Gabinete de Guerra. Irão e Ucrânia: Negociações frágeis e o medo de Putin
Helena Ferro Gouveia afirma que o regime iraniano está dividido perante o ultimato de Donald Trump. Ainda acrescenta que a parada de Putin será marcada pelo receio de ataques ucranianos.
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- Negociações Irã-EUAProposta de memorando de entendimento · Envio de urânio enriquecido para país terceiro · Moratória para enriquecimento de urânio · Reabertura do estreito de Ormuz · Divisões internas no regime iraniano
- Guerra na UcrâniaCessar-fogo unilateral ucraniano · Cessar-fogo decretado pela Rússia · Acusações de violação do cessar-fogo · Retórica de 'guerra patriótica' russa · Receio de ataques ucranianos em território russo
- Relação Israel-EUAAtaque em Beirute contra chefe das forças Radwan · Concertação em relação ao programa nuclear iraniano · Preocupação com o programa balístico iraniano · Aproximação de países do Golfo a Israel
- Fraturas no Regime IranianoAla pragmática em busca de negociações e levantamento de sanções · Ala radical contra negociações e cessões · República Islâmica 3.0: autocracia ou radicalização · Força da Guarda Revolucionária como máfia económica
Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos esta noite analisar os principais focos de conflito com a nossa convidada Helena Ferro Gouveia. Seja muito bem-vinda, Helena, e muito boa noite. Começamos pela guerra no Irão, depois do secretário de Defesa dos Estados Unidos ter declarado concluída.
a fase ofensiva e de Washington, falar agora no projeto Liberdade, até que ponto é que este suposto fim desta fase, desta fase ofensiva, significa realmente uma redução duradoura da violência no terreno ou apenas uma mudança de rótulo numa guerra que, afinal de contas, continua ainda com um bloqueio naval e a presença militar reforçada no Golfo.
Boa noite, Diana, e obrigada pelo convite. Nós estamos num momento em que se espera a resposta do Irão a uma proposta de memorando de entendimento que foi apresentada pelos Estados Unidos. Tivemos ontem as declarações de Marco Rubio, que diz que chegou ao fim aquilo que é a operação militar.
Mas essas declarações são contraditadas hoje por um tweet ou um post de Donald Trump na sua rede social, na Truth, onde ele diz que se o Irã não aceitar as condições deste morante de entendimento, que haverá novamente uma intervenção militar ou operações militares no Irã.
Portanto, este fim, poderá não ser bem um fim, poderá ser aqui, se quisermos, um momento de paragem. O que me parece ser importante, e isto é um ritmo vertiginoso, é esta ideia de se escrever numa página um conjunto de propostas que depois abrirão.
Aqui uma pausa negocial de 30 dias e que passam, sobretudo, por uma questão que é importante para os Estados Unidos e para Israel, que é a questão do nuclear. E segundo aquilo que tem vindo a ser avançado, quer pela imprensa israelita, quer pela imprensa norte-americana, o Irã poderá, óbvio.
Aqueles que no Irã estão a negociar com os Estados Unidos, por via do Paquistão, poderá aceitar o envio do urânio enriquecido para um país terceiro, que seria aqui a concretizar-se, de facto, uma vitória para os Estados Unidos e contribuiria para a segurança da região.
Mas há naturalmente aqui neste plano pontos que estão longe de estar aceitos ou de estar fixados. Por exemplo, há aqui uma moratória para o enriquecimento de urânio que os Estados Unidos pretendem que sejam de 12 anos, de 12 a 15 anos. Inicialmente haviam sugerido 20 anos, o Irã queria só 5 anos e a partir dos quais poderia voltar a enriquecer urânio a um nível de 3,67%, portanto o nível que é utilizado para a energia.
para fins energéticos e não para fins militares ou para fins de produção de armas. Este é um dos grandes pontos deste momento de entendimento. Depois há um segundo ponto também importante, que é a questão da reabertura do estreito de Ormuz, que não estava fechado antes deste conflito, mas que importa aos Estados Unidos, por via da pressão que têm sofrido, quer interna, quer externa, portanto, dos seus aliados para que reabra, e também da própria China, para que reabra este estreito.
