88- Como reinventar a saúde pública no Brasil ( parte 1 )
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Como reinventar a saúde pública no Brasil? Gustavo Meirelles recebe o médico de família e comunidade, pesquisador da Fiocruz e deputado federal Daniel Soranz para debater os caminhos rumo a um SUS mais eficiente, inovador e de qualidade.
Nesta primeira parte da conversa, Soranz faz um diagnóstico sobre o subfinanciamento crônico do Sistema Único de Saúde em comparação com modelos universais de países desenvolvidos.
Com base em sua gestão como Secretário Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, ele compartilha aprendizados valiosos sobre a expansão das Clínicas de Família e o papel do Ministério da Saúde. Analisa, ainda, a necessidade urgente de virar a chave de um modelo focado no tratamento da doença para um sistema preventivo e contínuo. O convidado discute também como a transformação na formação dos profissionais de saúde é o pilar fundamental para consolidar a atenção primária como o eixo organizador do SUS.
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Gustavo Meirelles
Daniel Soranz
- Atenção Primária em Saúde· SaudeImportância da prevenção·Expansão das Clínicas de Família·Formação de profissionais
- Transição do Modelo de Saúde· SaudeFoco no tratamento da doença·Modelo preventivo e territorial·Formação médica e curricular
- Diagnostico do SUS· SaudeSubfinanciamento crônico·Comparação com sistemas universais·Avanços e desafios
- Gestão da Saúde no Rio de Janeiro· SaudeExpansão da Estratégia Saúde da Família·Clínicas de Família Escola·Formação de médicos de família
- Inovacao e Tecnologia em Saude· SaudeMinistério da Saúde·Indução de políticas públicas·Financiamento de programas
Olá, bem-vindo ao ExpertCast, podcast dedicado à inovação em saúde. Eu sou Gustavo Meirelles, vice-presidente médico da Áfia, fundador da Comunidade Inovação em Saúde e apresentador aqui do nosso podcast. É um grande prazer ter você conosco para mais um episódio do ExpertCast. Onde abordamos as principais inovações que estão transformando a saúde no Brasil e no mundo. No episódio de hoje, nós vamos falar sobre um tema que me encanta: como reinventar a saúde pública no Brasil.
Aqui nós vamos discutir os desafios do nosso querido Sistema Único de Saúde, essa grande inovação brasileira que é um exemplo para o mundo todo, conseguindo oferecer saúde para mais de 200 milhões de brasileiros e brasileiras. Vamos falar da atenção primária, da formação de profissionais, do papel da inovação e dos novos modelos de cuidado que são capazes de ampliar acesso garantindo eficiência e trazendo qualidade para o atendimento à saúde aqui no Brasil.
E para falar sobre esses temas, ninguém melhor do que meu colega de profissão Daniel Sorans, médico de família e de comunidade. O Daniel é doutor e mestre em saúde pública, professor e pesquisador da Fiocruz, deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro e foi secretário municipal de saúde no Rio de Janeiro, com uma gestão extremamente bem-sucedida, muito pautada em inovação, eficiência e em qualidade. Daniel tem essa trajetória marcada pela defesa da atenção primária, expansão das clínicas de família, gestão em saúde pública, e pela atuação na construção de políticas públicas que fortalecem o SUS.
Daniel, tô muito feliz de te receber aqui hoje, uma honra ter você com a gente no ExpertCast.
É um prazer imenso estar com você aqui, espero que a gente tenha É um podcast bastante novidade e coisa aí para poder falar da gestão do SUS.
Bem, a gente vai começar falando aqui dessa, do tema que é a reinvenção da saúde pública no Brasil. Então, quando a gente fala de reinvenção da saúde pública, eu queria ouvir de você, Daniel, qual que é o principal diagnóstico que você faz hoje sobre o nosso Sistema Único de Saúde? O que que precisa ser preservado, o que que deve ser corrigido e o que que necessitaria ser completamente repensado agora em 2026, à luz de tantas inovações que já estão transformando a saúde.
Gustavo, a gente tem um sistema que é um orgulho, né, na condição federal, é um marco para democracia brasileira, é um marco do ponto de vista de estado de bem-estar, mas ele ainda é um sistema muito subfinanciado. Quando a gente compara nosso SUS com outros países que têm sistemas universais, a gente vê que a gente tem uma diferença grande de gasto, de investimento. A gente gasta 3,9% do que a gente paga imposto só com saúde, e países desenvolvidos gastam de 11 a 15%, numa média de 11 entre os países que têm sistemas de saúde universais.
