Gabinete de Guerra. Acordo ou Bombas? O ultimato de Trump ao Irão
Ana Cavalieri considera que o bloqueio naval é mais eficaz do que a retórica de Trump, mas as exigências nucleares e a fratura interna no regime de Teerão impedem a assinatura do acordo de paz.
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António
Ana Cavalieri
- Negociações EUA-IrãUltimato de Trump ao Irã · Acordo de paz no Médio Oriente · Bloqueio naval · Programa nuclear iraniano · Sanções e ativos congelados
- Estratégia de Pressão de TrumpRetórica de ameaça e destruição · Mobilização de armamento e porta-aviões · Eficácia da pressão sobre o regime de Teerã
- Programa Nuclear Iraniano e Acordo de ObamaMoratória de 15 anos no programa nuclear · Enriquecimento de urânio a 3,61% · Sunset Clause · Desmantelamento de centrifugadoras e reatores
- Economia Iraniana e Guarda RevolucionáriaControle da economia pela Guarda Revolucionária · Financiamento da Guarda Revolucionária · Impacto do bloqueio naval nas exportações de petróleo · Degradação da economia iraniana
- Mísseis Balísticos e Drones IranianosDesenvolvimento do arsenal de mísseis balísticos · Capacidade de projeção de força convencional · Comparação com a Coreia do Norte
- Cálculo de Trump e EleiçõesPreocupação com preços de combustível · Impacto das eleições de novembro · Desespero para acabar com o conflito
- Fraturas no Regime IranianoDiferenças entre facções políticas · Posição dos líderes da Guarda Revolucionária · Impacto da repressão doméstica
Houve um momento de esperança esta quarta-feira, quando fontes paquistanesas envolvidas na mediação das negociações entre Estados Unidos e Irão anunciaram que estava para breve a assinatura de um memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irão.
que seria um primeiro passo para pôr um fim definitivo à guerra no Médio Oriente. Ora, passado algumas horas, uma publicação de Donald Trump na rede Truth Social, em que o presidente dos Estados Unidos ameaça o regime de Teherão. Ou assinam o acordo ou então estão de regresso os bombardimentos. Ana Cavalieri, boa tarde, bem-vinda. Que forma de negociar é esta por parte do presidente dos Estados Unidos?
Boa tarde. Bem, uma forma de negociar, acredito que para nós não é muito boa, na medida em que há uma grande incerteza. Já não é a primeira vez que Donald Trump faz uma espécie de ameaça, de destruição total, sendo certo que eu penso que há aqui uma hipérbole que ele utiliza bastante para executar aquilo que é uma estratégia de pressão máxima. E eu penso que tanto naquilo que é no terreno, toda a mobilização de armamento e também de...
os porta-aviões e todas as aeronaves que têm uma continuação de movimento nas últimas semanas para exercer essa pressão máxima justamente com o bloqueio. Há também na retórica dele sempre a promessa de uma destruição intensa, caso os iranianos não concedam nos pontos que os Estados Unidos querem que...
que concedam. E isto tem algum resultado junto do regime de Teherão? É eficaz esta forma de posicionar o Irão a aceitar um acordo negociado? Até agora não tem sido eficaz, na medida em que aquilo que parece mais eficaz para haver uma espécie de concessão será o bloqueio naval para os Estados Unidos.
executar ou estão a executar relativamente aos navios que querem aceder a portos iranianos, ou sair dos portos iranianos. Isso está a provocar uma degradação acentuada daquilo que são as grandes fontes de rendimento da Guarda Revolucionária. Não esqueça que a Guarda Revolucionária controla cerca de 60% da economia iraniana e desses 60% os setores mais valiosos da base industrial iraniana são controlados pela Guarda Revolucionária e eles precisam de manter toda essa forma de financiamento, não só para pagar.
os seus combatentes e os seus membros, mas também todo o sistema de patronagem que utilizam para não só esses combatentes alimentarem as famílias deles, mas também haver uma espécie de submissão por parte da grande parte da população que recebe todos esses subsídios e toda essa comida.
que é, no fundo, fruto deste sistema de patronagem. E eu penso que já existem alguns indícios de que este bloqueio naval, nomeadamente impedindo que o Irã consiga vender petróleo, nomeadamente à China, tem sido eficaz. Não esquecer que 90% da economia iraniana passa por aquilo que entra e sai dos esportes iranianos.
