EP#96 - ASTRONAUTAS DA NAU CATARINETA - O QUE É VERDADE E O QUE É FICÇÃO NA SÉRIE CHERNOBYL?
Há 7 anos a HBO lançava a série Chernobyl, que retratava o maior acidente nuclear da História. Mas, o que será que se encaixa na realidade dos fatos e da ciência e o que será que é ficção? Esse é o assunto do Astronautas da Nau Catarineta.
Foi ao ar no dia 06 de maio de 2026.
FICHA TÉCNICA
Apresentação: Bea Alcântara e Deyse Ponciano
Produção: Bea Alcântara
Edição de áudio: Val Donato
Redes sociais: Bianca Letícia
Bea Alcântara
Deise Ponciano
- Série ChernobylIonização do ar e brilho luminoso · Desintegração nuclear (alfa, beta, gama) · Funcionamento de usina nuclear e fissão em cadeia · Uso de boro e areia para conter o incêndio · Isótopos radioativos de iodo e pastilhas de iodo · Chumbo como material de proteção contra radiação gama · Síndrome de radiação aguda · Mito de pessoas radioativas por contato · Terceira explosão e detonação termonuclear · Ponte da morte e lenda urbana · Distorções no comportamento dos oficiais soviéticos · Design de produção e cultura material soviética · Efeitos ambientais: remoção de solo, corte de florestas, sacrifício de animais · Radionuclídeos (Césio-137, Estrôncio-90) e cadeia alimentar · Morte de animais na zona de exclusão · Relação entre conhecimento científico e poder político · Mito do cientista racional e imparcial · Número de mortes e estimativas contestadas · Medo desproporcional de radioatividade e energia nuclear · Usos benéficos da radioatividade (medicina nuclear, preservação de alimentos) · Contexto geopolítico da Guerra Fria, Glasnost e Perestroika
- Minissérie Emergência Radioativa (Netflix)Acidente radiológico com Césio-137 em Goiânia (1987) · Descaso institucional e pânico social · Personagens: família do ferro velho, físico nuclear, CNEN, governador · Equilíbrio entre história e sensibilidade narrativa · Atuações de Bukácia Cabenguele, Ana Costa, Johnny Massaro, Paulo Gorgulho e Tucandrade · Sucesso de audiência no Brasil e Portugal
- Marie Curie RadioatividadeVida e formação de Marie Skłodowska Curie · Descoberta da radiação do urânio por Becquerel · Radioatividade como propriedade do átomo · Isolamento do Polônio e Rádio · Nobel de Física e Química · Primeira mulher a lecionar na Sorbonne · Unidades móveis de raio-x na Primeira Guerra Mundial · Contribuição científica e simbólica
- Ações da SECTE na ParaíbaVisita do reitor do Instituto Militar de Engenharia · Programa de Ações Afirmativas de Apoio à Permanência e Conclusão do Ensino Superior · Edital Conectando Startups · Universidade Firenze (Universidade de Florença) e Paraíba Sem Fronteiras · Presença na solenidade na Ilha Tec · Redes sociais e site da SECTES
Mayday, Mayday! Caracará na escuta! Espera aí, aqui é a Paraíba? Astronautas da Nauca Parineta
Oi, gente! Tá começando mais um Astronautas da Nau Catarineta. Eu sou a Bea e esse é o programa da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior da Paraíba. E aí, pessoal? Meu nome é Deise Ponciano, sou jornalista da Asconda Sectes e estou hoje com vocês aqui no Astronautas. Bem-vinda! Obrigada! Hoje, dia 6 de maio, além do aniversário da já conhecida de vocês, Bianca Letícia...
marca também os 7 anos de estreia da série Chernobyl da HBO. O acidente nuclear de Chernobyl completou 40 anos no dia 26 de abril. E vamos falar hoje sobre a ciência e o que é mito ou verdade na série da HBO sobre a tragédia. Mas antes de entrarmos de cabeça nessa história, a gente vai relembrar as ações da SECTE na última semana. É hora do Reconecta aí! Reconecta aí!
