Episódios de Parahyba FM | E com vocês...

EP#23 - E COM VOCÊS - NELSON BARROS

12 de maio de 202658min
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No 10º episódio da 2ª temporada do programa “E Com Vocês...” o jornalista André Cananéa conversa com o escritor e psicoterapeuta Nelson Barros. Pontuado por cinco canções afetivas do entrevistado - interpretadas por artistas que vão de Erasmo Carlos a Jamiroquai, passando por e Ney Matogrosso, Tommy Dorsey e Cássia Eller -, Nelson fala sobre sua infância, adolescência e vida adulta, em um papo delicioso sobre vida e música. 

Este programa é um produto da Empresa Paraibana de Comunicação.     
Produção e apresentação: André Cananéa    
Edição: Ivson Lira  
Programa transmitido pela na Parahyba FM 103,9 em 05/12/2026

Participantes neste episódio2
A

André Cananéa

HostJornalista
N

Nelson Barros

ConvidadoEscritor e psicoterapeuta
Assuntos6
  • Música e CulturaPrimeiras lembranças musicais: Sentado à Beira do Caminho · Paixão por quadrinhos e a influência na adolescência · Descoberta do rock e da MPB: Os Secos e Molhados e Raul Seixas · Influência do jazz: Nina Simone, Billie Holiday, Ella Fitzgerald · Apreciação da música popular brasileira e seus movimentos · Músicas afetivas: Erasmo Carlos, Ney Matogrosso, Cássia Eller, Tommy Dorsey, Jamiroquai · Alegria e melancolia na música · Acompanhamento da música brasileira contemporânea
  • Infância e juventudeInfância nômade em Pernambuco e Rio Grande do Norte · Mudança para João Pessoa e fixação na cidade · Primeiras memórias musicais e rádio · Leitura e paixão por gibis · Adolescência e descoberta do rock e MPB
  • Visão de Vida e TempoFilosofia de viver o presente: 'Meu tempo é agora' · Apreciação do retro e vintage, como vinis · Adaptação às novas tecnologias e facilidades
  • Carreira ProfissionalFormação em psicologia após abandono da medicina · Influência da música na decisão de mudar de curso · Carreira de psicoterapeuta com 36 anos de prática · Escrita como parte intrínseca do pensamento
  • Encontros e ÍdolosEncontro com Ney Matogrosso e a história por trás das músicas · Apreciação de artistas como Astor Piazzolla e Woody Allen
  • Cinema e CulturaHábito de frequentar o cinema e colecionar trilhas sonoras · Mudança do cinema de rua para shoppings · Apreciação de filmes de diversos gêneros e diretores
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Programa não recomendado para menores de 10 anos. Está começando o programa E Com Vocês. Histórias de vida e música. Nossos convidados especiais revelam sua trajetória de vida e a trilha sonora por trás de cada momento. Paraíba FM 103.9

Olá, ouvinte da Paraíba FM, eu sou André Cananea e você acaba de chegar ao programa e com vocês. Então seja muito bem-vindo, muito bem-vinda a um passeio delicioso sobre a vida e a obra de um entrevistado pra lá de especial. Bate-papo pontuado por cinco músicas bastante afetivas.

Neste programa já recebemos convidados da importância de Charles Gavan, Ney Mato Grosso, Maria Valéria Rezende, Luquete, Lúcia Alves e mais recentemente Maiana Neiva, Marília Arnault, Oliveira de Panelas e muitos outros. Caso você queira...

ouvi-los, eles estão disponíveis nas plataformas de podcast e você poderá localizá-los com as palavras-chave Paraíba, lembrando que é com H e Y, e o nome do programa e com vocês. No programa de hoje receba aqui nos estúdios da Paraíba FM uma figura muito conhecida e muito querida no meio cultural. Então, e com vocês, Nelson Barros. Opa, André, é um prazer estar aqui. Eu adoro esse programa, eu sou ouvinte da Paraíba FM, devo dizer, né?

E sempre que escuto esse programa, eu ficava, rapaz, quando será que vai chegar a minha vez? Então, estou super feliz de ter recebido esse convite e para a gente estar aqui falando de música e vida. Obrigado. Que legal, chegou hoje e eu que agradeço, Nelson.

Já vou aproveitar para pedir para o ouvinte seguir a Paraíba FM no Instagram, através do perfil arroba paraibafm103.9 e também para interagir conosco pelo WhatsApp 994054674. Mandem mensagens, sugestões de pauta, falem o que é que vocês acharam do programa de hoje também. Nelson do Rego Barros nasceu em Belo Jardim, Pernambuco, mas construiu toda a sua vida pessoal e profissional em João Pessoa.

psicoterapeuta, escritor e meu colega colunista no jornal União, é autor dos livros Coisas que Escrevi para Ela, Trilha Sonora, Menino, Como Desenhar uma Flor Adorável e O Tarô Poético de Nelson Barros, uma seleção de textos em forma de baralho de tarô. Também tem textos e antologias como Espelho de Papel e Espelho de Papel Vol. 2, ambas lançadas aqui pela editora União. Nelson Barros é um apaixonado por música, como vocês verão ao longo deste programa.

e até já arriscou subir no palco e defender músicas em festivais da canção de antigamente. Quem estava lá garante que a voz dele é linda, hein? Mas, Nelson, antes de começar, a gente tem uma pergunta muito tradicional aqui que eu quero que você responda aqui pra gente. Quem é Nelson Barros? Eita, Nelson Barros. Vale um rapaz latino-americano? Vale. Eu sou um paraibano de coração.

apaixonado pela cidade de João Pessoa. Gosto, inclusive, de dizer que, apesar de ter chegado aqui no começo da adolescência, a minha vida começa aqui nessa cidade. Sou psicoterapeuta, sou escritor e apaixonado por música, como você falou. Sou de uma geração de pessoas que foi formado pela música e pelo cinema, e em seguida pela literatura.

Então, sou essa pessoa. Que maravilha. E ser formado pela literatura e pelo cinema é uma maravilha. E também, claro, pela música. Então, você veio para João Pessoa no comecinho da adolescência. Toda a sua infância foi em Belo Jardim, em Pernambuco?

Não, não. Eu morei antes de vir para João Pessoa. Meu pai era um nômade, mudava de cidade, mudava de trabalho e tal, né? Então, Belo Jardim eu nasci, depois eu fui morar numa cidade também de Pernambuco, chamada Salgueiro. Depois fui para Caicó, no Rio Grande do Norte, e finalmente viemos para João Pessoa. Quando cheguei aqui, acho que 11, 12 anos, né? Uma coisa em mim disse, dessa cidade eu não saio mais.