Então a gente tem um sistema que é muito, dá muito orgulho, tem muitos avanços, executa muito procedimento, reduziu a mortalidade infantil, reduziu mortalidade materna, contribuiu para que o brasileiro pudesse ter uma expectativa de vida melhor, mas ainda é um sistema subfinanciado e é um sistema que tem uma abrangência muito menor do que ele deveria ter para atender toda a população brasileira. Então, como eu costumo falar, Gustavo, ele é um sistema em construção que a gente tem que usar o que a gente já fez de bom nesse sistema, mas sempre ter em mente que ele é um sistema que precisa expandir, que precisa crescer, que precisa ganhar participação no orçamento para que a gente possa atender toda a nossa população como ela merece.
Sistema que de fato A gente acredita que é possível fazer, porque outros países do mundo já fizeram, né?
Excelente. Acho que tem muitas coisas funcionando bem, tem algumas coisas para a gente aperfeiçoar. E eu lembro bastante da sua trajetória muito ligada à medicina de família e comunidade. E parece óbvio hoje, né? A gente olha aqui 2026 e fala, poxa, a gente precisa ir mais na prevenção, precisamos trabalhar mais com atenção primária em vez de deixar com que esses pacientes nos procurem na atenção secundária ou terciária? Por que que a atenção primária deve ser esse eixo que organiza o sistema de saúde?
E aí, pegando também tudo que você fez, né, no Rio de Janeiro, queria que você trouxesse também algumas ideias e falasse quais são os maiores obstáculos para que esse modelo avance de forma consistente, não apenas no Rio, mas que seja expandido para todo o Brasil e as oportunidades que a gente tem.
Gustavo, as evidências científicas, elas são bem claras na organização do sistema. Se a gente quiser ter um sistema de saúde parecido a países desenvolvidos, que seja mais eficiente, que de fato faça com que as pessoas vivam mais e vivam melhor, a gente precisa investir na atenção primária. Olha, agora no inverno. O inverno chegando, os casos de gripe começam a aumentar, e a doença que mais interna, que mais mata, é a gripe nesse período do ano.
Como é que a gente pode evitar que isso aconteça? Com vacinação, uma atenção primária forte vacinando as pessoas para influenza, para bronquiolite. Como é que a gente reduziu internações ao longo da nossa história, conseguindo fazer pré-natais melhores, consultas de hipertensão, de diabetes, acompanhando as crianças no primeiro ano de vida. Então qualquer sistema de saúde do mundo que queira ser forte, que queira ser eficiente, precisa investir em atenção primária.
Isso eu acho que a gente vem fazendo bastante aqui. A AFA também coloca os alunos desde o início nas unidades de atenção primária. Isso muda a formação, é importante para caramba. Então as evidências científicas são claras: quer construir um bom sistema, precisa ter uma atenção primária forte.
É ótimo. Parece tão óbvio para gente aqui, né, mas infelizmente muitos sistemas ainda são feitos nesse atendimento secundário, terciário. E no Rio de Janeiro você fez um processo muito importante que foi a expansão das clínicas de família. Até citei no comecinho aqui na nossa abertura, e dessa estratégia saúde de família, né? Eu queria que você contasse um pouco mais o que que você fez nessa linha ao longo da sua gestão, os principais aprendizados que você teve também.
E aí em seguida eu vou te perguntar o que a gente poderia fazer em escala nacional. Vou deixar primeiro você falar do que foi feito no município do Rio.
Gustavo, o Rio foi sede das Olimpíadas, né? E antes das Olimpíadas, a gente tinha a Olimpíada anterior, era Olimpíada de Londres. Então a gente precisava reformar o nosso sistema de saúde. Todas as cidades olímpicas tinham atenção primária forte. Você pega Barcelona, Montreal, Sydney, cidades que a gente sempre teve uma atenção primária forte. E que nas Olimpíadas se fortaleceram em Londres, era grande inspiração para o Rio. Então a gente tinha um desafio de reformar o sistema de saúde da cidade.
A Olimpíada ajudou muito a influenciar todo esse processo e a gente saiu de 3% de cobertura de saúde da família no Rio para 70%. Era uma meta do governo Eduardo Paes fazer 45% nos primeiros 4 anos e 70% em 8 anos. Então foi o que foi feito, foram construídas 130 clínicas de família na época. Dessas 130, 8 foram clínicas de família escola, onde a gente era ligado a uma universidade. A gente montou um super programa de residência médica também para formar os médicos que iriam ocupar esses postos de trabalho nas clínicas de família.
