EP#61 - UM LIVRO, UMA CONVERSA - JOSÉ ELIELTON DE SOUSA E ROGÉRIO NEWTON
Os escritores piauienses José Elielton de Sousa e Rogério Newton conversam sobre as suas trajetórias na literatura, a dedicação a diferentes gêneros literários, o apelo da poesia, a memória sertaneja na produção poética, suas últimas publicações e até mesmo reflexões filosóficas.
Dedicado à literatura, o programa “Um livro, uma conversa” vai ao ar toda terça-feira, às 18h, na Parahyba FM 103.9.
FICHA TÉCNICA
Data de Veiculação: 28/04/2026
Produção: Yara Guerra
Edição de áudio: Ivson Lira
Este programa é um produto da Rádio Parahyba FM, emissora da Empresa Paraibana de Comunicação.
José Lielton de Souza
Rogério Newton
- Poesia e LiteraturaInfluência da filosofia na poesia · Nietzsche e o romantismo · O papel do poeta · Acesso ao real pela poesia · Crítica à filosofia acadêmica
- Antimilitarismo e guerraProjeto das Luzes e Iluminismo · Aprofundamento das desigualdades · Guerra e ameaça nuclear · Poesia como resistência · O papel da arte em tempos sombrios
- A importância da literatura e da escritaInfância e o contato com a palavra · A importância do ambiente familiar · Poesia de circunstância · Fragmentos de uma grande confissão · O eu lírico e o eu empírico
- LiteraturaMemória sertaneja na poesia · O sertão como lugar de resistência · Sertão imaginário · Metafísica Cabocla · Relação com a natureza
- Autores consagradosLivro 'Bem Aventuranças' · Livro 'Doze Poemas Desesperados sobre o Riacho do Mocha' · Romance inédito de Rogério Newton · Poema 'Malinação' · Poema 'Metafísica Cabocla'
Programa de Conteúdo Livre Está entrando no ar? Um livro, uma conversa. Literatura em altos papos. Pegue seu café e acompanhe o encontro entre dois escritores convidados.
Salve, salve, ouvintes da Paraíba FM! Está começando agora mais uma edição do Um Livro, Uma Conversa, o nosso programa semanal de literatura. Aqui a gente recebe dois convidados que conversam sobre um tema literário em comum. E os nomes da vez são José Lielton de Souza e Rogério Newton, dois escritores do Piauí que lançaram novas publicações aqui em João Pessoa recentemente.
Pela próxima hora, eles vão falar sobre suas trajetórias na literatura, a dedicação a diferentes gêneros, o apelo da poesia, a memória sertaneja na produção poética e até mesmo reflexões filosóficas. Então fica aí sintonizado na 103.9 para acompanhar essa conversa massa conversando com uma fala de Rogério Newton.
Bom, então eu vou começar essa conversa aqui, esse bate-papo com o meu amigo José Lielton de Souza, piauiense como eu, que temos uma relação muito boa com a Paraíba, porque ambas as nossas esposas moram aqui, nós temos uma história familiar e eu tenho uma história afetiva também com a Paraíba, porque...
Dois netos meus nasceram aqui, meu primeiro filho também nasceu aqui em Campina Grande. E eu já morei várias vezes aqui. Eu gosto de dizer que a Paraíba é minha segunda pátria. Então, para mim é uma satisfação muito grande falando para os ouvintes da Paraíba e agradecendo o convite que foi feito pela Yara Guerra para nós. Então eu vou começar me apresentando pelo nome, Rogério Newton.
Como é de praxe, né? Eu estudei, fiz universidade, estudei direito e iniciei outros cursos que eu nunca terminei, como letras, como música, como teatro. Eu nunca terminei esses cursos, né? Mas eu cheguei a estudar na universidade, né? E cheguei a praticar um pouco também de teatro. Eu toco em casa, eu sou músico para efeitos domésticos também, né? Eu iniciei na literatura, que esse é o tópico da nossa conversa aqui, escrevendo em jornais.
Fui escrevendo para jornais, em jornais, impressos, no tempo que havia jornalismo impresso no Brasil. E foi aí que começou o meu exercício mesmo, mais direto com a palavra, para ser lida, para ser comunicada. E logo que eu comecei a escrever em jornal, escrevendo notícias, naturalmente, quando a pessoa é contratada ou é convidada para escrever em jornal, como repórter, como eu fui, eu passei pela redação há pouco tempo, mas logo depois eu me familiarizei com a crônica.
Porque eu comecei a escrever artigos, né?
Eu percebi que eu poderia escrever artigos argumentativos sobre assuntos diversos da atualidade, como política e economia, por exemplo, e cultura. Mas depois que eu comecei a escrever, eu percebi que aquela coisa estava me cansando. Já no segundo, terceiro texto, aquilo já não me satisfazia. Então eu fui, naturalmente, transitando para uma linguagem mais pessoal, mais solta.
mais de conversa mesmo com o leitor. Aí que alguns amigos estavam lendo e falaram, olha, tu está escrevendo crônica. Eu fiz isso, mas não foi um projeto, eu não tive um projeto de ser cronista. Tive depois, mas como as crônicas que eu estava escrevendo estavam causando uma repercussão muito boa com os leitores, aí eu comecei mesmo a me interessar pelo assunto e comecei a ler muitos cronistas brasileiros, principalmente...
Comecei pelo Rubem Braga, que eu já conheci alguma coisa, como todo mundo conhece, que é o cronista mais destacado do Brasil. Ele inventou realmente uma crônica brasileira, e outros grandes cronistas brasileiros também. Então, por causa disso, eu já publiquei vários livros de crônicas, resultantes de crônicas que eu escrevi no jornalismo impresso ou em revistas.
Então, eu sou fundamentalmente um cronista. Mas eu enveredo pela poesia, e esse também foi a poesia que nos trouxe aqui, porque recentemente nós lançamos um livro, eu e José Lielton, lá no Espaço Cultural, na Livraria União, e foi a poesia que nos trouxe aqui. E também eu enveredei por um romance, que eu já publiquei, já tenho outro romance que eu já escrevi, está inédito, eu não tive coragem ainda de publicar.
E eu quero fazer uma revisão dele primeiro e mudar algumas coisas. Então, fundamentalmente, é isso. Eu como escritor, como poeta, eu posso dizer para todos os ouvintes que eu comecei a escrever, eu me forjei como escritor escrevendo para jornais. Eu acho que é uma boa escola, acho que muitos escritores brasileiros e escritoras também começaram por aí. Grandes escritores também tiveram colunas no jornalismo impresso. Óbvio, como Drummond, Vinícius de Moraes.
