EP#62 - UM LIVRO, UMA CONVERSA - SABRINA MELO E MADALENA ZACCARA
Sabrina Melo e Madalena Zaccara são professoras do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (UFPE/UFPB) e coautoras do livro “Mulheres que resistem nas margens: Arte e gênero na Paraíba”. O processo de escrita da obra é o tema do episódio de hoje.
Dedicado à literatura, o programa “Um livro, uma conversa” vai ao ar hoje terça-feira, às 18h, na Parahyba FM 103.9.
FICHA TÉCNICA
Data de Veiculação: 05/05/2026
Produção: Xavana Celesnah
Edição de áudio: Ivson Lira
Este programa é um produto da Rádio Parahyba FM, emissora da Empresa Paraibana de Comunicação.
- Militância e presença femininaArte e gênero na Paraíba · História da arte e a exclusão feminina · Linda Nocklin e a questão das grandes artistas · Acesso à formação artística para mulheres · O cânone da historiografia da arte
- Mulheres na HistóriaMulheres artistas apagadas na história mundial · A abordagem das margens e a resistência feminina · O espaço androcêntrico das artes visuais · A agência das mulheres na historiografia da arte · O questionamento do cânone da historiografia da arte no Brasil
- Amelinha TeorgaPioneira nas artes visuais na Paraíba · Formação autodidata e falta de acesso à educação formal · Ateliê ativo e venda de quadros · Paisagista do mar e temas marítimos · Abandono da carreira artística após casamento
- Elie Bessa e a Arte EcológicaPioneirismo na discussão arte e ecologia · Denúncia da caça predatória às baleias · Denúncia do desmatamento e monocultura da cana-de-açúcar · Acervo de obras doado à Pinacoteca da UFPB · Exposição "Impressões contra o Fim"
- Desafios de Pesquisa em JEPAFalta de recursos financeiros e apoio público · Dificuldade de acesso à documentação e fontes · Importância do trabalho coletivo e voluntário · Apoio do SESC no lançamento do livro · Disponibilização do e-book gratuito
- Colonialismo e ImperialismoColonialidade como modelo de poder e domínio · Imposição cultural e de gênero · Colonização artística · Perspectiva de gênero na história regional
Programa não recomendado para menores de 10 anos. Está entrando no ar um livro, uma conversa. Literatura em altos papos. Pegue seu café e acompanhe o encontro entre dois escritores convidados. Música
Saudações aos ouvintes da Paraíba FM. A gente vai ouvir agora o programa Um Livro, Uma Conversa com as pesquisadoras Madalena Zácara e Sabrina Mello. Elas vão falar sobre a pesquisa bibliográfica e os bastidores da concepção do livro Mulheres que Resistem nas Margens, Arte e Gênero na Paraíba, que foi resultado de uma pesquisa coordenada por elas. Bora ouvir!
Bom, meu nome é Madalena Zácara, eu sou professora do programa de pós-graduação em Artes Visuais, UFPE, UFPB. Sou aposentada da Universidade Federal de Pernambuco, tenho graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Pernambuco, doutorado pela Universidade de Toulouse II.
Pós-doutorado são vários. Eu posso citar a Universidade de Porto agora e a Sorbonne em Paris. Eu queria que a minha amiga que está aqui junto e minha parceira nesse livro que a gente veio trazer aqui se apresentasse. E depois a gente vai falar sobre Mulheres que Resistem nas Margens. Arte e Gênero na Paraíba, que é a nossa publicação.
que saiu em e-book e com alguns exemplares editados em papel. Sabrina. Eu sou Sabrina Mello e junto com a minha colega aqui, Madalena, nós somos autoras do livro. Eu sou graduada em História, tenho doutorado e mestrado também na área, com ênfase em História da Arte, e tenho graduação também no campo da museologia.
Atualmente eu sou professora no curso de artes visuais da UFPB e também sou professora no PPGave UFPB UFPE, que é o lugar que foi esse lugar de encontro com a colega Madalena, onde a gente começou a pensar e a desenvolver essa pesquisa.
Pois é, e essa pesquisa que durou em torno de três anos envolvendo alunos do programa de pós-graduação e da graduação, visou principalmente enfatizar o olhar.
sobre, não só sobre a mulher que é apagada dentro da história da arte mundial, que foi o que mais recentemente, não tanto, as pessoas estão se voltando, as historiadoras da arte, principalmente as feministas, se voltam para recuperar a história delas, mas as mulheres...
Esse olhar que se volte também para fora dos eixos hegemônicos. Ou seja, nós estamos aqui na Paraíba, nesse minuto, falando sobre, não só no livro, mas aqui, sobre as mulheres que são esquecidas em todos os domínios, mas a nossa especialidade, história da arte, não é? E é essa abordagem.
que nós damos das margens, mulheres que resistem, porque trata-se de uma forma de resistência, não só escrever sobre elas, mas a ação de estar envolvida com artes visuais num espaço dominado por homens.
