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Ep final - Espectro da Esquizofrenia e Outros Transtornos Psicóticos

03 de julho de 202623min
0:00 / 23:17

Baseado DSM5-TR

Participantes neste episódio2
S

Speaker A

Host
S

Speaker B

Co-hostJornalista
Assuntos4
  • Diagnóstico psiquiátricoDSM-5-TR · F28 - Outro transtorno psicótico especificado · F29 - Espectro da esquizofrenia não especificado · Transtorno psicótico breve · Transtorno esquizoafetivo · Alucinações auditivas isoladas · Folie à deux (Transtorno psicótico compartilhado)
  • Medicina e éticaViés de confirmação · Profecia autorrealizável · Estigma · Maturidade profissional · Incerteza diagnóstica
  • Códigos F28 e F29Emergência psiquiátrica · Pronto-socorro · Planejamento de tratamento · Histórico do paciente
  • Medicina CulináriaReceita clássica · Ingrediente principal · Diagnóstico como mapa
Transcrição155 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async
?Voz A

É, vamos pensar na magia da culinária por um instante. Tipo, tenta imaginar uma receita clássica.

?Voz B

Daquelas tradicionais de família, né?

?Voz A

Exato, uma daquelas que atravessam gerações mesmo. A lista de ingredientes é super rigorosa, sabe? Mas aí, num determinado dia, falta o ingrediente principal.

?Voz B

Nossa, e aí complica.

?Voz A

Pois é. Só que o tempero tá lá, o método de preparo foi seguido assim à risca, E o prato ainda existe, tem aroma, tem sabor e, tipo, o mais importante, alimenta quem tem fome.

?Voz B

Com certeza.

?Voz A

No entanto, tecnicamente, ele já não pode mais receber aquele nome clássico lá no cardápio, né?

?Voz B

Faz todo sentido. E na psicologia clínica, especialmente no campo do psicodiagnóstico, acontece uma dinâmica muito parecida com essa.

?Voz A

Nossa, sim, porque o sofrimento do paciente é inegável, né?

?Voz B

É palpável, exato. Os sintomas estão ali operando no mundo real, causando dor. Mas a receita teórica do manual diagnóstico não fecha perfeitamente.

?Voz A

Fica aquela área cinzenta.

?Voz B

Isso. Fica faltando um critério, tipo, falta uma linha do tempo adequada, ou então falta um sintoma secundário. E a grande questão que encerra a nossa série sobre o espectro da esquizofrenia e outros transtornos psicóticos no DSM-5-TR é exatamente essa: como que o profissional nomeia esse sofrimento quando a teoria esbarra?

?Voz A

Na complexidade da mente humana. Pra quem acompanha a nossa análise profunda sabe que a gente gosta de ir direto ao ponto.

?Voz B

Aham, sem jargão desnecessário.

?Voz A

Exatamente. E hoje o nosso foco exclusivo está em destrinchar o mecanismo por trás de dois códigos bem específicos: o F28 e o F29.

?Voz B

É, e essa limitação da teoria é o ponto de partida de qualquer avaliação que seja, assim, responsável de verdade.

?Voz A

Nossa, com certeza. Porque o DSM não é uma Bíblia sagrada em funcionável, né?

?Voz B

De jeito nenhum, ele é um mapa e todo mapa tem áreas ali onde a topografia real é muito mais acidentada do que o papel consegue descrever, sabe?

?Voz A

E a mente humana não tem a menor obrigação de seguir um checklist, né?

?Voz B

Nenhuma obrigação. Quando a gente olha para a classe diagnóstica do espectro da esquizofrenia, o pensamento imediato vai sempre para os quadros clássicos.

?Voz A

Tipo a própria esquizofrenia ou transtorno esquizoafetivo.

?Voz B

Uhum, ou transtorno psicótico breve. Só que a realidade clínica dos ambulatórios dos hospitais, ela tá cheia de apresentações onde predominam sintomas psicóticos super claros.

?Voz A

Que causam aquele sofrimento clinicamente significativo pra pessoa.

?Voz B

Exato. E que destroem o funcionamento social ou ocupacional do indivíduo. Mas que simplesmente não gabaritam os critérios de nenhum desses transtornos maiores.