Manuel Bandeira, todos escreveram em jornais. Eles tinham colunas de crônicas em jornais. Então era um espaço mais ou menos livre para o escritor falar o que ele quisesse. E eu gosto muito disso, porque, falando da crônica especificamente, porque aquele espaço que os jornais reservam ou reservavam para o cronista é um espaço diferente de tudo que aparece nos jornais, porque ali é um espaço da liberdade, porque o cronista pode escolher o tema que ele quiser.
da conversa, do texto e por aí em veredade uma forma muito pessoal. Eu acho que o Elielta também teve um início parecido com esse, ou não? Um pouco diferente, sim. Olá, pessoal, satisfação estar aqui. Obrigado, Ayara, pelo convite. É um prazer estar conversando com o Rogério, um colega de longas datas, longos carnavais.
Então, eu sou o José Lielton, como o Rogério já disse, eu sou formado em filosofia, sou professor universitário, sou professor da Universidade Federal do Piauí, na área de filosofia. A minha escrita, eu comecei uma escrita acadêmica, né? Ao contrário de que a gente começou a escrita mais solta ali no jornal, né? Eu fiz mestrado, doutorado na área de filosofia, né? Então, a minha escrita toda é essa produção acadêmica, né? Me percebi ali escrevendo por necessidade da formação acadêmica, né?
no mestrado, então dissertação, teses, artigos científicos, capítulos de livro, então toda aquela escrita acadêmica, né? Mas eu tenho um problema com a escrita acadêmica, especificamente de filosofia, que não chega a ser um problema, né? Mas enfim, o modo que a filosofia acadêmica é feita, ela tem um estilo de escrita muito próprio, né?
que é um estilo de escrita técnica voltada para um público mais específico, para o especialista em ética, especialista em filosofia política, dentro desses recortes, o especialista naquele autor, naquela teoria específica. Então é uma escrita muito direcionada.
E justamente por ser muito direcionada, me incomodava o fato de que determinados temas de filosofia, que são de uso geral, na realidade todos os temas de filosofia são de uso geral, mas tem temas de filosofia que são muito urgentes, da gente discutir com um público mais geral, a gente não consegue discutir justamente por conta do tecnicismo da escrita. Então, sei lá, para você falar uma coisa...
fazer uma crítica ao patriarcado, você tem que buscar fontes. Então, toda uma escrita justificada do ponto de vista mesmo da reprodução do argumento do outro. 80% de um artigo científico não é seu, é do outro. No máximo, você consegue cocatenar as ideias do outro, mas a presença autoral ali é muito curta justamente por conta desse estilo.
A originalidade. A originalidade é muito difícil. Embora as humanidades, de modo geral, os trabalhos sejam muito autorais, ao contrário de outras áreas que a produção é mais coletiva, mas é um autoral que não é tão original justamente por conta disso, porque precisa dessa fundamentação. Não que em outras áreas você, tipo, venha para a literatura, você não precisa de fundamentação, mas a forma da escrita deixa esse texto muito engessado. Então, eu senti uma necessidade de ir para as outras áreas.
Que deixasse esse texto mais leve. E tem muitos filósofos que escreveram de forma mais leve, né? Mais estética, mais provocativa, né? O Nietzsche tem um... Enfim, o Nietzsche é muito provocador, né? Ele tem uma frase que ele diz que uma filosofia que não comove ninguém não serve pra nada, né?
E a filosofia acadêmica hoje, 80% dela não comove ninguém. É uma filosofia que é pura técnica. Embora faça uma crítica ao processo de especialização, de tecnicidade do mundo moderno, mas ela também se tornou mais uma técnica dentre as outras técnicas que ela mesma.
E o texto acadêmico, ele chega a um número muito pequeno de pessoas, né? Fica mais restrito a um circuito. Sim, justamente por conta desse formato técnico dele, né? Então ele circula só entre os pares ali, né? Então a circulação é muito limitada. E aí eu já tinha feito poesia lá na adolescência, né? Eu tive uma boa professora de língua portuguesa no ensino fundamental. Ela promovia feiras literárias na escola, incentivava a gente a ler e a escrever. Então ali eu tinha uma produção, tinha uma coisa ou outra ali.
E pós pandemia, como muita gente fez, eu voltei para esse universo da poesia e voltei a escrever poesia. E estou gostando muito porque eu acho que é uma linguagem que você consegue conversar com um público maior. Tipo, a gente está tendo essa conversa aqui. A Yara não teria me convidado para cá para falar de filosofia. Mas de poesia ela convidou. Porque é um tipo de temática que você consegue falar com um público mais amplo.
E sem abrir mão dos temas que você quer trabalhar. Então foi essa inserção que eu tive da literatura. É, Elielton, você falou uma coisa que eu acho que é comum a quase todos os escritores, a todos os escritores, a todos os criadores, a mim também, que é a infância. Eu acho que a nossa relação com a palavra...
ela vai nos remeter à infância, em algum momento da infância, em vários momentos da infância. Eu estou falando de mim mesmo agora. Eu tive contato com a palavra antes de entrar na escola formal. Porque depois que o meu avô materno faleceu, a minha avó e as irmãs dela, as minhas tias, foram para outra fazenda lá no interior do Piauí.
E lá elas resolveram, porque eram professoras, alfabetizar os filhos dos agregados, dos vaqueiros que moravam por ali. E como eu não tinha idade ainda para começar a aprender as primeiras letras, eu fui para lá como curioso.
E eu ficava prestando muita atenção que eu aprendi a carta de ABC toda, que naquele tempo a alfabetização começava pela cartilha de ABC. E hoje eu nunca me esqueci disso. Já naquele tempo da infância, a palavra já exercia um fascínio sobre mim. E também em casa, as minhas irmãs tinham livros dentro dos seus guarda-roupas. Eu ia lá, escondido, pegava os livros.
Às vezes não, elas liberavam mesmo. E uma das minhas irmãs assinava revistas, como Fatos e Fotos, o Cruzeiro, que era uma revista famosa da época. Meu cunhado assinava a Veja. Então eu já percebi aquela circulação de ideias, de informações ali no ambiente familiar. Por isso que eu acho importante demais haver dentro de uma casa, haver livros, haver discos.
a ver instrumentos musicais, a ver telas de pintura, obras de arte, enfim, se o universo familiar puder criar um ambiente, uma atmosfera inspiradora da arte, o que a arte inspire, acho que isso é importante demais para a formação da pessoa. No meu caso, como escritor, foi, a infância foi muito. Eu frequentei muito bibliotecas quando era...