É um espaço extremamente androcêntrico, masculino, do senso estrito mesmo da coisa. Sabrina, você gostaria de acrescentar? Sim, essa ideia das margens surge justamente desse lugar de afastamento mesmo dessa narrativa hegemônica sobre a história da arte. E nós, como professoras, tanto da graduação como da pós-graduação,
A gente percebe essa lacuna na historiografia, como a Madalena colocou mundial, mas isso já vem sendo questionado pelas pesquisas feministas. E aí a gente pode citar, por exemplo, a Linda Nocklin, que depois a Madalena pode falar mais um pouquinho, que no final da década de 70, 80, publicou um texto Por que não houve grandes mulheres artistas? E aí essa pergunta vai, na verdade é uma pergunta retórica que vai apontar.
Sempre existiram mulheres artistas. A questão é, elas não estavam, não estão inseridas na história da arte, né? E não basta também a gente falar de inserção. Eu acho que é muito mais interessante a gente pensar também em reconstruir a forma com que a história é pesquisada, narrada, desenvolvida, né? Então, a gente não pensa nessa ideia de inclusão, mas sim de perceber.
na verdade, a agência dessas mulheres na historiografia da arte, não só na Paraíba, mas num contexto nacional também, porque esse número de perfis que nós trazemos, essas mulheres transitaram também.
não só aqui na Paraíba, mas nacionalmente, internacionalmente. Então, é essa ideia mesmo de questionar um cânone da historiografia da arte no Brasil. Muito bem. Voltando à Linda Nocklin, ela traz a primeira jornalista, talvez não a primeira, mas a primeira que fica registrada. Ela se questiona por que não houve grandes mulheres artistas.
Isso foi um momento que, de repente, abriu o espaço internacional, o mainstream principalmente, para esse questionamento. Por quê? Não, na verdade, existiram sim. Isso provocou um grande debate mundial que persiste até hoje. Já não.
questionando o existir ou não, mas levantando essas mulheres apagadas, quer dizer, identificando quem foram, trabalhando sobre as mais diversas formas de pesquisa quando se trata das mulheres, porque elas foram apagadas na história, não só no sentido dos nomes, mas a elas foi negada a própria.
educação artística, a formação profissional. É importante, por exemplo, lembrar aqui que internacionalmente, que é de onde desponta esse questionamento, é importante lembrar que o maior centro hegemônico, Paris,
Só abriu as portas, na época, só abriu as portas para as mulheres, para a entrada das mulheres, em 1892, no fim do século XIX. E abriu principalmente para as mulheres irem à biblioteca, depois elas começaram a assistir a aulas de ateliê, mas nunca com o nu. O nu era proibido o que deixava.
essas mesmas mulheres fora do mercado de trabalho, uma vez que nós estávamos em penneoclassicismo, onde a anatomia era extremamente importante. Quer dizer, estudar o nu, sob todas as formas, a perfeição do corpo era condição sine qua non. Então...
A partir dessa falta de oportunidade de formação, dentro do eixo mais hegemônico, dá para se imaginar como acontecia nos demais espaços. Se a gente pensar, por exemplo, aqui no Nordeste, que é de onde a gente trabalha, eu acho que já é tempo de a gente pensar, de enviar informações do Nordeste para o mundo.
que é das margens do sangue ao ar, onde nós estamos para o mundo.
É importante que a gente pense que na Paraíba também algumas mulheres trabalharam. Elas que estavam na Grécia, não, nós não temos os trabalhos, mas temos a literatura sobre os grandes pintores e temos algumas mulheres citadas. Nos mosteiros medievais, onde sempre pensamos em termos de...
monges copistas, monges que faziam iluminuras, e nunca mulheres que também competiam com as iluminuras, que faziam profissionalmente. Na Renascença, que durante muito tempo...
Pouco se falou só de Sofonis Anguissola e muito poucas outras, mas que já existiam mulheres, principalmente, trabalhando nos ateliês dos irmãos e dos pais, certo? Porque era o único espaço permitido. No barroco, que nos chega sempre o exemplo da Artemisia Gentilesse, cujo perfil foi levantado por um homem, na verdade, e que durante muito tempo o seu trabalho foi confundido com Caravaggio, que era...
pai, era mestre do seu pai, Horácio Gentilesse, no século XIX, nas vanguardas do século XX, na nossa contemporaneidade, se falando de contemporaneidade, pediria a Sabrina para falar um pouco sobre a Melinha Teorga.
