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Disfunções Sexuais - Ep. 1

22 de julho de 202616min
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DE ACORDO DSM5-TR

Assuntos4
  • Diagnostico MedicoCritérios de Frequência e Tempo · Persistência dos Sintomas (6 meses) · Critério de Sofrimento Clínico
  • Disfunção sexual em relacionamentosEjaculação Retardada · Transtorno Erétil · Transtorno Orgásmico Feminino · Transtorno de Dor Gênito-Pélvica · Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo
  • Ejaculação Retardada SituacionalMasturbação vs. Relação em Parceria · Condicionamento Tátil · Fatores de Relacionamento
  • Psicologia da SexualidadeExpectativas de Desempenho · Vergonha de Buscar Ajuda · Prevalência Baixa vs. Realidade
Transcrição93 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Então, para quem tá nos escutando hoje e que sempre acompanha o nosso material voltado para conteúdo, para estudos de psicologia, sejam muito bem-vindos a mais uma análise nossa. E eu queria começar pedindo para vocês imaginarem a seguinte cena.

?Voz B

Pode mandar.

?Voz A

Imagina um engarrafamento quilométrico, sabe, numa rodovia, num feriado prolongado. Os carros estão ali totalmente parados, o calor subindo, aquela tensão no ar que só aumenta.

?Voz B

Nossa, só de imaginar já dá um desespero, né?

?Voz A

Pois é. Mas tipo, tem um detalhe muito bizarro nessa cena que eu imaginei. Nenhum carro tem relógio no painel, ninguém ali usa relógio de pulso, os celulares estão todos sem bateria e não tem uma única placa na estrada dizendo tempo estimado de chegada. A minha pergunta é: como que as pessoas ali sabem se elas estão de fato atrasadas?

?Voz B

É uma imagem muito boa, porque o atraso aí deixa de ser uma coisa matemática, né? Cronologicamente, passa a ser puramente uma sensação subjetiva. Depende totalmente da expectativa de quem tá ali no volante, sabe, da pressa para chegar no destino.

?Voz A

Exato. E essa sensação subjetiva do tempo é justamente o que a gente vai dissecar nesse nosso mergulho profundo de hoje. A gente vai desbravar o DSM-5-TR, claro, com a lente de um especialista em psicodiagnóstico.

?Voz B

Com certeza. E é um terreno riquíssimo, né? Porque quando a gente olha para o manual, é impressionante como ele tenta colocar em caixinhas todo esse espectro complexo da sexualidade humana.

?Voz A

Nossa, sim! E tem aquele guarda-chuva enorme lá dentro, na página 477, chamado disfunções sexuais, que é uma categoria super ampla, né?

?Voz B

Bem vasta.

?Voz A

É, tipo, inclui condições muito variadas com os códigos bem específicos, né? Tem o transtorno erétil, que é o F52.21, Tem o transtorno orgásmico feminino, no F52.31.

?Voz B

Isso, e o de interesse ou excitação sexual feminino também, né?

?Voz A

Sim, o F52.22. E não para por aí, tem o transtorno de dor gênito-pélvica ou penetração, o F52.6.

?Voz B

E os quadros masculinos também, claro.

?Voz A

Exatamente, tipo o transtorno do desejo sexual hipoativo masculino, no F52.0, e a ejaculação precoce no F52.4. Ou seja, é muita coisa para dar conta de uma vez só.

?Voz B

Pois é, e tentar cobrir toda essa imensidão numa conversa só seria loucura. A gente ia se perder totalmente nesse engarrafamento que você citou.

?Voz A

Com certeza absoluta.

?Voz B

Então, para nossa análise ser realmente útil para quem tá escutando, a gente vai afunilar a conversa. O nosso foco hoje é isolar e dissecar assim detalhadamente apenas um conceito clínico específico, que é a ejaculação retardada, o código 478 ali do manual.

?Voz A

Perfeito. Então vamos desvendar isso e ir direto ao ponto, porque retomando aquela ideia da rodovia sem relógio, como é que o DSM-5-TR define exatamente esse atraso, já que tipo o tempo da resposta sexual é uma uma coisa tão íntima e tão flutuante, né?

?Voz B

É uma ótima pergunta. A definição base, assim, tirando todo o jargão complexo, é que a ejaculação retardada é caracterizada por um atraso muito acentuado ou uma infrequência marcante, ou até mesmo a incapacidade total de atingir a ejaculação.