A SECTES recebeu a visita do reitor do Instituto Militar de Engenharia, o general Galdino, acompanhado de um grupo de pesquisadores para discutir novas oportunidades de parceria com instituições de ensino superior da Paraíba. Foram também lançadas novas vagas para o Programa de Ações Afirmativas de Apoio à Permanência e Conclusão do Ensino Superior.
Ao todo, são 269 vagas que garantem uma bolsa de R$ 700 mensais, fortalecendo a permanência de estudantes no ensino superior. As inscrições seguem até o dia 11 de maio pela plataforma Sigfapesc. O edital Conectando Startups foi prorrogado e essa é a chance de ajustar, revisar e submeter sua ideia com mais estratégia.
As inscrições vão até o dia 22 de maio e é a oportunidade de incubar sua startup no Parque Tecnológico Horizonte de Inovação. Os editais para a Universidade Firenze, a Universidade de Florença, através do programa Paraíba Sem Fronteiras, também ainda estão abertos. As vagas são destinadas para graduação e doutorado e as inscrições vão até hoje, às 17 horas. Então, corre! Aproveite essa chance de internacionalizar seu currículo e voltar de bagagem cheia para desenvolver ainda mais o nosso estado.
A SECT marcou presença na solenidade realizada na semana passada na Ilha Tec, em Joupessoa, reunindo instituições como SEBRAE, Embrapi e representantes de instituições de ensino superior do Estado. E voltando ao programa Paraíba Sem Fronteiras, ele também está com bolsas abertas para quem quer viver uma experiência acadêmica em Turim, também na Itália. São dois editais disponíveis, graduação e pós-graduação sanduíche, com inscrições até o dia 15 de maio. E para essas e outras pautas, coberturas e afins...
Não esquece, segue a arroba ciência e tecnologia GovPB no Instagram, sectspb no YouTube e o nosso site é sectspb.gov.br. Falar sobre Chernobyl é relembrar um acidente nuclear radioativo. E para a gente entender melhor o conceito de radioatividade, precisamos ir até a raiz dessa história. No Decodificando de hoje, a gente vai conhecer um pouco mais da história de Marie Curie e as suas descobertas. Decodificando!
Marie Skalodowska nasceu em Varsóvia em 1867, filha de professores. O ensino superior era vetado às mulheres na Polônia, então ela fez um acordo com a irmã Bronia. Trabalharia como governanta para financiar os estudos da irmã e, em troca, Bronia custearia os dela. Aos 24 anos, Marie chegou finalmente à Sorbonne.
Em Paris, vivia em um sótão gelado no quartier latim, dormindo com todas as roupas que tinha. Mesmo assim, descreveu o período como uma libertação. Formou-se em física em 1893, liderando a turma. Ficou em segundo no exame de matemática no ano seguinte e nesse mesmo ambiente conheceu Pierre Currie. Casaram-se em 1895.
Seu foco científico veio da descoberta de Becquerel sobre a radiação do urânio. Marie iniciou uma investigação sistemática e chegou a uma conclusão revolucionária. A intensidade da radiação dependia apenas da quantidade do elemento, não dos compostos em que ele estava. A radioatividade era uma propriedade do átomo em si.
Ao estudar a PecBlender, percebeu que o minério emitia a variação muito mais intensa do que o esperado, sinal de que havia um elemento desconhecido ali. Pierre largou sua própria pesquisa para se juntar a ela. Juntos, isolaram duas frações altamente ativas
e confirmaram a existência de não um, mas dois novos elementos. Em julho de 1898, anunciaram o polônio, batizado em homenagem à Polônia. Em dezembro, o rádio. Foi também nesse trabalho que usaram pela primeira vez o termo radioatividade. Para confirmar as descobertas, precisariam isolar os elementos em quantidades visíveis, o que exigiria toneladas de minério.
