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Distúrbios de Eliminação

20 de julho de 202623min
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DE ACORDO DSM5-TR

Assuntos4
  • Incoprese: constipação e transbordamentoIncoprese · Constipação intestinal · Incontinência por transbordamento · Dor anal · Retenção fecal
  • Diagnóstico e detecção de doençasEnurese · DSM-5-TR · Enurese primária · Enurese secundária · Enurese noturna · Enurese diurna
  • Classificação DSM-5-TRTranstorno de eliminação especificado · Transtorno de eliminação não especificado · Enurese de baixa frequência · Incoprese de baixa frequência
  • Impacto sociocultural nos distúrbios de eliminaçãoEstigma social · Vergonha familiar · Julgamento moral · Tabu religioso
Transcrição131 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

É, sabe, geralmente quando a gente pensa em um diagnóstico médico, acho que existe uma expectativa de precisão quase que absoluta, né?

?Voz B

Como na engenharia, tipo isso.

?Voz A

Exato, tipo na engenharia. Alguém cai, quebra o braço, aí vai lá, faz o raio-X e a imagem mostra aquela linha branca irregular no osso. O médico simplesmente aponta para a tela e diz: Bom, tá aí o problema.

?Voz B

Sim, é o cenário ideal da medicina física, sabe? É totalmente binário: tá quebrado ou não tá quebrado.

?Voz A

Com certeza.

?Voz B

E o nosso cérebro adora esse tipo de certeza, porque, bom, as coisas podem ser visualizadas, categorizadas de uma forma muito clara, né? E a partir daí consertadas com um protocolo super claro.

?Voz A

Mas aí a gente dá um passo para dentro do mundo do desenvolvimento infantil, e claro, da psicologia clínica também, e aí a coisa muda de figura, muda totalmente. De repente essa máquina máquina de raio-X para de funcionar com essa nitidez toda, sabe? O cenário diagnóstico se torna bastante nebuloso, especialmente quando a gente esbarra em comportamentos que a sociedade, de forma um tanto arbitrária, decidiu que são falhas morais.

?Voz B

Nossa, sim, esse ponto das falhas morais é fundamental, né?

?Voz A

E olhando para nossa análise aprofundada de hoje sobre o DSM-5-TR, mais especificamente aquela seção de distúrbios de eliminação, a dissonância entre o que o manual científico descreve e o que acontece de verdade na sala de sustar das famílias é gritante.

?Voz B

É muito gritante. E tipo assim, essa dissonância é o que torna a prática clínica tão complexa no dia a dia.

?Voz A

Com certeza. A gente tem que atuar quase como um tradutor, né?

?Voz B

Exatamente. Porque a gente está falando basicamente da eliminação inadequada de urina ou fezes que geralmente é diagnosticada ali na infância ou na adolescência. Mas o que acontece nas casas e que chega para gente nos consultórios é que esses comportamentos são frequentemente lidos pelos adultos como pura provocação.

?Voz A

Sim, a família já chega armada, totalmente armada.

?Voz B

Eles chegam exaustos, sabe, relatando birra, preguiça da criança ou até mesmo falta de higiene, como se a criança tivesse arquitetando um plano maligno.

?Voz A

Nossa, que é uma carga pesadíssima para se colocar nos ombros de uma uma criança, né? Uma criança que, pô, já tá apenas em desenvolvimento.

?Voz B

É injusto demais.

?Voz A

É. Então a nossa missão hoje, ao desbravar esses códigos do manual, é justamente tentar estruturar isso como um guia prático, sabe? Para ajudar quem tá na clínica a usar o manual para tirar a criança desse papel de vilã.

?Voz B

Um ótimo objetivo.

?Voz A

Então, começando pelo primeiro quadro, a enurese. Que carrega aquele código UF98.0. A primeira coisa que chama atenção lendo as fontes é o fator temporal e o marco do desenvolvimento.

?Voz B

A questão da idade.

?Voz A

Isso. O manual crava a idade mínima de 5 anos para que isso seja sequer considerado um transtorno. E aí eu fico pensando, ah, por que exatamente 5 anos? Existe, sei lá, um botão mágico no cérebro que desliga os acidentes noturnos nessa idade específica?

?Voz B

Não, não é um botão mágico, mas é um marco neurobiológico super importante. Até os 5 anos, o sistema nervoso central e a bexiga ainda estão tipo numa fase de intensa negociação, sabe? A via de comunicação que permite ao cérebro enviar um sinal inibitório que seja forte o suficiente para segurar a urina durante o sono, ou até para acordar a criança quando a bexiga tá cheia. Isso tudo ainda tá amadurecendo.