?Voz A

Tá, mas aí entra a questão da vontade, né?

?Voz B

Exato. Tem uma distinção fundamental aqui que separa o que é disfunção do que é uma escolha do paciente. Isso tudo tem que ocorrer apesar de haver estimulação sexual adequada e, principalmente, apesar do desejo do indivíduo de ejacular.

?Voz A

Ah, entendi. Então a gente já quebra um mito gigante de cara. Não é tipo alguém usando uma técnica tântrica ou segurando de propósito para prolongar o momento.

?Voz B

Não, de jeito nenhum. É uma falha involuntária do corpo. A mente quer, o corpo supostamente quer, mas o reflexo biológico simplesmente não engata, sabe?

?Voz A

Nossa, deve ser muito frustrante. Mas assim, a clínica exige métricas para a gente não se perder, né? O manual traz números fundamentais para a gente não fazer confusão.

?Voz B

O DSM é bem específico nisso.

?Voz A

Pois é, pelas nossas fontes, isso tem que ocorrer em quase todas, ou tipo todas as ocasiões de atividade sexual em parceria. O manual fala em algo entre 75 a 100% das vezes, né?

?Voz B

Sim, esse é o critério de frequência.

?Voz A

E tem o critério de tempo também: os sintomas têm que persistir por pelo menos 6 meses. Mas peraí, 6 meses? Eu fico pensando, se um paciente chega no consultório sofrendo muito toda vez que tenta ter relação há 3 meses, por exemplo. Certo. Fazer esse paciente esperar mais 3 meses para um diagnóstico não é meio que prolongar a agonia dele?

?Voz B

Olha, essa dúvida é super comum e faz todo sentido você questionar. Pode até parecer uma burocracia fria do manual, mas na verdade a intenção é proteger o paciente.

?Voz A

Proteger de diagnósticos apressados, você diz?

?Voz B

Exatamente. A sexualidade é extremamente sensível ao ambiente, né? Qualquer homem pode ter uma dificuldade pontual devido a estresse agudo, Pode ser um luto, uma crise no casamento, um mês terrível no trabalho ou até abuso de álcool.

?Voz A

É, flutuações normais, né? Ninguém é uma máquina.

?Voz B

E aí, se o psicólogo dá um diagnóstico formal no primeiro ou segundo mês, ele corre um risco enorme de criar uma profecia autorrealizável.

?Voz A

Como assim?

?Voz B

Tipo, o cara recebe o rótulo de disfuncional. Isso gera uma ansiedade de desempenho tão grande que o que era só uma reação ao estresse vira um problema crônico. A janela de 6 meses garante que é um padrão cristalizado.

?Voz A

Ah, faz muito sentido. Mas claro, o psicólogo não vai cruzar os braços nesses 6 meses, né? Ele acolhe, trata a ansiedade, mas não crava o rótulo antes da hora.

?Voz B

Perfeito, é bem por aí.

?Voz A

Mas voltando para o nosso engarrafamento, o DSM exige os 6 meses, mas não fala de um limite exato de minutos para ser considerado atrasado, né? A gente sabe que a latência média típica é ali de 4 a 10 minutos, mas o manual não tem um cronômetro oficial.

?Voz B

Exato. O que é fascinante aqui, e que podemos chamar de a regra de ouro do diagnóstico, é o critério C, o critério de sofrimento.

?Voz A

Que é basicamente o que manda na clínica, né?

?Voz B

Sim. Para ser um transtorno, essa demora tem que causar obrigatoriamente sofrimento clinicamente significativo. Se o cara demora 1 hora e o casal tá super feliz e satisfeito, não tem transtorno nenhum.

?Voz A

Nossa, isso é muito importante. O diagnóstico não depende do cronômetro, mas sim do contexto e do sofrimento. E isso me leva a perguntar por que tudo isso importa tanto na prática, sabe? Na hora de preencher o prontuário.

?Voz B

Importa porque o psicodiagnóstico exige que a gente olhe muito além da psicologia pura. A gente tem que fazer o diagnóstico diferencial. A gente não pode fechar em ejaculação retardada se o problema for melhor explicado por fatores médicos, por exemplo.

?Voz A

Tipo o quê? Condições físicas mesmo?