Aqui na Paraíba, o significado de uma mulher que foi, digamos assim, chegou, foi pioneira nas artes visuais daqui. E é importante também a gente perceber, né? Madalena citou aqui diferentes períodos históricos que tivemos essa participação ativa das mulheres.
mas que essa participação é silenciada. Então, por exemplo, se a gente for dar uma olhada no livro do Gombrich, História da Arte, que é um dos livros mais vendidos de história da arte no mundo, e é o principal livro utilizado nos currículos de artes visuais, a gente percebe que não tem nenhuma mulher citada nesse livro. Quando a gente volta, por exemplo, para o livro de Vassari, que foi publicado em 1550,
Tem três ou quatro mulheres, mas sempre citadas nesse campo do exótico, de algo que foge da ideia de gênio. E é essa categoria que a Linda Nocklin também vai discutir no seu texto. Essa ideia de gênio, de genialidade, ela sempre esteve atrelada ao masculino. E a gente percebe, a Linda Nocklin vai colocar também que...
Essa ideia da genialidade é apartada da figura feminina justamente por essa falta de acesso à formação que as mulheres tinham. Então, essa ideia do acesso, onde as mulheres iriam se formar, como elas conseguiriam ter esse estudo no campo das artes visuais.
E aqui na Paraíba, a educação artística era considerada quase nula, de acordo com o estudo do professor historiador Gabriel Bechara, que faz um apanhado geral da educação artística aqui na Paraíba.
Tinha alguns lugares, como por exemplo a escola Nossa Senhora das Neves, onde a Amelinha estudou, que tinha aulas de pintura. A Confederação Católica, onde aconteciam algumas exposições, inclusive foi um dos espaços.
que a Amelinha Teorga expôs, né? E a Amelinha foi uma dessas mulheres que foi ativa na década de 20. Ela teve uma formação autodidata. E em vários jornais que nós pesquisamos, consta que vários críticos da época fizeram...
como se fosse uma campanha mesmo para que a Melinha tivesse acesso a essa formação artística. Um pedido para que ela fosse para o Rio de Janeiro, que se ela tivesse formação, certamente ela alcançaria um outro patamar no campo das artes visuais aqui no Estado. E é muito presente também nas críticas que colocam a Melinha como uma artista por vocação.
ou seja, autodidata, sem uma formação específica. Mas mesmo diante de todos esses percalços, de todos esses impedimentos que ela teve para acessar uma educação formal no campo das artes visuais, ela manteve um ateliê ativo, o que é um feito para uma mulher na década de 20. Então, ela vendia os seus quadros. Tem um artigo que nós...
Pesquisamos na revista Era Nova, que é da jornalista Wanda Novaes. Pesquisou e visitou o ateliê da Amelinha Teorga e ela faz uma descrição muito minuciosa das paletas de tinta, dos cavaletes, de como acontecia esse processo criativo da Amelinha Teorga.
E ela realizou várias exposições individuais e também exposições coletivas. E ela ficou conhecida como a paisagista do mar. Então, ela tinha esse tema marítimo muito presente nas suas obras, retratou a barreira de Cabo Branco, Mamanguape também. Mas nós percebemos que, apesar dessa grande visibilidade que ela teve na década de 20, ali nesse período do modernismo,
Depois que ela se casou, ela saiu desse eixo. Então, no nome dela, simplesmente desaparece dos jornais. Ela não fez mais nenhuma exposição, demonstrando também que esse espaço doméstico e essa divisão entre o trabalho e a profissão para as mulheres artistas é algo também que influencia. E aí eu posso citar, por exemplo, aquele livro.
da Virginia Woolf, que é um teto seu, onde ela vai falar das mulheres escritoras, no caso, mas a gente pode trazer também para as mulheres artistas, essa falta de um teto seu, de um ambiente de trabalho que seja desvinculado do ambiente doméstico. E aí com a Melinha a gente percebe que após o casamento e ser mãe, ela acabou deixando a carreira artística e nós não tivemos mais notícias.
nos jornais, mas é uma pesquisa que a gente precisa ainda aprofundar. Mas para quem se interessar, nós já temos um artigo que a gente trata especificamente do caso da Melinha Teorga aqui na Paraíba. Eu acho que é uma artista extremamente importante para a nossa história.
É verdade, o artigo saiu na Ampap, saiu também no ambiente de leitura Carlos Romero, retomando a história aqui da não profissionalização da mulher, e não só na Paraíba, mas é uma coisa internacional, foi um acontecimento internacional.
É quando ela, em todas as exposições, enquanto os iniciantes homens eram chamados de amadoras, as mulheres, já com muito tempo de trabalho, bem profissionalizadas, continuavam a sair nos catálogos com o nome de amadoras.
