Episódios de ExpertCast - Inovação em Saúde

88- Como reinventar a saúde pública no Brasil ( parte 2 )

19 de agosto de 202639min
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Como a tecnologia e a gestão inteligente podem transformar a saúde pública na prática? 

Na segunda parte do episódio sobre a reinvenção do SUS, Gustavo Meirelles dá continuidade à conversa com o médico, pesquisador e deputado federal Daniel Soranz para debater inovação, sustentabilidade e o futuro da formação profissional.

Com uma trajetória que une a vivência no consultório, a pesquisa acadêmica na Fiocruz, a gestão pública e a atuação no legislativo, Soranz compartilha como uma visão 360° viabilizou grandes conquistas. Entre elas, destaca-se a criação da Lei do SICS (Sistema Integrado de Compras de Saúde) que, ao centralizar e otimizar processos burocráticos como a compra de medicamentos, projeta uma economia bilionária para os cofres públicos.

O convidado também detalha soluções práticas de saúde digital implementadas no Rio de Janeiro, como o censo hospitalar em tempo real e ferramentas inteligentes de apoio à decisão clínica integradas ao prontuário eletrônico.

A conversa aborda, ainda, o desafio de equilibrar o orçamento do SUS frente à incorporação de novas tecnologias médicas de alto custo, a importância de combater desperdícios e o papel crucial da educação continuada. Afinal, diante de um mundo hiperconectado, os futuros profissionais de saúde precisam ser formados para aprender constantemente.

Você também pode gostar de ouvir o episódio: Transformação Digital do SUS, com Ana Estela Haddad 

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Participantes neste episódio2
G

Gustavo Meirelles

HostVice-presidente médico da Áfia
D

Daniel Soranz

ConvidadoMédico de família e comunidade
Assuntos6
  • Inovação e Tecnologia no SUS· SaudeProntuário eletrônico·Inteligência artificial na saúde·Censo hospitalar em tempo real·Ferramentas de apoio à decisão clínica·Onde Ser Atendido
  • Formação Profissional Contínua· EducacaoAprendizado ao longo da vida·Habilidades práticas·Formação em universidades e hospitais·Interação universidade-sistema de saúde
  • Lei do SICS e Compras Públicas· EconomiaLei do SICS·Compras públicas de medicamentos·Economia bilionária·Licitações de dipirona
  • Financiamento e Sustentabilidade do SUS· SaudeSubfinanciamento do SUS·Custo de novas tecnologias·Avaliação de tecnologias em saúde·Incorporação de medicamentos·Desperdício de recursos
  • Trajetória e Aprendizados· SociedadeVisão integral do sistema de saúde·Experiência clínica·Pesquisa acadêmica·Gestão pública·Atuação legislativa
  • Inovação Transformadora· TecnologiaTelefone celular·Tecnologia vestível
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GMGustavo Meirelles

Olá, eu sou Gustavo Meirelles, médico radiologista, vice-presidente médico da Aafia e fundador da CIS, Comunidade de Inovação em Saúde. Nessa segunda parte do nosso episódio, eu vou continuar a nossa conversa com Daniel Sorans sobre como reinventar a saúde pública no Brasil discutindo aqui o papel da gestão, das inovações, da formação profissional e novos caminhos para tornar o SUS ainda mais atrativo, sustentável e centrado nos pacientes.

Eu tenho o prazer de receber novamente o Daniel Sorans, médico de família e comunidade, deputado federal pelo Rio de Janeiro, ex-secretário municipal de saúde do Rio, doutor e mestre em saúde pública, professor e pesquisador da Fiocruz. Daniel tem uma experiência rara aqui, somando prática clínica, pesquisa, gestão pública e uma atuação legislativa em defesa da saúde. Daniel, seja muito bem-vindo novamente para a gente continuar aqui essa ótima conversa sobre a reinvenção da saúde pública no Brasil.

DSDaniel Soranz

Super, Gustavo, prazer imenso estar aqui com você novamente. Espero que a gente tenha um podcast Whisper Podcast cada vez mais bombando. Já tô caçando os anteriores aqui para assistir. Parabéns aí pelo trabalho.

GMGustavo Meirelles

Muito obrigado. A gente tem um arquivo muito legal hoje de mais de 3 anos, 150 episódios com diversos temas. Falamos de inteligência artificial, falamos de inovações na gestão da saúde pública, mas é muito bacana a gente falar aqui com você que realmente conseguiu reinventar a saúde pública no Rio de Janeiro. Eu vou começar a puxar a primeira pergunta a respeito desse tema, né? Você viveu a saúde pública a partir de diferentes óticas e lugares: médico, pesquisador, gestor e parlamentar.