?Voz A

Então é literalmente o corpo aprendendo a arquitetura da coisa.

?Voz B

Exato. Indo bem direto ao ponto do conceito no manual, ele estabelece esses 5 anos cronológicos ou o nível de desenvolvimento mental equivalente, porque antes disso a incontinência é vista como uma variação aceitável, né, o desenvolvimento fisiológico normal.

?Voz A

Entendi.

?Voz B

E para fechar o diagnóstico de enurese, a emissão repetida de urina na cama ou na roupa precisa acontecer com uma frequência de pelo menos 2 vezes por semana durante 3 meses consecutivos, ou causar um sofrimento clínico muito grande.

?Voz A

Sim, pode ser social, acadêmico, né?

?Voz B

Isso. E o texto menciona que essa emissão pode ser involuntária ou intencional.

?Voz A

Espera, É justamente aí que me dá um nó, porque involuntário faz todo sentido, a biologia tá amadurecendo, mas intencional, isso me soa um pouco contra-intuitivo. Que criança decide intencionalmente urinar na própria roupa?

?Voz B

Olha, é uma observação muito boa e confunde muitos profissionais no início da prática. A enurese involuntária é sem dúvida a esmagadora maioria dos casos, tipo 99%. No entanto, o manual prevê cenurese intencional para capturar quadros clínicos onde o comportamento tá atrelado a um transtorno de oposição e desafio, ou, sabe, é um quadro de sofrimento emocional tão severo, tão desorganizador, que a eliminação inadequada vira uma via de externalização da raiva.

?Voz A

Nossa, é quase como um grito de socorro do corpo, então.

?Voz B

Exatamente isso. É raro, tá? Mas quando acontece, o manejo clínico muda o foco e vai totalmente para regulação emocional e para o ambiente familiar, muito mais do que para um treinamento de toalete tradicional.

?Voz A

E isso nos leva a pensar por que isso importa tanto na clínica. Porque as fontes dividem a enurese em primária e secundária, certo?

?Voz B

Descartando causas médicas óbvias, tipo infecção ou diabetes, Sim, sempre descarta o médico primeiro e depois olha a linha do tempo.

?Voz A

É, a primária seria aquela criança que nunca, em momento nenhum, atingiu a continência, fez xixi na cama ininterruptamente desde bebê. Mas a secundária me parece ser a que mais acende um alerta vermelho no consultório. É por aí?

?Voz B

É exatamente por aí. Na enurese secundária, a criança já tinha estabelecido a continência, passou meses, às vezes anos, sem nenhum incidente.

?Voz A

Tava tudo certo, tudo certo.

?Voz B

E de repente, geralmente ali entre os 5 e os 8 anos, esse controle se perde. Do ponto de vista psicológico, o corpo da criança tá comunicando algo que o repertório verbal dela ainda não dá conta de expressar.

?Voz A

O sintoma vira linguagem.

?Voz B

Perfeito. O sintoma é um mensageiro. Pode ser uma mudança brusca de escola, A chegada de um irmão mais novo que desviou a atenção dos pais, sabe, dinâmicas de bullying ou até eventos traumáticos mais graves dentro de casa.

?Voz A

Isso reforça demais o quanto o psicólogo precisa ser, tipo, um investigador do ambiente e não só um anotador de sintomas no prontuário.

?Voz B

Com certeza. E tem a questão dos subtipos também, que o manual divide em 3: apenas noturno, apenas diurno e o tipo misto.

?Voz A

O noturno, eu imagino que seja o mais clássico, aquele que acontece logo no primeiro terço da noite.

?Voz B

Sim, é o mais comum. Mas o subtipo diurno traz um conceito que, na clínica, é fascinante e muito desafiador: o adiamento miccional.

?Voz A

Ah, eu li sobre isso. Eu fico imaginando os pais pensando, tipo: a criança tá acordada, tá vendo a porta do banheiro bem ali, por que ela simplesmente não entra lá e usa o vaso, sabe?

?Voz B

É o que todo pai pergunta. E o adiamento miccional é uma das dinâmicas mais mal compreendidas. A criança não vai ao banheiro porque naquele exato momento existem forças psicológicas operando que são muito mais fortes do que o desconforto físico de uma bexiga cheia.

?Voz A

Tipo o quê? Ansiedade?