E isso acabou acontecendo. Essas outras cidades, nas minhas memórias, eu junto todas numa só. Então, assim, são memórias que existem, mas que eu condenso como se essas três cidades fossem uma cidade só. A cidade das Difusoras. Olha, então você era um ouvinte de rádio nessas cidades? Eu sempre fui um ouvinte de rádio, sempre, a vida inteira.

Continuo sendo, aliás. É a minha primeira atividade do dia, é apertar o botãozinho e ouvir música no rádio. Olha, no rádio especificamente. No rádio especificamente. É uma coisa que eu não ouço muito aqui nesse programa, porque todo mundo já está muito nos streamings, na música de stream, esse tipo de coisa. Sou um ouvinte habitual, em casa e no carro.

Nelson, e essa infância, como você falou aí, nômade no interior, como era o núcleo familiar? Muitos irmãos, brincadeira de rua, a gente está falando de uma infância dos anos 60, certo? Uma infância dos anos 60, exatamente.

Não, eu fui um menino muito introvertido. Então, havia sim as brincadeiras de rua, tinha amiguinhos e tudo mais, mas o meu universo de conforto era quando eu estava sozinho, ouvindo música, lendo alguma coisa, enfim. Eu gostava mais dessas atividades mais introspectivas. Havia sim uma infância, esse lado da infância de meninada, de rua e tudo mais, mas o meu lugar de conforto era esse mais.

mais introspectivo. E qual é a sua primeira lembrança com música? Como é que ela chegou até você e você chegou até a música? Rapaz, é o seguinte, eu nasci numa casa, eu vivi numa casa, e acho que é até um lugar comum com relação a pessoas da minha geração. Eu escutei Marília Arnô falando sobre isso também, né? Eu vivia numa casa que tinha disco e livro. Meu pai é um homem apaixonado por música, né? Então eu ouvia aqueles...

clássicos da música brasileira, Elisette Cardoso, Angela Maria, Nelson Gonçalves. E a minha mãe não, a minha mãe não tem uma relação muito grande com música, mas tinha com literatura, era professora. E meu pai também, que sempre gostou muito de ler.

Então esse universo estava ali muito acessível, muito acessível e acessável. Então estava ali à disposição. Então tinha a vitrolinha e tinha também a estante da biblioteca de livros ali. Rapaz, a vitrolinha era um móvel tão interessante, André. Era uma coisa que chamava ABC, era uma radiola. Era um móvel de madeira, que ali se guardavam os vinis. Tinha um rádio também que fazia parte. Então era um móvel muito interessante. Pode ser que...

Alguém que esteja ouvindo esse programa se lembre das antigas radiolas. Ali a gente tinha a possibilidade de colocar 12 LPs. E eles iam descendo. Empilhados, né? Empilhados. Sim, na casa do meu avô tinha um desse. E eles iam descendo gradativamente e tal, e a gente ia ouvindo ali. E aí, Nelson, quero saber como é que essa música chegou até você.

Eu não posso mais ficar aqui

Que um dia de repente você volte para mim. Vejo caminhões e carros apressados a passar por mim. Estou sentado à beira de um caminho que não tem mais fim.

Meu olhar se perde na poeira Dessa estrada triste Onde a tristeza e a saudade de você Ainda existe Esse sol que queima no meu rosto O resto de esperança

A gente ouviu aí, Sentado à Beira do Caminho, creditada a Roberto e Erasmo Carlos, mas a gente sabe que é muito de Erasmo. Uma vez eu cheguei a entrevistá-lo e perguntei a Erasmo, que música você quer ser eternamente conhecido? E ele respondeu, eu quero ser eternamente conhecido por Sentado à Beira do Caminho, que é uma música marcante na sua infância. Nelson Barros, por quê?

Então, para mim, Erasmo conseguiu, ele ficou eternizado nessa música. Eu gosto muito dele, por sinal. Rapaz, era o seguinte, do quintal da minha casa, dava para eu escutar a difusora que ficava no cinema, que ficava próxima. Então, assim, à noite eu gostava de ir para o quintal, um terracinho que tinha no quintal, e ali eu ficava ouvindo música.

Então essa é a música que eu tenho a memória mais remota, sentada à beira do caminho, que eu escutava sozinho ali no quintal. Inclusive, quando essa difusura parava, era porque o filme tinha começado. Ah, era a música que tocava nos intervalos das sessões. Não, no intervalo das sessões não, porque naquela época o cinema tinha uma sessão. Ah, verdade, é isso. Então ali era uma coisa que eu imagino que era às seis, sete horas, e aquela difusura ficava tocando antes que o filme...

antes que o filme começasse. Então essa música é a que eu tenho a lembrança mais remota. É claro que todo mundo que vem aqui deve falar isso, né? Depois dessa, outras vieram. Então uma outra música que eu lembro demais dessa época era Ela Já Não Gosta Mais De Mim, com Gal e Caetano, eu acho.

Ele já não gosta mais de mim.

Mas eu gosto dele mesmo assim. Que pena, que pena. Ela já não é mais a minha pequena. E a coisa interessante também era o seguinte, depois ali eu ficava marcando mais ou menos o tempo, porque um pouquinho antes do filme terminar, o cinema abria. Então eu corria...

para pegar o finzinho do filme. Do filme? Então, tem muitos filmes que eu assistia apenas o final. Nossa, que curioso isso. É, porque acontecia isso, então eu marcava ali aquele tempo, sei lá, uma hora e meia, duas horas, tinha mais ou menos em mente esse tempo. E aí eu não apenas assistia o fim do filme que estava passando, como assistia também o seriado, que era um filmezinho que passava, era um...

É, né? Em capítulos, né? Isso, Flash Gordon, esse tipo de coisa. Alguma cor de Tarzan, exatamente. Que fantástico. Isso era em Belo Jardim ainda? Isso já era em Salgueiro. Ah, já estava em Salgueiro. Você devia ter aí entre, sei lá, 5 e 10 anos.

Entre 5, 6, 7, é por aí. Realmente é primeira infância total. É primeira infância total. Então, quer dizer, de certa maneira, isso abriu para você uma expectativa para o rock, porque você já começou a ir antenado com o Jovem Guarda, né, Erasmo? Sim. Acredito que eles tocavam Roberto também.

Você sabe que essa coisa das difusoras era muito comum nas cidades do interior, né? Então, essas duas músicas que falei agora é uma coisa que vem ali à noite e tudo mais, mas durante o dia, aí esse era o momento que a gente escutava no rádio e nas difusoras as músicas da Jovem Guarda.

