Episódios de Conversas do Fim do Mundo

"Já voltei à Índia mais de cem vezes"

02 de maio de 202644min
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Inácio Rozeira é apaixonado pelo  país dos contrastes. Uma paixão que já o levou a percorrer o imenso país das mais diversas formas e com os mais diversos propósitos. 

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Assuntos7
  • Viagem de moto no VietnãAventura com a namorada · Desafios do trânsito indiano · Duração e percurso da viagem · Aventura com cão
  • Índia como Tese de Longo PrazoPrimeira viagem e impacto · Busca por espiritualidade · Viagem ao Nepal e Tibete · Encontro com o Dalai Lama · Diversidade religiosa e cultural · Hinduísmo e suas características
  • Automóveis e viagensPercurso de São Paulo à Patagônia · Travessia da América do Sul · Desafios de viver na Kombi · Aventura e natureza
  • Viagens InternacionaisResquícios da Guerra dos Balcãs · Contexto da Guerra da Bósnia e Kosovo · Percepção do contexto da guerra · Experiências em Sarajevo e Kosovo · Diferenças culturais e religiosas
  • História do Americano e o Burro JudasViagem de 12 anos a pé e de burro · Travessia da América Latina · Perda do burro Judas · A importância do burro na viagem · Jonathan Dunham e sua história
  • Endireitamento de Caminhos TortuososCaminho Francês · Caminho Português · Caminho de Finisterra · Motivações espirituais
  • Encontro com os sobreviventes dos AndesA história dos Andes e o filme
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Sejam bem-vindos. O viajante desta semana é um explorador e aventureiro e também protagonista de algumas viagens cheias de loucura. Ele já fez a Europa de leste de comboio, atravessou a Índia numa moto com sidecar, com parte do percurso feito na estrada mais alta do mundo, já percorreu a América do Sul numa carrinha pão de forma, hoje organiza expedições para executivos e tem uma enorme paixão pela Índia. Inácio Roseira, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.

Muito obrigado, é um prazer Paixão pela Índia Sim, completamente Quão apaixonado tu és por este país-continente, Inácio

Eu não sei muito bem qual é a razão, mas acho que quando eu penso nisso, tento fazer aqui um bocadinho de psicanálise. Em 2001, quando eu fui a primeira vez à Índia, foi a primeira viagem que realmente me impactou. Eu tinha 22 anos, conhecia Portugal e Espanha, pouco mais do que isso. Pouco mais do que isso, não, na realidade, conhecia Portugal e Espanha e os Pirineus franceses, mas nada mais do que isso. Os Pirineus franceses porque tinhas feito o caminho de Santiago, não é?

Sim, tinha feito o caminho francês de Santiago. Tinha feito o caminho francês de Santiago, exatamente.

No ano 2000, o ano anterior, tinha feito o caminho francês de Santiago. A pé? Bicicleta? A pé? A peleia? A pé? É na altura que as pessoas têm tempo, não é? Quando tinha 21 anos, tinha tempo para isso poder fazer a pé. Quanto tempo demoraste a fazer o caminho francês? 27 dias. Ah! Quer dizer, foram 27 dias, depois os meus pais foram buscar a Santiago, os meus irmãos, foi ótimo.

e depois vim para o Porto, depois como estava um bocadinho insatisfeito no Porto, porque queria continuar a andar, quem faz estes caminhos tem sempre a vontade, e agora para onde é que vou, chega-se a Santiago, a pessoa fica, e agora, vou caminhar para onde? Um bocadinho de insatisfação. Então vim para o Porto, depois fiz o caminho português, no mesmo ano, a seguir cheguei a Santiago, fiquei lá 34 dias, encontrei uns amigos e fiz fazer o caminho de Finisterra.

e depois ainda fiz o caminho português outra vez de volta, ao contrário. Por isso, esse ano fiz muitos quilómetros a pé, mas na altura que tinha, foi no ano 2000, por isso tinha 21 anos. Muito bem. Portanto, conheces a Península Ibérica, pouco mais, e aí vais do Pai Índia. Então em 2001 propus-me... Atraído pelo quê? Pelo esotismo? Sim, eu diria que nessa altura eu estava um bocadinho à procura, acho que estamos numa fase, não sei como é que são as outras pessoas, mas eu pelo menos estava numa fase muito descomendida a mim próprio e muito.

e nesses momentos pensava em espiritualidade, quando é o meu papel no mundo. Eu lembro que quando fui fudendo caminho francês Santiago, uma das coisas que eu colocava como perspectiva de carreira, ou de carreira não, de vida, era ser padre, por isso fui fudendo. Padre? Sim.

por isso fiz o Caminho de Santiago um bocadinho nessa descoberta dessa espiritualidade aliás na realidade fiz metade sozinho metade acompanhado por um seminarista por isso aquilo foi o processo de descoberta pessoal e nessa descoberta pessoal no final do Caminho de Santiago disse que cheguei à conclusão que não tinha a certeza de querer ser padre mas para isso tinha que conhecer mais de religiões do mundo e espiritualidade noutros sítios do mundo e o melhor sítio não existe

Sim, e na realidade a Índia não foi a primeira opção. A primeira opção foi ir ao Nepal e ir ao Tibete e conhecer o Dalai Lama. Era esse plano que eu tinha, que eu tinha 21 anos. Então voei para o Nepal, realmente um ano depois voei para o Nepal, juntei dinheiro, voei para o Nepal, fui até o acampamento de base do Everest sozinho nos Himalayas, durante 16 dias, com muito pouco dinheiro, com muito poucos recursos.

E depois percebi, obviamente, da preparação da viagem que o Dalai Lama não vivia no Tibete. Não, eu vivo na Índia. Exato, até li o livro dos 7 anos no Tibete, do Arhar. E na realidade, ao perceber que ele vivia na Índia, percebi que ele estava refugiado na Índia, então pus na minha lista, ir ao Nepal, já que vou ao Nepal, também vou à Índia e vou procurar o Dalai Lama. E encontraste o Dalai Lama?

E encontrei, na realidade encontrei, por isso eu fui do Nepal para a Índia, a Índia fascinou mais do que o Nepal, por isso a paixão pela Índia foi por aí, e percebi que o Dalhama vivia no Norte Índia, nos Himalaias Indianos, e fui aos Himalaias Indianos à procura do Dalhama.

Na altura, no início da internet, em 2001, fui mandando uns e-mails, porque havia uns e-mails na internet do governo em exílio, do Tibutano em exílio. Então tentei contactar, queria entrevistar o Dalhama. Foram-me muito simpáticos, responderam-me sempre. Então eu fui até a Daramsal, a MacLeod Ganges, onde ele atualmente ainda vive.