Trabalhando em um galpão improvisado, Marie processava 20 kg de material bruto de cada vez, mexendo massas ferventes com uma barra de ferro. Após milhares de cristalizações, isolou um decigrama de cloreto de rádio puro a partir de várias toneladas de material. Em 1903, apresentou esses resultados em sua tese de doutorado, considerada pela banca a maior contribuição científica já feita em uma tese.
Nenhum dos dois sabia que a radiação estava destruindo sua saúde. Pierre carregava amostras de rádio no bolso. Marie dormia com um frasco na cabeceira. Em 1903, receberam o Nobel de Física, mas estavam tão debilitados que só foram buscá-lo em 1905. Em 1906, Pierre foi atropelado por uma carroça e morreu.
Viúva aos 38 anos, Marie recusou a pensão oferecida e assumiu a cátedra do marido na Sorbonne, a primeira mulher a lecionar ali. Em 1911, recebeu o Nobel de Química, tornando-se a única pessoa na história a vencer o prêmio em duas ciências diferentes. O ano foi também um dos mais sombrios. Ela foi rejeitada pela Academia de Ciências Francesa e sofreu uma campanha de difamação na imprensa.
Durante a Primeira Guerra Mundial, equipou mais de 20 unidades móveis com aparelhos de raio-x e treinou mulheres em radiologia de campo, percorrendo as frentes de batalha. Sua filha, Irene, então com 18 anos, trabalhou ao seu lado. O Radio Institute, inaugurado em 1919, tornou-se um dos mais importantes centros de pesquisa do Entreguerras.
Marie morreu em 4 de julho de 1934, vítima de leucemia causada pelas décadas de exposição à radiação que ela mesma havia nomeado. Sua contribuição foi dupla, científica ao descobrir caminho para toda a física nuclear moderna e simbólica.
ao provar que uma mulher imigrante e sem recursos podia alcançar o mais alto nível do conhecimento humano. Em 1995, foi a primeira mulher a ser transferida para o Panteon por mérito próprio.
A série Chernobyl, lançada em 2019 pela HBO, se tornou uma das produções mais aclamadas da última década e também uma das mais ricas para quem quer entender radioatividade, física nuclear e até a história da ciência. Com cinco episódios densos, ela reconstrói o maior acidente nuclear da história, ocorrido em abril de 1986 na Ucrânia, então parte da União Soviética.
E antes de mergulhar no que é real e no que foi dramatizado, vale entender porque essa série funciona tão bem como ponto de partida para o aprendizado científico. O primeiro grande conteúdo científico que a série apresenta aparece já nos minutos iniciais do primeiro episódio. A explosão do reator...
é acompanhada por um brilho intenso no céu. Esse fenômeno tem uma explicação física concreta. Trata-se da ionização do ar causada pela radiação liberada em quantidades absurdas durante a explosão. Quando partículas radioativas atravessam o ar em alta energia, elas arrancam elétrons dos átomos ao redor, gerando esse efeito luminoso perturbador e real. Essa ionização está diretamente ligada a um dos conceitos fundamentais da radioatividade.
a desintegração nuclear. Durante um acidente como o de Chernobyl, o núcleo de átomos instáveis se rompe espontaneamente, emitindo três tipos principais de radiação, as partículas alfas, as partículas beta e a radiação gama.