Mas eu te confesso que eu não gostava muito, não. Eu era um menino mais, sei lá, chatinho, talvez, introspectivo. Ou mais tradicional em termos de música. Era, exatamente. Eu lembro dessa galera toda, Wanderlei Cardoso, Roberto Carlos, Wanderlei. Eu lembro dessas músicas, Ronnie Vaughn e tal, né? Eu lembro dessas músicas e tal.

mas não eram as músicas que eu preferia. Apesar de que Sentar da Beira do Caminho é uma música que surge nesse momento, mas não tem exatamente aquela cara. Você é um escritor que eu adoro ler, eu acho que você escreve super bem. Obrigado. Você revelou aí que passou uma infância lendo. A leitura vinha de uma recomendação da mãe, que era professora, como você falou, ou você descobria, você tinha a sua própria jornada descoberta de literatura?

Rapaz, é o seguinte, como a casa era uma casa que tinha bastante livro, né? Então aquilo estava ali, estava acessível, então era o que aparecesse. Então muito cedo eu lia, por exemplo, a gente tinha a coleção de Jorge Amado, tinha Machado de Assis, tinha coisas que eu não entendia muito.

Tinha umas enciclopédias que eu gostava demais de ficar ali folhando e tudo, né? E tinha uma coisa maravilhosa. Eles me davam... Eu podia comprar o IGBIS, as IBISTinhas, né? Então tinha uns que eu já nem sei se existem ainda. Não sei se você sabe, Bolinha, Riquinho, Brotoeja.

É, hoje só na base do mercado da nostalgia. É, Topo Gigio, né? Mas tinha também Tarzan, Mandrake, o Fantasma, né? Tinha os mais infantis e tinha os heróis também, então... Ah, então você era um leitor voraz de gibi? Mais do que livro? Leitor e colecionador. Ó, de gibi? Que legal. Eu tinha uma maleta cheia com gibis que eu gostava mais, né?

Aí tinham também os gibizinhos da Disney, depois chegou o pessoal da turma da Mônica, ali na adolescência, a turma do Ziraldo, a turma do Pererê. Então até essa... Essa sua paixão por quadrinhos chegou até a vida adulta ou foi perdendo força ali pela adolescência? Como em muitos casos também.

Não, na adolescência ela não perdeu força, não. Na adolescência eu continuei apaixonado, depois isso se continuou, né? Depois apareceram uns quadrinhos muito interessantes, Milo Manara, enfim... Os italianos. Os italianos e tudo mais, tá entendendo? O Crumble, que era uma coisa mais... Robert Crumble. Robert Crumble, né? Alternativa demais. Alternativa e tudo mais, né?

Mas continuou e eu ainda gosto. É uma coisa que me dá muito prazer, mas eu usufruo menos hoje. Tenho menos. Mas eu ainda tenho umas coisinhas guardadas. De quadrinho. Tem, quadrinho. Que legal. Essa é uma boa surpresa. Batman, cara, eu sou um fã. Então, eu não gosto de per-herói, mas eu gosto do Batman. Eu gosto do Batman. A minha exceção é o Batman, sim. Eu gosto muito. Que bacana. E com vocês, histórias de vida e música.

Nelson Barros conversando aqui comigo, André Cananea, no E Com Vocês de hoje. Nelson, no começo da adolescência você chega a João Pessoa com a família. Sim. Obviamente. E aí você se estabelece aqui em João Pessoa em que bairro? No bairro dos Expedicionários. Ah, certo. Isso então já é anos 70? 72, 73. A gente foi morar nos Expedicionários.

Eu fui estudar no Colégio Rio Branco e depois fui para o Santa Júlia, que a minha vida inteira foi de escola pública. E você concluiu no liceu, então? E depois fui para o liceu paraibano, que a grande referência de escola da minha vida é aquele colégio. Colégio, né? Que legal. É um período maravilhoso.

E conta pra gente como era o Nelson adolescente. Você falou que na infância você era meio tímido e tal. A adolescência não teve uma virada de chave aí? Teve uma virada total, rapaz. Que legal. Foi, teve uma virada total.

a música sempre esteve presente, então, enfim, aquilo se tornou mais acessível, né? E o meu grande universo de prazer era a música. E nesse momento não foi necessariamente o rock, mas tem uma coisa que eu gosto de dizer sobre a música popular brasileira, é que a música popular brasileira dessa época tinha uma pegada roqueira no sentido de que ela tinha uma coisa anti-ditadura.

de protesto, enfim, tinha uma atitude ali que eu acho que era uma atitude que eu considero meio rock'n'roll. Nesse momento, foi quando apareceu, e isso para mim foi absolutamente libertador, Os Secos e Molhados e Raul Seixas, são as lembranças mais irreverentes.

Tem uma colega, uma menina que eu conheci quando eu era aluno do Santa Júlia, que era a menina esquisita da escola, que era Milita, que era amiga de Olga Costa, mas isso já bem depois. Aí Milita me apresenta o rock'n'roll. Ela era apaixonada por Alice Cooper. Olha, então era o rock'n'roll mais casca-grossa. Ela era apaixonada por Alice Cooper, né? Mas enfim, a paixão mesmo da música eram os Rolling Stones.

Eu gostava dos Beatles. Eu era o menino dos Beatles e ela era a menina mais dos Rolling Stones. Aí ela também foi quem me apresentou uma música que era mais nova para mim. E que, na verdade, a gente também não tinha muito acesso.

Tinha na época uma revista que foi ótima, era uma coisa ótima também que trazia isso, que era uma revista chamada revista pop, que era de música, um pouquinho de cinema, desse universo mais. Aí trazia esse universo da música. E nós tínhamos poucas lojas de discos também. Aqui em João Pessoa, é verdade. A loja de discos aqui em João Pessoa, na verdade, elas ficavam dentro de lojas de eletrodomésticos. Verdade.

Eletropéças Exatamente Depois começaram a aparecer Nas lojas de disco Tinha uma muito interessante Chamada caverna Uma descidazinha ali Tem aquela calçada das Nações Unidas Onde eles vendem discos usados Na calçada da frente No sentido para a lagoa Uma portinha Exatamente Eu lembro da pessoa que tomava conta Que era Cabral O nome dele Né?

Cabral entendeu que eu era uma pessoa que gostava de música e ele me deu um presente espetacular, um presente no sentido de apresentar. Um dia ele me chamou e disse, vem cá, eu vou fazer você ouvir aqui uma cantora que eu tenho certeza que você vai gostar demais. Era Nina Simone.