?Voz A

E é justamente pra lidar com essa lacuna que o DSM traz essas ferramentas, né? Pra não deixar o paciente desamparado.

?Voz B

Isso. Os códigos F28 e F29 servem pra gente não forçar um rótulo inadequado numa pessoa. É uma questão de precisão ética mesmo.

?Voz A

Então, pra quem estuda ou trabalha com saúde mental, entender isso é fundamental. Vamos separar as coisas aqui. O F28, ele é classificado como outro espectro da esquizofrenia especificado e outro transtorno psicótico. "Esse é o nome completo." E o F29 é o espectro da esquizofrenia não especificado. A diferença central parece repousar inteiramente nessa escolha de palavras, né? Especificado contra não especificado.

?Voz B

É, a distinção estrutural tá todinha aí. O código F28, que é a categoria do especificado, ele é uma ferramenta de comunicação ativa do profissional.

?Voz A

Como assim ativa?

?Voz B

Tipo assim, o clínico usa o F28 quando ele tem dados suficientes sobre a história do paciente, sabe? Ele observa o quadro atual e toma a decisão técnica de comunicar o motivo exato pelo qual a apresentação não fecha os critérios.

?Voz A

Ah, entendi. Então ele literalmente escreve no prontuário a justificativa.

?Voz B

Exatamente. Ele escreve o nome da categoria seguido da justificativa. É uma afirmação de conhecimento mesmo. O clínico está dizendo para a equipe: olha, eu investiguei, Eu conheço a regra e eu sei exatamente qual peça do quebra-cabeça que tá faltando aqui.

?Voz A

Nossa, isso é muito poderoso! O profissional aponta anomalia, ele mapeia divergência em vez de fingir que ela não existe.

?Voz B

Com certeza, ele não varre para debaixo do tapete.

?Voz A

Mas e do outro lado da moeda? Temos o F29, que é o não especificado. A mecânica aqui parece operar sobre uma lógica de contenção de danos, talvez.

?Voz B

É uma ótima definição. Contenção de danos e reconhecimento de limites temporários. Esse código entra em cena quando não tem informação suficiente para um diagnóstico preciso naquele momento exato.

?Voz A

Ou quando o clínico opta por não detalhar, né, em casos mais raros.

?Voz B

Isso, aham. O F29 é tipo a documentação formal da incerteza provisória. E documentar incerteza na saúde mental é um ato enorme de proteção ao paciente.

?Voz A

É admitir que a gente não sabe tudo ainda, né?

?Voz B

Exato. O manual reconhece que o cuidado clínico imediato, tipo a intervenção para aplacar uma crise psicótica, ela não pode e nem deve ficar refém de fechar um checklist, sabe?

?Voz A

Claro! A dor da pessoa não vai esperar o profissional marcar os quadradinhos no papel.

?Voz B

Pois é. Se a dor é aguda, a intervenção acontece sobre o guarda-chuva do F29 enquanto a investigação prossegue.

?Voz A

Isso nos leva diretamente para o impacto clínico. Porque vamos ser sinceros: Leia a definição numa página do DSM, é um exercício super acadêmico, super limpo.

?Voz B

Aham, a teoria aceita tudo.

?Voz A

Mas aplicar isso na prática diária, lidando com a burocracia do sistema de saúde, plano de saúde apertando, o peso de um prognóstico na vida de uma pessoa, nossa, é uma engenharia completamente diferente.

?Voz B

Totalmente, muda o jogo.

?Voz A

O ovo do F28 muda ativamente o planejamento de tratamento, né? Porque se você registra que, por exemplo, os sintomas psicóticos estão presentes, mas o tempo de duração ainda é curto demais para fechar a esquizofrenia, o clínico acabou de desenhar a estratégia ali.

?Voz B

Exato! O F28 transforma o prontuário num roteiro de investigação prospectiva. É um guia para toda equipe multidisciplinar, sabe?

?Voz A

Não é só um código de faturamento para mandar para o convênio, então?

?Voz B

De jeito nenhum! É uma instrução clínica pesada. Se o psicólogo ou psiquiatra anota lá "outro transtorno psicótico especificado", tá tendo episódios alucinatórios com duração insuficiente, ele tá sinalizando para enfermagem, para assistência social, para todo mundo.