E não fui recebido por ele, mas fui recebido pelo secretário pessoal dele. Por isso tive alguns dias lá, tive aulas com o Patchen Lama, lá durante alguns dias, nesta busca. Mas não tanto com ele ali, fui convidado para uma série de cerimónias. Foi a primeira vez que o Dallama veio a Portugal. Foi no ano seguinte, foi em 2002.

Então várias cerimónias que ele teve em Portugal eu estive presente em algumas delas na Cabernetiva do Aloporto. Como convidado? Sim, sim, sim. Uau! Porque alguns meses antes, como eu era português um bocadinho exótico, tinha ido lá de bater à porta a própria comitiva que foi organizada por todos os tibetanos, mas em França a organização era francesa mas mandaram-me um e-mail a dizer assim olha, o itinerário do Alamo em Portugal é este o que é que tu achas? Eu era um jovem com 21 ou 22 anos. Ah, eles pediram-te conselhos!

Não pediram conselhos, pediram uma opinião. Eu disse, está tudo bem, não é? Não sabia mais nada. Mas pronto, mas depois estive presente quando ele foi recebido na Câmara do Porto, na Universidade de Luzia, para receber um doutoramento honoris causa, no Aeroparque, no Palácio Cristal, em várias cerimónias, estive muito próximo da Alama. E a paixão pela Índia surgiu um bocadinho por acaso, nessa circunstância, e entretanto voltei lá mais de 100 vezes, 120, não sei quantas vezes, não faço a mesma ideia.

A sério? Tantas vezes assim já voltaste à Índia? Já voltei mais de 100 vezes à Índia, é verdade. Todos os anos volto, com muita frequência, com desafios diferentes e a espiritualidade até que hoje em dia mais me fascina não é tanto este budismo tibetano, mas este lado do hinduísmo, desta cultura que mistura uma série de religiões, uma série de coisas, que funciona e que realmente eu acho que é incrivelmente fascinante e altamente impactante para o olhar ocidental.

A Índia é um país muito diverso do ponto de vista religioso, cultural, infinitamente diverso. Tu achas que isso acontece ali porquê? Porque senão é qualquer do mundo, não é? Ou há ali características específicas?

Acho que há uma característica muito especial, que na realidade a sociedade indiana ou o governo indiano, o país índia que foi fundado depois da descolonização britânica, foi criado sob a ideia de uma religião, ou de um princípio religioso chamado hinduísmo, porque não há uma religião organizada, porque nós não podemos dizer que o hinduísmo é exatamente uma religião organizada, porque não é, porque não tem hierarquia, não tem rituais obrigatórios, há uma série de coisas que não existem no hinduísmo.

E na ideia do hinduísmo todas as religiões estão certas, porque na realidade eles acreditam no processo da encarnação. Buda, ele próprio, era hindu, Siddhartha Gautama era hindu, e quando ele atinge a eliminação, de repente, encontrou um dos caminhos para o nirvana, para aquilo que é chamado no budismo, a iluminação chama-se nirvana, para o hinduísmo chama-se moksha.

e na realidade ao encontrar esse caminho para o Nirvana então cria uma nova religião que é o Budismo, que é o caminho de Buda mas Buda ele próprio era originalmente hindu e esta filosofia, esta cultura sendo que no hinduísmo hinduísmo é uma religião mas é também cultura é exatamente a mesma coisa, enquanto nas sociedades ocidentais a cultura e a religião estão um bocadinho separadas umas das outras na Índia isso não acontece e na prática

O que acontece é que esta cultura e esta religião permite que todas as outras culturas ou religiões ou maneiras de ligar ao transcendente sejam também válidas. Por isso é que eu acho que a Índia funciona como um país altamente multicultural e multireligioso, do norte budista para o centro sul hindu, com grandes comunidades muçulmanas conviverem ali no meio. Obviamente há momentos de tensão e há zonas de tensão, Casmira, essas coisas todas obviamente que sim.

Mas se nós pensarmos que é um país com 1.3 mil milhões de pessoas e que convivem 10 ou 15 religiões com alguma predominância, com alguma expressão, católicos, cristãos que não são católicos, e convivem pacificamente, é incrível. Tu achas que é um território de tolerância?

É claramente um território de tolerância Isso não tem nada a ver com Deus nenhum Embora exista um momento de tensão Obviamente que existem sempre extremismos em todas as religiões Nós não vemos grande extremismo hindu Hoje em dia se calhar um bocadinho mais Porque este presidente é um bocadinho nacionalista hindu Mas não há grandes episódios de extremismo hindu Porque os hindus, por exemplo, não acreditam na evangelização Por isso na realidade os hindus Não andaram pelo mundo A espalhar a sua fé Eles acreditam que são filhos daquela zona Daquela geografia, daquele terreno Então

E são hindus como nós somos portugueses, não é? Por isso a cultura e a religião não estão dissociadas, são as duas uma e a mesma coisa. Diz-me uma coisa, quem é profundamente agnóstico irá achar alguma piada à Índia ou não? Eu acho que sim, eu acho que obviamente, a mim faz-me confusão, as pessoas estão totalmente agnósticas. Não sei se o agnóstico é aquele que não acredita claramente em nada ou se não acredita em nenhuma forma organizada de não acreditar ou de acreditar no transcendente, não é? Nesta forma.

E eu acho isso claramente incompreensível. Na minha maneira de pensar o mundo é completamente incompreensível. Eu sinto que na realidade há coisas que não sou capaz de explicar e sinto que há coisas que nunca serei capaz de explicar. Eu, não eu o Inácio, mas mesmo eu o Inácio com um tempo ilimitado, recursos ilimitados, nunca seria capaz de explicar. Isso dá uma dimensão para algo do inexplicável que me transcende a mim, por isso dá a dimensão do transcendente.

Se nós tivermos essa disponibilidade, não quer dizer que acreditemos em alguma forma organizada, não é? Mas, pelo menos, ao viajar pela Índia, dá para perceber porque estas pessoas acreditam em figuras mitológicas, como um deles com cabeças de elefante, com vacas sagradas e coisas estranhíssimas para o nosso olhar acidental. Sendo que hoje em dia não é super estranho, não é? Porque as culturas estão um bocadinho...

estão exportadas e estão um bocadinho em vários lados do mundo. Mas eu imagino o que é que se fosse os padres portugueses ou os padres jesuítas portugueses chegar no século XVI a Goa e olhar para aquilo, deusas com língua de fora, representadas com sangue, essas coisas todas que eram inacreditáveis. Mas aquilo são formas de representação da transcendência e eu acho que isso é super fascinante. E se formos totalmente descrentes em tudo isto...