Era criança, incrível, porque eu sou de Oeiros, uma cidade do interior do Piauí, do sertão, mas lá havia bibliotecas que podiam ser frequentadas e eu frequentava as bibliotecas, mesmo que fosse só com aquela curiosidade de pegar os livros e folhear, ler uma página aqui, outra ali, olhar uma figura, depois passar para outro livro. Então isso aí acho que já era uma curiosidade que eu tinha, uma atração que eu tinha para com a palavra. Eu acho isso importante demais.
Mas você fala uma coisa aí, que enquanto você falava, eu estava refletindo aqui, que a filosofia foi muito importante, por exemplo, na crítica ao romantismo, principalmente na Alemanha. Então, muita produção crítica de língua alemã foi feita para refletir sobre as questões do romantismo, que o romantismo sempre é uma escola que, em boa parte, foi superada, mas ela sempre é uma escola atual.
E a crítica filosófica, você já citou Nietzsche, agora eu vou citar o Husserl também, que são dois filósofos, o Schopenhauer também, esses três filósofos são muito importantes na discussão sobre, naquela passagem ali, naquelas discussões sobre o romantismo, naquela passagem para a modernidade mesmo na escrita. Por isso que, por exemplo, Nietzsche via com muita simpatia o livro de Baudelaire, As Flores do Mal.
Porque ele entendia que o que ele pensava filosoficamente estava ali inscrito na literatura, na poesia de Baudelaire. Que já é considerado por muitos críticos como o início da modernidade na poesia. A poesia moderna começa ali. E você acha que, agora fazendo uma pergunta para ti mesmo, você acha que a sua formação de filósofo influiu na sua produção poética?
Sim, sim. Acho que a nossa formação, você falando de fã, tudo isso, como diria Manuel de Barros, é matéria de poesia. Então, a nossa experiência pessoal alimenta a nossa experiência poética. Tanto do ponto de vista da escrita em si, dos estilos e tal, das imagens que a gente formula poeticamente, quanto também do ponto de vista teórico. Então, a filosofia tem um papel determinante.
no que eu entendo como papel do poeta, enfim, não sei se cabe essa expressão, ou no fazer poético, justamente por conta dessas referências. O Nietzsche, de fato, é uma referência importante, principalmente na fase inicial, chamado jovem Nietzsche, que ele dialogava muito com os românticos, era um romântico, estava ali ainda admirador do Schopenhauer, admirador do Wagner.
Então tinha um projeto ali de... Ele era discípulo de Schopenhauer. Era discípulo de Schopenhauer e discípulo do Wagner. Eram as duas grandes referências do jovem Nietzsche, são eles. E aí quando Nietzsche rompe com ele, justamente começa um segundo, que a gente considera um segundo período da filosofia dele. Mas era imerso nesse espírito do romantismo alemão, que ele estava ali com essa admiração toda. Ele já tinha uma certa criticidade ao romantismo, porque ele levaria a um certo idealismo, como é uma das críticas que se aponta, mas era a grande fonte de inspiração dele.
E ali ele atribui um papel importante para a poesia, né? Porque ele está dialogando com os antigos ali, né? Com o mundo grego antigo, né? Sim. E ele entende ali, tem no Nascimento da Tragédia, que é o primeiro livro publicado dele, que é um livro belíssimo, assim, do ponto de vista das imagens poéticas que tem, embora seja um texto discursivo, né? Ele fala justamente do papel do poeta ali, que ele diz que o poeta, junto com o santo e o louco, é muito interessante essa aproximação que ele faz, né? O poeta, o santo e o louco, eles têm acesso ao real, né?
que ele chama de uno primordial, a expressão que ele usa, direto, porque eles têm um tipo de assese quase que mística, os três, que eles conseguem acessar essa realidade última ali de forma direta, sem intermediações. Mas com a embriaguez. Com a embriaguez. A embriaguez de onisíaca. Porque justamente os três se permitem ali, se entregar completamente a essa embriaguez. Então a poesia tem um papel sagrado nesse sentido.
que depois ele vai cunhar a expressão metafísica do artista, que o artista justamente teria esse acesso privilegiado. Então é uma responsabilidade muito grande para a poesia, quando ele atribui esse papel à poesia. E eu acho que é uma responsabilidade, ao mesmo tempo, muito bonita, que resgata uma dignidade da poesia, que a filosofia durante a história é meio que...
Tem uma confusão ali com Platão, que o Platão expulsou os poetas da República, que não é bem verdade. Você tem que olhar direitinho, a discussão não é bem aquela ali, mas enfim. Meio que essa imagem ficou na tradição e a poesia e as artes em geral ficaram meio ali de lado. Porque ele concebeu uma sociedade idealizada. Idealizada, racionalista e tal, que buscava uma verdade metafísica e por aí vai. É confusão.
Nós somos dois nordestinos, nascemos praticamente no sertão, mas temos no sertão, e nós estamos discutindo aqui alguns autores europeus. Parece uma coisa meio assim, fora do... Mas não é. Por exemplo, o Goethe, que é dessa fase meio romântica, ele defendia uma coisa que ainda hoje é revisitada até pelos críticos modernos.
Ele dizia que a poesia tem muita relação com a experiência vivida. Aliás, ele chegou a dizer assim, que tudo o que eu produzi são como se fossem fragmentos de uma grande confissão. Todos os meus poemas são fragmentos de uma grande confissão.
Eu acho que para nós, para mim, e acho que para você também, mas isso você vai falar depois, realmente a experiência vivida tem muita relação com o que eu escrevo. E com a poesia, inclusive. Com a crônica nem se fala, né? Porque muita crônica é escrita devido às circunstâncias mesmo. E é curioso que na poesia também existe o poema de circunstância, né?
Aquele que o poeta faz, porque viu na rua, se deparou com alguma cena, alguma pessoa, algum episódio que o tocou, que ele transformou em construção linguística. A gente não pode esquecer também que o poema é uma construção linguística. Mesmo para o romântico... Ainda é linguagem. Ainda é linguagem, ele tem que construir uma linguagem.