?Voz A

Ele tá dizendo que a variável tempo é o alvo central do monitoramento a partir dali.

?Voz B

Perfeito. O clínico passa a acompanhar a evolução com foco cirúrgico. E tem uma sutileza aí que é muito importante: o uso do F28 impede que o olhar clínico se engesse.

?Voz A

Espera, explica melhor esse mecanismo do engessamento. Como que um diagnóstico definitivo pode afetar a forma como a equipe percebe o paciente a longo prazo? Eu fico curiosa com isso.

?Voz B

Isso é super grave, na verdade. Quando um profissional crava um diagnóstico de esquizofrenia de forma precipitada, ignorando que um ou outro critério não foi preenchido, ocorre um fenômeno de viés de confirmação.

?Voz A

Ah, o famoso viés. Todo mundo passa a enxergar só o que confirma a teoria.

?Voz B

Exatamente. Toda equipe que for ler aquele prontuário no futuro enfermeiros, técnicos, outros médicos, eles vão passar a interpretar qualquer comportamento do paciente através das lentes da esquizofrenia. Caramba, então se o paciente tiver num dia ruim, mais calado, vão ler isso como embotamento afetivo. Se ele tiver uma dificuldade de articulação pontual porque está cansado ou nervoso, isso passa a ser visto como alogia ou pobreza de fala.

?Voz A

Que perigo! Vira uma profecia autorrealizável mesmo.

?Voz B

Vira. E o F28 evita justamente essa profecia. Ele diz: "Ó, atenção equipe, o quadro tem elementos psicóticos, mas não é o quadro clássico.

?Voz A

Mantenham os olhos abertos para outras possibilidades evolutivas." Nossa, essa precisão protetora do F28 fica muito clara quando a gente olha para aquelas situações descritas no próprio manual, né? E tem um exemplo fenomenológico que é fascinante para ilustrar isso.

?Voz B

Qual deles?

?Voz A

Aquele do indivíduo que apresenta alucinações auditivas persistentes, ocorrendo na ausência total de qualquer outro sintoma psicótico.

?Voz B

Ah, sim, esse caso é maravilhoso didaticamente falando.

?Voz A

É impressionante. O paciente ouve vozes continuamente. É intrusivo, é angustiante, afeta o trabalho, afeta o casamento, as relações todas. Mas, incrivelmente, ele não tem delírios.

?Voz B

Exato, a linha de raciocínio é totalmente preservada.

?Voz A

Pois é, não tem desorganização comportamental, não tem sintoma negativo. É só a voz.

?Voz B

E esse caso, ele é tipo o arquétipo do F28, porque o critério A da esquizofrenia, via de regra, exige a presença de pelo menos 2 sintomas característicos, e pelo menos um deles tem que ser delírio, alucinação ou discurso desorganizado.

?Voz A

E nesse caso, a pessoa só tem a alucinação, né?

?Voz B

Só alucinação. Forçar o diagnóstico de esquizofrenia aqui seria um erro biomecânico assim muito grave. E sabe por quê?

?Voz A

Por causa da trajetória do sintoma.

?Voz B

Isso. Porque a trajetória de uma alucinação auditiva isolada pode ser radicalmente diferente da trajetória de uma síndrome esquizofrênica completa.

?Voz A

Claro! O mecanismo causal pode estar em outro lugar totalmente diferente. Pode ser um pródromo, sim, mas também pode estar atrelado a um quadro de trauma complexo severo, né? Ou um fator neurológico sutil ali, não detectado.

?Voz B

Exatamente. E ao usar o F28, Escrevendo-la com "alucinações auditivas persistentes", o profissional legitima o tratamento. Ele permite o uso de antipsicóticos ou abordagens para aliviar a audição de vozes.

?Voz A

Mas ele não assina a sentença daquele declínio cognitivo inevitável que o rótulo da esquizofrenia clássica traz.

?Voz B

Perfeito! Ele trata os sintomas sem condenar o paciente. E existe um segundo exemplo do F28 que ilustra essa flexibilidade de uma forma ainda mais dramática, sabe?

?Voz A

Qual seria?

?Voz B

O quadro de delírios compartilhados, historicamente conhecido como "folie à deux".

