Prémios Sophia refletem "um bom ano" para o cinema português
Inês Braca Sampaio
João Malheiro
Carla Chambel
- Prémios SophiaMelhor filme · Melhor série · Internacionalização do cinema português · Carla Chambel
- Cinema portuguêsDistribuição · Igualdade de género na indústria · Diversidade de oferta · Coproduções internacionais · Lusofonia · Pedro Cabelera · Rabo de Peixe
- Papel das mulheres na indústriaDireção de fotografia · Margarida Cardoso · Denise Fernandes · Patrícia Sequeira · Leonor Teles · Inês Ferreira
- Cinema e SériesAs Ovelhas Detectives · Concerto de Billie Eilish · Cinema ao ar livre · Festival do Cinema Italiano
- Crossover entre teatro e cinemaPromoção cruzada de eventos culturais · Teatro da Trindade · Cinema Ideal
A verdade é que existe muito cinema português a ser estreado, muitas produções, o que reflete um lugar saudável de produção. Existe um grande problema na distribuição, portanto a dificuldade que os filmes mais independentes têm de chegar às salas.
E mesmo aqueles que estão, digamos que, mais no mainstream, nas ditas salas de mainstream, mesmo esses ocupam lugares muito parcos a nível de programação, de horário, e isso limita muito a escolha do espectador. Olá a todos e bem-vindos à nossa Watch Party, o podcast de cinema e séries da Renascença, feito por três jornalistas que, nas horas vagas, consomem muito conteúdo para vos dizer o que não podem perder. Eu sou a Inas Braca Sampaio e um dia conquistei o papel de ladrão.
chefe dos ladrões, aliás, de um livro de Sofia de Melbrainer, na adaptação para peça de teatro.
Isto de uma jornalista de desporto fazer a chefe de ladrões é um bocado perigoso. Eu sou o João Malheiro e por causa deste podcast já posso dizer que fui nomeado para prémios, agora ganhar é outra história por falar em prémios. Está quase aí mais uma edição dos Prémios Sofia, que celebram o melhor que se faz no cinema português. A gala realiza-se no Centro Cultural de Belém a 15 de maio e o Watch Party desta semana recebe uma convidada que vos vai ajudar a antecipar este evento.
Nasceu na Amadora e pouco depois de chegar à idade adulta, estreou-se no teatro, onde ainda hoje faz muitos espetáculos. Também se destacou no cinema, com papéis em filmes, como 98 Octanas, Amália, 4ª Divisão, Irregular e O Céu em Queda. No mundo da televisão, foi uma das protagonistas de Bem-Vindos a Beirais e também faz papéis em Terra Nova, Projeto Delta e Morangos com Açúcar.
Recentemente também teve uma breve passagem por rabo de peixe. Faz ainda dobragens e, atrás das câmaras, faz direção de atores. Em 2014 tornou-se vice-presidente da Academia Portuguesa de Cinema e no final de 2025 foi eleita a nova presidente da Academia. Falamos de Carla Chamel. Bem-vinda!
Obrigada, bom dia. Passou tudo o fact-checking? Bem, que grande recolha. Está tudo certo. Ainda bem. Está tudo correto. Nesta introdução não estava, mas eu também vi um pormenor e queria perguntar-te. É verdade que és a voz que canta a música dos Little Einsteins?
É isso! Agora não conseguiria. Espetáculo. Já vamos então à conversa com a Carla Chambel, mas primeiro fiquem com as novidades da semana. Se há um segredo para a felicidade na minha vida...
Começamos com As Ovelhas Detectives. É uma comédia muito promissora que chega aos cinemas portugueses. Hugh Jackman é um pastor que lê romances policiais todas as noites para o seu rebanho e que um dia é assassinado. As ovelhas juntam-se para resolver o mistério da morte do seu dono e investigam todos os humanos suspeitos.
Dá para perceber que é uma premissa bastante caricata, mas está a ser muito elogiada pela crítica. E para o lado de Hugh Jackman, o elenco todo é muito forte. Basta ver quem dá a voz às ovelhas protagonistas. Julia Louis-Dreyfus, Bryan Cranston, Regina Hall, Patrick Stewart, Bella Ramsey, entre muitos outros. É um who done it? Absurdo, é verdade, mas que promete muita diversão que chega esta quinta-feira aos cilindros.
