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Águas termais e viagem ao centro (e à idade) da Terra

11 de maio de 202632min
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A próxima vez que visitar umas termas lembre-se que a temperatura das águas remete para como planeta foi formado e um ponto de partida para calcular a idade da Terra – mas com ajuda da radioactividade.

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Participantes neste episódio2
J

José Manuel Fernandes

HostJornalista
M

Miguel Miranda

Co-hostGeofísico
Assuntos3
  • Idade da TerraArrefecimento da Terra · Fluxo de calor da Terra · Radioatividade · William Thompson · Charles Darwin · Júlio Verne · Marie Curie · Pierre Curie · Henri Becquerel · Ernest Rutherford · Lord Kelvin · James Hutton · Charles Lapierre · Luís Aires de Barros · Jonas Jolie · Potássio-Árgon · Carbono 14 · Argônio 40 · Argônio 39 · Sistema Solar · Terra · Sol · Lua · Meteoritos · Granito · Basalto · Vimeiro · Surtelha · Sabugal · Covilhã · Furna
  • Águas termais e sua origemTemperatura das águas termais · Fraturas da crosta terrestre · Chaves · Água Flávia · Romanos · Legião Sétima Gémina
  • Ficção científica e a TerraViagem ao Centro da Terra · O Enigma da Atlântida · Júlio Verne · Edgar P. Jacobs
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Bom dia, bem-vindos de regresso ao E o Resto é Ciência. Eu sou José Manuel Fernandes, comigo está o Miguel Miranda, académico, tico-presidente do IPMA, geofísico, e hoje vamos falar, enfim, desafiar-nos aqui a falar de berbulhas, de verdade, vamos falar de águas termais, de cepás, e vamos tentar perceber...

Qual era, porventura, o erro de algumas ficções, pelo menos da nossa juventude, minha e do Miguel, como, por exemplo, a viagem ao centro da terra, do Júlio Verde, que começava numa...

naquela fratura do eixo do Atlântico, no caso dele, da Islândia, e de um outro livro também muito engraçado, posterior ou mais recente, mas talvez não mais conhecido, que é O Enigma da Atlântida, As Aventuras do Edgar P. Jacobs.

Ora bem, as aventuras de Black e Mortimer, quero dizer. Bem, neste caso concreto, vamos falar de SPAS e de termas, porque uma das coisas que está associada às termas é que a água não brota delas à mesma temperatura com que, por exemplo, brota de um rio. E não brota sempre à mesma temperatura, pode brotar a temperaturas diferentes. Ok, que...

É misterioso, mas ajuda-nos a perceber algo com que temos andado obcecados aqui há uns tempos, em vários programas anteriores, que é como é que fazemos algumas medições. Nós temos feito medições de distâncias, de alturas, agora vamos tentar perceber medições de tempo, não é Miguel? Exatamente. Vamos começar pelo passado.

Portugal tem várias termas conhecidas, espero eu, que muitos daqueles não se estão a ouvir, e que foram, em parte, desenvolvidas pelos romanos quando chegaram à Península Ibérica.

A história mais famosa será a que tem a ver com Chaves, que nós hoje chamamos Chaves, mas que na verdade foi chamada Água Flávia em 80 DC, em honra do imperador Tito Vespasiano, porque quando a legião que ocupou o norte de Portugal nessa altura, chamada a Sétima Gémina, chegou a esta localidade e encontrou ressurgências de água quente,

que se tornaram tão interessantes para eles que criaram umas termas medicinais, ou seja, umas termas para a saúde e construíram uma bela ponte que hoje existe. Por regra, por regra, são o que as termas são, não é? São para a saúde, por regra. Hoje em dia, porque por vezes usas a palavra termas para a ideia de bens públicos, que é um bocadinho diferente. Ou seja, não propriamente com um efeito medicinal, mas com um efeito higiênico.