É importante também que a estratificação social no que diz respeito à profissionalização das mulheres era imensa, porque no mundo onde o foco, onde tudo acontecia a partir do fim do século XIX, o impressionismo.
em Paris, como das margens uma mulher poderia chegar ao que foi chamado de Ecole de Paris, que a Ecole de Paris não é uma escola, mas um momento mundial onde todos ocorriam a Paris em busca de novidades, em busca do que estava acontecendo de novo, e formaram as vanguardas históricas, enfim.
Para os homens era difícil, para as mulheres, por exemplo, a gente vê no século XIX aqui na Paraíba, Pedro Américo sai e vai para Paris. Foi extremamente difícil, foi preciso toda uma ajuda do governador, sai Albuquerque daqui depois, do próprio Dom Pedro II.
e para ele chegar ao Colégio Pedro II e depois de lá à Ecole de Beaux-Arts, em Paris. Isso para um menino era extremamente difícil. Imagina a situação de uma menina. Era a questão da família, principalmente, que quando ela tinha posse, a gente vê isso, por exemplo, no estado vizinho, em Pernambuco, o caso da Fedora do Rigo Monteiro.
que vai estudar no Rio primeiro, que era o grande centro do Brasil, e depois vai estudar em Paris, saindo de Recife, mas por uma questão de fazer parte de um extrato social X. Outras artistas que vão com as bolsas, que raramente chegavam para as mulheres, elas afirmam não ter sequer dinheiro para pagar o aluguel lá.
Dava uma extrema insegurança à dificuldade de ganhar a bolsa e à dificuldade de se manter com essa bolsa. Depois, logo em seguida, quando elas chegam, conseguem entrar para a academia.
nós vemos que a modernidade chega e o lugar de encontro já não são mais os salões da academia, já não é mais as escolas, mas são os bares, as ruas, as trocas são feitas dessa maneira.
Aqui na Paraíba, aqui no Nordeste, as mulheres raramente conseguiam ir às ruas sós. Então, realmente, a situação da Amelinha e das mulheres que a seguem aqui foi extremamente difícil. Você vê, na época, logo no início...
pouquíssimos conseguiam ter qualquer tipo de formação técnica, de ter acesso à própria bibliografia. Pouquíssimo aqui no Nordeste, aqui no Brasil, eu lembro de uma piada, que não é uma piada, na verdade é uma brague, onde ele diz, onde se diz que no ateliê coletivo em Recife, dos anos 50.
se começa a fazer pintura mural no estilo mexicano, muito porque foi encontrado na casa de um membro um livro que tinha virado candelabro. Estava escorando uma porta, um livro de artes, sobre o muralismo mexicano. Então, era raro a informação, as imagens.
Hoje nós estamos aí na internet, é difícil até a gente imaginar isso. Mas quando eu comecei a ensinar na Universidade Federal de Pernambuco, eu lembro que nós tínhamos como imagem, inicialmente se passava o livro que a gente tinha conseguido para os alunos terem ideia de uma imagem.
E depois, nós tínhamos uns slides que alguém tinha ido para a Europa e tinha doado, que eu dizia, gente, pense no Roma depois do incêndio, porque eram todos vermelhos. Então, era extremamente difícil o ensino, a informação, nesse momento aqui. Então, para essas pioneiras, era realmente...
muito mais complicado. Então, é importante que a gente pense que desde a antiguidade a mulher era considerada imperfeita por natureza, impotente, como as crianças ou os escravos. O papel de liderança e poder sempre coube ao homem e ao feminino restou...
o único, o da reprodução. Tornou-se, portanto, natural a exclusão da mulher no terreno público e de toda a sua atividade, com raras exceções. Dessa maneira, foi destinada à invisibilidade, ao anonimato, ao espaço do lar. É o que a gente mostra também nesse livro, não só em relação às artes visuais.
Sim, no livro a gente quer focar também justamente nessa perspectiva da resistência mesmo, que mesmo diante de tantos empecilhos, as mulheres atuaram, foram ativas nos diferentes períodos da história, e aqui na Paraíba não foi diferente. Citamos, por exemplo, esse exemplo, essa trajetória, parte da trajetória da Amelinha Teorga, mas no nosso livro a gente coloca outras artistas.
E esse espaço de formação vai sendo ampliado com a criação da UFPB, da Universidade Federal da Paraíba. Inicialmente, não se tinha o curso de artes visuais nem de educação artística.
mas eram oferecidos cursos de extensão de gravura, de pintura, de desenho, e só depois foi criado o curso de educação artística. Então, a COEX foi muito importante na formação de uma geração de artistas mulheres na Paraíba.