Chega também esta quinta-feira o filme Concerto da Última Digressão de Billie Eilish. Hit Me Hard and Soft, The Tour, é uma experiência em 3D que vale a pena ver numa sala de cinema com boas colunas. Um dos principais pontos de interesse é o facto deste filme, que registra o Concerto de Billie Eilish em Manchester no ano passado, ser realizado por James Cameron, exato, o responsável por Avatar, Titanic, Exterminador Implacável, entre muitos outros.
Com tecnologia de ponta, o cineasta promete fazer os espectadores sentir que estão mesmo na plateia do concerto. Uma experiência audiovisual, no verdadeiro sentido do termo, para ver a partir desta quinta-feira, eu pessoalmente já comprei bilhete.
Não é o destino.
Mas não é só em sala que se pode ver filmes num grande ecrã. Está prestes a arrancar mais um ciclo de cinema ao ar livre da Cine Society. O Karma Rooftop, em Lisboa, volta a exibir filmes a partir deste mês de maio, mas este ano o ciclo também passa pelo norte. O World of Wine, no cais de Dona Nova de Gaia, também vai ser palco de várias sessões de cinema, num programa que se estende até outubro.
O Cine Society exibe um pouco de tudo, entre sucessos recentes e clássicos, como ainda agora o recordista dos Oscars Pecadores ou o intemporal Férias em Roma. São alguns dos vários filmes que vão estar em exibição de maio a junho. Podem consultar o programa completo no site oficial do Cine Society.
Terminamos com outra iniciativa que leva filmes a vários cantos do país. Depois de passar por conselhos como Lisboa, Porto, Setúbal, Leiria, Beja, o Festival do Cinema Italiano segue marcha por outros pontos de Portugal.
Agora, no arranque de maio, vão poder encontrar uma seleção de filmes italianos marcantes em Almada, em Coimbra e na Moita, podem apontar. Até junho, o Festival de Cinema Italiano também vai chegar, e também podem apontar isto, a Vila Franca de Xira, Aveiro, Figueira da Foz, Lagos e Loulé.
E ainda há promessa de passar por Oeiras, Sardual e Évora, em datas ainda por anunciar. Podem encontrar todos os pormenores no site do festival. E de Itália, regressamos para Portugal, porque vamos voltar à conversa com a presidente da Academia Portuguesa de Cinema, Carla Chambel. Um, dois, três, quatro.
Os prémios Sofia realizam-se a 15 de maio numa gala no CCB. Este ano, A Memória do Cheiro das Coisas, Banzo, O Riso e a Faca e On Falling estão nomeados para melhor filme. Em melhor série estão nomeados Casa Abrigo, Mulheres às Armas, A Temporada 2 de Rabo de Peixe e Ruído.
Pelo meio, claro, há muitas outras categorias que assinalam aquilo que melhor se fez na indústria portuguesa do audiovisual. E Carla, não te vou pedir spoilers dos vencedores, mas olhando para esta lista dos nomeados, podemos dizer que 2025 foi um ano forte para o cinema português?
Sim, um ano forte e muito diverso também. Temos mulheres nomeadas para melhor realização, temos homens, temos origens diversas. Isso para nós é uma grande alegria porque significa que a Academia está reunida de pessoas cada vez com um olhar mais abrangente e isso para nós é muito importante. Claro que o cinema nacional que está a ser...
estreado nas salas de cinema também traz essa diversidade e isso acho que é um bom sinal para o nosso cinema, até porque está a ser bastante reconhecido lá fora, primeiro de tudo, e agora resta a nós, público, ir às salas para o fazer também celebrar. Sim, a percepção que tem é que nos últimos anos temos tido vários filmes em festivais bastante relevantes, como Cano e Veneza. É verdade, é verdade, com ótimos resultados. E, aliás, é a temática da nossa cerimónia deste ano.
é justamente a internacionalização do cinema português, porque, de facto, temos tido boas razões para celebrar o nosso cinema e, portanto, estamos também no dia 15 de maio a complementar essa celebração. Tu falaste agora de diversidade. Tu és a segunda presidente da Academia Portuguesa, aliás, e a primeira mulher. Como é que olhas para o lugar das mulheres dentro da indústria de cinema em Portugal? Quer à frente da Câmara, quer atrás, também nesta questão estrutural, como tu?
Há desigualdades que ainda têm de ser corrigidas? É um caminho que se faz caminhando. Eu julgo que cada vez mais a indústria está com um olhar mais atento a essas questões. Naturalmente, quando falamos de prémios de carreira, por exemplo, tendo em conta a nossa história do cinema, naturalmente está ainda muito sediada nos homens. Porque foram os homens que se destacaram nos anos 50, 60, 70.
