Episódios de Donas da P* Toda

#331 - O que á a gestão do estresse, com Mônica Gurjão

21 de julho de 202653min
0:00 / 53:30

Tal qual nos alertar sobre a necessidade de consumir mais água no dia a dia, os médicos, terapeutas e profissionais da saúde de todas as especialidades têm nos alertado: precisamos aprender a fazer o que eles chamam de “gestão do estresse”. Mas, pera: como é possível fazer isso se estamos afundados em um mundo que causa cada vez mais ansiedade?

No episódio da semana, junto com a doutora em psicologia social, Mônica Gurjão, vamos conversar sobre quais são os cenários externos que causam um aumento enorme do estresse e quais são as nossas decisões individuais que podem minimizar os seus impactos.

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Produção, roteiro e apresentação: Larissa Guerra (@larissavguerra) e Marina Melz (@marinamelz).

Edição e tratamento de áudio: Bruno Stolf (@brunostolf)

Todas as informações em ⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠www.donasdaptoda.com.br⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠ e ⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠@donasdaptoda⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠.

Participantes neste episódio3
L

Larissa Guerra

Host
M

Marina Melz

Host
M

Mônica Gurjão

ConvidadoPsicóloga
Assuntos5
  • Causas do EstresseReação natural do corpo · Causas do estresse · Sintomas físicos e psicológicos
  • Rodadas BrasileirãoPaís mais estressado do mundo · Estresse financeiro · Estresse no trabalho · Burnout
  • Lidando com o Estresse: CopingDespatologização da vida · Capacidade de sonhar · Tempo de tédio · Gentileza consigo mesmo
  • Transformação do mundo do trabalhoPrecarização do trabalho · Responsabilização individual · Gestão algorítmica · Ideologia do empreendedorismo
  • Sacrifício financeiro e meritocraciaIdeologia meritocrática · Expectativas individuais · Comparação social
Transcrição65 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
LGLarissa Guerra

Assim, de bate-pronto: você tá estressada hoje? O meu nome é Larissa Guerra, eu não me considero uma pessoa estressada, ainda que eu esteja assim com os ombros, o pescoço completamente travados de tensão.

MGMônica Gurjão

Olá a todas, todes que estão aqui nos ouvindo, eu sou a Mônica, sobrevivendo entre um estresse ou outro, mas sobrevivendo, né? Às vezes tensa, às vezes rindo.

MMMarina Melz

O meu nome é Marina Melz e eu já adotei o olho tremendo como uma assinatura de estilo, de tão comum que ele se tornou. Mas tem momentos que a tremedeira é num ritmo de samba, tem ritmos que é bossa nova, mas tá sempre ali. Tal qual nos alertar sobre a necessidade de consumir mais água no dia a dia, os médicos, terapeutas e profissionais de saúde de todas as especialidades têm nos trazido mais um alerta: nós precisamos aprender a fazer o que eles chamam de gestão do estresse.

Mas assim, como é que é possível fazer isso se a gente tá afundado no mundo que causa cada vez mais ansiedade? Hoje, junto com a doutora em psicologia social Mônica Gurjão, vamos conversar sobre quais são os cenários externos que causam esse aumento enorme do estresse e quais são as nossas decisões individuais que podem minimizar os seus impactos. Segura o olho tremendo e vem com a gente. Boas-vindas ao Donas da Porra Toda! Donas, donas, donas, donas, donas da porra toda!

LGLarissa Guerra

O Brasil é o 4º país mais estressado do mundo, de acordo com o World Mental Health Day 2024. No estudo, 54% apontam a saúde mental como o seu principal problema, um número que cresceu mesmo depois da pandemia.

MMMarina Melz

E isso tem várias motivações práticas. Uma delas, o dinheiro, é um fator que impacta gigantemente no estresse dos brasileiros. Segundo uma pesquisa divulgada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros de Capitais, 47% dos brasileiros têm estresse financeiro alto e outros 48% convivem com o estresse em nível médio. A preocupação financeira impacta o sono de 37% dos brasileiros e para 29% das pessoas é motivo de discórdia em casa, o que, claro, aumenta muito o estresse.

LGLarissa Guerra

O trabalho é outro ambiente cada vez mais ansiogênico, onde o aumento do estresse traz consequências práticas, como o número de afastamentos por saúde mental, que cresceu 15% em 2025 no Brasil, e a ansiedade lidera as motivações com cerca de 30% dos casos, mas o estresse está entre os 5 casos mais alegados pelos trabalhadores. E entre as faixas etárias, os jovens sofrem mais. De acordo com o estudo do Panorama do Bem-Estar Corporativo 2026, 55% da geração Z e dos millennials relatam níveis crescentes de estresse ano após ano.

Entre os baby boomers, o número cai para 38%. Segundo essa mesma pesquisa, 9 em cada 10 profissionais apresentaram sintomas de burnout.

MMMarina Melz

Números, números, números, todos eles nos apontam para o mesmo lugar, que é a necessidade da gente falar sobre estresse. Então, para conversar sobre tudo isso que parece muito difícil e também entender como a gente pode tentar fazer a tal da gestão do estresse, mesmo afogadas nesse universo, A gente vai receber hoje a psicóloga e doutora em psicologia social pela PUC, Mônica Gurjão. Além de atender, a Mônica também é autora de um livro recém-lançadíssimo, muito recente mesmo, né, Mônica?

O Trabalho na Era da Plataformização: O Algoritmo da Desigualdade no Brasil. Então assim, ela tem um monte de coisa para falar, a gente tem um monte de dúvida para tirar. Vem com a gente, boas-vindas, Mônica.

MGMônica Gurjão

Muito obrigada, é um convite assim muito especial para estar falando de todos esses números, de todos esses dados que são alarmantes. Mas que convidam também, né, a nossa reflexão, a nossa ponderação. Então, prazer estar aqui conversando com vocês.

LGLarissa Guerra

Mônica, vamos começar de um jeito bem assim beabá. O que que é o estresse de uma maneira bem simples e resumida?

MGMônica Gurjão

Bom, de uma maneira bem resumida, o estresse é uma reação de certo modo até natural a eventos que podem causar medo, tensão ou pressão. Então, quando a gente está numa situação de medo, de pressão, de tensão, é natural que o nosso corpo reaja produzindo hormônios, produzindo estresse, até para nos preparar a essa reação. Agora já fica talvez assim um gancho para a gente pensar: pô, mas o que causa então essa tensão na gente? O que a gente vai lendo como tensão?

Aí talvez é que mora algumas preocupações que a gente com certeza vai conversar aqui. Porque num primeiro momento, o estresse é uma reação até esperada do nosso organismo e também do nosso psiquismo, né?

