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Ep. 2 - Transtornos Bipolares e Relacionados

05 de julho de 202613min
0:00 / 13:14

Baseado DSM5-TR

Participantes neste episódio2
S

Speaker A

Host
S

Speaker B

Co-hostJornalista
Assuntos4
  • Bipolaridade tipo 1 e tipo 2Importância do histórico de episódio maníaco · Diferença entre diagnóstico base e episódio atual · Códigos DSM-5-TR para episódios · Episódio maníaco · Episódio depressivo · Episódio hipomaníaco · Gravidade dos episódios (leve, moderada, grave) · Características psicóticas
  • Tratamentos e TerapiasImpacto do código no direcionamento terapêutico · Risco de dano (agitação, compras, suicídio) · Abordagem terapêutica para episódios com psicose · Manejo em remissão parcial e total · Psicoeducação e rotina de sono
  • Autoconhecimento e Saúde MentalConceito de estabilidade e cura no transtorno bipolar · Vulnerabilidade e risco de recaída
  • Compreensão e Limites PessoaisAnalogia do clima geral vs. previsão do tempo · Analogia do sistema operacional e aplicativos · Analogia do incêndio na floresta para remissão
Transcrição101 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async
?Voz A

Imagina dar entrada numa sala de emergência psiquiátrica, tipo, ah, umas 3 da manhã.

?Voz B

Nossa, o caos total.

?Voz A

Exato, o caos. O quadro ali visível é de uma depressão profunda, o paciente tá quase catatônico, sabe? E aí o médico plantonista, que já tá sob uma pressão absurda, com dezenas de pacientes para atender, ele puxa o histórico e vê só duas palavras no topo daquele prontuário, que são: transtorno bipolar.

?Voz B

E só isso, mais nada?

?Voz A

Só isso, sem nenhum detalhe a mais. Daí o médico, como ele está muito focado no sintoma imediato, ele vai lá e prescreve um antidepressivo de alta dosagem, né, para tentar tirar o paciente daquele estado letárgico.

?Voz B

O que é um perigo gigante.

?Voz A

Gigante, porque olha só, 24 horas depois esse mesmo paciente precisa ser contido fisicamente por uma equipe de segurança.

?Voz B

Caramba!

?Voz A

Sim, porque aquele antidepressivo engatilhou um episódio maníaco agudo com tipo delírios de grandeza e tudo mais, E tudo isso aconteceu porque faltou assim um simples código alfanumérico no prontuário dele.

?Voz B

É um detalhe que muda o jogo inteiro.

?Voz A

Muda tudo. Então, sejam muito bem-vindos a mais uma das nossas imersões. Hoje o nosso foco vai ser super direto para os estudantes de psicologia e profissionais que nos acompanham, porque a gente vai continuar aquele nosso estudo sobre os transtornos bipolares e relacionados usando o DSM-5-TR.

?Voz B

E com uma missão bem específica hoje, né?

?Voz A

Isso, a nossa missão hoje é desvendar, tipo, a lógica por trás da classificação do transtorno bipolar 1, mas com foco total no episódio atual ou mais recente.

?Voz B

Aquele emaranhado de códigos.

?Voz A

Exatamente. A gente vai entender como lidar com códigos que parecem até senha de Wi-Fi, tipo F31.31, F31.32, F31.4, F31.5, e também o F31.75, F31.76 e o F31.9.

?Voz B

É muito número, mas faz todo sentido quando a gente olha de perto.

?Voz A

Faz sim. E para quem tá ouvindo, já quer visualizar isso? Eu gosto de pensar numa analogia. Pensa que o transtorno bipolar 1 é como se fosse o clima geral de uma região, o clima base. Isso é uma condição de base de longo prazo. Só que esses códigos de episódio atual ou mais recente, eles são na verdade a previsão do tempo para o dia de hoje.

?Voz B

Boa analogia.

?Voz A

A doença é a mesma, mas a forma como ela se apresenta ali na cadeira do consultório, isso muda. E o manual exige essa precisão.

?Voz B

Exige muito e com razão.

?Voz A

Então eu queria te passar a bola agora. Assume aí o seu papel de professor de psicodiagnóstico e estrutura essa explicação de um jeito bem visual, prático.

?Voz B

Claro, vamos lá.

?Voz A

Qual é o conceito direto ao ponto aqui? O que é a base do transtorno bipolar?

?Voz B

1. Bom, vamos direto ao ponto então, sem muito jargão complicado. Pra gente fechar o diagnóstico de transtorno bipolar 1, a regra de ouro, o alicerce absoluto, é que o paciente precisa ter tido pelo menos um episódio maníaco na vida.

?Voz A

Um único episódio já fecha a conta?

?Voz B

Um único episódio já sela o diagnóstico de base. E só pra dar aquela revisada rápida, um episódio maníaco é aquele período distinto de pelo menos uma semana onde o humor está anormalmente elevado.

?Voz A

Ou irritável também, né?