80, por aí fora, e só agora, mais recentemente, neste nosso século, é que as mulheres começaram a ter um bocadinho mais lugar, tanto a nível da realização, por exemplo, temos duas mulheres nomeadas, a Margarida Cardoso e a Denise Fernandes, mas também temos esse espectro nas séries, por exemplo, com a Patrícia Sequeira, e isso para nós é muito importante. Também seria salutar que outras áreas do cinema mais técnicas ou também artísticas
estivessem com lugar para as mulheres, nomeadamente, por exemplo, a direção de fotografia, que é algo que ainda está muito ligado aos homens, mas que a pouco e pouco já vamos tendo exemplos, como a Leonor Teles, a Inês Ferreira, e isso é um caminho que se faz caminhando, lá está. É estarmos atentos e termos também nós, enquanto colegas, darmos nota disso, ou seja, darmos voz para que também quem contrata, quem produz...
esteja atento também a esses lugares. Mesmo lá fora é um trabalho que ainda está a ser feito. Pois é, é isso que eu ia dizer. Só este ano é que tivemos a primeira mulher a ganhar um Oscar por melhor direção de fotografia. Portanto, é uma indústria em geral que tem essa evolução a fazer. Portugal está ao mesmo passo que o mundo, apesar de tudo, também. Tentamos, tentamos.
No ano passado falámos com o teu antecessor, o Paulo Trancoso, que assinalou um aumento do número de produções cinematográficas em 2024. Em 2025, voltou a registar-se esse aumento? Sim, está mais ou menos na mesma proporção. A verdade é que existe muito cinema português a ser estreado, muitas produções, o que reflete...
digamos que um lugar saudável de produção, existe um grande problema na distribuição. Portanto, a dificuldade que os filmes mais independentes têm de chegar às salas e mesmo aqueles que estão, digamos que mais no mainstream, nas ditas salas de mainstream, mesmo esses, ocupam lugares muito parcos a nível de programação, de horário e isso limita muito a escolha do espectador.
Também ainda temos este caminho para o espectador, não é? De nós alimentarmos o espectador de boas razões para ir ver cinema português, ou seja, arriscar a comprar um bilhete para ir ver cinema português. Isso é um dos nossos focos na Academia, de tentarmos...
cultivar, dar lugar a esse lado que sentimos que continua a ser um estigma na nossa cinematografia, que é o público ir às salas. De qualquer forma, eu acho que, nos últimos anos, tivemos a entrada de realizadores e de linguagens.
mais acessíveis, mais diretas para o público e isso tem beneficiado bem os números nas salas. Temos, por exemplo, agora filmes que estão muito mais ligados à ação e a contar histórias nossas, mas que têm até mesmo uma linguagem virada para o terror, que era algo que era muito limitado na nossa linguagem e hoje em dia já começam a surgir muito mais filmes.
com essa temática que é muito desejada para um público mais jovem. Quando falaste de terror, tivemos aqui o João Malheiro a fazer um símbolo de yeah, de rock, porque ele é grande fã. E fico contente com essa evolução. Nós temos um ótimo festival dedicado a cinema de terror, aliás, mais do que um. Eu sinto que começa a haver uma maior diversidade de oferta e o público devia estar um bocadinho mais atento a isso.
Mas por isso também temos que comunicar melhor e mais do que isso, dar condições aos filmes de se promoverem melhor. Sentimos que existe uma resposta, inclusive é do Ministério da Cultura atual, de abrir novas dinâmicas, introduzindo, por exemplo, um passe de cinema, que eu acho que é muito bem-vindo para que possa estimular um bocadinho mais o público a ir às salas.
Ainda recentemente estivemos com o Pedro Caboleira a falar do entroncamento e ele criticou bastante, nomeadamente a nós, pela questão da distribuição do filme em poucas salas em horários também pouco favoráveis. Deve haver uma maior responsabilidade também das grandes exibidoras para dar palco. Deve haver algum tipo de cota. Como é que podemos ter mais cinema português nos grandes cinemas portugueses?
Eu acho que é justamente disso que se trata. Por um lado, as cotas. Nós sabemos que as distribuidoras e os exibidores enfrentam também grandes dificuldades a nível de ter público nas salas e, portanto, têm que se reinventar de alguma maneira para que tenham o público a vir às salas. E, efetivamente, o cinema português, para eles, nunca é um grande chamariz e, portanto, relegam os filmes para horários...