E cada uma dessas emissões tem características diferentes de penetração e de risco para os organismos vivos. Por isso, compreendê-las é essencial para entender por que o acidente foi tão devastador. No segundo episódio, a série traz uma cena didática em que o personagem Legasov explica o funcionamento de uma usina nuclear. Ele descreve os nêutrons como balas que colidem com as pastilhas de combustível, provocam a quebra dos átomos, processo chamado de fissão nuclear,
e liberam energia em grande quantidade. Essa energia é usada para aquecer água, gerar vapor e acionar turbinas que produzem eletricidade. A metáfora das balas é simplificada, mas a lógica da fissão em cadeia está correta. A reação em cadeia mencionada por Legasov é, inclusive, o coração do funcionamento de um reator nuclear. Quando um nêutron colide com um átomo de urânio,
Esse átomo se quebra e libera mais nêutrons, que por sua vez colidem com outros átomos e assim por diante. O papel do reator é controlar essa cadeia para que a energia seja liberada de forma estável. E o acidente de Chernobyl aconteceu justamente porque essa cadeia saiu de controle durante um teste de segurança mal conduzido.
Para conter o incêndio após a explosão, a série mostra o uso de boro e areia lançado sobre o reator. O boro tem a capacidade de absorver nêutrons, ou seja, ele interrompe a reação em cadeia ao capturar as balas, antes que elas possam atingir novos átomos.
Já a areia atua como material de abafamento do fogo. Esse procedimento de emergência foi, de fato, adotado nos primeiros dias após o acidente e reflete um conhecimento real de física nuclear aplicada em situações de crise. Outro conteúdo científico tratado pela série é a liberação de isótopos radioativos de iodo.
durante desastres nucleares. O iodo radioativo, quando inalado ou ingerido, se concentra na glândula tireoide e pode causar tumores. A série mostra uma personagem ingerindo pastilhas de iodo estável justamente para saturar a tireoide e impedir que ela absorva o iodo radioativo. Uma medida preventiva que tem respaldo científico real e foi amplamente usada em regiões afetadas por acidentes nucleares.
O chumbo aparece no terceiro episódio como material de proteção contra a radiação. Trabalhadores mortos pela exposição são enterrados em caixões de chumbo. E a cena ilustra uma propriedade física importante. O chumbo é um dos materiais mais eficazes para bloquear a radiação gama por conta de sua alta densidade atômica.
Esse uso é absolutamente verídico. Blindagens de chumbo são empregadas em hospitais, laboratórios e instalações nucleares até hoje, justamente para proteger pessoas da radiação ionizante. E a série também abre espaço para discutir os efeitos da radioatividade sobre o corpo humano.
No terceiro episódio, Legasov explica como a radiação age nos tecidos biológicos, danificando células e causando a chamada síndrome de radiação aguda. Os sintomas incluem náuseas, queda de cabelo, feridas que não cicatrizam e falência de órgãos. Quanto maior a dose recebida e menor o tempo de exposição, mais severa é a síndrome e a série representa visualmente esse processo de forma impactante.
Aqui começa, porém, um dos pontos em que a série cruza a fronteira entre a dramatização e a desinformação científica. A produção insinua repetidamente que pessoas expostas a altos níveis de radiação se tornam, elas próprias, radioativas, como se pudessem transmitir a radiação para outros por simples contato ou proximidade. E isso não corresponde à realidade.
Uma pessoa contaminada por partículas radioativas deixa de representar perigo para outros após ser adequadamente descontaminada. O motivo pelo qual pacientes com síndrome de radiação aguda são isolados não é porque irradiam os que estão ao redor, mas porque seu sistema imunológico...
fica gravemente comprometido. Eles ficam altamente suscetíveis a infecções comuns que qualquer pessoa saudável combateria facilmente. O isolamento, portanto, serve para proteger o paciente e não para proteger os outros dele. Confundir esse ponto pode gerar um estigma desnecessário e distorce a compreensão médica sobre o tratamento de vítimas de radiação.
Outro exagero científico presente na série envolve a suposta ameaça de uma terceira explosão, descrita como capaz de gerar uma detonação de 2 a 4 megatons. A série trata esse risco como iminente e catastrófico, gerando grande tensão dramática.
No entanto, essa estimativa é fisicamente impossível nas circunstâncias descritas. Reatores nucleares danificados não funcionam como bombas termonucleares, pois não possuem os mecanismos de compressão necessários para gerar explosões dessa magnitude. A chamada ponte da morte é outro elemento que a série incorpora como fato histórico, mas que especialistas classificam como lenda urbana.
