Episódios de Parahyba FM | Ouça Um Filme

EP#63 - OUÇA UM FILME - LÚCIO CÉSAR

11 de maio de 202654min
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Cinema nordestino em pauta. Neste episódio, o jornalista André Cananéa conversa com o realizador e diretor de fotografia Lúcio César sobre o clássico "Os Romeiros da Guia" (1962), dirigido por João Ramiro Mello e Vladimir Carvalho, e "O Agente Secreto", filme de Kleber Mendonça Filho indicado a quatro prêmios Oscar.

FICHA TÉCNICA

Data de Veiculação: 07/05/2026

Interlocutor: André Cananéa

Produção:   André Cananéa

Edição de áudio: Ivson Lira

Este programa é um produto da Rádio Parahyba FM, emissora da Empresa Paraibana de Comunicação.

Participantes neste episódio2
A

André Cananéa

HostJornalista
L

Lúcio César

ConvidadoRealizador e diretor de fotografia
Assuntos6
  • Agente SecretoAnálise do filme de Kleber Mendonça Filho · Ditadura militar no Brasil · Memória e esquecimento histórico · Crítica social e política · Atuações de Wagner Moura · Representação da violência e tortura · O papel da mídia e fake news · O final do filme e suas interpretações
  • Romeiros da GuiaAnálise do filme de 1962 · Fotografia de Hans Bantel · Trilha sonora de Maestro Pedro Santos · Narrativa e simbolismo · Ligação afetiva com a região
  • Democracia Brasileira - Desconfiança InstitucionalPeríodo de 1964-1985 · Estado de exceção e repressão · Desaparecimentos forçados · Impacto no Nordeste · Relação com os Estados Unidos
  • Cinema ParaibanoHistória e evolução do cinema na Paraíba · Formação de cineastas e fotógrafos · Aruanda · Romeiros da Guia
  • Cinema e Memória AfetivaO papel do cinema na preservação da memória · A importância de revisitar o passado · Cinema como ferramenta de discussão
  • Guerra Civil AngolanaContexto histórico em 1977 · Patrocínio americano e sul-africano · Refugiados em outros países
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Programa não recomendado para menores de 12 anos. Está no ar, ouça um filme. Um programa para quem gosta de ouvir dicas e um ótimo papo sobre filmes. Num oferecimento do Centerplex Cinemas. Se tem sessão, tem diversão. Siga o arroba Centerplex Cinemas nas redes sociais. E fique por dentro dos melhores lançamentos de filmes e muita diversão.

Muito boa noite, ouvinte da Paraíba FM. Aqui quem fala é seu amigo cinéfilo André Canané, apresentando mais um episódio do programa Ouça um Filme. Um bate-papo semanal sobre cinema aqui na Paraíba FM. E hoje para bater esse papo comigo, uma pessoa muito querida, nome importantíssimo do audiovisual paraibano, diretor, editor, montador, diretor de fotografia, produtor executivo...

Para citar o currículo dele, eu preciso de um programa inteiro. Enfim, é uma figura muito querida que joga em todas as posições na realização de um filme, de um curta, de um projeto audiovisual. Então, Lúcio Cesar, muito bem-vindo a Paraíba FM e ao programa Ouçam Filme.

Oi, André. É um prazer imenso estar participando desse programa. Estou muito feliz de estar aqui nesse bate-papo com vocês sobre um tema que eu adoro, que é cinema. O cinema faz parte do meu universo de uma forma muito próxima. Então, ter esse momento aqui para a gente conversar um pouco sobre cinema é um presente. Para mim é uma grande honra ter Lúcio César de volta aqui, hoje para conversar sobre dois filmes bem nordestinos.

Nesse primeiro bloco, vamos falar sobre um curto autenticamente paraibano, Romeiros da Guia. E no segundo bloco, um filme pernambucano com um vasto elenco paraibano, indicado a três Oscars na edição de 2026, Claro, o Badalado, o Agente Secreto.

Mas antes, Lúcio, eu queria compartilhar com os ouvintes como é a sua relação com o cinema, né? De onde vem o seu apreço pelo cinema, tanto como cinéfilo quanto como profissional. Eu não me considero um cinéfilo, né? Eu não sou aquela pessoa que sabe o nome de todos os diretores, todos os atores. Mas aí é Ivan Cineminha o nome, não é cinéfilo. Ivan Cineminha quer bem isso, né? Eu fui aluno da Escola Técnica Federal da Paraíba, eu sempre conto essa história que eu acho que...

Sintetiza muito isso. Eu saí da escola técnica com duas profissões. Eu entrei lá para fazer eletrotécnica e saí lá como eletrotécnico e técnico em audiovisual. Porque ali quando eu estava pelo terceiro ano do curso técnico, eu já vivia pelo setor de audiovisual da escola técnica.

que naquela época eles almejavam ter uma TV, uma TV interna da escola. Hoje existe uma TV TEC, que é a TV IFBB, que é de circulação interna da própria instituição, mas eles estavam no processo de criação dessa TV, dessa estrutura de audiovisual. E eu vivia ali pelo setor de audiovisual, olhando as fitas, curioso como é que liga, como é que não liga, não sei o quê.

E quando foi um dia o chefe do setor, Simão Almeida, chega para mim e diz Olha Lúcio, um novato, que era um recém-concursado, recém-contratado e concursado para a escola técnica Quer conversar contigo Se você podia vir hoje à tarde aqui no estúdio para conversar com ele Eu disse, eu vou, venho Aí fui e quando cheguei lá o novato em questão era João Carlos Beltrão

Olha, grande diretor de fotografia. Que eu já tinha visto ele ali pelos corredores, ele chegou usando um chapéu Panamá, chamava a atenção, a gente conhecia todos os servidores da escola técnica, hoje IFBB, né? E aquela pessoa com chapéu Panamá andando para cima e para baixo da instituição, a gente ficou logo marcado, é o novato, que era João.

E naquele dia ele me fez uma pergunta, ele chegou e disse, você conhece o cinema paraibano? E a minha resposta foi, e a Paraíba faz cinema? Ali era 1995, e ele naquela tarde me apresentou vários filmes do cinema paraibano. Então minha escola de cinema começa por aí, a partir de João, ali no médio, no finalzinho do ensino médio. E o cinema, nesse meu primeiro contato com ele...

É uma coisa muito incipiente, de aprendizado, de laboratório, e a universidade tem um papel muito fundamental nesse processo de desenvolvimento do cinema paraimano. E eu tive no sete depois, foi o meu primeiro trabalho numa equipe de 35 meninos, foi a sintomática narrativa de Constantino. Também de Carlos Jaul. Eu sou o terceiro assistente de câmera desse filme.