Bem, as termas ainda lá estão. São uma, digamos, como disseste, a ponte, que é muito bonita, as termas que ficam perto dessa ponte, e não muito longe das lojas que vendem as pastéis de chaves, mas isso é outra história. Isso é outra história, exatamente. E menos boa para a dieta, pelo menos. Para a dieta, pelo menos, exatamente.

Mas é interessante saber que as termas só foram desenterradas, na verdade, nos anos 30 do século passado e, na verdade, só em 2006, quando se construiu um parque subterrâneo, é que foram, digamos, conhecidas na sua grandiosidade. E é terrível como é que nós precisamos construir um parque subterrâneo para descobrir o que eram as termas, quer dizer, que elas foram esquecidas ao longo de séculos.

Portanto, também sabemos que em Roma são muitas das descobertas que se fazem, que se fizeram com o seu posto metropolitano. Quase todos os dias. Pô, metropolitano e por outros motivos. Mesmo aqui em Lisboa, quando nós construímos a estação de Rocio, descobrimos imensas coisas que tinham a ver com aquela zona e com o período pré-terremoto.

E portanto nós temos termos em Portugal, temos águas termais, ou seja, são águas que têm um conteúdo mineral que é particularmente interessante e rico e têm muitas vezes uma temperatura que é superior à temperatura ambiente. E temos isso na beira interior, temos isso na zona norte.

essencialmente ligado a fraturas, a fraturas da crosta, já agora em regiões onde também acontecem muitas vezes pequenos sismos, que se pergunta sempre, mas isto vai outra vez acontecer ou não? Mas é preciso ver que a fraturação hidráulica é um dos processos.

típicos de formação de pequenas cismes. Nós estamos perante precisamente aquilo que nós chamamos as falhas que geram os grandes cismos, não é? Não estamos perante aquelas que, por exemplo, já falámos aqui no programa, não é? As que afetam mais Lisboa ou Algarve, são do país. Isso é pequenos cismos, são fraturas que são normalmente até muito antigas do ponto de vista geológico, estamos a falar de centenas de milhões de anos.

que são reativadas pela compressão interplaca, de forma mais ou menos regular. Mas a Direção-Geral de Saúde, que é quem toma conta destas águas termais, em 2014, no caso da Beira Interior, declarou que elas tinham utilidade.

para os sistemas endócrino, metabólico, circulatório, respiratório, digestivo, urinário, da pele, problemas reumáticos e musculosos coléticos. Parece o Vasco Leitão. Dá para tudo, dá para tudo. Parece o doutor Vasco Leitão do filme A Criação de Lisboa.

Mas já agora, estamos a falar de uma região que tem sobretudo granitos, não é? Tem sobretudo granitos. Portanto, o granito é uma rocha ígnea, portanto é uma rocha que vem, quer dizer, não deriva da deposição de outros materiais, não deriva mesmo da transformação desses materiais, é uma rocha, quer dizer, podemos dizer original. Mas sabes como é que se formam os granitos? Os granitos? É bom que se saiba, porque os granitos têm essencialmente a ver com a reação com a água, com o papel da água.

E os granitos são uma rocha crustal que é menos densa do que a média. E, portanto, eles sobem por impulsão. Os granitos sobem na terra por impulsão. Tal como o sal. Mas arrefecem, ao contrário, mais lentamente, por exemplo, que os basaltos. E, claro, os basaltos não. Os basaltos são produzidos na crosta média, não é? É uma rocha oceânica. Pode ser também uma rocha vulcânica. Tem a ver com o arrefecimento rápido, em princípio, do material magmático. Os granitos não. Eles sobem na crosta e, portanto,

como cogumelos. Na verdade, o que nós vemos à superfície é a parte de cima do cogumelo, pois há de haver um pé. É interessante saber-se também que esta questão das águas termais foi muito importante na transição de século e, para isso, é preciso conhecer o nome de uma pessoa que toda a gente conhece, mas já não sabem o que é que ele fez, que é o Sr. Charles Lapierre.