?Voz B

Sim, o profissional tem que ter um olhar clínico aguçado. Precisa investigar, às vezes junto com um médico, se não tem uma neuropatia diabética ali, ou esclerose múltipla, hipogonadismo. Tem que descartar o problema físico primeiro.

?Voz A

Uhum. E o peso dos medicamentos também, né? A nossa fonte destaca muito o impacto de antidepressivos, tipo os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, e antipsicóticos também.

?Voz B

Nossa, os ISRS são casos clássicos no consultório.

?Voz A

Mas por que exatamente? Eu fico curiosa. Tipo, a pessoa toma um remédio para depressão e acaba desligando um reflexo físico tão específico.

?Voz B

É uma ironia química, né? A serotonina é ótima para regular o humor e baixar a ansiedade, mas no sistema nervoso central, níveis muito altos de serotonina atuam como um freio fisiológico poderosíssimo.

?Voz A

Um freio de mão mesmo.

?Voz B

Exato. Ela eleva muito o limiar de excitação necessário para o corpo disparar ejaculação. O corpo fica meio anestesiado para esse estímulo específico.

?Voz A

Sabe? E aí, se o paciente está tomando isso há meses e começa a ter o problema, o diagnóstico muda, né?

?Voz B

Totalmente. Não é mais ejaculação retardada primária. O diagnóstico no prontuário passa a ser disfunção sexual induzida por substância ou medicamento.

?Voz A

O que muda toda a rota de tratamento daquele paciente.

?Voz B

Muda tudo. Você não vai ficar escavando traumas profundos se a causa é a pílula que ele toma todo dia. A conduta é acolher, validar, encaminhar para o psiquiatra para ver se dá para ajustar a dose ou trocar a medicação.

?Voz A

Genial! É por isso que entender de psicofarmacologia básica salva a terapia. Mas, e sobre as caixinhas que o psicólogo tem que marcar? Tem uns especificadores no DSM, né? Tipo, ao longo da vida ou adquirida.

?Voz B

Isso. Ao longo da vida é quando o problema sempre esteve lá, desde as primeiras experiências do paciente. Adquirida é quando ele teve uma vida sexual funcional por anos, E de repente a disfunção começou.

?Voz A

E também tem a questão de ser generalizada ou situacional, certo?

?Voz B

Generalizada é quando acontece em absolutamente todas as situações, com qualquer parceiro, na masturbação, em tudo. A situacional é quando acontece só em contextos específicos.

?Voz A

Ah, isso levanta uma questão muito importante sobre o ambiente e o casal, né? O manual cita aquelas 5 dimensões avaliativas. Fatores do parceiro, fatores do relacionamento, a vulnerabilidade individual, fatores culturais e médicos.

?Voz B

Sim, essas 5 dimensões são vitais. Pensa nos fatores de relacionamento, tipo uma comunicação ruim. Isso gera tensão, e com tensão o sistema nervoso não relaxa para permitir o reflexo sexual.

?Voz A

Para ficar mais claro para o pessoal de casa, vamos desenhar um exemplo prático bem rápido aqui. Imagina um cenário.

?Voz B

Manda ver.

?Voz A

A porta do consultório abre e entra um casal. O paciente não foi por vontade própria, ele tá ali meio arrastado, sabe? Quem tá muito angustiada é a parceira. Eles estão tentando engravidar há um tempão e toda vez ele não consegue ejacular.

?Voz B

É um caso muito clássico.

?Voz A

Pois é. E a parceira chora, sente que isso é um sinal de que ele não sente mais atração por ela ou que não ama mais. É uma dinâmica de relacionamento super citada no DSM, né?

?Voz B

Muito. A mulher se sente rejeitada, o homem se sente inadequado e pressionado, e aí a ansiedade de desempenho vai nas alturas, o que bloqueia o reflexo de vez. Mas aí, na entrevista clínica, tem uma pressa-chave que a gente precisa buscar: a pergunta sobre a masturbação. Exatamente. O psicólogo investiga e descobre que na masturbação solitária O paciente relata que consegue ejacular normalmente e até com certa facilidade.

?Voz A

Nossa, mas tem um detalhe aí também, né? Às vezes a pessoa desenvolve uma técnica muito específica.