?Voz A

Nossa, esse é de explodir a cabeça! O DSM-5 removeu o transtorno psicótico compartilhado como uma categoria isolada e realocou justamente dentro do F28, né?

?Voz B

Isso mesmo! E a mecânica por trás de um delírio compartilhado é uma das dinâmicas psicológicas mais complexas da gente observar na clínica.

?Voz A

É muito intrigante, porque temos ali duas pessoas, geralmente num relacionamento super fechado, né, um isolamento social forte. Uma delas, que é o indivíduo primário, já tem o transtorno psicótico estabelecido, com delírios proeminentes. E aí a segunda pessoa, o secundário, acaba tipo adotando ou sendo completamente engolida pelo sistema delirante do primeiro.

?Voz B

É uma absorção quase total daquela realidade paralela.

?Voz A

E como que ocorre essa permeabilidade cognitiva a ponto de justificar o uso do F-28 para essa segunda pessoa?

?Voz B

É fascinante. O que acontece ali é uma imposição de realidade, sabe? Ela é estruturada por uma dinâmica de poder e pelo isolamento. O indivíduo primário tem uma convicção delirante que é inabalável.

?Voz A

Ele acredita naquilo com a vida dele.

?Voz B

Isso. E o secundário, que muitas vezes é uma figura mais passiva, mais dependente ou sugestionável, ele passa a aceitar essa premissa falsa não por uma falha biológica primária na sua própria percepção da realidade, entende?

?Voz A

Ah, então não é uma psicose gerada pelo cérebro do secundário.

?Voz B

Exato. É pela força absurda da convivência e pela falta de contrapontos externos. O delírio vira a verdade absoluta daquela microsociedade de duas pessoas.

?Voz A

Nossa, e o momento diagnóstico definidor, aquele teste de fogo que prova que a gente está lidando com um F28 e não com uma esquizofrenia primária na segunda pessoa, ele acontece na separação, né?

?Voz B

Perfeito, na separação física mesmo. Se você vai lá e retira o indivíduo secundário da esfera de influência do primário, os delírios começam a perder força. Muito rápido. Eles perdem força e desaparecem com o tempo, tipo, muitas vezes sem nem precisar de medicação pesada para essa segunda pessoa, porque é um sintoma sustentado pelo ambiente relacional.

?Voz A

Que coisa louca! Então, se você avalia essa segunda pessoa de forma isolada, ela não fecha os critérios biológicos ou temporais de jeito nenhum. Para um transtorno psicótico próprio.

?Voz B

De jeito nenhum! Por isso o clínico usa o F28, especificando bem clarinho: sintomas delirantes no contexto de um relacionamento com indivíduo com delírios primários.

?Voz A

É um diagnóstico que aponta a origem externa do negócio.

?Voz B

Isso, ele aponta para dinâmica, não para uma doença crônica intrínseca.

?Voz A

Do tempo, né, do histórico, da observação detalhada. Eu gosto de pensar que é uma peça de alfaiataria diagnóstica.

?Voz B

Nossa, Essa é uma ótima analogia.

?Voz A

É um terno com um corte muito específico e a etiqueta anota onde a costura foi alterada, tipo alucinação isolada ou sintoma compartilhado. Mas trazendo para a realidade, a clínica nem sempre permite esse nível de detalhamento, né?

?Voz B

Ah, quem dera permitisse sempre.

?Voz A

É aqui que a gente precisa trazer a urgência para mesa, aquele nível de caos onde o F29 passa a ser a ferramenta mais crítica que um profissional pode ter. E o cenário clássico do F29 é o ambiente de emergência psiquiátrica, né?

?Voz B

É o pronto-socorro de madrugada, sabe? O paciente é trazido pelo resgate ou, sei lá, pela polícia, por terceiros. O estado dele é de crise aguda.

?Voz A

E aí tem desorganização de pensamento, agitação motora forte, paranoia gritante, Uhum, um estado psicótico inegável, não tem como errar que é psicose.

?Voz B

A questão é: o paciente está sozinho, não tem nenhum familiar na recepção, o sistema do hospital não acusa nenhuma internação prévia.

?Voz A

Ninguém para contar a história. E o paciente mesmo não consegue fornecer um histórico cronológico coerente, porque ele está em crise.