Hora de almoço Ou às uma e meia da tarde Ou sábado, se calhar dá de manhã E quer dizer, para se ver um filme De ação e com cenas de mortes E não sei o que, se calhar não acontece tanto de manhã Se é mais uma sexta-feira à noite Ou um sábado à noite, enfim
E, portanto, esse lugar eu acho que tem que ser conquistado com algumas regras e só introduzindo regras é que se vai conseguir beneficiar. Embora eu saiba que os exibidores estão sensíveis ao nosso mercado, mas também estão sensíveis às suas contas e, portanto, isto é sempre um balanço um bocadinho difícil de conseguir. Se fizermos ações conjuntas... Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe Chloe
as várias entidades que estão envolvidas e que têm todo o interesse em que o cinema português se estabeleça, se reunirem, tiverem ideias e já se promoveu esses encontros de forma a que levemos ideias para a praça para pensarmos em conjunto. Eu acho que vamos chegar a um melhor porto. Não sei se ainda ao bom porto, imediato, mas pelo menos a um melhor porto.
Por falar em Porto, temos aqui na cidade do Porto o Cinema Trindade e também em Lisboa também há cinemas independentes que têm estado em crescimento e trazem público jovem precisamente também para ver filmes portugueses. Esse destaque que o cinema português tem nestes cinemas dá-te alguma esperança que é de facto possível encontrar bom público para as produções nacionais.
Bom, primeiro que tudo, esses cinemas independentes, ou digamos que os cinemas de rua, de porta aberta para a rua, como se costuma dizer, são realmente uma grande esperança no nosso ponto de vista enquanto academia, porque os números estão a crescer do ponto de vista de ida às salas, a programação é excelente, eles realmente estão a conseguir reinventar-se e a trazer boas razões para o público ir às salas, e uma coisa traz a outra.
Se o público se fideliza a uma boa programação, se calhar arrisca mais a ir ver um filme português. E isso, efetivamente, é um bom augúrio para nós e esperemos que assim continue. Tanto a programação do Trindade, que tem sido incrível, como no Cinema Nimas, em Lisboa, ou o Cinema Ideal.
são fatores de grande esperança. E diria também que, sendo que o teatro está a trazer tanto público às salas, estamos a ver passar por uma altura em que muita gente está a querer ir ao teatro, eu arriscaria que poderia ser muito útil cruzar informação entre as salas e o público de cinema ir ao teatro e o público de teatro ir ao cinema. Ver esse cruzamento entre programações seria também ideal.
Fiquei intrigada com esse crossover entre teatro e cinema. Como é que poderia ser feito? Olha, sabes que o ano passado estive no Brasil e fiquei muito surpreendida com... Eu fui lá fazer um espetáculo, mas também fui assistir a espetáculos. E em todos os espetáculos que fui assistir havia uma tela que promovia outras ações culturais em São Paulo. Desde exposições, cinema, teatro.
etc. E aquilo ficou-me numa ideia de que porquê é que nós não haveríamos de fazer isto em Portugal? Ou seja, imaginemos, eu vou ao Trindade, ao Teatro da Trindade, e antes de ver o espetáculo vejo um trailer de um filme que vai passar no cinema ideal, que é já ali Duas Ruas Abaixo, por exemplo. Ou seja, aqui o que eu estou a falar é que há público que se calhar só vai ao teatro e se calhar há público que só vai ao cinema.
E, por que não, estimular o público a cruzar linguagens? Claro que não é o público de teatro que vai salvar as salas de cinema, não é isso que eu quero dizer, mas, de alguma forma, seria nós conseguirmos abrir o espectro de público com outras linguagens e que o pudesse estimular, efetivamente, a cruzarem.
esses interesses. Por falar em linguagens, os filmes e as séries portuguesas estão cada vez mais a explorar coproduções internacionais. Aqui no Watch Party já falámos de vários exemplos disso. Tivemos Lisboa Noir muito recentemente. Tivemos o Refúgio do Medo. Mas é importante para o cinema e mesmo para a produção a nível de séries em Portugal encontrar estas soluções também para compensar alguma falta de meios. E até é uma questão de cruzamento de conhecimentos, não é?