toda a gente conhece porque é o nome do Liceu Francês. Liceu Francês em Lisboa, não é? Foi criado em 50 e poucos, ele morreu em Lisboa também no fim dos anos 40, mas foi um químico muito importante, de origem francesa, que estudou, que o Pierre Currie, que veio para Portugal

na década de 80 do século XIX. O Pierre Corri, para quem não souber, é o marido de Marie Corri. Exatamente. E também nobilizado. Também nobilizado com a descoberta do rádio. É que tudo isto tem uma relação. Mas já vamos ao rádio mais daqui a bocadinho, não é? Exatamente. Tudo isto tem uma relação. E o Charles de Pierre estabelece a primeira... faz a primeira análise das águas minerais em Portugal.

Em 1893, da água do Vimeiro, e o Rei Dom Carlos publica, então, uma classificação da água do Vimeiro como água minero-medicinal. E se ouvirem bem a publicidade de muitas águas minerais, esta questão do nome Charles Le Pierre e o nome minero-medicinal aparece com alguma frequência. E faz parte até dos logótipos de algumas das águas que se vendem em Portugal.

E nós temos bastantes águas e quando falávamos há pouco, podemos distingui-las em águas quentes e frias, digamos assim. Umas que dão até banhos quentes e outras que...

Enfim, como a água aqui do oceano, não é particularmente quente. Na verdade, existem águas com níveis diferentes de temperatura. Isto em física às vezes diz-se mais em talpia, mas é, digamos, o nível diferente de temperatura. E uma das questões que se levantou logo de início é como é que estas águas apareciam. Eram águas que vinham de lençóis profundos e que depois chegavam à superfície por uma razão qualquer.

ou tipo artesianismo, ou se era água de precipitação que era reciclada na terra. Já agora o trabalho do Charles LaPierre, que depois esteve no técnico cerca de 27 anos e que dirigiu o laboratório que ainda hoje tem o seu nome, foi depois seguido pelo Luís Áries de Barros, que foi, penso que ainda é presidente da Saúde de Geografia, e que continuou também este estudo.

na altura usando também métodos mais modernos, do qual falaremos daqui a pouco, para detectar qual era a origem da água de precipitação. E, portanto, chegando-se à conclusão que, na maioria dos casos, que a água que precipita desce na crosta.

alguma distância, alguns quilómetros, e depois volta à superfície de novo, aquecida e mineralizada por interação com a rocha. Pois, mas não falta sempre a mesma temperatura, porque nós temos águas, como se diz, as frias são abaixo de 25 graus, não é? As quentes são acima de 25 graus, mas nós podemos ter águas que chegam a mais de 50 graus.

portanto, com temperaturas super a 50 graus. Por exemplo, as de Chaves são das mais quentes, não é? As de Chaves têm 76 graus. O que quero, no exencial, dizer que elas vão mais fundo a aquecer. Repara que, no fim do século XIX, já havia muitas minas profundas, em particular na África do Sul. E essas minas, para quem já desceu uma mina, sabe que a temperatura aumenta com profundidade.

A temperatura aumenta exatamente... É uma coisa que pode parecer estranha, não é? Pode parecer estranha porque a temperatura aumentar com profundidade. Nós diríamos que quando subimos a uma montanha sabemos que a temperatura vai de minuto a minuto. Mas aí atribuímos ao vento, atribuímos às condições climatéricas.

Agora, entrar pela terra adentro e aquilo estar mais quente do que frio? Está significativamente mais quente. É preciso ver, estamos a falar de 3 graus por cada 100 metros. Para terem uma ideia, uma mina como a Neves Corvo pode ter galerias a centenas de metros de profundidade. Portanto, estamos a falar de dezenas de graus de temperatura adicional.

