Episódios de Donas da P* Toda

#333 - Anti-ambição: estamos conformadas ou querendo pouco?

04 de agosto de 202652min
0:00 / 52:04

A gente cresceu ouvindo que precisava empreender, ser extraordinária, fazer o primeiro milhão antes dos 30 anos, trabalhar enquanto eles dormem. Veio a era da girl boss, da promessa de liberdade financeira como destino inevitável de quem se esforçasse o suficiente. Parecia que sonhar grande significava, necessariamente, enriquecer.

Hoje, a definição de sucesso parece ter mudado de roupa, mas continua igualmente exigente. É ter milhões de seguidores, uma vida digna de feed, looks impecáveis, viagens para destinos paradisíacos, uma carreira inspiradora, um marido maravilhoso, quem sabe filhos — tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, de preferência antes dos 35 anos. O ideal de sucesso deixou de ser apenas financeiro e passou a ser uma vitrine de uma vida perfeita.

E aí a gente se vê aos quase 40 anos tentando entender, redefinir, redescobrir quais são as nossas reais ambições? Como buscar a vida que queremos com nosso orçamento limitado? Como se sentir feliz com as nossas coisinhas sem entrar numa noia de que caímos num conformismo de que a vida é isso aí mesmo e não tem nada que a gente possa fazer?

Estamos na era da anti-ambição ou o que ambicionamos mudou?

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Produção, roteiro e apresentação: Larissa Guerra (@larissavguerra) e Marina Melz (@marinamelz).

Edição e tratamento de áudio: Bruno Stolf (@brunostolf)

Todas as informações em ⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠www.donasdaptoda.com.br⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠ e ⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠@donasdaptoda⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠.

Participantes neste episódio2
L

Larissa Guerra

Host
M

Marina Melz

Host
Assuntos6
  • Dívidas e prosperidade· EconomiaDefinição de sucesso financeiro · Valorização do presente · Felicidade com conquistas atuais
  • Redefinindo o propósito e a suficiênciaAmbição vs. conformismo · Pressão social por sucesso · Sonhos millennials
  • Old money vs New moneyO que é ser rico de verdade · Old money e old rich · Preservação da memória familiar
  • A Família como Base e Propósito· SociedadeConstrução de valores pessoais · Trabalhar com o que ama · Ambição pessoal vs. social
  • Morte e Viver Plenamente· SociedadeChoque de realidade · Crononormatividade · Ser adulto de verdade
  • Crítica à cultura contemporâneaPromessa de liberdade financeira · Ideal de vida perfeita
Transcrição64 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
LGLarissa Guerra

Você ainda quer ficar rica? O meu nome é Larissa Guerra e eu acho que eu nunca quis ficar rica. Eu só não quero viver no aperto e me ver atolada em dívidas e com o meu nome no Serasa.

MMMarina Melz

O meu nome é Marina Melz e cada vez mais eu me dou conta de que prosperidade para a nossa geração, no nosso contexto, é muito diferente do que já foi um dia. Esta parece ser uma conversa sobre dinheiro, mas não é. A gente sabe que dos erros da nossa geração millennial, um foi acreditar que nós éramos muito especiais, os alecrims dourados, que podiam ser tudo o que quisessem ser. A questão é que a gente descobriu que talvez a gente não queira ou não consiga ser uma soma de coisas que a gente queria ser.

Bilionária, CEO, influencer, dona de um império. E isso não é uma derrota, muito pelo contrário, aliás. Vem pra esse papo de amiga sobre ambições, faltas de ambições, conquistas e novos jeitos de ver a vida. Boas-vindas ao Donas da Porra Toda. Donas, donas, donas, donas, donas, donas da porra toda.

LGLarissa Guerra

A gente cresceu ouvindo que precisava empreender, ser extraordinária, fazer o primeiro milhão antes dos 30, trabalhar enquanto eles— eu não sei quem são eles, no caso— dormem. E aí veio a era da girl boss, a promessa de liberdade financeira como um destino inevitável de quem se esforçasse o suficiente. E olha, esse suficiente era sempre muito, tá? E parecia que sonhar grande significava assim necessariamente enriquecer muito.

MMMarina Melz

Hoje a definição de sucesso mudou de roupa, a gente sabe, já conversamos sobre isso aqui, mas ela continua muito exigente. É ter milhões de seguidores, uma vida que o tempo inteiro seja digna de um feed, looks impecáveis, viagens o tempo inteiro para destinos paradisíacos, uma carreira inspiradora, uma família maravilhosa, quem sabe filhos lindos que apareçam lindamente nas redes sociais também, tudo acontecendo ao mesmo tempo e de preferência antes dos 35, porque depois dos 35 já era.

O ideal de sucesso deixou de ser apenas financeiro e passou a ser uma vitrine de uma vida perfeita.

LGLarissa Guerra

E aí a gente se vê com quase 40 anos na cara tentando assim redefinir, redescobrir, ressignificar, repensar, entender quais são as nossas reais ambições. Como é que a gente busca a vida que a gente quer com o orçamento que a gente tem? Como que a gente se sente feliz com as nossas coisinhas sem entrar numa nóia de cair, de que, sei lá, a gente caiu num conformismo, de que a vida é isso aí mesmo e não tem nada que a gente possa fazer? E aí, Marina?

MMMarina Melz

Ah, tranquilo, uma pergunta de um milhão de dólares. Cara, eu tenho assim, quero falar muitas coisas nesse episódio porque é um assunto que toma as nossas conversas há muito tempo e que eu não quero que ninguém se sinta, enfim, ofendido, ofendida com que a gente, com que a gente for falar aqui.

LGLarissa Guerra

Mas eu acho que a primeira também pode, tá, se sentir ofendido, não tem problema.

MMMarina Melz

Então se quiser se sentir ofendido, fica ofendido, tá tudo bem. Mas acho que a primeira coisa assim, o que tem me batido muito nos últimos tempos é uma repetição do discurso do vamos fazer isso porque a gente vai ficar rica, a gente vai ficar rica, a gente vai ficar rica. É, isso é o que você vai, assim, é quase um esquema de pirâmide de que esse, o pensamento da prosperidade, de que vibrar no positivo, de que, sabe, essas coisas, é assim uma junção, eu acho, de uma positividade tóxica com um sonho irreal que tá fazendo com que a gente viva sempre pensando no futuro.