Ali eu vi um set acontecendo. E o João conta uma história sobre isso, que ele chegou para falar com o pai da ex-esposa dele, da Rob. Então, eu trabalho com cinema e audiovisual. E você trabalha com o quê mesmo, de verdade? Porque essa ideia é que cinema não era trabalho, né? É com uma arte, parece que não é reconhecida como trabalho. Então, o cinema sofre disso um pouco. E o Marcos Vila conta uma história que o cinema paraibano cabia no Fusca.

O cinema paraibano era uma época que cabia no Fusca. Todo mundo do cinema cabia no Fusca. Eu acho que essa equipe do Romeiros da Guia, eu acho que é bem isso. Todo o cinema paraibano cabia ali no Fusca. Hoje em dia a gente precisa de quase uma frota de ônibus para levar. E ainda bem, né? Isso mostra a evolução que o audiovisual teve aqui na Paraíba.

Mas é com essas credenciais aí que o Lúcio está falando que a gente vai começar agora a falar dos filmes propriamente ditos, né? Começando aí por Os Romeiros da Guia, filme de 1962. É um curta-metragem, direção João Ramiro Melo e Vladimir Carvalho, né?

João Ramiro muito importante, já já eu quero ouvir de Lúcio justamente sobre João Ramiro. Vladimir Carvalho então nem se fala, né? O filme tem fotografia de Hans Bantel, assistente de câmara João Clemente, montagem João Ramiro, que aí pouco tempo depois iria fazer a montagem de Menino de Engenho, de Walter Lima Júnior.

Opinião Pública de Arnaldo Jabô, a Comédia Romântica Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos Oliveira e por aí vai. E tem música do maestro Pedro Santos, né? Pedro Santos, fantástico. Grande maestro também. Tem também a narração de William Mendonça. No dia em que os rudes homens do mar empreendem com suas famílias a peregrinação fluvial ao santuário de sua devoção, a praia de Ponta de Mato amanhece de aspecto festivo.

que era um vozeirão do rádio, mas que também atuou em cinema, se eu não me engano, e ainda tem, e acabou sendo realizado, ou cofinanciado pelo menos, pela Associação dos Críticos Cinematográficos da Paraíba, o tempo em que os críticos cinematográficos também tinham uma caixinha aí que viabilizava as produções cinematográficas. Lúcio César, eu começo perguntando qual foi o seu primeiro contato com os Romeiros da Guia?

Foi justamente nessas andanças com o João Carlos Beltrão aí, com o pessoal da... Do Nudoc. Do Nudoc. Sim. Eu acho que João me apresentou os Romeiros da Guia, um trecho dele, e eu não tinha entendido o filme e vim assistir depois com mais calma. Depois exibiei ele para alunos meus e participei de várias discussões. Eu acho que a primeira pessoa que me apresentou o Romeiros da Guia foi o João.

E ao longo do tempo, quando eu entendi o filme, porque eu me lembro da tarde lá que o João me mostrou o filme, ele mostrou trechos, então eu não tinha entendido o que era exatamente o Romero de Aguia. Depois que eu com calma fui assistir, eu procurei, eu me encontrei nele uma certa ancestralidade, porque eu sou de cabedelo. E o filme começa na Praia de Ponta de Mato, que é a...

que é a praia da minha infância menor. Imaginem a memória menor que eu tenho de mais criança indo à praia, é na praia de Ponta de Mato. Porque eu nasci em Cabedelo e minha família morava muito próximo à praia de Ponta de Mato, meus pais. E meu tio vinha me buscar em casa e a gente ia para a praia próximo de casa e era a praia de Ponta de Mato.

Então quando eu entendi que aquilo era perto da minha casa da infância, isso me criou uma ligação afetiva. E o trajeto deles, eles vão para Costinha. Costinha é um local que eu tenho família até hoje. Eu tenho famílias em Costinha. Então quando eu comecei a me debruçar sobre aquelas imagens daquelas pessoas fazendo aquela travessia da Foz do Paraíba, indo com o destino da Igreja da Guia, que fica no município de Lucena ali próximo, colado com o distrito de Costinha.

E vendo aquelas pessoas dançando, eu fiquei me perguntando, será que ali não tem um parente meu, uma tia-avó, uma avó, uma tia, alguém da minha família naquele meio? Porque ali é um registro de um tempo, né, de cabedelo, é um registro de um tempo daquela localidade de Costinha, e isso me causou uma ligação muito forte com o filme.

Levados em jangadas, os romeiros alcançam os barcos que ficam largos esperando a maré e o vento propícios. Mas para falar de romeiros da guia, eu gostaria de voltar um pouquinho, do ponto de vista do cinema, e ir para a Aruanda. Eu acho que para falar de romeiros da guia, a gente precisa falar um pouquinho de Aruanda.

E para falar de Aruanda, a gente tem que falar de Lindo Arte Noronha, do Vladimir Carvalho, do Rúquia Vieira e do João Ramiro. Esses quixotescos amigos, eu gosto de tratá-los assim, eu tenho um artigo escrito sobre eles. Eu gosto muito de Aruanda, antes de Romeiros da Guia, a Aruanda me tocou muito, porque ele vai um quilombo.

E essa questão da negritude, do isolamento dos quilômetros me chamava muita atenção. E uma coisa curiosa que na entrevista que eu fiz com o saudoso Wies Leal, que já nos deixou, ele que foi servidor da Câmara Municipal de João Pessoa, ele dizia que o auditório que fica da sociedade médica, que fica no primeiro andar do prédio em que eu trabalho hoje, que é o prédio anexo em frente ao prédio sede, atual prédio sede da Câmara, né?

Ele servia como cineclube. Lá funcionou o cineclube de João Pessoa, que era uma iniciativa da Igreja Católica para a exibição de filmes. E provavelmente as discussões de Aruanda começaram a partir dos filmes que eles assistiram nesse auditório. Então isso cria um outro link de ligação com essas pessoas. E é importante dizer que esses quatro nomes é que estruturaram Aruanda, que vai ser o marco.

do cinema paraibano e um marco do cinema novo brasileiro. Enojeado por Glauber Rocha. Naquele dia, em meados do século passado, Zavendo resolveu partir com a família à procura da terra onde pudesse viver. Fugia da servidão, da antiga escravatura.

Vladimir não sobe o talhado para gravar a Aruanda porque tem o vestibular. Ele conhece essa história. Ele não sobe o talhado. E quando o filme fica pronto, o Lindo Arthur não coloca o nome dele como roteirista, coloca como assistente de roteiro. Isso causa uma briga entre eles e um rompimento. Então o Aruanda, com esses quatro amigos, se rompe esse grupo e cria um outro grupo. E Vladimir fica naquela coisa de querer provar que ele também sabe fazer cinema.