Eu penso que é mais isso do que propriamente a retórica. Eu penso que a retórica muitas vezes é utilizada, e mais do que as ameaças de destruição intensa e abrangente, é talvez aquilo que em momentos fundamentais, não só para acalmar os mercados, por exemplo, dos combustíveis ou do petróleo em bruto, mas também, por exemplo, agora nós sabemos que as obrigações do Tesouro a 10 anos, em termos das taxas, ultrapassaram os 4,4%.
Há sempre estes indícios de alguma esperança que um acordo poderá acontecer para acalmar um pouco aquilo que são os vários tipos de mercados. O regime iraniano, entretanto, já confirmou de forma oficial que recebeu um memorando dos Estados Unidos com uma proposta para pôr fim à guerra. Diz que está a analisar esse memorando.
Pese embora o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros diga também que esta proposta norte-americana inclui exigências irrealistas e excessivas que foram firmemente rejeitadas pelos responsáveis iranianos nos últimos dias. Entre estas exigências, uma moratória relativamente ao programa nuclear iraniano. Esta é a questão fundamental e que impede que o regime de Teherão aceda à pretensão norte-americana de assinar um acordo de paz?
Eu penso que sim. Uma parte do programa nuclear é uma das minhas primárias do Presidente. Se ele concede em algum ponto naquilo que têm sido as grandes exigências ao nível do programa nuclear, ou seja, não só é preciso haver uma moratória de mais de 15 anos, não esquecer que aquilo que era o acordo de Obama, essa moratória existia, esse prazo de 15 anos, era a chamada Sunset Clause, existia, mas era permitido aos iranianos.
continuar a enriquecer 3,61% do urânio. Ora, se Donald Trump saiu desse acordo, quero dizer que esse modelo não será aceitável para Donald Trump. Se houver um moratório, é preciso que não haja enriquecimento algum. Isso significa o desmantelamento ou a desativação daquilo que são as centrifugadoras e os reatores que estão neste momento.
ainda à superfície, que são poucas essas instalações, mas principalmente o desmantelamento e desativação daquilo que são todos os reatores e centrifugadores que estão nas tais infraestruturas subterrâneas, cujo acesso foi, segundo Trump, oblitrado, e foi em termos de acesso, foi oblitrado no ano passado naquela operação em junho de 2025.
Eu penso que aquilo que foi reputado pela Axios, que foi quem conseguiu basicamente trazer alguns pormenores sobre o conteúdo, é que em troca de haver um congelamento do seu programa nuclear, ou seja, um abandono por cerca de 15 anos, a partir dos quais 3,61% então poderiam voltar a ser enriquecidos, passados 15 anos, haveria um alívio de sanções e um descongelamento ativos.
Isso é algo importante, naturalmente, porque as sanções e o congelamento dos ativos é precisamente em resposta àquilo que seria o desenvolvimento de um programa nuclear com fins bélicos. E então isso parece razoável. Existem também outras preocupações americanas que não estiverem neste acordo vai me parecer que, ou irá entender que é um mau acordo até na perspectiva americana. Está escumando.
o desenvolvimento do arsenal de mísseis balísticos e de drones, ou seja, toda aquela parte do complexo industrial militar, também tem de ser acalculada. A razão pela qual o programa nuclear e os mísseis balísticos estão muito ligados em termos de objetivos geopolíticos é precisamente porque se o Irã conseguir reunir uma capacidade de projeção de força convencional, nomeadamente com mísseis de médio a longo alcance, com mísseis balísticos.
ao ponto de ser depois impossível, a não ser que estejamos preparados a assumir elevados custos, será impossível, depois de haver esse escudo de mísseis balísticos, voltar a intervir.
para destruir o programa nuclear. Por exemplo, aconteceu na Coreia do Norte nos anos 90, depois de Bill Clinton ter negociado aquilo que seria o tal acordo para impedir que a Coreia do Norte consiga arma nuclear. A determinada altura eles conseguiram organizar e produzir um arsenal de mísseis balísticos que quando Bill Clinton depois ponderou a fazer determinadas operações para desmantelar e destruir todas aquelas estruturas, infraestruturas...