Pelo menos somos crentes na cultura, porque disso nós não podemos ser descrentes. Então perceber a cultura é sempre uma forma rica, e aquela cultura é na realidade muito, muito diferente de todas as outras culturas que nós conhecemos. Muito bem, voltaste muitas vezes à Índia. Muitas vezes. Muitas vezes. Em 2002, fazes uma viagem pela Europa de Leste de comboio, não é? Sim, sim. E és à procura do que, Inácio? Nessa altura...

Dos resquícios da Guerra dos Balcãs. Era? Sim, sim. Na realidade, o que aconteceu em 2002 foi que a Guerra dos Balcãs estava muito presente na nossa memória. A Guerra da Bósnia tinha sido uma coisa relativamente recente, no final dos anos 90. Com muito sangue, muita violência, campos de concentração. Coisas inimagináveis na Europa dos anos 90.

Quer dizer, inimagináveis para a ideia de Europa que nós tínhamos Exatamente, o que nós tínhamos Se calhar agora começa a ser mais fácil ou melhor, conseguimos imaginar melhor infelizmente conseguimos imaginar melhor mas no final dos anos 90 tinha-se a Guerra da Bósnia depois estava a acontecer a Guerra do Kosovo e aquele sítio de Europa relativamente perto geograficamente era um sítio altamente impactante pelo contraste mesmo das coisas que aconteciam da cultura, dos ortodoxos tudo aquilo era tão diferente que eu queria conhecer aquelas culturas, aquelas formas de pensar então

Então viajei daqui de comboio, fui de comboio pelo Sud Express até o centro da Europa, do centro da Europa, por acaso tive um episódio engraçado em Paris, porque o meu francês era tão bom ou tão mau que comprei um bilhete para Viena, queria ir para Viena da Áustria e fui parar ao sul de França, numa cidade chamada Vienne no sul de França, por isso tive um episódio engraçado. E podias ir para Viena.

Viana de Costela, Viana de Alentejo Quase a mesma coisa que confundirem essas dúvidas Mas fui parar Aviano no sul de França O início da minha viagem Seria Belgrado, capital da Sérvia E perceber o que é que acontecia por ali Então viajei, sei lá, Sérvia Bósnia, Croácia, Montenegro Kosovo, Macedónia, Albânia Todos esses países para perceber o contexto O imperador Tito que tinha estado ali Do movimento dos Kosovares De presença dos albaneses Dos...

dos ortodoxos, dos muçulmanos de todo aquele melting pot que acontece ali, que teve em equilíbrio durante muito tempo, e naquele momento tinha sido a história da ex-Jugoslávia, e ali tinha-se dividido vários países e perceber aquele contexto

Portanto, ias tentar perceber, não à procura, porque há muita gente que viajou no final dos anos 90, ou durante os anos 90, em busca de um certo imaginário soviético que estaria a desaparecer. Tu não ias à procura nada disso? Não, não, não. Era mesmo tentar compreender o que estava acontecendo na Europa do Leste? Era mesmo um lugar de aventura, percorrer um sítio que não era muito percorrido na altura, perceber o contexto da guerra, do que é que tinha sido a guerra recente.

Aliás, eu estive no quartel português em Sarajevo, recebido pelos militares portugueses em Sarajevo em 2002. Por isso...

Foi muito bem recebido. Eu já percebi que tu és bem recebido em todo o lado. É uma boa pessoa para viajar. Sim, acho que sim. Não posso dizer que tenha sido bem recebido em algum lado. E depois até fui ao Kosovo. Na altura estava muita atenção ainda no Kosovo. Ainda vi duas granadas explodir e pessoas a morrer à minha frente. Em Pristina. Na altura Pristina era uma cidade que aparecia nas notícias todos os dias.

Pristina, capital do Kosovo Tinha-se na altura separado da Sérvia e foi aquela confusão com o Milo Zavitsk que depois foi julgado no Tribunal Internacional porque fazia parte na separação da ex-Jugoslávia o Kosovo fazia parte da Sérvia por isso naquele contexto todo

Queria perceber como é que ele funcionava e andei lá de comboio, de transportes locais, de um lado para o outro. Já lá regressaste a esta Europa de leste? Já voltei à Sérvia várias vezes. Notaste diferenças?

Na Sérvia notei, obviamente, algumas diferenças, mas realmente continua a ser uma Europa muito diferente da Europa que o resto da Europa. Principalmente a Sérvia, que está afora. Mas também há várias Europas, não é? Sim, obviamente que há várias Europas. A Europa da Alemanha não é a mesma Europa de Portugal. Sim, claro que sim. Obviamente que sim. E os Sérvios, essa Sérvia que tu foste encontrar agora mais recentemente, está mais próxima da Europa Central?

Eu acho que a Sérvia está fora disso tudo A Sérvia não é vista como Europa É vista como fora dos acordos Schengen Moeda única Está fora disso tudo Eu digo desenvolvimento humano e cultural Sim, a Sérvia sempre tem muita cultura A Sérvia é quem guarda Os resquícios e a herança da ex-Jugoslávia Por isso a ex-Jugoslávia foi uma coisa Importantíssima durante Muito tempo Por isso a Sérvia tem muito orgulho

Mas na realidade é um país que se sente um bocado renegado no meio desta Europa toda, porque está ali encravado ali no meio e é sempre visto como o lado mau, não é? Está do lado mau da força. E na realidade, se nós formos ver a guerra dos Alcãs e tal, a história que nos é contada sempre é que os sérvios foram...

foram os maus, mas como dizia um amigo meu servo, o Mihailo Dimitrivitsch, que é assim que ele se chama, dizia-me muitas vezes, imagina que o teu avô tem uma quinta no Alentejo e alguém vai por lá dentro e toma conta da quinta do teu avô. Será que tu não ias lutar pela quinta do teu avô? Por isso é um bocadinho esse lado. Com tempos de guerra, ninguém tem razão. Isso não é hipótese. Pois, muito bem. Portanto, fascinante esta viagem pela Europa de leste. Sim, muito fascinante. O que é que se aprende a viajar, Inácio?