Dentre elas, a gente pode citar a Elie Bessa, a Marlene Almeida, elas foram colegas nesses cursos, onde Tereza Carmen foi professora, tivemos outras, Laís Aderne também foi professora nesses cursos. Então foi muito importante nessa formação de geração de artistas. E aí eu cito uma mulher muito interessante que surgiu na nossa pesquisa, que é a Elie Bessa. Nós tínhamos apenas...
uma obra dela no acervo da Pinacoteca da UFPB. E essa obra foi um ponto de partida para a gente começar uma investigação. Nós percebemos que ela foi uma mulher muito ativa na década de 60 e 70.
mas não tínhamos nenhuma informação sobre ela. E aí descobrimos, então, que ela foi parceira de Marlene Almeida, que sai das margens e hoje está numa Bienal, na Bienal de São Paulo, representando a Paraíba. E, a partir desses vestígios, fomos para procurar as irmãs franciscanas de Lingen, que é a ordem religiosa que a Elibessa fez parte. E aí, conversando com as irmãs,
Elas nos contaram que o acervo dessa artista estava no galpão das freiras, né? Ela faleceu, esse ano é o centenário, inclusive, de Alibessa, e todas as suas obras estavam lá. E aí, nesse processo de pesquisa, a gente conseguiu uma doação de mais de 200 obras, entre gravuras, pinturas, cadernos, para a Pinacoteca da UFPB.
Então, a partir da pesquisa, a gente ampliou esse acervo da Pinacoteca e hoje o fundo L. Bessa é o maior fundo de artistas, seja homens ou mulheres, e a gente conseguiu também trabalhar com essa ideia de uma disparidade dos acervos, né? Onde esses acervos da Paraíba, não é uma especificidade da Paraíba.
Mas a maioria dos artistas são homens. Mas quando nós vamos perceber os temas, a maioria são nus femininos. Então tem esse paradoxo, né? A mulher aparecendo com o corpo, com o nu, mas poucas mulheres artistas, autoras, né?
Então, eu queria só falar um pouco da LBESA, que eu acho que foi muito importante para a nossa pesquisa, porque isso se desdobrou também na materialidade de um acervo que estava perdido, encaixotado num galpão, e a gente consegue trazer esse acervo para a universidade, tornando esse acervo público. Trabalhamos também com projetos de extensão para fazer higienização, pequenos reparos dessas obras.
E realizamos, no ano passado, a exposição Impressões contra o Fim, que foi uma exposição individual da L. Bessa, a partir dessas obras. E aí nós optamos por um recorte também ambiental. Isso é muito interessante a gente discutir também, porque tanto a L. Bessa como Marlene Almeida foram pioneiras nessa discussão entre arte.
e ecologia na Paraíba. Então, na década de 70 e 80, era um momento em que a gente não falava de ecologia como hoje. Hoje, a ecologia é um dos temas mais abordados por jovens artistas contemporâneos. Mas, olhando para esse período da década de 70, Marlene e Ellie foram pioneiras nessa abordagem.
A Elle foi muito importante para a luta também do fim das caças às baleias em Lucena. Então, a gente trabalhou também com uma série dela, onde ela vai discutir e vai denunciar essa caça predatória das baleias. Vai falar também do desmatamento do interior a partir daquele programa do Proálcool.
que vai institucionalizar mesmo a monocultura da cana-de-açúcar. E aí, pensando nessa questão da ecologia, depois a gente pode voltar, eu acho que para falar um pouquinho de Marlene, a gente chega em artistas contemporâneas da Paraíba que trabalham hoje com esse tema ecológico também muito forte.
Aí eu cito a Yasmin Formiga, que é uma jovem artista que se formou na Universidade Federal da Paraíba. No ano passado foi indicada ao Prêmio Pipa e ficou dentre uma das finalistas. E ela luta justamente pela preservação do bioma da caatinga, que é um bioma exclusivamente brasileiro, lutando também pelo fim dessa depredação.
desse bioma a partir das eólicas. Então, ela traz uma denúncia muito importante também, assim como o Hélio com as baleias, Marlene trabalhando com os pigmentos da terra e muito próxima também da militância com os camponeses e chegando agora nessa nova geração de artistas paraibanas, como Yasmin Formiga, que trazem arte, militância e política de uma maneira muito consciente e muito ética.
E é importante que a gente lembre aqui, pode até retomar, mas que nós conseguimos nessa pesquisa, que como eu disse anteriormente, durou cerca de três anos com a participação de alunos e alunas.
da universidade, de uma maneira geral, que nós levantamos 94 mulheres, 94 artistas, em perfis que não só são citações, são uma biografia.
reduzida naturalmente, é o espaço de um livro. Depois nós temos uma fortuna crítica, ou seja, onde se falou sobre ela, uma obra comentada e uma bibliografia sobre a artista.