de desenvolvimento do programa nuclear, já não o pôde fazer porque a capacidade de retaliação com força convencional contra a Seul ou a Coreia do Sul era demasiado elevada, ou seja, o preço era algo que nem os americanos e principalmente os sul-coreanos estariam prontos para sofrer. E então é preciso evitar isso, não só a parte do programa nuclear, mas também garantir que com o dinheiro libertado das sanções e dos ativos descongelados,
Os iranianos não canalizem esse dinheiro para aumentarem ou recomeçarem aquilo que é todo o complexo industrial militar para conseguirem manter um arsenal de mísseis balísticos, que grande parte desse arsenal já foi destruído.
e então eu penso que isso será fundamental para além disso também o financiamento E é aceitável por parte do regime de Teherão? E é aceitável por parte do regime de Teherão aplicar? Eu penso que não na medida em que são excedências exigentes todavia depende muito aquilo que é a fratura interna política que nós sabemos que existe no Irã nós sabemos que Arachi e Pazeshkent
E Galibás estão um pouco mais dispostos a fazer essas cedências, porque a situação no Irã é absolutamente devastadora, não só nas primeiras semanas de operação, houve uma destruição brutal daquilo que são as cúpulas de liderança política, militar.
da Guarda Revolucionária e do próprio regime dos ayatolas, mas também uma degradação profunda daquilo que são as grandes bases industriais, nomeadamente petroquímicos, da indústria do aço, e também, agora com o bloqueio naval, a impossibilidade do Irão conseguir exportar o seu petróleo, e isso é algo que a economia que já estava bastante degradada em janeiro, que levou centenas de milhares de pessoas à rua, 40 mil delas foram mortas. Essa economia...
Estima-se que cerca entre 30% a 40% do PIB já desapareceu, pelo que a situação... A verdade é que, pese embora isso que aponta, a verdade é que o regime dá sinais de resistência.
Existem basicamente fraturas agora. Nós temos Arachi, Peser, Fennigal e IBAF a tentarem ceder dado, ou pelo menos há indícios, talvez Arachi não diga publicamente aquilo que se calhar privadamente está a tentar negociar através do Paquistão com os Estados Unidos.
Mas depois nós sabemos que Wahid e Jalili, que são os líderes da Guarda Revolucionária, são pessoas altamente fanáticas, islamistas, prontas para o martírio e para a existência escatológica da sua missão, provavelmente eles estão preparados para lutar até ao fim. O problema, e é aquilo que eu queria repetir no início,
Toda a estrutura da Guarda Revolucionária está sempre num sistema de patronagem. E se não houver dinheiro para pagar às pessoas que se juntam à Guarda Revolucionária, ou se não houver dinheiro para pagar às famílias dessas pessoas, e também a uma população que, enquanto receberem um pouco aquilo que são as molas do regime, continuam talvez a não se juntar aos processos. Se não houver esse sistema para manter a repressão doméstica que a Guarda Revolucionária consegue...
ainda executar, será complicado, ou seja, é saber se todos os conflitos são um teste de vontades e um teste de capacidades. E eu penso que neste momento o cálculo da administração de Trump é que a vontade e a capacidade, mesmo o outro lado sendo fanáticos religiosos...
a viverem numa escatologia xiita que promove o martírio, mesmo assim existem limites materiais até que ponto se pode levar à frente esse fanatismo. Esse é o cálculo de Trump, o cálculo iraniano, nomeadamente dos líderes da Guarda Revolucionária.
nomeadamente vai rir, é que Trump, estando preocupado com os preços do combustível nos Estados Unidos e com as eleições em novembro, que Trump não faz parte dessas eleições, mas o Partido Republicano vai a votos, o cálculo deles é que Trump está também desesperado para acabar com o conflito. Então é saber quem é que vai ter razão e quem é que vai se deprimar.
Vamos ver para já o que é que o regime iraniano, a posição definitiva do regime iraniano face a esta proposta de entendimento apresentada pelos Estados Unidos. Já com esta ameaça de que aqui demos conta, Donald Trump diz que o Irão aceita esta proposta ou então vão estar de regressos, bombardamentos em larga escala. Ana Cavalieri, obrigado pela presença neste gabinete de guerra especialista. Em relações internacionais foi a nossa convidada desta tarde.