Bom, então, mais o que eu estava falando era sobre a experiência vivida, que também é muito contestada pela crítica, né? Sim. Há muita gente, há muitos críticos que dizem, não, o eu lírico é uma coisa, o eu empírico é outra coisa, o que importa é o eu textual, né? Aquele eu que, aquela voz que aparece no texto, e vamos falar que no poema não tem nada a ver com o eu empírico, esse negócio de eu lírico não é bem assim, né? Ele é, inclusive, é de difícil, a crítica nunca fez...
consenso em relação a uma definição. E a conclusão mesmo é de que o eu lírico é algo assim muito problemático. Ele é indefinível, ele circula, ele se desloca, ele se reinventa, enfim. Mas o que eu estava falando sobre a experiência vivida, por exemplo, nesse livro aqui, o último livro que eu lancei, aliás, lancei junto com o seu também, o Bem Aventuranças,
Ele, em parte, foi resultado de um processo que eu passei pessoal mesmo. Eu tive uma crise existencial. E durante, ou depois, que eu fui saindo da crise, eu comecei a rabiscar algumas coisas na minha cadernetinha, na minha agenda, e eu fui percebendo que aquilo era material poético.
Era, parafraseando Nietzsche ou Nietzsche, eram fragmentos de uma grande confissão. Fragmentos de uma grande confissão. E eu não tenho vergonha de dizer não. São fragmentos de confissão esse meu livro. São fragmentos de confissão. Só que eu não entendo que sejam um confissionalismo primário.
Aquele confessionalismo que a gente vê, principalmente em quem começa a escrever poesia. Lá na nossa adolescência a gente fez isso. Um poema romântico, uma moradinha. Escrevia uma folha, não sei quantas folhas, e dizia, não, isso é poesia. Mas afinal de contas a gente sabe com o olhar crítico que não é.
Só talvez ali uma frase, uma expressão tenha o conteúdo poético, né? Mas é um material poético bruto, pode ser aproveitado, né? Porque, como eu falei antes, a poesia, o poema é uma construção da linguagem. Então, digamos, o poeta tem o que muita gente chama de inspiração. Uma circunstância, por exemplo. Por exemplo, vamos sentar aqui o Manuel Bandeira, né? Manuel Bandeira que é considerado poeta de circunstância por excelência do Brasil. Então, por exemplo, é aquele poema famoso, o Bicho, né?
Vi ontem um bicho na imundície do pátio, catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava. Engolia com voracidade. O bicho...
Não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. Então é um poema de circunstância, mas a gente percebe que há aí uma construção linguística, porque há ritmo, há uma seleção de vocábulos. Uma escolha de palavras muito precisa. Exatamente. Uma escolha de palavras.
O poema também é construído em pequenas estrofes, é um poema curto, é um poema muito depurado. As palavras ali só são aquelas mesmas, não há palavras sobrando nem faltando. Dizem que a inspiração é 10%.
trabalho é 90%. Exatamente. Pegar a imagem e transformar em poema. É um labor, até posso dizer uma acese. E quem pode muito falar sobre isso no Brasil como poeta e como teórico também, que foi o João Cabral de Melo Neto. Eu estava pensando nele.
A poesia dele é uma construção, é como se fosse um arquiteto. Ele até diferencia o poeta inspiracional do poeta construtivo. Ele se considerava um poeta construtivo. Que é aquele que trabalha mesmo no sentido braçal do termo. É uma poesia mais seca, mais trabalhada. A linguagem ocupa uma...
uma função primordial. A inspiração, ok, ela aparece, mas ela vem e você tem que transformar ela em linguagem. Então esse processo de transformação dela em linguagem é um trabalho muito pesado. Por isso que ok, o teu texto, eu ia até te perguntar isso, é um texto.
Confessional, inicialmente, né? Só que tem o trabalho com a linguagem, né? E o trabalho com a linguagem é um trabalho muito delicado que tu faz. É um trabalho muito cuidadoso ali com o texto. Que, de fato, você pega uma experiência e transforma ela em uma experiência poética, né? E falando, inclusive, de temas duros, difíceis, né? Como a morte. Como a morte, como a solidão, enfim. Então, são temas que...
nos assombra todos nós, mas nós não conseguimos transformar esses temas em poesia. Aí vem o papel do poeta. Essa pincelada que ele dá que é essencial pra transformar uma experiência num poema, que eu acho que aqui tem um trabalho gigantesco e tem um abismo aqui entre uma experiência
propriamente, você pegar essa experiência e conseguir transformar ela, ou uma circunstância, enfim, e transformar ela num poema. Não é um papel, não é uma coisa que qualquer um consiga, nesse sentido. É bom a gente falar nas pessoas que refletiram, poetas e teóricos do mundo todo, que refletiram sobre, por exemplo, há um teórico alemão que diz que o poema não nasce, o poema é fabricado. Acho que João Cabral gostaria. Acho que estaria nessa divisão que o João Cabral faz.
O Paul Valéry, que era poeta também, era teórico, ele disse que é importante para ele, muito mais importante para ele, saber como foi o processo de construção do poema. Por exemplo, Edgar Allan Poe, ele construiu uma coisa assim. Edgar Allan Poe ainda hoje é lembrado, não só como poeta, mas também porque ele foi um...
um teórico de si mesmo, da sua própria produção, ele refletiu muito sobre o ato de fazer, pois e o ato de escrever, que ele também foi prosador. Então ele tem um ensaio chamado Filosofia da Composição, em que ele explicita lá como foi que ele fez todo o projeto, o planejamento para escrever.
o poema, o corvo, né? Que é um dos principais poemas dele, um poema famoso dele, né? Então, eu, Elielton, como poeta e como prosador também, eu acho que a experiência vivida, ela... Nesse ponto eu concordo com Goethe, né? Talvez não totalmente, porque muita coisa depois dele aconteceu...
Em termos literários, em termos poéticos, em termos de vanguarda, inclusive. Muita coisa que revolucionou, jogou por terra. Muitas coisas que estavam estabelecidas, literariamente falando. Mas, voltando a dizer, eu acho que a experiência vivida, no meu caso, não só nesse livro, mas...
em outros livros, elas são fundamentais. Eu acho que eu não conseguiria escrever algo se não fosse baseado em alguma vivência. Eu acho que eu seria incapaz de fazer uma ficção pura. Eu escrevi um romance. E ele tem muita coisa de que é inventada mesmo.
que é fruto da imaginação, de personagens, de situações, de diálogos, são todos inventados, são ficcionais, mas tem ali um substrato. O ambiente não é totalmente inventado, né? Exatamente, tem o ambiente, tem algumas personagens que, de alguma forma, inspiraram ou foram um suporte para recriar outras personagens.
