Episódios de Conteudo para estudos de Psicologia

Ep. 1 - Transtornos Depressivos

08 de julho de 202631min
0:00 / 31:12

Baseado DSM5-TR

Participantes neste episódio2
S

Speaker A

Host
S

Speaker B

HostJornalista
Assuntos6
  • Manifestações depressivas em transtornos afetivosCritério dos 5 sintomas e 2 semanas · Humor deprimido ou anedonia como pilar · Sintomas neurovegetativos · Alterações psicomotoras · Cognição e pensamentos de morte
  • Critério de Prejuízo FuncionalSofrimento clinicamente significativo · Prejuízo social e ocupacional · Depressão sorridente
  • Integração depressiva segundo KleinCom angústia ansiosa · Com traços melancólicos · Com características atípicas · Com características psicóticas
  • Morte e LutoExclusão de causas médicas e substâncias · Diferenciação entre luto e depressão · Impacto na autoestima
  • Mulheres e a Expressão da DorVocabulário cultural para descrever dor · Somatização em contextos específicos · Sensibilidade na escuta clínica
  • Diagnóstico psiquiátricoPrecisão matemática em diagnósticos médicos · Subjetividade e narrativa em psicodiagnóstico
Transcrição219 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Então, normalmente quando a gente pensa na construção de um diagnóstico médico, existe aquela expectativa de uma precisão quase matemática, né?

?Voz B

Com certeza, aquela coisa bem exata.

?Voz A

Exato, tipo uma lógica de engenharia mesmo. Alguém sofre uma queda, aí vai lá, a máquina de raio-X revela uma linha branca irregular no osso e o ortopedista simplesmente aponta para tela e diz tipo, olha, o problema tá exatamente ali.

?Voz B

Sim, não tem debate, né?

?Voz A

Não tem muita margem para interpretação É muito reconfortante porque o cérebro da gente anseia por esse tipo de certeza, sabe? A medicina tradicional trabalha com coisas que são, na maior parte do tempo, visíveis.

?Voz B

Visíveis, quantificáveis, né? Através de exames de imagem, marcadores de sangue.

?Voz A

Só que assim, ao atravessar a porta do consultório de psicologia ou da psiquiatria, ao entrar nesse universo do psicodiagnóstico, essa máquina de raio-X é subitamente desligada.

?Voz B

Nossa, completamente desligada. E a paisagem diagnóstica em que a gente pisa fica incrivelmente complexa, né? E muitas vezes bem nebulosa.

?Voz A

É porque os marcadores não estão no exame de laboratório, eles estão na narrativa, sabe? O comportamento, na história de vida. E o objetivo da nossa imersão de hoje, é nossa missão de hoje aqui, é decodificar essas águas.

?Voz B

Exatamente, atuar meio que como um guia prático, né, para quem estuda clínica.

?Voz A

Isso. E para isso a gente vai usar o DSM-5-TR. MDTR, né, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, a revisão de texto. O foco de hoje é abrir aquele grande guarda-chuva dos transtornos depressivos, que só para contextualizar o pessoal, começa lá pela página 177 do manual. Isso, 177. E assim, o espectro é bem amplo, né, o manual lista várias condições. Tem, por exemplo, o código F34.81, que é o transtorno disruptivo da desregulação do humor, que é super importante, né, especialmente para entender aquela desregulação crônica em crianças e adolescentes, que muitas vezes aparece com explosões de irritabilidade severa em vez daquela tristeza clássica, né.

?Voz B

Perfeito, mas o núcleo duro da nossa análise de hoje não é esse.

?Voz A

Não, não, a gente vai mergulhar profundamente a partir da página 183 no transtorno que mais enche os consultórios, que é o transtorno depressivo maior.

?Voz B

Nossa, sim, o transtorno depressivo maior é meio que o feijão com arroz da prática clínica global, sabe?

?Voz A

É o mais prevalente de todos, né?

?Voz B

É o mais prevalente, mas ironicamente é um dos mais banalizados pelo senso comum. A linguagem popular meio que transformou o termo depressão num sinônimo para tipo qualquer tristeza de fim de semana.

?Voz A

Ah, sim, o pessoal fala, nossa, tô muito deprimido hoje porque choveu.