?Voz B

Muito frequentemente. Uma ansiedade social paralisante. Imagina um ambiente escolar. O banheiro pode ser visto como um local aversivo, inseguro, Ou a criança simplesmente tem um pavor absoluto de levantar a mão no meio da aula, chamar a atenção da turma toda e pedir para sair.

?Voz A

Nossa, o medo do julgamento social supera o sinal biológico de urgência.

?Voz B

Supera. A criança segura. E há também o fator do hiperfoco. Algumas ficam tão imersas numa atividade, num jogo, que elas ativamente ignoram os sinais do corpo, vão segurando até que a musculatura pélvica entre em fadiga E aí a incontinência acontece.

?Voz A

Caramba! Consegue dar um exemplo prático bem rápido só para visualizar isso melhor na hora do atendimento?

?Voz B

Claro! Pensa numa criança de 6 anos que começou a urinar nas roupas durante o período escolar. Ela tem vergonha de pedir à professora para ir ao banheiro. Aí ela segura até não aguentar mais.

?Voz A

O adiamento miccional puro!

?Voz B

Isso! O preenchimento do prontuário focaria no subtipo apenas diurno e a investigação iria direto para as dinâmicas sociais da escola, culpar a criança. O trabalho não é criar tabela de recompensas, é tratar o medo da professora ou a exclusão pelos colegas.

?Voz A

Excelente! Então, se a gente fosse fazer um resumo rápido para fixação sobre enurese, a ideia é que ela exige uma idade mínima de 5 anos e frequência consistente. Mas na clínica, o foco não é só fralda molhada, é o sofrimento social e emocional que acompanha tudo isso.

?Voz B

Perfeito. O olhar através do sintoma físico para acessar o sofrimento relacional.

?Voz A

Tá. E se a enurese já exige esse nível enorme de empatia, o desafio clínico parece que se multiplica exponencialmente quando a gente avança para o próximo código.

?Voz B

O F98.1, a incoprese.

?Voz A

A incoprese. Nossa, se a perda do controle urinário já é um tema difícil, perder o controle intestinal é o tabu supremo dentro das famílias.

?Voz B

É o tabu dos tabus.

?Voz A

Lendo as fontes clínicas sobre a encoprese, que é a passagem repetida de fezes em locais inadequados, me pareceu que a dinâmica física interfere de um jeito muito mais agressivo no psicológico do que na enurese. Soa quase como, sei lá, um problema crônico de encanamento.

?Voz B

Uma boa analogia.

?Voz A

É, tipo, se o cano principal entope, e a pessoa continua jogando água lá de cima, essa água nova vai acabar vazando pelas bordas, pelas fissuras, para tentar escapar. É mais ou menos por aí a mecânica desse sofrimento.

?Voz B

A mecânica é precisamente essa. E entender esse processo de vazamento é o que resolve o maior conflito que existe nas famílias de crianças com encoprésia.

?Voz A

E indo para o conceito do manual, quais são as regras para esse diagnóstico?

?Voz B

O DSM-5-TR. Estabelece que esse evento precisa ocorrer pelo menos uma vez por mês, por no mínimo 3 meses, e a idade de corte cai para 4 anos, diferente dos 5 da enurese.

?Voz A

Ah, um ano mais cedo.

?Voz B

Sim. E o pulo do gato clínico tá nos dois subtipos. Tem encoprese com constipação e incontinência por transbordamento, e encoprese sem constipação.

?Voz A

Focando no primeiro, que pelo que as fontes indicam parece ser o mais comum, Como esse ciclo de constipação se transforma nesse vazamento que enfurece tanto os pais? Por que isso importa tanto na psicoeducação?

?Voz B

Importa porque é um ciclo biomecânico e neurológico trágico, sabe? E tudo começa com a dor.

?Voz A

A dor física mesmo?

?Voz B

Dor física. Por algum motivo, é uma fissura anal, uma dieta muito pobre em fibras ou até aquele medo terrível de usar banheiros públicos. A defecação se torna uma experiência dolorosa. E como instinto básico de autopreservação, a criança retém as fezes para evitar a dor.

?Voz A

Ela contrai a musculatura sempre que sente a vontade.

?Voz B

Isso. E o intestino grosso não para, ele continua o trabalho dele de absorver a água. Então a massa fecal que ficou retida vai se tornando cada vez mais dura, seca, volumosa, criando uma impactação real. Exato. O cano entupido da sua analogia, o problema é que o reto, para acomodar esse volume que não para de crescer, começa a dilatar cronicamente. E essa dilatação excessiva das paredes estica os receptores nervosos locais até o ponto em que eles simplesmente perdem o tônus, eles perdem a sensibilidade.