Tu tá falando na questão da vivência, né? Eu tô pensando o tempo todo aqui no Pessoa, né? Que talvez seja uma contraposição à vivência, né? Que o poeta é um fingidor, né? O poeta é um fingidor. É, que é um outro viés, né? Mas naquele poema, naquele poema que... Autopsicografia, né? Sim. Ele fala muita coisa que os críticos tentam falar. Ele fala no poema, né? É um...
um metapoema o poeta é um fingidor finge tão completamente que é dor a dor que é devera sente que bom que tu tem uma boa memória, eu só lembro da mensagem do poema, não lembro do detalhe
Tu é um cronista, como tu disse, por excelência, né? Mas tu também é um poeta e um bom poeta, né? O Bem-aventuranças, né? Ele tem elementos da tua crônica por conta dessa questão da vivência, né? Como você disse, é um livro em alguma medida confessional, né? Embora a gente esteja falando aqui do trabalho com a linguagem, né? Mas tu tem outros livros de poesia. Eu estava pensando, por exemplo, no Doze Poemas Desesperados sobre o Riacho do Mocha, que são poemas...
de crítica social ferrenha, né? Que vai pra outra... É verdade. Pra outra vertente, né? Aí eu te perguntar quais são as tuas inspirações poéticas, assim, né? Quem são os teus poetas de cabeceira? Enfim, tu tem poetas de cabeceira? Porque tu falou muito do Goethe, falou do Baudelaire, que são poetas clássicos ali, né? E aí metemos o João Cabral aqui na história também. Quem são aí os tuas?
Eu estava pensando em falar como o Ignacio Loyola Brandão, que não é poeta, eu acho, ele é só prosador, é um excelente contista, né? Ele disse uma vez, porque fizeram uma pergunta para ele num debate público, né? Como era o processo de criação dele? A curiosidade de todo mundo, como é que você escreve? Como é que você faz? Como é que você faz, né? Ele falou, o meu processo de criação é o seguinte, eu sento e escrevo.
E tem uma história curiosa com o Manuel de Barros também, né? Que o Manuel de Barros, aquele poeta maravilhoso, na poesia dele há muitos vocábulos que falam sobre elementos da natureza, sobre bichinhos, lagartixas, libélulas, mosquitos, pedras, flores. Aí perguntaram para ele se ele fazia tudo aquilo ali na natureza, né? Ele ia para...
Ele ia caminhar, ficar perto de um riacho, ouvindo o som da água. Ele falou, não, eu me tranco no meu escritório. Eu tenho 12 dicionários. Eu tenho 12 dicionários muito bons e lá é que eu faço meus poemas.
Então, mas é claro que essas anedotas não podem ser levadas ao pé da letra, né? São episódios interessantes, que eles são ensinamentos também. Que de fato, a gente vai voltar àquela mesma questão, que existe o labor, o trabalho, é como alguém que vai preparar uma comida, uma comida muito gostosa, que aquilo é só inspiração, né? Uma boa cozinheira vai para a cozinha, ela vai ralar, ela vai preparar os alimentos, vai cortar, vai esquentar, tem a hora certa de colocar no fogo e tudo mais.
Com o escritor e o poeta, eu acho que acontece uma coisa semelhante também, muito parecida, análoga. Eu não gosto muito dessa palavra inspiração, mas de fato há episódios e há autores.
que terminam sendo referências para mim. Por exemplo, você citou João Cabral. João Cabral não é um dos poetas brasileiros que eu li mais. Eu li mais o Bandeira e o Drummond, e os poetas piauenses como o Agadobal e o Mário Faustino.
Do que o João Cabral, que tem um viés muito construtivista mesmo, de elaborar, de pensar até os limites de como ele vai empregar as palavras, vai construir o poema mesmo. O poema é...
um artefato construído por ele como um arquiteto planeja uma casa e ali os engenheiros... O Mário, inclusive, Mário Faustino teoriza sobre isso. Sim, muito bem. Mário Faustino, além de excelente poeta, é um excelente teórico. Resgata o Ezapaldi, a metodologia do Ezapaldi.
Ele dialogou muito com aqueles teóricos que estavam repensando muito a poesia, principalmente a poesia no ocidente. Então, eu vou ler um poema aqui, vou pedir emprestado de Teóculos, de poeta também. Para o leitor, ou ouvinte, melhor dizendo, ouvinte, sentir na prática como isso pode ser aplicado num poema mesmo. O poema não tem título, diz assim, Não acredito em palavra da minha boca, dita ou silenciada.
Não acredito em mim mesmo, nos atos das minhas mãos, na correria dos pés, no galope do coração. A partir de hoje sou tambor, de alguém que corra seus dedos sobre mim, ou bata com força até pingar suor, escorrer vinho e sangue, derramar estrelas.
Com o couro cru que me envolve, a partir de hoje sou pele de acordar quem dorme. Então esse é o poema. Se você me perguntar assim, mas o que é que tem de experiência vivida aqui? Realmente eu cheguei a pensar em algum momento que...
Eu não tinha nada a dizer, eu não acreditava em mim mesmo, nas palavras, os autores que eu havia lido. Para mim, em determinado momento da crise que eu te falei, muitas coisas, digamos assim, teóricas, ou vivenciadas por outras, ou feitas por outras pessoas, inclusive os bons poetas e outros autores, e outros produtores como músicos, de repente aquilo ali para mim ficou como se em suspenso.
A procura de um sentido, né? Então eu trouxe isso pra mim mesmo e falei, pô, eu não quero mais ser nada, porque eu não acredito em mim mesmo. Eu não acredito nas palavras que eu digo, nas que eu não digo. A partir de hoje eu vou ser outra coisa. Eu vou ser um tambor. Que as pessoas podem chegar e bater. E ali vai soar um som.
Então, é uma experiência íntima, mas que eu não sei como é que o leitor recebe, porque é interessante para mim, acho que para todos os poetas, para todos os escritores e todos os artistas em geral, saber como a sua obra é recebida, como é que ela é recepcionada por quem vê, por quem escuta, por quem lê. Mas, em parte, é isso. Há uma experiência vivida aqui, mas há também um sentido de construção.
Porque eu tive trabalho de escolher as palavras, de fazer um jogo também, porque um poema também é um jogo, é um jogo de palavras, uma certa brincadeira com as palavras, não é? E não é assim um confissionalismo bruto. Eu escrevi um poema do jeito que eu senti. Não é isso. Não foi um relato terapêutico ali, né? De jeito nenhum. É só como se você tinha... A experiência vivida é como se fosse um fio que você vai puxando.