Aprendes a tolerância, aprendes a gostar de Portugal. Acho que é uma coisa fantástica. Eu, pelo menos, acho que quanto mais nós viajamos, mais percebemos que em Portugal estamos num sítio super privilegiado. Isso não depende dos sítios para onde se vai? Não, acho que há sítios que também são muito interessantes. Essa avaliação não depende dos locais para onde se viaja?

Sim, acho que posso dizer que sim, mas eu já fui lá a dezenas de países, já fui desde a América do Sul para a Ásia, África, vários países e tudo, e os únicos dois sítios onde eu vivia na vida era Portugal e talvez Uruguai, que é um sítio fabuloso, mas de resto, não é mais de lá nenhum.

Não vivia no Brasil, não vivia no Peru, não vivia na Índia. Seis meses na Índia, oito meses na Índia, um ano na Índia, tudo bem. Sempre com data de regresso, tudo bem. Com a possibilidade de voltar, tudo bem. Mas acho que Portugal realmente... Aprende-se a gostar de Portugal. Aprende-se a...

Aquelas coisas que hoje em dia se falam no mundo académico das soft skills, não é? Desarrascarmos em situações mais complicadas e nos primeiros anos do meu tempo de viagens eu viajava muito sozinho, não é? E acho que também uma das coisas que nos ajuda não quer dizer que viajar sozinho seja melhor que viajar acompanhado eu não acho isso mesmo acho que há momentos para tudo e as pessoas... está sempre certo, até porque o certo na minha opinião é tirar o rabo do sofá isso é o que é o certo, não é?

Se é para ir até à margem sul, ou se eu sou do Porto, ou ir até Espinho, está tudo ótimo. Não tem problema nenhum. O importante é ir. É ir, exato. Mas dizendo que viajar sozinho acho que permite uma coisa, não colocar a culpa no outro. Na realidade, se alguma coisa corre mal, nós somos sempre os únicos culpados. Não há hipótese de dizer epá, mas foste tu que acordaste tarde e perdemos o autocarro, não demoraste mais tempo a tomar banho, ou ontem disseste não sei o quê. Não há hipótese, a culpa é sempre nossa.

Se bem que hoje em dia, não sei, estou a convocar-te para uma reflexão, se bem que hoje em dia é muito mais diferente viajar, porque hoje em dia nós temos o mundo na nossa mão, através dos telemóveis, do que era em 2001 ou para trás, não é? Sim. Ou seja, hoje ninguém precisa de soft skills para nada, não é? Quer dizer, até para subir o Kilimanjaro basta, basta, entre aspas, ter um telemóvel e um Google Translate e qualquer pessoa se desenrasca. Ou não é nada disso.

Aproveito a deixa para dizer que não, a melhor maneira de subir o Kilimanjaro é a Católica Porto Business School onde eu organizo um programa executivo Eu quando disse Kilimanjaro eu procedi logo, ele vai meter esta Fazes bem, anda Organiza as expedições, não é? Através da Católica Porto Business School Exatamente Para executivos Já vamos falar disso Sobre as soft skills e esta era da internet

Eu acho que a área da internet, nós com três cliques conseguimos marcar um hotel de um momento para o outro, um voo de um momento para o outro, não significa que seja mais fácil. Significa que nós podemos ir mais rápido e ir a mais sítios. Ou seja, o espectro de possibilidades alargou-o de uma forma brutal. Se eu estiver aqui em Lisboa hoje e disser assim, eu adorava ir a Barcelona porque há um concerto, não sei o quê. Se fosse há 10 ou 15 ou 20 anos, tinha que procurar um balcão da agência não sei quantas e aquilo era um processo um bocadinho mais complicado.

Sim, mas desenvolvia as competências, não é? Mas está bem, mas demora mais tempo e se calhar não ia conseguir ir ao concerto. Eu acho que realmente a possibilidade da tecnologia e a possibilidade de estarmos ligados e de facilitar é um... É um plus. É um plus de rapidez, de experiências, de descobrir coisas. Eu lembro que a primeira vez que eu fui ao Solar do Iuni, na Bolívia,

vi uns maluquinhos a tirar umas fotografias uns mais ao fundo, outros mais perto e não percebia o que aquilo é e realmente na sala da Bolívia o celular do Ioni consegue tirar umas fotografias e que há um erro de perspectiva, parece que está toda a gente no mesmo plano e as pessoas estão a um em cima da mão do outro, e eu achei aqueles maluquinhos na realidade, se eu tivesse internet percebia que toda a gente tirava fotografias daquele género porque era partilhado nas redes sociais e na altura não havia redes sociais, por isso eu não sabia Muito bem, vamos abrir o álbum de viagem

Inácio, guardas contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial? Vou guardando algumas coisas, alguns objetos pequenos, alguns bocados de madeira que trago de alguns tempos na Índia, como oferecem, algumas cinzas sagradas de Vibhuti trazidas de Shidambaram, por exemplo. Vou trazendo aqui algumas coisas, mas eu não sou um colecionador, por isso não tenho 500 coisas em casa e a verdade é que ao longo do tempo também vou perdendo ou vou oferecendo, alguém chegar à casa gosta daquilo, leva.

Não estou super ligado às coisas, estou muito desligado das coisas. Portanto, não há um objeto. Não, não há um objeto, não. Muito bem, estamos à conversa com o Inácio Rozeira. Vamos fazer aqui uma pausa, regressamos já a seguir. Até já.

Estamos de regresso para a segunda parte das conversas do Fim do Mundo, esta semana com o professor Inácio Roseira, professor e também organizador de expedições locais do planeta, expedições dirigidas a executivos. Já vamos perceber, Inácio, o que é que as botas de montanha podem fazer por pessoas engravatadas.

Tomam decisões difíceis de segunda a sexta-feira. Mas olha, vamos continuar a falar das tuas viagens. Há aqui uma que me intriga bastante. Porquê que andaste 8 mil quilómetros de moto com um sidecar pela Índia?