A produção mostra moradores reunidos em uma ponte para observar o brilho do incêndio e sugere que todos eles morreram em decorrência da radiação recebida naquela noite. Não há registros confiáveis que confirmem essa narrativa. Ela parece ter surgido como parte do folclore trágico.
em torno do acidente, e a série a cristaliza visualmente sem qualquer ressalva. Há também distorções no que diz respeito ao comportamento dos personagens soviéticos. A série retrata oficiais do governo ameaçando trabalhadores e cientistas com execuções sumárias, criando uma atmosfera de terror totalitário permanente. Mas após a era Stalin, que terminou em 1953, esse tipo de execução extrajudicial havia se tornado raro na União Soviética.
A representação carregada de vilania excessiva reduz a complexidade do sistema soviético a uma caricatura pouco fiel à realidade histórica daquele período. No que tange à precisão do design de produção, a série merece crédito considerável. A reconstituição da cultura material soviética...
desde as placas de automóveis da região de Kiev, até os uniformes, os interiores do apartamento e os equipamentos hospitalares. Tudo isso foi amplamente elogiado por quem conhece o período. Essa atenção estética aos detalhes visuais cria uma imersão histórica genuína, mesmo quando a narrativa em si se afasta da realidade dos fatos. O quarto episódio aborda os efeitos ambientais do desastre com uma dimensão interdisciplinar. Importante!
Cenas mostram a remoção das camadas superficiais do solo contaminado, o corte de plantações e florestas inteiras, a lavagem de ruas e o sacrifício de animais domésticos e selvagens. Esses procedimentos foram reais. A dispersão de radionuclídeos pela atmosfera contaminou extensas áreas e as autoridades precisaram agir de forma drástica para tentar conter a propagação da contaminação pelo ecossistema.
Os radionuclídeos liberados pelo acidente como o Césio-137 e Estrúncio-90 têm meias-vidas longas, o que significa que continuam emitindo radiação por décadas. Quando depositados no solo, entram na cadeia alimentar, são absorvidos por plantas, ingeridos por animais e podem chegar aos seres humanos. Esse ciclo de contaminação biológica é um tema central da ecologia nuclear.
ilustra como um acidente localizado pode ter consequências ambientais de escala continental. Porém, a série representa de maneira equivocada a morte de animais na zona de exclusão. A produção mostra os soldados abatendo animais nas áreas residenciais próximas à usina, criando cenas de grande impacto emocional.
Na realidade, o abate foi conduzido principalmente em regiões mais afetadas da cidade e das instalações. O general que liderou os liquidadores confirmou que a ação existiu, mas que sua localização e contexto foram alterados para fins dramáticos. Do ponto de vista da história da ciência, Chernobyl oferece reflexões valiosas sobre a relação entre conhecimento científico e poder político.
A série mostra Legasov sendo pressionado a minimizar o acidente diante de organismos internacionais, o que ilustra como a produção científica nunca acontece em um vácuo dentro. Cientistas operam dentro de contextos institucionais, políticos e ideológicos que moldam o que pode ser dito, publicado e denunciado.
Uma lição que vai muito além do contexto soviético. A série também questiona o mito do cientista como ser racional e imparcial, acima das pressões sociais. Ao mostrar Legasov hesitando em revelar as causas reais do acidente, a produção humaniza a ciência e expõe suas contradições internas.
O desenvolvimento científico na prática é lento, repleto de disputas, erros, coerções e negociações. E não há uma marcha linear e heróica em direção à verdade, como frequentemente se imagina no sexo comum. O número de mortes causadas pelo acidente é outro ponto de controvérsia.
que a série aborda de forma imprecisa. É verdade, a produção sugere que o total de vítimas poderia chegar a 93 mil, um número altamente contestado pela comunidade científica. O que se sabe com razoável certeza é que houve cerca de 5 mil casos documentados de câncer de tireoide relacionados ao acidente, a maioria tratada com sucesso. As estimativas mais amplas sobre mortes indiretas variam enormemente e permanecem inconclusivas.