?Voz B

Isso, expansivo ou irritável. E claro, junto com o aumento que seja persistente de energia ou de atividade, o cérebro atinge aquele estado neurobiológico extremo. Mas aí que tá o grande pulo do gato que confunde muita gente. O código que realmente vai para o papel, o código do CID que a gente usa junto com o DSM, tipo um F31.31 ou um F31.4, ele não está descrevendo a doença inteira.

?Voz A

Ah, ele descreve só a foto do momento.

?Voz B

Exatamente, ele é a fotografia do momento atual. Esses códigos alfanuméricos, eles indicam se o episódio que está acontecendo hoje ou o mais recente é maníaco, se é hipomaníaco ou se é deprimido.

?Voz A

Certo.

?Voz B

E eles adicionam detalhes que são cruciais, tipo a gravidade, se é leve, moderada, grave, se tem características psicóticas junto ou se o quadro já tá em remissão.

?Voz A

Espera, deixa eu fazer um papel de advogado do diabo aqui só para deixar isso bem claro.

?Voz B

Manda!

?Voz A

Então, se um paciente tem um histórico documentado de uma mania super intensa lá no passado, mas ele chega hoje na clínica numa depressão profunda, o diagnóstico base dele ainda é bipolar I, certo?

?Voz B

Com certeza, o diagnóstico base não muda.

?Voz A

Mas o código que a gente vai colocar no prontuário hoje vai refletir a depressão desse momento específico, é isso?

?Voz B

É exatamente isso. A ordem de registro no DSM-5-TR, ela meio que te obriga a listar o transtorno primeiro, que é o guarda-chuva, e o estado atual em seguida.

?Voz A

Entendi.

?Voz B

E por que isso importa na clínica, né? Porque entender isso muda absolutamente muda tudo na prática diária de quem preenche prontuário.

?Voz A

Nossa, muda demais!

?Voz B

Porque assim, o profissional não pode simplesmente escrever "transtorno bipolar I" no prontuário e achar que tá bom. Isso é uma informação perigosamente incompleta, como no seu exemplo da emergência.

?Voz A

Sim, o médico só leu bipolar e pronto.

?Voz B

Pois é. Quando você usa o código correto, por exemplo, o F31.4, você tá informando instantaneamente a qualquer outro profissional da rede de apoio duas coisas.

?Voz A

Quais?

?Voz B

Primeiro, o que o paciente tem, Bipolar I, e segundo que ele atualmente está vivenciando um episódio depressivo grave.

?Voz A

O que já dita todo o direcionamento terapêutico, né?

?Voz B

Total! A avaliação clínica precisa ser muito ancorada no aqui e agora. O manejo clínico, a forma de lidar com o risco de dano, seja por uma agitação psicomotora, compras desenfreadas na mania ou um risco de suicídio na depressão, tudo isso varia drasticamente.

?Voz A

Sim, a intervenção para um código de mania com psicose é um mundo de distância de um quadro em remissão parcial, por exemplo.

?Voz B

Exato! A arquitetura do tratamento muda conforme a foto do momento.

?Voz A

Sabe, ouvindo você falar, me vem uma outra analogia na cabeça. Acho que ajuda a consolidar. É tipo atualizar o status de um software no computador.

?Voz B

Opa, adoro essa! Como seria?

?Voz A

É assim: o sistema operacional que está instalado na raiz da máquina é o transtorno bipolar I. Ele não sai de lá, ele dita as regras globais.

?Voz B

Certo.

?Voz A

Mas o aplicativo que está rodando e consumindo toda a memória RAM hoje no momento da consulta, é o episódio depressivo grave, entende? O psicólogo precisa saber exatamente qual aplicativo está aberto para conseguir interagir com a máquina sem travar o sistema inteiro.

?Voz B

Nossa, essa analogia captura perfeitamente a dinâmica da coisa. O psicólogo precisa saber com qual app ele está lidando.

?Voz A

Exatamente. Se tentar usar comando de editor de texto num jogo pesado, vai dar tela azul.

?Voz B

Com certeza! E para não deixar isso só na teoria, vamos trazer um exemplo prático rápido, bem focado.

?Voz A

Por favor.

?Voz B

Imagina um paciente que tem um histórico super bem documentado de um episódio maníaco clássico que aconteceu há uns 3 anos.

?Voz A

Ok, então o transtorno bipolar I já está estabelecido aí.

?Voz B

Já está carimbado, não se discute mais. Mas hoje, esse mesmo paciente chega lá na sua clínica apresentando, sei lá, 5 sintomas de depressão.

?Voz A

Aham.

?Voz B

Ele não tem características psicóticas e o impacto na vida dele tá num nível moderado. Ele tá conseguindo trabalhar, mas com muito esforço.

?Voz A

Certo, o aplicativo aberto hoje é a depressão moderada.

?Voz B

Isso. E como fica o prontuário? O psicólogo não vai avaliar um novo transtorno depressivo. Ele não cria um diagnóstico novo.

?Voz A

Ah, isso é um erro bem comum, né?

?Voz B

Muito comum. O que ele vai registrar é transtorno bipolar I, episódio atual deprimido, gravidade moderada.

?Voz A

E o código para isso seria o F31.32.