E então se falar de minas da África do Sul, ainda são mais profundas. Portanto, estamos a falar de um grande problema, que é a circulação do ar e o arrefecimento nessas profundidades. E estamos a falar, de repente, um quilómetro de profundidade, estamos a falar de 30 graus. 30 graus por quilómetro. 30 graus é muito, não é? 30 graus é tanto que, digamos, é uma das limitações da exploração mineral profunda. Agora...

esse valor é certo? Esse valor verifica-se sempre o mesmo valor em todo lado? Não. Há uma coisa curiosa já, agora, deixa-me regressar àquele livro da nossa juventude, julgo que também leste, não é? Viagem ao centro da Terra. Claro. Era quase impossível deixar de ler quando era adolescente.

A viagem ao centro da Terra. O Júlio Verne tinha uma característica que era, ele fazia ficção científica com, ele não desconhecia a ciência, não é? Portanto, ele tinha uma noção do que era a ciência. E uma das coisas que acontece naquela descida, que é feita na Islândia, portanto eles entram para um vulcão, para um vulcão que está extinto há muito tempo.

é que um dos aventureiros vai dizendo mas isto devia estar a cacera e não aquece. É evidente que depois daquilo se aquecesse não dava direito à ficção que é que é descobrir um mundo diferente lá embaixo, um lago, animais pré-históricos, enfim, não seria possível se acontecesse o que a ciência previa que ia acontecer e que já se sabia na altura, não é? Já se sabia que a temperatura aumentava. Não sabera porquê ainda. Não sabia... Ou melhor, não sabia exatamente porquê. Não sabia exatamente porquê. Porque...

É preciso compreender-se que, como nós já falámos aqui também, todos os corpos emitem energia sob a forma de radiação, arrefecem, difundem energia. E, portanto, a Terra, a ter tido o seu nascimento, e desde então, desde que se formou, tem estado sempre a perder energia para o espaço exterior. No fundo, a perder calor. A perder calor. Uma parte sob a forma de calor, outra parte sob a forma que pode ser a radiação. Não térmica.

Mas a grande questão que se levanta aqui é assim, se nós formos a uma região como a zona do norte de Lisboa, que é o maciço calcário, ou formos para uma região como os granitos de Chaves, ou da beira interior, a temperatura aumenta com profundidade sempre da mesma maneira, e a resposta é não.

O fluxo de calor da Terra, ou seja, a quantidade de energia sobre a forma de calor que é emitido pela Terra, veria também com a formação geológica em que nós nos encontramos. E porquê? Porque tem a ver muito com a condutividade, duas coisas, tem a ver com a condutividade do material e tem a ver com a existência dentro da formação geológica de fontes de calor adicionais. E esse é um dos aspectos mais interessantes, porque quando nós falamos de fontes de calor adicionais, nós não temos propriamente caldeiras, não é?

mas temos algo que também gera energia. Na verdade, nós já vimos que os granitos são aqui e têm aqui um papel essencial, e os granitos têm um papel essencial porque eles são levemente radioativos. Isso parece uma coisa um bocadinho explosiva, mas não... Nós já vivemos melhor com a radioatividade. A radioatividade é muito importante, e aliás, haver alguma radioatividade da superfície da Terra provavelmente tenha também o seu papel até na evolução das espécies.

Sim, porque sem radiações nós não teríamos mutações. Exatamente, portanto nós precisamos sempre dessa energia. Também teríamos erros de transcrição, mas basicamente as mutações são geradas pela... Mas a grande questão começou exatamente no fim do século XIX, quando se começou a querer saber a idade da Terra.

Quando se começou a crescer a idade da Terra, havia... Lá voltamos nós às medições, não é? Voltamos nós às medições. Havia vários grandes problemas. É que Darwin tinha publicado a origem das espécies e exigia a ideia de que havia seleção natural e que a seleção natural exigia períodos temporais elevados para que os melhores sobrevivessem e os piores desaparecessem.

Isto não se verifica, infelizmente, em todas as áreas, mas talvez fosse interessante. E, portanto, e por outro lado, os físicos, em verdade, Thompson, sabiam já quanto é que a temperatura aumentava com a profundidade e, portanto, podiam...

imaginar em que estado do arrefecimento é que a Terra tinha que estar para que estivesse a emitir esta quantidade de calor. Isso não era muito complicado, por isso tem que parecer. Porque a ideia, que é, digamos, já bastante antiga e que se tem confirmado pela astrofísica moderna, é que todo o sistema solar nasceu exatamente da mesma forma. E, portanto, que a temperatura da Terra no seu início não há de ser muito diferente da temperatura do Sol.