A CIDADE NO BRASIL

Foi aí que eu conheci essa galera do jazz, Nina Simone, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, enfim, Sarah Vaughn. Que maravilha. Mas era anos 70, a gente estava na ditadura e, como você falou, a MPB tinha essa postura...

O próprio Caminhando e cantando, embora seja um ícone da MPB, mas ele tem uma pegada realmente de rock'n'roll, de afrontamento, esse tipo de coisa. Tem sim, Caetano, a turma da Tropicália, enfim, estava também mais evidente nessa época, pelo menos para mim. E você escolhe na nossa playlist afetiva essa música aqui.

A CIDADE NO BRASIL

em uma dança que ninguém se adorou, nunca de esse lado do mundo, terceiro mundo global.

De nomes e norillas Chapoteador de Historia Víspera de si mesmo Nunca de este lado del mundo Tercer mundo global

A gente ouviu aí uma faixa do segundo LP do Seco de Molhados, Terceiro Mundo. É uma composição de João Ricardo em parceria com Júlio Cotazá, que é um escritor argentino. E aí, quando o Nelson Barros me passou a lista, eu fiquei pensando, está aqui uma música que une os dois mundos que ele gosta, a música e a literatura. É isso, Nelson?

É isso sim. Quando os secos e molhados, aquilo foi uma revolução na minha vida, né? Assisti aquilo, aquilo me... Na TV, acredito. Na TV, na TV, né? Porque quando a gente escutava os secos e molhados no rádio, você não imaginava que aquela voz...

era a voz de um homem, a voz de Ney. Então, assim, e as pessoas... Aquilo ficou um mistério por muito tempo, ele mascarado. As pessoas achavam que, como quem se apresentava como líder da banda, era João Ricardo. Achavam que Ney era João Ricardo e tal. E tem esse primeiro álbum deles, que é icônico, que é Sangue Latino, aquela capa que todo mundo conhece e tal, enfim.

O álbum inteiro. O primeiro que é que tem as cabeças na mesa. Na mesa, exatamente. Que foi revolucionário, até hoje se fala muito. E esse álbum já tem uma coisa que era uma característica dos secos e molhados, musicar poemas. É, que no caso do Terceiro Mundo, que é do segundo disco, que a letra extrai fragmentos de La Prosa del Observatorio. Exatamente. Que foi publicado por Cotazá em 72. Exatamente. O disco é de 74, então... Exatamente.

Então assim, veja, o impacto inicial foi com esse primeiro álbum, né? Que tinha o amor, que aquela leve como leve pluma, que eu tenho inclusive tatuado no meu braço. Aliás, tem uma história engraçadíssima com isso, porque quando eu conheci o Ney, eu já tinha essa tatuagem, né?

E aí que ele vai muito ensagir e eu ficava andando assim de lado pra ele não ver a tatuagem. Esse cara vai achar que eu sou um um fã desse perseguidor. Stalker, né? Ah, então quando você encontrou com o Neymato Grosso você não deixou ele ver a tatuagem. Não, ele viu, mas eu ficava assim tentando evitar pra não causar essa impressão daquele fã perigoso. Era aquele do... The Misery, né? É, é, do...

O Estranha Obsessão. O Estranha Obsessão, exatamente. Baseado no livro de Stephen King. Não, mas assim, só complementar uma coisinha. Mas aí eu decidi escolher esse segundo álbum, Dos Secos e Molhados, apesar do primeiro ser mais conhecido. Porque, André, esse álbum é precioso, cara.

É um álbum melhor produzido. A capa, inclusive, é belíssima. É uma capa preta. É uma capa preta e o rosto deles está projetado em cestos. É verdade, é verdade. E é um álbum que tem músicas muito bonitas, tem uma produção mais elaborada. O próprio Ney, uma vez, conversando...

A gente conversando sobre isso, ele disse que é uma pena, as pessoas têm esse primeiro como referência e escutam menos aquele álbum, que é muito, muito, muito bom. Foi por essa época que você abraçou a MPB ou isso veio acontecer depois, ser mais velho?

Não, não, foi essa época mesmo, foi essa época. Depois isso foi chegando, como eu te disse, a música popular brasileira é muito rica, né? E todos os nossos... Que, aliás, isso é uma discussão que eu acho interessante, porque as pessoas dizem assim, ah, o brasileiro não tem memória e tudo mais. Mas veja, os artistas que a gente gosta, né? Caetano, Gil, Ney, Chico...

Essas pessoas sempre reverenciaram, respeitaram e foram e buscaram o repertório desses artistas mais antigos, né? Lupicinho e... A Tropicália que recuperou as bandas de Pífano e de Caruaru, Gal Costa que recuperou Jackson do Pandeiro. Exatamente, exatamente.

Nesse momento, a minha paixão foi a música popular brasileira. Dois movimentos muito interessantes aconteceram nessa época também, porque a música era, tinha uma coisa ali, Bahia, Rio de Janeiro e tudo mais. E aí, de repente, também Pernambuco e Ceará.

É Clóden, né? É Clóden, né? Depois a Paraíba, então chega uma turma bacana que foi... Rapaz, eu lembro a primeira vez que eu escutei a Elba Ramalho, eu tinha passado no meu primeiro vestibular e estava numa feira em Catolé do Rocha. E tem essas lojas de tecido que botam duas caixas de som assim na porta. Talvez até ainda exista isso ali pela Boé Perroã. É, é o que eu ia falar agora, né?

E aí de repente uma voz explode cantando...

E eu, meu Deus, que voz é essa? Quem é essa pessoa? E era a Paraíba já chegando também. Sem saber que era a Paraíba, né? Eu não sabia, eu não conhecia. Eu não conhecia a Elba naquele momento. Conheci... E você perguntou alguém quem era aquela cantora? Perguntei, perguntei. E aí ele disse... Sim, sim. Aí alguém comentou, rapaz, Elba Ramalha daqui, Paraibana e tal.

Que legal, porque eu tô lembrando de um... E com vocês, que a gente gravou com Charles Gavan, que a primeira vez que ele ouviu o Led Zeppelin foi numa difusora também. Acontece que ninguém sabia que banda era aquela. Porque ele também não conseguia encontrar o cara. Pelo menos dessa vez você soube. Não, dessa vez eu soube. Na hora. Dessa vez eu soube. Nelson, então esse contato com música fez você ir a muitos shows, né? Shows icônicos aqui em João Pessoa, né? Fora de João Pessoa.