E juntamente com o João Ramiro Melo, eles partem para roteirizar o que viria a ser o Romero Jaguia. O Aruanda já era um trabalho, o Lindo Arte já tinha feito um trabalho jornalístico de texto sobre as oleiras do talhado.

Que é esse texto que ele vai transformar em Aruana. Mas com essa ruptura entre esse grupo, né? Entre o Linduart e o Vladimir. Engraçado que o Vladimir me falou em entrevista é que eles se encontraram no Rio, coincidentemente no Bond. E Vladimir e Linduart. E Linduart tava indo ver o copião montado.

do Aruanda, a sessão em que o Glauber estava. Eles se encontram coincidentemente no Bond, na Glória, e eles seguem na direção do Catete, conversando, e o lindo ar justificando as mudanças que tinha feito o filme. Quando ele vê o filme, que não vê o crédito dele, ele se revolta e o rompimento se dá ali, dentro da sala de cinema. O Vladimir diz isso de lá para cá, eles ficaram...

Se estranharam, né? Depois da morte de Lindauar, o Vladimir, a entrevista com ele já foi depois da morte de Lindauar, ele vai dizer, olha, depois que a pessoa morre, a paz é feita, né? Mas até lá a gente não... Porque ele não aceitou isso. E surge o Romeiros da Guia, né? Esse filme de 62, ele, na verdade, ele não tem 19, né? Ele tem 15 minutos, um pouquinho.

Ah, porque tem uns créditos, uns pós-créditos, que tem uma versão que tem no YouTube, que tem 19, porque tem uma fala que foi extraída do Cinema Paraíba, no 20 anos, que é um filme do... Ah, do Manfredo. Do Manfredo Caldas. Então, extraíram uns trechozinhos da fala do maestro, do Pedro Santos.

e uma fala do próprio João Ramiro Melo. Aí faz até 19, mas o filme tem 15 minutos. E em linhas gerais, conta a história justamente de um grupo de romeiros que embarca literalmente, uns jangados, esse tipo de coisa.

Até a igreja, a igreja Nossa Senhora da Guia, né? As ruínas da igreja Nossa Senhora da Guia, um templo barroco aí do século XVII, que está lá preservado hoje pelo IFAM, né? E mostra justamente esse ato de ir lá e, enfim, pagar promessas, coisa e tal, e voltar no dia seguinte, indo de barco também para João Pessoa. O filme é isso, né? É, a história narrativa básica é essa, né? Eu acho que o que chama a atenção do...

Primeira fotografia do Hans Bantel, que é uma fotografia muito primorosa. Ele trabalha os contrastes de claro e escuro dentro da igreja. É fantástico. E ele conta a narrativa inteira. As pessoas saem de manhã, fazem a travessia de barco, caminham até a igreja, fazem a devoção ao santo, a guia.

Nossa Senhora da Guia, né? E depois eles embarcam na festa da noite, na festa profana. E nas imagens da noite, aí vem a celebração, as danças, o coco, a umbigada, né? E ele dá um show de fotografia, né? Com planos zen e tal, com as pessoas rindo, bebendo. E ele vai contando o dia amanhecendo, a vida sendo retomada, as pessoas dormindo depois da festa e depois o retorno para a cidade.

Mas tem um detalhe importante nesse filme que me chamou muita atenção. Ele tem pra mim o plano mais bonito do cinema paraibano. Ah, é? Qual é? Que é o plano, a sombra do menino correndo na areia. É, é fantástico. E eu ia falar isso. Essa narrativa tem uma coisa que sempre me chamou muita atenção. O menino.

O menino, porque assim, o menino perde, ele não consegue entrar, aparentemente ele chegou atrasado, se não me falha a memória. É isso. E ele não vai na embarcação, mas ele tá lá esperando na hora que os barcos voltam. No dia seguinte. No dia seguinte. E a história desse menino é fantástica dentro desse curta, né? Que é um curta que tem 60 anos aí. É. 60 e alguma coisa.

E aí é o dedo do João Ramiro Melo. Porque o João Ramiro Melo, ele tem essa, como é que eu posso dizer, essa veia para o cinema de ficção, para a dramaturgia cinematográfica. Então, ali é o dedo do João Ramiro Melo. Então, é importante o João Ramiro Melo se destaque como montador, não é por nada, porque ele tem uma visão de como essa dramaturgia cinematográfica se monta, se constrói na montagem. Então...

E é importante também falar desse menino sobre a trilha sonora. O maestro Pedro Santos, ele cria com um coral de cantos alfeônicos, uma melodia suave, um assobio que vai acompanhando. Um clima de contemplação. Você fica querendo que o menino chegue para pegar os barcos e aquela sombra dele correndo. Eu acho o plano da sombra, de fato, é o plano mais belo do cinema pareibano.

o o o o o o o o o o

Uma coisa curiosa, falando um pouquinho da fotografia, a câmera que rodou a Aruanda é a mesma câmera que roda a Romero Jaguia. O Lindo Arthur vai ao Rio, traz essa câmera emprestada, e a câmera fica aqui em João Pessoa. Como Vladimir e Lindo Arthur não estavam se falando,

cabe ao Hans ir lá pegar a câmera. É, Hans que vai lá pegar a câmera pra rodar, mas é a mesma câmera, uma câmera corda. O Vladimir tinha uma cópia dela, uma similar, na casa dele. Uma réplica. Uma câmera de verdade, mas uma outra câmera. Não era a mesma câmera, mas era uma câmera igual. E você dava corda nela, é uma câmera usada pra cobrir a Segunda Guerra.

uma câmera de corda, não tinha bateria, você dava corda nela e os primeiros frames, os primeiros fotogramas ficavam abaixo da velocidade de 24 quadros, mas depois ela engatava a velocidade, então você tinha o meio da gravação e o fim, e eu perdi o início e o final porque ficava fora dos 24. Mas você dava corda e ela era uma câmera corda, então foi com essa câmera que se rodou a Ruanda e a mesma câmera rodou o Romero Jaguia. E ele, o Hans, como fotógrafo...

Ele vai dar o treinamento para o Manuel Clemente, que passa a ser o professor de João Carlos Beltrão e, por sua vez, João, meu professor. Então, assim, eu faço parte dessa, acho que de uma linhagem de fotógrafos que vem do Hans Beltrão, passa pelo professor Clemente, passa por João Carlos e chega a mim, chega ao meu filho e vai seguindo. Vai tomando rumo. Vai tomando rumo. Então, eu me sinto ligado também por esse caminho.