?Voz B

Exatamente isso. E para quem estuda psicodiagnóstico, o desafio primário é resgatar esse rigor metódico, sabe? Separar o sofrimento normal da vida de uma síndrome clínica estruturada.

?Voz A

Então vamos começar pelo conceito direto ao ponto, né? Sem enrolação. O que estrutura essa síndrome? Se a gente tirar todo aquele jargão pesado, qual é a espinha dorsal do transtorno depressivo maior? Pro manual?

?Voz B

Olha, a arquitetura do diagnóstico é construída sobre uma regra fundamental, que a gente pode chamar de regra dos 5 e 2.

?Voz A

5 e 2?

?Voz B

Isso. O clínico precisa identificar a presença de 5 ou mais sintomas específicos, e esses sintomas devem ocorrer quase todos os dias. Tá.

?Voz A

E o 2 entra onde?

?Voz B

O 2 é o tempo. Esses 5 sintomas precisam durar por um período mínimo de 2 semanas consecutivas. Mas o manual impõe uma trava de segurança essencial aí.

?Voz A

Qual seria?

?Voz B

Não basta você simplesmente escolher 5 sintomas aleatórios de uma lista de 9, sabe? Tem um peso diferente entre eles.

?Voz A

Ah, então pelo menos um desses sintomas atua como a pedra angular, né? Um pilar obrigatório.

?Voz B

Obrigatoriamente. Para a hipótese se sustentar, a base dessa constelação precisa conter o humor deprimido, Ou a perda de interesse ou prazer.

?Voz A

Tá, o humor deprimido é fácil da gente visualizar. É aquela sensação relatada como um peso, né? Um vazio persistente na maior parte do dia.

?Voz B

Ou que a família observa, tipo um choro constante, inexplicável, sabe?

?Voz A

Certo. E a perda de prazer? É a tal da anedonia, né?

?Voz B

Isso mesmo. O nome técnico é anedonia. É basicamente o desligamento do circuito de recompensa do cérebro.

?Voz A

Nossa, desligamento do circuito de recompensa é uma boa definição.

?Voz B

É, atividades que antes geravam alegria, tipo hobbies, interações com amigos, simplesmente perdem a cor, ficam cinza, sabe?

?Voz A

Para dar uma materialidade para essa teoria toda, para o pessoal que tá acompanhando, vamos construir um caso clínico rápido aqui só para ilustrar.

?Voz B

Vamos lá, adoro casos clínicos.

?Voz A

Imagina um paciente homem, 35 anos, Chega lá no consultório. Ele relata que, tipo, há cerca de um mês, a vida perdeu sentido. Ele jogava futebol toda quarta-feira à noite com os amigos de infância e aquilo era o ponto alto da semana dele.

?Voz B

A principal fonte de reforço positivo.

?Voz A

Exato. E de repente a chuteira ficou esquecida no armário e ele não sente a menor vontade de calçar. É como se a ideia de jogar futebol não trouxesse mais nada. Isso é a anedonia na sua forma mais pura, né?

?Voz B

É uma representação muito clara, assim, porque a anedonia não é só preguiça de ir para o jogo.

?Voz A

Não é um cansaço comum.

?Voz B

É meio que o sequestro do prazer mesmo.

?Voz A

Certo, então a gente tem anedonia aí. E esse nosso paciente já ultrapassou aquela marca das 2 semanas porque ele falou que está assim há 1 mês.

?Voz B

Exato, o critério de tempo está preenchido.

?Voz A

Mas a gente precisa chegar a 5 sintomas para fechar o quadro. O que mais? Tipo, o que mais o clínico precisa buscar ativamente nessa investigação?

?Voz B

Então, o DSM lista uma série de alterações que afetam o corpo como um todo, sabe? O clínico precisa investigar os sintomas neurovegetativos.

?Voz A

Neurovegetativos? É quando o corpo entra em colapso junto com a mente, né?

?Voz B

Perfeito. O primeiro ponto é investigar alterações significativas de peso ou apetite, que pode ser tanto para cima quanto para baixo, né? Sim, exatamente. Pode manifestar como uma perda de peso abrupta, porque a comida, sei lá, passa a ter gosto de papelão. Ou um ganho de peso impulsionado por aquele comer emocional, aquela compulsão constante. E essa mesma polaridade aparece no sono também, com insônia ou hipersonia.