Não bastava uma moto, tinha que ser com um outro lado ao lado Eu na altura Era chique, era fixe Não, não, com a minha namorada Mãe da minha filha na altura Que era a minha namorada na altura Eu dei-lhe a ideia de darmos a volta ainda de moto E ela disse, pá, de moto não, é desconfortável Não sei se é perigoso, mas olha, giro-gira Com aquela coisinha ao lado, aquela coisinha ao lado Ele sai de cara

Eu imagino aquelas curvas Não, foi espetacular Anda-se mais devagar, é mais difícil No meio do trânsito, os caminhões todos Aquilo é um objeto estranho No trânsito indiano é um objeto estranho Foi uma moto comprada lá, não é? Foi comprada lá, sim Entretanto já está cá em Portugal Ah, trouxe este? Trouxe, trouxe, trouxe

É uma moto com 60 anos que aquilo para andar dá uma trabalheira de manhã que ninguém imagina. Porquê? Tem que aquecer, tem que ver se os olhos estão direitos. Ah, é caprichosa. Ah, super caprichosa. Super caprichosa. Mas pronto, fizemos 8 mil quilômetros à volta da Índia de moto com sidecar. Foi uma aventura brutal. E numa altura que não havia booking, não havia nada dessas coisas e que chegávamos às cidades e tínhamos que procurar o alojamento e bater à porta toda a gente.

se arranjarmos os filhos para dormir, por isso já foi há uns aninhos. Pois, eu deduzo que seja uma atividade perigosa conduzir na Índia ou não? Não, não, só demora duas horas a habituarmos, depois começamos a comportar como eles e na realidade tudo corre bem. Na Índia já agora fica uma mantra pelo menos de vida, aproveita e deixa para uma mantra de vida, corre sempre tudo bem, se não tiver a correr é porque não acabou, porque no final fica sempre tudo bem, não há problema nenhum.

É o meu mantra que eu levo sempre da Índia comigo Muito bem, percorrestes 8 mil quilómetros Portanto fizeste a Índia toda A volta à Índia Fizeste um círculo Por isso comecei em Nova Delhi Desci até lá em baixo, o sítio mais no sul da Índia Se chama-se Caneacumari, passando por Bombaíngo E essas coisas todas Pessoal subi pela costa oriental até Calcutá E de Calcutá voltei outra vez a Nova Delhi Não foi nessa viagem que fui aos Himalaias À estrada mais alta do mundo, foi noutra viagem de moto Ok

Porque com sidecar não se chega lá Já agora na realidade E organiza algumas viagens de moto Pela Índia também Mas na realidade foram 8 mil quilómetros À volta da Índia, uma moto com sidecar Uau, muito bem Com a minha namorada e depois pusemos um cão lá dentro Pois ouvi uma imagem onde há um Um jeco também E o cão também veio para Portugal Por isso nós voltamos o cão, viajou para 4 ou 5 meses connosco E depois trouxemos para Portugal

Ok, essa viagem demorou 5 meses, não foi? Não, 8 meses. 8 mil quilómetros, 8 meses, moto, sidecar. A viagem na estrada mais alta do mundo é que foi com outra moto. Não, não, isso foi outra expedição que eu organizei, mas demorou duas ou três semanas, não é? Ok. Na Índia, não é? Eu vou fazendo viagens muito diferentes na Índia, desde os pontos mais a sul, aos sítios das comunidades portuguesas, da tradição portuguesa, aos templos mais sagrados, às cidades sagradas de Varanás, onde estão as cremações dos corpos.

ao Festival de Pará-Grás, o Festival de Cumbamela, que aconteceu o ano passado, que foi a maior concentração humana na história da humanidade, que juntou 400 milhões de pessoas durante seis semanas. Estive lá no festival. Vai sair um documentário sobre isso, também não tarda nada. Foi por ti? Foi por mim, sim. Ah, boa. E eu e o João Amorim fizemos esse documentário.

Por isso, vou voltando à Índia muitas vezes para as coisas mais exóticas que posso imaginar, que vou descobrindo e que as pessoas me vão propondo. É fácil, não é? É fácil. Filmar e trazer coisas boas da Índia. Ah, não, é só ligar a câmera e ter uma outra coisa. É tudo exótico e tudo diferente. E colorido, não é?

Eu acho que o incrível da Índia, às vezes as pessoas quando chegam lá comigo dizem assim, isto é incrível, tem uma vantagem, é que o National Geographic chega aqui e começa a filmar e isto é tudo igual. Nós parece que estamos a fazer imagens do National Geographic, porque a realidade é mesmo aquela, super coloridos, os turbantes na cabeça dos homens, os cis, as mulheres com os vestidos com os saris coloridos, e aquilo não é um contexto específico de uma fotografia de alguém que é um grande fotógrafo.

É o dia-a-dia, no trânsito, no caos, nas cidades, nas vilas da Índia. Isso é fabuloso.

Muito bem. Portanto, tens experiência a conduzir na Índia e também experiência a conduzir na América do Sul. Também. Porque também fizeste uma longa viagem, mas desta vez num ponto de forma, não é? Exatamente. Sim, fomos para São Paulo, compramos uma carrinha ponto de forma, uma Volkswagen Kombi, como dizem os brasileiros.

e compramos ali em São Paulo uma Kombi e viajamos durante 14 meses de São Paulo ao Rio de Janeiro, para quem souber um bocadinho da geografia do Brasil, saberá que é perto mas nós fomos pelo caminho mais longo, porque deixamos até ao sul da Patagónia, até Ushuaia e daí subimos a costa ocidental toda da América do Sul até a Venezuela, Passado de Peru Bolívia, esses países todos, Colômbia, tudo isso

entramos pela zona da Amazónia até Manaus, andamos ali na Amazónia e depois descemos até o Rio de Janeiro passados 14 meses e pronto, foram 14 meses para fazer 40 mil quilómetros na América do Sul que foi uma grande aventura também brutal, brutal Imagino, 14 meses tens imensas histórias para contar Sim, acontece tudo em 14 meses, principalmente dentro de uma lata

em que uma pessoa vive lá dentro, cozinha lá dentro é sempre um grande desafio mas é uma aventura espetacular e a América do Sul é realmente um continente avançado pela natureza, um sítio brutal. Foi na América do Sul que conheceste um americano, não é? Sim, foi nessa viagem. Extraordinário com extraordinário é esse americano

Não, isso foi uma... Uma pessoa que quando viaja muito tem um bocadinho aquele argumento de que quer sempre contar as suas viagens e vir a estes programas para poder contar um bocadinho e partilhar as suas viagens. O viajante tem uma certa basófia, não tem? Tem bastante basófia até. E vai dado, e vai dado. Mas isso é bom ou não é? Acho que sim, obviamente. As pessoas vão fazer as coisas, querem partilhar aquilo que fizeram. Isso.

E acho que normalmente as outras pessoas também querem ouvir. Por isso é uma verdade. Também é verdade.