Vai puxando e você vai descobrindo as coisas e vai encontrando as palavras, procurando as palavras, inclusive consultando dicionários, como fazia o Manuel de Barros. Poucos leitores iriam pensar que o Manuel de Barros, com aquela naturalidade aparente, aquela simplicidade enganosa com a qual ele escreve,
Ele usaria dicionário, mas usou muito, né? Então, eu recorro também a dicionários para procurar também sentir aquele sabor da palavra. Sim, sim. Bacana demais. E essa transição aí do poeta...
quadros confessional do Bem-Aventuranças e o outro... O livro anterior, 10 poemas desesperados, bom, 10 poemas desesperados é um livro de 10 poemas sobre um riacho às margens do qual a cidade onde eu nasci, nasceu, e eu também nasci.
Então, hoje é um riacho, praticamente virou um esgoto na zona urbana. Então, eu sou muito indignado com esse fato, porque esse riacho fez parte da minha experiência da infância e do início da adolescência, porque eu e as crianças...
As pessoas da minha geração, hoje já são alguns idosos, nós frequentamos muito. Então ele fez parte das nossas vivências infantis. E como eu sou indignado, eu escrevi dez poemas desesperados. Porque eu não vejo... É um desespero, realmente é um desespero.
Aqueles poemas não são... É diferente dos poemas de bem-aventuranças, né? Sim. Os dez poemas desesperados, eles são os poemas, talvez até um tanto quanto épicos. Eu acho que eles são mais épicos do que líricos, porque eu... Em alguns poemas foram feitos a partir de fotografias, né? E também de lugares que eu conhecia. Então, são...
sobre lugares que existem, sobre pessoas, sobre o que está acontecendo ali, sobre a podridão das margens, das águas, etc. Então, eu acho que eu olhei mais para fora ali do que para dentro de mim. Então, são enfoques diferentes. Eu já disse que aqueles poemas são poemas sujos. Sim, sim. São poemas sujos.
Sem nenhum pudor eu falo de merda, de excrementos, de urina, de porcas, de esgoto. Enfim, então é um enfoque diferente. Esse Bem-Aventuranças tem uma coisa mais sublimada, uma tentativa mais de... Inclusive há alguns temas como a morte, como o sofrimento, eles são tratados aqui no livro Bem-Aventuranças.
E lá nos 10 Provaimentos Desesperados, a morte é diferente, é uma morte mais crua, né? É a morte de um ser que não é um ser humano, nem sou eu, é a morte de um ser vivo, que é um riacho também. E toda aquela coisa que envolve também, cheia de mortes, né? Não há só uma morte, não é só um riacho que morre, são memórias que morrem, né? É a cidade que morre junto também. É uma cidade que morre junto, é uma coletividade que morre junto.
Por isso talvez um aspecto mais épico mesmo, né? Eu acho que sim, eu acho que sim. Embora exista ali também o...
O eu lírico está invisível, mascarado, mas ele está por ali também. A predominância de aspectos épicos. Eu acho que sim. E você, Elietto, você acha que nesse livro, teu único livro de estreia, teu único livro de poesia até agora, você acha que a experiência tua vivida no sertão, ele tem uma presença fundamental nesse livro?
Tem, tem. Eu estava até olhando aqui, caçando poemas que denotam essa presença da nossa memória sertaneja nos poemas. E tem muita coisa. Desde a infância, no interior, eu nasci em Teresina, mas...
Fui criado no interior, para os meus avós. Voltei para a Teresina com 13 anos de idade. Então, essa lembrança do interior está muito presente em boa parte dos poemas. Então, são elas que inspiram tanto as imagens mais lúdicas, talvez, dessa criança. Porque uma alinação é uma espécie de peripécias de uma criança. Num primeiro momento, uma criança mesmo. Num segundo momento, uma criança mais alegórica, no sentido do humano.
Nós somos uma criança comparado com os anos da natureza, né? E no terceiro momento uma criança mais lúdica, mais quase metafísica, né? Você está falando das três partes? Eu estou falando das três partes do livro. As três seções do livro. Das três seções do livro, que é Malinação, As Luzes e Profecias, né? Essa terceira parte é mais ali do âmbito da profecia mesmo, do que está para além do dado, né? O poema título, por exemplo, ele é muito dessa... ...
Dessa imagem de criança mesmo. Bicho besta é menino, prega cheiro nas manhãs, rindo-se delas molhadas. Fala o lexo dos sapos, feito Deus no sexto dia. Quer desentortar os rios com a gila e cuspe cola. Põe-se em fuga de casa por buracos de minhocas. Fim de tarde, vara o céu. Qual metáfora no poema? Dorme preso nas imagens, tal como o sertão na gente. É um poema memorialista, de construção de...
de memórias ali de quem vive no interior, no mato, dessa relação com a natureza. Talvez autobiográfico. Em muita medida autobiográfico, né? E com esse sertão imaginário ali, né? Como pano de fundo, que eu acho que é o lugar do livro, assim, né? É esse sertão imaginário da perspectiva de uma criança, né? Mas a gente percebeu que há um sentido de construção, né? Sim, sim. Inclusive de intertextos ali. Você vê que tem uma dicção meio Manuel de Barros ali.
Inclusive, esse poema eu fiz numa oficina que eu estava fazendo. E o exercício da oficina era justamente um exercício inspirado no Manoel de Barro, na ideia de criança do Manoel de Barro. Então foi um poema que ficou muito feliz e deu unidade ao livro. Mas é isso, ele é um poema memorialista, em boa parte.
Ele é realista sem ser hiperrealista. Sem ser hiperrealista. Tem a construção da linguagem e das imagens também. A própria ideia da brincadeira com o poema, da imagem do sertão, do poema. Eu gostei dessa sessão, dessa primeira sessão, eu gostei também do Metafísica Cabocla. E aí podemos encontrar o rastro de você como filósofo, como professor de filosofia, por causa da palavra metafísica.
E caboclo, ela está junto aí de caboclo, então são duas palavras. O sertão encontra a Europa, né? A Europa encontra o sertão, invade o sertão. Ou talvez preferível essa última acepção sua, né? Que era a brincadeira que a gente estava falando hoje, né? Falando de teóricos alemães e tal, mas eu gosto de falar do nosso lugar, né? Acho que isso tem que aparecer, por isso que o sertão me...
Me é tão caro, assim, né? Acho o sertão, as imagens do sertão maravilhosas, né? Assim, do ponto de vista tanto do que ela nos possibilita poeticamente, mas também como lugar de fala, né? Ultimamente eu vi um texto no UOL, né? Uma edição online do UOL, falando do Milton Ratum, né?