?Voz A

Nossa, o sono é clássico, né? No caso desse nosso paciente do futebol, vamos supor, que ele relata que cai na cama exausto às 10 da noite, mas acorda pontualmente às 3 da manhã.

?Voz B

Nossa, 3 da manhã todo dia?

?Voz A

Todo dia. O quarto tá escuro, a casa tá em silêncio e ele fica lá olhando pro teto com uma angústia apertando o peito, totalmente incapaz de voltar a dormir.

?Voz B

Esse é um padrão muito específico, viu? É conhecido como insônia terminal.

?Voz A

Insônia terminal.

?Voz B

Ou despertar precoce. É um marcador clássico de quadros depressivos um pouco mais severos, sabe? E durante o dia, esse déficit absurdo de sono se funde com outro critério vital.

?Voz A

Que é a fadiga, né?

?Voz B

A perda de energia, uma fadiga quase diária. O paciente sente que, tipo, tomar um banho ou escovar os dentes exige o mesmo esforço de escalar uma montanha.

?Voz A

Caramba! E isso leva a gente para a questão do movimento físico, porque o manual menciona agitação ou retardo psicomotor. Mas assim, uma dúvida muito comum de quem tá aprendendo a diagnosticar é Como a gente separa esse sintoma de uma simples inquietação ou daquele cansaço extremo que a gente acabou de falar, né? Isso, como diferencia?

?Voz B

A diferença crucial, e o manual deixa isso bem claro, é que alteração psicomotora deve ser obrigatoriamente observável por terceiros.

?Voz A

Ah, então não pode ser só aquela sensação interna, tipo, tô agitado por dentro?

?Voz B

Não, não pode. No retardo psicomotor tem uma lentidão que a família vê, O clínico vê, a latência de resposta aumenta absurdamente.

?Voz A

Tipo, o psicólogo faz uma pergunta e...

?Voz B

E o paciente demora segundos intermináveis para começar a falar, sabe? Os movimentos são pesados, como se ele estivesse andando debaixo d'água.

?Voz A

Nossa, que imagem forte!

?Voz B

E na agitação?

?Voz A

Na agitação psicomotora, a gente vê o paciente incapaz de ficar sentado na cadeira do consultório. Fica torcendo as mãos, esfregando a pele ininterruptamente. É muito visível.

?Voz B

Entendi.

?Voz A

E além dessa parte física toda, tem a invasão na cognição, né? Voltando para o paciente de 35 anos, vamos supor que ele relata que cometeu um errinho bobo numa planilha do trabalho, tipo, há 3 semanas, e desde então ele tem certeza absoluta de que é um fracasso. Um fracasso total, um peso para esposa, e que no fim das contas seria melhor se ele desaparecesse.

?Voz B

Aí a gente preenche mais critérios fundamentais, né? A gente tem a dificuldade de concentração, que explicaria essa falha na planilha.

?Voz A

Sim, a falha de atenção.

?Voz B

E os sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva. E é importante notar, viu, que essa culpa beira o delírio Muitas vezes.

?Voz A

Como assim, Bero, delírio fica desproporcional?

?Voz B

Totalmente desproporcional. O paciente não tá só tipo chateada com o erro na planilha, ele assume uma responsabilidade moral gigantesca por eventos cotidianos.

?Voz A

Entendi.

?Voz B

E no extremo dessa cognição distorcida surgem os pensamentos recorrentes de morte, que é um ponto de alerta máximo na clínica, né? Com certeza. E esses pensamentos englobam desde aquele desejo passivo, sabe, tipo, ah, eu só dormir, não acordar no dia seguinte.

?Voz A

Até a ideação ativa mesmo.

?Voz B

Isso, até a ideação suicidativa, com planejamento estruturado, cartas, enfim, é gravíssimo.

?Voz A

Uma reflexão que costuma surgir ao estudar esse critério de tempo que você mencionou: duas semanas não é um prazo excessivamente curto? É uma pergunta clássica, porque assim, tem aquela analogia clássica que a gente aprende na faculdade de pensar na diferença entre o clima e as estações do ano, né?