Então eu acho que eu também fico me olhando aqui como médico, pesquisador, Executivo em saúde, inovador na saúde. E aí são vários chapéus que a gente tem que ir segurando, mas ao mesmo tempo são experiências que mudam nossa visão sobre o que realmente transforma um sistema de saúde. Então eu queria saber como é que foi isso para o Daniel, né, sair ali do médico que de repente vai para gestão, é deputado federal. Conta um pouquinho da sua trajetória e os principais aprendizados que você teve.

DSDaniel Soranz

Gustavo, olhar esse sistema de maneira integral é excelente, né? Eu acho que quando a gente vai mudando de posições dentro do próprio sistema, vai te agregando muita informação e muito conhecimento que você não tinha anteriormente. Então, quando eu era médico de família em Manguinhos, servidor da Fiocruz, antes de secretário de saúde, toda essa experiência que eu acumulei desse período contribuiu para secretaria. Essa experiência na secretaria de mais de 14 anos como secretário de saúde do Rio me ajudou a acumular conhecimento para o mandato de deputado federal.

O meu mestrado, meu doutorado em saúde pública contribui muito para um olhar diferenciado na Câmara dos Deputados. Então cada ponto que a gente vai passando na vida vai deixando é um pouco de conhecimento e vai deixando é um olhar que vai se complementando, né? Hoje, por exemplo, eu tinha um projeto de pesquisa, Gustavo, que era um projeto de compras públicas. Há mais de 10 anos eu discutia isso, que é o quanto que o nosso sistema de saúde é ineficiente para comprar, para comprar medicamentos, por exemplo.

A gente faz 4 mil licitações para comprar dipirona no Brasil, sendo que a gente tem 12 produtores de dipirona somente no país inteiro. Então não faz o menor sentido isso. Só como deputado federal é que eu consegui avançar com esse projeto. Então meu conhecimento na gestão, meu conhecimento na Fiocruz permitiu que eu pudesse usar esse conhecimento para criar uma nova lei, que é a Lei do SICS, que já foi aprovado na Câmara, no Senado, o presidente da República já sancionou, o MGI deve publicar a regulamentação nas próximas semanas.

Mas tudo começou com a atuação no Saúde da Família, na atuação como secretário de Saúde e Dificuldade, no processo de compra. E hoje esse projeto vai gerar uma economia só na compra de medicamentos de R$8,2 bilhões para o sistema de saúde. Então essa múltipla entrada no sistema, ela é super importante para tudo, mas na vida parlamentar mais ainda, né? Então tem sido um prazer imenso, deputado pelo Rio de Janeiro, ter essa atuação na Câmara de Deputados com esse conhecimento do passado.

Isso é médico também, é importante porque dá um conhecimento muito mais amplo, né, Gustavo? Você imagina que você na gestão da Áfia consegue olhar de maneira muito diferenciada o dia a dia dos alunos, o dia a dia das práticas de formação, coisa que dificilmente um executivo que não tivesse formação médica conseguiria enxergar, né?

GMGustavo Meirelles

São ótimos pontos, né? A gente fica É um trabalho grande, né, Daniel, somar todos esses pratinhos, né? Fico pensando você aqui, puxa, deputado federal, secretário municipal de saúde, porque mesmo você deixa de ser algo para fazer a outra, mas você não deixa de ser de verdade, você continua e vai somando, né? Então é o Daniel que é médico, que é pesquisador da Fiocruz, que é deputado federal, que é secretário de saúde, e tudo isso É um trabalho enorme, mas é o que você disse muito bem, né?

O fato de você ser médico, conhecer saúde pública, conhecer pesquisa— me lembro a apresentação que você fez lá no CONIMA, o Congresso Internacional de Medicina da Ásia, e eu fiquei muito impressionado com aquela imagem que você mostrou de um dos hospitais do Rio de Janeiro com a ocupação dos leitos, né? Então vários leitos que ficavam desativados, e aí você implementou um sistema digital para conseguir olhar em tempo real e falar, puxa, olha, tem um leito número XYZ no hospital ABC.

Achei aquilo extremamente bacana. E aí é essa junção de tudo mesmo, né? Ter a cabeça do médico, é conseguir se colocar no lugar de quem tá atendendo, é conseguir se colocar no lugar do paciente. Se você quiser contar um pouco mais, inclusive, sobre esse sistema de gestão de leitos, eu achei muito interessante.