E o texto era dizendo que embora o Milton Raton seja amazônico, né? Mas é como se ele tivesse esticado o sertão até a Amazônia, porque o sertão é um lugar de resistência, né? Todo lugar que resiste a um determinado modelo de dominação é sertão, né? Então eu achei muito legal, assim.
O deslocamento. Aliás, você falou na palavra resistência, eu me lembrei imediatamente de um ensaio maravilhoso do Alfredo Bose. Sim. Isso se intitula Poesia Resistência. Se o ouvinte quiser aprofundar esse assunto aí, desse tema da resistência, é um bom texto. Mas eu estava falando do Metafísica Cabocla, do seu poema, porque ele começa assim, noutros tempos, noutros mundos, noutras cosmologias.
quando os humanos ainda vagavam feito visagem, sussuaranas andavam nas cercanias do mar, nas serranias do mar.
Nos espelhos d'água, arraias voavam. Miragem? Vagalumes mostravam passagens, caminhos, brincavam fogueiras, salamandras e encantados, criança, cabeça de cuia, corria nos rios, às vistas de quem passava bem perto daqui, tudo junto como um sonho pagão de São Francisco. Bom, aí a gente vê lá que é Nordeste puro, né?
Mas, além desse aspecto da semântica mesmo, que remete ao Nordeste, há também, eu estou vendo aqui, esse poema do seu livro, é um dos poucos em que você faz uma experimentação, uma distribuição das palavras na página em branco. Sim, sim. Eles não estão alinhados, as margens deles não são muito bem definidas. Então, há aqui um rastrinho de experimentalismo. De concretismo.
E você se permitiu fazer isso com essa temática, né? Isso foi uma sugestão de um colega da gente com o Terranho, também poeta e agora romancista, né? O Lucas Vila, né? Eu mostrei pra ele o poema, né? E ele fez essa divisão, né? Ele disse, cara, olha nessa divisão aqui, como a leitura fica diferente. Porque a leitura, sem a distribuição, ela ficava uma leitura mais chapada, mais engessada e tal. Quando ele joga, você vê que a leitura ganha movimento, né?
E eu achei maravilhoso a sugestão, acatei de pronto, agradeci ele pela sugestão. Foi um efeito bom. Porque ele brinca, a linguagem brinca com outras metafísicas, outros tempos, a ideia de tempo, a ideia de cosmologia, então é... Por isso o título...
meio contraditório, metafísica cabocla, né? Porque é uma contraposição às cosmologias ocidentais, né? Ela é mais ligada às cosmologias nossas, né? Dos povos originais, né? O próprio Cabeça de Cuia, que é uma lenda muito específica do Piauí, enfim, é um poema muito localizado, né? Embora tenha um título bastante aberto, né? Como metafísica, né?
Mas achei muito legal a sugestão dele e eu gosto muito dessa distribuição. Eu fiz um experimento ou outro ainda nesse sentido no decorrer do texto. Acho que tem mais dois poemas que estão mais ou menos nessa brincadeira. Além dos poemas curtos, que se assemelham com Raikais, sem ser Raikais, no estrito termo. Mas olha, Elielto, a segunda parte do teu livro chama-se Luzes.
Eu não sei se esse título é uma ironia, porque nessa sessão você fala mais de guerra do que de... É uma brincadeira com o projeto das luzes da filosofia da modernidade, né? É o iluminismo, né? Cara, eu pensei nisso também, sabe? Que bom que tu pensou que era essa ideia mesmo. Por quê? Porque o projeto das luzes era isso, né? Que o ser humano ia atingir a sua maioridade racional, né? Então ia ser a superação das...
das desigualdades sociais, das guerras, da violência, porque nós seríamos sujeitos racionais, né? E a gente viu que, na realidade, a modernidade foi aprofundar tanto as desigualdades contra a violência, contra a exploração, enfim. Então, eu fiz essa... Propositalmente, tanto que o poema que dá título, né? As luzes é justamente uma espécie de porrada ali, né?
Quando você encontra, eu estava pensando, não era nem nesse, no Poema As Luzes, era no Belo Omine, um poema que você intitula em latim, que também já é outra ironia também, né? E você começa assim, queria fazer poesia com a mesma facilidade que os humanos fazem guerra. E por aí vai, né?
Então você está falando sobre a guerra, você quer fazer um poema monstruoso, selvagem, sangrento, impiedosamente violento, estúpido como todas as guerras. Parece assim, eu estava lembrando aqui de Paul Eloard, ele era não só poeta, mas também militante, político, e também refletiu muito sobre poesia. Ele também era um adepto da poesia de circunstância.
De algum jeito, parece uma circunstância da humanidade hoje, da qual você está falando. Mas aqui é um tipo de circunstância, diferente daquela circunstância casual que você se depara na rua, que é uma circunstância histórica, que para Paul Eloard era assim também. A circunstância histórica, para ele, era mais fundamental do que a circunstância casual de um encontro na rua, por exemplo, um episódio.
E aqui você está falando de uma coisa histórica, atualíssima, que são as guerras, que é a monstruosidade com a qual nós nos deparamos, as brutalidades cotidianas. Quando a circunstância que gerou esse poema foi, por exemplo, a invasão da Ucrânia pela Rússia.
E olha que isso foi há dois anos, três anos atrás, de lá pra cá, quantas guerras a gente já iniciou, né? Então é um... e não só a questão da guerra em si, como a ameaça atômica, né? Que era uma coisa que a gente tinha deixado um pouco de lado ali, né?
um pouco amortecido, mas o contexto recente reacendeu esse medo do apocalipse nuclear. Então a gente está muito mais próximo dele novamente do que teve em outros momentos, dado a loucura reinante dos nossos governantes, principalmente das potências.
Do norte global, né? Então, você vê que a promessa da modernidade, né? Não se cumpriu. Não, né? O céu na terra, né? Se a gente quiser usar termos religiosos para, né? Na realidade, tem um fundo inferno, né? Para a terra. Exatamente. Em termos econômicos e sociais, essa promessa se cumpriu para uma parcela muito pequena da humanidade. Muito pequena. Da humanidade, principalmente dos países do norte global, como você falou, que são conquistadores, que têm a riqueza, a maior parte da riqueza do mundo, né?
Nas luzes eu brinco com isso, né? As luzes, né? No canto dos olhos, a dança dos séculos. As guerras, a peste, a fome. O trem do progresso em marcha sobre os escombros dos dias, né? É isso, assim, o projeto moderno só acelerou esse...