Há vezes, no contexto dos viajantes, e foi este contexto que eu me encontrei, uma vez estávamos no sul do Chile, num hostel no sul do Chile, há um bocadinho aquela conversa de viajantes, de onde é que tu és, de onde é que não és, de quanto tempo é que estás a viajar. E na altura, quando eu estava na América do Sul, para além de já ter viajado muito por vários fitos do mundo, nomeadamente muitas vezes pela Índia e outros países,

tinha muitas histórias para contar e estava a viajar numa carrinha pão de forma, por isso a minha história era sempre uma história incrível. Então quando me sentei... Achavas tu, não é? Achava eu. Quando me sento na cozinha do hostel para partilhar estas histórias, senta-se uma pessoa ao meu lado e a primeira pergunta que eu faço é então, de onde é que és? E depois logo, há quanto tempo é que estás a viajar? Porque ele já tinha um argumento bom porque estava a viajar já há seis meses.

E ele diz, ah, estou a viajar há 12 anos. E 12 anos? Ah, 12 anos não pode ser. Eu, não, estou a viajar há 12 anos. A partir daí, o meu tempo de viagem não interessa, é totalmente irrelevante. Então, tentei puxar o fio à meada e tentar saber mais daquela história. E era um americano que tinha saído do Texas, de Santo Antônio do Texas, a pé. Tinha ido a pé até ao México, tinha entrado no México a pé. Tinha trabalhado numa quinta.

Nessa quinta tinha oferecido um burro. E a partir do momento em que saiu do México de burro, começou a viajar com um burro. Então, atravessou a América Latina, América Central toda de burro.

Até que depois chegou ali à zona do Panamá para atravessar para a Venezuela e para a Colômbia, com o Darien Gap, e tinha um problema que tinha um burro, não é? E atravessar aquilo, não dá para atravessar ali a zona da floresta, a única forma é de barco. Então teve que arranjar um barco que aceitasse um burro e com o burro conseguiu chegar perto da costa da Venezuela, mas depois os homens do barco, os donos do barco, não tinham os papéis direitos.

e na realidade ele não conseguiu acostar o barco para tirar o burro, então toda a gente conseguiu sair em pequenas embarcações, ele ficou engravado dentro do barco porque tinha um burro, então ainda teve pai 3 meses dentro do barco, e pronto, tinha que ver uma meia pupeia de coisas brutais, e quando ele falava da história do burro, falava de alguém muito próximo, e obviamente que eu interrogava-me.

onde é que está o burro, não é? Porque eu estou aqui, tenho a minha carrinha ponta forma e tu estás aqui, mas eu não estou a ver nenhum burro, não é? Isso. Então pergunto-lhe, passados vários dias à conversa, pensei, onde é que está o burro? E ele disse, ah pá, pois o burro, pois eu estava no sul do Brasil e uma vez estava também ao relento e o burro começou a fazer barulho durante a noite e percebi que tinha sido picado por uma cobra venenosa e morreu ali.

Quando ele fala dizer que o burro morreu, estava com os olhos mariados, completamente a chorar, não é? Como se tivesse perdido e obviamente perdido de alguém muito e muito importante.

E então, naquele momento, já estava sem burro. E eu pergunto-lhe, mas faz-te falta o burro? Os atos de jeito? Com burro é muito fácil viajar. E eu pergunto-lhe, mas porquê é fácil viajar com burro? Chegaste a qualquer sítio e as crianças vêm ter contigo, querem fazer uma vestida ao burro, as pessoas vão perguntar, a história é sempre uma coisa um bocadinho exótica, por isso, de repente, é tudo muito amigável, o ambiente é muito amigável, e toda a gente dá comida. É um bom desbloque.

É um ótimo desbloqueador. Agora, quando estou sozinho é um bocadinho mais difícil, porque chega às pequenas povoações aqui da Patagónia e as pessoas pensam que eu sou o vagabundo que as vou assaltar e fazem queixa e eu vou preso. É um bocadinho mais difícil de viajar sem burro. E eu digo, pá, é preciso escrever a tua história. É preciso, tens de partilhar a tua história. Ele diz, ah, não vale a pena.

Vem ao Google e escreve Burro Judas, que é o nome do meu burro. E vai descobrir artigos sobre mim em todo o lado, tudo que é jornais e imprensa da América do Sul, da América Latina, durante estes 12 anos, reportagens na Globo, televisões da Venezuela, sobre a minha história. E é verdade que qualquer um que hoje em dia pegue no seu telemóvel e escreva Burro Judas vai encontrar a história do Jonathan Dunham, que é uma personagem.

digna de filme. Muito bem, ficaste com o contacto dele? Não, ele era assim uma pessoa um bocado fechada, não é? Eu consegui extrair estas histórias todas ao longo, porque tive com ele durante duas ou três semanas, depois o meu computador tinha variado, também na garantia, por isso consegui estar ali bastante tempo com ele, mas era uma pessoa um bocadinho fechada, uma pessoa que viajava sozinha há muito tempo, um bocadinho centrado um bocado nele, não é? E o burro chamava-se Judas, porque...

Ele dizia, exatamente, porque há dois Judas na história da Bíblia e Judas normalmente é um nome pejorativo, não é? Só que existem Judas Iscariotes e Judas Tadeu. Em homilhagem, é Judas Tadeu, que é o Judas que não traiu. Não traiu Jesus. Muito bem. Ele viajou quanto tempo com esse burro? Há sete anos ou oito anos.

Espetacular, muito bem Era um bom convidado para vir aqui ao programa Olha, era sim senhor, era sim senhor Vamos encontrar este Jonathan Dunan Ele não falará português, talvez não Talvez espanhol Espanhol falava muito bem Exatamente, muito bem Olha, mais viagens que fizeste, Inácio Que valham a pena Partilhar com os nossos ouvintes

Não sei, viagens de moto na América do Sul, depois mais tarde. O ano passado tinha um... É porque são tantas que eu sou a olhar aqui para os meus apontamentos. Enfim, entre o estar perdido na minha própria letra e perdido no teu percurso... Não, é não. Uma das coisas...

Uma das viagens engraçadas, ou pelo menos uma das histórias engraçadas que eu tenho de viagem é que em 2003 fui viajar a Pérmica do Sul também sozinho e na altura na televisão aparecia com frequência um documentário sobre uns jogadores de raios que tinham caído nos Andes e tinham comido carne humana para sobreviver e não estar lá durante o segundo tempo.

E pronto, e de repente aqueles que tornaram-se meus heróis, já que eu ia à América do Sul, pensei que tinha que conhecer os meus heróis. E em 2003, por isso também mais uma vez num momento em que não havia redes sociais, não dava para mandar um directo pelo Instagram, nem ir ao TikTok deles, isso não existia. Descobri um contacto através de um blog de um deles, consegui falar com eles e disse, então planei a minha viagem toda para ir ao Uruguai, eles são uruguais, para ir ao Uruguai para estar no dia em que eles celebravam 30 anos do acidente e de estarem vivos.