Hoje a gente tem praticamente 100% dos nossos médicos que atuam nas clínicas com formação em medicina de família e comunidade. Então foi um super investimento nessa ampliação, é que na verdade é uma ampliação que vai na lógica de todos os outros países desenvolvidos com sistema universal, né? Londres foi uma grande inspiração, mas várias outras capitais do mundo que tiveram Jogos Olímpicos ajudaram a gente aqui nessa construção.
E aí, pensando, né, numa escala maior, porque já foi uma, assim, saiu de 3 para 70%, é algo impensável. E até te trazendo aqui um depoimento de usuário recente, né, nem tinha te falado isso, vou falar aqui ao vivo. Semana passada me solicitaram um paciente que mora no Rio de Janeiro com câncer de pulmão, né, via tomografia de tórax dele. E usamos todo o sistema de referência ali do município para conseguir encaminhá-lo para um sistema terciário, aqui no caso o Instituto Nacional do Câncer.
E em poucos dias ele já tava atendido e com consulta agendada no INCA, né. Então eu vi o sistema funcionando muito bem ali. De novo, a partir da— ele foi atendido Primeiro lá numa unidade básica de saúde, depois tá indo para o terciário. Como é que a gente consegue fazer, Daniel, isso numa escala nacional, né? Vou pensar Daniel Sorans, Ministro da Saúde. O que que você faria para implementar isso Brasil afora?
Gustavo, o Ministério tem uma capacidade de influenciar muito grande nos municípios. Infelizmente tem muitos municípios brasileiros que não tem uma capacidade técnica de organizar o seu sistema, que tem gestores que ainda não têm informação adequada para esse tipo de gestão, influências políticas negativas nesse tipo de estruturação. Então eu acho que o Ministério tem um papel fundamental nessa indução, né? A melhor indução da história do Ministério foi o PAB fixo e o PAB variável, aquele dinheiro que se pagava para as equipes de saúde da família poderem ser implantadas.
Eu acho que a melhor coisa que o Ministério pode fazer é fortalecer essa indução, fortalecer a capacidade do Ministério financiar políticas que tenham evidência científica, que caminhem para o rumo correto. Eu acho que o Ministério tem esse papel. Se eu tivesse oportunidade de influenciar ainda mais. Eu já influencio bastante, mas influenciar ainda mais nesse processo. Hoje a subsecretária nacional de atenção primária foi minha subsecretária aqui.
Ministro Padilha tá sempre com a gente, mas o ideal é que a gente sempre colocasse mais recurso nessa indução para que a gente tivesse um programa de saúde da família forte. Então, programar especialistas é super importante, mas se a gente não focar em conseguir ampliar essa atenção primária no Brasil de qualidade, respeitando os princípios da formação de um bom sistema de atenção primária, a gente vai ter muita dificuldade de alcançar níveis de outros países em relação à expectativa de vida, em relação aos bons indicadores de saúde.
Então eu acho que esse é o desafio, é o que eu faria mesmo, era colocar recurso nessa indução da política pública de atenção primária, que é tão rica e tão importante aí para nossa sociedade.
Excelente, Daniel. Bem, espero também, na torcida aqui, né, que a gente consiga implementar isso, assim como um outro ponto que a gente também já abordou, mas eu queria muito te ouvir, saber seu pensamento. Que é sobre essa mudança do modelo, né? Durante muito tempo, eu vou falar sobre a minha formação aqui. Eu me formei há quase 30 anos já em medicina, e pelo menos na época em que eu fiz a minha graduação, o modelo era muito centrado no tratamento da doença, né?
Então, até o que eu citei aqui no outro ExpertCast, o médico estudante de medicina naquela época aprendia muito a tratar as doenças. Então eu tive na minha formação, não sei como foi na sua graduação também, imagino que talvez não tenha sido tão diferente, eu tinha subespecialidades. Então, por exemplo, tive 6 meses de cirurgia cardiovascular, era uma matéria minha na graduação de medicina. Tive 6 meses de oftalmologia, 6 meses de endocrinologia, e por aí vai.
E eu vejo hoje, eu tô à frente da área médica da Áfia e participo também ali em conjunto com a vice-presidência de graduação do nosso ensino, e eu vejo os alunos muito com esse foco já numa saúde mais preventiva, como você mesmo citou aqui, atenção primária à saúde, esse aprendizado muito focado em discussões em grupo em torno dos casos e não da subespecialidade. E aí eu fico pensando nesse desafio que a gente tem mundo afora, que é sair desse modelo muito centrado no tratamento da doença, no hospital, para um modelo mais preventivo, que seja territorial também e contínuo.