?Voz B

Sim, se conectarmos isso ao quadro geral, muitos relatam que usam uma técnica de fricção manual muito rápida, com muita pressão, um condicionamento tátil extremo.

?Voz A

Que é fisicamente impossível de ser replicado numa atividade sexual em parceria.

?Voz B

Exatamente. O corpo da parceira não tem como imitar a pressão ou a velocidade da mão dele.

?Voz A

E aí o veredito fica bem claro, né? Isso ilustra perfeitamente um quadro de ejaculação retardada do subtipo situacional.

?Voz B

Perfeito. O mecanismo biológico dele tá funcionando, ele só tá mal condicionado. O problema não é falta de amor ou atração, é um abismo mecânico entre a fantasia solitária e a realidade com a parceira.

?Voz A

Cara, isso deve ser um alívio enorme para o casal escutar na terapia. Tirar a culpa do relacionamento e colocar o foco no recondicionamento sensorial, né?

?Voz B

Sem dúvida. A terapia foca em desconstruir essa exigência de fricção extrema, muitas vezes proibindo a penetração de início para focar só na exploração das sensações táteis reais. É reconectar o corpo com o estímulo natural.

?Voz A

Sensacional. Então, para quem tá anotando, vamos fazer um resumo para fixação, porque aqui é que fica realmente interessante. O diagnóstico, como eu disse antes, não depende do cronômetro, mas sim do contexto.

?Voz B

Exato. Se o pessoal puder anotar uma coisa só, anotem isso: o diagnóstico de ejaculação retardada exige sofrimento clínico evidente por mais de 6 meses em 75 a 100% das relações em parceria.

?Voz A

E exige muita investigação, né?

?Voz B

Com certeza. O psicólogo tem a obrigação de fazer uma investigação rigorosa Para descartar efeitos de antidepressivos, condições médicas e entender se o problema não é puramente uma dinâmica do relacionamento ou um condicionamento situacional.

?Voz A

Uhum. E dominar essas minúcias do DSM-5-TR assim na prática evita muitos diagnósticos apressados, garante que o paciente receba um encaminhamento correto, seja uma terapia de casal, uma ida ao psiquiatra ou uma intervenção super focada.

?Voz B

É, o impacto de um diagnóstico bem feito muda a vida da pessoa.

?Voz A

Mas antes da gente encerrar essa nossa análise, eu sei que a gente sempre gosta de deixar uma sementinha de reflexão no final, né?

?Voz B

Sempre tem que ter. E o que me provoca muito nisso tudo é uma questão estatística que o manual traz. O DSM afirma que a taxa de prevalência é bem baixa, sabe? Algo em torno de 1 a 5% ali nos Estados Unidos.

?Voz A

Nossa, é muito baixo mesmo. Você acha que esse número bate com a realidade?

?Voz B

Então, o próprio manual alerta que as diferenças culturais dificultam muito os relatos. E a minha reflexão é justamente essa: a gente vive numa cultura com expectativas irreais sobre a tal da masculinidade.

?Voz A

Ah, o lance do desempenho, né?

?Voz B

Isso. O homem aprende que durar horas na cama é o auge do desempenho, é um troféu. Então, quando ele não consegue finalizar, Ele muitas vezes não vê isso como um transtorno. Ou melhor, a sociedade não deixa ele ver.

?Voz A

É tipo, os amigos batem nas costas dele dando os parabéns por uma coisa que, no fundo, tá causando um sofrimento silencioso enorme pra ele.

?Voz B

O buga atrás da orelha que eu deixo é: até que ponto essas expectativas culturais escondem o sofrimento genuíno? Quantos homens não tão sofrendo calados, com casamentos acabando, porque têm vergonha de buscar ajuda na clínica por uma queixa que a sociedade acha que é vantagem?

?Voz A

Uau, é uma pergunta muito forte e que questiona muito como nós, profissionais de saúde mental, estamos preparados para escutar o que muitas vezes não é dito abertamente ali na poltrona.

?Voz B

Exatamente. A gente tem que estar com a escuta muito bem calibrada para essas nuances.

?Voz A

Perfeito. Bom, pessoal, eu espero de verdade que vocês utilizem esse nosso mergulho profundo como uma ferramenta viva, sabe, para os próximos estudos de caso de vocês. Muito obrigado por acompanharem mais essa nossa investigação. Um forte abraço e continuem sempre curiosos.

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