E ia ter contato, como você falou aí, com o Ney Mato Grosso. Eu queria que você falasse para os ouvintes como é conhecer um ídolo. No caso dele, primeiro assim, era ídolo mesmo. Essa palavra está absolutamente... Então, quem me apresentou Ney foi Tavinho Teixeira, né? Eles são amigos e tudo mais.

E aí, rapaz, Tavinho disse, Nelson, Ney está por aqui, a gente vai jantar em tal lugar. Eu falei, puxa vida, Tavinho, eu não estou aí hoje, mas amanhã eu estou. Se ele topar e jantar lá em casa, aí Tavinho mandou, disse que ele topou e tal. Só que ele avisou que comia pouco e dormia cedo.

Eu disse, eu compreendo, vai que o programa é chato e a comida não presta, o cara tem... Já está avisado, né? Mas foi uma delícia, rapaz. Ele saiu lá de casa quatro horas da manhã, a gente conversou longamente. Tem uma parte dessa conversa que, para mim, é... Sim, foi fácil porque Ney é um cara zero estrelismo. Você já teve com ele, né? Completamente... Você fica à vontade um minuto e meio com ele.

Eu já estava esquecido, né? Mas teve um momento que eu perguntei para ele se ele achava chato ouvir música dele mesmo, né? Ele falou, ah, não, tal. E aí eu coloquei o primeiro álbum dele, né? Quando ele saiu dos secos e molhados, Água do Céu Passa, porque eu acho um álbum espetacular.

Eu também adoro. Eu achei espetacular. Rapaz, e aí a gente sentado ali no quintal, né? E ele foi me contando como foi feito cada faixa daquelas. E tinha o André que eu dizia, cara, eu não tô acreditando. Nem Mato Grosso, meu ídolo, tá aqui na minha casa contando a história de cada música desse álbum. Inclusive do compacto, né? Um encarte que era um compacto, que foi duas músicas que ele gravou com Astor Piazzolla na Itália.

Olha, então na verdade foi uma história do disco ao vivo ali, mas você chegou a registrar? Não, mas eu vou te dizer uma coisa, eu lembro de cada palavra. Mas quando eu escrevi, eu fui escrever dando aquela enfeitadinha. Aquela licença poética. É que o escritor tem direito, né?

Nelson, você chegou a estudar medicina, mas não terminou, mas concluiu psicologia. O que foi que aconteceu? Essa é uma história que também envolve música. Eu fiz medicina muito mais por uma pressão, eu sabia que eu queria fazer psicologia, né? Eu sou o primeiro filho e o primeiro neto das duas famílias. Olha, eu também.

E aquele menino inteligente, né, que podia fazer qualquer coisa, então a expectativa da família era que eu fizesse medicina ou engenharia e tal. Quando eu comuniquei que ia fazer psicologia, isso foi um desapontamento, e aí teve uma negociação não muito justa. E acabei fazendo medicina, mas eu era muito infeliz fazendo aquilo, porque eu sabia que...

que é o que eu queria fazer. Então, eu tinha uma noção, cada dia que eu ia para a faculdade, que eu estava indo fazer uma coisa que não era o que eu queria fazer. Um dia, eu estava indo para a faculdade, né? Eu tinha um chevetzinho. E no rádio, tocou uma música de Mercedes Souza e Bete Carvalho, Solo Lepido a Deus, que diz assim, eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente, que a morte não me encontre um dia solitário, sem ter feito o que eu queria.

Eu sou o peço a Deus Que a dor não me seja indiferente Que a morte não me encontre um dia Solitário sem ter feito o que eu quero

Rapaz, caí no choro no carro. Isso não é possível. Não é possível que eu vá fazer isso comigo. E aí eu dei a volta e não voltei mais para a faculdade. Olha! E aí fiz o vestibular de novo. Fiquei calado, não disse nada a ninguém. E mais uma vez a música, dando aí o recado.

Aí eu não disse nada a ninguém, comecei a estudar, isso era setembro, mais ou menos, comecei a estudar. Uma amiga fez a mesma coisa, não era feliz, queria fazer história.

Minha amiga Regina Beá. Eu e Regina estudávamos juntos. A gente fazia de conta que ia para a faculdade, mas, na verdade, a gente estava estudando. Para um novo vestibular. Para um novo vestibular, é. E aí, quando saiu o resultado do vestibular, a gente escutava o resultado pelo rádio. É, mais uma vez o rádio. Meu irmão, mais novo, estava fazendo o vestibular também, para a engenharia. Então, todo mundo ali...

escutando o rádio para ouvir o nome do meu irmão, de repente o cara fala, Nelson do Rego Barros, a família ficou meio paralisada. Eu falei, é porque eu fiz outro vestibular. Eita, nois. Para a psicologia. E aí decidi nem voltar mais para o curso de medicina, me encontrei e sou feliz. É uma coisa boa. 36 anos de prática de consultório tenho. Olha, já? Em João Pessoa, já.

Que fantástico isso. Tempo voa. E aí você exerce a profissão de psicoterapeuta atrelado à escrita. Eu queria saber mais como é o teu processo de escrita. Porque assim como eu, você escreve regularmente para um jornal. Sim. Isso, na minha concepção, me cria uma certa pressão para dizer assim, eu tenho esse compromisso de entregar esse texto.

Então eu escrevo sob pressão. Coisa que na carreira de jornalista eu sempre fiz isso, né? Eu tinha sempre o deadline. Mas e você, Nelson? André, outro dia, rapaz, eu estava conversando com o Ildeberto. Barbosa Filho, né? Sim, sim. Escritor também. Na casa de um amigo nosso, que está aliás na casa de um amigo, que foi meu professor de psicologia, Joca da Costa. E aí o Ildeberto disse, Nelson, e você escreve desde quando? A minha resposta saiu assim, num pulo, que eu disse, desde que eu penso. E depois eu...

Penso, logo escrevo. Depois eu me toquei, que aquilo poderia ter parecido uma coisa arrogante, né? Enfim, me desculpei, claro. Mas é porque tem uma coisa que acontece comigo. Eu penso ou escrevendo ou cantando.

Olha, acho que é uma coisa de hábito mesmo, né? De ter lido. Então, assim, eu estou ali pedalando e tudo mais, ou eu estou cantando alguma coisa aqui dentro da minha cabeça ou estou escrevendo alguma coisa, né? Então, nada, eu escrevia na escola e tudo mais, mas como isso não se apresentava como uma carreira possível, nunca nem pensei. Como cantar também, né? Eu fiz festivais aqui em João Pessoa, ganhei prêmio.