A gente vai abordar isso aqui num próximo ExpertCast, que é a saúde contínua e não apenas por episódio. Aí queria te ouvir, a gente tem aqui mais uns minutinhos antes de fechar essa primeira metade do nosso episódio. Como é que a gente consegue fazer, Daniel, essa transição na prática, considerando o Brasil como um país continental com várias desigualdades regionais e sociais?
Gustavo, esse é um super desafio mesmo, né? Eu acho que vários países tiveram a transformação do seu sistema de saúde muito ligados a esse desafio. Foram poucos os países que a atenção primária já nasceu forte. Você pegar a Inglaterra em 1920, A atenção primária já nasceu forte, o ensino médico lá já tinha um componente forte na atenção primária. Muitos países tiveram uma revolução justamente ao contrário, os médicos cada vez mais foram se especializando, as matérias cada vez ficando mais específicas de especialidade, e os serviços de saúde também.
Então é um desafio dos nossos sistemas de saúde do Brasil, dos Estados Unidos, foi um desafio para o Canadá, foi um desafio para Portugal e para Espanha conseguir fortalecer essa rede de atenção primária e esse entendimento de que o paciente precisa ter um médico de referência, esse médico de referência saiba navegar em todas as especialidades para fazer essa coordenação do cuidado. Então a gente, eu acho que a principal forma de mudar isso é através do ensino.
Eu acho que a Áfia, mas outras universidades, nessas reformas curriculares, nesse ajuste curricular, contribui muito para esse tipo de medicina. Também é muito importante a gente ter o foco de que um bom especialista, ele, o médico pode até especializar no futuro, Mas ele precisa saber de medicina geral, ele precisa saber das outras especialidades. Ele vai ser o melhor especialista o quanto ele tiver conhecimento geral. Então, esse desafio de organizar o sistema, organizar o conhecimento, não é fácil para nenhum sistema, mas ele é possível, né?
Então, aqui no Brasil, a gente vê avanços em várias capitais, em várias cidades do país, com atenção primária forte. E eu só acredito que isso é possível mudar através da formação, da graduação, e também através de bons programas de residência que façam, é, que tenham essa capacidade de formação e de influenciar a vida desse profissional, né?
Muito bom, Daniel. A gente vai falar na segunda metade do nosso episódio muito sobre a formação dos novos profissionais. Não apenas dos médicos e médicas, mas também de enfermeiros, fisioterapeutas, já formados e educados para essa saúde do presente e do futuro. E falaremos também sobre o papel da tecnologia e da inovação. Mas antes de fechar essa primeira metade aqui, a gente falou muito dessa reinvenção da saúde pública, da atenção primária, das clínicas de família.
E de novo aí lembrando da sua gestão à frente da saúde no Rio de Janeiro. Eu queria ouvir suas últimas palavras aqui dessa primeira metade do episódio, talvez pegar aí essa sua trajetória como secretário de saúde, os seus principais aprendizados, desafios. Deixo com você aqui esses minutos finais.
Gustavo, é isso, né? Eu acho que o desafio é a gente tá sempre olhando para as evidências científicas para tomar decisão na gestão. Toda vez que a gente toma a decisão na gestão sem ter dado, sem ter número, sem ter objeto de pesquisa, a gente pode ter muito mais probabilidade de errar. Então, se a gente quiser construir um bom sistema de saúde, a gente precisa investir numa atenção primária forte, a gente precisa transformar esse sistema pela educação, e a gente precisa colocar o dinheiro no local correto.
Então acho que essa transformação vai se dar por indução financeira dos estados, dos municípios, mas principalmente do Ministério da Saúde, para que a gente possa pensar no Brasil muito mais eficiente, num sistema de saúde que dê melhores resultados a cada dia. E o jeito de fazer isso é com indução financeira e respeitando as evidências, né?
Daniel, fantástico novamente aqui. Parabéns pelo seu trabalho à frente da saúde no Rio de Janeiro. A gente vai continuar falando mais dele e das suas ideias na nossa segunda metade do episódio. Estamos encerrando aqui a primeira parte da nossa conversa. Foi um grande prazer te receber aqui, Daniel.
Obrigado, prazer imenso, Gustavo.
Bem, eu recebi o Daniel Soranço. Daniel, médico de família e comunidade, deputado federal pelo estado do do Rio de Janeiro, foi secretário municipal de saúde no Rio com uma gestão super bem-sucedida. Ele já trouxe aqui alguns dos principais pontos que ele implementou durante o seu período de administração da saúde pública ali no Rio. No próximo episódio, a gente vai falar muito mais sobre o papel das inovações, da tecnologia e também da formação profissional dos novos Médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, para que a gente possa acelerar a transformação do SUS e ampliar o impacto da saúde pública na vida dos brasileiros.
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