DSDaniel Soranz

É isso, Gustavo. A gente vai unindo essas coisas. Além disso, eu ainda oriento mestrado, doutorado da Fiocruz, né? Então, além disso, ainda mantenho os orientandos que ajudam na gestão, porque sempre você orientar uma tese obriga você tá estudando. A gestão emburrece, né? Você fica muito tempo na gestão fazendo só aquilo e não tá lendo, não tá pesquisando, não tá evoluindo academicamente, você fica muito focado só naquilo e deixa de ver o mundo que é muito mais amplo do que só o mundo da gestão.

Então isso para mim é super importante. E a gente vai construindo coisas que têm uma certa complexidade na construção, mas que torna a vida muito mais simples, né? Então a gente criou aqui no Rio muitos sistemas informatizados para deixar a vida da gestão mais simples. Então a gente tem um censo de área hospitalar. Quando eu ia dar aula no curso de medicina lá de Teresópolis e falava com os alunos, olha, tem um censo hospitalar, os indicadores que a gente faz são esses, esses aqui.

Uma coisa que teoricamente no passado se contava nos pontinhos, hoje você consegue ver em tempo real no Rio de Janeiro. Então hoje você consegue ver a taxa de ocupação, o tempo médio de permanência, o índice de giro, vários indicadores em tempo real, porque isso é importante para gestão. Você vai estar olhando o número e podendo alterar esse número no dia a dia da sua unidade. Então eu quero aumentar minha taxa de ocupação, vou disponibilizar mais leito para regulação, vou reclamar com a regulação que o paciente não tá vindo.

Então quem tá nos assistindo aí, se quiser entrar em censo público hospitalar no Rio, você consegue ver publicamente o censo de todas as unidades federais, municipais, privadas contratualizadas ao SUS em tempo real a partir do sistema de AIH, do sistema das guias de internação hospitalar, que é um sistema oficial do Ministério da Saúde. E daria, Gustavo, para fazer isso no Brasil todo. Esse é um sistema gratuito que a gente desenvolveu com a nossa equipe e a gente pode disponibilizar para qualquer cidade do país ou até para o próprio Ministério da Saúde.

Algumas cidades já utilizam, como Campo Grande, Mato Grosso do Sul, e outras cidades do país já utilizam. É gratuito, então vale muito a pena conhecer e entender aí como funciona. Mas tem vários outros sistemas nesse bojo, né? A gente tem um sistema de controle de fluxo de ambulância, tem um sistema que é o Onde Ser Atendido também. É só dar um Google Onde Ser Atendido que você escolhe, sabe qual que é a sua clínica, o nome do seu médico, seu enfermeiro responsável pelo seu cuidado.

Então são muitas coisas que juntam diversos tipos de conhecimento para tornar a vida no sistema único de saúde cada vez mais simples, né?

GMGustavo Meirelles

Bem, Daniel, contando disso tudo, né, me vieram duas coisas aqui à cabeça. Primeiro, uma que eu já citei até também no outro Expertcast, uma pessoa conhecida minha tem um tempinho ia ser atendido em São Paulo. Isso tem alguns anos e eu já sei que isso mudou para melhor. Nós tivemos aqui um episódio inclusive com a Ana Estela Haddad, que foi ótimo. Você falou que e ia dar uma olhada nos episódios anteriores do ExpertCast. Recomendo muito este episódio com Ana Estela Haddad, porque a gente falou bastante sobre essa transformação digital do SUS.

E eu me lembrei dele, tô, vou citar aqui para você. Você falou do onde ser atendido, né? Ele teve que fazer um tempo atrás um eletrocardiograma de rotina aqui em São Paulo. E no dia que, bem, marcou meses antes, anotou na agenda, ficou esperando aquele dia chegar. No dia ele foi lá, demorou um tempão para chegar, esperou um tempo e falaram: o senhor, o aparelho tá quebrado. Ele voltou e falou: poxa, Gustavo, assim, nos tempos de hoje, né, tem telefone, tem WhatsApp, custa me mandar uma mensagem antes?

Falou: aparelho tá quebrado, a gente reagendou. E eu sei que felizmente isso já melhorou, mas isso que você tá contando agora, de onde ser atendido, da gestão inteligente dos leitos, eu queria puxar aqui o tema-chave do ExpertCast, que é a inovação. A inovação é muito apontada como uma grande promessa para saúde. A gente fala de prontuário eletrônico, a gente fala de ferramentas de apoio à tomada de decisão, inteligência artificial, monitoramento epidemiológico, etc.

Como é que a gente usa no SUS tecnologia para fortalecer o Sistema Único de Saúde, mas ao mesmo tempo sem aumentar o custo? Sem aumentar desigualdades e sem deixar também pessoas excluídas? Então eu sei que é uma equação difícil, mas como usar a inovação realmente a favor da população?