Ah, você chegou a ganhar os concursos? Ganhei, ganhei prêmio de melhor intérprete no MPB Sesc, defendendo uma música de Odair Salgueiro, de Carlos Anísio e de Arcella. Uma música dos três? Uma música dos três. Você lembra o nome? Lembro o Vampiro. O Vampiro. E ganhei um festival da canção no Unipê.

cantando uma música do filho de Luiz Ramalho, que é o Jebe Ramalho. E como chamava? Era vocalista e a música chamava-se Sansão Sem Cabeleira. Essa música tem uma história interessantíssima, porque Luiz Ramalho fez essa música para Ney, pensando em Ney cantar, né?

E Ney não gravou a música. Aí quando o Geber me deu a música, disse, olha, Nelson, essa música foi feita para Ney e tudo mais. Eu falei, então, você acabou de me dar a dica, eu vou cantar essa música como eu imagino que Ney cantaria. E aí eu fiz isso e a gente ganhou. Nelson, mas aí como é que... Eu queria entender como é que você chegou a subir até um palco. Você não fez uma carreira de barzinho, de cantor, fez? Não, não, não, não.

E como é que de repente você encara logo um concurso assim, defendendo uma música? Tem uma coisa que era muito interessante. Eu estava conversando agora com o Yara, né? Vai chegar um amigo, que é Justino, que é um amigo de... Que eu digo que é meu amigo de infância, porque nós nos conhecemos aqui em João Pessoa, que é quando a minha vida começou. Justino tocava violando.

Toca violão muito bem, aliás. E eu cantava, ficamos amigos, né? Então a gente ia para festinhas, cantava e tal, parará, era muito bacana, o repertório excelente. E eu cantava na pracinha da Alegria. Da UFPB. Da UFPB, exatamente. Estava ali nos intervalos, cantava e tal. A célula uma vez passou, aí me ouviu cantando e disse, rapaz... E cantava com plateia ali, né?

Sim, com os amigos, né? Ah, certo, aquela rodinha. A galerinha, exatamente. A rodinha do violão. É, exatamente, a rodinha do violão, né? E aí a Sela disse, né, você não quer não cantar essa música e tal, fazer uma música no festival. Eu fui morrendo de medo, porque eu não sou a pessoa mais extrovertida do mundo.

É, o que você falou no começo da entrevista, né? Você era meio tímido, né? É, mas era engraçado, porque, na verdade, essa timidez, ela tinha uma outra... Era mais, talvez, um estranhamento de um universo que talvez não me dissesse muito respeito. Enfim, talvez fosse mais por isso, né? E aconteceu uma coisa ótima, porque a Cela fez esse convite, eu tive muito medo, mas fui, né? E, no ensaio...

Dessa música, quando ele me viu ali ensaiando, olhou para o Aldaí e disse, rapaz, ganhamos o festival. Música Meu coração não tem compasso certo Um pulso dissoluto improvisado Jesus

Mas aí o curso também foi chegando e tudo, aí a coisa da música ficou mais afastada. Só que agora, recentemente, nos últimos anos, quando a gente decidiu viver ali em Sagi um tempo e tudo mais, tem um rapaz lá que tem um grupo de pagode. Olha!

Que chama-se Samba Sagi. Samba Sagi. É, Josué do Cavaco. É um autodidata, você não acredita como esse cara toca bem. E como ele conhece o samba brasileiro, como ele conhece todos os grandes.

sambistas e músicas e tudo mais. Aí, quando Josué está tocando e eu estou em sagia, o vocalista sou eu. Olha que legal. Então você sai aí de um vocalista de uma MPB paraibana para o samba. Para o samba. Mas isso é nos últimos anos e é uma coisa que acontece por mera... por diversão, por prazer e é muito bom. E eu espero estar na plateia qualquer dia desses. Vai ser uma maravilha.

Nelson, na vida adulta também tem uma música que lhe marcou muito também. Quando o seguro sol chegar Para realinhar as órbitas dos planetas Derrubando com as sombras amantes

O que os astrônomos diriam se tratar de um outro cometa? Quando o segundo sol chegar Para realinhar as órbitas dos planetas Derrubando com a sombra exemplar

Que os astrônomos diriam se trata de um outro planeta. Então é essa aqui que a gente acabou de ouvir o Segundo Sol, uma composição de Nando Reis aqui na interpretação de Cassia Eller. Por que especificamente essa música?

Quando você me falou as cinco músicas, né? Então, todas elas vieram assim. Eu respeitei a primeira que veio. A primeira que veio na minha cabeça. Depois a gente fica maluco, né? Porque vão aparecendo outras e tal. Mas essa música, André, ela casa exatamente com aquilo que você me sugeriu pensar, né?

Essa música apareceu num momento em que eu me sentia completamente assentado na minha vida. Olha que legal! Sabe? Me sentindo muito bem na minha vida profissional, muito bem no meu ciclo de amizades, de amores aqui em João Pessoa, no meu casamento, sabe? Então, assim, essa música chega bem nesse momento em que eu me dou conta dessa...

E dessa situação, vamos dizer assim, essa palavra pode parecer demasiada, mas num momento de plenitude. E que momento, que lembrança você tem de ter escutado ela pela primeira vez? A lembrança de ter escutado ela pela primeira vez, eu estava em pipa, eu e meu companheiro, a gente foi passar um fim de semana ali, né? E a gente estava num barzinho.

Cassia Heller ainda era viva? Cassia Heller é viva, sim, sim. Era ali naquele momento. Final dos anos 90. E de repente o cara aumenta o som e toca essa música e aí sabe como se fosse assim, uma epifania. Literalmente alinhou as órbitas dos planetas, como diz a letra. Exatamente, exatamente. Deu aquela alinhada, foi muito bacana. Cassia Heller não foi uma artista...

Porque eu me apaixonei assim, de cara. Eu fui me apaixonando, mas quando ela se foi, rapaz, quando eu vi a notícia, falei, puxa vida, como é que você fez isso comigo? Aliás, como é que você faz isso com a gente, né? Porque é uma grande cantora, um registro interessantíssimo. Enfim, eu gostava demais dela.

É fantástica, fantástica. É curioso porque, assim, Cacela já é de uma geração nova, a gente passou o primeiro bloco falando muito de música antiga. Você continua procurando a nova música brasileira ou a música brasileira do século XXI, como eu costumo chamar aqui na rádio? Continuo, eu continuo, sim, continuo e me interesso muito, sabe? Eu gosto de dizer que envelhecer é uma preguiça.

