essa situação de ou vai ou racha e segue cada um a tua vida.

E aí foi, né, aonde você tem que se construir como mãe, porque você tá se entendendo, mas você também precisa se reconstruir como mulher, né? Porque eu me tornei mãe, mas eu não deixei de ser a Clara mulher, né? Eu não deixei de ter as vontades também de sair, de estar com pessoas, né? De simplesmente ouvir, não ouvir voz de criança. Poder sentar e não fazer nada, assistir uma série, né, sem hora para começar, hora para acabar.

Então acho que isso foi, né, foi um processo ali onde eu levei uns 3, 4 anos para de fato entender qual era essa minha nova identidade, porque agora eu era Clara, mulher profissional, mãe do Matheus, né. E aí eu comecei a entender, e eu acho que foi mais ou menos nessa fase, quando o Matheus completou uns 4 anos assim, que aí você já saiu da fralda, a criança já come, já tem mais Autonomia, que você começa a entender que do tipo, tá bom, agora eu vou começar a me abrir para outras situações.

Mas aí é muito engraçado isso, porque você começa de fato a perceber situações que antigamente você tolerava, e agora, cara, a régua muda, né?

DGDanielle Gomes

Nossa, não, você fala, não quero, você não quer?

CLClara Liberato

Puts, eu também não, e tá tudo bem. Né? E eu passei a ver relacionamentos de uma forma até um pouco mais leve, eu acho, porque eu acho que não tem essa cobrança tanto, né, de, ah, ela precisa gostar de mim. Não, ela vai gostar pelo que eu sou, né, pelo que eu posso proporcionar. E se você não gosta, cara, eu dei o meu máximo e tá tudo bem. Talvez não seja isso que você mereça. Então acho até que, né, não vou dizer que eu tive relacionamentos, né, depois que que meu filho nasceu, saí com algumas pessoas assim, mas eu acho que tudo se tornou um pouco mais fácil, sem tanto peso assim, né?

O que antigamente eu tinha por conta desse sentimento de rejeição, de chorar, de morrer, como que eu vou viver sem? Hoje em dia é tudo bem, a vida vai seguir, né? E outra pessoa pode ser que venha, se não vier também, cara, segue.

DGDanielle Gomes

Mesmo porque você pariu o amor da sua vida, né? O que vier é lucro.

CLClara Liberato

É difícil hoje em Hoje em dia é difícil. É muito engraçado isso, porque de fato o Mateus era o que eu precisava, né? Eu tinha uma coisa muito certa na minha cabeça quando eu descobri que eu tava grávida. Se for menina, eu, putz, Maria Teresa. Eu tinha um nome. Se for menino, demorou para vir, demorou para vir. E aí depois eu comecei a pensar, cara, eu tinha um nome pronto para uma menina, mas eu não saberia lidar sendo mãe de menina.

E era muito o que eu de fato precisava, né? Talvez era muito isso, eu precisasse de fato passar este amor da vida para de fato uma figura que corresponde, né? Que eu tô educando, que eu tô amando, e que assim é um amor incondicional, né? A gente não consegue nem mensurar isso. E é muito isso. Mas é engraçado porque hoje em dia eu penso, cara, Se eu tivesse um filho, eu acho que Deus agora me mandaria uma menina.

DGDanielle Gomes

Você ter paz?

CLClara Liberato

Não, para eu passar pelos desafios que eu sei que eu preciso passar ainda.

DGDanielle Gomes

Entendi.

CLClara Liberato

Então seria tipo assim uma aprovação.

DGDanielle Gomes

É que eu sou mãe de menino, gente, então acho que por isso meu comentário. Você ter paz?

CLClara Liberato

É, não, meninos são agitados.

DGDanielle Gomes

Nossa, insalubre, amiga, amiga. Gente, agora eu entendo porque eu tinha que tomar biotônico quando era criança. Para ter energia hoje, ou então para ficar alcoolizada. Acho que eu vou comprar biotônico. E é muito interessante porque você foi justamente para uma área, né, por mais que você tenha hotelaria e gastronomia, o que para mim é uma surpresa, fiquei muito feliz, quero que você faça um jantar lá em casa. Mas e para a área de psicopedagogia?

Sim, né, você foi para psicopedagogia depois do Mateus ou antes do Mateus? Como é que foi?

CLClara Liberato

Então, na verdade, o que acontece, né, quando eu tava nessa área de gastronomia, eu trabalhava num restaurante em São Paulo, e era um restaurante que eu gostava muito de trabalhar. Na época era muito, né, prêmio de veja, e o restaurante tava ganhando. Era um restaurante italiano num shopping, e eu amava aquela vida, amava viver sob pressão, né, e você contra o tempo. Então, né, E eu gostava muito daquilo, aquela adrenalina me despertava coisas boas, né?

E eu tinha muito lado também de criação, né? Gosto muito dessa parte. E aí um belo dia me deu um estalo que eu falei, cara, eu trabalho igual uma condenada, eu nado sempre contra todo mundo, porque tá todo mundo descansando, eu tô trabalhando muito, tá todo mundo trabalhando muito, eu tô descansando.

DGDanielle Gomes

Mas é o que o coach fala para fazer, trabalha enquanto eles dormem, né?

CLClara Liberato

Isso aí a gente tem que ver bem, né? Porque E aí eu falei, cara, eu quero ter uma família, né? Eu quero ter um marido, eu quero ter filhos, eu quero ter uma vida, né, ali onde eu consiga de certa forma no final de semana aproveitar e viajar, fazer alguma coisa. E eu não vou conseguir nessa vida que eu tenho hoje em dia. E aí foi quando eu precisei me ressignificar, né, e entender, cara, e agora, que que eu vou fazer da minha vida?

?Voz B

Aí ela falou, adrenalina, trabalhar com criança.

