Episódios de Conteudo para estudos de Psicologia

Ep. 3 - Transtornos Depressivos

10 de julho de 202616min
0:00 / 16:44

Baseado DSM5-TR

Participantes neste episódio2
S

Speaker A

Host
S

Speaker B

HostJornalista
Assuntos3
  • Manifestações depressivas em transtornos afetivosDistimia · Depressão Maior Crônica · Custo Funcional
  • Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM)TPM Comum · Sensibilidade Neurológica · Alopregnanolona
  • Uso de substânciasRegra de 1 Mês · Abstinência de Cocaína · Medicamentos Prescritos
Transcrição93 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Imagina ir pra terapia, sentá-la na poltrona e depois de algumas sessões descobrir que a sua personalidade, tipo o jeito que a pessoa tem agido, pensado e sentido na última década, não é a personalidade dela de fato.

?Voz B

Nossa, isso é um choque de realidade gigante no consultório.

?Voz A

Sim, é absurdo descobrir que é uma doença, né? Uma patologia que alterou a linha de base de forma tão sorrateira que o paciente simplesmente assumiu que aquele era o seu eu verdadeiro.

?Voz B

Exato. E é uma introdução que bate bem forte porque a gente costuma pensar em diagnósticos como algo super tangível, tipo um raio-X. Mas na saúde mental a gente lida com relatos, né, com a experiência subjetiva. E o DSM-5-TR, ele tenta justamente traduzir essa névoa de sofrimento em categorias bem rigorosas.

?Voz A

E é exatamente esse o nosso mergulho clínico de hoje. A gente vai focar estritamente nos transtornos depressivos. A nossa missão hoje é decodificar o que, olhando de fora, parece ser só uma sopa de letrinhas e números aleatórios.

?Voz B

Total! Aqueles códigos como F33, F34.1, F32.81...

?Voz A

Isso! E os quadros induzidos por substâncias também. Eu quero entender como a gente transforma isso numa ferramenta prática. Porque sabe, eu olho pro DSM e parece que eu tô lendo o código da Matrix.

?Voz B

Eu ri agora, mas é bem isso mesmo. Parece burocracia de prontuário, mas não é.

?Voz A

Então, pra gente não ficar só na teoria, vamos direto pra situação que talvez seja a mais complexa de manejar: quando a depressão volta, o famoso código F33.

?Voz B

Ah, o transtorno depressivo maior recorrente.

?Voz A

Isso. Como o professor de psicologia clínica traz pra gente aquele conceito direto ao ponto, o que diferencia esse diagnóstico F33 de um episódio depressivo comum?

?Voz B

Tá, indo pro conceito direto ao ponto, sem jargões. O broco F33 significa que a depressão é recorrente. Ou seja, o paciente teve pelo menos 2 episódios separados por um intervalo de no mínimo 2 meses.

?Voz A

2 meses cravados.

?Voz B

No mínimo 2 meses consecutivos onde ele não preencheu os critérios pra doença. Tem que haver uma calmaria real, sabe? Se não tiver essa pausa, a gente ainda tá lidando com o mesmo episódio original que só oscilou de gravidade.

?Voz A

Peraí, deixa eu testar a viabilidade disso na vida real, porque 2 meses de calmaria, como o terapeuta confia nessa linha do tempo?

?Voz B

Ah, essa é a grande dificuldade.

?Voz A

Porque assim, a memória humana é falha, especialmente a de alguém que tá deprimido agora. Eles lembram do passado com uma lente super escura, né? Como você tem certeza de que eles tiveram 2 meses limpos?

?Voz B

Essa é a pergunta de ouro, e é aí que entra a habilidade investigativa na entrevista clínica. Você não vai perguntar, tipo, você ficou 2 meses bem? O paciente não sabe avaliar isso.

?Voz A

Ele vai falar que nunca esteve bem.

?Voz B

Com certeza. Então você ancora a memória em eventos. Ah, no Natal do ano passado, como você tava? Conseguiu brincar com as crianças? Como tava o sono em janeiro, antes de voltar para o trabalho?

?Voz A

Ah, entendi. Você busca marcadores funcionais.

?Voz B

Exato. E por que isso importa na clínica? Porque o DSM exige essa prova de recorrência Por causa de um mecanismo neurobiológico chamado efeito kindling.

?Voz A

Efeito kindling é tipo abrasamento? Como acender uma fogueira?