Quando eu escuto alguém dizer, ah, já vi de tudo, já fiz de tudo, não tem nada novo, isso é uma bobagem, sabe? Eu acho que é preguiça de escutar. Então, eu escuto sim, eu escuto tudo, eu não tenho preconceito. Mentira, eu tenho preconceito sim, eu não sou um sertanejo, não é uma coisa que me... Ah, que lhe atrai, não? Inclusive porque é associado a outras coisas que me desagradam, enfim, outras...

Mas eu escuto muito, eu escuto Linicker, eu escuto Anitta, Pablo Vittar, Linda Quebrada, eu me interesso por essas pessoas. Tem agora Ana Frango Elétrico, achei tão interessante, sabe?

O Rias, tem uma galera nova de Pernambuco que eu adoro, Martins e Almério, Silva. E você continua acompanhando em shows, inclusive, né? Acompanho, acompanho, gosto. Juliana Linhares, que eu acho uma coisa espetacular, porque ela faz essa ponte.

faz essa ponte resgata injustiçados da nossa música como Cátia de França, por exemplo verdade, verdade

Eu gosto de ficar atento a isso, eu gosto de entender o que está acontecendo, para não ficar dizendo, ah, a música de antigamente, a que era boa, nananã. E você é um habitué de cinema também, né? Até hoje. Muito. É um cinema. Qual o tipo de filme que ele tira de casa? Antigamente, o tipo de filme que me tirava de casa era quando eu conhecia o diretor.

Você ia pela ficha técnica Ia pela ficha técnica Um ator, um diretor, um atriz Um ator, um diretor e tudo mais Então isso me tirava do cinema A gente tinha revistas Você lembra da revista 7? Demais Meu pai colecionou todas Da primeira a última Tem uma coisa que eu acho complicada hoje, André Que é essa E até a próxima

pulverização, assim, tem tanta informação que a gente acaba tendo dificuldade, todo mundo...

Todo mundo comenta, né? Você vai ver um filme na Netflix, você acaba perdendo mais tempo escolhendo o filme. E que cansa e aí terminou... Já aconteceu várias vezes comigo. Exatamente. Mas assim, eu não tenho um gênero específico que eu possa dizer eu quero ver isso, eu quero ver aquilo. Vai de filme norueguês que ganhou o Oscar até filme blockbuster da Marvel. Desses últimos eu vi quase todos, né?

de O Agente Secreto, que aliás a trilha sonora é um espetáculo. É um deleite. A Pecadores, que eu achei super interessante. Adoro. A música ali, eu escutei você e Everaldo comentando aquela mistura de blues e música.

Folk. Música folk. É, irlandesa. Exatamente, é. Entendeu? Então... É uma delícia. E tem outra coisa, né, rapaz? Assim, a gente comprava as trilhas sonoras dos filmes. Exatamente. Eu ainda coleciono um pouquinho. Tu ainda coleciona? Mas as trilhas que tem música pop.

É, né? É, adoro. Eu faço coleção daquelas músicas do Quase Famosos, Alta Fidelidade, enfim. Esses filmes que têm essa conexão com a música. Pois é, eu gostava de comprar também as trilhas sonoras dos filmes. Era muito bom. Nelson, a vida também tem percalços que são mais tristes. E na sua lista tem um clássico do jazz. I'm Getting Sentimental Over You, do Tommy Dorsey.

A CIDADE NO BRASIL

E aí a gente ouviu ela numa versão instrumental lançada por ele, né, Tommy Dawson, em 1932. Ela chegou a ser regravada em 1934 com a voz de Bob Crosby, né? Qual é a tua história com essa música? Eu realmente fiquei curioso, assim. Paz, a minha história com essa música...

Eu preciso te dizer que quando veio essa música eu pensei em duas, duas músicas, mas essa foi a primeira, a primeira toda, a primeira mesmo. Uma outra música que me causa uma tristeza é a Elano Rigby, dos Beatles. Dos Beatles. Me causa uma...

Eu não sou aquele tipo de pessoa... Inclusive você conversou com alguém sobre isso no programa, que curte a melancolia, que curte... Eu acho interessante. Acho que foi o Everaldo Pontes que falou que curte a melancolia. Eu inclusive até lembrei, escutando aquilo, eu lembrei que tem uma música de Billy Rod, que é I'm Glad to Be Unhappy. É, eu fico feliz por estar triste. Fico feliz por estar triste, né? Fooldrushin Fico feliz por estar triste.

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Eu não sou exatamente essa pessoa, não. Eu sou uma pessoa que eu gosto de caminhar pela alegria e tudo mais. Mas a melancolia, eu acho que ela também é uma espécie de mergulho, é uma apreciação interna. É por isso que a gente gosta. É como apreciar um pôr do sol, assim. Acho que é um momento de reflexão e tudo.

É como deitar na cama num quarto escuro, né? Exatamente, perfeito, André. E essa música, você veja uma coisa, essa coisa de ser um menino velho, o primeiro disco que eu comprei na minha vida, com o meu dinheiro, era um disco que eu vi anunciado na televisão, chama-se Saudade Não Tem Idade.

Tinha uma música francesa, F'come Femme, tinha Sarah Vaughan cantando The Man I Love, que é outra música que eu amo demais. Eu tenho três coleções, eu coleciono gravações de The Man I Love, de Nemekitipá.

E de Eleanor Rigby. Que legal, que legal. Então você pega, por exemplo, Eleanor Rigby, vai de Sarah Vorhan a Beatles. A Joan Baez, por exemplo, que canta lindíssimo, né? Essa música.

Então, nesse álbum tinha, né, Sarah Vaughn, tinha Adamo com essa música, I'm Getting Sentimental Over You, que é uma música que, nos primeiros acordes, eu entro ali numa, sabe? Num estado de melancolia. Num estado de melancolia, exatamente. Num estado de poesia, talvez, né? Entro ali naquele estado e eu acho belíssima, belíssima. E depois essa música apareceu.

numa cena do filme A Era do Rádio. De Woody Allen. De Woody Allen. Tem uma cena que essa música está ali.

que eu acho que é um momento que ele é motorista de táxi, tem alguma coisa acontecendo, a mulher dele não sei se está esperando um filho, enfim, tem um determinado momento e a música é um momento de solidão. E o D. Allen sabe como ninguém ia usar o jazz dentro da narrativa dele. Exatamente.