DGDanielle Gomes

É aqui mesmo, perfeito.

CLClara Liberato

E aí foi na verdade aonde eu tive que sentar e eu comecei a fazer um mapa mental, né, porque eu acho que muitas ideias na minha cabeça funciona através de mapa mental. E aí eu me pus no centro, que é um mapa mental. Bom, mapa mental nada mais é do que você colocar ali a ideia central num papel, né, e dessa ideia central ir puxando chavinhas, nuvenzinhas, quadradinhos, círculos, o que você quiser, com ideias que vão surgindo dessa situação, né.

E aí foi onde eu me coloquei ali no centro e eu comecei a me questionar: quais são os meus pontos fortes? Tá, tá, tá, tá, tá. Aí puxava outra: e aí, os meus pontos fracos? Tá, tá, tá, tá, tá. O que que eu gosto de fazer? Quais são as pessoas que eu tenho como referência? E aí eu fui tentando me achar e grande parte dessas respostas começou a aparecer muito a minha avó, né, a mãe do meu pai. A mãe do meu pai basicamente é a minha alma gêmea, né, é onde eu sempre encontrei tudo que eu busquei na vida, era ali na casa da minha avó, no chão da casa dela, na comida dela, no colo dela, nas dela.

E a minha avó era uma pessoa que gostava de cozinhar, foi quem me ensinou de fato a fazer nhoque quando eu era pequenininha, ia para casa dela. Mas a minha avó também foi diretora de creche, né? E eu convivi muito com ela dentro de uma creche. Então comecei a entender a rotina. E ali sempre foi uma coisa que, né, eu gostava. Eu gostava de ver ela dando carimbada nos papéis, lendo diário, né? E aquilo me despertava um interesse.

E aí eu falei, bom, Eu acho que eu vou ver como é que é estudar isso, né, pedagogia, para ver se de fato é isso que eu quero fazer. E aí, quando eu comecei a ver o que era de fato a pedagogia, né, e o desenvolvimento infantil e toda essa parte, eu falei, cara, é isso, eu vou fazer pedagogia. E aí fui fazer a faculdade de pedagogia, ainda não tinha o Mateus. Basicamente, eu consegui terminar a faculdade ali grávida ainda. E aí depois que ele nasceu, né, aí uma vez que você começa a estudar e que você se torna professora, você vai estudar para sempre, a vida esquece, é para vida.

E na educação também a gente precisa estar o tempo todo se reformulando porque os temas não param, né, os desafios, as gerações estão aí e a gente tem que lidar com isso. E aí eu comecei indo atrás de especialização, né, aí eu fiz a primeira, eu fiz psicopedagogia, aí eu fiz neuropsicopedagogia, e aí a gente vai indo, vai indo, e parece que uma coisa vai puxando a outra, e quanto Quanto mais você estuda, menos você sabe.

DGDanielle Gomes

Mais sábio aquele que sabe que não sabe de nada, né?

CLClara Liberato

E aí não para. Então o bichinho da pedagogia me picou assim, e aí estou eu, né? Hoje em dia eu trabalho numa escola.

DGDanielle Gomes

A pedagogia, né? Eu admiro vocês, jamais faria. Amo meu filho, amo criança, mas eu não— é insalubre, né? Pensa em escola diversas ao mesmo tempo.

CLClara Liberato

Mas posso te falar uma realidade? É muito mais fácil diversos ao mesmo tempo e que não são seus assim do que um que é seu.

DGDanielle Gomes

Eu vou mandar o Thomas para tua casa, tá?

CLClara Liberato

Pode mandar.

DGDanielle Gomes

É muito interessante porque, de certa forma, eu posso estar falando uma coisa absurda, eu gostaria que vocês me corrigissem, mas eu vejo uma tendência, claro, não generalizando, mas uma tendência muito maternal de quem busca esse tipo de trabalho. É um cuidado de acolhimento, de atenção, um olhar para criança. Claro, tem muitas pessoas aí, gente, que é uma vergonha, sabe? Mas como qualquer profissão, né? E é curioso isso ter despertado em você, porque você mesma falou, poxa, eu cresci ouvindo dos meus pais que eu era filha do coração e tudo isso.

Então eu imagino que a conexão que você teve com a sua mãe e o entendimento de acolhimento, da maternalidade ali, deve ter sido muito doce na sua vida para você ter buscado algo para você oferecer também. Né? Porque quando a gente pega crianças, que também acontece, né, que não necessariamente adotivas, tá, qualquer tipo de criança que não tem uma relação com a mãe, que tem esse afeto, tem esse carinho, tem essa aliança toda, acaba tendo uma certa aversão do cuidar, né?

É muito comum isso acontecer. Então você olha e fala, nossa, aquela pessoa ela não nasceu para ser mãe, não sabe maternar, não tem uma dificuldade empática, inclusive, né? E a sua tristeza de infância, porque a empatia vem da tristeza, né? É perceptível que você desde muito jovem teve uma elaboração de sentimento que trouxe uma empatia muito grande desde muito nova, a ponto de hoje você ser coordenadora, né? Ela é muito boa, gente, acreditem, a bicha é boa.

E fazer o que você faz com tanto carinho, eu não sei o que você faz no seu trabalho, mas eu sei como você faz, porque todas as vezes que a gente conversa você fala sempre com muito amor, muito carinho, muito respeito do que você faz, né? Então claramente eu imagino que esse afeto todo que você tem pela sua profissão você dedica lá. Como que é para você, Clara, pensar assim, Você, vocês duas, na verdade é uma pergunta para vocês duas, né?