Portanto, estamos num momento em que se espera que estas negociações, que foram prosseguindo sempre, apesar das escaramuças em Hormuz, apesar das trocas de palavras,
No entanto, há que pôr aqui também uma nota menos positiva. Quando nós ouvimos ou lemos as declarações feitas pelos responsáveis iranianos, nomeadamente o porta-voz dos negócios estrangeiros ou o presidente da Assembleia Nacional do Parlamento iraniano, eles estão muito menos otimistas e afirmam que os Estados Unidos não estão a negociar de boa fé.
Portanto, é esperar agora ver as próximas 48 horas e ver se de facto se consegue chegar aqui a algum entendimento ou se entramos numa nova fase do conflito. Mas essas medidas de que a Helena falava, assim como o levantamento por parte dos Estados Unidos de todas as sanções sobre Tearão...
Parecem-lhe medidas sensatas, uma fonte paquistanesa, por exemplo, confirmou que de facto os dois lados estão mais próximos do que nunca de alcançar uma base, pelo menos uma base, para pôr fim à guerra.
Todas as guerras resolvem de duas formas, ou por uma capitulação, portanto, de uma das partes, que aliás vai-se celebrar agora a 8 de maio, a capitulação alemã e a libertação da Alemanha do regime nazi, portanto, a Segunda Guerra Mundial resolveu-se, portanto, com a capitulação da Alemanha nazi.
ou se resolvem à mesa das negociações. Este conflito parece, portanto, apontar que se irá resolver à mesa das negociações, no entanto, o voltar às operações militares não está de todo excluído. Há aqui uma proximidade, mas também há aqui várias incógnitas, porque nós não sabemos.
Com quem é que os Estados Unidos estão a negociar? É o primeiro ponto. Estão a negociar com Galibaf, com Aracni, portanto com Mala, se quisermos, mais pragmática desta teocracia, desta ditadura iraniana, ou qual é a força da guarda revolucionária neste processo negocial e, sobretudo, qual é a força de um homem, do general Ahmed Zahidi, portanto um comandante da RGC, que é o único contacto direto.
com Ayatollah Khamenei. Qual é a força destas facções? Porque, de facto, o regime iraniano, ou o que resta dele, está bastante dividido em relação à forma como encarar as negociações com os Estados Unidos, havendo uma ala.
que quer que haja negociações, que quer este pragmatismo, quer o levantamento de sanções e quer de alguma forma procurar pacificar a situação. Isto parece-me ser uma das aulas, mas depois há uma aula bastante mais radical.
que está a emergir e que não está de acordo, ou pelo menos não tem estado de acordo com a negociação ou com a cedência de qualquer ponto aos Estados Unidos. Portanto, nós passamos aqui, se quisermos, de uma república islâmica.
Passámos da primeira fase com o Comeni, que é a zona, quando foi fundada, e, portanto, se instalou como um regime teocrático. Depois tivemos com o Camnei, pai, a consolidação deste regime e a criação das instituições deste regime, que são muitíssimo fortes. E agora temos aqui...
a emergir algo novo, uma República Islâmica 3.0, que nós não conhecemos ainda as suas características ou para onde irá evoluir, mas poderá ser uma autocracia que venha a abdicar de alguma...
Ortodoxia ideológica poderá ser, não é? Portanto, poderá abrir a economia e esta parece ser a aula, portanto, mais pragmática. Portanto, permitindo aqui alguma, se quisermos, alguma dissidência social, mas nenhuma dissidência política. Esta é uma das possibilidades para o Irão. Ou podemos ter um regime 3.0, uma República Islâmica 3.0,
ainda mais radical, dominada por esta guarda revolucionária, que é a guarda pretoriana do regime, que também é uma máfia, importa dizê-lo, uma máfia económica e que beneficia e muito dos recursos iranianos e que não tem interesse nenhum e desta só estada do poder e, sobretudo, daquilo que são as suas fontes de recursos.