Esse eterno retorno do mesmo. Sabe que eu estava me lembrando da Rosa do Porco de Drummond? Que ele também escreveu sobre as guerras, na época da Segunda Guerra Mundial. E eu estava pensando, raciocinando assim, você como eu somos do sertão, piauiense, mas ao mesmo tempo, principalmente nessa seção às luzes, você está muito antenado.
com o que está acontecendo no mundo global. É como se você fosse, e é naturalmente assim, uma antena da raça, como falou essa pão, o poeta é uma antena da raça. Você também capturou essa problemática que aflige a humanidade como um todo. A gente vê alguma coisa na televisão e fica perplexo com tudo aquilo que está acontecendo. Mas, cara, isso é um absurdo, é monstruoso. Sim, sim.
A arte, do modo geral, tem essa facilidade de captar o espírito do tempo, transformar ele em imagem, em linguagem. Voltando um pouco, eu tinha falado que o poeta, o escritor, do modo geral, é sempre alguém que deveria expressar o seu lugar na sua escrita, mas ele não é um sujeito que ignora o resto.
Então eu acho muito legal essa ligação entre o particular e o universal, né? Porque as grandes referências que a gente tem como descritores universais, na realidade o que eles fizeram foi elevar a particularidade dele a um caráter universal. Ele é tão particular, tão específico e tão irrepetível que ele se torna universal. Ninguém vai conseguir experienciar aquilo, mas é uma experiência do humano, né? Exatamente. Ele termina sendo uma voz coletiva. Termina sendo uma voz coletiva. Sendo uma expressão singular ao mesmo tempo.
Então acho que o nosso sertão é muito isso. Dá para a gente falar sobre o mundo, sobre o que quiser a partir do sertão, porque o sertão é uma experiência originária. Exatamente. E grandes obras, como por exemplo, o Grande Sertão Veredas. Sim. O que é o Grande Sertão Veredas se não é o sertão? E o que é a experiência do Diadorim, se não a experiência de todo ser humano? Exatamente. Uma luta constante por...
Então o sertão está ali e toda a humanidade também está presente. O Guimarães dizia que o sertão é o mundo, né? É, pronto. Bom, acho que a gente já conversou bastante, muito, né? Nós somos bons conversadores, né? Pois é, eu achei que...
Os camaradas do sertão são conversados. Eu fiz uma relação aqui por exemplo que esticava o tempo, não, né? Não tá nem na metade da relação que eu fiz. Mas muito bacana, muito bacana a conversa. Muito bacana conhecer mais o Rogério Poeta, né? Eu conheço muito bem e gosto muito do Rogério Cronista, né? E tô conhecendo mais a fundo o Rogério Poeta também, né? Conheço o Rogério Cronista, o Rogério Romacista. Enfim, outros Rogérios aí também, né? Mas essa tua experiência mais recente com a poesia é muito bacana, né? Muito...
Bacana ver a consciência que tu tem do estilo que tu tá propondo, né, do ponto de vista da poesia e do cuidado com a linguagem pra que esse estilo fique muito bem marcado, né. Então, muito bacana.
Sabe que o Delberto Barbosa Filho, ele ressaltou isso num texto que ele escreveu sobre nossos livros, né? Escreveu sobre você também, uma crítica elogiosa lá. Até fiquei todo, assim, orgulhoso. Não, mas o fato é isso. É muito bom a gente conversar sobre a poesia, sobre arte, sobre literatura, porque nosso mundo está tão carente de universos sensíveis, né? Os universos sensíveis estão sendo assim...
como que pisoteados, parece que os tratores estão passando por cima dos universos sensíveis. E o sertão é um universo sensível para a literatura e para quem mora nele também. E o próprio eu, eu estou falando porque esse livro meu é um pouco mais intimista do que os anteriores livros de poesia, o próprio eu também é um universo sensível. Então o nosso eu...
o eu de todo mundo está sendo pisoteado também pelas circunstâncias atuais. Não só atuais, nós estamos recebendo uma herança que não é nova, uma herança antiga. Talvez alguns processos estejam mais intensos. É verdade. Então, a mim e a você também, porque eu acho que você, com o seu livro Malinação, você...
Não só teve a coragem de explorar um tema, que já foi explorado por tanta gente, o sertão, isso de forma poética, como também realizou a construção linguística lá nos poemas. Foi um desafio muito grande. Acho que a função nossa é essa, a função do poeta, do escritor, é fazer linguagem. É fazer linguagem porque...
A humanidade também precisa que alguém fale alguma coisa que ela aparentemente não está dando conta, ela está um pouco alienada de algo. Então, acho que a função da linguagem poética é também essa. Hoje, acho que mais do que nunca, o papel do poeta é muito mais necessário.
O papel do cantor. Eu fiz uma brincadeira no poema de abertura, uma espécie de texto sobre a função do poeta. Eu falei que a função do poeta é insistir com a beleza à beira do abismo. Porque é meio isso, esse contexto está dizendo que a gente vive num mundo extremamente feio, violento, que não é uma realidade nova, mas que é uma realidade que está muito presente.
E os meios de comunicação lembram a gente toda hora, a gente é bombardeado toda hora com isso. Você liga a televisão, está lá, guerra, guerra, guerra, guerra. Então a poesia, a literatura, a música, enfim, as artes em geral, tem um papel muito importante nesse momento de lembrar a gente que a gente não é só isso, a gente é também beleza. Eu posso assinar esse poema também? Pode, se deve.
Porque é isso, né? Meu ofício, teimar com a beleza à beira do abismo. Pronto. Estamos teimando com a beleza. É isso, então. Nós somos teimosos. Somos teimosos. E resistentes.
Obrigado aos ouvintes, obrigado ao Rogério, obrigado a Yara pelo convite. E é isso, um abraço a todos e a todas. Abração Yara, abração aos ouvintes que resistiram até agora. E uma rádio assim, colocar na sua programação esse tipo de tema, essa matéria é fundamental também. Valeu, grande abraço.
Muito bem, e teimando com a beleza e a poesia, a gente fica por aqui com o livro Uma Conversa de hoje. A gente deixa o nosso obrigado para os escritores José Lielton de Souza e Rogério Newton e um desejo de ainda mais sucesso em sua produção literária. Este programa é um produto da rádio Paraíba FM 103.9, um emissor da EPC, empresa paraibana de comunicação.
diretora-presidente Naná Garcês, diretor de rádio e TV Rui Leitão, gerente de rádio e difusão Berlim Carvalho, gerente executivo de conteúdos e programação André Canané. Você acabou de ouvir Um Livro, Uma Conversa. Literatura em Altos Papos. Até o próximo programa!