Hoje você não atua em escola, né, amiga? Mas já atuou um dia. Já, muito. Vocês com essa empatia toda, com esse lado maternal, com toda a história de vocês, quando vocês veem as notícias ou até colegas de professoras que tratam as crianças com violência, que Tô falando isso porque saiu na mídia ontem, se eu não me engano, uma professora de escolinha que tirava foto das partes íntimas dos bebês para passar para um pastor. Para um pastor, novidade, né?

Pastor fazendo isso. Gente, me processem, não ligo, não ligo mesmo. Mas não só desse caso específico, mas a gente no geral tem muitas notícias de violência, agressividade, de professoras que prendiam as crianças, amarravam. Como vocês se sentem? É isso que eu queria saber, porque para a gente como público geral que não atua na área e não tem esse conhecimento, é uma coisa. Por mais que eu seja psicóloga, não é meu conhecimento.

?Voz B

Para vocês é muito louco, né, Gi? Porque assim, eu vejo essa área, né, da educação, eu penso sempre assim, para mim, eu já falei isso aqui algumas vezes já, eu estar nesse lugar foi muito natural, porque eu desde muito pequena eu sempre gostei de ensinar, de acolher, de cuidar. Então é um excesso mesmo de cuidado, né? O que também, né, aí pensando no meu funcionamento na minha vida, também me traz também um excesso de cuidado, uma busca incessante por muitas coisas que a gente precisa elaborar ao longo da nossa vida com a maturidade, né?

Mas eu lembro que para mim foi um caminho muito natural. E sempre foi muito óbvio assim, poxa, se para mim foi muito natural e eu estou— eu brincava de escolinha, era minha brincadeira favorita, né? Não era casinha, era escolinha. E eu lembro que foi uma coisa muito natural para mim, eu escolhi estar dentro de sala de aula. Então a minha primeira formação foi letras, né? Então eu lembro que a maior realização da minha vida foi entrar numa sala de aula e ensinar e cuidar e ver que aquele serzinho que tá ali se desenvolvendo.

E aí depois o que me pegou muito foi o quê? Perceber que aquilo ali não era tão generalizado. Eu tinha que entender que cada um tinha uma, um jeito de aprender, uma capacidade, um funcionamento. E aí foi aí que as coisas foram acontecendo, né? Educação especial, né? Os neurodivergentes que entraram. E aí a psicopedagogia, neuropsicologia. E aí eu fui indo para essa parte de clínica, enfim, que eu já tô há 18 anos com clínica, né?

Mas assim, foi esse amor, esse excesso de cuidado que eu sempre tive, mas Eu fico pensando que, como foi uma coisa muito natural, eu tive muitos professores também que me trouxeram uma imagem muito linda da educação, de cuidado, né? Então eu me identificava muito. Ah, professora tal. Mas eu tive também aqueles que eu falei assim, esse daqui ele nunca vai ser referência. Porque você via que não tinha carinho, não tinha cuidado, parecia que tava ali no piloto automático.

E a gente sabe que isso acontece em qualquer profissão, enfim. Mas para mim sempre foi um caminho muito natural. Então quando hoje eu vejo esse tipo de notícia, a gente olha, a gente fala, gente, que para onde a gente tá caminhando? Que horror você escolher trabalhar com isso e você não, não tem empatia, você não ter cuidado, né? Principalmente quando se tratam de crianças, né, que não tem nem maturidade, né, emocional, cognitiva.

Você tem, são pessoas que estão ali te olhando como uma referência, né? Então eu acho isso surreal a gente ouvir e ver. E é muito comum, e é muito comum, infelizmente é muito comum. Ah, é aquela faculdade que é mais em conta. Ah, eu não sei o que eu quero, vou fazer qualquer coisa para trabalhar em algum lugar. Ou porque até a família tem algum nicho de trabalho específico e a pessoa vê naquilo um caminho, né, que talvez seja mais fácil, né.

E aí é por isso que eu acho que as coisas acabam tomando tanto esse rumo, né. Né, Clarinha, o que que você pensa disso?

CLClara Liberato

Eu vejo, né, e eu olho e eu sinto muita dor nessas situações, porque a gente tá falando de seres em formação. De seres inocentes, né, que te tem ali como uma referência. E, cara, hoje em dia, no mundo que a gente vive, com, né, com tudo tão rápido, por que que você escolheu estar na pedagogia se você não ama o que você faz? Você tem qualquer curso à disposição, né, trabalho. Gente, hoje em dia tem uma infinidade de trabalhos para você fazer.

E muito dói, né, porque assim acaba que fica essa coisa, generaliza, né, a gente ver, ficam assustados com todos no final, né?

DGDanielle Gomes

Mas essa pergunta que vocês dois trouxeram, né, que eu achei interessante, eu acho que eu tenho a resposta para vocês. Por que que a pessoa escolhe isso se ela sabe que não? Sabe uma coisa curiosa? Tem muito piromaníaco como bombeiro, tem muita gente sádica na enfermagem. Bom, então muitas vezes as pessoas escolhem o caminho, né, não necessariamente porque tem um talento, etc. Isso também não necessariamente é algo consciente, tá, gente?

Sim, sim, sim. Mas a escolha por um caminho onde ali ela vai ter acesso, vai te dar facilidade para você acessar a outra parte. Exato. Então é muito comum professores de educação física, técnicos de de times e etc., femininos e masculinos, né? Então é muito interessante vocês duas trazerem, porque vocês só estão perguntando e se perguntando isso porque nem passa na régua de vocês. Eu vi pela carinha de vocês quando eu falei isso, nem passou pela cabeça de vocês.

Esse lado maternal de amor, de cuidado, que acaba sendo surreal você ver uma pessoa de dentro falar.

CLClara Liberato

Porque aí eu, gente, a primeira coisa que eu penso, cara, é doentio você entrar numa escola com esse tipo de pensamento.