?Voz B

Perfeitamente. O código F31.32 e olha como a fluidez acontece, se no mês que vem esse quadro piorar muito e o paciente começar a ter ideação suicida, exigindo uma atenção máxima.

?Voz A

O código muda de novo.

?Voz B

O código no prontuário vai ser atualizado para F31.4, que indica o episódio grave. A doença é a mesma, o sistema operacional é o mesmo, a lente de aumento que mudou.

?Voz A

É fascinante pensar que essa progressão dos números não é aleatória. A estrutura do código te conta uma história, né?

?Voz B

Te conta toda a evolução clínica.

?Voz A

O F31 é a base, o ponto 3 fala que é depressão e o final 1, 2, 4 vai escalando a gravidade. Mas e aquele salto para o F31.5?

?Voz B

Ah, esse salto é importantíssimo. O F31.4 é grave, mas sem psicose. Quando pula pro F31.5, o manual tá dizendo: "Olha, agora tem características psicóticas." Ou seja, o cérebro teve uma falha no teste de realidade. Exato. Delírios, alucinações. E terapeuticamente, a abordagem muda por completo, porque você passa a precisar de antipsicóticos.

?Voz A

E a gente não pode esquecer também dos códigos de remissão: o F31.75 pra parcial e o F31.76 pra total.

?Voz B

Nossa, sim! Eles são muito subestimados, mas são essenciais.

?Voz A

E eu fico pensando, a palavra remissão soa quase como cura, pra quem é de fora, né? Mas na verdade uma remissão parcial é tipo quando o incêndio na floresta foi controlado, mas o solo ainda tá fumegando.

?Voz B

É o famoso "tem brasa debaixo da cinza".

?Voz A

Exato! Qualquer vento mais forte, tipo um estresse emocional, e o incêndio volta com tudo.

?Voz B

E registrar esse código alerta toda a rede de que o paciente está numa zona vulnerável. O foco passa a ser a construção de defesas, psicoeducação, rotina de sono.

?Voz A

Muito bom! Bom, a gente já cobriu bastante terreno. Se a gente fosse entregar um resumo para fixação agora, aquele takeaway definitivo para os estudantes anotarem e nunca mais esquecerem, como ficaria?

?Voz B

Olha, se for para anotar uma frase de efeito, anotem essa: O diagnóstico de transtorno bipolar I exige a história de um episódio maníaco no passado, mas o código do DSM-5-TR, que vai para o prontuário, descreve a fotografia clínica exata do presente.

?Voz A

Perfeito.

?Voz B

Dá para dividir em 3 partes: a doença de base, que é o transtorno bipolar I, a fotografia, que é o episódio atual, maníaco, deprimido ou hipomaníaco. E por fim, o filtro da foto, que é a gravidade atual, se tem sintomas psicóticos ou se o status é de remissão.

?Voz A

A doença de base, a fotografia e o filtro. Excelente!

?Voz B

Fica fácil de visualizar, né?

?Voz A

Fica super didático! E isso mostra como o DSM-5-TR, apesar de parecer super engessado e burocrático às vezes, na verdade é uma ferramenta muito dinâmica.

?Voz B

Ele acompanha o ritmo do paciente.

?Voz A

E também ele acompanha a fluidez do comportamento humano. Não é só colocar um carimbo definitivo na testa de alguém, é caminhar junto com a jornada atual daquela pessoa.

?Voz B

É um diário de bordo estruturado. E sabe, refletindo sobre isso tudo a partir das nossas fontes, me veio um pensamento um pouco mais provocativo para o pessoal que está ouvindo.

?Voz A

Manda, o que você pensou?

?Voz B

É que se o manual exige uma fotografia tão hiperespecífica do estado atual para uma condição que a gente sabe que é de longo prazo, como isso altera a nossa própria percepção sobre o que significa estabilidade na saúde mental?

?Voz A

Nossa, profundo isso.

?Voz B

Pois é. Será que a verdadeira estabilidade, aquela calmaria absoluta, realmente existe no transtorno bipolar? Ou será que a gente está apenas vivendo o paciente entre um código de remissão total e a espera do próximo episódio ativo.

?Voz A

Caramba, é uma desconstrução forte do conceito de cura e de equilíbrio, né? O sistema operacional da bipolaridade nunca é desinstalado, as brasas podem estar só aguardando.

?Voz B

Exatamente. Fica aí o enigma para o pessoal digerir e pesquisar.

?Voz A

Adorei, vou deixar essa pulga atrás da orelha de quem nos acompanha. Bom, queria agradecer demais por essa aula estrutural de hoje. É muito bom traduzir essa sopa de letrinhas e números para a prática de consultório.

?Voz B

Eu que agradeço. É sempre um prazer discutir o psicodiagnóstico com essa lente prática.

?Voz A

E para você que está nos ouvindo e acompanhando essas nossas imersões, continuem se aprofundando constantemente nos estudos. Não olhem para o manual só como burocracia, olhem como um mapa que ele é. Um grande abraço, muito obrigada pela companhia e até a próxima.

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