Então eu vou me ferrar agora, eu vou trabalhar mais agora, eu vou entregar mais agora, eu vou para que no futuro eu atinja isso. E eu acho que eu já cheguei à conclusão de que eu não vou atingir, e tá tudo certo. E isso, ao invés de ser uma, me trazer uma sensação de frustração ou de derrota, é muito libertador, muito libertador. Para mim é muito libertador, porque eu tenho a sensação de que a partir do momento que eu me dei conta de que Eu, você, todos, todas nós somos fruto de um contexto.

De que esse contexto mudou, de que o sonho que a gente tinha com 10, 15, 20, 25 anos não vai ser possível, e nós não somos tão protagonistas assim dessa questão, eu sinto que alguma coisa dentro de mim se apaziguou. E eu pensei, ah, então vamos ser feliz aqui com isso aqui que a gente tem. Sabe? Eu me sinto muito mais feliz tendo entendido de que essa riqueza, esse sucesso, esse conjunto de coisas que a gente ambicionava não vai acontecer.

Pra mim é um... Ai, é um ai, sabe? Tipo assim, já que eu não vou ter que virar à noite, já que eu não vou ter que me esforçar tanto, para viver aquilo no futuro, então eu vou relaxar aqui no presente. E isso me deixa tranquila.

LGLarissa Guerra

Entendi. É, eu acho que eu tenho uma construção um pouco diferente assim dessa ideia de ambição, porque para mim sempre foi muito claro que eu não ia ficar rica, sabe? Tipo, e já falei várias vezes aqui, acho que em conversas muito com a Marina eu falo assim que Eu estar vivendo a vida que eu tenho hoje, pra mim já é um puta sinal de que eu venci na vida, assim, sabe? De que é uma riqueza a minha vida, apesar de eu ter um financiamento de 40 anos pra pagar, assim.

E acho que essa noção também, claro, é muito construída pelo contexto familiar de onde eu venho, pelas vivências que eu tive na minha infância, na minha adolescência, a forma como eu tive que batalhar pra conquistar as coisas que eu queria. Para viajar, para comprar uma coisa dentro de casa. Então eu acho que ter essa noção assim do quanto eu preciso me esforçar para cada coisa que eu quis fazer na minha vida sempre esteve muito próxima de mim assim.

E inclusive quando eu tava empreendendo, quando eu tive o restaurante, eu não tava tendo restaurante achando que eu ia ficar rica, senão não teria aberto um restaurante, sabe? Eu acho que talvez o erro da minha parte millennial que me cabe é a aquela falácia que a gente caiu quando a gente tinha 20 anos, 18 anos, de que a gente precisava trabalhar com o que a gente amava. E talvez essa tenha sido a minha maior ambição, não tenha sido fazer dinheiro, tenha sido sim fazer coisas com as quais eu super me identificasse, com as quais eu super amasse fazer.

E continuo honestamente vivendo isso, porque senão a gente não estava aqui gravando toda semana esse podcast.

MMMarina Melz

Exatamente.

LGLarissa Guerra

Mas aí eu acho que também tem assim aquela coisa de entender, e uma nóia que eu tenho muito assim é que eu me considero uma pessoa muito ambiciosa, sabe? Mas muito ambiciosa para o meu padrão. Talvez eu não seja ambiciosa para o padrão da colega do lado que quer fazer R$1 milhão, que quer, sei lá, ir para as Ilhas Maldivas, que quer fazer uma festa de casamento gigantesca e ter 3 filhos, etc. Mas eu sim me considero uma pessoa ambiciosa nesse aspecto, sabe?

Enfim, isso parece que vai se embolando de uma forma assim, né, vira uma sopa de coisa que é uma loucura. Boa.

MMMarina Melz

É quando, só para fazer uma, não é uma correção, mas um adendo assim, quando eu falo de ficar rica, não necessariamente eu tô falando de que o sonho era ter zilhões de reais. E mas quando eu falo ficar rica, é mais no sentido de eu não fui ensinada E aí não acho que nem seja nenhuma questão familiar, mas eu acho que é uma questão cultural mesmo. Eu não fui ensinada que eu poderia escolher ter uma empresa que escolhe ficar pequena.

Quando você empreende, você é empurrado para um lugar, seja de formação profissional, seja de círculo de pessoas que empreendem junto com você, que te levam a uma perspectiva de que a sua equipe tem que ser grande. De que o seu faturamento tem que ser grande, de que ele tem que crescer 20%, 30% todo ano, de que isso vai exigir de você uma outra postura. E essa outra postura é uma postura em relação à forma como você se comporta, ao que você fala, ao que você veste, ao jeito como você sonha, ao carro que você tem, ao apartamento que você tem, ao clube ao qual você pertence.

E não era uma opção pra mim não seguir esse caminho, não por, sei lá, por ensinamento, mas por um lugar onde eu ocupava mesmo. E aí o empreendedorismo é um recorte muito particular, mas colocando pra um outro lugar, é assim, eu tenho amigas que têm carreiras muito bem-sucedidas que nunca pararam pra pensar que não queriam ser gestoras. Que preferiam ser boas técnicas, porque o universo, né, a cultura te leva a esse lugar que você tem que ter quem mandar, né?

Um dos grandes sinais de sucesso é você ser hierarquicamente superior a alguém, o que eu acho uma coisa esquisitíssima assim, sabe? Significa que é a coisa da escada, de que você tem que pisar em pessoas para ficar mais alto que elas. E, gente, isso não faz mais sentido, sabe, no universo que a gente tem hoje, na na concepção de mundo que a gente tem hoje. Então, quando eu quis dizer ficar rica, é mais no sentido do Coisa de Rico, do Michel Alcoforado, de ter símbolos de status, de diferenciação em relação às outras pessoas.

Então, o que é isso? É, eu sonhava, quando eu pensava em comprar um apartamento, o apartamento que eu sonhava em comprar não era o apartamento que eu tenho hoje, era um apartamento numa outra localização, com outro, sabe? Quando eu me imaginava assim, não, com 40 anos eu vou ter aquele carro, aquele apartamento, esses símbolos, essas coisas, eu vou só usar determinadas marcas, eu vou, sabe? Era essa ambição muito mais ligada a um status, a uma perspectiva de quem eu queria ser através das coisas do que hoje o que eu considero sucesso, o que eu considero uma vida boa pra mim.

Que não tem essa relação. Hoje uma vida boa pra mim é eu conseguir ter o meu carro pago. Não importa qual é o carro, ele vai me levar pros lugares e tá tudo certo, sabe? Hoje sucesso pra mim é ter a minha casa. Eu acho que a gente conseguiu dimensionar o tamanho do que a gente pode ser sendo feliz no processo. Não olhando só lá pra frente pro que a gente ambiciona ser um dia, pra viagem que a gente vai fazer, pro carro que a gente vai ter, pro apartamento que a gente vai ter.