DGDanielle Gomes

Exato, da mesma forma que é doentio você entrar numa corporação policial e você ter prazer em matar uma pessoa com seu joelho, né? Então quando a gente faz essas perguntas é muito curioso, porque realmente foi muito interessante ver a reação de vocês duas aqui, que foi muito surreal. As duas fizeram uma carinha aqui do tipo, nunca tinha pensado nisso, né?

?Voz B

E é muito comum mesmo, você vê muito, porque o nosso caminho é tão genuíno que quando a gente ouve que possa ser uma disfuncionalidade do seu, que a gente fala Estamos falando de seres humanos, né? E muita inconsciência, muitos mecanismos aí sombrios, inconscientes. Mas a gente fala, isso é muito interessante, Gi, porque é isso mesmo, é exatamente isso.

DGDanielle Gomes

Você falou da enfermagem, é, mas isso em todas as profissões, né? Então é claro, tem profissões, quanto mais poder de, né, de voz que você tem para as pessoas, mais existem pessoas buscando isso por serem abusadores. Abuso, gente, né? Lembra, tem vários tipos de abuso, né? Tem o financeiro, tem a violência física, tem sexual, tem vários, emocional, psicológico. E quando a gente fala sobre profissões, tem o lado bonito das pessoas que têm realmente esse dom, né?

E que eu acho muito bonito em vocês duas, isso admiro muito. Mas a gente não pode esquecer que às vezes o colega do lado, né? Você já teve alguma situação, Clara? Claro, a gente não vai falar nome de ninguém, tô falando na vida, né? Alguma situação em que você tava executando um trabalho ou vivenciando uma situação em que você presenciou algum tipo de profissional da área agindo de uma forma que você não concordava? Já, já.

CLClara Liberato

A gente não pode negar que essas situações existem, né? Eu acho que de certa forma muitas coisas ali, quando você tá, né, são testadas. A gente é ser humano, humano, né? Então muitas vezes eu, graças a Deus, nunca tive, né, o azar de ver de fato uma violência que chegasse a ser física. Mas já vi situações de, né, a pessoa levantar mais a voz, colocar palavras em lugares errados, mais situações assim.

?Voz B

Mas já vi sim essas inadequações todas, o próprio bullying vindo da onde não deveria vir também, né, dentro de escola. Ela, né, principalmente bullying.

DGDanielle Gomes

É um bom tema, né? Você falou que buscava sempre essa adequação, né, de ser sempre a menina mais bonita, mais legal e tal. Você já sofreu bullying em algum momento ou você conseguiu se camuflar muito bem? Eu acho que é uma camuflagem da gente. A gente, eu acho que eu consegui passar por situações ali onde, né, O fato de você ser uma filha adotiva nunca veio à tona, por exemplo, como algo?

CLClara Liberato

Já, já.

?Voz B

O que intensificou talvez todo esse seu mecanismo de entender que possivelmente houvesse uma necessidade de busca muito grande sobre esse porquê, entender essa adolescência, né, Clara?

DGDanielle Gomes

Que eu acho que, eu acho que é onde se intensifica, né, se intensifica.

CLClara Liberato

Duas coisas assim de bullying que me marcaram muito em relação a isso foi que eu tinha sido achada num saco de do lixo.

DGDanielle Gomes

A minha irmã me falava isso a vida inteira, fala até hoje.

CLClara Liberato

E que eu era filha de chocadeira. Então acho que esses foram os dois pontos assim que marcaram de fato, né?

DGDanielle Gomes

Isso você tem memória de quantos anos mais ou menos?

CLClara Liberato

Essa do lixo eu era menor, e essa de filha de chocadeira eu já tinha 30 anos.

DGDanielle Gomes

30 anos? A gente tá falando de uma coisa que não faz muito tempo, né?

?Voz B

Você ouviu isso de um adulto, teoricamente? Foi.

DGDanielle Gomes

Você tinha alguma ligação com essa pessoa?

CLClara Liberato

Tinha.

DGDanielle Gomes

Eu tô brincando de cara a cara aqui, gente. Eu vou começar: era careca? Tinha bigode? Estamos falando ser humano, olha onde chega.

CLClara Liberato

E foi de um relacionamento que eu tive, inclusive do genitor do meu filho.

DGDanielle Gomes

Ah, eu tava quase chegando nele agora. Eu quase ia falar: é loiro, moreno? Eu tava baixando aqui porque era meu suspeito principal. O genitor do seu filho, ele falou isso para você? Falou, falou. Você tava grávida?

CLClara Liberato

Tava. E por conta de ser filha de chocadeira, eu não teria condição de criar uma criança. E aí eu fiz o contrário, eu provei para ele que eu era excelente no que eu ia fazer, e todos os dias é a minha escolha. Filha, cuidar do meu filho e ser uma excelente mãe e fazer tudo que eu posso por ele.

DGDanielle Gomes

A gente tá falando de uma violência grave, né?

?Voz B

Muito grave.

DGDanielle Gomes

Isso é a kriptonita, né? Uma pessoa escolheu usar uma kriptonita contra alguém que tá grávida do filho, né? Isso faz eu questionar: houveram outras violências que você Você já contou?

CLClara Liberato

Sim, eu já tinha falado que foi uma situação onde, né, eu tinha um relacionamento que não era saudável e que havia muita violência, psicológico e verbal, físico também.

DGDanielle Gomes

Muito bem. E dentro dessa situação, né, que você olhou para o seu parceiro, e obviamente você não tinha um parceiro, você tinha um rival ali, né, um adversário. Como foi o acolhimento dos seus pais quando você engravidou e eles te viram nessa situação de que não teria esse suporte?