?Voz B

Adoro essa analogia.

?Voz A

Pois é, o clima de uma terça-feira, tipo hoje, pode ser péssimo, caiu uma tempestade isolada, mas isso é a tristeza reativa comum, né? Já a estação do ano, o inverno, por exemplo, muda todo o ecossistema e persiste.

?Voz B

Exatamente.

?Voz A

Então o DSM não corre o risco de medicalizar uma simples semana ruim no trabalho, tipo duas semanas de estresse e pronto, tá com depressão.

?Voz B

Então, o motivo dessa analogia clássica ser tão utilizada é porque ela captura o espírito do manual perfeitamente. A exigência de 2 semanas não existe no vácuo, sabe?

?Voz A

Tá. E o que mais tem junto com tempo?

?Voz B

O manual estipula que esses sintomas devem representar uma mudança nítida e persistente em relação ao funcionamento anterior da pessoa.

?Voz A

Ah, quebra do padrão.

?Voz B

Sabe? Uma capacidade de resolução de problemas E, de forma relativamente abrupta, todo esse ecossistema mental congela.

?Voz A

Não é só um dia ruim que se estendeu um pouco mais.

?Voz B

De jeito nenhum. É uma mudança sistêmica, onde os recursos de enfrentamento do indivíduo entram em falência prolongada.

?Voz A

É a tal da estação do ano mudando.

?Voz B

E isso empurra a gente para aplicação prática, que é a segunda parte da nossa imersão. Por quê? Por que esse nível de detalhe importa tanto na clínica na hora de sentar com o paciente? Porque preencher um prontuário adequadamente não é só tipo burocracia do conselho, né?

?Voz A

Não, é a fundação do plano terapêutico.

?Voz B

Exatamente, é a fundação do tratamento e do acompanhamento histórico desse indivíduo no sistema de saúde como um todo. A tradução da clínica para o papel exige o domínio da codificação diagnóstica.

?Voz A

E quando o profissional detecta o transtorno depressivo maior, ele tem que fazer uma escolha, né, uma bifurcação lá no manual.

?Voz B

Tem. A primeira grande pergunta é: este episódio que a pessoa tá vivendo agora é único? Que aí seria codificado na família do F32.

?Voz A

F32, certo.

?Voz B

Ou ele é recorrente? Que aí a gente registra lá como F33.

?Voz A

E só para lembrar quem tá ouvindo, para definir a recorrência O manual exige a comprovação de que houve um intervalo, né, de pelo menos 2 meses consecutivos entre o episódio atual e o anterior.

?Voz B

2 meses onde a pessoa não preencheu os critérios.

?Voz A

Exato. Isso significa que o psicólogo não pode, de forma alguma, avaliar só a fotografia do estado atual. Ele precisa fazer meio que um filme retrospectivo, né, olhar a linha do tempo inteiro do paciente.

?Voz B

Nossa, sem essa retrospectiva, o diagnóstico fica Cego, completamente cego.

?Voz A

E a codificação não para por aí, né? Tem que avaliar a gravidade atual.

?Voz B

Sim, os especificadores de gravidade: leve, moderado, grave. E eles não são baseados só na intuição do clínico, tipo, ah, acho que ele tá mal.

?Voz A

Não é no achismo.

?Voz B

Não é. Eles dependem do número exato de sintomas presentes, tipo, além daqueles 5 mínimos obrigatórios, Tem mais algum e, principalmente, dependem da intensidade com que esses sintomas destroem a capacidade funcional da pessoa.

?Voz A

E o manual também abraça o processo de melhora, o que eu acho fascinante, porque é vital para acompanhar a eficácia de uma psicoterapia, né?

?Voz B

Sim, existem códigos super específicos de estado de remissão, porque a gente precisa documentar não só a entrada no buraco, mas o movimento de saída do transtorno também.

?Voz A

Quais são esses estados de remissão? Tem o parcial e o total, né?

?Voz B

Isso. A remissão parcial indica que os sintomas completos já não estão mais lá.

?Voz A

Tá melhorando.

?Voz B

Tá melhorando, mas alguns resquícios ainda persistem, tipo uma leve anedonia residual. Ou então indica que o episódio cessou há menos de 2 meses.