Essa incerteza sobre os números reais do desastre é por si mesma uma lição científica importante. Isolar os efeitos da radiação de outros fatores de risco, como condições socioeconômicas, estresse crônico e outras contaminantes ambientais, é metodologicamente muito difícil.
Doenças congênitas, cânceres e outras condições podem ter múltiplas causas, e a ciência exige cautela antes de estabelecer relações de causalidade diretas. A série, ao trabalhar com números impactantes sem essas ressalvas, pode reforçar medos desproporcionais. Esse medo desproporcional de radioatividade é, aliás, um legado direto de Chernobyl, que persiste até hoje.
O acidente ajudou a cristalizar uma visão predominantemente negativa da energia nuclear na opinião pública mundial, muitas vezes ignorando os usos benéficos da radioatividade. A medicina nuclear, por exemplo, utiliza isótopos radioativos para diagnósticos por imagem e tratamento de tumores.
A irradiação também é usada para preservar alimentos e esterilizar materiais hospitalares, aplicações que salvam vidas todos os dias. A série ainda pode ser lida como um documento sobre o contexto geopolítico da Guerra Fria. O acidente ocorreu em um momento de tensão máxima entre os blocos capitalista e socialista e a forma como a União Soviética gerenciou e tentou ocultar. O desastre tem muito a dizer sobre as dinâmicas de poder da época.
A abertura política promovida por Gorbachev com a Glasnost e a perestroika estava em curso justamente quando Chernobyl explodiu, criando uma contradição brutal entre o discurso de transparência e o reflexo institucional de encobrir o acidente. No balanço final, Chernobyl é uma obra que merece ser assistida com pensamento crítico ativo. Onde é certa? Ela é muito eficaz em tornar visíveis conceitos científicos complexos.
visão nuclear, ionização, meia-vida, contaminação por isótopos, de maneira que nenhum livro didático consegue replicar com o mesmo impacto emocional. Já onde erra, ela serve igualmente bem, como ponto de partida para questionar, pesquisar e compreender a diferença entre dramatização e realidade científica. Antes da gente finalizar o programa, ainda dá tempo da dica do dia com cultura e ciência. Bora lá? Cultura e Ciência Cultura e Ciência
Falando em radioatividade, o acidente com o Césio 137, marca traumática na história de Goiânia e do Brasil em 1987, virou tema da série Emergência Radioativa, que é a dica de hoje. Olha o troço aqui, ó. Isso aqui é chuva, isso aqui valeu uma grana, Lucio. Ô, meu, meu, que isso, hein? Vamos lá.
Eu tô com uma série de pacientes aqui com os mesmos sintomas. Aí eu lembrei que você fez especialização em física nuclear. Você não quer aproveitar que você tá na cidade e dar um pulo lá pra dar uma olhada nisso pra mim? Ué, tá estranha isso aqui, Diego. Para! Para! Para! Para! Para! Isso é radioativo! O quão perigoso isso é pra gente, de verdade. Que esse pó que vocês tiveram em contato, que se chama Césio, ele é radioativo. E ele faz muito mal.
Mas agora nós precisamos agir rápido para evitar uma tragédia. Se esse Césio se espalhar mais ainda pela cidade, a gente vai ter um desastre como o Brasil nunca viu. Um ônibus radioativo circulando por Goiânia há dois dias. É muito importante que vocês sejam medidos. Em Chernobyl, as pessoas se contaminaram durante minutos. Aqui elas foram expostas ao Césio durante dias. Isso muda tudo, entende?