Então, em 2003, eu com 22 anos, tinha na minha cabeça que queria conhecer aqueles meus heróis, aqueles 16 sobreviventes, fui parar a Montevideo, exatamente ao sítio onde eles estavam, estava num hotelzinho, como tinham recomendado, porque eles iam estar a celebrar nesse momento com uma equipa chilena, aquela equipa chilena de rugby, com quem eles iam jogar, e uma das pessoas que eu gostaria muito de conhecer, que estava na lista dos meus heróis, há duas pessoas nesta história que são os verdadeiros heróis, até estão nos documentários, que é o Nando Parrado e o Roberto Canessa.

e a pessoa que eu gostava mesmo de conhecer era o Roberto Canessa, estava na minha lista de desejos para conhecer então quando estava no Uruguai, estava em Montevideo de repente vejo uma pessoa na rua que não era o Roberto Canessa, era outra pessoa dos sobreviventes, mas como eu sabia muito bem a história, reconheci-o e com alguma lata fui ter com ele dizer que gostaria de falar saber onde é que eles estavam, saber se eles podiam conhecer, e esta pessoa, este sobrevivente, que é o Cotex em Siarte, virou-se para mim e disse, olha, então olha

anda ali a almoçar a casa do Roberto, que vamos lá todos almoçar, vamos estar todos a fazer uma parrilhada, aparece lá para almoçar. Eu disse, ó, Cótese, mas desculpe, mas eu não fui convidado, quer dizer, não, a casa do Roberto está sempre aberta, qualquer pessoa pode aparecer, pá, aparece lá, fez-me um desenho no guardanapo, onde é que era o sítio, e fui ao supermercado comprar uma gafa de vinho do Porto, deve ter comprado aquela dos valhotes, aquela que existe de todo lado, e tinha pouco orçamento também, viajava com muito pouco dinheiro.

e de repente entro para um portão de uma casa de um bairro de Carrasco em Montevideo e ao entrar naquela casa tinha aquela coisa de conhecer o Roberto Canessa de um armazém de material de jardim, de jardinagem, de repente sai um homem em mangas de camisa e vê-se para mim tu és Vinácio, não é? Eu sou. Pronto, o Cote já disse tu vinhas, eles já estão todos ali a assar carne na gente, a fazer aqui um assado uruguaio, por isso vai lá até com eles e estás à vontade essa pessoa era o Roberto Canessa e eu entrei lá uma da tarde e saí lá às duas da manhã

Toda a gente com os copos, com as mulheres, os amigos chilenos, os filhos, toda a gente bem na cama que era durante não sei quantas horas e tive curso de 16 subviventes nesse momento. Estavam eles a celebrar 30 anos do acidente e a celebrar que estavam vivos. Que estavam vivos. Tu viste o filme que saiu em 2023, A Sociedade de Janeiro, Sim, há vários filmes, mas vi todos, li a biografia autorizada escrita pelo Pierce Paul Reed.

Digamos assim, sei tudo sobre a história deles. O nome deles todos, se eles casaram, se não casaram. Há um livro feito pelo pai do Carlethos Pais, Pais Villaró, um grande artista uruguaio. Também li o livro do Pais Villaró. Conheci o Pais Villaró. Conheci essa gente toda na altura.

É extraordinário, não é? É extraordinário, a história é brutal. E eu perguntava ao Roberto qual é a grande lição que se tiras disto. De repente, ele estava todo na meira cavaqueira, não é? Já estavam todos um bocadinho a gozar uns com os outros, a dizer, pá, agora é que estás magro, agora estás gordo, na altura estavas magro, não é? Obviamente que passaram fome, estavam todos magros, não é? Mas de repente, agora já sou um homem de 60 anos, com a sua barriguinha, então de repente aquilo já virava piada. Mas há dois momentos nesse Almontes que para mim são muito impactantes.

Primeiro é que nós estamos ali todos, e eu sei quem eles são, eu conheço-os a eles, por isso sei o nome deles, mas de repente estavam lá pessoas que eu não conhecia. E de repente um dos que eu não conhecia, que estava todo animado a falar connosco, virou-se e disse, desculpa, Inácio, português, tu não estás a ver quem eu sou? Eu disse, não, peço desculpa, mas não te conheço. E lá, pá, pois, eu sou o irmão do Gustavo Nicolich. E eu de repente olhei e pensei, Gustavo Nicolich morreu.

E o irmão do morto, de quem eles se alimentaram, estava ali a celebrar a vida deles. É inacreditável como é que aquilo aconteceu, como é que aquele contexto acontece. E o segundo momento... É um pouco surreal, até. Surreal, muito surreal. Até se nós pensamos que eles alimentaram-se a carne humana, não é? Exato. Exato. Exato. Surreal, assustador, enfim. Coloca imensas perguntas. Imensas perguntas. É uma situação extrema mesmo. Muito extrema.

E depois perguntei ao Roberto, qual foi a lição que aprendeste? Ele disse, eu aprendi que os helicópteros te vão buscar, mas tu tens que ir buscar os helicópteros, porque ele e o Nando Parrado foram os tais que caminharam 16 dias para encontrar os helicópteros, para ir buscar os colegas todos que ficaram dentro do avião. Por isso, tens que ir buscar os helicópteros. Muito bem. Inácio, como dizíamos há pouco, tu organizas expedições para executivos, no âmbito...

de um curso na Católica Porto Business School. Exatamente. O que é que executivos têm a aprender, ou podem aprender, em expedições a montanhas e sítios inóspitos? Eu acho que, quer dizer, eu já andei por muitas montanhas, já fui a muitos sítios, já subi o Kilimanjaro várias vezes, fui várias vezes ao acampamento do Basso Everest, já subi o Alan Peak, já fiz muitas montanhas nos anos e tudo lá. E, realmente, o ano passado...

Lembrei-me, cada vez mais o mundo executivo começa a falar das soft skills, que é preciso resiliência, liderança, gestão de equipa, gestão de expectativas, essas coisas todas. E lembrei-me de falar com a Católica Porto Business School para dizer assim, pá, eu acho que giro, giro, giro. Era fazer uma coisa em que vocês têm um contexto de sala de aula em que explicam estas coisas todas, da adaptabilidade, os contextos incertos. Hoje em dia nunca se sabe se estamos em guerra, se não estamos em guerra, como é que se faz no mundo empresarial.