Lembrando sempre que nós não vamos parar, não é o fim. Nós vamos continuar a pesquisa sobre as mulheres, não só da Paraíba. Já foi feito e também vai continuar em Recife.
no livro anterior que foi publicado. Mas o importante é colocar que em história da arte, a história da arte é dinâmica. Então, outras historiadoras jovens vão chegar e vão continuar esse trabalho, quer de forma individual, trabalhando sobre uma dessas artistas.
que é contribuindo para um novo horizonte de artistas a serem lembradas. Enfatizando que mesmo hoje, aqui e agora, acontecem fatos que parecem piada, parecem brincadeira, mas que são infelizmente verdade. Quando você vê pessoas que eu convivi, artistas que eu convivi,
que no dia do seu falecimento, no dia posterior ao seu falecimento, toda a sua obra foi jogada literalmente ao lixo, dada a pouca importância que nós damos a essas artistas. Então, mulheres...
a arte de uma maneira geral. As artistas mulheres, como em todos os aspectos, sempre colocadas num lugar na sombra, de onde elas raramente conseguem atingir a luz. É importante também que se ressalte o olhar decolonial que nós trazemos com esse livro. Ou seja, eu queria só ler um trechinho aqui sobre a colonialidade.
É porque a gente fala muito do decolonial e raramente a gente associa o gênero, muito mais a geografia, a cultura de uma maneira geral, mas não o gênero. Mas a colonialidade é um modelo de poder, é uma maneira de manter o domínio de um conhecimento sobre o outro, de uma cultura sobre a outra, de um gênero sobre o outro.
de um corpo sobre o outro. Ela transcende os limites da colonização imposta pelas armas e se perpetua como uma forma de imposição cultural, operando de maneira objetiva em algumas culturas e subjetiva em outras. E é isso que a gente vê essa forma de colonização de gênero, no nosso caso, pesquisando em relação à colonização artística.
no dia a dia e historicamente falando também. Sim, e falando um pouco também dessa metodologia e desses aportes teóricos, foi um livro feito a muitas mãos, como a Madalena colocou. Tivemos o apoio das bolsistas de iniciação científica, as bolsistas de extensão, alunos também, alunas do programa de pós-graduação.
E nesse trajeto enfrentamos algumas dificuldades, como a Madalena colocou, em relação à documentação dessas mulheres. E falando um pouco das fontes, nós começamos uma pesquisa digital na hemeroteca, fizemos um levantamento de recortes de jornais, entrevistas, fizemos um levantamento inicial também em catálogos, de exposição.
em acervos públicos e privados. Fizemos várias entrevistas também com as artistas, com familiares dessas artistas. Fizemos uma revisão bibliográfica e também para alcançar um número maior de mulheres artistas contemporâneas e não ficar muito, não só centrado aqui em João Pessoa, mas o nosso objetivo também é atingir.
alcançar essas mulheres produtoras, artistas que estão no interior, que não estão nos centros. Então nós criamos um questionário que foi divulgado no nosso perfil do Instagram, inclusive eu convido vocês a seguirem o nosso perfil, que é arroba mulheresartistasnappb, e nesse perfil...
Além do livro digital, que é gratuito, nós colocamos os eventos que nós fazemos a partir dessa pesquisa. Então, nesse perfil, nós colocamos um questionário, onde as mulheres artistas poderiam responder, falando as suas linguagens, das suas trajetórias. E foi uma surpresa, porque nós recebemos muitas respostas, e não só do campo das artes visuais.
mas de mulheres cineastas, de mulheres que trabalham com poesia, de mulheres que trabalham com teatro, com a dança, percebendo que há mesmo essa lacuna não só no campo das artes visuais, mas no campo das artes como um todo. Então, é necessário...
que essa pesquisa continue e que ela seja aprofundada. E aí eu queria citar uma pesquisa do Bruno Moreschi, que ele fez um levantamento dos principais livros que nós adotamos nos cursos de artes visuais no Brasil.
E do total de 2.443 artistas citados, 8.8 desses artistas, ou seja, apenas 215, são mulheres. E aí a gente pode se perguntar, e mulheres artistas do Nordeste, ou que atuam no Nordeste, na história da arte do Brasil, como é essa presença?
E é importante, foi um olhar também que a gente direcionou, foi também para os acervos de arte que nós temos na Paraíba. E com isso eu faço um parêntese, porque muitas pessoas dizem, nós não temos museus na Paraíba, ou nós não temos museus de arte na Paraíba, mas nós temos sim museus de arte na Paraíba, nós temos acervos de arte muito importantes, como a Pinacoteca da UFPB.
o acervo do NAC, só dizendo alguns aqui em João Pessoa, e nós fizemos um breve levantamento na Pinacoteca da UFPB, e no período que nós iniciamos a pesquisa, apenas 7,6% das obras reunidas nesse acervo eram obras produzidas por mulheres. E como eu citei anteriormente, isso mudou um pouco, mudou bastante, na verdade, com a inserção de mais de 200 obras. Né?