Bem, mas isso é uma coisa bastante desafiante. Vamos a aula na segunda parte do programa. Agora interrompemos por uns minutos. O Renato estava apático. Ele parecia que não estava lá.

As testemunhas, as mensagens e os vídeos que ajudaram a polícia a desvendar a forma como Renato se abra assassinou Carlos Castro em Nova Iorque. Até hoje, gostava muito de perceber o que aconteceu. Estes são os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Os Ficheiros do Caso Carlos Castro é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador.

É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Rezende. Último episódio. O júri chegou a uma decisão. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.

Estamos de volta ao E o resto é ciência, segunda parte. Estamos aqui a falar de águas termais, temperatura das águas termais, cálculo da idade da Terra. Estavas a falar de William Thompson, o físico inglês começou a pensar neste problema.

Em princípio, todos os corpos do sistema solar começaram a infusão. A fusão tinha que ser obrigatoriamente idêntica à temperatura do Sol. Naquela altura não havia os conhecimentos astrofísicos que existem hoje. Naquela altura a ideia é que tenhamos um corpo em fusão e o corpo estava a arrefecer.

E quando um corpo arrefece, a velocidade arrefece, a taxa a que arrefece, não é sempre a mesma. Isto é como uma sopa. Nós temos uma sopa em casa, em cima, que é feita, vamos lá ver, com boa vontade e a 50 graus, não é, está, mas não é. E está num ambiente que se tivermos short, ou seja, se a casa não for muito mal construída, terá uns 20. Mas a atmosfera é muito grande, o ar é muito grande, e portanto a sopa vai arrefecer até ter a temperatura do ar.

mas ela arrefece primeiro mais rapidamente e depois mais devagar. Isso significa que eu tenho ali um relógio.

E, portanto, é esse relógio que o William Thompson vai utilizar e dizer, se eu tenho neste momento um gradiente, uma variação da temperatura com a profundidade de 30 graus por quilómetro, há quantos milhões é que isto começou a arrefecer? E a ideia dele, olha, entre 20 e 40, ele deve estar mais perto dos 20 que dos 40. Claro que isto pôs os cabelos no ar à comunidade que seguia o Darwin, dizendo que é impossível. Não dá para termos as espécies que temos só em 40 milhões de anos.

E então, sucederam-se as tentativas de ver como é que nós podemos saber a idade da Terra de uma forma diferente. Então, o que é engraçado é que uma das tentativas que existiu para determinar independentemente a idade da Terra teve a ver com o Márcio de Salgado, que nós também já falámos aqui. E quando ele tiva de saber quanta erosão de sais minerais do continente é que devia ter existido para chegarmos ao valor atual de 30 e poucos miligramas.

por litro de sal no mar. E a conclusão chegada estava entre 80 e 100 milhões, feita por Jones Jolie praticamente já na mudança de século.

dizendo que este valor é muito mais alto que o Thompson, portanto, que, como se sabe, depois foi designado por Lord Kelvin, em honra ao grande trabalho que ele fez na física, e ao Kelvin, que hoje é a medida da temperatura absoluta, é que nós chamamos Celsius, mas pronto, mas é Kelvin. E na altura ele dizia, não, temos aqui um valor que é bem mais elevado. Os geólogos também não estavam satisfeitos, porque eles quando olhavam para...

O valor que falavam de Jean Jolie era quanto? Entre 80 e 100. Mas os geólogos olhavam para as formações, para a forma como elas evoluíam no tempo e diziam, estamos a falar de pouco tempo para a evolução, Lyle, que é um dos grandes geólogos do fim do século XIX, princípio do século XX, diz, não é realista este valor. Para cavar um cânion como o grande cânion nos Estados Unidos, não dava. Não dava.