Pro dinheiro que a gente vai ter, sabe? Acho que a gente conseguiu dimensionar pra o que que eu tenho hoje que é capaz de me dar essa sensação de realização. E aí isso pra algumas pessoas soa derrotista, soa fracassado, soa não ambicioso, porque a ambição tem que ser você querer mais no sentido do dinheiro, do status. E talvez o nosso mais não seja no sentido do dinheiro, o nosso mais seja no sentido de viver agora melhor. E viver melhor agora é talvez ter mais tempo, é não estar preocupado com as contas no fim do mês, é outra coisa que não é aquilo que era um dia, sabe?

LGLarissa Guerra

Sim, super, concordo totalmente. Assim, é que eu acho que existe uma construção meio generalista de que você ter ambição, de que você ter prosperidade, de que você ter sucesso significa ter um carro da marca X, ter um celular Y, ter a roupa, a bolsa, o relógio. Os símbolos de status e de ascensão que mostram, né? É isso, assim, acho que esse episódio bebe muito da fonte do Coisa de Rico. Mas também esses dias eu tava vendo alguém falando assim de quando teve a Carminha em Avenida Brasil, que agora tá reprisando, que o figurino dela ajudou a popularizar a Michael Kors no Brasil.

E de repente a Michael Kors virou uma marca fuleira, assim, de novo rico. E antes era uma coisa super status, né? A própria ideia de você exibir logo de marcas assim é uma coisa que te aproxima de uma ideia de status que para muita gente faz sentido e para uma grande parte de pessoas não faz assim, né? Mas eu tenho muito assim, eu acho que essa ideia de ambição ela se mistura um pouco assim para mim, porque ao mesmo tempo em que eu me acho muito ambiciosa, Às vezes eu tenho momentos em que eu fico pensando, será que eu sonhei pouco na vida?

Será que eu sonhei pequeno, sabe? Será que eu poderia ter feito diferente, ter feito isso, isso e isso e tá em outro lugar hoje? Por que que eu não fiz? Por que que eu não quis isso para mim, sabe? Uma, uma nóia assim que eu acho que me acompanhou durante muitos anos na minha carreira de jornalista é, por que que eu nunca quis ir para São Paulo? Sabe?

MMMarina Melz

Nossa, muito, muito! Eu tenho a mesma nóia, muito!

LGLarissa Guerra

Profissionais de comunicação em geral, de publicidade, de jornalismo, passaram muito por essa transição assim, sabe? E muitas das pessoas de sucesso que a gente conhece e que a gente valoriza e que a gente pensa, meu Deus, essa profissional é incrível, ela é uma pessoa de sucesso, elas fizeram esse movimento. 10, 15 anos atrás assim, sabe? E ralaram muito, passaram muito perrengue, aquela coisa toda, sabe? Recentemente uma colega aqui do trabalho foi para São Paulo e ela é mais jovem.

E aí meio que eu voltei assim um pouco para esse lugar assim de tipo, por que que eu nunca quis isso para mim assim, sabe? Por que que nunca foi uma vontade? Eu entendo que realmente eu nunca tive vontade. Eu acho que se eu tentei assim, eu tentei uma vez meia boca assim na vida.

MMMarina Melz

Sabe?

LGLarissa Guerra

Porque sei lá, acho que era muito da minha personalidade, era muito dos lugares onde eu queria estar assim. Então acho que, e eu só vim morar numa cidade grande com 36 anos, né?

MMMarina Melz

Então é, mas é muito louco que eu acho que aí a gente começou a ser as esquisitas do rolê. Sim, eu e você totalmente na faculdade. Aí a gente começou a ser as esquisitas no sentido de que a ambição das pessoas naquela época já era uma ambição de São Paulo. Sim, muitas pessoas fizeram trainee de grandes veículos e tal. Nós temos amigas muito próximas que fizeram isso e foram muito bem-sucedidas, são muito bem-sucedidas. Mas a gente não ter, eu lembro muito assim que a gente não ter isso já era estranho naquela época.

Já era tipo assim, mas por que que você quer morar em Blumenau? Por que que você quer continuar trabalhando no veículo que você trabalha sendo que você poderia, você sabe que você poderia? E aí eu lembro que para mim rolou muito de ter tido convites para essa vida e ter negado. E aí quando eu falava que eu negava entrar num veículo de comunicação que era maior Ou sabe, as pessoas achavam muito esquisito, sabe? E alguma coisa dentro de mim dizia, cara, eu não quero, eu não quero ter isso.

Só que aí eu fui cair num outro conto, entende? Eu acho que as armadilhas elas têm vários, várias, várias formas assim. Uma pode ser para você ter uma carreira, para você ser ambicioso na sua carreira e ter uma carreira meteórica, astronômica, você precisa aceitar certo tipo de trabalho, certa localização, certo? A gente aqui no Donas, a gente vive ouvindo: se você estivesse em São Paulo, vocês seriam muito maiores, vocês teriam muito mais ouvintes, vocês teriam muito mais convites.

A gente ouve muito isso, mas tem alguns outros contos que a gente vai cair. Conto da comparação, o conto de achar que a gente tem que fazer de um jeito, sabe, ou de outro assim. Então eu acho que as armadilhas da ambição ou as embalagens mais comuns da ambição estão aí para todos os jeitos. E aí a dificuldade é no meio dessa embalagem, que uma é vestida de uma girl boss, outra é vestida de uma coisa bucólica de você ir para o sítio no fim de semana e poder desligar o celular, que também é uma ambição.

Outra, sabe, elas têm várias embalagens e no meio disso tá a gente tentando entender o que que a gente quer. O que que a gente, o que que faz sentido individualmente para cada uma de nós assim? Porque a gente cai numa hora, resvala na outra, daí pega um pouquinho, sabe? E aí descobrir o que que é isso que você quer, eu acho que é a coisa mais difícil.

LGLarissa Guerra

Ai, assim, tem uma outra coisa que eu tava pensando aqui enquanto tava falando, que eu já tava começando a rir. Ai meu Deus, talvez eu seja um pouco mal interpretada.

MMMarina Melz

Ah, esse episódio é para isso. Tudo bem.

LGLarissa Guerra

Esse episódio é um grande desabafo, assim, né? A gente tá aqui só assim, só falando. Mas assim, às vezes a gente vai para algum lugar, assim, a gente vai, sei lá, vamos num evento X, não sei o quê. E eu sou o tipo de pessoa que aí eu não sei se é a minha criação lajiana, bicho um pouco bicho do mato assim, sabe? Pessoa de interior. Mas eu sou uma pessoa muito desconfiada de quem se vende de uma forma muito, nossa, olha como eu sou foda, olha como eu sou bem-sucedido, olha como isso, olha como aquilo, tarará.