MMMarina Melz

Então, o problema não é o estresse, mas é o volume e a forma como ele tá chegando pra gente. Eu acho que pra ficar mais fácil da gente entender, eu acho que a gente podia dividir essa conversa entre o macro, que são os fatores que causam estresse na nossa vida, e o micro, que é a forma como a gente consegue lidar com ele. Então, pra gente falar primeiro desse contexto, O que que nas nossas rotinas impacta tanto para que esse número de afastamentos por estresse, para que essa sensação de estar estressado, para que esse aumento de burnout esteja crescendo tanto nos últimos anos?

MGMônica Gurjão

É uma excelente divisão para nossa conversa, né, a gente pensar no aspecto macro e micro, para a gente pensar, bom, se o estresse num primeiro momento é essa reação que até fisiologicamente é esperada, O que que começa a ficar preocupante? Então, quando a gente olha para o fenômeno macro, principalmente no campo do trabalho, da psicologia social do trabalho, que é o que eu venho estudando, a gente vê a precarização do trabalho caminhando assim a rodo no Brasil.

A gente vê também um nível de desemprego que vai se estabilizando ali na juventude. Há pouco a gente abriu nossa conversa falando da juventude aí como estressada. Então, se a juventude está estressada, me parece que eles têm uma razão, porque o desemprego, a precarização, os trabalhos que são até mais vulneráveis muitas vezes são ofertados para a juventude. Então, num fenômeno macro, a gente vê um capitalismo neoliberal, principalmente nessa esfera do trabalho, que tem ofertado pouca esperança e que vem ofertando os trabalhos cada vez mais plataformizados, né, que é a temática do meu livro.

E qual é o problema, né, Mônica, de um trabalho plataformizado? Pô, uma plataforma é legal, é tecnologia, mas é um espaço de trabalho onde você é o mais completamente responsável por tudo, por toda a gestão da sua vida, do seu trabalho, de todas as responsabilidades. Então essa crescente responsabilização e exigência das pessoas, isso causa estresse. Isso causa até um adoecimento, a depender da medida de como isso se apresenta, né?

Então, no nível micro, sim, a gente vê números alarmantes que, né, há pouco vocês comentaram. A gente vê o Ministério do Trabalho publicando que a gente tem 500 mil pessoas, 500 milhões, perdão, de pessoas adoecendo devido ao trabalho, devido ao estresse, devido ao burnout, devido à ansiedade. Então, se as pessoas elas estão adoecendo no nível individual, é porque essa sobrecarga ela vem sendo alta. Então, no nível micro, a gente vê que as pessoas, principalmente mulheres, mulheres negras sobretudo, elas estão adoecendo tentando dar conta dessa demanda, exigência, pressão que parece que é cada vez mais constante e impactante.

MMMarina Melz

Eu acho que tem uma coisa que talvez caiba a gente falar aqui, porque quando a gente fala em plataformização, né, Mônica, tende-se muito a pensar em Uber, né, assim, coisas, profissões muito específicas. Mas eu acho que tem um conceito de plataformização que você aborda um pouquinho, que é outras plataformas que muitas vezes a gente nem percebe que são plataformas. Então, a criação de conteúdo, por exemplo, a locação de Airbnb, você ficar responsável por uma locação de Airbnb, Você fazer um BlaBlaCar no fim de semana para ajudar a bancar suas viagens.

Isso tudo faz parte desse contexto de plataformização, que eu acho que parte de um lugar muito específico, que é: ou te vendem como uma oportunidade de empreendedorismo e de gestão do próprio tempo, o que é um equívoco, claramente, ou te vendem como uma renda extra. E como tá muito difícil a gente encontrar pessoas que têm só uma fonte de renda, É muito difícil, é cada vez mais difícil, porque não dá conta, né? O dinheiro do emprego formal, do CLT, enfim, não dá mais conta.

Então, como a gente tem muitas fontes de renda, quase que inevitavelmente uma delas vai acabar tendo alguma conexão com essas plataformas, né?

MGMônica Gurjão

Perfeito. Muitas vezes a gente imagina o trabalhador plataformizado, o motorista do Uber, o entregador do iFood, e a gente pensa: olha, isso não é problema meu. Mas as plataformas, elas estão cada vez mais presentes. Eu costumo brincar: se seu trabalho ainda não é plataformizado, é tudo uma questão de tempo. Pode ser que amanhã ele seja, ou pode ser que ele já seja e você nem percebeu. Porque talvez você pensa: olha, eu sou uma psicóloga e eu preciso captar meus pacientes.

E onde você vai fazer isso? Ah, eu tenho que criar uma conta, né, no Instagram, no TikTok. Ah, eu preciso uma boa imagem para impressionar as pessoas ali no LinkedIn, né? Quem sabe meu networking melhora. O LinkedIn também é uma plataforma. Então a nossa vida cada vez mais é mediada por essas infraestruturas que às vezes a gente pensa assim: ah, é uma estrutura só tecnológica, é tecnologia. Mas a gente precisa começar a olhar a plataforma não só como uma infraestrutura tecnológica, mas como infraestrutura sociotécnica.

Porque é mediado por muitas relações sociais e interesses sociais. Então, quando eu tô lá na plataforma, eu quero aparecer, eu quero ter views e like, isso é mediado. Porque quem decide? O algoritmo. Então, não é simples chegar numa plataforma e dizer: agora eu vou empreender aqui, conseguir seguidores. Na verdade, eu tenho que entender o que que tá por trás do algoritmo. Como é que eu consigo esses seguidores? Como é que eu consigo chegar ao meu público?

Então, por trás, na verdade, dessa ideologia de que a gente pode só empreender e que é simples, e que assim, se eu quiser eu posso, querer é poder, a gente vê que se esconde muita coisa, muita coisa. Nas plataformas, por exemplo, a gente vê que se esconde uma gestão algorítmica. É o algoritmo que tá ali, você vai ter que trabalhar para aquele algoritmo. Hoje eu produzi um Reels, deu, sei lá, 10 mil visualizações. Amanhã esse Reels pode não bater nem 2 mil.

Ah, eu tenho que entender agora o que é que o Instagram quer de mim, eu tenho que entender o que o LinkedIn quer de mim, eu tenho que entender o que que as mais diferentes plataformas exigem do meu trabalho. Então, para aqueles que acham que querer é poder, é só empreender, na verdade isso vai trazer assim muitas vezes um adoecimento psíquico. Que é muito frequente a gente ver na clínica, as pessoas adoecendo, se autocobrando, como se fosse uma responsabilização individual que pode resolver problemas que são até de ordem macro, de ordem estrutural.

Então, o empreendedorismo, eu diria que é uma boa de uma maquiagem sobre muitas vezes um trabalho que ele é explorado, que ele é um trabalho que acontece assim com ausência de direitos. Então acho que cabe muito, isso é uma coisa que eu discuto na obra, a gente desmascarar o empreendedorismo. Eu costumo brincar assim: você tá rica, você tem dinheiro para investir e tá fazendo isso mesmo por um sonho, então você é empreendedora.