?Voz B

Perfeito, é exatamente essa a analogia. Na neurologia, a gente observa que cada vez que o cérebro passa por um episódio depressivo maior e severo, ele cria vias neurais que facilitam um próximo episódio.

?Voz A

Caramba!

?Voz B

É como se a madeira ficasse mais seca cada vez. Então episódios seguintes podem ser desencadeados por estressores bem menores ou até sem estressor nenhum. O F33 avisa ao clínico que a madeira desse paciente já está seca. O tratamento a longo prazo é mandatório.

?Voz A

Isso muda tudo na avaliação. Então o F33 diz o histórico, mas assim, eu sei que existem vários números depois do ponto, né? F33.0 a F33.9. Isso é só para especificar a gravidade ou tem mais coisa aí? Dando um exemplo prático rápido de como isso funciona num prontuário.

?Voz B

Tá, pensa no exemplo do painel de um carro. O F33 te diz o modelo do veículo, um cérebro com histórico de recorrência. O decimal te diz quais luzes de alerta estão piscando hoje.

?Voz A

Legal.

?Voz B

Se um paciente teve um episódio incapacitante há 3 anos, mas hoje volta com sintomas mais brandos, o código é F33.0. Leve, ele funciona mais com esforço.

?Voz A

Tá, e se for piorando?

?Voz B

33,3. Esse indica a presença de características psicóticas.

?Voz A

Espera, psicose na depressão? Eu acho que muita gente associa psicose só com esquizofrenia, né? Como que isso se manifesta na depressão recorrente?

?Voz B

É bem diferente da esquizofrenia. Geralmente são delírios congruentes com o humor. O paciente não acha que o FBI tá atrás dele. Ele tem uma convicção inabalável de que cometeu um pecado imperdoável. É insalubre, sabe? Ou de que a falência financeira é inevitável, mesmo tendo dinheiro na conta.

?Voz A

Nossa, deve ser desesperador. E eu vi que tem também o F33.41 e 42.

?Voz B

Sim, esses são ótimos de ver no prontuário. Indicam remissão parcial e total, mostram que a medicação e a terapia estão funcionando. Então, num resumo para fixação, para quem tá anotando, o F33 não é apenas um diagnóstico, É um histórico. Ele avisa que a depressão já esteve aqui antes e mapeia cirurgicamente a gravidade da visita atual.

?Voz A

Perfeito. Então o F33 é marcado por picos e vales, né? Episódios agudos seguidos por pausas.

?Voz B

Isso mesmo.

?Voz A

Mas e se não tiver picos e vales? O que me leva de volta àquela provocação do começo sobre a personalidade da pessoa. Vamos falar do F34.1, O transtorno depressivo persistente. Historicamente, o pessoal chamava isso de distimia, não é isso?

?Voz B

Sim, e trazendo o conceito direto ao ponto, o DSM-5 agrupou a distimia e a depressão maior crônica nesse F34.1. O critério aqui é totalmente baseado no tempo. É ter humor deprimido na maior parte do dia, na maioria dos dias, por pelo menos 2 anos.

?Voz A

2 anos? Caramba, uma eternidade convivendo com isso.

?Voz B

É muito tempo.

?Voz A

Mas olha só o que me confunde: se alguém tá operando nessa tipo reserva de bateria por 24 meses seguidos, não para de trabalhar, mas nunca sente alegria, como o clínico distingue isso de uma pessoa que só tem uma personalidade melancólica ou um temperamento mais pessimista?

?Voz B

Olha, essa é a distinção mais sutil e difícil do consultório, e é por isso que isso importa tanto na clínica. A diferença fundamental entre um traço de personalidade e o 34,1 é o custo funcional.

?Voz A

Como assim custo funcional?

?Voz B

Uma pessoa de temperamento pessimista não acorda sentindo um peso de chumbo no corpo todo dia. Ela não tem o sono consistentemente fragmentado. O transtorno altera funções neurovegetativas: apetite, sono, a concentração despenca.

?Voz A

Entendi.

?Voz B

O perigo é que, pelo mecanismo de neuroadaptação, a pessoa se acostuma com o sofrimento. Ela acha que esse é o meu jeito de ser. Ela internaliza o sintoma como identidade.

?Voz A

Então o desafio é fazer o paciente lembrar de como ele era uns 3 anos atrás, antes de começar a contar esses 2 anos.