E o Clemente foi professor de uma geração de fotógrafos que a gente queria fazer cinema antes do curso de raios e televisão, e eu fazia jornalismo na UFPB, e ele era professor do curso de jornalismo e depois foi professor do curso de raios e TV. O maestro Pedro Santos, ele em conjunto com o coral do Conservatório de Cantos e Oferme da Paraíba, ele dá um clima para esse filme. Então ele pega um bendito.

que é um canto popular, né? Que as pessoas repetem durante... E ele transforma, ele reconstrói esse canto, esse bendito, a partir dessas vozes. É o da abertura, né? É a música da abertura. Eu vou, eu vou, eu vou pra guia agora Pagar minha promessa Eu vou, eu vou, eu vou Eu vou, eu vou, eu vou, eu vou Eu vou, eu vou

Então ele pega isso e faz com várias vozes e é um espetáculo. Está na abertura do filme, está no fechamento do filme, essa melodia feita só com vozes. Quem não conhece os cantos orfeônios, foi uma proposta do grande maestro da música brasileira, o Villa-Lobos, de você musicalizar o brasileiro a partir da voz.

Então a lógica do Vila-Lobos era essa. E o Pedro Santos, ele faz esse trabalho com o coral de canto alfeônico. E é o primeiro trabalho de trilha sonora para cinema. Olha! É a primeira trilha sonora. Ele apresenta no cinema esse universo do canto alfeônico, que a gente já conhecia pelo trabalho do Vila-Lobos. Mas dá uma roupagem, uma forma no Romero Jaguia, né? Eu acho que é um filme que... E...

Para mim, ele transcede as décadas, as épocas, as gerações, porque ele serve para um registro histórico daquele tempo, daquelas pessoas, de como eram aquelas comunidades, as pessoas que moravam nesses lugares.

É uma aula de montagem, o João Ramiro, o filme tem uma poesia, um filme poético, ele é uma aula de montagem, é uma aula de fotografia. O Hans Bantel, ele trabalha no preto e branco os contrastes de luz e sombra de forma fantástica. E como você falou, principalmente na hora da festa profana.

Aquela festa fantástica, está todo mundo bebendo, está todo mundo dançando, está todo mundo... é literalmente uma festa. É uma festa. Muito bem filmada, muito bem fotografada. E uma coisa que me chamou muita atenção, porque a Neuza Santos Souza fala de tornar-se negro, tornar-se negro no livro dela. E hoje, passado, estou com 51 anos, e essa questão da negritude me chegou muito tardia, mesmo sendo um homem negro.

porque a gente vive num universo dentro da branquitude e você acaba não percebendo isso, mas como aqueles personagens são. Então ali são todos pretos, negros, dançando.

comemorando, celebrando. Então eu resisto daquela comunidade, de como ela era, de como ela era formada. Eu fico sempre muito tocado com o Romeiros da Guia. Nós desenvolvemos um projeto, quando você estava lá na Câmara, chamado a Revista do Cinema Paraibano. E quando eu fui exibir o filme, não exibir o Aruanda, exibir o Romeiros da Guia.

Você tem uma predileção pelo Romero da Guia. Tenho, não vou mentir. Mas eu tenho também. Eu acho ele muito mais acabado, muito mais refinado. Claro, eu não estou desmerecendo a Aruanda, porque a Aruanda tem méritos muitos e é um desbravador. Mas eu acho que o Romero da Guia é um pouco mais apurado.

acabado. Acabado, é. A resposta de Lindo Arte é o cajueiro nordestino. Ah, sim, claro. Ele vai e faz o cajueiro nordestino, mas eu também sei fazer sem vocês. O Vladimir, como cineasta, ele acaba tendo uma carreira muito mais... é...

frutífera do que o Lindauarte. Não que o Lindauarte não tenha importantes filmes na cinematografia dele, o Salário da Morte, o primeiro longa-metragem de ficção paraibano, é dirigido pelo Lindauarte. Mas a cinematografia do Vladimir é muito extensa e muito importante. O País São Saruê.

que ficou proibido, um filme de 71, que só foi liberado em 79, ficou engavetado, ele dá conta desse Brasil profundo, desse Nordeste profundo, que o Brasil desconhecia ali nos anos 70 e que eu acho que ainda desconhece hoje. Desconhece hoje. No princípio, o chão de seixas, o deserto, a galharia, entre nós, as aves livres.

O resto só o ganharia. O Brasil sofre de um problema gravíssimo, que é um problema de memória. E é sobre isso que fala o outro filme. Que a gente vai falar agora. Nada menos que três indicações ao Oscar. Praticamente um recorde de bilheteria dentro do Brasil. Mais de 2 milhões de pessoas assistiram.

E claro, estamos falando de O Agente Secreto. Fico muito feliz em conversar sobre o filme de Kleber Mendonça, filho, justamente com Lúcio César, porque eu sei que a próxima meia hora aí promete um olhar muito especial sobre esse filme.

O Agente Secreto 2025, direção de Kleber Mendonça Filho, em um elenco numeroso, começando aí com Wagner Moura, claro, indicado ao Oscar de melhor ator justamente por esse filme, mas também tem o do Kier, também tem Tomás Aquino, tem a grande Tânia Maria no papel de Dona Sebastiana, na verdade um filme que revelou muito Tânia Maria para o mundo e para o próprio Brasil. Tem Rubem Santos, que está em todos os filmes do Kleber Mendonça Filho.

Tem o Robério Diógenes, que é uma ator cearense, que eu gosto muito, muito bacana. Tem Maria Fernanda Cândido, enfim. Tem Alice Carvalho, que está também no elenco de Cangaço Novo. Então, um super, super elenco. E, claro...

como Kleber Mendonça Filho tem feito nos seus filmes, tem uma escalação paraibana de primeiríssima grandeza, começando aí com Buda Lira, Fafá Dantas, Joalisson Cunha, Márcio de Paula, Suzy Lopes, Celi Farias, Flávio Melo e Beto Quirinho. Atores que estão pulverizados ao longo aí do enredo, não é isso, Lúcio César? Isso, isso.

E eu acho importante começar dizendo que o Agente Secreto é o quarto longa-metragem do Kleber Menonça Filho, que ele tem o Som ao Redor, 2012, tem o Aquários, 2016 e Bacurau, 2019. Faltou o Retrato dos Fantasmas. Ah, tem o Retrato dos Fantasmas, que é depois. Então é o quinto. É entre Bacurau e...