Agora, se você precisa colocar um investimento em algo esperando um retorno para sobreviver, para viver daquela renda, então deixa eu te fazer um chá revelação que você não é tão empreendedora assim. Você pode, na verdade, ser uma trabalhadora ou um trabalhador que tá fazendo isso mesmo para sobreviver. Então, se é o caso, vamos repensar aí esse discurso de empreendedorismo. Tomorrow morning is knocking. Stock your fridge now.

How about a creamy mocha frappuccino drink? Or a sweet vanilla? Smooth caramel, maybe? Or a white chocolate mocha? Whichever you choose, delicious coffee awaits. Find Starbucks frappuccino drinks.

MMMarina Melz

Incrível.

LGLarissa Guerra

Esses dias atrás eu até comentei com a Marina, justamente essa tua fala casa muito bem com o episódio do café da manhã que rolou, acho que semana passada, falando um pouco sobre precarização de trabalho e tal. E o entrevistado falava exatamente a mesma coisa assim, de que vende-se uma ideia de que tudo é empreendedorismo, mas na verdade a gente precisa entender que às vezes não é empreendedorismo, às vezes é estratégia de sobrevivência, né?

Às vezes você só tá tentando garantir a grana para pagar tuas contas, para botar comida dentro de casa, para conseguir sustentar um filho, para não precisar de mobilizar toda uma rede de pessoas para você poder ir trabalhar, né? Mas, Mônica, eu queria pegar também agora, partir para o outro lado assim dessa perspectiva mais individual, que mesmo que a gente obviamente, né, passa por esse contexto mais amplo, é inevitável que que vai acontecer.

A gente tá também tomando decisões que aumentam o nosso nível de estresse no nosso dia a dia?

MGMônica Gurjão

Eu acho uma excelente questão, porque quando a gente pensa que esse empreendedorismo, essa cobrança, né, ela cai sobre as pessoas, cai sobre as mulheres, por exemplo, então a gente passa a exercer essa cobrança na gente. A gente passa a pensar, ah, para ficar magra, para ficar bonita, para ficar assim super produtiva e para dar certo no trabalho, para crescer, tudo depende só de mim. Essa autocobrança que é levada muitas vezes assim a um regime máximo, ela é adoecedora.

Mas é importante dizer que ela não é criada só da nossa cabecinha, né? Então, para as mulheres que estão nos ouvindo, para os homens também, calma que não é tudo culpa sua. Existe toda uma construção ideológica para que você absorva esse tipo de ideia. Para que você durma, acorde pensando que tudo só depende de você. E aí eu colocaria até a expressão de uma ideologia meritocrática, que leva a gente pensar que com base no máximo esforço a gente consegue as coisas.

Só que essa ideologia que é tão apregoada em tudo, né, eu costumo até trazer exemplos do dia a dia. Você passa ali na parada de ônibus, há pouco eu tava dirigindo, passei, tinha lá Dor de cabeça? Resolva o seu problema. E tinha lá um medicamento, né? Ah, você está se sentindo cansada, sem energia? Tá aqui outra solução para você. Então, a todo momento a gente é incitada a resolver o nosso problema e dar a máxima performance. A gente acaba absorvendo essas ideologias e acaba adoecendo por isso.

Então, eu diria que num primeiro momento, né, convido a quem tá aqui nos ouvindo Pensar como você tá absorvendo esse tipo de ideia, que cobrança você tem feito sobre você, quais são as expectativas que você tem gerado, né, quais são as propagandas que tem feito aí você acreditar que basta você se esforçar que você consegue. Eu não tô aqui dizendo que você é incapaz, mas eu tô te dizendo que nem tudo depende só de você. A gente abriu aqui a conversa falando: existe um cenário macro Então esse cenário macro muitas vezes vai atravessar sua vida e ser um dificultador.

Eu acho que cabe a cada um, a cada um inclusive fazer primeiro essa reflexão, né, consciência assim: qual a minha classe social? Qual a minha raça? Qual meu lugar aqui nessa sociedade? Qual a minha idade? Porque a depender da maneira que você tá situada, poxa, talvez tenham muitos dificultadores. Talvez já tenham muitos fatores estressantes na sua vida, né? Então às vezes é muito lamentável. Até tô ali conversando com algumas pacientes que se sentem assim, cara, eu fracassei na vida.

Mas você olha para a vida daquela mulher, ela tem filhos para criar fazendo maternidade solo, é a cobrança, é o trânsito em São Paulo. Pô, você não fracassou. Talvez tudo que você tá fazendo é sobrevivendo Há agentes que são naturalmente estressores, né, que é o começo da nossa conversa. Tem coisas, o trânsito, a poluição, muitos estímulos visuais, muita cobrança, pô, naturalmente isso é estressor. Então talvez você até seja gentil com você, começar daí.

Eu às vezes tô só sobrevivendo e isso já é muita coisa, a depender do cenário, isso já é muita coisa.

MMMarina Melz

Super, acho que tem uma coisa que você fala sobre fracasso que é uma reflexão que a gente já fez aqui e que me toma sempre que a gente fala sobre essa sensação de insuficiência assim, né? Que é o que que é o sucesso? Se fracasso é o que a gente tá vivendo, o que que seria o sucesso possível dentro de todas essas nossas questões que aí para cada pessoa vai ser diferente, né? Porque também eu tenho uma sensação de que a gente fica numa roda de rato querendo conquistar coisas que a gente nem quer de verdade, que a gente nunca parou para pensar se a gente quer.

Eu nunca parei para pensar se eu quero ter aquela roupa, aquela casa, aquela louça, aquele— mas a gente é levado a acreditar que a gente quer. E aí nunca vai ser suficiente quando a gente não sabe o que é o suficiente, quando a gente não para para refletir sobre o que é o suficiente. Então eu acho que muito do estresse em todos os lugares também tem essa, esse fiozinho, né, esse fiozinho invisível assim, que é: eu estou estressado ou infeliz no meu trabalho, mas qual a expectativa que eu coloco nesse trabalho?

Eu estou estressado ou infeliz no meu relacionamento, mas qual a expectativa que eu coloquei naquele relacionamento? Porque acho que as nossas expectativas, elas estão tão altas sobre tudo, porque a gente tá se comparando o tempo inteiro com coisas assim, que parecem mágicas e perfeitas, que também a sensação de insuficiência tá cada vez mais longe da gente. Assim, é um grande, é um grande lugar que a gente pode perseguir pela vida inteira, assim.