da artista Elie Bessa, nascida em Esperança. E muitas pessoas nos perguntam, muitas mulheres ficaram de fora? E sim, ficaram de fora, porque toda pesquisa é um recorte metodológico, e nós tivemos que adotar alguns critérios para esse primeiro livro. Então, o critério foi ter participado de uma exposição.
coletivo, individual, então nós não focamos apenas em mulheres nascidas aqui na Paraíba, mas mulheres que atuaram aqui. Então, muitas mulheres, infelizmente, ficaram de fora, mas como a Madalena colocou, é uma pesquisa que ela precisa continuar, né? Nenhuma pesquisa tem um fim em si mesma, na verdade, isso foi um ponto de partida.
A pesquisa continua em aberto, tem muitas artistas com trajetórias incríveis e importantes que precisam ser pesquisadas. E nós continuamos com esse banco e tentando atualizar a pesquisa daqui para frente. Então, acho que isso também é um convite para os pesquisadores, pesquisadoras, tanto do campo das artes visuais como da história, de aprofundar mesmo na trajetória dessas mulheres artistas.
E eu acho também, Madag, que seria importante a gente falar um pouco dos coletivos, de como eles são importantes também para o fortalecimento dessas mulheres. Nós tivemos a presença da Célia Gondim, que é uma artista naif do coletivo Mulheres Artistas Naif, que também os coletivos têm essa força e essa representatividade política e de sororidade que são essenciais para que as mulheres resistam conjuntamente na história da arte.
Eu queria aproveitar o momento que a gente expôs aqui o que fez, como fez, para lembrar um aspecto que normalmente a gente não presta atenção, principalmente aqui em João Pessoa, é a ausência de recursos que nós tivemos. Nós tivemos o apoio da universidade e do programa, principalmente através do programa de pós-graduação.
Mas um apoio realmente frágil, no sentido financeiro que eu estou falando, no sentido de apoio, de incentivo, não, de estamos com vocês, tudo bem. Mas da capa à pesquisa foi em si mesmo. Nós tivemos uma bolsista, nós tivemos as meninas que trabalharam realmente por amor.
Nós também, todo mundo voluntário, e isso acontece bastante. Nesse ponto, nós estamos, João Pessoa, em desvantagem em relação a Recife, onde o Fundo Cultura supre muito bem esse...
Essa demanda de pesquisas, principalmente pesquisas regionais, de quem está trabalhando com as margens, de quem está trabalhando não com os eixos hegemônicos. Então, aqui, realmente, o apoio...
É mínimo, é mínimo. Normalmente é a rejeição ou o desconhecimento ou a indiferença. Então seria muito importante que quem vá competir, as autoridades competentes, que prestassem mais atenção à ciência, porque trata-se de ciência.
A pesquisa no que diz respeito ao humanismo, às artes, é que colocassem mais recursos, desse mais apoio para que isso pudesse ser feito mais frequentemente.
da maneira que nós fizemos. Inclusive, os resultados em termos de livro, mesmo resultado final, que poderia ser um livro bem mais interessante, é um registro da nossa produção feminina, da nossa cultura. Nós tivemos...
Muito pouca ajuda para a sua produção. Poxa, uma edição limitadíssima, que esgotou-se, de onde se conclui que, na verdade, tem todo um mercado, tem toda uma ânsia por esse livro. Nós editamos, nós disponibilizamos o e-book.
porque a proposta é que quanto mais pessoas pudessem ter acesso, melhor. Mas nós fizemos uma edição limitada, mas não tão limitada assim, e nós não temos mais nenhum exemplar.
Então, existe não só vontade de aprender, como um mercado. Mas a gente não contou com nenhuma editora local interessada, claro, profissionalmente sim, mas eu estou falando que tivesse incentivado nenhum órgão.
público que desse qualquer forma de ajuda, a não ser, e é bom destacar quando a gente diz que não, no lançamento nós tivemos o apoio do SESC, que foi extremamente generoso, eficaz. Eu quero destacar aqui a ajuda do Paulo para os íntimos, Paulão.
que foi de uma gentileza imensa a figura do presidente do Sesc, que nos ajudou muito no lançamento do livro. Mas eu estou falando não do lançamento do produto pronto, mas do desenvolvimento, principalmente, porque uma pesquisa não é feita em um dia.
Nem em dois dias. Nós tivemos três anos de pesquisadoras trabalhando, tirando o tempo da universidade, o tempo de lazer para gerar um produto que vai, espero que já está sendo útil, para a cidade.
para a região, para o Brasil e de forma internacional. Uma das nossas apresentadoras, por exemplo, é Patrícia, da Argentina. Então, a Patrícia, quero registrar também o apoio, também no sentido da exposição, porque nós procuramos locais para expor algumas artistas daqui.
e alguns foram mesmo prometidos, mas no fim não funcionou. Eu quero registrar o apoio da Galeria Gamela, um espaço também particular, quer dizer, um espaço privado. Então, é o momento de reivindicar também o apoio público.