DSDaniel Soranz

Gustavo, inovação tem que dar resultado. Então às vezes a gente tem até algum custo que aumenta, mas que o ganho de vida ou ganho dentro do sistema é muito positivo e dá resultado. E tem muita inovação que gera muita economia, né? Então hoje, com a inteligência artificial chegando, é impressionante o quanto que a gente gera economia através de inteligência artificial. A inteligência artificial embarcada nas máquinas, no prontuário eletrônico, no dia a dia do profissional, profissional de saúde no Rio fica em torno de 30% da sua carga horária dentro da burocracia, fazendo coisas que não precisaria fazer, preenchendo papel, escrevendo coisas que já poderiam estar no prontuário automaticamente importada de outros locais, mandando, encaminhando o paciente, preenchendo uma nova guia.

Então aqui no Rio a gente tem investido muito. Eu acho que a Ana Estela deve ter falado isso no Brasil também. Em inovações e tecnologias que gerem economia. Então hoje nosso sistema de prontuário eletrônico ganhou o MedRec, que ganhou uma base por cima, que ele olha o que o médico tá escrevendo, já ajusta a escrita do médico para regulação, já autopreenche coisas que o médico deveria estar perguntando. Então sugere perguntas para o paciente, fala: olha, se você quer encaminhar um paciente para esse tipo de consulta, ou se você quer chegar nesse diagnóstico, pergunta isso aqui também, verifica se ele fez esse tipo de exame, faz já, dá alertas.

?Voz C

Então quando diagnostica sífilis e trata com amoxicilina, já vai dar um alerta: ó, não é amoxa, você precisa Você pode estar errando no seu tratamento. Ontem mesmo foi super interessante porque uma paciente tinha uma miíase, um bebê, uma criancinha, tinha uma criança, não tinha uns 9 anos, mas tinha uma miíase na cabeça e o médico tratou ela com sulfatrim. E aí não ia resolver. Aí o prontuário eletrônico deu o alerta Eu tava ali na hora, deu alerta falando, olha, o diagnóstico não tá compatível com o tratamento, por favor verificar.

Aí ele trocou a medicação, fez uma ivermectina. Mas por quê? Porque o prontuário avisou. Então utilizar inteligência artificial para ampliar essa capacidade de acertar diagnóstico, para orientar o profissional para que a gente tenha de fato resultados cada vez melhores no nosso desempenho clínico, é super importante.

DSDaniel Soranz

Hoje a gente tem o Epimed nas unidades de saúde que orienta o profissional o tempo todo: olha, cuida disso nas vias aéreas, presta atenção nesse paciente, ele fez os exames laboratoriais desse dia, porque o exame laboratorial dele anterior tava dando ruim. Então pequenas coisas que vão dando input no dia a dia do profissional, o CTI na urgência-emergência, na coisa que fazem muita diferença assim. Aí é incrível como também a capacidade de agregar dados hoje dos nossos sistemas é impressionante.

Então Hoje tudo que você digita no prontuário eletrônico vai para uma única base, para o único data lake aqui no Rio. E esse data lake consigo acessar ele de qualquer ponto da nossa rede ou da internet através do histórico clínico integrado do HCI. Então consigo ver aonde o paciente passou, como é que ele foi tratado, se ele foi tratado de maneira correta. Essa própria criança de 9 anos que que chegou na emergência ontem, ela tinha passado pela unidade básica que não conseguiu identificar a lesão.

Podia ser que a lesão tivesse muito inicial, a mísse tivesse muito inicial, que a clínica não percebeu e liberou a criança sem uma medicação adequada. Chegou na emergência, quase tratado errado. Então, se a gente não tem tecnologia para poder olhar todo esse processo de cuidado, a gente pode estar prejudicando um paciente ou deixando de oportunizar esse tratamento no momento correto, né?

GMGustavo Meirelles

Vários pontos que você trouxe aqui também fiquei pensando. Eu tinha falado no apoio à tomada de decisão, que é algo que muda o jogo, né? E aí tem alguns sistemas, né, que fazem isso. Então eu vou, eu vou citar aqui para não ficar com um só. O próprio Open Evidence, que hoje tem ganhado cada vez mais espaço mundo afora. O UpToDate, que a gente usou bastante e ainda utilizamos. O AFI White Book. E a gente falou de monitoramento epidemiológico hoje.

White Book tem também o radar, né, para conseguir prever, por exemplo, um surto de dengue quando eu faço muitas buscas no aplicativo a respeito não apenas da doença, mas a respeito de sintomas que possam indicar dengue. E eu imagino que vocês tenham usado muito isso também ao longo desse seu período, né, ali na Prefeitura do Rio de Janeiro. Não sei se você quiser falar um pouquinho mais sobre esse tema, eu passo de novo a bola para você aqui, Daniel.