E aí eu queria puxar um pouco sobre quais são os sintomas desse estresse, assim, porque quando a gente fala, enfim, que estamos estressados, eu não sei qual é a percepção para vocês, mas para mim A sensação é que o estresse é para fora, né? Que é estressado, é raivoso, é brigando, é alguma coisa nesse sentido. E aí, nessa pesquisa do mapa da felicidade real do brasileiro, 1 em cada 3 brasileiros dizem que convivem com a falta de motivação.

A falta de motivação, essa fadiga, essa sensação de cansaço constante, essa certa melancolia assim, faz parte, pode fazer parte também de um conjunto de sintomas que a gente não, muitas vezes não liga ao estresse, mas também é reflexo dele?

MGMônica Gurjão

Excelente questão, né? Te ouvindo, eu fiquei aqui pensando que assim como tem ideias do que é sucesso, e foi assim excelente essa colocação, o que que a gente tá lendo como sucesso? O que que tá posto para a gente como sucesso? Também existem ideias sobre o que é estar estressado. O que que se espera de alguém que tá estressado? O que que se espera de alguém que tá com burnout, né? Há um tempo atrás, né, eu atendi uma pessoa que tava com burnout na empresa.

As pessoas questionavam: não, mas você não parece estar com burnout, você não parece estar estressada.

LGLarissa Guerra

Você tem que ficar, nossa, né?

MGMônica Gurjão

Você não tá arrancando seus cabelos, você não tá roendo sua unha, e você parece extremamente performática. Então você não tá estressada nem com burnout. Então essa lente questão O que que a gente espera como manifestação de estresse ou de burnout? E aí é difícil porque não existe uma resposta única. A gente não vai ter um único modo da pessoa expressar esse estresse, expressar o burnout. Nesse momento eu gosto muito de pensar aqui com Byung-Chul Han.

O Byung-Chul Han é um filósofo que tem a obra A Sociedade do Cansaço e ele vai falar que, por exemplo, o indivíduo que está deprimido Não é aquele indivíduo que a gente costuma imaginar só triste, derrotado, mas é também aquele indivíduo que já pode ter realizado um alto esforço, um alto esforço adaptativo no mundo que promete para ele maravilhas, e ele pode estar exausto disso, colapsando, porque no mundo que promete tudo talvez ele comece a se sentir incapaz.

Uma pessoa com burnout pode ser alguém que queimou Chegou a exaustão e ela pode estar se mostrando extremamente apática. Alguém com estresse pode também se tornar altamente apático, como também alguém pode estar manifestando uma depressão, mas como a gente costuma dizer, funcional. Você olha e pensa, mas você não tá parecendo deprimida. Então cabe a gente até a princípio desfazer esses rótulos e desfazer o que que a gente espera.

Cada sujeito, cada pessoa vai ter um jeito muito muito único de manifestar estresse, né? É até como um abraço aqui às mulheres. Poxa, eu convivo com tantas mulheres, escuto tantas mulheres que estão numa carga altíssima de estresse, mas estão se mantendo ali atentas, ativas e fazendo tudo. A roupa tá limpa, a comida tá feita. E quando essa mulher declara que tá estressada, pô, ninguém acredita porque tá tudo acontecendo. Então a gente até desmistificar o que a gente acha que é estresse.

Eventualmente algumas pessoas estão assim autogravando de estresse, mas desempenhando uma série de papéis ali de maneira funcional. Como também pode acontecer o contrário, alguém tá altamente estressado e pode até não tá desempenhando seus papéis, pode estar procrastinando. Pessoas estressadas, elas podem também estar em procrastinação. A gente costuma—

MMMarina Melz

procrastinação é o meu primeiro sintoma de quando eu tô muito estressada, tá? Primeiro, primeiro, primeiro.

MGMônica Gurjão

E aí a gente costuma, não, tá procrastinando é porque não quer nada, tá com preguiça. Não, a pessoa que procrastina ela pode estar altamente estressada também. Então, bom, quem tá nos ouvindo, talvez fica o convite de pega o seu rótulozinho, guarda ele para você, porque não é fácil a gente rotular pessoas assim.

LGLarissa Guerra

Eu tô dando risada também pensando que assim, eu e a Marina, acho que a gente manifesta o estresse de maneiras um pouco diferentes. Assim, porque eu sou a pessoa do reclamo, mas faço assim, sabe? Então eu vou lá e faço, porém com humor assim azedíssimo, assim insuportável, sabe? E para mim o estresse ele manifesta muito no corpo, né, principalmente assim com rigidez muscular. Então por isso que eu faço questão de fazer academia todo dia, de tentar ter uma rotina de sono para para não ficar maluca de vez assim, porque senão acho que hoje eu até falei para uma amiga minha, ai, eu só tenho certeza que eu não enlouqueci ainda porque eu acho tudo muito engraçado, sabe? Porque senão eu já tava doida assim.

MGMônica Gurjão

Mas eu rindo, mas tô rindo de nervoso.

LGLarissa Guerra

Eu também, mas rindo de nervoso, rindo de pistola, rindo de irritada, é dessa forma. Mas eu também queria falar um pouco sobre esses outros outras manifestações no corpo assim, que eu acho que é onde acaba ficando muito mais visível para gente, né? Por exemplo, a minha mãe é uma pessoa cronicamente estressada, tá? Sempre foi assim. Minha mãe é ariana, então ela, o negócio dela é sempre assim num nível altíssimo de estresse. E isso estoura muito em sono, por exemplo, em úlcera no estômago.

A gente tava explicando para o meu afilhado essa semana, a avó tá com uma úlcera no estômago dela.

MMMarina Melz

Mas do quê?

LGLarissa Guerra

Que isso? Daí a gente falou, não, às vezes é por conta de estresse e tal. Eu sei que cada um manifesta de um jeito diferente, mas a gente consegue fazer uma listinha assim de o que é mais comum assim? O que que você encontra de relatos mais comuns de manifestações físicas de estresse?

MGMônica Gurjão

É uma pergunta super interessante. Na psicologia a gente estuda psicossomática, né? E é interessante como o estresse reverbera no corpo, às vezes por conta de não poder ser falado e não poder ser elaborado. Sabe quando a pessoa tem que continuar e vai passar por cima de todos os seus limites e muitas vezes ela não pode nem falar para si mesma, né? Acho que eu levanto às vezes minha mão aqui, né, também. Mas a gente vê de diversas maneiras, né?

Frequentemente o que a gente vê é queda de cabelo, alergias de pele. Eu também falo aqui, né, no meu caso, em refluxo.

MMMarina Melz

Refluxo é uma coisa bem comum.

MGMônica Gurjão

Aí a gente vai no médico, ele fala assim: o que que você tá comendo? O que que— aí você fala da sua alimentação, ele: mas você tá estressada? Então é isso, né? O estresse. Ô meu anjo, tá fácil, é só parar de ficar estressada, né, doutor?