Mas ela vai vir logo depois. Nossa prioridade é acalmar a população. O tempo tá correndo. É na hora de pôr a mão na consciência e no coração e se perguntar por que vocês se tornaram médicos. A gente precisa de vocês. Você tá se colocando em perigo, Márcio. Eu tô vendo uma pessoa se afogar. Você que tu deixa?
Tudo que a gente faz gera uma consequência. E às vezes o que a gente não faz gera uma consequência maior ainda.
Em 1987, um aparelho de radioterapia abandonado em um hospital desativado de Goiânia virou sucata. Dois catadores encontraram a cápsula de chumbo, venderam o ferro velho, e o dono do estabelecimento, encantado com o pó azul que brilhava no escuro, levou o material para casa. O que parecia um achado misterioso era, na verdade, Césio-137, um dos elementos radioativos mais perigosos do mundo.
É a partir desse momento que começa a Emergência Radioativa, minissérie brasileira lançada pela Netflix em março de 2026, que reconstrói um dos maiores acidentes radiológicos da história. A trama acompanha múltiplas perspectivas do desastre. A família do ferro velho, que vai sendo contaminada sem entender o que está acontecendo com seus corpos,
O jovem físico nuclear, que descobre os níveis alarmantes de radiação e entra em uma corrida contra o tempo. Os especialistas da Comissão Nacional de Energia Nuclear, enviados para conter o avanço da contaminação. E o governador, que tenta se esquivar das responsabilidades do Estado enquanto a cidade entra em colapso. São cinco episódios que não deixam o espectador respirar. Um dos maiores méritos da série é o equilíbrio entre história e sensibilidade narrativa.
A encenação privilegia a atenção silenciosa. O brilho azul do Césio, que seduz antes de matar.
os sintomas que chegam devagar, a burocracia que atrasa o socorro. Cada detalhe foi construído com cuidado para que o horror se instale aos poucos, da mesma forma que a radiação age no corpo. O elenco entrega atuações incríveis. Bukácia Cabenguele, como Evenildo, Ana Costa, como Antônia, Johnny Massaro, Paulo Gorgulho e Tucandrade selam alguns dos principais nomes da trama.
A série também é um retrato direto de como tragédias coletivas se aprofundam quando encontram descaso institucional, desinformação e pânico social. O acidente de Goiânia não foi apenas uma falha técnica. Foi o resultado de um hospital abandonado sem protocolo, de uma vigilância sanitária que não agiu no momento certo, de uma greve hospitalar que complicou o atendimento das vítimas e de um governo que demorou a assumir a crise. Tudo isso está na série.
sem didatismo e sem simplificações fáceis. A Emergência Radioativa chegou ao primeiro lugar no top 10 da Netflix no Brasil e em Portugal no fim de semana de estreia, e figurou entre os conteúdos mais assistidos do mundo, um sinal que a história importa muito além das fronteiras de Goiânia. Pra quem não conhecia o acidente, a série é uma porta de entrada impactante. Pra quem já sabia o que aconteceu em 1987, é uma oportunidade de ver esse capítulo esquecido da história brasileira finalmente ganhar o tamanho que sempre mereceu.
Com essa, a gente se despede. Mas se bater saudade, você pode ouvir esse e outros programas novamente. Basta pesquisar por astronautas da Nau Catarineta, Paraíba FM. Estamos de volta na semana que vem, quarta-feira, de 1h da tarde. Tchau, tchau!
Esse foi o programa Astronautas da Nau Catarineta. Apresentação de Mel Cântara e Deis Funciano. Uma produção da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior da Paraíba em parceria com a rádio Paraíba FM 103.9. Uma emissora da EPC, empresa paraibana de comunicação.
Diretora-presidente, Naná Garcete. Diretor de Rádio e TV, Rui Leitão. Gerente de Rádio e Difusão, Berlim Carvalho. Gerente executivo de conteúdos e programação, André Cananea. Pega, pega. Valeu, Carcará, tudo certo. Câmbio de desligo. Você acabou de ouvir o programa Astronautas da Nau Catarineta.