E aí tem um discurso assim para mim que entra numa linha muito tênue assim, que você fica pensando, tá, será que é fato? Será que a pessoa de fato é um profissional muito bem-sucedido? Será que de fato esse cara tem grana ou ele só tá querendo parecer que ele tem grana? Parecer que ele é muito bem-sucedido, para ele vender esse discurso, né, uma embalagem no Instagram, um Reels, um TikTok, para fazer circular essa energia. E aí, dinheiro é uma energia, gente, dinheiro vai e volta assim.

Mas aí, sabe, tem uma coisa assim para mim nessa ideia desse discurso de super ambição de que você precisa ser muito bem-sucedido, de que você é um cara de sucesso, que me cheira a picaretagem, sabe? É tipo outdoor de corretor de imóveis no meio da BR-101, que tem um monte no litoral de Santa Catarina. Desculpa, corretores, mas assim, eu olho aquele negócio, tá assim, corretor ali com aquela foto assim, e tipo aquela coisa meio botox e etc., eu fico assim Ai, gente, isso aí tem uma cara de que daqui a pouco tá no Fantástico com matéria de apartamentos milionários com lavagem de dinheiro.

MMMarina Melz

É, mas é isso, tipo, eu acho que talvez a minha ambição hoje seja diminuir de novo, já falei isso mil vezes, diminuir a distância entre o que eu falo e o que é a minha realidade. Diminuir a distância entre a foto do feed e a minha vida, sabe? Não é, eu acho que não é romantizar a vida, como essa coisa do romantizar o cafezinho, romantizar, né, que rola. Acho que bebe um pouco disso, mas é ter um pouco mais de consciência, eu acho, sobre as coisas legais da vida que a gente leva.

E sobre as escolhas que a gente faz, sabe? Então assim, se você tá esperando que em algum momento eu vá aparecer de salto alto e blazer e para dizer que eu sou uma profissional bem-sucedida, não vai acontecer, porque eu não preciso disso. Porque essa não é a minha ambição, não é parecer uma pessoa bem-sucedida para você. A minha ambição é parecer uma pessoa bem-sucedida para mim. Então eu vou me vestir de mim. Eu vou me, sabe, olhar para os meus indicadores, para as coisas que são valiosas, importantes para mim, assim.

E eu acho que tem uma coisa que tem mexido muito comigo nesse lugar, eu, assim, que eu acho que tem tudo a ver com ambição e que tem tudo a ver com a gente se colocar no nosso lugar e entender o contexto que a gente tá, que é algumas pessoas falando sobre os seus avós. E a forma como seus avós eram no mundo, estavam no mundo. Então outro dia eu vi um tweet de uma pessoa falando que na dissertação de mestrado do avô, ela estava no não sei quem, estava nos agradecimentos.

E aí eu vi o Gregório Duvivier, que é uma pessoa que eu admiro muito, que eu acho maravilhoso, incrível, sou muito fã, já indiquei 50 mil coisas dele aqui. Falando que o avô dele era psicanalista. E eu acho que essas duas coisas e outras coisas que eu fiquei pensando muito, refletindo muito, me colocaram num lugar de, cara, a gente tá ambicionando ser pessoas, ser no sentido intelectual, no sentido financeiro, no sentido social, no sentido de acesso de informação, de vivência, que não tem como em uma vida, em uma geração, a gente chegar, sabe?

Então você falou na sua fala anterior, que foi muito boa, aliás, venha ver aí o corte, você falou do lance do novo rico, né? Da marca ter ficado novo rico. E o Michel Koforado questiona muito isso. Não tem como ser velho rico, não tem como ambicionar você ser velho rico. E eu acho que em muitos momentos a gente ambiciona ser velho rico.

LGLarissa Guerra

A nossa ambição— Old money, né, amiga? Não é à toa que old money, old rich é trend, assim. As pessoas—

MMMarina Melz

Tipo, a nossa ambição não tá—

LGLarissa Guerra

High to luxury.

MMMarina Melz

A nossa ambição não tá alinhada, não tá calibrada pra o que veio antes. E o que veio antes é muito importante. Não significa que se você teve uma família que teve uma dificuldade financeira imensa, você não pode ascender. Ou se você tem uma família que era old rich, você não pode, assim, ter uma derrocada financeira imensa. Não é isso, não é uma sentença, o passado não é uma sentença. Mas também não dá pra ignorar, sabe? Não dá pra ignorar e não dá pra não calibrar os nossos sonhos pra esse lugar de onde a gente veio.

É diferente você ter um sonho de— eu sempre mando pra Larissa, assim, é uma conversa que a gente tem muito, de crianças de 5, 6 anos viajando com os pais e conhecendo culturas do mundo inteiro e tendo acesso a comidas, a restaurantes, a bibliotecas, a autores, com a gente que foi viajar de avião com 20 anos pela primeira vez. Não tem como, não tem como a gente ambicionar estar no mesmo lugar que essas pessoas, sabe? E eu acho que isso é muito pacificador quando você entende que não tem a sua parte, né?

A gente vive nessa coisa neoliberal de que a gente tem a nossa participação, mas não só. Não só, sabe? Não depende só da gente, não depende só do nosso esforço. Tem uma coisa que a gente tem que calibrar a nossa ambição por o lugar onde a gente veio, sabe? Porque senão a gente nunca vai ser feliz. A gente vai sempre querer ter lido os livros que essas pessoas tiveram acesso quando elas eram crianças. Os meus avós estavam trabalhando na roça, sabe?

Os meus pais foram ter formação de ensino superior com a minha idade. A gente já andou bastante. Olha que ambição massa que eles tinham, né, que eles têm de ter os filhos formados com 20 e poucos anos. Isso já é uma ambição imensa, isso já é um salto gigantesco para nossa história familiar, sabe? A gente comprou o apartamento com 40, antes dos 40 anos, o que para as nossas famílias já é uma coisa absurda. A gente já, a gente já andou muito, sabe?

Então sim, o apartamento não é aquele que a gente sonhava com 20 anos, não tem a sua piscina privativa, não tem o seu elevador panorâmico, não tem nem varanda, no caso não tem nem varanda, é minha nem a sua. Mas porra, a gente fez isso antes dos 40, isso já não é ambicioso para caralho?