LGLarissa Guerra

Então, bom, toda vez que alguém me pergunta se você tá estressada, eu pergunto: e você não tá? Quem é que não tá?

MGMônica Gurjão

Honestamente. Então, o refluxo, a queda capilar, unhas, né, pele, a gente, eu acho que cada pessoa vai ter sua manifestação, mas eu acho que há pouco a Larissa falava também isso das costas travadas, da gente perdendo a tonacidade muscular, sentir o corpo. Muitas pessoas às vezes até dizem, mas eu passei o dia sentada trabalhando, como é que meu corpo tá tão dolorido? Como é que Um, você tava trabalhando, mas também você não tava recebendo aquele email lindo, né, dizendo que você é a pessoa maravilhosa.

Você tava recebendo aquele email difícil, aquele WhatsApp te cobrando, e tudo isso vai tensionando no corpo. Então, rigidez muscular, principalmente essa região das costas, dos ombros. Eu acho que às vezes é o corpo da gente dizendo assim, né, por favor, para. Só que a gente vive num sistema que às vezes a gente tá passando por cima disso. Então acho que muitas vezes a gente mais se medica para passar por cima do estresse, para silenciar o estresse, do que cria uma oportunidade real de ouvir esse estresse quando ele já tá no corpo, né?

Às vezes a gente quer assim, não, fica aí de boa, esquece a dor e segue. E aí a gente vai negociando o estresse até com o nosso corpo, né?

MMMarina Melz

Problema do olho que treme é que não tem remédio, menina. O olho que treme é um negócio que me irrita profundamente porque não tem, entendeu?

LGLarissa Guerra

Eu queria um relaxante muscular.

MMMarina Melz

Eu queria um troço, mas não adianta, nada, nada acontece, ele fica. E aí bota coisa gelada e bota coisa quente, bota coisa, e ele fica, entendeu? E é sempre, sempre essa loucura assim. E é muito maluco porque o meu sintoma maior é o olho tremendo, né? Você tá sempre, em resumo, assim, sempre. E é muito engraçado porque às vezes assim eu tô tomando café da manhã E aí Bruno olha para mim e fala, cara, como é que o teu olho tá tremendo?

São 8 da manhã, teu dia nem começou, sabe? Mas é o lance da carga mental absoluta assim que acompanha a gente em todos os nossos, em todos os nossos lugares. Eu quero te perguntar, quando que esses sintomas todos e esses pensamentos todos configuram uma carga de estresse? Porque a mesma pesquisa do Mapa da Felicidade diz que 40% dos brasileiros já se sentiram tão estressados que acharam que não iam conseguir lidar com a sua rotina normal e com suas obrigações normais do dia.

Essa incapacitação, essa sensação de incapacidade é o que deve levar as pessoas a procurarem de fato uma ajuda, um diagnóstico? O que que é o normal, estressado normal que a gente vive, mulheres 2026? E o que que faz isso pular para uma questão mais grave que precisa ser acompanhada com mais cuidado?

MGMônica Gurjão

Então, como a gente falou inicialmente, o estresse é uma resposta adaptativa a uma situação tensa, um medo, uma pressão. Então, se você não tem estresse nenhum e tá ouvindo aqui a gente, eu diria que também tem algo preocupante aí, porque você vive aqui no capitalismo neoliberal, século 21, no Brasil, não tá estressada. Algo de certo, né, aí tá faltando. Mas se, como, né, há pouco você trouxe, se esse estresse não permite você fazer atividades que costumeiramente você fazia, ou até poder estar presente na sua vida da maneira como você gostaria de estar, talvez isso precise, isso requer um cuidado, né?

E eu não tô aqui querendo vender terapia para todo mundo, eu não acho que terapia é a solução para todos os problemas do mundo, Mas talvez o convite de que assim, ou esse estresse ele tá me impossibilitando tomar meu café da manhã, ele tá me impossibilitando dormir, ele tá me impossibilitando estar nas minhas relações. Então talvez eu preciso olhar para esse estresse, ele tá me comunicando algo. E eu acho tão importante que a gente possa fazer esse olhar, porque é muito comum que o estresse ele cobre o preço dele também quando ele quer se a gente não para para olhar.

Então, se é muito recorrente que às vezes a pessoa tira férias, ela pensa: agora vai, agora vamos. E aí, ali na entrada do avião ela passa mal, no primeiro dia de férias ela adoece, né? Porque o corpo, ele sempre vai pedir passagem. O corpo às vezes é a última fronteira que comunica para a gente: pô, vamos olhar para isso, né? Então Realmente, né? Eu penso que a gente tem que se conectar com o nosso corpo de alguma maneira, e a gente vive num sistema que não dá esse espaço.

E a gente tem que se conectar também com o que a gente sente. Isso também eu considero muito difícil, porque, pô, a gente vive num sistema que a todo momento exige da gente felicidade, performance, alegria. Requer um certo tônus emocional da gente. E pô, onde eu tenho espaço para tristeza, para angústia, para o tédio? Que horas do meu dia eu posso ficar entediada? Uma vida sem tédio, sem tristeza, sem angústia não me parece que é uma vida humana, porque a vida humana ela contempla isso tudo.

Ela contempla poder ficar triste com o email que eu recebi, chateada com minha amiga, triste por alguma notícia. Então eu acredito que quando o estresse tá no nível que não tem tempo para tudo isso, para tristeza, para angústia, para falta, para, né, sentir tudo isso, ele tá preocupante. Só que é difícil a gente dizer que uma medida única para todo mundo, né? Mônica, diz aqui uma medida única que vai servir para todo mundo. Se o seu cabelo tá caindo, seu olho tá tremendo, é hora da terapia, né?

Não há essa medida única para todo mundo. Eu acho que cada um poder estar também se olhando, consciente de si, dos seus processos, né? Porque cada um vai ter uma maneira ali de poder se vivenciar. Eu sou uma psicóloga que defende muito a despatologização da vida, que é assim: eu não tenho rótulo para todo mundo, eu não tenho caixinha para todo mundo, mas é importante que as pessoas possam ter os seus limites e entender. Eu posso até achar O limite da Mari, da Larissa, alto, baixo, mas é o limite delas, é o limite que ela tem.

Então acho que é importante cada um ter esse processo de se perceber, de que sabe quando dá e também quando não dá mais para mim. Eu acho que é importante estar atento a esse processo de quando o estresse passou desse limite e saber identificar isso. A terapia pode ser um processo para isso? Pode. Mas outras coisas na vida também podem ser terapêuticas e podem indicando isso para gente, né? A Lara há pouco falava da academia. Então assim, sei lá, chegou num ponto que eu também não tenho energia para ir para academia, nem esse lugar de descontar o meu estresse eu consigo mais sustentar.