CLClara Liberato

Foi extremamente melhor do que eu imaginava, né? Meu pai é uma pessoa que ali ele tem a religião muito, né, dentro do que ele acredita e muito fechado. Meu pai é super católico e acho que esse era meu maior medo, né? Chegar para o meu pai que é super católico, ele chama de E dizer, pai, eu estou grávida, né, e tô nessa sozinha. E eu tinha muito medo. O meu maior medo era que ele me rejeitasse. E aí foi até onde eu comecei a pensar, cara, se eu não tiver rede de apoio, essa criança vai ser feliz, eu vou pôr para adoção.

E aí eu lembro muito bem, né, quando eu descobri, meu pai tava viajando, ele tava numa viagem que ele tinha ido jogar golfe com os amigos. E eu contei primeiro para minha mãe. A minha mãe ficou meio ali na hora sem saber o que fazer, não entendeu muito a situação. E aí Ela falou, olha, você vai ter que contar para o seu pai, ele vai chegar de viagem. E eu falei, putz, agora minha vida acabou, né?

DGDanielle Gomes

E aí foi, eu lembro, quantas semanas na época, quantos meses?

CLClara Liberato

Eu descobri muito cedo porque eu sempre fui um reloginho. E aí quando eu percebi que alguma coisa tava assim fora, eu já descobri. Então basicamente com 6 semanas eu já descobri que eu tava grávida. E foi bem nisso assim que eu contei para eles. E aí eu lembro até hoje, a gente morava num apartamento ali nos Jardins, né? E esse apartamento tinha um corredor corredor comprido e no fundo tinha um espelho que muitas vezes você olhava para aquele espelho, o corredor parecia infinito, né, porque ele não tinha fim.

E aí eu lembro que eu cheguei do trabalho, na época eu tava trabalhando numa escola em São Paulo, e aí meu pai tinha chego de viagem e eu olhei para ele e falei, pai, a gente precisa conversar. Aí ele falou, ah, tá bom, vamos conversar. E aí eu fiquei assim, mal sabia ele. Aí eu falei, vamos no meu quarto. E aí eu lembro dessa cena que, gente, Parece filme assim, sabe? O corredor da morte, que você tá caminhando, caminhando, e você sabe que tipo assim alguma coisa vai acontecer, você precisa falar, você precisa tomar uma atitude.

E aí eu lembro que a gente foi andando no corredor, a hora que a gente virou para direita, que era o meu quarto, né, direito meu, esquerda da minha irmã, a gente— ele sentou na cama, né, com aquela carinha que ele tem, meio sorrisinho. A minha mãe sentou do lado dele e ela abraçou ele do tipo assim, se ele tiver alguma coisa, eu seguro. E aí eu falei, pai, não adianta eu ficar floreando, não adianta eu tentar falar de um jeito que vai ser mais leve, então eu vou falar de uma vez.

Aí nisso ele deu uma arregalada de olho assim, né? Eu olhei e falei assim, eu tô grávida. Aí ficou aquele silêncio que parece duas horas, mas que foi muito rápido. Nisso ele olhou para minha mãe e falou, eu vou ser vovô. E aí foi aonde me desmontou, né? Porque ali eu entendi que eu ia ter todo suporte que eu precisava. E aí foi onde eu tive a confirmação de que coisa mais linda. E aí desde então eles sempre me apoiaram em tudo, né?

Eu tinha um sonho de viajar, fazer enxoval em Miami. Minha mãe foi comigo, meu pai me ajudou. E assim, tudo, tudo que eu sempre precisei em relação ao Mateus, meus pais me apoiaram, né? Eu acho que o Mateus também veio de uma forma de trazer mais vida para os meus pais, né? Meu pai já era uma pessoa que tava, ah não, já tô no final da vida, né? Em 10 anos eu vou morrer. E depois que o Matheus chegou, parece que assim as coisas mudaram, né?

Ele tem mais disposição, as pequenas coisas já fazem ele sorrir, né? E era engraçado porque quando o Matheus era muito pequenininho, que não falava, né, ele queria falar vovô e ele não conseguia falar vovô. E a primeira coisa que saía era cocô, cocô, cocô. E meu pai achava lindo aquilo, tipo, ele tá falando cocô. Isso aí sou eu, né? E aí do Cocô virou Jojô, do Jojô virou vovô. Então você percebe que assim trouxe muita alegria, né?

E assim, não tenho o que falar, né, dessa rede de apoio, da resposta que meus pais me deram quando eu mais precisei. E é engraçado, né, que voltando na situação ali desse afeto, meu pai sempre foi uma pessoa muito do corporativo, então ele sempre foi extremamente racional, né? Então a linguagem do amor dele era diferente. E a minha mãe, ela também tem uma linguagem um pouco diferente, né? Eles nunca foram pessoas de abraçar, de beijar, de grudar, de carinho, de senta no meu colo, não.

Mas eu sempre senti o amor e a segurança da forma que eles podiam me oferecer, né? Meu pai muitas vezes era no olhar, era nas conversas, né? Era nas coisas que ele proporcionava para mim. E a minha mãe vinha de um lado de sempre tinha uma segurança. Olha, eu não sei como a gente vai vai fazer, mas a gente vai fazer, vai dar certo. Respira, eu tô aqui, tá tudo bem. E essa parte do afeto, aí vem a resposta. Eu encontrava muito na minha avó, que era a pessoa com quem eu sempre tinha isso, né?

Eu ia para casa da minha avó quando tava difícil, eu deitava no chão da casa dela, deitava no colo dela e ela ficava me fazendo carinho. Então eu tinha esse afeto vindo da minha avó. Então eu fui assim munida de diversas formas de amor e diversas linguagens. Conheceu? Graças Que coisa boa! Isso era um dos sonhos que eu tinha, né, que ela pudesse conhecer. Ela já tava bem doentinha, então basicamente foi um ano, né, que ela conseguiu ver ele.