DSDaniel Soranz

Não, Gustavo, quero sim. Acho que é um tema super importante. Quando a gente consegue juntar evidência científica dados, informação, um sistema inteligente, a gente pode produzir muito conhecimento e de fato identificar coisas que a gente não tava prevendo. Então hoje aqui no Rio a gente tem é um sistema que identifica rumores nas redes sociais. Então, ah, eu tenho um rumor de monkeypox, por exemplo, de uma rede social, ou alguém vai no Google através de buscas de alguma informação sobre monkeypox, a gente já consegue receber essa, fazer essas análises do próprio nosso centro de inteligência epidemiológica, consegue cruzar com os dados de todos os prontuários das unidades de saúde, consegue cruzar com todas as notificações compulsórias da rede privada, e aos poucos a gente vai traçando é modelos para mostrar que a gente corre o risco de ter uma epidemia, o que tem um aumento de caso.

?Voz C

Então agora, nesses meses, a gente já tá vendo os casos de bronquiolite aumentar.

DSDaniel Soranz

A gente sabe que a gente tem muito menos bronquiolite das crianças até 6 meses de idade, porque a gente vacinou a gestante para bronquiolite no ano passado. Então a gente ganhou esse tipo de proteção.

?Voz C

E no início desse ano também a gente tá vendo é os casos de influência disparando numa velocidade de vírus sincicial respiratório. Então proteção, mas caso de influência disparando na cidade uma velocidade muito grande. Então a gente consegue ter modelos estatísticos hoje que ajudem a gente a prever o que vai acontecer, a prever uma epidemia, prever uma pandemia. A gente já fazia isso muito bem em 2012, na epidemia de dengue, em 2016 com zika vírus.

Em 2016 falavam, ah, você vai ter zika vírus nas Olimpíadas. Eu falava, não, não vou ter, porque o zika vírus não acontece no inverno e as Olimpíadas são no inverno, foram no inverno brasileiro. Então podem ficar tranquilos que não vai ter nenhum caso. Não tive nenhum caso de zika no no período de Olimpíadas. Foi uma crise internacional em relação a isso, até pensar em desmarcar as Olimpíadas. Pensaram, mas eu falei, não, pode ficar tranquilo que não é um problema.

Então, quando você consegue analisar os dados em profundidade, hoje a nossa análise de dados depois da pandemia é muito melhor, a gente consegue gerar conhecimento. E falando nisso, vamos tentar ver se a gente coloca o whitebook aí para todos os profissionais de saúde aqui da Rede do Rio, whitebook da AFA, que é um grande sucesso. Para que dê certo também, para ajudar nessa tomada de decisão, né?

GMGustavo Meirelles

Excelente, nós estamos à disposição.

DSDaniel Soranz

Gustavo, eu lembro que quando eu fiz faculdade, você também, a gente tinha o nosso caderninho, né, que a gente levava para emergência. Era isso, sumisse com meu caderninho, eu tava enroladíssimo porque tinha todas as dosagens, tudo que eu queria fazer. Hoje é impensável você ver um aluno com caderninho. Hoje tem internet no celular, hoje tem vários sistemas de inteligência artificial. Mas na época, se você perdesse, se eu perdesse meu caderno, acabava o plantão.

GMGustavo Meirelles

Exatamente, exatamente. Hoje pelo menos a gente tem a tecnologia, que diferentes aplicativos, né, que podem nos ajudar. Eu vou passar para um outro ponto aqui, Daniel, que é a parte do financiamento, né? Porque a gente tem um sistema universal e que obviamente tem limites orçamentários, tem dificuldades, temos tratamentos hoje modernos que são caríssimos, novas ferramentas diagnósticas. Como é que a gente consegue equilibrar sustentabilidade financeira com ampliação do acesso e qualidade do cuidado em um país, de novo, com tantas demandas sociais e desigualdades?

DSDaniel Soranz

Gustavo, primeiro, a gente tem dois problemas graves no SUS ainda. A gente tem um problema de gestão que precisa receber investimento e a gente tem um problema de subfinanciamento. Quando a gente compara a gente com outros locais do mundo, a gente gasta muito pouco em saúde pública do que a gente deveria gastar. Então esse é um ponto. O segundo ponto aí que você coloca e que a gente não pode esquecer é que determinados tratamentos vão ser caros, vão demandar do sistema, mas eles são essenciais para a vida daquelas pessoas.