?Voz A

Entendi. E a remissão total?

?Voz B

A remissão total é o retorno definitivo àquela linha de base da pessoa, sabe? Sem sintomas significativos por um período consecutivo de pelo menos 2 meses.

?Voz A

Mas tem uma camada adicional de complexidade que o manual traz que eu acho que enriquece enormemente a avaliação, que são os famosos especificadores.

?Voz B

Ah, os especificadores são fantásticos! Eles funcionam meio que como os adjetivos que qualificam o substantivo da depressão.

?Voz A

Gostei dessa metáfora, adjetivos do diagnóstico.

?Voz B

É, eles delineiam os contornos exatos do que o paciente está vivendo e, o mais importante, eles mudam completamente a conduta do tratamento e do prognóstico.

?Voz A

Vamos falar de alguns deles então. O primeiro que me vem à mente é o com angústia ansiosa.

?Voz B

Nossa, esse é super frequente e ele denota a presença de uma tensão extrema, sabe? Aquela sensação de perda de controle iminente.

?Voz A

E o manual emite um alerta bem grave aqui, não é?

?Voz B

Emite. Quadros depressivos que vêm acompanhados de alta ansiedade possui um risco significativamente elevado para tentativas de suicídio. Exige do clínico a formação de uma rede de apoio imediata para esse paciente.

?Voz A

Caramba! E em contraste com essa agitação da angústia ansiosa, a gente tem os quadros com traços melancólicos, né?

?Voz B

Sim, esse é o fundo do poço da anedonia. O humor não reage a absolutamente nenhum estímulo positivo.

?Voz A

Tipo zero reação, zero.

?Voz B

Se o paciente recebe uma notícia maravilhosa, tipo ganhou na loteria, a expressão facial e aquele vazio interno permanecem idênticos.

?Voz A

Nossa, que difícil! Geralmente vem acompanhada daquela insônia terminal que a gente falou, né, das 3 da manhã, e uma culpa avassaladora.

?Voz B

Exatamente isso. E tem também o especificador com características atípicas, atípicas, que paradoxalmente é super comum na prática diária, né?

?Voz A

Muito comum.

?Voz B

Curiosamente, E aqui o quadro inverte as expectativas clássicas.

?Voz A

Inverte como?

?Voz B

O humor apresenta uma reatividade temporária a coisas boas. Tem também um aumento expressivo de apetite e de peso.

?Voz A

Ao invés de perder peso, a pessoa ganha.

?Voz B

E o sono, um excesso de sono letárgico, a hipersonia. E o paciente frequentemente relata a chamada paralisia de chumbo.

?Voz A

Paralisia de chumbo, o que é isso?

?Voz B

É uma sensação física de peso insuportável nos braços e nas pernas, sabe? Como se os membros fossem de chumbo mesmo. É bem característico do quadro atípico.

?Voz A

Entendi. E no extremo do espectro da gravidade, a gente não pode esquecer de mencionar o especificador com características psicóticas.

?Voz B

Ah, esse é urgente. É quando a depressão quebra o teste de realidade do indivíduo.

?Voz A

A pessoa pode ter alucinações, né? Tipo, ouvir vozes repetindo que ele é um lixo humano, coisas assim.

?Voz B

Exato, alucinações ou desenvolver delírios persecutórios, delírios de ruína.

?Voz A

E a identificação desses traços psicóticos muda a rota clínica na mesma hora, né? Exige uma abordagem conjunta com a psiquiatria focada em estabilização aguda. O planejamento do psicólogo muda totalmente.

?Voz B

Totalmente, porque o funcionamento geral daquela pessoa entrou num colapso absoluto.

?Voz A

E isso traz a gente para o critério B do manual, que é Indiscutivelmente, um dos pilares de todo o sistema diagnóstico.

?Voz B

Ah, sim, o famoso fator de prejuízo funcional. O manual é bem categórico ao afirmar que não basta você ir lá e assinalar 5 itens numa lista de sintomas e carimbar o diagnóstico.

?Voz A

Tem que ter consequência, né?

?Voz B

Exato. O critério B exige que os sintomas causem sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes.