LGLarissa Guerra

Muito. É esse lance ali do avô psicanalista me pega também numa outra vertente assim que eu também vi alguém comentando e é uma coisa que eu sempre penso muito assim que eu acho que também um outro marcador muito grande de acesso e de dinheiro e de que você tem uma família que tem grana algumas gerações é o lance de preservação da memória assim você vai ver tipo aí uma pessoa que a gente ama mas assim rica Raíza Costa, tá? Você vai ver, tem trocentos VHS.

Ela fez temporada de receitas da infância, etc., lindíssimo, baita registro, etc. Só que é isso, a família tinha acesso a esse tipo de coisa, sabe? Quantos são os vídeos que você tem de quando você era criança, Marisa? Nenhum, sabe? Eu tenho, sei lá, um ou dois assim. Tem um do aniversário da minha avó de 60 anos, que foi tipo uma festa na garagem de casa E aí acho que, sei lá, meu pai contratou uma pessoa para fazer um VHS assim, tipo, sabe?

Era algo muito exclusivo, sei lá, alguém ia casar, aí contratava alguém para filmar assim o casamento e vinha aquele VHS xixelento ainda fotografar, né?

MMMarina Melz

A própria foto era um acontecimento.

LGLarissa Guerra

Exato, a própria foto era um acontecimento assim. Eu tenho muito mais fotos da minha infância na casa dos meus avós por parte de pai do que na casa da minha mãe. Porque na casa da minha mãe, na família da minha avó, por parte de mãe, era raríssimo ter dinheiro para comprar um filme e para depois revelar assim, sabe?

MMMarina Melz

Enquanto a casa dos meus, amiga, o lance é saber ler, saber ler assim.

LGLarissa Guerra

Tava te falando ontem, inclusive, assim, faleceu ontem uma tia-avó que era irmã do meu vô. E aí eu fiquei pensando assim no puta privilégio que foi conhecer essa mulher e saber que ela era uma mulher da minha família, porque ela era uma professora numa cidade de interior no Rio Grande do Sul, assim, sabe? E ela nunca casou, ela não teve filhos. A vida dela foi se dedicar para ensinar os outros, para ler os livros que ela queria, para fazer as pinturas que ela fazia.

E isso já era um privilégio imenso, assim, né? Então eu acho que também tem essa coisa de olhar. E hoje em dia, quando eu viajo, quando eu faço as coisas que eu quero, É isso, eu sei exatamente o quanto me custa fazer esse tipo de coisa. E eu sei que toda vez que eu vou, até quando eu fui agora para o Uruguai em junho, né, junho eu fui, eu mandei um ímã para minha mãe, para minha avó, e mandei um bilhetinho para elas dizendo, toda vez que eu vou, eu levo vocês comigo.

Porque eu sei que eu tô, sabe, que eu sou a única pessoa da minha família que faz esse tipo de coisa. Sabe, eu sou uma das poucas pessoas da minha família que já entrou num avião. Então é muito maluco pensar isso assim, que eu sou a pessoa da minha família que foi mais longe para o mundo, né? Porque também minhas irmãs também são super bem-sucedidas e também trilham as suas carreiras à sua maneira assim. Mas eu também acho que fico pensando nisso assim, de que não é que os meus sonhos sejam pequenos, né?

Eu sonhei muitas coisas e eu consegui realizar muitas coisas, mas eu acho que Os meus sonhos são do tamanho daquilo que eu acho que eu dou conta de fazer, assim, porque eu não vou ter ninguém para me dar suporte, né? Não vou ter o pai e a mãe para me dar o dinheiro que eu preciso para fazer uma viagem, eu não vou ter a herança. Pelo contrário, né? Se eu não tiver dívida dos meus pais, eu já tô no lucro, assim.

MMMarina Melz

Super, super. E é isso, não é— é que quando a gente fala dessas coisas, eu sempre tenho a sensação de que, a depender para quem a gente fala, soa, cara, fraco, frágil, sabe? Ah, então a vida vai ser isso aí, cara, vai ser isso aqui. É para mim é outro tom, sabe? Para mim, talvez as pessoas olhem com essa percepção de, ah, então você não almeja mais, cara. Eu almejo muitas coisas, mas as coisas que eu almejava não são as mesmas coisas que eu almejo agora.

E eu acho que se dar conta de que dá pra mudar é muito, muito legal assim, sabe? Eu lembrei de uma ouvinte, não vou falar o nome dela porque eu não sei se ela permite a gente fazer esse exposed, mas você sabe quem você é. Que mandou uma mensagem pra gente falando que ela se sente um pouco desconectada das amigas porque a ambição dela, o desejo dela é se aposentar e não fazer nada. E ela vê as amigas vivendo uma— um constante desejo de fazer mais coisas.

E ela quer fazer menos coisas. Isso também é uma missão. Só que talvez a gente não esteja preparado pra lidar com isso, sabe? A gente tem— eu e você somos muito inquietas e a gente tem um pouco mais a característica das pessoas que querem continuar fazendo muitas coisas. Mas eu acho uma ambição muito válida você querer se aposentar ou querer ter uma renda X e viver a sua vida no seu lugar, com a sua vista, fazendo seu café da manhã.

Tá tudo certo, sabe? Eu acho que a gente tem essa coisa do que— de um estímulo à insatisfação, sabe? A vida inteira a gente tá sendo estimulado a querer mais, a desejar mais. O que tem nunca tá bom, sabe?

LGLarissa Guerra

A angústia de ter e o tédio de possuir.

MMMarina Melz

É, mas é que assim, o tédio de possuir, eu acho que, cara, não precisa ser tão entediante assim, sabe? Beleza, eu conheço pessoas que têm, compraram seu apartamento há muito tempo e ainda abrem a porta de casa e pensam, cara, olha isso aqui, você comprou seu apartamento no começo do ano, sabe, é sentir, prolongar um pouco essa sensação das nossas conquistas e não se render tanto ao excesso de estímulo que faz a gente esquecer as coisas que a gente passou, sabe?

É continuar sentindo um prazer imenso quando você, sei lá, faz alguma coisa que é uma coisa que você sabe o privilégio que é. Quando você vai treinar de manhã Eu sei que você sabe o tamanho do, assim, da maravilha que é você escolher o seu horário de treinar. Porque por muito tempo você não pode. E lembrar um pouco dessas coisas, sabe? Eu acho que a gente tem uma, sei lá, uma fórmula de sucesso, de vida perfeita, de o que que é ambição.