E o que é interessante é que nós estamos no princípio do século XX, no princípio do século XX temos Becquerel e depois os dois curis, que descobrem o rádio e dizem assim, não, mas há aqui um problema, nós temos aqui um fenómeno físico que ocorre espontaneamente e que tem a ver com a radioatividade, que também é um produtor de calor.

e nessa altura chega a essa conclusão atenção que o que estamos a medir à superfície não é apenas o arrefecimento da terra é também o papel destes elementos que existem nas rochas

No fundo, o que estamos a dizer é que a energia que permite, na sua fase explosiva de fabricar uma bomba atómica, na sua fase domesticada, aquecer água para fazer funcionar turbinas nas centrais nucleares, portanto, é o mesmo princípio, digamos, no fundo, a energia nuclear faz de carvão ou de gás ou de petróleo para aquecer água, é o que acontece numa central nuclear.

Essa energia, mas nós temos a ideia de que é essa energia tão dispersa que conseguir criar o suficiente para manter o calor. O suficiente e basta, hoje em dia sabemos perfeitamente que o que acontece, no essencial, é que os granitos têm quantidades significativas de potássio, urânio e vitório.

nos seus isótopos radioativos, que permitem funcionar como uma espécie de fonte adicional de calor. E é interessante... Não é tão adicional assim, não é? Pode representar uma parte muito significativa. E é importante perceber-se que Rutherford, que é também um grande físico do princípio do século XX,

diz numa conferência organizada em 1904 que Lord Kelvin limitou a idade da Terra desde que não fosse descoberta nova fonte de calor. Ora, essa declaração foi profética e referia-se ao que estamos a apresentar esta noite na academia e que é o rádio. Portanto, o que é interessante é que temos aqui uma situação em que isto é mesmo a vitória do método científico, mesmo nas asneiras.

porque a questão está que nós temos uma forma de ver a Idade da Terra, essa forma é cientificamente...

Claro, é a difusão de calor. É conhecida, as leis da difusão de calor são razoavelmente conhecidas. Podemos fazer contas, não é? É só fazer contas. Até se pode reproduzir em laboratório, mas tinha algumas considerações hábito início. E essas considerações é que era apenas o arrefecimento de um corpo quente, que estávamos a falar. Era apenas a sopa. Não estava a contar que nós, dentro da sopa, tínhamos ali alguns vegetais que são também capazes de produzir algum calor.

Os vegetais são... E eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu

Um aquecedor de qualquer. Mas enfim, nós estamos precisamente com isso e estás a falar aqui de uma coisa que faz-nos voltar a Portugal e ao interior, que é as rochas como o granito têm mais propensão para serem radioativas do que outras. Claro. Ora, eu recordo-me, por exemplo, que uma das primeiras vezes que viajei pelo interior do país,

Foi, na altura, uma aldeia ainda pouco conhecida, hoje em dia faz parte de todos os roteiros, que é a Surtelha. A Surtelha fica ali no concelho de Sabugal, um pequeno sul... Não muito longe da Covilhã, nessa zona. É uma aldeia dentro de um castelo muito bonito, mas quando se viaja para sul de Surtelha, a certa altura encontra-se uma coisa muito misteriosa, que é um edifício gigantesco em granito.

mas que está abandonado. São as termas, umas termas que ali existiram e que foram construídas por um conto espanhol, porque tinha-se descoberto ali uma água que, se precisava, fazia muito bem, que era uma água radioativa.

Que aliás chegou a ser comercializada, há anúncios de jornais a dizer que compra água radioativa, faz muito bem à saúde. Porque um dos produtos de decaimento do tal potássio uranitório é o radão, que é um gás radioativo que é muito mobilizável pela água.