Então a gente vai precisar tá mobilizando mais recursos para dentro do Sistema Único de Saúde. A gente já fez isso agora, o Ministério já colocou R$24 bilhões a mais do orçamento federal no SUS nos últimos anos. O Congresso Nacional aprovou essa, esse incremento, mas a gente ainda não mudou esse patamar de gasto para o ponto que a gente gostaria. Então é super importante, e a gente precisa também tá avaliando bem as tecnologias, porque tem muita tecnologia que às vezes é usada de maneira muito ruim, é que só gera gasto e não gera saúde.

Então vou te dar um exemplo. O Brasil é um dos países que mais faz ressonância magnética. A gente faz muita ressonância magnética. Nenhum país do mundo, nem os americanos, fazem tanta ressonância magnética na rede privada como aqui faz. Isso gera mais saúde?

?Voz C

As pessoas vivem mais por conta da ressonância magnética?

DSDaniel Soranz

Não, na maioria das vezes não.

?Voz C

30% das pessoas fazem ressonância magnética no SUS.

DSDaniel Soranz

Do Rio sequer voltam pegar o resultado.

?Voz C

Então tira a vaga de alguém que fez, de alguém que não, para alguém que não precisava fazer. Então essa coordenação do cuidado, ela precisa melhorar. Então dá para a gente investir em tecnologia, ter mais tecnologia dentro do sistema, desde que essa tecnologia de fato faça com que as pessoas vivam mais e vivam melhor. Os americanos têm esse problema muito maior do que a gente. Gastar com tecnologia que não vai agregar valor tem sido uma prática cada vez mais comum no SUS, nos outros sistemas de saúde do mundo, no nosso sistema de saúde suplementar.

Então, Gustavo, esse também é um desafio. Só que a gente do outro lado não pode esquecer que incorporar tecnologias ou determinados medicamentos pode ser essencial. Agora, a gente incorporou um medicamento no SUS para fibrose cística, medicamento que muda a vida daquele paciente, medicamento caro.

DSDaniel Soranz

Demoramos para incorporar, não deveríamos ter demorado tanto tempo, e que tem resultados muito, muito robustos de que aquilo vai fazer diferença. Então a gente precisa estar sempre nesse equilíbrio do sistema. Agora, vai, na hora que a gente tá defendendo essa cooperação de algo mais caro, vai calcular o que a gente gasta com determinadas coisas que não tem evidência científica nenhuma. Vai calcular a besteira que fizeram obrigando capa de canudinho na vigilância sanitária.

Olha o custo do Brasil em relação a isso. Não tem evidência científica nenhuma. Um projeto de lei absurdo. Graças a Deus já não é mais uma exigência, mas a gente vai criando coisas que muitas vezes causam muito prejuízo e deixa de incorporar coisas que de fato vão fazer diferença na vida das pessoas.

GMGustavo Meirelles

É, você citou uma aqui, tem várias outras, né? A gente lembra ali da pílula do câncer, da fosfoetanolamina, um tempo atrás, diversos pontos que vêm para sobrecarregar ainda mais o Sistema Único de Saúde. Eu vou trazer aqui uma pergunta final para gente, Daniel. Papo excelente, a gente abordou vários pontos como atenção primária, as clínicas de família, financiamento, esse papel do médico gestor, pesquisador, orientador de mestrado, doutorado.

Aí vou puxar essa linha que é a formação de novos Gustavos, Danieis aqui, tanto médicos e médicas quanto outros profissionais de saúde. Como é que a gente prepara enfermeiros, agentes comunitários, médicos e gestores para atuar em equipes com tudo isso que a gente trouxe aqui, que você nos falou muito bem? Visão territorial, foco na prevenção. Como é que a gente faz para formar melhor todas essas equipes?

DSDaniel Soranz

É isso, Gustavo. A gente tem que entender que o setor do Brasil vai crescer. A gente vai precisar de mais profissionais de saúde, é inevitavelmente. Mesmo com toda a tecnologia que a gente tá agregando, vai precisar de mais gente. E gente, Gustavo, precisa aprender a pensar, aprender a entender tecnologias. Então eu acho que a formação ela cai para um desafio cada vez maior, que é fazer com que o cara consiga aprender no seu dia a dia profissional.

Porque é diferente da época que a gente se formou, que você tinha aquele conteúdo, tinha que aplicar aquele conteúdo na prova, e que se você não soubesse aquele conteúdo você não passaria. Hoje você precisa aprender a aprender, você precisa aprender como entender os conteúdos diversos, conteúdos que aparecem a todo momento, precisa entender como aplicar esses conteúdos da melhor maneira na vida das pessoas. E nem sempre saber aquilo decorado daquela matéria, daquele tratamento, é o que vai te fazer diferente, vai te diferenciar no futuro.