Mas ela conheceu, ela foi na maternidade, as minhas duas avós foram e tiveram essa oportunidade, né, de ver um bisneto ali. Então foi muito gostoso assim, né. Hoje em dia, parando para olhar para trás e ver a figura dos meus pais, eu acho que muita coisa eu ressignifiquei de tudo que de fato eles que eles deram para mim durante todo esse tempo e olhar talvez com um pouco mais de empatia, né? E entender que de fato assim, meu pai e a minha mãe foram pais chatos, mas não era porque eles queriam implicar comigo, é porque eles entendiam que o mundo ia me bater e eu me bater com força.

A Dani vai chorar, eu vou chorar também. E que o mundo ia me bater com força e que eu precisava estar pronta para isso, né? Então todo não que eu passei, hoje em dia quando eu olho para o meu filho eu entendo, né? Todas as vezes que a gente dá risada e fala, ah, mas você não é todo mundo, de fato, cara, eu não sou todo mundo. E é muito legal não ser todo mundo, porque hoje em dia se eu cheguei onde eu cheguei é graças ao meu pai e a minha mãe. Então pai, mãe, eu amo vocês, obrigada por tudo.

?Voz B

Eu tô completamente sem Falar de vó, falar de vó para mim também é, é, eu tenho muito isso.

CLClara Liberato

E eu acho que, né, eu falei, a minha avó foi a minha alma gêmea. E a minha avó, memória afetiva, né, sempre foi a pessoa que eu busquei, né. E hoje em dia eu também sou muito grata a Deus por o meu filho ter essa oportunidade de ter avó, né. Porque, cara, se ser mãe já é Imagina você ser avô, é com açúcar, que você pode estragar, que você não tem aquela responsabilidade de educar, né, que o fardo é leve. Então eu acho que é muito isso, né.

E acho que falar de família, né, muitas, pelo menos eu tive a sorte de ter uma família excelente que escolheu me amar e que escolhe todos os dias, né. Não é porque eu não sou biológica.

?Voz B

E até da própria palavra, né, da origem da palavra, quando a gente fala de adotar, né, Clarinha, esse verbo verbo maravilhoso aí, que que é? É o acolher por escolha, escolher para si.

DGDanielle Gomes

É isso, né?

?Voz B

E eu tô sem condições.

DGDanielle Gomes

Eu vou agora entrar no— eu causo isso nas pessoas, tá? Eu acho que eu vou entrar aqui para dar um tchan. Não sei, não sei como que é, Clarinha, mas você Você percebeu que todo esse lado maternal vai para relacionamento? Você é materna, boy? Cara, você é materna, boy? Dani materna.

CLClara Liberato

Ó, eu acho que antigamente sim, eu acho que eu tinha esse desafio de querer cuidar, mas eu acho que ser tolerante demais, de passar a mão na cabeça, eu acho que sim. Hoje em dia eu acho que não, eu acho que eu consigo assim de certa forma também colocar um limite, entender que você tem um filho só. Mas algumas vezes eu escorrego também.

DGDanielle Gomes

Ai, meu Deus, vocês me dão trabalho.

CLClara Liberato

A gente não tem como, a gente quer cuidar.

?Voz B

Amiga, amiga, desculpa.

CLClara Liberato

Amar é cuidar, não tem como.

?Voz B

Difícil.

DGDanielle Gomes

Você hoje, pensando, você tem o Mateus, né? Ele já vai fazer seus 9 anos, né? Você entende que a sua família completou ou você pretende de ter mais um filho?

CLClara Liberato

Cara, isso é uma pergunta que mexe um pouco comigo, porque eu sempre tive, né, um sonho de viver aquela maternidade que todo mundo acha ideal, né, que é bonito na propaganda de margarina, né, que tá ali o pai, a mãe, que o pai tá fazendo carinho na barriga da mãe. Então eu não vou falar para você que eu tenho vontade, né, de passar por uma nova gestação. Eu gostaria muito de viver uma situação diferente, Mas hoje em dia eu entendo também, né, que relógio biológico, todas essas coisas.

O que eu tenho pedido muito é que minha família cresça, mas que seja da forma que Deus queira, né? Se eu puder adotar uma criança, eu vou adotar. Se eu ainda tiver sorte de gerar um filho, eu tô aberta a gerar. Se eu não tiver nem que adotar e nem gerar um filho, mas eu tiver que receber uma criança de, né, de um outro relacionamento, de uma pessoa que está comigo também vai ser amada igual. Então acho que hoje em dia eu tô aberta assim, mas eu sonho muito em ter uma família grande assim, sabe?

Casa cheia, um monte de gente, aquele Natal bagunçado que ninguém sabe o que tá acontecendo. Mas tenho muita vontade, acho que é um dos sonhos que eu tenho ainda assim. Mas eu entendo também, eu acho que também foi uma coisa que eu tive que desmistificar muito muito esse estereótipo de família perfeita, né? A família, para ser perfeita, precisa ter um pai, uma mãe e 2, 3 filhos. Não, cara, a minha família é perfeita do jeito que ela é, né?

E a gente se completa e a gente se entende e tá tudo bem. Mas se agora você quer vir para somar, para extravasar o que eu já tenho, você é bem-vindo.

DGDanielle Gomes

Senão A história da Clara é um recorte lindo, né? Mas lembrando sempre que é um recorte. A gente tá falando de uma mulher branca, hétero, de nível social, né? Pai dela tava jogando golfe. Mas a realidade, né, das pessoas no geral não é necessariamente essa. E às vezes acontecem casos muito difíceis, né, de um abandono absoluto. Não tem essa rede de apoio familiar, A mulher, ela realmente fica sozinha, assim, solo no absoluto, né?