Então talvez aí tem um comunicado. Então é cada um poder ficar atenta também, né?

LGLarissa Guerra

Ô Mônica, de tudo que a gente tá falando assim, eu queria voltar num ponto que eu acho que me pega um pouco assim, do quanto a gente enquanto mulher segura a onda, sabe? E o quanto a gente vai sufocando esse estresse também, né? Estoura é o olho tremendo, estoura, vai, cai o cabelo, quebra a unha, alergia de pele, fica sem sono, não sei o quê, não sei o quê. Mas ninguém bota para fora também, né? E aí eu fico pensando se não pode ser também essa uma saída para a gente aprender a manejar o estresse assim, de encontrar momentos.

Porque eu brinco que é isso, eu vou para academia para descontar raiva, sabe, para suar, descontar raiva. Mas eu fico pensando que assim, uma terapia do grito, sabe, poder xingar alguém de vez em quando, seria também saudável se a gente conseguisse fazer esse tipo de coisa assim?

MGMônica Gurjão

Ah, eu acho super saudável, Larissa. Se você me ver correndo na rua ali, provavelmente no final do dia em São Paulo, você saberá que eu estou estressada. E acho que isso, né, a sua pergunta me carrega assim uma reflexão de o quanto nós mulheres somos exigidas a mantermos certa tranquilidade, gentileza, sorriso no rosto.

LGLarissa Guerra

Tudo bem.

MGMônica Gurjão

É, e aí quando a gente vai para esse extremo que a gente quer gritar, que a gente quer responder, ai, a TPM, ai, tá descontrolada. Então tem toda uma formação social que nos exige até uma determinada performance enquanto mulher. E o quanto isso também é adoecedor, a performance da mulher que é mãe, a performance da mulher que tem sucesso no trabalho, a performance da mulher que é bonita, que tá em dia, que isso tudo pesa. Isso, né, acho legal sua pergunta porque isso silencia a gente, silencia muitas vezes a gente poder falar do nosso sofrimento, poder comunicar esse limite.

Então assim, uma coisa que me incomoda muito assim, essa coisa: você é uma mulher forte, batalhadora. Não, querida, eu sou uma mulher mesmo estressada, cansada. Às vezes eu quero é dormir, eu quero, não quero ser uma mulher batalhadora, eu quero ser uma mulher de pijama, né, na minha cama, se possível. Então sustentar essa mulher forte, batalhadora, pode ser assim atroz, pode ser silenciador, pode ser adoecedor. Né, eu acho que sobretudo, né, a gente lembrar o caso das mulheres negras no Brasil, que muitas vezes estão nesse lugar que assim, ela é o arrimo da família, ela sustenta um monte de gente, e a gente ainda vai lá e diz assim, vai lá, mulher guerreira!

Ou que ela deve estar querendo às vezes é uma massagem no pé, poder parar. Então essa exigência de enquanto mulher dar conta disso tudo Ou às vezes o que a gente quer é gritar mesmo, é sair correndo, é botar o pijama. E sim, concordo com você que a gente poderia viver num mundo que tem mais espaço para isso e que a gente não fosse rotulada como tá de TPM, tá mal amada, tá— não, tá estressada mesmo. E esse estresse, em certa medida, pode ser até uma reação natural a sobrecargas que precisam mesmo ser questionadas, precisam mesmo ser ditas e evidenciadas.

Olha, tudo isso que eu tô passando não deveria ser normal, não deveria ser colocado numa categoria de, ah, a vida é assim mesmo, né?

MMMarina Melz

Então, novamente, o clube do grito, né, para a gente poderia.

MGMônica Gurjão

É bom, né?

LGLarissa Guerra

Eu fico mais estressada quando alguém diz assim, ai, não, relaxa, toma um chazinho, vai meditar. Não, meu filho, eu quero gritar, sabe?

MMMarina Melz

Eu quero, sei lá, pegar, destruir uma televisão, fazer um negócio É, então de novo eu acho curioso como a gente lida com as coisas de uma forma diferente assim, né? A Lari é uma pessoa que bota o estresse para fora e eu sou uma pessoa que implode. Então é muito, para mim, a manifestação do quanto eu tô estressada tá muito mais na melancolia, muito mais no desânimo, na falta de de tesão nas coisas do que nessa coisa de botar para fora assim, sabe?

Teve uma mentoria que eu fiz que uma das coisas que o mentor me mandou fazer era gritar. Ele falou, cara, você não grita, você não bota as coisas para fora nunca. E eu acho que é interessante a gente olhar por esse aspecto, porque por muito tempo eu entrei nessa onda super assim meritocrática, de que eu é que tenho que me autoanimar, eu é que tenho que me automotivar, eu preciso correr atrás dos meus sonhos. Às vezes eu não quero correr atrás dos meus sonhos, meu amor, às vezes eu quero dar uma deitadinha mesmo.

E o excesso, o estresse me deixa borocochô assim, me deixa, sabe, sem energia. E foi muito difícil para mim entender que isso era o estresse. Que porque é isso, eu acho que o mais comum é essa reação mais efusiva assim. Então se você tá ouvindo e também tá se sentindo cansada meio sem motivo, meio, pô, eu tô na mesma rotina, né, sem motivo, tá, na sua cabeça sem motivo, mas assim, ah, eu tô vivendo a minha rotina de sempre, eu tô assim sendo funcional no que dá, mas eu tô me sentindo absolutamente cansada, melancólica, sem motivação, talvez seja só a sua forma de lidar com esse monte de coisa que você, um monte de pratinho aí que você tá segurando.

Para a gente encaminhar para o final, Mônica, queria te perguntar assim: temos o macro, é inevitável fugir dele, a gente vive nessa grande sopa de ansiogênicos por todos os lugares. E não querendo puxar para uma coisa neoliberal da gente ser responsável pela nossa própria saúde mental nesse contexto, mas Mas acho que é inevitável que a gente também queira saber como. Então a gente responde para o médico que vai nos dizer: faça isso, gestão do estresse.

O que que a gente vai dizer para esse cidadão que a gente pode fazer para tentar minimizar os efeitos de todo esse cortisol, de toda essa coisa no nosso corpo?

MGMônica Gurjão

Nossa, Mari, eu vou pegar até há pouco um exemplo que você trouxe, né, porque acho que talvez responde um pouco. Às vezes a gente chega num grau que a gente fica: nossa, mas por que que eu tô assim? A gente às vezes não consegue ver tudo que a gente tá passando e naturaliza. Ah, é assim mesmo, eu que sou a fraca, eu que não consigo. Acho que aí, como um ponto importante até de resposta para o médico, é: olha, eu tô com refluxo sim, mas assim, eu acho que até uma certa medida é natural que eu tô passando agora.