Então essa formação vai precisar ter um componente prático muito maior do que tinha no passado, vai precisar ter um componente de de exercício de habilidades que nem sempre você consegue exercitar fora do mercado de trabalho. Então, habilidades mesmo de aplicar uma vacina, colher um sangue, fazer determinado tipo de procedimento. Eu tenho rodado algumas universidades e hospitais de outros países. Eu fui agora para França É incrível o centro de treinamentos deles, de cirurgias de vídeo, de cirurgias com robótica.

Eu, aluno, desenvolvendo uma série de habilidades que na nossa época não eram, não eram comuns, né?

?Voz C

Então isso vai mudando gradativamente o nosso dia a dia, tanto na formação da graduação como na formação da residência. A gente vai precisar entender que não vai dar mais para pessoa se formar e acabar na graduação. Todo mundo vai precisar se formar e vai precisar fazer uma pós-graduação, seja ele enfermeiro, fisioterapeuta, médico, qualquer profissão. Aquele médico que acha que acabou sua formação na graduação, esquece, não vai acabar ali.

Se ele quiser ser um bom profissional, quiser ter um bom desempenho clínico, ele vai estar sempre tendo que se atualizar E esse é um desafio para as instituições formadoras, esse é um desafio para o profissional do ponto de vista individual, mas para o ganho na sociedade é incrível, né?

DSDaniel Soranz

Pensar que a pessoa vai precisar estar estudando a vida inteira para ser um bom profissional.

?Voz C

Eu acho que isso agrega muito valor, né, Gustavo? O que eu tenho pensado. E acho que essa interação das universidades com os sistemas de saúde, que acontecem em muitos países do mundo, mas não em todos, faz muita diferença no caso brasileiro. Eu conheço muitos médicos de muitos países e sinceramente eu acho que a gente tem médicos muito melhor formados do que na maioria dos países do mundo, justamente por essa interação, por esse componente prático forte que o nosso sistema tem.

Nosso sistema de saúde tem um componente muito forte. Os alunos da Áfia rodam nas unidades de saúde praticamente em todos os períodos, e essa interação faz que a gente tenha profissionais muito melhores. Tanto que os profissionais médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, eles, farmacêuticos, vão para outros países e são super competitivos e de fato se diferenciou muito em relação a muitas unidades, instituições formadoras, principalmente na América Latina, né?

A gente vê o quanto que o profissional médico formado no Brasil é diferente do que formado em outros locais de países vizinhos, né?

GMGustavo Meirelles

Certamente, concordo plenamente com você. A formação precisa ser contínua para todo e qualquer profissional de saúde, né? Então, e de novo, nós dois aqui acho que somos um exemplo disso, porque a gente foi continuando depois da graduação em medicina. E acho que fica aqui um recado bacana também para os nossos futuros colegas de profissão, sejam eles médicos, enfermeiros ou qualquer outro profissional de saúde. Daniel, antes da gente acabar, nós temos uma tradição aqui no ExpertCast, que é o que a gente chama de Papo Rápido.

São perguntas diretas aqui que não têm ligação com inovação na saúde, mas que ajudam o nosso público a conhecer melhor o Daniel Sorans. Então vou começar te pedindo uma dica cultural, que pode ser uma viagem que você tenha feito e gostou, um livro que você queira indicar, um filme ou uma série. Deixo com você agora, Gustavo.

DSDaniel Soranz

Primeira dica de passeio cultural aqui no Rio de Janeiro é a Feira da Glória, que é aqui na Praça Paris, no bairro da Glória. Vale muito a pena conhecer, ela é super eclética e é uma feira que tem comida, artesanato. Então uma dica: venha conhecer o Rio de Janeiro e venha passar um domingo aqui na Feira da Glória. Vale muito a pena.

GMGustavo Meirelles

Muito bom, Feira da Glória, tá anotado aqui para mim também. Não conheço ainda, então minha próxima ida ao Rio de Janeiro, eu tenho ido com bastante frequência, visitarei a Feira da Glória. Aí eu vou te perguntar, você pode ir caminhando até a Marina da Glória.

DSDaniel Soranz

Se você quiser chegar de barco também, é super agradável. Quiser fazer um passeio de barco, vale muito a pena. É um barco que tá bem integrado. Sugiro pegar o domingo, assistir à missa no Oteiro da Glória de manhã, depois comer alguma coisinha na feira e fazer um passeio de barco.

GMGustavo Meirelles

Muito bom, muito bom. Segunda pergunta, Daniel, é o que que você, Daniel Sorans, médico, pesquisador, gestor parlamentar, faz para cuidar da própria saúde?