Sim, justamente, eu acho que é uma mais-valia não só nós conhecermos como trabalha a indústria lá fora, portanto, quando até equipas internacionais vêm filmar a Portugal e trazem o seu know-how e que fazem com a produção com as equipas portuguesas, é sempre uma mais-valia para nós, e a meu ver também para eles, de verem como é que se trabalha, como é que se soluciona determinadas coisas a nível de planificação, a nível até de soluções, diria...
práticas de defeitos de tudo e de realização, naturalmente, mas também para termos oportunidade de termos efetivamente mais dinheiro nas produções. Ou seja, nós muitas vezes temos as ideias, mas é difícil que com o pouco dinheiro que as produções têm conseguirem levar mais longe. E vemos isso, por exemplo, em Rápido Peixe, que efetivamente...
aquela grande produção com o investimento da Netflix pôde elevar em muito a qualidade e o impacto que a própria série acabou por ter, não só a nível de público, mas efetivamente a nível de produção. Quer dizer, é incrível.
E a referir um ponto interessante que eu lembro-me do Augusto Fraga falar, que quando, por exemplo, foi escolher a equipa de efeitos especiais de pós-produção, escolheu uma equipa portuguesa, não só porque era uma determinação da Netflix tinha que se escolher equipas portuguesas para fazer determinadas funções.
mas porque ele próprio também queria ir um bocadinho por essa via. Ou seja, às vezes nós temos o conhecimento, não temos é os meios para. E esse investimento nas equipas portuguesas também é muito importante para que possamos mostrar mais daquilo que sabemos fazer e temos provas dadas, tanto a nível de pós-produção de efeitos especiais como a nível de som.
temos pessoas em Hollywood a trabalhar, portanto é um lado mais escondido, digamos assim, da produção, mas que é muito importante falar porque efetivamente temos muito boas equipas a fazer do melhor que se faz por todo o mundo. E esta vai ser a 15ª gala dos Prémios FIA e a Academia Portuguesa de Cinema também celebra este ano 15 anos. Como é que olhas para o trabalho feito até agora?
Olha, o Paulo Trancoso deixou-nos um trabalho muito bem feito, devo dizer. Digamos que facilitou muito o caminho para os novos que vêm e efetivamente temos uma direção renovada, mas muito bem escudada justamente por este trabalho que o Paulo deixou com a sua equipa. E isso para nós é um incentivo também para...
perante a estrutura que ele nos deixou a nível de ideias, principalmente ele é um homem de ideias, de sempre querer inovar e sempre querer trazer um novo espaço para vários setores. E os vários prémios que a Academia foi desenvolvendo ao longo dos anos para além da...
dos Prémios Sofia, falo do Prémio Bárbara Virginia, que destaca Mulheres no Cinema, ou falo dos Prémios Nico, em homenagem ao Nicola Obriner, para estimular os novos valores, tanto a nível de atores como de realização. Esses lugares são muito importantes porque, mesmo com a Academia com poucos recursos que vai conseguindo anualmente renovar,
nós sentimos que é muito importante dar esse lugar às pessoas, de chamar a atenção a pouco e pouco para determinados valores. Falo, por exemplo, que nos prémios de Sofia nós temos prémio para melhor cartaz, coisa que pelos vistos ainda não existe em Hollywood.
E este lado do design, de como é que nós apresentamos um filme, isso também é a linguagem do filme, isso também é o filme. E o Paulo deixou-nos isso como algo que é muito importante olharmos, ou seja, não é só um determinado setor em si.
que é importante celebrar, não é só os atores que são mais conhecidos, ou os realizadores, ou as produções, mas todos os setores têm um lugar especial e isso também vai se destacar, por exemplo, nas oficinas que nós pretendemos fazer de formação.
para profissionais poderem melhorar as suas capacidades, trazendo pessoas de fora, assim como o estímulo de público, de público jovem, para conhecer melhor o nosso cinema, a par com o Plano Nacional de Cinema. Portanto, temos aqui um ótimo legado, de facto, do Paulo, para podermos trabalhar cada vez melhor, espero eu.
com uma equipa também diversa e renovada e que estamos muito entusiasmados. É bom saber que, no fundo, isto não é como os governos, em que chega um e desfaz o que o outro fez anteriormente. E agora, olhando para o futuro, assumimos o mandato até 2028. Quais é que são para ti os objetivos a concretizar, essenciais para estes três anos?