Que é um doc, né? Um doc, um documentário. A gente batendo um papo antes, né? E você tem me perguntado, Lúcio, o que é que você gosta no filme, né? É. Porque por que você gosta do Agente Secreto? Eu acho, André, que o Agente Secreto é um filme necessário. Foi um filme, antes de qualquer coisa, um filme necessário. Porque ele é um filme de memória. Isso. Pois é. E eu acho que o Kleber Mendonça, ele nos chama sempre com os filmes dele pra essa conversa.

Porque são filmes sobre a gente, sobre o Brasil, né? O Bacurau, eu me lembro de uma cena do Bacurau, minha sogra era toda contida, assim, toda quietinha. Mas quando naquela cena aqui, junto com a Ingrid Trigueiro, que é a atriz paraibana, lá de dentro da casa que ela tá, vem um tiro, né? Minha sogra soltou assim, ela que é toda quietinha, deu um pulo assim na cadeira no cinema. Isso, isso, isso mexe com a gente. Sentiu vingado. É.

Você quer viver ou morrer?

São filmes que mergulham nas nossas entranhas de brasileiros, né? E eu acho que esse filme Agente Secreto, ele dá um mergulho, assim, muito profundo na nossa memória. Porque parece que, de alguma forma, nosso povo esqueceu o que aconteceu entre 64 e 85. Parece que isso entrou num limbo. Que teve gente pedindo que voltasse, que ia pra frente de quartel, que era... Então isso entrou num limbo porque a gente esqueceu como foi. E o filme do Kleber Menon, ele vai justamente dizer, olha...

Isso foi, isso era desse jeito. Isso aconteceu dessa forma, entendeu? Era um Estado sem lei, né? Eu acho... E eu acrescento muito isso porque, assim, pra gente aqui da Paraíba, do Nordeste, de certa forma, o agente secreto tem esse peso importante porque a gente meio que cresce vendo o efeito nefasto e nocivo da ditadura, né? Dos militares no Rio.

em São Paulo, naqueles porões lá, e aí, de repente, a gente chega e vê, não, o efeito da ditadura também alcançou o Nordeste, alcançou o Recife, e alcançou o João Pessoa, nas diversas partes do filme, né? Eu vejo o Agência Secreta, parece que são vários curtas, uma playlist de vários curtas que vão se costurando aí sobre esse tema memória aí. O Kleber Menoncio é muito sábio, ele vai na nossa memória afetiva maior. Quem não conhece os trapalhões?

Os Trapalhões está na cabeça da gente de uma forma, a primeira imagem... Quem cresceu nos anos 80, com certeza. É, a primeira imagem do filme é uma foto dos quatro.

E daí ele vai botando várias caras, novelas, personagens que fazem esse universo. Ele vai buscando, vai catucando a nossa memória para dizer, olha, vamos a 1977, vamos mergulhar no Brasil de 1977. E aí você vê aquele fusquinha chegando no posto de gasolina, onde tem um corpo estirado no chão, que está lá há vários dias.

O Estado não está nem aí, porque o Estado era um Estado criminoso. Quando eles retiram o Jango do poder, ele passa a ser um Estado criminoso. Eles estavam no crime. A gente defendendo esses criminosos é tão criminoso quanto ele, na minha concepção, quanto ele. Mas era um Estado criminoso. A polícia era criminosa.

O exército era criminoso. E a vida do cidadão comum, ele se calava. A gente não podia estar tendo esse papo aqui, que o medo seria que eu saísse da rua e sumisse também. Simplesmente sumisse, desaparecesse. Falando do exército, da polícia, já pensou?

Eu me lembro que em casa meu pai falava alto, era bem expansivo. Quando ele ia falar do governo, ele falava baixinho. Como que ninguém ouvisse, era a gasolina que tinha subido, ele falava baixinho para o vizinho não ouvir que ele estava falando mal do governo. Era o medo, a gente vivia numa sociedade de medo. De medo, é verdade. Então eu acho que o Kleber Mendonça traz isso para a gente. A paranoia que se vivia nessa sociedade em que as pessoas se escondiam.

Dona Sebastiana? Sou, senhor. Tinha auditor. Eu tô viajando tem três dias já. Você é o cara? É esse mesmo. Bem-vindo. Isso aqui é o edifício ao fim. Olha, seja bem-vinda aqui no nosso prédio. Quer ver aqui? Me conhecer. Poxa, a gente tem essa luz. Isso parece.

Está aí conhecendo a feirinha dos refugiados. E a Mangaba veio hoje? Vamos evitar de falar esse termo. Mangaba? Refugiados. Ele começa trazendo esse recorde de imagens, de fotos, que é abrindo o caminho para a gente se teletransportar para o ano de 1977. E é interessante ver...

que entre personagens e artistas, você tem uma foto do Caetano com a irmã dele, né? Com a Betânia. Com a Betânia. Mas o filme, ele começa com essa crítica social. Esse corpo esquecido, esse corpo abandonado. Eu acho que... Que é a sequência que já tem os dois paraibãs, né? Joalisson Cunha e Márcio de Paula. Joalisson é o frentista. Isso. Curiosamente, o personagem dele não tem nome, mas ele disse aqui na Paraíba FM que internamente...

ele deu um nome para aquele personagem que chamava Tota. Tota. Achei sensacional quando ele falou isso. Ô! É pra completar? Pode ficar tranquilo, tá tudo em lorde aí. É pra completar? Rapaz... É, é pra completar, mas... O que é aquilo ali?

Isso foi domingo. Um infeliz aí veio roubar uma lata de óleo com uma peixeira na mão. Aí veio o Nito, que trabalha aqui à noite. Pegou lá 12, deu dois TB. Um na caixa dos pedidos, outro na cara e não levantou mais. Esse é um meliante. Mereceu. Pode ficar tranquilo, se o senhor é cliente, é bem atento aqui. Não tem nada a ver com isso. Viu?

E Márcio de Paula, que é o policial, né? O policial da rodoviária. Que, no fim das contas, queria apenas extorquir e tal, né? É, e é muito curioso o personagem do Márcio de Paula, né? O meu amigo. Eu tenho vários argumentos e roteiros que ele está presente.

Toda vez que eu penso em escrever um personagem, eu sou membro da Associação de Produtores Autovisuais Negro, e eu tenho me voltado, minha inscrita, para a produção afro-centrada. E toda vez que eu penso num personagem, com o Márcio de Paula, que cabe o Márcio. Márcio de Márcio. Então eu curto muito. E ele faz um policial muito interessante. Ele dá uma corra no carro, ele vestir todo o incêndio, ele entra dentro do carro.