Ou não tem condição financeira para isso, até mesmo isolamento, né, gente? Exato. E não há como negar, como não só o Brasil, o mundo, né, como existe uma diferenciação racial inclusive, o que é um absurdo, né? Como as mulheres negras, elas passam por outras situações. E de abuso social mesmo, né, de enxergar como se fosse menos, né. Você não está apta a fazer parte de um grupo. A gente iniciou falando sobre essa segregação que acontece de grupos na escola, mas não só na escola, né, socialmente.

E acontece muito também uma outra situação que é o solo, não porque foi mãe solo na criação, mas quando a mulher fica solo na viuvez, é muito comum acontecer. E eu posso trazer a experiência até da minha própria mãe como exemplo, não que seja única, mas é um exemplo. O casal é sempre muito social, incluso, todo mundo chama, tal. O marido falece, a esposa é largada, é deixada de lado, ninguém mais Ninguém mais chama para absolutamente nada.

Então você vê que é quase uma— a sociedade espera que você sempre seja um par, sempre seja um par. Porque principalmente a mulher— o homem pai solo, ele é praticamente o Batman.

CLClara Liberato

Não, ele é visto como super-herói.

DGDanielle Gomes

O pai trocar uma fralda no sábado é assim, meu Deus do céu, você recebe elogios. A mulher, mais que obrigação, homem não ajuda, o marido não ajuda a esposa, gente. Marido paterna, tá? E limpar a casa não é função da mulher, o homem também mora lá, vocês dividem o mesmo ambiente, é função dos dois. Mas o homem ser visto como super-herói porque tá com filho, se fosse assim, a gente tava no Olimpo rodeada de deusas, né? Mas a mulher Ela tem que trabalhar como se não tivesse filho e tem que ter filho como se não tivesse que trabalhar.

?Voz B

Tem que equilibrar tudo.

DGDanielle Gomes

É 100% em todas as funções, né? E não é só uma expectativa corporativa, né? É uma expectativa social também. Ninguém pergunta para um jogador de futebol se ele vai parar a carreira porque nasceu um outro filho. Ninguém pergunta para eles, e aí, como é que você tá, né? Porque você faltou na apresentação do seu filho na escola. Ninguém pergunta para ele, mas pergunta para as jogadoras, né, de futebol. Então esse fardo que nós mulheres a gente carrega, né, que é extremamente cansativo e que pesa muito na mãe solo, porque por mais que sejamos mulheres muito bem resolvidas, sempre tem um olhar.

CLClara Liberato

A sociedade julga, né? Eu acho que hoje em dia, se parar para pensar, Dani também deve viver isso, cara. Quantas vezes a gente sai para ir num barzinho, né, para ir jantar, para ir fazer alguma coisa e as pessoas: mas com quem que você deixou seu filho?

?Voz B

Ele tá com o pai. Ah, mas aonde ficou?

DGDanielle Gomes

Por quê?

CLClara Liberato

Enfim, parece que assim, eu não tenho esse, mas é super comum, eu não tenho esse direito, né?

DGDanielle Gomes

Você não.

CLClara Liberato

E principalmente quando você tipo sai para de fato se divertir, para beber uma coisa, para dar risada.

DGDanielle Gomes

Imagina, você é uma péssima mãe sozinha, gente, péssima mãe.

?Voz B

Parece que assim, você Ah, saiu sozinha, mas ué, e seu filho? E o filho ficou com quem?

DGDanielle Gomes

Mas é uma pergunta que os rapazes não têm resposta. Amarei! É? Eu te digo.

?Voz B

Porque você ficava sozinho ali lavando a louça.

DGDanielle Gomes

Eu enfiei no cu. Aí o seu cu tem quantos aí dentro?

?Voz B

Você quer um boleto, velho? A gente tá dando um boleto.

DGDanielle Gomes

E assim, a gente ouve às vezes de amigo, né? Não é desconhecido somente, né? É amigo também. Também. Então é uma coisa cansativa, né? Parece que sempre tem que ficar dando uma satisfação, como se você não tivesse o direito. Exato.

CLClara Liberato

E é muito engraçado isso, porque assim, o que te diferencia, né, de uma pessoa que tem um par, que tem um relacionamento, e uma pessoa que não tem, mas que assim faz o que tem que fazer, trabalha do jeito que tem que fazer? Qual a diferença?

?Voz B

É julgamento, né? Impressionante.

CLClara Liberato

De como tudo é motivo de, né, é o pré-conceito da sociedade, né, de olhar para mulher e ver a mulher ali como uma situação de, ah, você é frágil, você não tem direito de fazer isso, você não pode fazer isso, né. E você vai fazer o quê com seu filho?

DGDanielle Gomes

É perder a sua própria identidade. A partir do momento que você vira mãe, você é só mãe. É.

?Voz B

E aí quando você fala que não estou muito bem assim, ótimo, mas você não vai arrumar uma outra outra pessoa.

CLClara Liberato

Não quero.

DGDanielle Gomes

Ai, que lindo! Olha, sabe o que você podia responder? Eu arrumei um bonsai. Bonsai, gente, é um job trabalhar aquilo ali, sabia? Ficar podando, cuida do bonsai. Eu acho que a troca aí, vamos maternar bonsai, é uma ideia.

CLClara Liberato

Eu acho que chega de maternar boy, maternar uns bonsais.

DGDanielle Gomes

Um grupo para mãe só chamado do bonsai. Boa, boa, boa, boa, boa, boa! Ai, gente, mas é assim, é um tema que realmente quando a gente busca parece que é, ele vai ramificando, ele vai ramificando. Você falou uma coisa muito curiosa, poxa, eu vi numa postagem, a partir dessa postagem algumas pessoas falaram, não é um tema que é trazido, você viu uma postagem, né? Aqui é um vídeo, a gente já tem um episódio sobre isso. Infelizmente é um tema que até nas procuras assim você tem que garimpar, né, porque as pessoas realmente evitam isso.