?Voz B

Exato. E aqui que entra o conflito prático que é gigantesco, porque o critério de tempo no DSM para separar os transtornos É super implacável, né?

?Voz A

Muito!

?Voz B

Pra classificar como transtorno psicótico breve, tem que durar de 1 dia a menos de 1 mês. Transtorno esquizofreniforme, de 1 mês a menos de 6 meses.

?Voz A

E pra bater o martelo na esquizofrenia, sinais contínuos por pelo menos 6 meses.

?Voz B

Mas como que o plantonista vai saber o tempo sem acesso a histórico? É impossível posicionar o paciente nessa linha do tempo.

?Voz A

E a pressão institucional em cima desse plantonista deve ser brutal, né?

?Voz B

Brutal. Você tem ali planos de saúde, auditorias de hospital, protocolos de regulação de leito que ficam exigindo respostas definitivas o tempo todo.

?Voz A

Tem que ter um código na ficha de qualquer jeito.

?Voz B

Tem. Então existe uma pressão burocrática massiva para simplesmente colocar o código F20.9, que é esquizofrenia não especificada genérica.

?Voz A

Só para garantir a aprovação de uma internação ou a liberação daquele medicamento de alto custo?

?Voz B

Isso mesmo. A administração quer o código, não importa se está embasado em tempo real ou não.

?Voz A

Mas ceder essa pressão tem consequências clínicas e legais muito severas para o paciente. E é exatamente aí que o F29 atua como um escudo ético.

?Voz B

Com certeza. E vale lembrar, usar o F29 não é, como alguns profissionais mais novos podem argumentar, ah, um ato de preguiça diagnóstica ou falta de conhecimento. Não é um argumento.

?Voz A

Nossa, muito pelo contrário, né?

?Voz B

Muito pelo contrário. Requer uma maturidade profissional enorme para você ir lá e documentar formalmente a ausência de informações num sistema que exige falsas certezas.

?Voz A

Exigir o direito de não saber tudo ainda é muito maduro, porque o uso apressado de um rótulo pesadíssimo como esquizofrenia numa emergência cria um fantasma no histórico do paciente.

?Voz B

É um fantasma que vai seguir essa pessoa por anos.— vai influenciar negativamente futuras avaliações psiquiátricas, pode ter implicação trabalhista, tipo a pessoa perder emprego ou ser afastada sem necessidade.

?Voz A

Complicações legais também, em questões de guarda de filhos, contratos. E sem falar no risco de submeter o paciente a um regime contínuo de antipsicóticos profiláticos pro resto da vida, né?

?Voz B

Que talvez nem fossem necessários. Se o quadro for só um transtorno psicótico breve que foi reativo a um stress agudo muito forte, por exemplo, Ele ia melhorar e não precisaria tomar remédio para sempre. O F29 paralisa essa cascata de erros logo na largada.

?Voz A

O F29 é como se fosse aquela placa brilhante de "em obras" na frente de um terreno. Ele sinaliza para o hospital todo, para assistente social, para psiquiatria de retaguarda, o seguinte: olha, tem uma estrutura crítica sendo lidada aqui, tá? O paciente está em sofrimento e precisa de tapumes de proteção, de intervenção imediata.

?Voz B

Aham, ele não vai ficar sem tratamento.

?Voz A

Exato. Mas a planta final do prédio, o diagnóstico definitivo, ele ainda está em fase de investigação, ninguém vai construir o telhado ainda.

?Voz B

É uma ótima visão. E essa sinalização orienta todo o trabalho da equipe do dia seguinte. Porque o psiquiatra que assume o caso pela manhã, ele vê o F29 no prontuário e já sabe.

?Voz A

Ele sabe que não é pra focar na psicoeducação de doença crônica ainda.

?Voz B

Isso. A missão dele é ativar assistência social para rastrear parente, buscar prontuário antigo em clínica e investigar o que causou aquilo. O diagnóstico não tá fechado, ele tá em curso.

?Voz A

E essa dinâmica entre proteger do caos com F29 ou especificar anomalia com F28, nossa, altera completamente a relação de poder entre o manual e o paciente, né?

?Voz B

É uma inversão de lógica. É o manual que serve o paciente.