Bom, essencialmente... Me pergunta um bocado abrangente, mas quais é que são as tuas metas? Sim, mas é importante. É muito importante. Olha, uma das coisas que eu sinto falta é uma ligação mais à lusofonia. Tive conhecimento que surgiu muito recentemente a Academia Angolana de Cinema, o que é algo muito salutar para o cinema angolano. E eu gostaria de...
que essa lusofonia estivesse um bocadinho mais presente, ou seja, que o cruzamento dos filmes fosse mais possível. Sabemos que existe um festival, o Festin, que já faz um bocadinho, já celebra justamente a lusofonia, mas eu acho que a Academia também deveria ter essa missão de unificar um bocadinho mais.
a lusofonia. Nós, enquanto academia, estamos inseridos em duas federações, uma federação ibero-americana, que é a FIACIN, e uma federação europeia, que é a FACE, onde, digamos que, num lado e no outro, vamos trabalhando o que é o cinema europeu e o que é o cinema ibero-americano. Mas a lusofonia é algo também muito identitário para Portugal e eu acho que lhe falta esse espaço e gostaria muito de poder implementar algo mais a esse nível.
Pois é, estamos aqui a falar, lá está, de coproduções internacionais e etc. E pensa-se muito na Europa e até Estados Unidos, mas de facto faz todo o sentido também olhar para a lusofonia, não é? Sim, e por exemplo, acrescentar a isso, eu vejo um grande exemplo, pelo menos do ponto de vista de alguém que está de fora, na língua espanhola, porque eu olho para séries espanholas mexicanas ou argentinas e têm todas um grande cruzamento das várias nacionalidades. E eles já falam espanhóis. Exatamente. Inteligentemente.
E nós perdemos um bocadinho esse barco. Portanto, eu acho que devemos apostar, de facto, mais nessa união, que é algo que nos liga, a nossa língua, em que nos entendemos e que somos, de facto, muito diversos e temos tantas histórias para contar. E também sinto que existe um olhar, mesmo das produções portuguesas,
para a lusofonia com algo mais atento, mais cuidado. De falar aqui de temas às vezes até delicados, como a colonização ou a descolonização e os efeitos que ela provocou. Eu acho que se nós trabalhássemos juntos, poderíamos levar, se calhar também, em termos de mensagem, algo melhor também às pessoas poderem ter um espaço.
onde falar destas temáticas que são sensíveis, mas que o cinema é um ótimo lugar para reflexão, para que a própria sociedade também possa chegar a um sítio melhor. Carla, muito obrigada pela tua presença no nosso podcast. Obrigada, foi ótimo. Ainda bem. Não vamos, no entanto, deixar-te já partir para ir contar mais histórias, porque temos um desafio para ti.
Que é dar-nos uma recomendação para um filme ou uma série para vermos durante o fim de semana. Só há um senão, que é o senão do costume. Só tens apenas 30 segundos. Tens uma sugestão pronta? Ai, tenho. Então, quando quiseres. Bom, a minha sugestão se calhar não é muito original, mas vou dá-la porque estava já aqui a pensar nela antes, que era o filme O Entroncamento, do Pedro Cabelera.
Porque é um filme que vai de encontro a temáticas mais desafiantes, mais de ação e de histórias que são nossas e que tocam em temas delicados, mas que ao mesmo tempo traz emoção e traz algo. Pode ser muito interessante para o pessoal mais jovem ir ver. Eu acho que é uma ótima forma de entrar no cinema português ver o filme do Pedro Caboelera.
Conseguiste mesmo abaixo dos 30 segundos. Isso, 28 segundos. E acho que o Entroncamento vai bater um recorde, porque deve ser o filme mais recomendado do Watch Party. É, neste momento é quem tem mais espectadores nas salas. Será que vai ganhar algum prémio? Exato, o prémio Watch Party mais recomendado.
Força ao entroncamento, desejo-lhe a maior sorte. Ora, Carla Chambel, muito obrigada pela tua presença no podcast. Relembramos que a Gala dos Prémios de Sofia se realiza no Centro Cultural de Belém, a 15 de maio.
E no próximo episódio, mais um convidado para falar de cinema e televisão. Marquem no vosso calendário. Temos uma nova Watch Party todas as semanas, às quintas-feiras. Até lá podem ouvir este e outros episódios em todas as plataformas de podcast e no site da Renascença em rr.pt. Não se esqueçam de subscrever o feed do Watch Party na app que mais gostam de usar e de enviar as vossas sugestões por e-mail para o watchparty.rr.pt.
E este podcast tem sonorização de Paulo Teixeira, José Luís Moreira, ilustração de Rodrigo Machado, com apoio à produção de Ariana Cruz e Beatriz Pereira.