DSDaniel Soranz

Gustavo, eu costumo fazer sempre uma caminhadinha, caminhar uns 40 minutos aí, pelo menos 3 ou 4 vezes na semana. E eu cuido muito da minha alimentação, né? Eu adoro frutas, legumes, verduras, procurar eliminar ao máximo os ultraprocessados. A gente conseguiu eliminar os ultraprocessados nas escolas aqui no Rio de Janeiro. E se a gente puder abolir os ultraprocessados do nosso cardápio, é um jeito melhor de se viver.

GMGustavo Meirelles

Concordo plenamente. Esse é um tema que eu quero trazer aqui para o ExpertCast também em breve, falar sobre o impacto dos ultraprocessados na nossa saúde, que eu compararia aqui ao que a gente teve com tabagismo lá atrás, né? A gente já tem o conhecimento que faz muito mal e infelizmente ainda estão aí nas prateleiras dos mercados e chegando às residências de vários brasileiros e brasileiras. Eu vou te perguntar agora, Daniel, você mudando de lugar, né?

Se você fosse o entrevistador, quem que você escolheria para entrevistar em um podcast?

DSDaniel Soranz

Gustavo, você tá me fazendo um monte de pergunta. Era o Gustavo Meirelles, eu queria te ouvir aqui também, porque acho que você deve ter muito conhecimento aí para falar aqui no podcast. Recomendo fazer um podcast com seus ex-entrevistados te entrevistando.

GMGustavo Meirelles

Seria bacana. Sabe que teve um episódio aqui muito legal, inclusive, com o Amaury Guerreiro e o Joseph Tepperman. A gente falou sobre anticarreira na saúde. E de novo, nós dois aqui somos um exemplo da anticarreira, um termo que o Joseph cunhou. Ele escreveu um livro sobre isso, porque é sair daquela carreira tradicional, né, que tá ali dentro do quadradinho. E o Joseph tomou a palavra, ele falou, ah, vou entrevistar você um pouco aqui.

Então ele fez um pouquinho disso Mas seria um prazer ser entrevistado por você numa outra vez, né? Pode contar comigo. E a gente vai fazer a última pergunta aqui, Daniel, que é sobre a inovação que você considera mais transformadora. Aí eu geralmente deixo aqui amplo, tá? Você não precisa ficar preso à saúde, você pode falar qual inovação Daniel Soranz acha a mais transformadora de todas.

DSDaniel Soranz

Ah, eu acho sem dúvida nenhuma é o telefone celular, né, cara? Essa capacidade de processamento numa maquininha pequena dessa que mudou a vida, mudou a vida de todos os profissionais, mudou a vida dos médicos. Hoje a gente consegue fazer muita coisa por esse objeto incrível que tem uma capacidade de processamento que é excepcional. Então essa para mim é uma grande inovação. Eu acho que A segunda versão dela é quando ele sair de ser um quadradinho na nossa mão e vir para alguma coisa muito menor, como um óculos, sei lá, como um broche, ou como um anel, como um relógio.

Eu acho que já já a gente vai estar nessa fase. Hoje a gente ainda precisa andar com esse trambolho, precisa utilizar ele para algumas coisas no meu dia a dia profissional. Ele serve de lanterna para verificar uma garganta, recebe para tirar uma dúvida, para produzir uma receita, para acessar o prontuário eletrônico. Mas eu acho que no futuro isso tudo vai mudar e é uma inovação que vai fazer muita, muita diferença no dia a dia da nossa população.

GMGustavo Meirelles

Daniel, foi um grande prazer te ouvir aqui durante esses dois episódios do ExpertCast. Novamente, eu queria te dar os parabéns pelo seu belíssimo trabalho que Me impressionou muito, continua me impressionando aqui à frente da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro. E na torcida aqui para que você continue seu mandato como parlamentar, continue apoiando e defendendo essa saúde pública de qualidade e eficiente para todos os brasileiros.

DSDaniel Soranz

Valeu, Gustavo, super obrigado. Depois vamos compartilhar bastante esse podcast aqui. Para eu poder ter mais oportunidade aí de ver os demais entrevistados. Obrigado mesmo, tá?

GMGustavo Meirelles

Bem, para você que tá nos assistindo ou ouvindo, se você quer continuar essa conversa sobre inovação em saúde, não deixe de fazer parte da CIS, Comunidade Inovação em Saúde, que já reúne hoje mais de 15 mil interessados no assunto. Acesse o nosso site www.cis.org.br inovaçãoensaude.com. Lá você vai encontrar todos os links para os nossos grupos de discussão, que são abertos e gratuitos, assim como as páginas no LinkedIn e Instagram.

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