?Voz A

Exato. O paciente não precisa performar a doença perfeitamente, não precisa ter todos os critérios, ele metricamente certinhos para merecer compaixão, para ter legitimidade clínica e tratamento intensivo.

?Voz B

Ele recebe o cuidado porque está em sofrimento, ponto.

?Voz A

Bom, para a gente garantir que essa estrutura toda que a gente cobriu hoje se torne uma ferramenta acessível, vamos consolidar esse conhecimento para quem nos ouve? Qual seria a melhor forma de estruturar isso para quem precisa registrar essa diferença? Tipo, na prática, E nos estude de forma definitiva.

?Voz B

É... Vamos organizar a lógica clínica aqui. O conceito direto ao ponto é o seguinte: o F28 e o F29 são usados sempre que existe um sofrimento psicótico real que não preenche os critérios para transtornos específicos.

?Voz A

Certo.

?Voz B

O F28 é a escolha ativa de detalhar o que falta. O F29 é a documentação da incerteza por pura falta de dados naquele momento.

?Voz A

E o motivo clínico disso? Por que isso importa na vida real?

?Voz B

F28 direciona a investigação futura da equipe para uma variável exata. E o F29, ele funciona como aquele escudo ético contra o estigma e contra um tratamento incorreto, especialmente em emergências.

?Voz A

E relembrando os exemplos, né, o F28 seria a alucinação auditiva isolada persistente ou aquele caso bizarro e fascinante do delírio compartilhado.

?Voz B

Exato. E o F29 é o caos do pronto-socorro de madrugada com pacientes grávidas acompanhadas sem histórico.

?Voz A

E se a gente tivesse que extrair, o resumo de fixação, a síntese absoluta que define o raciocínio por trás desses códigos de uma vez por todas?

?Voz B

Eu diria que a síntese é essa: o código F28 é a afirmação rigorosa da exceção. O profissional sabe exatamente o motivo pelo qual a regra não se aplica e documenta essa lacuna.

?Voz A

E o F29?

?Voz B

O F29 é o reconhecimento ético do desconhecido temporário. É quando o profissional declara que faltam dados, garantindo que a intervenção aconteça agora, sem jogar um estigma vitalício na pessoa.

?Voz A

A afirmação da exceção e o reconhecimento ético do desconhecido. O F28 especifica a ausência e direciona o foco, enquanto o F29 protege a identidade do paciente frente ao caos. Nossa, é muito elegante quando a gente entende o funcionamento.

?Voz B

É muito bonito mesmo.

?Voz A

E com esse mapeamento profundo, a gente encerra a nossa jornada técnica por essa área específica do espectro.

?Voz B

Foi um mergulho excelente.

?Voz A

Mas para fechar o nosso encontro de hoje, eu queria deixar um pensamento, um, para quem está acompanhando a gente continuar digerindo ao longo das próximas horas. Vamos voltar naquela nossa metáfora inicial da receita de culinária.

?Voz B

Da receita que falta o ingrediente.

?Voz A

Isso. A panela tá lá no fogo, a fome é super real, mas os ingredientes não fecham o prato tradicional. A existência formal institucionalizada dessas categorias F28 e F29 no rígido DSM prova de forma incontestável uma coisa linda, que na saúde mental a observação humana a atenção ansiosa e o bom senso compassivo sempre deverão se sobrepor à aplicação mecânica de checklists.

?Voz B

É, o manual tem que se dobrar à realidade, não o contrário.

?Voz A

As clínicas é bem mais ampla que outras estruturas da nossa sociedade que hoje estão obcecadas por alocar indivíduos em planilhas exatas, algoritmos previsíveis, métricas de performance, sabe?

?Voz B

Nossa! Sim.

?Voz A

Que outras estruturas poderiam se beneficiar imensamente de uma categoria oficial que simplesmente permitisse a incerteza? Um espaço ali legitimado para a gente só observar um indivíduo e admitir: olha, essa pessoa não cabe no seu formulário estreito, as variáveis dela não se alinham ao esperado, mas a experiência dela é inegavelmente real.

?Voz B

A trajetória importa.

?Voz A

Muito! A trajetória importa e ela merece ser acolhida e compreendida exatamente assim, na sua forma incompleta e especificada. Fica aí essa reflexão.

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