E, portanto, a circulação de água até devido, por exemplo, à precipitação, leva a que esse gás seja libertado e, portanto, a água dita radioativa, ou seja, que tinha, digamos, quantidades de radão significativas, era na altura considerada apetecível porque ela tinha um efeito que era considerado ser medicinal. Sabes que os efeitos medicinais têm dificuldade de ter alguma quantificação objetiva e que muitas vezes estão mais na nossa cabeça do que na química.

Bem, mas mesmo assim, à conta do decaimento radioativo e das leis da física, nós conseguimos calcular outra idade que tem muito pouco a ver com esses 100 milhões de anos. Exatamente. O que é interessante é que, quando se desenvolve durante o século XX, o conhecimento da radioatividade, consegue-se começar a estabelecer as famílias de decaimento dos vários elementos radioativos até ao chumbo.

E esse decaimento, ou seja, a taxa temporal com que se dá a transformação de um elemento no outro e a emissão de radiação gama ou de radiação alfa, depende agora dos casos ou beta que estamos a falar, funciona também como um relógio. Claro que nós estamos a falar essencialmente de potássio-árgon, agora são pares que se vão procurar quimicamente identificar para saber que eu estou eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu

Quanto tempo já passou desde que a rocha se formou? Tem sido, toda a gente já ouviu falar do carbono 14, que é aquele que é utilizado para as coisas mais recentes. O carbono 14 é sobretudo usado para coisas orgânicas. O carbono faz parte da nossa arquitetura. Se tiver, quem já viu os dados, por exemplo, de dados das idades das rochas dos Açores, já ouviu falar do argono 40, argono 39.

já ouviu para o lado do potássio e o árgano para coisas um bocado mais velhas. Portanto, existem vários, e quando estamos a falar de idade da Terra, então são pares ainda mais lentos no seu decaimento. Portanto, a ideia é que nós temos um elemento que é radioativo, somos capazes de identificar qual é que seria a sua...

porcentagem inicial, sabemos qual é a porcentagem atual e, portanto, a partir daí pode-se determinar de uma forma muito objetiva qual é a idade da Terra. E foi assim que chegou ao tal número mágico de 4.6 mil milhões de anos. Repara que agora é tudo mil milhões, tudo que nem mil milhões não presta, não é?

Portanto, isto neste caso, isso a geologia antecipou-se, não é? Antecipou-se, sim. Nós, daqui a uns anos, uma dívida de milhões era horrível. Agora, uma dívida que não é de milhares de milhões não tem sentido nenhum, a idade da Terra é a mesma coisa. E se for para os Estados Unidos, já são milhões de milhões. Exatamente. É melhor não falarmos de trilhões. Também o Thomson começou com alguns milhões e isto tinha que acabar em milhares de milhões, porque é aquilo que é um bocado mais realista.

Mas, voltando a Chaves, como é que nós, no caso de Chaves, podemos ter uma noção de onde é que está o reservatório só pela temperatura da água? Exatamente, porque se nós sabemos que nós estamos a falar de 30 graus por quilómetro...

Se temos uma água que arrefece também um pouco na subida, atenção, mas não tão devagar como a terra, então nós temos que ter um depósito a qualquer coisa como 3 km de profundidade. Um reservatório. De chaves. De chaves. Claro que nas outras regiões em que a temperatura é mais baixa, os reservatórios são mais pequenos ou mais superficiais e, portanto, não há nesta circulação...

tanto o aquecimento. Repara, quando a gente pensa em circulação, não pensem bem em que tipo de geotermia dos Açores. Pensem mais numa situação em que a água precipita, infiltra-se, dá uma viagem significativa no subsolo.

atinge uma situação em que tem rocha muito fraturada, e portanto em que ela pode permanecer algum tempo nesse reservatório e depois sai por um processo natural. Nós estamos a falar exatamente daquilo que nós encontramos, por exemplo, precisamente como disseste nos Açores, nas furnas.

em que podemos andar numa rua e termos água a várias temperaturas a serem de fontes diferentes. Mas aí nós temos vulcões. Aí temos vulcões, é um bocado diferente. Agora, é também interessante perceber-se que nós, na verdade, para além da rea da atividade, ainda estamos a viver do arrefecimento da terra. E a questão que se pode levantar é assim, mas isto dura eternamente?