Um comportamento completamente ilegal, você entrar dentro do espaço, do patrimônio do outro. É, privado. Privado, ele invade o carro do personagem do Wagner Moura, né? Vai olhar o escritor de sênior, olha na mala, olha tudo, e no final ele perde o toco. Ele perde o dinheiro, você não pode contribuir com a caixinha da gente, não.

E o cara não tem grana, ele tem um cigarro, ele rouba o cigarro. Então isso dá uma cara de como era a lei, né? Era um país sem lei, né? Era, na verdade, um país entregue a um nível de corrupção mantido pelo Estado e garantido pela polícia e pelos militares. Então o Kleber Mendonça nos abre essa janela a partir da primeira sequência do filme.

Isso é feito aqueles... Aqueles programas americanos de proteção à testemunha. Ali, tudo é feito com muita grana. Aqui, a gente faz Mbembe, jeitinho brasileiro.

E para te proteger do Brasil. Esse é Lúcio César, está aqui comigo, André Cananea, no programa e com vocês. Você falando agora, Lúcio, e me lembrando que uma das coisas que eu acho que também são importantes no Agente Secreto, são as ausências que ele não explica. E eu acho que é muito característico também do tempo da ditadura. Vou dar um único exemplo. A tal da sobrinha da Tânia Maria, da dona Sebastiana, que é o nome da personagem da Tânia Maria.

que Wagner Moura, quando chega naquele prédio, ele vai ocupar um apartamento que era de uma sobrinha, que a gente também não tem muita informação. A Tânia Maria, a dona Sebastiana, disse que ela viajou, ou alguma coisa assim, mas que, na verdade, ela me parece ter sido uma das vítimas da ditadura. O filme é cheio dessas pinceladas também.

A própria esposa dele, né? A própria esposa, isso. Não fica muito claro o que aconteceu com o personagem Alice Carvalho. Não fica muito claro o que acontece com ela. Às vezes eu estava revendo o filme, preso nosso bate-papo, às vezes eu fiquei me perguntando se aquele corpo que é jogado na represa em São Paulo... Eu pensei a mesma coisa quando eu vi. Se não era o corpo do personagem da Alice. É.

E isso é uma coisa que, por exemplo, o Kleber não quer explicar. Ele quer que fique na dúvida. E às vezes é uma coisa que também me incomoda, sendo bastante sincero em relação ao agente secreto. Ele abre as portas, algumas coisas eu compro, outras não tanto. Eu não sei porque existe uma coisa do período da ditadura, que eu acho muito cruel, que é dos desaparecidos. Uma pessoa desaparecida, ela não morreu.

E ela todo dia pode estar por aí. Todo dia ela está aí. Quando o dia acaba, ela se torna desaparecida. E aí, sucessivamente, durante o outro filme que concorreu o Oscar, Ainda Estou Aqui, ele trata disso. A esposa que procura o marido que foi morto e está desaparecido. E o Estado não admitia que tinha matado essa pessoa.

Agora que o Estado brasileiro está reconhecendo e sendo penalizado internacionalmente pelos crimes contra a humanidade que cometeu entre 64 e 85. Então, imagina as pessoas, as vilas, as famílias que foram prejudicadas por uma paranoia comunista, um fantasma comunista.

que rondava a cabeça dessas pessoas, que eu acho que, na verdade, tem um quê de perversão com o nazismo. Aí eu volto no outro ponto do filme do Kleber Mendonça, do Agente Secreto, quando o delegado leva o personagem do Wagner Moura para conhecer um soldado alemão, judeu. Ele é alemão, ele disse aqui, um verdadeiro soldado alemão. É o do que é que faz o papel, né? Isso.

E o que eu percebo é que existia o nazismo, ele se caracteriza por esse sado à violência, esse gosto pela violência. Os nazistas torturavam os judeus, não diferente do que os judeus fazem com os palestinos hoje. Eles torturavam, como é que reagia se você tira um olho. Eles tiravam o olho sem anestesia, para ver como o corpo reagia.

Será que ele grita se a gente tira o olho? Então, não é muito difícil. Eu acho que os judeus fazem com os palestinos o que os alemães nazistas fizeram com eles. Eles parecem que aprenderam com os alemães nazistas e aplicam com os palestinos. E querem aplicar com o rumo todo se a gente deixar. Mas eu acho que esses personagens que compõem a ditadura nesse tempo, treinados pelos americanos em tortura, tem que se dizer de passagem, eles tinham essa questão sada de querer ver a dor do outro, né?

Então ele foi lá para mostrar um soldado alemão, olha, está vendo, ele esteve lá, ele é um nazista, eles vibram com isso, com essa coisa, ele lutou no exército de Hitler. E ele vibra muito mais do que o próprio alemão, que não quer, não, me deixa em paz. Não quero mais falar sobre isso, não quero mais tocar desse assunto. Porque para a própria Alemanha, eles não querem mais falar sobre nazismo. Hoje em dia a gente vive uma crise de memória, o planeta vive uma crise de memória.

Na própria Alemanha tem gente, a partir de extrema-direita, se levantando e saudando, chamando invocações nazistas. Porque existe uma crise de memória. Então esse filme, ele vai pincelando essas coisas. Então esse personagem, que até morreu recentemente, ano passado. O Doquê. Morreu em 2025. Ele vem aí para justamente fazer essa ponte entre esse gosto.

pelo nazismo, pela tortura, pela dor do outro. Não pela sua, pela dor do outro. E o Wagner Moura, que inclusive ele faz dois personagens. Existe uma confusão aí no ar, que ele faz três personagens. Não, ele faz dois personagens. Agora existe uma coisa do codinome. A pessoa ganha um nome para esconder o seu nome verdadeiro. Ele é Armando? Não. O nome dele é Marcelo. Armando?

Armo?

O Armando é o nome verdadeiro do personagem, professor da universidade, que está desenvolvendo uma pesquisa na área da eletricidade, do campo, pensando no carro elétrico, pensando em baterias de nions que a gente usa nos celulares. Uma coisa muito importante para o desenvolvimento do nosso país. Mas vem aquele personagem do Guirote, que é o vilão. No fim das contas, é um vilão.

Essa é a pessoa. Eu quero... buraco.