?Voz A

Uau! Então a criança literalmente perde a capacidade neurológica de sentir que o reto tá cheio. O sistema de alarme sensorial do corpo meio que desliga por causa da distensão.

?Voz B

Desliga completamente. E enquanto isso, o sistema digestivo continua funcionando lá em cima. Novas fezes, que ainda estão em estado líquido ou pastoso, começam a descer. E elas encontram essa barreira sólida.

?Voz A

A impactação.

?Voz B

Isso. Como a criança perdeu a sensibilidade esfíncteriana, essas fezes líquidas contornam a barreira sólida e vazam involuntariamente.

?Voz A

Sujando a roupa íntima.

?Voz B

Sujando tudo. E a criança muitas vezes nem percebe que sujou a calça até sentir o cheiro. Ou a umidade muito tempo depois, porque de novo não há mais sensibilidade local.

?Voz A

Gente, imagina o nível de conflito em casa, porque os pais olham para roupa suja e acham que a criança, que já tem 4, 5 anos, tá fazendo aquilo por preguiça extrema ou para provocar.

?Voz B

E aí a família pune, briga, impõe castigos pesados, quando na verdade o que tá acontecendo é um problema sensorial e uma obstrução física gerada pelo medo da dor.

?Voz A

É de cortar o coração. E a punição deve piorar Piora tudo, né?

?Voz B

Piora demais, porque o estresse e o medo do castigo aumentam a tensão esfíncteriana, o que agrava a retenção. O papel de quem tá conduzindo o caso primeiramente é frear essa punição familiar de forma bem assertiva, tirar a culpa moral da criança e trazer a psicoeducação urgente, explicar essa fisiologia da dilatação para o pai, para mãe. Sim, e trabalhar junto com o pediatra para fazer a desimpactação médica. Só depois que a fisiologia volta ao normal é que o trabalho psicológico de recondicionamento sem dor pode de fato começar.

?Voz A

Dando um exemplo prático rápido, seria aquela criança que suja a cueca com pequenas quantidades de fezes líquidas, nega o fato por vergonha, os pais brigam achando que é proposital e o psicodiagnóstico revela o histórico de constipação severa.

?Voz B

Aí a intervenção muda da correção comportamental punitiva para o tratamento médico e acolhimento.

?Voz A

Perfeito. Mas tem um ponto que as fontes tocam que é super delicado. O manual menciona que aspectos socioculturais e religiosos podem atrasar enormemente a busca por ajuda nesses casos de encoprese. Como é que o fator cultural blinda esse diagnóstico?

?Voz B

É muito complicado. Em muitas culturas e dentro de alguns dogmas religiosos específicos, As fezes carregam estigmas fortíssimos de impureza moral, de sujeira espiritual mesmo, sabe? A vergonha que a família sente por ter uma criança em idade escolar sujando as roupas é tão paralisante que o problema é acobertado. Os pais não levam ao pediatra, não comentam com o psicólogo escolar de jeito nenhum.

?Voz A

Tentam resolver a portas fechadas.

?Voz B

Tentam resolver em casa através de disciplina extremamente rígida. O que só piora o ciclo de retenção e transbordamento que a gente acabou de falar. Então, o clínico precisa ter uma escuta muito, mas muito refinada para detectar esses sinais em consultas que, teoricamente, seriam para tratar agitação escolar ou falta de atenção, porque o sintoma principal está sendo escondido às sete chaves.

?Voz A

Nossa, então um resumo para fixação seria: na encoprese, o subtipo com constipação e transbordamento é o grande vilão silencioso. E o pilar da intervenção é tratar a culpa da criança e psicoeducar a família.

?Voz B

Resumiu perfeitamente. Tratar a culpa e psicoeducar.

?Voz A

Agora, tudo isso nos leva a uma questão muito prática do dia a dia da clínica que me deixou muito curiosa. A gente discutiu aqui prazos e frequências muito específicas do DSM-5-TR, né?

?Voz B

A matemática do diagnóstico.

?Voz A

Isso. 3 meses de duração, 2 vezes por semana, idade mínima de corte. Só que, bom, a vida real raramente lê o manual antes de se manifestar, certo?

?Voz B

Quase nunca.

?Voz A

Então, o que o psicólogo faz quando a criança que tá ali sentada na frente dele tá claramente sofrendo, precisando de suporte terapêutico urgente, mas não preenche rigidamente essa matemática toda?

?Voz B

Essa é a grande questão.