Eu meio que respondi o médico assim, porque eu falei: olha, nesse momento eu tô com alta carga de aulas. Era o momento que eu tava assim com muitas disciplinas na universidade, se acumulou com a entrega do doutorado. Eu falei, eu acho que eu tô com a resposta adaptativa saudável que eu tô passando, só que eu preciso agora de ajuda sua. Talvez o medicamento seja a muleta que eu preciso para atravessar aqui o meu momento de estresse.

Eu infelizmente não tenho como fugir um pouco dessa situação por hora. Então talvez essa reflexão de que sim, Não é por nada, tem coisa aí. Eu acho que esse primeiro lugar de consciência da gente poder ser gentil com a gente, gentil com o nosso cenário de vida, nossa, eu acho que isso assim é extremamente importante, né? Acho que às vezes as pessoas chegam na terapia assim querendo muita resposta. E aí, como é que eu fujo do meu estresse?

E elas saem às vezes: eu tenho razões para estar estressada. Eu consigo me olhar e consigo olhar para o cenário agora com um pouco mais de tranquilidade. E aí isso não vai resolver meu problema, mas eu consigo não me julgar, não me cobrar como antes eu tava me cobrando. Porque lá fora do podcast tá todo mundo cobrando a gente, esperando essa performance. Mas será que aqui, até na relação, né, da Mônica com ela, da Mari com ela, da Lari com ela, a gente consegue se entender, a gente consegue ser mais gentil.

Acho que isso seria um primeiro passo. Acho que também eu gosto muito da obra do Ailton Krenak, Ideias para Adiar o Fim do Mundo. E o Krenak, ele fala que a gente não perca a capacidade de sonhar. E não é sonhar nesse lugar assim capitalista de eu quero comprar uma Ferrari e cumprir esse ideal de sucesso, Mas é sonhar na perspectiva de que outros mundos são possíveis, né? Tempos atrás, uma paciente falou assim: cara, o meu sonho é trabalhar 4 dias na semana.

Eu falei: nossa, que sonho brilhante! Ela: mesmo? Eu falei: pô, por que que isso não pode ser um sonho? E um sonho assim plausível, porque você quem tá me trazendo isso como uma perspectiva que é sua. Você quer construir uma rotina de 4 dias e no quinto você quer dormir até mais tarde e na E para você isso é factível? Então sonhar dentro do espectro do possível de cada um, até como uma resistência ao sistema, né? Que esse sonho não seja aquele lugar de produzir mais e ser cooptado por essas noções de sucesso, mas que seja aquele espaço que eu posso encontrar o que faz sentido para mim.

O que que eu quero, né? O que que eu posso construir aqui com a Mônica que faz sentido para Mônica? Então eu gosto muito dessa ideia de vamos adiar o fim do mundo, vamos fazer uma certa resistência ao capitalismo e recobrar essa capacidade de sonhar, não só como aquele sonho, aquela coisa até meio imaterial, mas não, sonhar no concreto, no que é possível para minha existência, numa perspectiva de ser gentil comigo também. Então acho que isso é muito importante, devolver à vida a capacidade de sonhar.

Só que para devolver essa capacidade de sonhar, a gente também precisa ter tempo de tédio, ter tempo de tédio, de não ter que estar produzindo, de poder se entediar até com a vida. Porque são nesses momentos que a gente pode promover nesse espaço aí de reencontro, até de um certo reencontro, né? Tem pessoas que odeiam aquele filme, né, Dias Perfeitos. Ai, que filme lento, que filme chato!

MMMarina Melz

Eu amo.

MGMônica Gurjão

Eu amo também porque mostra assim o tédio, a capacidade de se entediar consigo mesma. E eu acredito que o sonho vem dessa possibilidade da gente encontrar esse espaço de estar consigo e poder encontrar, pô, o que que faz sentido para mim, né?

LGLarissa Guerra

A nossa mesa de bar, esse ambiente de descompressão, que também é um termo muito da moda, né? Tipo assim, ai, ali tá um ambiente de descompressão aqui do trabalho. Mas aqui é nosso espaço onde a gente troca dicas. E eu quero te lembrar que a gente tem a nossa campanha de financiamento coletivo, apoia.se/donasdapetoda. A partir de R$5 por mês você ganha acesso ao nosso clube de fofocas, que tá lá no Instagram sempre bombando com vários assuntos.

Temos também o Clube do Livro, que rola encontro agora em agosto para a gente falar sobre O Três, livro da Valérie Perrin, que foi escolha da Marina. Temos também, que mais? Ah, vários outros benefícios para você. Tem a newsletter com todas as dicas da mesa de bar, vai tudo bonitinho para o seu email todo mês. E eu também quero te lembrar que a gente tem aqui uma parceria incrível, maravilhosa, um negócio que me deixa zero estressada, que me deixa muito feliz inclusive, que é receber um pacote de lingerie todo mês na minha casa, tá?

Isso assim, ó, a gente é a patricinha que vive em mim, ela fica muito feliz. Então você vai lá em cinepitaia.com.br, cupom DONAS15, para você também receber aí um kit de lingerie na sua casa todo mês, tá?

MMMarina Melz

Delícia, momento delícia demais. Mônica, quero começar te perguntando como é que as nossas ouvintes podem continuar te acompanhando? Gente, Mônica é brilhante, tá? Eu tô completamente apaixonada por ela, já gabaritei o Instagram dela, vi todos os vídeos, todas as coisas. Quero, já quero comprar o livro, já tô assim, ó, apaixonada. Como é que as pessoas podem se apaixonar por você também, Mônica?

MGMônica Gurjão

Bom, elas podem me encontrar no Instagram, psicóloga.monicagurgião. Elas podem ler ali o meu livro novo, se revoltar contra esse sistema, né? E elas podem sonhar também. Eu tô meio aqui também endossando essa campanha, que coletivamente, enquanto humanidade, a gente adie o fim do mundo e seja capaz de sonhar. Então, que a gente se conecte também nessa possibilidade de outros mundos, né? Quero deixar também isso e o convite que a gente pode continuar também falando através do Instagram.

MMMarina Melz

Com certeza. E conta para a gente, Mônica, duas dicas do que você anda lendo, tá vendo, ouvindo. Já teve vários autores citados aqui, já teve Bichon Han, já teve Aito Krenak, já teve Dias Perfeitos, já teve várias coisas. Mas o que que anda tomando sua cabeça aí? Duas dicas para gente.

MGMônica Gurjão

Olha, duas dicas. Eu vou dar uma dica meio acadêmica até. Eu, uma obra que assim, nossa, para mim tem sido muito importante, é uma obra chamada O Colonialismo Digital. Bom, a gente tá no mundo da internet, das redes sociais, Todo mundo tá aí debatendo a questão da IA e a gente fica muito reflexiva sobre essas questões. Então essa é uma obra que, além de fazer parte da minha pesquisa atual, é uma obra que eu acho muito reveladora sobre esse mundo que a gente vive do digital.