Muitas mulheres, quando o relacionamento não tá bom e você vem sozinha com filho, não falam nem para os amigos, nem para os amigos, por esse receio do preconceito de como que vão olhar, como que vão julgar.

CLClara Liberato

Exato, que vão julgar, vão julgar.

DGDanielle Gomes

E também tem a questão do luto, né, o luto da expectativa expectativa. Quando você engravida, existe a expectativa essa que você acabou de falar, da expectativa Disney World, né, que é você vai ter uma família feliz e viverão felizes para sempre. Existe uma dor muito grande quando você se vê fragilizada pela gravidez. Gente, é hormonal, tá? Além de tudo, hormonal, não é só psicológico. Muda tudo. Você se vê num luto de tudo aquilo que você planejou cair nas Cataratas do Niágara do pica-pau, gente.

Então é muito complicado. E ao mesmo tempo, para as mulheres, assim como você mesma trouxe, poxa, eu gostaria que a minha família aumentasse, mesmo que seja filho de um parceiro e tal. Essa disponibilidade da mulher de maternar mesmo filho de outro, mas a indisponibilidade dos homens de aceitar uma mulher com Então são tantos fatores que dificultam que dá vontade realmente de largar tudo e namorar um bambu, né? Vou virar um golfinho, vou à merda todo mundo.

Eu adoro, eu realmente mando tudo à merda, eu não ligo mesmo para as pessoas. Mas eu adoraria que a sociedade fosse assim.

CLClara Liberato

Preguiça que me dá. Mas é, mas eu acho que é muito isso, a gente sobe muito a régua porque, cara, eu já Chegou aqui, ó, ou você vai chegar aqui me acompanhar e me extrapolar, meu gente, sai, né?

DGDanielle Gomes

Porque assim, você também tem que, a partir do momento que vocês entendem o valor que vocês têm, cara, primeiro, quem é você? Será que você vai ter o privilégio de conhecer meu filho, minha filha?

?Voz B

Pois é.

DGDanielle Gomes

Será que você merece entrar na minha casa?

?Voz B

Pois é.

DGDanielle Gomes

E ter o privilégio de conhecer essas pessoas? Então quando você muda essa chavinha e consegue entender o tesouro que vocês têm, e que vocês não têm que ser o test drive, não são os caras que têm que fazer o test drive em vocês, são vocês que têm que fazer isso.

?Voz B

Meus amores, cuidado com essa carência, meu Deus do céu!

DGDanielle Gomes

Vocês que têm que fazer o test drive, porque vocês têm uma coisa muito preciosa na vida de vocês, que é o amor da vida de vocês. Então não é, ai, ele aceita, então vou ficar com ele. Não é Não é assim não, não é assim.

CLClara Liberato

É um privilégio, né?

DGDanielle Gomes

Exato, é um privilégio essa pessoa poder ter acesso ao filho de vocês. Só que isso vocês precisam entender, o valor que vocês têm. Gata, obrigada! Acabou já? A gente fica aí à tarde, né? A gente vai alongar porque a gente vai pensar no projeto juntos ainda, gente. Aguardem. Mas, Clara, eu sei que hoje a Clara tá vivendo um momento muito difícil, né, na vida dela. Com a família dela. E eu só tenho a agradecer que você realmente peguei esse tempo para falar da sua história.

CLClara Liberato

Muito gostoso, muito, muito, muito. Eu acho que, né, assim, eu não sei qual que é a minha missão na Terra, a gente nunca vai saber de fato, né? A gente sempre caminha, né, tentando entender, tentando evoluir, tentando melhorar. E eu acho que hoje em dia, até se tratando de crianças, né, eu sou da área da educação infantil e que tudo que a gente planta na educação infantil não é a gente que vai colher, né? Os frutos vão florescer lá na frente.

A gente nunca vê de fato. Às vezes são coisas muito pequenininhas que a gente vê, mas a gente vê. Então eu acho que assim, o que eu falei, né, se puder ajudar 0,01%, eu acho que eu diria para as mulheres que estão na mesma situação, que eu diria, ai, gente, Tem muita coisa, mas eu acho que a primeira coisa que eu diria é o quanto elas são incríveis, né? E o quanto tá tudo bem muitas vezes não saber o que fazer. A gente não vai dar conta de tudo.

E eu acho que o mais importante é isso, né? A gente não se culpar, né, por não dar conta. É a gente olhar muitas vezes esse desafio com carinho e falar, tá, eu não dei conta, tá tudo tudo bem, daqui para frente o que eu vou fazer para melhorar? Tudo dá certo, né? Tudo vai funcionar de um jeito. Nós mulheres somos incríveis, né? A gente faz o mundo girar e a gente cria vida.

DGDanielle Gomes

É uma coisa mais invejável que isso. E ele acha que eu falo aquela bosta.

CLClara Liberato

Então eu acho que é isso, né? Eu admiro todas as mulheres, as solos, as não solos, né? As que levantam todo dia e querem fazer a diferença na vida também. E tem todos assim muito, né, valor. Eu acho que o mais importante é isso, a gente não esquecer o nosso valor, a gente se olhar também com carinho, né? E muitas vezes entender que esse preconceito, esse pré-julgamento, diz muito mais sobre o outro do que sobre a gente.

DGDanielle Gomes

Se inscrevam, pois é, compartilhem, curtam, comentem, tragam temas, tragam juntos. Manda mensagem, deixem recadinhos para nós. Obrigada, gente, por acompanhar, viu? Vocês viram que a gente sempre traz pessoas muito legais, muito incríveis, e alguns tocam mais no nosso coração, né?

?Voz B

Somos pessoas.

DGDanielle Gomes

Muito obrigada, gente, por acompanhar. Obrigada demais, foi um prazer enorme, gente. Obrigada, beijo!