?Voz A

Pegando aquele nosso paciente de 35 anos, o sintoma não é apenas ter dificuldade de concentração na planilha. O prejuízo funcional é o fato de que, por não conseguir focar, o rendimento dele despencou de tal forma que ele recebeu uma advertência formal da chefia, ele tá à beira de uma demissão e o casamento talvez esteja por um fio por causa desse isolamento dele.

?Voz B

Exatamente. A dor nesse momento Deixou de ser um fenômeno só interno e passou a fraturar as estruturas da vida real do cara, sabe?

?Voz A

Só que existe um dilema muito interessante aqui quando a gente pensa em pacientes de alta performance, e eu vejo muito pessoal perguntar isso. É um ótimo ponto, é porque tem pessoas que preenchem os 5 critérios, sentem aquele vazio devastador por dentro, mas à custa de um esforço Assim, Hercúlio continua entregando relatórios perfeitos e mantendo a fachada social impecável.

?Voz B

Aquela depressão sorridente, né?

?Voz A

Isso. Elas não teriam esse prejuízo funcional aparente. O trabalho tá ótimo, a família acha que tá tudo bem. O manual exclui essas pessoas do diagnóstico. Elas não têm depressão.

?Voz B

De jeito nenhum. O texto do manual lida com isso de uma forma brilhante, na verdade. Ele usa a conjunção alternativa ou no critério B.

?Voz A

Ou.

?Voz B

Isso, prejuízo funcional ou sofrimento clinicamente significativo.

?Voz A

Ah, tá.

?Voz B

Então, se a pessoa consegue sustentar o funcionamento ocupacional impecável, mas o custo interno disso é uma dor dilacerante, o sofrimento clinicamente significativo está comprovado ali. A fachada não anula a síndrome clínica.

?Voz A

Excelente, excelente. E voltando àquela nossa imagem inicial lá da máquina de raio-X, o diagnóstico diferencial no psicodiagnóstico muitas vezes consiste no que a gente chama de diagnóstico por exclusão, né? Já que a gente não tem o exame de sangue para medir a serotonina e dar o laudo, o clínico precisa limpar o terreno antes de cravar um F32.

?Voz B

E é aí que entra o critério C do manual. Ele é uma verdadeira barreira de proteção contra falsos positivos.

?Voz A

O que ele diz exatamente?

?Voz B

Ele determina que o episódio depressivo não pode ser atribuível aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância ou a uma outra condição médica. O profissional precisa atuar com uma mentalidade investigativa mesmo.

?Voz A

Como um detetive.

?Voz B

Só tal. Pensa, por exemplo, num quadro de hipotireoidismo severo. Ele produz um espelhamento quase perfeito da depressão melancólica.

?Voz A

Nossa, é verdade. Tem ganho de peso.

?Voz B

Ganho de peso, letargia extrema, retardo psicomotor, queda de cabelo.

?Voz A

E a pessoa tem certeza que está com depressão. Outro exemplo clássico, né? Uma crise de abstinência severa de estimulantes, tipo a cocaína.

?Voz B

Perfeito.

?Voz A

O paciente pode entrar no consultório em prantos, com ideação suicida estruturada, uma fadiga esmagadora e total anedonia.

?Voz B

Todos os critérios batem.

?Voz A

Se o clínico olhar só para a janela ali das últimas 2 ou 3 semanas sem investigar a fundo o histórico de uso químico, ele vai diagnosticar um transtorno depressivo maior, com certeza, quando na verdade o quadro de um transtorno depressivo induzido por substância.

?Voz B

E o tratamento primário nesse caso é totalmente diferente, é o manejo da dependência química e não simplesmente prescrever antidepressivos isoladamente e achar que vai resolver. O julgamento clínico é justamente isso, a capacidade de excluir o que parece ser, mas não é.

?Voz A

Exato. E para a gente avançar para o próximo tópico, vamos introduzir uma complicação muito real para o nosso caso do paciente do futebol.

?Voz B

Vamos, adoro dar uma piorada na vida do paciente para testar a teoria.

?Voz A

É, o coitado. Mas imagina que ele apresenta todos esses sintomas neurovegetativos, ele tá com insônia terminal, falta de concentração, choro, mas aí lá no meio da sessão ele revela que o pai dele faleceu inesperadamente há exatamente um mês.