Então, Colonialismo Digital, dois professores, o Davidson Faustino e o Walter Lipô, um livro da Boitempo que eu super recomendo como reflexão, né? Agora, eu inspirada pela Larissa, né, a Larissa falou da patricinha de lingerie. Pô, eu acho isso tão importante, a gente encontrar coisas que facilmente rotulariam a gente, a patricinha aí, né, mas a gente encontrar coisas que façam sentido para gente. Então eu até vou dividir com vocês uma coisa que raramente eu coloco, mas assim, a Mônica ela tem o seu lado patricinha.

Eu adoro tomar vinho, gente, adoro, né? Se uma vinícola quiser me patrocinar, tô aqui à disposição, né? E obviamente é uma coisa, claro, né? Aí a gente fica até meio constrangido de dizer, olha, burguesa aí. Mas bom, dentro dos meus recursos financeiros e das minhas possibilidades, é uma coisa que eu gosto. Aí eu gosto de ler sobre a uva, eu adoro vinícolas familiares pequenininhas, eu gosto de ler a história daquela família. Então eu acho que sim, pô, o que que você gosta de fazer?

O que que faz sentido para você? É a lingerie? É pintar? Eu adoro fazer bobigutes também, né? Correr na rua. Que cada um possa encontrar. E daí, se vão te chamar de patricinha, o que quer que seja, bom, que faça sentido para você. Eu acho que isso é um caminho muito individual e vai ter que ser cada um consigo. Mas que exista essa possibilidade, né?

LGLarissa Guerra

Eu vou com dois livros que eu li nessas últimas semanas. Um deles se chama Nada Nasce ao Luar, da Thorborg Nedres. É uma escritora norueguesa. Inclusive, eu estava lendo esse livro quando o Brasil perdeu a Copa do Mundo, quando interpretei como um presságio. E o que me chama muito atenção é que esse foi um livro escrito na década de 40, assim, e tem questões que são muito atuais. Ele é um longo monólogo de uma mulher que encontra um homem desconhecido e ela começa a contar a vida inteira dela para ele.

Muito ficção, um homem ficar te ouvindo durante uma noite inteira, muito, sem te interromper, totalmente. Porém interessante, tá? Gostei. E aí outro livro que eu vou indicar é o Na Beirada, da Bruna Maia. Conta, é uma coisa meio um thriller meio policial assim sobre uma programadora que decide fazer o concurso da Polícia Civil para virar investigadora, tá? É um livro divertido assim, interessante de ler, e que também fala muito sobre essas questões de saúde mental e mulheres.

MMMarina Melz

Boa, gostei! Eu vou indicar a série do Caoscast sobre a Primavera X, o estudo conduzido pela Thaís Farage. Que fala sobre mulheres acima dos 45 anos e recalcula um pouco qual é a nossa perspectiva sobre essas mulheres, sobre elas serem seres desejantes. Acho que tem uma frase no primeiro episódio dessa série que eles lançaram nessa semana que a gente tá gravando, e a Thaís fala com a boca cheia assim que talvez o mercado ainda não tenha percebido que as mulheres acima dos 45 anos estão vivendo uma vida deliciosa.

E eu achei esse esse adjetivo muito bonito. Queremos muito continuar nesse assunto, inclusive. E a minha segunda dica é uma dica para você pegar o vinho que a Mônica tá te indicando, o seu drink favorito, uma sexta-feira à noite que você tá em casa, que tá frio, tá chovendo, aí você abre o YouTube e coloca lá o Aos Pés da Letra do Gregório Duvivier no Super Sábados no Man. Esse espetáculo espetáculo O Céu da Língua é maravilhoso.

Já falei sobre ele aqui, acho que todo mundo que viu ficou completamente encantado, alucinado, louco. E o Aos Pés da Letra é o livro que surgiu desse, dessa experiência do Gregório com O Céu da Língua. E a Petrobras patrocina esse projeto do Man, em que ele faz praticamente uma versão pocket do espetáculo. É ele e o mimeógrafo que acompanha ele nos— mimeógrafo não, como é o nome nome?

LGLarissa Guerra

É um, ele tem um violoncelo.

MMMarina Melz

Não é um projetor assim?

LGLarissa Guerra

A menina é um retroprojetor.

MMMarina Melz

Retroprojetor, isso não é mimeógrafo. Mimeógrafo é aquele que tem cheiro de álcool. Mas é ele brincando com as palavras, é uma delícia, é de colocar e ficar ouvindo assim por uma hora sem pensar em problema, vendo beleza nas coisas, como ele faz como ninguém nesse espetáculo. Espetáculo é lindo, lindo, lindo, lindo. É um presente assim que a Petrobras tenha conseguido gravar isso para quem mora em cidades, como é o meu caso, que não, os espetáculos não chegam, né?

Eu tive que ir para outra cidade para ver. Então é uma delícia, façam isso porque realmente é muito, muito apaixonante.

MGMônica Gurjão

Eu queria aproveitar então, já que eu tô aqui em Fortaleza hoje conversando com vocês, eu queria deixar uma dica. Falar rapidinho de um livro. É uma escritora cearense, chama Lorena Portela, e acho que tem tudo a ver com a nossa conversa, que é O Primeiro Eu Tive Que Morrer. Eu até dei uma parada para olhar, não falar aqui errado. Acho que se você tá estressada, você é mulher, está estressada, essa obra talvez te faça refletir sobre muita coisa e te faça ter esse tempo talvez de olhar aí para vida.

Então, O Primeiro Eu Tive Que Morrer, da Lorena Portela, acho que é uma boa leitura maravilhosa.

MMMarina Melz

Adoramos, a gente adora.

LGLarissa Guerra

Mônica, muito obrigada por essa conversa, foi incrível mesmo. Espero que as nossas ouvintes aí, quem nos assiste, esteja sabendo pelo menos reconhecer o seu estresse e tentando identificar maneiras de manejar assim essa situação.

MGMônica Gurjão

Que bom, fico muito feliz de conversar com vocês e que cada possa, né, ter esse momento de recuperar seus sonhos e poder olhar o que que me estressa hoje, né?

MMMarina Melz

Maravilhosa, te queremos de volta logo, muito em breve. Beijo, gente, até semana que vem. Beijos, beijos.

LGLarissa Guerra

O Donas da Porra Toda é uma produção independente. Produção, roteiro e apresentação: Larissa Guerra e Marina Melos. Edição e tratamento de áudio: Bruno Stolfi. Mais mais informações no site www.donasdapetoda.com.br ou nas redes sociais no @donasdapetoda.

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#331 - O que á a gestão do estresse, com Mônica Gurjão | Castnews Index — Castnews Index