E aí, de novo, o livro do Michel Alcoforada é muito feliz quando ele fala que, cara, se a gente tivesse o apartamento que a gente sonhava aos 20, E o carro que a gente sonhava aos 20 não ia estar bom, porque a gente ia querer outro apartamento e outro carro e outro. A gente vive nessa roda de rato assim. Eu gosto muito do exemplo que ele dá dos móveis, né, que ele fala, ele tem uma passagem no livro que ele fala que se uma pessoa muito rica for num lugar no interior achar um móvel e colocar aquilo na na casa dela, aquilo tem um valor.

Se uma pessoa que não tem aquele acesso fizer, aquilo não é design, aquilo é só o que deu pra comprar, né? É a pessoa que pode estar com uma Louis Vuitton original andando na 25 de Março, que não vai ser roubada porque as pessoas vão achar que ela não é original, mas vai estar com uma Louis Vuitton falsificada em algum lugar que tem acesso e as pessoas vão ter, sabe? Então assim, é muito relacionado a coisas, as nossas ambições são muito relacionadas a coisas.

Eu acho que o que a gente tem como antiambição é mais outras coisas que não esses objetos, que não esses símbolos, que não esses signos, assim. Talvez a nossa ambição seja ressignificar o que é ambição.

LGLarissa Guerra

Total. Ai, que bonito isso.

MMMarina Melz

Ai, como elas são.

LGLarissa Guerra

Tô achando uma grande brisa esse episódio, mas tá maravilhoso. E uma outra coisa que também eu fico pensando assim é o que O que que é essa energia do conformismo assim, né? O que que é a gente se conformar? Porque fica meio, parece uma coisa derrotista assim, sabe? Você, ah tá, me conformei que é isso aí mesmo, né? Não exatamente algo que você quer, mas algo que enfim, não deu certo e foi assim. E uma outra coisa que eu tenho visto até com muita gente que eu conheço assim, muitas outras mulheres e tal, É a morte da vida ideal, assim, né?

Eu acho que nessa fase dos 30 e poucos anos, assim, inevitavelmente a gente se depara com um momento na nossa vida em que os nossos sonhos caem por terra, sabe? Seja o sonho de empreender, seja o sonho de ter uma família, seja o sonho de ter filhos, seja o sonho de viajar, sabe? Parece que em algum momento, assim, vem algo, assim, seja uma ruptura, alguma coisa que quebra esse paradigma assim. E eu acho que muita gente cresce com esse sonho assim de, ah, porque eu vou casar, eu vou ter filhos, eu vou nananã, aí eu vou ter uma casa, aí eu vou ter um cachorro.

É tipo uma música, acho que é do Luan Santana, né? Eu, você, dois filhos, um cachorro assim, sabe? E aí quando você descobre que não é todo mundo que vai ter essa vida, não é todo mundo que vai ser feliz tendo essa vida, ou que você talvez tenha essa vida, mas que por algum motivo ou outro ela não funcionou assim, eu acho que tem um choque de realidade muito grande assim. Para mim, este é o momento da vida em que a gente meio que vira adulto de verdade assim, sabe?

Que também é uma outra brisa que eu tô tendo muito esse ano assim, do que que é ser adulto de verdade. Talvez a gente tem que fazer esse episódio um dia assim, mas eu acho que ter esse, sabe, esse choque de realidade assim, um momento que, puta, acontece alguma coisa, ou sei lá, a morte de alguém às vezes significa esse momento de que você acorda e tipo assim, tá, realmente agora sou eu aqui juntando meus cacos e tendo que sobreviver e pagar as contas.

E às vezes juntando os cacos, sobrevivendo e pagando as contas e cuidando de outra pessoa e fazendo todo o rolê acontecer assim.

MMMarina Melz

É, eu acho que essa, essa tua reflexão faz muito sentido com aquele episódio que a gente fez sobre crononormatividade, que eu acho que é a grande, a nossa grande ambição tava relacionada a isso, né? Com 25 se formar, com 30 casar, com 35 ter filho, comprar apartamento, casa, se aposentar com 60 e viver a partir dos 60. Né, até lá a gente dá conta aqui do que a gente, dessas escolhas que a gente teve. E eu acho que se dar conta de que isso não vai acontecer também é libertador, também torna possível que as mulheres se divorciem mesmo tendo 2 filhos e um cachorro, como você citou, poeta Luan Santana.

LGLarissa Guerra

Mas que torna possível que esse episódio ele vai assim, ó, de uma A gente vai do Michel Alcofarado ao Luan Santana.

MMMarina Melz

A gente cita, é, mas é que é uma brisa, amiga, mas é uma conversa que eu acho que a gente tem que ter entre nós assim, sabe? Do que da vida que a gente tá vivendo, da gente conseguir olhar para as coisas que a gente já fez, para a vida que a gente tem agora. Me incomoda muito, muito, muito, muito estar com pessoas, conversar com pessoas E tão o tempo inteiro focadas no que vai ser. Porque o que vai ser é uma ilusão.

LGLarissa Guerra

Exato. No que vão ter. Uma coisa que me incomoda muito, assim, é gente que só tá preocupada em comprar, assim, sabe? É só consumir, é só consumir, consumir, consumir. Isso inclusive eu tava falando com uma outra amiga esses dias sobre uma criadora de conteúdo X, assim. E aí eu falei, cara, eu parei de seguir essa pessoa porque o conteúdo dela é baseado em consumo. É tipo, ai, tô aqui testando, comprando doce X, agora eu vou testar o secador de cabelo tal.

Tipo, eu fico pensando, cara, quanto essa pessoa gasta por mês, sabe? Qual é a necessidade que ela tem de ter todas essas coisas, de provar todas essas coisas? Tipo, gente, sabe? Isso pra mim é completamente vazio de conteúdo, não agrega em nada na minha vida, assim, sabe? E eu acho que é um pouco disso, assim. Quem tá muito nessa ânsia de um futuro incrível e milionário e etc., Mas assim, gente, nós estamos aqui, ó, apocalipse climático, tá 30 graus em Porto Alegre hoje, é 1º de agosto, sabe?

Eu adoro, eu adoro, mas eu fico preocupada, assim. O Guaíba tá cheião ali, tipo.

MMMarina Melz

É uma ansiedade generalizada, eu acho que a gente vive, assim. É a cultura da ansiedade na sua forma mais, assim, no apogeu da sua existência, assim. Que é, nós ficamos ansiosos porque a gente não dorme, porque a gente tá pensando na reunião que a gente vai ter amanhã de manhã. Num, é, numa visão macro, a gente não vive porque a gente tá pensando na vida que a gente vai viver amanhã. A gente não vive porque quando eu for promovida, quando eu tiver aquele emprego, quando eu conseguir dinheiro, quando— e de novo, fazendo aquele disclaimer de sempre, obviamente que a gente tá falando aqui de quem não tá em situação de risco, de quem é com recorte de gênero, de raça, de tudo isso que você já sabe.