?Voz B

Eita, um fator estressor gigantesco!

?Voz A

Sim, e antigamente em manuais anteriores a orientação era meio que excluir o diagnóstico de depressão se a pessoa estivesse passando por um luto recente, mas o DSM atual, DSM-5-TR, atualizou essa visão. Como o profissional lida com essa fronteira super fina entre o luto profundo e o início de um episódio depressivo patológico?

?Voz B

Olha, essa é uma das áreas mais delicadas da prática clínica de verdade. O luto e a depressão não são forças excludentes. O manual esclarece, e ele traz notas explicativas muito ricas sobre isso, que uma grande perda pode de fato engatilhar um episódio depressivo maior naquelas pessoas que já têm uma vulnerabilidade.

?Voz A

Então você pode estar de luto e deprimido ao mesmo tempo?

?Voz B

Sim. Negar tratamento clínico a alguém que desenvolveu um transtorno grave só porque a causa raiz ali foi um luto é negligência. Mas diferenciar o luto normal da patologia exige uma precisão de escuta.

?Voz A

E como o ouvido clínico, digamos assim, capta essa diferença na fala do paciente?

?Voz B

O diferencial primário está na constância e no foco do afeto negativo, sabe? No luto puro, a dor se manifesta meio que em ondas.

?Voz A

Em ondas? Como assim?

?Voz B

Coisas que lembram a pessoa que partiu. Mas essas ondas, muitas vezes, elas se intercalam com recordações afetuosas, momentos pontuais de emoções positivas. A pessoa de luto ainda consegue, sei lá, rir de uma lembrança engraçada do pai, sabe? Mesmo que ela volte a chorar logo em seguida.

?Voz A

Entendi, não é linear.

?Voz B

Não. Agora, no transtorno depressivo maior, O humor deprimido e a anedonia formam um nevoeiro denso e impenetrável. A incapacidade de sentir prazer é rígida, é contínua e, o mais importante, é desconectada de pensamentos específicos sobre o luto.

?Voz A

Fica tudo cinza, não importa no que a pessoa pense.

?Voz B

Exato. E tem um outro diferencial crucial.

?Voz A

Qual?

?Voz B

A percepção da própria identidade, né? O que a gente chama de ego ou autoestima sofre impactos muito diferentes nesses dois cenários.

?Voz A

A autoestima é o grande divisor de águas, então.

?Voz B

Total. No processo de luto, mesmo diante da dor mais intensa que existe, a autoestima do indivíduo tende a permanecer intacta. Ele pode até sentir alguma culpa relacionada a aspectos pontuais ali do falecido, tipo pensando: nossa, eu deveria ter passado mais tempo com ele no hospital.

?Voz A

Que é uma culpa focada no evento.

?Voz B

Isso, mas na depressão a autoestima é implodida de forma generalizada. A pessoa não se sente ocupada só por um evento, ela se sente ontologicamente falha, sabe?

?Voz A

Ela é o erro.

?Voz B

Isso, o relato passa a ser totalmente autodepreciativo: eu sou inútil, eu sou um fardo, eu não mereço viver. E quando a ideação suicida aparece no luto, presta atenção nisso, geralmente tá ligada àquele desejo fantasioso de se juntar ao ente querido que partiu.

?Voz A

Ah, quero ir ficar com meu pai.

?Voz B

Exato. Mas na depressão, o desejo de morrer nasce da crença profunda de não ser merecedor da vida ou de simplesmente não suportar a dor de existir como um ser tão falho. É uma raiz diferente.

?Voz A

Fantástico! Essa diferenciação é ouro para quem tá na clínica. E para consolidar toda essa arquitetura complexa em algo memorável para quem acompanha a gente, A gente precisa daquele nosso resumo para fixação, aquele parágrafo de impacto, né? O conceito fundamental para anotar no caderno. Como você sintetizaria o transtorno depressivo maior na sua essência prática?

?Voz B

Bom, para quem busca uma âncora conceitual bem sólida para levar para os atendimentos, o foco deve estar nessa premissa: o transtorno depressivo maior não é um estado emocional de tristeza transitória.