Helena, e relativamente a Israel, haverá consonância entre Israel e Estados Unidos, tendo em conta que, por exemplo, ontem liamos aqui uma notícia que nos dizia que Estados Unidos e Israel estavam a preparar uma nova onda de ataques contra o Irã. O que é que Israel terá a dizer sobre estas bases que estão agora a ser, acreditamos nós, construídas para um possível acordo de paz?
Eu acho que é importante nós estarmos bastante atentos aos sinais. Agora, enquanto falávamos, ou aliás há minutos antes de falarmos, Israel lançou um ataque no Líbano, a Beirute, neutralizando o chefe das forças Radwan, que são as forças especiais do Yitzbola.
O que significa que há aqui uma grande concertação entre Israel e os Estados Unidos. Há muita coisa que não é dita publicamente. Israel continua a ter aqui uma mão livre em relação ao Irã, porque...
Se há concordância naquilo que toca, por exemplo, ao programa nuclear e a uma eventual transferência deste urânio enriquecido para um país terceiro, mas também não se sabe qual é o país terceiro, porque isto também vai ter aqui bastante importância. Porque imaginemos o que é transferir este urânio enriquecido para a Rússia e nos criar aqui um novo problema. Isto é apenas um cenário, um dos muitos sobre a mesa.
Mas, pronto, em relação ao nuclear, parece haver aqui a mesma posição. Em relação ao programa balístico, que é uma das grandes preocupações de Israel, e temos visto os estragos que tem feito em Israel, as mortes que tem causado, isso não causa mais.
porque como todos sabemos, Israel tem um sistema de defesa anti-aérea absolutamente extraordinário e que tem permitido manter a salvo os seus civis, este nem aparece sequer neste memorando de entendimento. Portanto, é uma preocupação para Israel. Israel tem planeado uma série de cenários possíveis e não exclui uma operação militar com o conhecimento dos Estados Unidos, mas...
a solo ou, portanto, quando achar que está em causa aquilo que é a sua segurança nacional. Nós temos sempre, e isso é importante perceber,
Nós temos sempre, entre estes dois países, uma relação muito especial, muito próxima e que nem sempre vem naquilo que são os lidos dos jornais ou nas manchetes dos jornais. Porque temos que perceber que Israel é o principal aliado dos Estados Unidos na região, mas está a configurar ou a reconfigurar o Médio Oriente. E nós, neste momento, temos um conjunto de países do Golfo.
que se estão a aproximar de Israel e que consideram Israel não apenas um aliado válido, como um aliado precioso, porque contribui para aquilo que é a sua segurança e defesa. E isto são variáveis que têm que ser tidas em conta quando se faz a análise daquilo que se está a passar no Médio Oriente. Mas tudo isto, e eu tenho muitas dúvidas, tudo isto é muito frágil, porque basta haver uma voz iraniana que ponha em causa este acordo.
para ele, portanto, não valer nada. E aquilo que nós temos aprendido, portanto, ao longo do tempo, é que o Irã não negocia de boa fé, e este regime não negocia de boa fé. É hábil em fazer prolongar as negociações, em ter aqui a aparência de que está a negociar. Nós sabemos que o Ministro dos Negócios Estrangeiros foi à China antecedendo, portanto, a viagem de Donald Trump.
e poderá haver aqui também conversações, e certamente que existem, entre a China e os Estados Unidos, porque a China está a ser muito afetada, portanto, pelo fechamento do Estreito de Hormuz.
e poderá estar a pressionar não apenas o Irã para ceder, mas também os próprios Estados Unidos para contribuírem, para dar aqui uma resolução a esta questão. Portanto, há aqui muitas variáveis nesta equação que nós não conhecemos. Podemos, portanto, unir os pontos, por dar uma linguagem simplista, e tentar traçar aqui um quadro. Agora, as incógnitas são mais do que as certezas.
São mais do que as certezas, precisamente. Helena, vamos dar aqui também um salto antes de nos despedirmos ao conflito ucraniano. Foi decretado um cessar-fogo unilateral para estes dois dias, antes mesmo da trégua decretada pela Rússia nos dias 8 e 9. E Zelensky já acusa Moscovo de violar o cessar-fogo ucraniano, que está agora em vigor. Esta decisão do presidente Zelensky de antecipar a trégua.
terá sido estratégica precisamente para que a Ucrânia não tenha depois de respeitar a pausa decretada por Putin nos dias seguintes e de alguma forma criar aqui uma sombra sobre o dia da vitória que é tão importante para o presidente russo.