E nessa adaptabilidade que nós aprendemos teoricamente, temos que ir para a prática. E para a prática eu acho que o contexto da montanha é o contexto que nos leva realmente a testar-nos a nós próprios e a testar esses conceitos. Então, para apresentar esta proposta, fazemos isto de uma subida ao Calimanjaro. E então com a Católica Portuguesa School fazemos este lado académico, que não sou eu que o faço, porque eu não sou especialista académica dessa área.

Se bem que dá as aulas. Sim, dou aulas também, mas não é a minha área, digamos assim. E, na realidade, leva as pessoas para o contexto em que é preciso perceber aquelas coisas que nós aprendemos em sala de aula, se elas são reais ou não são naquele contexto. E a nossa subida ao Academia de Manjar, que é uma montanha relativamente fácil, embora exigente, mas relativamente fácil, ao alcance de qualquer pessoa com saúde.

dá para perceber essas coisas nós temos o frio, a altitude não termos acesso a comprar coisas, porque realmente no meio da montanha por muito que eu tenha um cartão de crédito não consigo comprar nada, não é? Por isso essa adaptação constante, adaptação de criar um grupo de pessoas que nós não conhecemos tão bem, a gestão das nossas próprias expectativas, da nossa energia no nosso dia-a-dia, são coisas que são relativamente exigentes e que nos colocam num contexto real

Isso, basicamente, o que a Católica acha é que, na realidade, os executivos podem tirar grandes lições para o seu mundo empresarial. Mas isso é o contexto académico que eu não domino totalmente. Mas pronto, a parte da experiência na montanha é o sítio onde eu estou, é como se estivesse na praia. Muito bem. Inácio, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer check-out? Vamos e mora. Vou pedir-te para completar as habituais frases. Na minha mala vai sempre...

O mínimo possível, embora ultimamente Leve um fio sempre com o Espírito Santo Que tem a data de batismo E da primeira cunhão da minha filha Ah, és um homem de fé? Sou um homem de fé, então já quis ir para padre Pois não, podias ter perdido a fé Alguns no caminho, nessa viagem Grande e tortuosa que é a vida É verdade, é verdade

A viagem com mais peripécias que realizei até hoje? Talvez a volta à América do Sul, na carrega de plataforma. É muito exigente, são muitos climas diferentes. Tiveste muitas avarias. Tive avarias, o motor gripou no Equador, o orçamento era muito reduzido para fazer muita coisa, a gestão de expectativas é muito, muito, muito exigente. E é muito tempo. O carimbo de passaporte ou o visto mais difícil de obter até hoje? O ano passado fui desafiado para dar umas aulas de marketing digital, que eu dou aulas de marketing digital para a Micronésia.

Que é um país que as pessoas acham que não existe. Micronésia, então fui dar aulas à Micronésia, por isso é mais difícil. Não sei se há muita gente que esteve aqui nos programas que tem ido à Micronésia. Algumas, algumas já lá foram. Recordação de Viagem Mais Cara, qual foi?

Não sei, mas se calhar aquela que me recordo Como mais O mais impactante, se calhar foi esse conhecimento Esta experiência com os sobreviventes dos anos Foi o momento mais impactante Não sou pessoa de grandes luxos Por isso não há assinada muito caro Que eu tenha comprado em viagem Ok, a refeição mais estranha, qual foi?

Talvez em 2002, quando viajei ali pela Bósnia e pelos Balcãs Aquilo tudo em cirílico E depois eu sei que De repente tinha pratos com mioleira E de repente olhava para aquilo e não sabia o que é que estava a pedir Mas isso para um tripeiro é pinnets, não é? Comia tudo, e como que não comeia tudo Mas eu lembro que estava a escolher as coisas Pensar, isto é o primeiro prato, isto é a entrada Isto é o primeiro prato, isto é o segundo prato Pela ordem, no menu, não era porque percebesse alguma coisa E não dava para tirar a fotografia com o Google Translate Isso Comia coisas muito estranhas nessa altura E aí

Gostava de viajar com? Eu já viajo com muitas pessoas de quem gosto nomeadamente com a minha filha já viajo bastante mas eu gostava de viajar com o Dalai Lama seria a pessoa que eu gostava alguém com quem eu aprendia O que é que achas que ele te podia ensinar o Dalai Lama, Inácio? Calma, tolerância meditar silêncio se há coisa que eu acho que não sei é lidar com o silêncio eu acho que o silêncio é ensurdecedor Eu vejo que tens aí uns fones em cima Eu vejo que tens aí

da mesa, do estúdio. Estão sempre ligados, sempre ativos. Não consegues desligar. Não desligo, sou uma pessoa sempre ligada, sempre a fazer coisas, muito ativa. Por isso é muito difícil o oposto, não é? É um universo muito complicado. Muito bem. Chegamos ao fim, Inácio. Qual foi a música que escolheste para fechar esta conversa?

Eu escolhi uma música que me leva sempre ao Kilimanjaro, à Tanzânia, à África Oriental, Jambobuana, e leva-me sempre àquele momento em que se está a subir até chegar ao summit do Kilimanjaro e os carregadores e toda a equipa local estão a cantar esta música, a trotear esta música ao cima da montanha para nos motivar e nos manter o nosso cérebro intertido. Muito bem, chama-se Jambobuana. Exatamente. A Barigana e a Mesurizania. Ah, até somos os primeiros versos e tudo. Inácio, foi um gosto. Muito obrigado. Muito obrigado eu. Muito obrigado.

Jumbo Buana, a fechar a conversa do fim do mundo desta semana. Estamos de regresso dos oito dias, já sabem, sejam bons e boas viagens. O Música

Ngeti chambo, chambo kwana, avarikani, suri sana Wageni, wagaribishwa, Kenya yeto, hakuna matata

E ti la la la mi bati chambo

Música Música

Jamba o Guana

Amarikane, mzuri sana Wakeni, mwakaribishwa Kenyayetu, hakuna matata Ngeti chambo, chambo kwana Amarikane, mzuri sana Wakeni, mwakaribishwa Kenyayetu, hakuna matata Kenyanyi nchizuri

Mcha maachabu, mcha kupendesa, Hapuna matata, edile tikele yeto, Hapuna matata, hapuna matata, Hapuna matata, hapuna matata, Hapuna matata, edile tikele mose, Hapuna matata, apina matata,

Abuna

Ae, chambo forte, abuna matata, elele, matitie ele, abuna matata, elele, matitie ele, abuna matata.

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