?Voz B

Exatamente, resgatar essa referência perdida. Dando um exemplo prático rápido, um paciente chega e fala que desde 2023 se sente para baixo, cansado, mas nunca teve um apagão total de energia. Ele só nunca tá 100% bem. E um detalhe: em crianças e adolescentes, a regra cai para 1 ano, e o sintoma principal costuma ser irritabilidade, não tristeza.

?Voz A

Sério?

?Voz B

Sim, aquele adolescente que explode por tudo há mais de 1 ano pode não ser só fase, sabe? Pode ser F34.1.

?Voz A

Diagnóstica. E se essa pessoa com a nuvem cinza de 2 anos sofreu uma perda pesada, um luto, uma demissão, e o quadro afundar para um episódio grave com risco de suicídio, muda de persistente para recorrente?

?Voz B

Excelente pergunta. Não muda, eles se somam, se somam, eles ficam os dois códigos.

?Voz A

Sim, o clínico anota os dois. É o que a gente chama de depressão dupla. Você tem a linha de base crônica, o F34.1, e sobreposta a ela um episódio maior e agudo. O tratamento aqui tem que ser bem agressivo.

?Voz B

Porque você não quer só tirar ele da crise para voltar para a distimia, né?

?Voz A

Exato. O objetivo é remissão total. Então o nosso resumo para fixação aqui seria: F34.1 é a depressão vista como uma maratona, não um sprint. São 2 anos de uma nuvem cinza constante. Maratona. Perfeito. Bom, até agora a gente olhou para réguas de tempo longas. Os 2 meses de intervalo do F33 e os 2 anos do F34.1. Vamos acelerar esse relógio e falar de biologia mensal, o F32.81.

?Voz B

O transtorno disfórico pré-menstrual, o TDPM.

?Voz A

Isso, a gente tá falando de um ciclo de uns 28 dias. Como uma janela de tempo tão curta foi parar no principal manual de psiquiatria do mundo?

?Voz B

Foi parar lá com montanhas de evidências, viu? Pré-direto ao ponto conceitual, o F32.81 não é a famosa TPM comum. É uma condição bem severa.

?Voz A

Ah, é diferente da TPM então?

?Voz B

Muito diferente. São sintomas de labilidade afetiva profunda, irritabilidade que chega a destruir relações e humor muito deprimido que ocorrem rigorosamente na semana anterior à menstruação e somem logo depois que o fluxo começa.

?Voz A

Eu tenho que fazer o advogado do diabo aqui porque sei que rola muito debate. Colocar isso no DSM não corre o risco de patologizar o ciclo menstrual natural da mulher? Onde fica a linha divisória médica para não rotular qualquer desconforto como psiquiátrico?

?Voz B

Olha, esse foi exatamente o motivo pelo qual esse diagnóstico ficou 20 anos no limbo do DSM-IV, só na seção de estudos antes de ser oficializado, e é por isso que importa muito na clínica hoje. A linha divisória tá na neurobiologia. Mulheres com esse transtorno não têm níveis hormonais anormais.

?Voz A

Peraí, se os hormônios são normais, por que o humor despenca de forma tão violenta?

?Voz B

Porque o problema não tá no ovário, tá no cérebro. É uma sensibilidade neurológica atípica aos metabólitos hormonais que são normais.

?Voz A

Nossa!

?Voz B

Durante a fase lútea, o aumento da progesterona gera uma substância chamada alopregnanolona. No cérebro da maioria, isso se liga a receptores GABA, e causa um efeito calmante.

?Voz A

Tá, e em quem tem o transtorno?

?Voz B

No cérebro de uma paciente com TDPM, por uma variação na conformação desses receptores, esse mesmo processo causa irritabilidade extrema e disforia. É um paradoxo químico.

?Voz A

Que fascinante! É tipo a chave é a mesma, mas a fechadura tá alterada.

?Voz B

Exatamente isso.

?Voz A

Mas vem cá, dando um exemplo prático, Como o terapeuta diagnostica isso sem uma ressonância magnética no consultório? A gente volta para a questão da memória. A paciente pode lembrar que ficou triste e simplesmente culpar a menstruação que desceu logo depois.