Bem, este dia da vitória, aliás, fala-se da grande guerra patriótica, como se a União Soviética sozinha tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial, o que é factualmente incorreto, e aliás os resultados soviéticos nunca teriam sido o que foram sem o programa de Land and Lease norte-americano.
É verdade que há um grande número, vamos falar de cerca de 20 milhões de soldados soviéticos que perderam a vida e que contribuíram para o esforço de libertação da Europa, mas não o fizeram por boa vontade, mas apenas porque pretendem substituir uma ditadura por outra, aliás, como se viu no que se seguiu.
à Segunda Guerra Mundial e na partição da Europa em duas e na criação do Pacto de Varsóvia e na subjugação de uma série de países sob o jogo soviético. Mas pronto, Putin quer celebrar aqui a grande vitória patriótica contra o...
aquele que é sempre o inimigo projetado, que é o nazi, e todos nós nos recordamos que um dos objetivos da Operação Militar Especial, estou a usar aspas nestas palavras de Vladimir Putin, era livrar a Ucrânia de nazis, que não existe, aliás, há mais nazis na Rússia do que na Ucrânia, mas essa retórica fez-se escola. Portanto, Putin, para poder celebrar, pede aqui no cessar fogo, porque isto demonstra fraqueza da parte do presidente russo.
Porque ele teme aquilo que são os ataques em profundidade ucranianos, porque a Ucrânia tem vindo a demonstrar uma cada vez maior capacidade de atingir alvos dentro do território russo. Temos visto as refinarias, as instalações elétricas e até mesmo Moscouvo, não é? Chegámos a ter drones em Moscouvo. O que levou a que esta parada não vá ter um conjunto de armamento que era expectável, porque há o receio precisamente destes ataques. Obrigada.
magnânimo, apresenta aqui a proposta de cessar fogo. Zelensky, que é alguém que aprendeu ao longo destes anos todos a ler muito bem a sala, faz uma contra-proposta, antecipando aqui o cessar fogo, demonstrando boa vontade e dizendo que Kives tem todo o interesse num processo de paz.
Em Interpaz, Kiv não tem interesse nenhum em continuar este conflito, mas nas condições ucranianas. Mas é absolutamente extraordinário quando nós pensamos que há aqui um pedido de safogo e um escovo ataca um jardim infantil.
Não há aqui do lado russo nenhum interesse no Star-Fogo, nem sequer em travar a guerra, embora neste momento pareça haver, entre andalistas militares internacionais, algum consenso que a Rússia tem muita dificuldade com este conflito e poderá mesmo, do ponto de vista militar, perder a guerra. Este é o ponto onde nós estamos e, por isso, a Putin interessa-lhe festejar e tentar projetar.
poder, num momento em que ele está a ser contestado internamente, num momento em que a economia russa dá sinais e sinais muito, muito claros, portanto, de estar enfraquecida e estar aqui a receber o impacto do conflito, embora a Rússia se tenha preparado para o conflito, não esperava uma resistência ucraniana ao longo de cinco anos.
e a preocupação que era impensável em Moscou até há muito tempo, que drones pudessem circular ou, se quisermos, sobrevoar a Praça Vermelha à 9 de maio. E, portanto, isto demonstra claramente uma inversão de posições e que, apesar da superioridade do exército russo, em termos numéricos, a guerra ser assimétrica de tudo isso...
A capacidade da Ucrânia, aqui muito com o apoio naturalmente da Europa e dos aliados, não apenas europeus, mas de todos aqueles países de boa vontade que apoiaram aqui o esforço pela liberdade e pela soberania ucraniana e também dos Estados Unidos, mas tem conseguido resistir e isto está a ser uma humilhação claríssima pela Vladimir Putin. Helena Ferro Gouveia, muito obrigada pela sua análise. Muito obrigada. É mais um Gabinete de Guerra. Desejo-lhe um bom resto de semana.