?Voz A

Não é tristeza.

?Voz B

Não é. Ele é um sequestro sistêmico do organismo. É uma falha global que dura pelo menos 2 semanas e anula a capacidade de sentir prazer, rouba energia motora, esmaga o funcionamento social ou ocupacional, sabe? E exige do profissional uma investigação clínica de longo alcance que descarte causas médicas e compreenda o impacto profundo na estrutura de vida desse paciente.

?Voz A

Um sequestro sistêmico do organismo. Sensacional! Essa frase ilustra perfeitamente o impacto neurovegetativo de tudo que a gente conversou hoje.

?Voz B

É, o corpo inteiro responde.

?Voz A

E para encaminhar o nosso encerramento, o próprio DSM-5-TR traz uma reflexão que eu acho incrível, porque tira o foco exclusivo do rigor estatístico, daquela listinha matemática que a gente falou no começo.

?Voz B

Uhum, as caixinhas, né?

?Voz A

E coloca o foco na subjetividade da interação humana ali dentro do consultório. O manual dedica um espaço bem importante para debater como as normas culturais influenciam drasticamente a expressão desse sofrimento.

?Voz B

É, a gente não pode esquecer disso. A cultura em que o paciente está inserido dita o vocabulário que ele vai usar para descrever a dor dele, né?

?Voz A

Com certeza! O manual inclusive faz questão de lembrar que certas culturas, ou até contextos socioeconômicos específicos, podem simplesmente não possuir um repertório verbal focado naqueles construtos psicológicos ocidentais.

?Voz B

Exato! Uma pessoa de um determinado contexto pode nunca usar palavras como tristeza, culpa, ou até mesmo a palavra depressão.

?Voz A

Ela não chega falando: Olá, estou com anedória.

?Voz B

Claro que não! Em vez disso, ela chega no seu consultório ou lá no postinho de saúde relatando uma dor de cabeça crônica intolerável, problemas digestivos severos muitas vezes. Isso, ou uma fraqueza muscular, tipo um peso no corpo que a impede de levantar da cama para ir trabalhar.

?Voz A

Ou seja, é uma apresentação predominantemente somática, né? O corpo fala aquilo que a cultura não ensinou palavras para expressar de forma psicológica.

?Voz B

É a somatização pura.

?Voz A

E isso significa, né, puxando a reflexão para quem tá escutando, que se o clínico adotar uma postura muito engessada assim, com a prancheta na mão aguardando que o paciente verbalize exatamente os critérios ali com a linguagem do manual, esperando ouvir a palavra culpa, ele corre um sério risco de invalidar o sofrimento do paciente.

?Voz B

Nossa, o pior, né? Correr o risco de falhar no diagnóstico de um episódio depressivo gravíssimo porque achou que era só um problema gástrico ou uma dor nas costas crônica. O manual fornece a bússola, isso é negável, mas a escuta profissional é quem desvenda o terreno.

?Voz A

A escuta ativa, né?

?Voz B

Aplicar os critérios diagnósticos exige sensibilidade, sabe? Para traduzir a experiência cultural que é única daquele indivíduo para a linguagem universal da patologia, mas sem desrespeitar a forma como aquela pessoa entende a própria dor, sem botar palavras na boca dela.

?Voz A

Sensacional! E assim a gente fecha o nosso círculo de hoje. Começamos abordando a ausência daquela máquina de raio-X para dor psíquica, né? A gente viu que o DSM não tira fotografias perfeitas das fraturas da mente.

?Voz B

Não mesmo, ele fornece um mapa metódico para nossa observação.

?Voz A

Exato. A verdadeira precisão não tá no checklist isolado que você marca com o X, mas na capacidade do psicólogo de usar o julgamento clínico, de compreender o histórico de vida do paciente, limpar o terreno excluindo outras variáveis médicas e principalmente escutar muito além das palavras ditas. Que a nossa análise de hoje reforce essas ferramentas de investigação e julgamento crítico para todo mundo que acompanha a gente, porque elas são o alicerce fundamental de qualquer prática clínica de excelência.

?Voz B

Com certeza, um ótimo estudo para todo mundo.

?Voz A

Valeu, pessoal, um abraço e até a próxima análise.