nós vamos estar quanto tempo a arrefecer desta maneira. E, na verdade, nós hoje, que sabemos não só a gradiente da temperatura, mas também sabemos qual é que é a condutividade de cada elemento da litosfera, nós podemos fazer outra conta.

quanto é que a Terra já arrefeceu. E nós, na verdade, chegaremos à conclusão que só estamos a receber o calor ainda dos primeiros 600, 700 quilómetros da Terra. Daí para baixo, ainda nada chegou cá. Porque a Terra é muito pouco condutora. Exatamente, é muito pouco. Muito pouco condutora. Felizmente. É isolante. Exatamente, ela é muito isolante, o que significa que o calor primitivo, quando chegamos ao núcleo da Terra, nós ainda teremos uma temperatura...

similar àquela que teria no início da formação do planeta. E essa formação do planeta terá resultado, enfim, o que se estima hoje terá resultado do choque de vários corpos, corpos celestes, não é? Portanto, e de uma enorme explosão.

Mas afirma-se, em princípio, o que se sabe, no essencial, o modelo é razoavelmente consensual, é que começares por ter uma massa única a espiralar no espaço exterior, que formou um corpo central, que é o Sol, e depois formou todos os planetas também da mesma forma.

E, portanto, tudo isto é a mesma massa primitiva. Claro que, à medida que tudo afastas do centro, a composição química varia. Nós temos planetas grisosos lá mais para longe e planetas terrestres, ou seja, telúricos, que há mais para o centro. Mas, à partida, todos temos, no essencial, a mesma idade. E porquê que nós dizemos isto com tanta certeza?

Primeiro porque nós somos capazes de ver, no caso do Sol, a temperatura a partir da radiação. E segundo por causa dos meteoritos, porque existem esses testemunhos do sistema solar primitivo que de vez em quando caem em cima da cabeça de algum passante. E nós conhecemos, somos capazes de ver aqueles meteoritos.

cuja composição química estará mais perto da composição primitiva do sistema, ou seja, estão menos diferenciados, e a idade deles também corresponde a este valor. E quando vemos a Lua, como falámos, quando os outros são as rochas da Lua, as mais antigas também têm este valor. E se perguntarmos onde é que estão as rochas mais antigas da Terra, olha, uma boa parte está nos sedimentos.

Elas já foram rochas duras, já foram erudidas e, na verdade, hoje em dia estão guardadas nos sedimentos para análises futuras.

Quando dizes guardadas nos sedimentos, que no fundo quer dizer foram arrancadas de rochas primitivas, transportadas e novamente depositadas, ou em mar ou em bacias... Normalmente no mar. Mas tem pequenos núcleos que nós hoje ainda podemos analisar. E, portanto, o que foi, o que começou por ser um erro de apreciação, veio-se a verificar que tinha justificação ser erro.

Acabou por haver um método que permite realmente calcular a idade e nós hoje, quando vamos a umas termas, já podemos ter a ideia de que, de certa forma, estamos ainda no quentinho do arrefecimento da Terra. Mas quando olhamos para a Terra para essas tais, estamos a falar de um valor de cerca de 6 mil graus no seu núcleo, 6 mil graus e quase nada arrefeceu, portanto estará lá 6 mil graus quase desde o princípio.

Quase as do princípio. E não é uma temperatura assim, Tomás, se reparares bem, é a temperatura dos LEDs que tu costumas comprar para quando queres luz branca em casa. E há relação entre isso? Claro que há. Podíamos um dia falar disso. Porque é que os LEDs têm a mesma temperatura do centro da Terra. Os micro LEDs têm a mesma temperatura do centro da Terra. Que é, de facto, mais um desafio que fica para um outro programa. Nós despedimos-nos hoje de mais este E o Resto é Ciência. Reencontramos-nos dentro de uma semana.

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