Mas assim, dentro dessa nossa realidade, dos nossos grupos de pessoas, ainda assim eu acho que a cultura da ansiedade pelo futuro faz a gente assim viver pelo futuro, ambicionar o futuro e trazer ele para o nosso, para nossa vida todo dia. Sabe? De não vou, ou vou gastar isso porque vou parecer desse jeito, ou não vou fazer isso para guardar dinheiro para o apartamento que eu nunca vou comprar, ou vou comprar isso aqui para parecer mais desse jeito, ou sabe?

A gente vive sempre pensando no futuro e não acho que a gente vai resolver isso com um episódio, nem com uma sessão de amigas, nem com uma terapia, nem com nada, porque é cultural. De novo, eu acho que é Entender que é cultural me faz ter um alívio imenso de pensar que talvez eu não seja ambiciosa no mesmo lugar que todo mundo. E eu não sou. E eu não sou. E eu sou a esquisita do rolê. E eu sou a esquisita do rolê.

LGLarissa Guerra

Não, a minha ambição, inclusive, o meu compromisso com a minha natureza de não ser igual, tá?

MMMarina Melz

Com o das Aranhas. Você não conhece das Aranhas? Tá em outro lugar do país? Faça isso.

LGLarissa Guerra

Por favor.

MMMarina Melz

Uma das nossas bandas. Afetivas aqui de Santa Catarina. É, eu acho que isso, ser esquisito hoje é não sonhar com o carrão.

LGLarissa Guerra

E aí também uma outra nóia, uma outra ambição que eu tenho visto e que tá me incomodando muito é a tal da trend. E assim, eu leio muita newsletter, né, vivo mandando news assim para Marina, para a gente discutir e pensar em pautas. E tá rolando assim uma ânsia, uma ambição que é totalmente assim, que eu não vejo um fundo consistente nela, mas é do tipo assim, eu quero ser uma pessoa interessante, eu quero ser uma pessoa autêntica.

E é tipo assim, como ser uma pessoa interessante em 10 passos? Como ser uma pessoa autêntica em 15 minutos? Sabe? Como se isso não fosse resultado de uma construção de bagagem, de repertório, de uma vida inteira. Movida por interesses, por curiosidade, por ambições, inclusive também assim, né? Mas olha como é louco assim, eu acho que a partir do momento em que é fácil você, sei lá, parcelar em 10 vezes no cartão e comprar o celular X, como essas coisas que são intangíveis estão virando muito mais um símbolo de status do que o celular que é o celular da moda assim. Tá explodindo meu cérebro isso, tá?

MMMarina Melz

O ativo mais importante é o tempo passado, né? É muito doido, que é assim, é o livro que eu li ou que eu deveria ter lido e que agora eu preciso correr atrás para ser interessante, sabe? Para ser interessante. Mas ao mesmo tempo, de novo, é, talvez a tua interessância não seja a mesma das pessoas que têm os 10 passos. Talvez a tua interessância seja ter conhecido, sei lá, cortado cana e chupado cana no meio do mato, isso seja só seu, isso seja só interessante.

LGLarissa Guerra

E aí a padronização das coisas, né?

MMMarina Melz

É a padronização das coisas, né, amiga? Ser interessante é isso aqui, é essa caixinha aqui. Ser bonito é isso aqui, ser bem-sucedido é isso aqui. E a gente é a embalagem que a gente vai tentando desviar para tentar ter uma vida que a gente acha que é interessante. E eu acho que esse episódio conversa muito também, muito, com a minha grande brisa do ano, que é o que significa ser uma pessoa de sucesso para mim, para mim. E é muito difícil, sabe?

Quanto é o dinheiro de uma pessoa de sucesso para mim? Eu ainda não sei. Quanto é o, sei lá, o armário da pessoa de sucesso para mim? Como é a rotina de uma pessoa de sucesso? E eu ainda não sei, mas eu sei que a ambição que eu tinha de ser uma pessoa de sucesso que tinha tudo isso muito bem desenhado caiu por terra, não existe mais. Só que aí eu me sinto completamente perdida. Tentando desenhar uma expectativa de o que é sucesso para mim, sendo sempre esquisita do rolê, ambicionando uma coisa que para as outras pessoas é esquisitíssima, sabe?

Então a sensação de inadequação voltou junto com a sensação de inadequação que a gente tem com a repadronização dos corpos magros, com a recolocação da velhice no lugar de status, sabe? Com todas essas coisas assim. Então eu acho que a minha ambição hoje talvez seja estar um pouco mais em paz com as minhas ambições, com o que eu quero para mim assim, com o que, com a vida que eu vivo e com a forma como eu lido com ela. Qual é a sua ambição do momento?

LGLarissa Guerra

Ai, a minha ambição no momento é viver a vida que eu quero viver de acordo com as coisas nas quais eu acredito assim. E eu acho que eu E era uma coisa assim que eu acho que esse episódio talvez fique assim para quem está assistindo ou ouvindo a gente pensar, é o quanto das suas ambições se aproxima da realidade que você tem assim. E aí eu acho que isso mede muito uma vida bem-sucedida. Eu me acho muito bem-sucedida porque eu escolhi a vida que eu queria, porque eu banco a vida que eu quero, porque eu não devo para ninguém, porque eu não tenho nome sujo no Serasa. Isso é muito importante para mim.

MMMarina Melz

E eu tava esses dias, eu comprei um ar-condicionado usado, né?

LGLarissa Guerra

Eu tô emocionadíssima, gente, que eu comprei um ar-condicionado assim. Isso é uma grande felicidade do meu mês assim. E aí eu mandei para minha amiga dizendo, amiga, eu acho que assim, ó, já tá entrando uma graninha aqui, aí hoje eu vou te pagar porque eu odeio dever para pobre, tá?

MMMarina Melz

Minha ambição é essa.

LGLarissa Guerra

Vamos para mesa de bar. Ai, a nossa mesa de bar tem ambição de ser aquele momento descontraído aqui onde a gente compartilha dicas com você e a gente também dá os nossos recadinhos paroquiais. apoia.se/donasdapetoda para você contribuir com o Donas a partir de R$5 por mês. Você participa do nosso grupão de fofocas que essa semana foi movimentadíssimo, com várias falas aí repercutindo o nosso episódio sobre ficar pelada e mudanças no corpo de cada uma.