Muito embora o grande vilão mesmo seja a ditadura, né? Mas ele seria um vilão principal, eu acho, né? Eu acho que a ditadura só foi possível porque existiam vários guirotes. Pessoas que estavam ali bebendo, que é o que ele fazia. Ele sangrava o Estado, ele é um corrupto, né? Ele sangrava o Estado, ele se beneficiava com as coisas do Estado para enriquecer a empresa privada dele.

quantas pessoas saíram milionárias depois do término do golpe as empresas, as empreiteiras então ele é mais um, ele que dava sustentabilidade a ditadura era muito complicado acho que o Lamarca fala disso observando o Lamarca o filme Lamarca eu fiquei pensando, era muito complicado você lidar contra um estado que tem apoio da classe empresarial como um todo tem matador oi oi oi

Então, o Vagrimura, ele exerce, na verdade, o Marcelo é um nome fictício, é o colinome do Armando, né? Para o Armando poder se esconder. E depois ele vive o filho. Eu acho isso fantástico. Ele vive o Fernando. Então, ele vive, na verdade... Na vida adulta, né? Na vida adulta. É o Pirralhinho que é fã do filme Tubarão, que está ali.

o avô não deixa que é outra coisa que o clube também de vídeo filme em partes são três partes a parte é o pesadelo do menino né que é justamente e nesse pesadelo do menino ali se revela o médico achei muito interessante porque quando o pai não e que eles falam da perna que foi achada na barriga do tubarão que na verdade era os policiais ficaram temerosos com essa perna que tratava

Justamente de mais uma morte que eles tinham provocado. É, desova de cadáver. Uma desova de cadáver. E tinham matado uma pessoa que era da elite, que era um estudante de agronomia. E eles estavam com uma certa preocupação que eles não adivinharam que aquele cara pudesse ter alguma ligação que pudesse prejudicá-los. Então a perna da pessoa foi encontrada no tubarão e ganhou notícia. É, o Kleber acaba por recuperar.

Uma lenda urbana de Recife, que é a Perna Cabeluda. A Perna Cabeluda surgiu no jornal justamente porque o jornal sofreu uma censura de matéria, derrubaram a matéria. Raimundo Carreiro, que hoje é um grande escritor.

um escritor nacional muito prestigiado, mas é pernambucano, era o repórter, inventou a história da perna cabeluda para tapar o buraco ali, deixado pela ditadura. Mas, claro, a perna cabeluda ganhou projeção graças a um radialista, um programa de rádio popular, popularisco e tal.

Isso daqui vai pegar fonte, cara. Olha, perna cabeluda, ataca outra vez. Então outra coisa que também me chama atenção sobre a questão específica da perna cabeluda é sobre o desvio, a fake news, o desvio do foco real. Então enquanto o Estado, a mão branca, quando eu era criança eu tinha medo da mão branca. Eu pensava que ia entrar uma mão branca e ela podia me fazer algum mal, uma mão. Na verdade era um grupo de extermínio ligado ao Estado, à polícia.

que matava as pessoas que não estavam de acordo... Os avôs da milícia. É, eram os avôs da milícia. E eu acho que a perna cabeluda entra nesse contexto de desviar a população, entregando para ele uma espécie de um circo de terror, sabe? Você ficar com medo de algo que não existe. E existiu uma confusão na leitura do filme. Minha irmã assistiu o filme Salvador e disse que eu não conseguia entender no meio do nada, entrou uma perna cabeluda, não sei o quê.

Eles estão fazendo a leitura do jornal, estão lendo o jornal, e ali é uma dramatização da notícia. Uma dramatização da leitura, né? Eles estão dramatizando a leitura da notícia do jornal. Então, na verdade, naquele momento, eu entendi que uma coisa, para mim, foi como, olha, ele está querendo dizer que as pessoas se desfocam.

E para mostrar o quanto absurdo também era a notícia, né? Aquela cena é absurda porque a notícia é absurda. Se um corpo jogado no chão há dias é para ser tratado com normalidade, aí esse corpo está aí, não, se preocupe, não, isso não tem nada a ver com isso, esse é um meliante aí que levou um tiro. Na caixa dos peitos. Na caixa dos peitos, não tem nada a ver com isso. Imagina uma perna cabeluda. Se um corpo jogado ao chão, né?

vai esse nível de, como é que eu posso dizer, de normalização da violência. Então uma perna que pula sozinha, chutando as pessoas, agredindo as pessoas, é uma coisa absurda. Na mídia dos anos 70, eu acho que serviu também para desfocar dos crimes, dos corpos, que apareciam. E uma coisa importante também, eu acho que falar, é dessa rede.

que o Kleber Mendonça traz, de proteção às pessoas que são vítimas de perseguição. A Dona Sebastiana, o personagem da Dona Sebastiana, vivido pela Tânia Maria, quando ela chega ali e faz aquele negócio fechando a boca, está em silêncio, você está seguro, né? Ela passa a mão na boca, assim, como se tivesse com a boca fechando a boca. Fechando a boca. Porque ela está ali para ajudar. O personagem do Buda Lira, também diz, a gente está aqui para ajudar. Existe uma rede também de proteção.

Marcelo, eu também estou aqui para te ajudar. Estou colaborando com a Elsa. Não digo mais nada.

Outra coisa interessante também, que o Kleber Mendonça, ele tenta nos dar um panorama como é que as coisas estão fora daqui. Você tem aqueles refugiados angolanos, como estava em 1977 na Angola. A Angola estava vivendo um infusiante caminho a uma guerra civil. Patrocinado pelos americanos e pela África do Sul, os americanos, esses gafanhotos, botam dele em tudo que não presta nesse planeta. Então a...

A Guerra Civil Angolana, que tem isso em 77, é patrocinada e articulada pelos americanos e pela África do Sul, que vivia um regime de apartheid. Então, é um processo de ebulição pós a libertação de Portugal, porque eles se emancipam de Portugal no futuro.

Nos anos 60 para 70, né? É, no começo dos anos 70. Então, em 77, eles entram em guerra civil, uma guerra civil que devastou Angola. Então, você tem no filme do Kleber Mendonça um casal de angolanos que está ali refugiado também, fugindo da perseguição lá no país dele. Então, eu acho interessante ele trazer essa proximidade também, né?

E valendo lembrar que nós aqui no Brasil estávamos sofrendo o dedo do tio Sam também. Afinal de contas o golpe só se consolidou porque o tio Sam botou o dedo, articulou para que isso acontecesse e a gente mergulhasse não só o Brasil como a América do Sul inteira, né? O que eles fazem agora com o Irã, fizeram com a nossa vizinha Venezuela. Não com a defenda Venezuela, mas eu acho que eles não tinham o direito de invadir o país.

E sequestrar o presidente. Claro, loucura. Ou invadir, anexar Cuba. Já pensou que loucura? Vamos anexar o Brasil, vamos anexar a Amazônia daqui a pouco. Lúcio, a gente está encerrando aqui o Ousum Filme, mas eu queria saber o que você achou do final. O final tem gente que... Eu vi muita gente reclamando que o personagem do Marcelo Barra Ramando, o personagem do Wagner Moura, ele tem um...