De fato, ela é belíssima, mas eu também sinto uma certa melancolia quando eu escuto. Ela é bem tristinha. É, sim, bem tristinha. Por outro lado, para levantar o seu astral, a gente toca isso aqui, ó. Jamiro Kwai, Virtual Insanity.

S

E não vai mudar a forma de que a gente não pode sempre, mas não pode. E não vai mudar a forma de que a gente não pode. E é um mundo que a gente não vive. E eu só posso ver que a gente não está em sin. É tudo que a gente não vive.

Se eu puder dormir, os segredos dos anos de vida, o homem tem medo.

É uma música pop contemporânea, novíssima, do século 21, apareceu na lista aí, e que de fato é o compartilho do mesmo entendimento. É uma música que me traz alegria, é uma música que quando a Pareiba FM toca, eu fico animado e tal. Eu gosto demais de ouvir o vocalista J.K. É, J.K. do Jame do Pai. É, é uma música interessante.

porque é um S-Jazz, tem uma coisa disco dos anos 70. É uma coisa funkeada também dos anos 70. Então, quando eu escuto o Djamiro Koi, me dá vontade de tomar uma cerveja, botar um chapéu esquisito e sair dançando pela casa. Dançando? E é fantástico, eu gosto muito. Sempre gostei muito de Djamiro Koi. Não é uma delícia, não é uma música que dá vontade de dançar e de ser feliz. Eu pensei também em um outro artista que me traz essa sensação, que é Mika.

Mika, isso que é meio contemporâneo aí do Jamiro Kwai, né? Exatamente, tem uma alegria ele próprio, né?

E aí, de fato, me parece que essas músicas contemporâneas é que levantam seu astral, né? Não tem nada lá da infância e da adolescência, não. Não, não, não, não. As músicas lá da infância, eu gosto, eu gosto de ouvi-las, eu gosto de... É engraçado, eu escrevo, né, sobre...

sobre infância e tudo mais, sobre um mundo que meio que a gente assiste desaparecer, por exemplo, eu, rapaz, eu amava cinema de rua. É, você falou um negócio que é fantástico, a gente assiste desaparecer. É esse o meu dilema também, né? Você vê, né, retratos fantasmas ali, a gente... Eu vi isso, viu, André, assim, eu vi os cinemas de João Pessoa sendo transformados.

Sendo transferidos para shopping. Sendo transferidos para shopping e virando... Eu acho que o municipal não teve um tempo que virou igreja evangélica. Hoje é ótica. O Plaza virou uma sapataria antes de virar apenas cinema pornô, entendeu? Então, me dá uma certa tristeza isso, mas também vida que segue. Vamos também aproveitar.

A coisa como ela é agora. É curioso, porque agora que você tocou no tema, a gente começou o programa falando dos anos 60, da sua infância, anos 70, e aí chegou até o século XXI com essas músicas todas. E eu acho que você, enquanto psicoterapeuta, você fala muito de nostalgia, mas você não me parece ser uma figura nostálgica, que está presa ao passado, que antes era melhor. Você é um cara muito...

Meu tempo é hoje, como diria Paulinho da Viola. Rapaz, eu tenho uma história interessante sobre isso, que é a minha bisavó materna. Eu conheci minha bisavó, com 30 anos de idade eu tinha bisavó. Claro, as mulheres eram mães muito cedo, né? E a minha bisavó morreu com quase 100 anos. A filha dela, minha avó, também morreu com 100 anos.

Me dá uma tristeza porque a minha genética é mais próxima da do meu pai, o povo não vive. Eita, danada. Mas enfim, eu também não perdi. E a minha avó, a minha bisavó, rapaz, ela morou sozinha a vida inteira. E ela dizia, eu não tenho esse negócio de dizer no meu tempo. Meu tempo é agora, eu não estou viva? Eu não gosto de dizer isso, sabe, no meu tempo. Eu sei que era diferente.

Mas eu não fico, ah, era melhor, era pior, não sei. Eu acho que era melhor quando a gente tinha segurança nas ruas, por exemplo. Era melhor, porque a gente podia caminhar nas calçadas e, entende? Mas vem um formato novo e aí vamos aproveitar o formato novo. Eu gosto de fazer coisas...

Retro, vintage, por exemplo, eu adoro escutar vinil. Eu dei todos os meus vinis, aí depois eu me arrependi amargamente. E comprou de volta, claro. É, não comprei todos. Quem nunca, né? Exatamente, né? Aí agora eu tô ali pegando alguns álbuns, assim, que eu...

que eu gosto muito. Então tem os de O Secos e Molhados, tem o de Chico que eu adoro, que é Almanac, tem aquele de Betânia, Pássaro Proibido, tem alguns assim que são mais refazenda de Gil, tá entendendo? E aí eu tenho esses assim pra ter ali um contato afetivo com isso, com essa história, mas também acho ótimo abrir um stream e pensar numa música.

Outro dia eu estava tentando lembrar uma música que eu gosto muito e eu não sabia a letra e tarará. E eu surfejei um pedacinho ali e tem um aplicativo que, pum, fui lá e descobriu a música. Nossa! Né? O Shazam faz isso. É. Olha aí. É os tempos modernos. É, exatamente. Não vou ficar amarrado lá atrás, não, né?

Esse é Nelson Barros, escritor, ouvinte de boa MPB, psicoterapeuta. Agradecer aqui, Nelson, esse papo maravilhoso, que como todo bom papo é sempre muito curto, né? Acaba quando a gente está gostando. Mas, em nome da Pareba FM, muito obrigado por participar do e com vocês, Nelson Barros.

Obrigado também, André. Eu preciso dizer que eu estava doido para vir aqui para fazer esse programa. Eu escutava, né? Eu dizia, rapaz, não é possível. Será que não vamos chamar? Chamou. Chamou. Claro que chamou, porque ele tinha que participar. Valeu, querido. Obrigado. Então, muito obrigado, Nelson Barros. Eu sou André Cananéa. E o I Com Vocês tem produção e apresentação minha e edição de Ibson Lira.

Este programa é um produto da Rádio Paraíba FM 103.9, uma emissora da EPC Empresa Paraibana de Comunicação, diretora-presidente Naná H6, diretor de rádio e TV Rui Leitão, gerente de rádio e difusão Berlim Carvalho, gerente executivo de conteúdos e programação eu, André Canané. Tchau, tchau e até a próxima semana. Você ouviu o programa e com vocês. Quer ouvir novamente? Acesse Paraíba FM no Spotify. Até a próxima.

EP#23 - E COM VOCÊS - NELSON BARROS | Castnews Index — Castnews Index