Depois a gente entrou num papo lá falando sobre tamanho do guarda-roupa, foi muito bom assim. E você também tem vários outros benefícios, como nosso Clube do Livro, que é em parceria com o Pós Fácil Podcast. Agora em agosto a gente tem um encontro para falar sobre o livro 3 da Valérie Terran. Temos ainda o Clube do Papinho, tem vários outros benefícios aí para você.

MMMarina Melz

Exatamente. E sempre Cabe lembrar que você tem um outro benefício maravilhoso de estar com a gente, de ter ouvido até aqui, que é o desconto no Clube Pitaya, na assinatura de lingeries Pitaya. A gente é apaixonada por essas mulheres, pelo que elas fazem, pelo, por como elas nos fazem sentir. Quando você todo mês recebe um kit cheirosíssimo, cheio de mimos, de lingerie na porta da sua na sua casa para você usar e se olhar no espelho e se sentir gatinha, para você usar um dente, para você ficar em casa cheirosa, cremosa, cheia de cremes e usando uma lingerie bonita.

É um momento muito delicioso do mês, a gente ama. Então se você ainda não conhece a Pitaya, conheça. É um clube de assinaturas que você paga um valor e recebe todo mês na sua casa lingeries com modelagens belíssimas, rendas belíssimas, muitas inclusive inclusive que você, se você olhasse na loja, talvez você não provasse. E aí chega e você pensa o quê? Vou provar, já que Pitaya me mandou. E aí você se sente uma grande gostosa e você perderia essa oportunidade se Pitaya não existisse.

Então faz isso, vai lá em Assine Pitaya, o link tá na descrição do episódio, e também tem o cupom de desconto do Donas para assinar com valor especial.

LGLarissa Guerra

Inclusive, nesse mês de agosto, a coleção é de aniversário aniversário da Pitaya e tá assim lindíssima. Eu estou ansiosa para receber dessa vez. Ah, se puder, vai lá, gente, cupom DONAS15. E aí, Marina, suas dicas?

MMMarina Melz

Quero começar minhas dicas por uma série que eu estou completamente apaixonada. Eu vou virar uma pessoa que vai dizer: você tem um minuto para ouvir a palavra da série Que é a série Parceiras no Crime, da Amazon Prime. É com duas atrizes espetaculares. Eu sou péssima de nome de atriz, gente. Não falo inglês, sou péssima de nome de atriz. Então vocês vão lá, vocês vão ver que elas são maravilhosas. Mas são duas atrizes espetaculares.

É uma série sobre— que tem como enredo uma amizade de 25 anos em que uma das pessoas é uma assassina e a outra não sabe. Ela faz de conta que ela é perita contábil. Tudo a ver. E aí a série se desenrola a partir dessa descoberta. Tem momentos muito lindos. É uma série de crime e que tem uma certa emoção, mas tem enredos muito interessantes assim sobre abandono, sobre a relação que a gente tem com as pessoas. Tem uma cena no último episódio que quem vê vai lembrar das coisas que eu acho mais linda de todas do primeiro livro da Valerie Perrin que a gente leu, que foi o Água Fresca, que é uma mulher que tem um vestido colorido e se veste de preto por cima para emular um luto assim.

Ai, mexeu comigo, tá? Uma série maravilhosa, dei muitas gargalhadas. Assisti com o Bruno, que é uma pessoa que costuma assistir séries de ação, e ele achou espetacular. Então não é uma série de garotas bobinha de cérebro embaixo da torneira, é uma série realmente muito boa. E a minha segunda dica é o primeiro episódio do podcast O Berro do Boi, da Trovão Mídia com a Revista Piauí, que tá contando a história dos irmãos Joesley da JBS e a relação deles com a política, com o poder.

O primeiro episódio já é espetacular e agora vai ter episódios semanais. Então acompanha comigo pra gente ir comentando. E você, amiga?

LGLarissa Guerra

Eu vou dar uma dica de uma minissérie que tá disponível na HBO Max, que que é DTF Saint Louis. Tu indicou essa série também? Não, eu tinha lembrança que você tinha indicado. Mas enfim, uma série com o xerifão lá do Stranger Things. E é uma série que fala de um crime, morre uma pessoa nessa série. Mas é também uma série que fala sobre masculinidade, sobre ambições, sobre os nossos desejos ocultos, sobre sexualidade. De como as coisas são muito mais, as nuances são muito mais tênues assim do que costuma se imaginar, tá?

E aí outra dica que eu vou dar, um vídeo que parou para mim hoje cedo, que eu fiquei assim tipo, meu Deus, conteúdo maravilhoso, muito obrigada por ter feito esse conteúdo, enriqueceu a minha vida durante sei lá 2 minutos, que é a Laila Razo no Instagram, L Razo. Ela é uma criadora de conteúdo, e ela fez um vídeo que começa falando que ela tava procurando o umbigo do cachorro dela. E aí ela faz toda uma, sabe, ela faz toda uma construção para falar sobre a palavra umbigo.

É assim, ela virou tipo especialista em umbigo nesse vídeo. Assim, ó, é maravilhoso. E eu preciso contar que assim, eu Eu tenho pavor de umbigo, gente. Eu odeio umbigo. É uma das coisas mais assim que tipo não dá para mim assim, sabe? Eu não me conformo que a gente tem umbigos. Mas tudo bem que eu acho que ia ser bem mais esquisito se a gente tipo não tivesse. Mas assim, umbigo é um negócio que me dá um assim, sabe, um certo— aí quando eu vi o vídeo eu parei nele e eu fiquei tipo, eu não acredito que eu estou fascinada por umbigo.

MMMarina Melz

Ai, amiga, você é uma pessoa muito particular, sério. Te amo tanto. Ai, também te amo, amiga. É isso.

LGLarissa Guerra

Não, por favor, não me mandem fotos de umbigo, tá? Eu acho umbigo um negócio pavoroso.

MMMarina Melz

Não dá. Ai, juro, eu não tenho como encerrar, não tenho condição. Gente, tchau, até semana que vem. A gente fez um episódio completamente brisado, terminou com a Larissa fazendo esse disclaimer sobre umbigo. É isso aí, é o nosso Gente, tá? Até semana que vem. Beijos, tchau!

LGLarissa Guerra

O Donas da Porra Toda é uma produção independente. Produção, roteiro e apresentação: Larissa Guerra e Marina Melos. Edição e tratamento de áudio: Bruno Stolfi. Mais informações no site www.donasdapetoda.com.br ou nas redes sociais no @donasdapetoda.

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