Porque fora a universidade, que com o minguado dinheirinho que nos chega como verba destinado, pouquíssimo destinado à publicação.
nos deu a condição de editar o e-book, mas não a pesquisa. A pesquisa foi por conta própria, foi particular, foi com os nossos salários da universidade, mas foi principalmente...
com muita boa vontade, com muita vontade de passar esse conhecimento. E nós não queremos parar por aí, não só um assunto. E tem outros pesquisadores que devem continuar. Então, eu acho que o poder público deveria investir, lançar mais editais ou investir mais em trabalhos que demandem uma pesquisa concreta.
Sim, uma pesquisa acadêmica, né? E que isso possa circular também para os diferentes públicos e, por isso, nós deixamos o e-book gratuito, né? Pensando também nessas novas leis que incidem também sobre a educação, dessa obrigatoriedade também do estudo de gênero nas escolas e nos currículos. Então, acredito que o livro também é uma contribuição para a gente pensar na história regional a partir de uma perspectiva de gênero.
E também pensar na formação de professores, os professores do Estado, da nossa região, com que material eles vão acessar essas histórias, essas memórias e essas trajetórias. Então, acredito que é necessário mesmo mais apoio, porque realmente nós contamos muito com...
com esse trabalho coletivo mesmo e voluntário. E eu reforço também o apoio da Galeria Gamela em ceder esse espaço, em oferecer parte do seu acervo para compor a exposição e agradeço também a cada uma das artistas que levaram as suas obras para essa exposição. Aí é isso.
Eu acredito que nós conseguimos dizer aqui as várias etapas pelas quais nós passamos, pesquisa, dizer, falar um pouco, é impossível falar tudo, mas falar um pouco sobre a etapa da pesquisa, a pesquisa bibliográfica, a pesquisa que não começa em João Pessoa, que começa...
em âmbito internacional, para saber o que aconteceu em relação às mulheres no mundo e cronologicamente, em que momento também. E depois, chegou aqui ao regional.
os vários momentos em como ela transcorreu, da pesquisa, a redação, a diagramação, a confecção de capa, em síntese, até chegar ao produto final que nós disponibilizamos para você, esperando que se concretize o sonho de uma promessa.
de talvez uma segunda edição que já se anuncia, mas principalmente felizes. Eu me sinto muito feliz de ter, e acho que Sabrina também, de a gente ter começado.
Ter passado por exposições, por entrevistas, por encontro com mulheres de todas as idades e momentos, nas casas, nos locais de exposição e tudo mais. E finalmente chegar a alguma coisa concreta que a gente pode dizer. Não é o fim, mas é um começo.
Sim, então a gente está muito feliz, eu, Madalena, todas as pesquisadoras envolvidas e as artistas também que dão esse feedback para a gente. Quero agradecer também a cada uma das artistas que estão nesse perfil e as que não estão, mas que estão nesse horizonte também para a gente pensar uma outra edição.
agradecer a todas as artistas que participaram do evento Elas nas Artes Visuais na Paraíba, que é um evento que a gente promove sempre aberto ao público, de encontro com as artistas para falarem das suas poéticas. Nós também fazemos visitas mediadas com as artistas nas exposições. No nosso perfil a gente também faz divulgação das exposições, de eventos que estão acontecendo.
com esse recorte de gênero. Então, mais uma vez, convido todo mundo para apoiar, para conhecer mais o nosso trabalho através do perfil, que é arroba mulheresartistas na PB, e apoiar também e conhecer o trabalho dessas e outras artistas mulheres no nosso estado e no Brasil também. Muito obrigada por nos ouvirem hoje. Obrigada. É o que tem de mais importante a ser dito aqui nesse momento. Obrigada a todos.
E mulheres, sigamos em resistência às margens do Sayonara. Perfeito. Estamos ficando por aqui com o programa Um Livro, Uma Conversa, que hoje recebeu as pesquisadoras Madalena Zácara e Sabrina Mello. Mas próxima semana tem mais, então deixa sempre sintonizado na 103.9 para não perder nenhum dos nossos conteúdos culturais. Até a próxima, pessoal!
Este programa é um produto da rádio para a IBFM 103.9, uma emissora da EPC, empresa paraibana de comunicação, diretora-presidente Naná Garcês, diretor de rádio e TV Rui Leitão, gerente de rádio e difusão Berlim Carvalho, gerente executivo de conteúdos e programação André Canané. Você acabou de ouvir Um Livro, Uma Conversa. Literatura em altos papos. Até o próximo programa!