Um final que se você piscou, você perdeu. Foi o que aconteceu. Então muita gente reclamou que ele não tem um final digno da construção do personagem. Você só sabe que ele morreu porque aparece lá, a menina está pesquisando e aparece uma foto dele no jornal dizendo que ele foi assassinado. E aí vem o final mesmo que é Wagner Moura no papel do filho. Fernando, né? Que aí uma das pesquisadoras vai lá conversar com ele, né?

Até questionando o que é que ele sabe da família, porque... Eu vi umas fitas e ele até pergunta, mas quem lhe entregou essas fitas? Ah, foi fulano de tal que seu pai chamava de Elza, conhecia como sendo Elza, que é a personagem da Maria Fernanda Cândido, que você falou aí, que estava na gravação. Na gravação.

E ele simplesmente não quer, não quer, não quero saber disso, não quero me meter com isso. E aí no final tem aquele desfecho para dizer que o cinema, Bela Vista, que ele assistiu Tubarão, hoje é um hemocentro. Enfim, você está falando do fim das salas de exibição, você está falando das novas gerações que simplesmente não querem se meter mais.

nesses assuntos do passado, tem um monte de esquinas que significaram aquilo. Eu acho que o Cleber Mendonça ele é muito feliz, assim, não digo se dá pra piscar você perder o que aconteceu com o personagem do Armando, o que aconteceu, qual foi o fim do Armando, né? Eu não chego a isso porque tudo que vem, quando a gente percebe que o que a gente tá assistindo...

É o que está sendo ouvido pela pesquisadora, muito do que a gente está assistindo, é o que as pesquisadoras, a pesquisadora, o personagem da Flávia, né? Ah, sim, sim. A Flávia que vai até o Recife, dá o trabalho e leva o pendrive, né? A Flávia que...

Ela realmente é que fica sentida. Porque a pesquisa é interrompida, porque a própria Flávia disse que aquele tema era sensível, e todas as fitas foram recolhidas, porque até hoje não se fala muito da ditadura. A ditadura escolheu a obscuridade, o buraco, para esconder tudo o que ela fez, jogar embaixo do tapete. A obscuridade. Então, retirar as fitas da pesquisa é levar para a obscuridade.

Olha, Fernando, o que acontece é o seguinte, eu trabalho numa universidade particular que me pagou para poder transcrever os materiais que eles receberam desse acervo e agora eles pediram todo o material de volta porque eles acham que ali tem muita informação que é delicada. Então eles pediram todo o material de volta. Mas também isso não importa.

E a ditadura foi pouco visitada pelo nosso cinema. Eu acho que a gente começa a contar essa história agora. Como, por exemplo, a gente não contou ainda a história da pandemia. O cinema vai chegar às histórias da pandemia. Então a ditadura é uma história que a gente começa a contar agora. Então eu acho que o personagem da Flávia é um personagem muito importante porque ele provoca justamente esse momento de quebra que nos leva ao final do desfecho. Quando ela se desloca de São Paulo.

até o Recife, para entregar um pendrive, que lá estão todas as gravações do pai do personagem Fernando, que também é vivido pelo Vagano Moura.

É como entregar a história. Estou te entregando aqui a caixa de Pandora que tem todas as respostas sobre essa história. Essa história que ele não quer ouvir. Porque o Brasil também não quer ouvir. O Brasil prefere se vestir de verde e amarelo, botar um celular na cabeça e dizer que vai derrubar sei lá quem, não sei como. Ir para frente do grupamento de Jari e pedir, pelo amor de Deus, para salvar a filha dele.

Então o Brasil prefere essa verdade construída do que ouvir aquela verdade que está ali. E coincidentemente ele é um médico. Eu acho que o filme, na verdade, ele não tem um final solto. É um filme muito bem amarrado. E não dá para piscar e não perder, porque ele se repete no que aconteceu com a morte. O próprio personagem do Fernandes disse que no dia que meu pai morreu.

Eu tava esperando ele ali vestidinho na frente. Isso causa um trauma. Mas o que fica é uma coisa da memória. Foi o que a gente falou no início. Esse filme é um filme de memória. O que ela entrega é um equipamento de memória. Um pendrive é um equipamento de memória. Boa, é isso mesmo.

E ele guarda, inclusive. E ele guarda. Ele olha, tem diferença, mas depois ele bota no bolso. Ele bota no bolso. Quem sabe se ele vai consultar aquela memória e vir para a luz, né? Sai dessa caverna, desse buraco e vir para a luz e entender o que se passou com o pai dele, o que se passou com esse país, né? Porque eu acho que é isso que o Kleber Menosa quer dizer para a gente. Turma, brasileiros e brasileiras, né? Companheiros e companheiras, né? O que passou com esse país entre 64...

e 85 foi isso aqui. É um país sem lei, o Estado não tinha lei, era um país sem ordem, entendeu? É um país criminoso, entendeu? Que levou a nossa população a um nível de paranoia, de medo do vizinho, de medo de sair do meio da rua.

Eu acho que o Cleber Menoncio cumpre essa função de tentar, tentar que não consegue, recompor a nossa memória. Por isso que eu digo, o agente secreto é um filme necessário nesse tempo, que a gente precisa revisitar a nossa memória. E o cinema cumpre essa função de manter viva as discussões sobre o que aconteceu, porque o agente secreto vai existir enquanto existir cinema.

o Agente Secreto existe. E da mesma forma que existe o nosso querido Romero Jaguia. Muito bem. Esse é Lúcio César aqui no programa Ouça um Filme. Uma aula que Lúcio deu. De fato, acho que eu me coloco no papel do ouvinte. Vou rever o Agente Secreto até com outros olhos agora.

depois de todos esses caminhos. Então, obrigado, Lúcio, por ter participado. Foi ótimo. Foi fantástico. Me chamo sempre para falar de cinema, eu adoro. Notamos. Eu sou o André Canané e o Ouço um Filme é um produto da Rádio Paraíba FM 103.9, uma emissora da EPC, empresa paraibana de comunicação. Diretora-presidente, Naná Garcês.

Diretor de Rádio e TV, Rui Leitão. Gerente de Rádio Difusão, Berlim Carvalho. Gerente executivo de conteúdos e programação, eu, André Canané. Tchau, tchau.

Você curtiu? Ouça um filme. Um papo entre dois fãs de cinema. Com dicas, curiosidades e análises sobre os títulos mais amados de todos os tempos. Num oferecimento do Centerplex Cinemas. Se tem sessão, tem diversão. Siga o arroba Centerplex Cinemas nas redes sociais. E fique por dentro dos melhores lançamentos de filmes e muita diversão. Até o próximo programa.

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