?Voz B

É, o viés retrospectivo é um perigo. Por isso, o clínico não pode confiar só na memória. Para fechar o F32.81, a paciente precisa preencher avaliações diárias dos sintomas por pelo menos 2 ciclos menstruais consecutivos.

?Voz A

Ah, um mapeamento tempo real.

?Voz B

Sim, um diário. Os ataques de choro, o desespero, tudo isso tem que bater certinho com o calendário biológico e sumir abruptamente depois. Então, o resumo para fixação é: o F32.81 é o diagnóstico, onde o calendário é a principal ferramenta, é ditado inteiramente pelo ciclo biológico.

?Voz A

Isso mostra que a psicologia não lida só com a mente isolada, né? Foram 20 anos de pesquisa para reconhecer a biologia primária. Bom, a gente cobriu o tempo longo, o tempo curto e a biologia interna. Vamos colocar um elemento estranho no sistema agora: o transtorno depressivo induzido por substância ou medicamento.

?Voz B

Ah, esse é o cenário onde o clínico vira um detetive toxicológico. O conceito direto ao ponto é: são sintomas depressivos proeminentes que se desenvolvem durante ou logo após a intoxicação ou abstinência de uma droga ou exposição a um remédio.

?Voz A

Certo, mas aqui eu vejo aquele problema do ovo e da galinha. Pensa comigo: alguém começa a beber pesado porque o casamento tá acabando e desenvolve uma depressão clássica, ou o álcool em si desregulou o cérebro a ponto de induzir a depressão. Como o psicólogo separa o sintoma psicológico da reação química?

?Voz B

É o maior desafio, e é porque isso importa na clínica. A regra de ouro no prontuário, a baliza do DSM-5-TR, é a regra de 1 mês.

?Voz A

Como funciona?

?Voz B

Se você tira a substância, o paciente passa pela desintoxicação, o esperado é que a depressão puramente química comece a recuar. Se os sintomas severos persistirem por cerca de 1 mês depois da abstinência aguda, você não pode mais culpar só a substância. O quadro é independente.

?Voz A

Entendi. Dando um exemplo prático, é como se— imagina que alguém abriu a porta da sua geladeira e quebrou o termostato com o martelo. A casa não tá congelando porque nevou lá fora, tá congelando porque uma intervenção externa travou o sistema.

?Voz B

Metáfora maravilhosa! A substância é o martelo no termostato. E tem nuances, tá? A abstinência severa de cocaína, por exemplo, gera o que a gente chama de crash, uma letargia brutal, risco de suicídio alto em curtíssimo prazo, porque o cérebro tá faminto por dopamina.

?Voz A

E com medicamentos prescritos também acontece muito.

?Voz B

Um paciente sem histórico começa a tomar um remédio para pressão, tipo alfametildopa, e em poucas semanas desenvolve uma depressão profunda. O clínico tem que cruzar as datas. Então, o resumo para fixação é: a química externa atua como vilã. Se a depressão não for embora um mês após a substância sair do corpo, o diagnóstico estava na mente e não no frasco.

?Voz A

Nossa, muito bom! Essa conversa me dá uma visão totalmente diferente da avaliação. Não é só dar um nome para tristeza. A gente viu o mapeamento das repetições e dos intervalos no F33. A gente mediu o peso dos anos rebaixando a identidade no F34.1. Respeitamos a precisão dos ciclos biológicos no F32.81. E por fim, atuamos como detetives químicos na depressão induzida.

?Voz B

É um panorama bem robusto para quem acompanha a gente. E sabe o que eu acho mais fascinante e deixo como um pensamento provocativo final?

?Voz A

Manda!

?Voz B

A gente passou esse tempo todo decodificando fenomenologia, Relatos, calendários preenchidos à caneta, tudo baseado na escuta. Mas com a neurociência avançando, exames de neuroimagem, testes farmacogenéticos, fica a pergunta: será que no futuro esses códigos FF vão dar lugar a exames de sangue precisos?

?Voz A

Eliminar a dependência do relato, você diz?

?Voz B

Nenhum código ou exame de laboratório consegue capturar perfeitamente como o paciente vive a doença, sabe? A escuta sempre vai ser insubstituível.

?Voz A

Com certeza, a gente vai continuar precisando do mapa, mas o navegador ali do lado é essencial. É um pensamento sensacional para o pessoal levar para semana. Continuem questionando a mecânica de como a gente sente o que sente. E até o nosso próximo mergulho profundo.