?Voz A

Pensa num exemplo: uma criança de 6 anos cuja autoestima tá, tipo, completamente destruída, porque fez xixi na cama após o divórcio conturbado dos pais. Só que isso aconteceu apenas 3 vezes no último mês inteiro. Ela não atinge as 2 vezes por semana exigidas.

?Voz B

Sim, fica fora do critério A.

?Voz A

Ela fica sem diagnóstico. Ela fica sem amparo para justificar um encaminhamento ou para o plano de saúde aprovar exceções.

?Voz B

De jeito nenhum. É exatamente aí que entram os códigos que lidam com as áreas cinzentas do desenvolvimento. E eles garantem que essa rigidez acadêmica não atropele a necessidade humana de cuidado, sabe?

?Voz A

Ai, graças a Deus! E como funciona essa sopa de letrinhas desses códigos periféricos?

?Voz B

Quando os sintomas causam sofrimento clínico significativo ou prejuízo severo na vida da criança, mas não cumprem todos os critérios de duração ou frequência, o profissional recorre aos códigos de exceção. E existem duas vias de documentação clínica aqui.

?Voz A

Tá, qual é a primeira via para quem tá preenchendo o prontuário?

?Voz B

A primeira via é o que o manual chama de outro transtorno de eliminação especificado. O clínico usa essa codificação quando ele quer registrar explicitamente o motivo pelo qual o diagnóstico não atingiu os critérios totais.

?Voz A

E qual o código?

?Voz B

Para sintomas urinários, usa-se o código N39, N39.498.

?Voz A

N39.498.

?Voz B

Isso. E a regra é escrever o motivo ao lado, tipo N39.498, enurese de baixa frequência. Ou se for sintoma fecal, o código especificado é o R15.9, também com a justificativa, tipo encoprese de baixa frequência.

?Voz A

Entendi. E a segunda via? Porque imagino que tem horas que não dá para especificar, tipo em atendimentos de emergência.

?Voz B

Exatamente. Para essas situações em que faltam informações concretas ou o profissional opta por não detalhar naquele momento de crise, existe o transtorno de eliminação não especificado.

?Voz A

Que seriam quais códigos?

?Voz B

Para sintomas urinários, o código é a R32. E para sintomas fecais, curiosamente, a classificação repete o código R15.9.

?Voz A

Olha, compreender esses códigos de exceção me parece ter um impacto ético gigantesco para a prática clínica.

?Voz B

Ah, sem dúvida, é transformador.

?Voz A

Porque assim, dominar essas exceções significa que o profissional não precisa agir de má-fé para garantir o cuidado do paciente. Ele não precisa forçar a barra, aumentar a frequência dos sintomas no relatório ou inventar uma gravidade irreal só para um sistema de saúde liberar o tratamento.

?Voz B

É a ciência oferecendo ferramentas reais de flexibilidade, sabe? O sofrimento daquela criança que teve o episódio na escola e que agora não quer mais sair do quarto, ele é real e é incapacitante, não importa se aconteceu uma ou 5 vezes. O uso correto desses códigos garante a validação desse sofrimento perante as instituições de saúde, mantendo a honestidade técnica de quem atende.

?Voz A

Pensa num plantonista de hospital, por exemplo, que recebe um adolescente em crise de ansiedade porque sujou a calça durante uma viagem escolar. O psicólogo ali do pronto-socorro não tem como observar esse garoto por 3 meses para ver se a frequência bate com o manual da Encoprese.

?Voz B

Impossível.

?Voz A

Ele simplesmente usa o código R15.9 para sintomas fecais não especificados, registra o sofrimento agudo daquele momento e garante o encaminhamento para o ambulatório com toda a segurança técnica. O manual se molda à necessidade de quem sofre e não o contrário.

?Voz B

E esse deve ser sempre o norte, né? A classificação diagnóstica é um mapa, mas o território é a pessoa que está sofrendo. O uso engessado cria barreiras, mas o uso inteligente constrói pontes.

?Voz A

E poxa, isso amarra perfeitamente toda a nossa análise de hoje sobre esses distúrbios. A gente passou pela enorese primária e secundária, Entendeu a armadilha do adiamento miccional provocado pela ansiedade.

?Voz B

Mergulhamos na fisiologia dolorosa da encoprese, que é fundamental.

?Voz A

Claro, a gente viu como codificar as exceções para nunca deixar um paciente desamparado burocraticamente. E o que as fontes deixam claríssimo é que a esmagadora maioria desses eventos não tem absolutamente nada a ver com preguiça, mau-caratismo ou falta de educação.

?Voz B

São descompassos neurobiológicos.

?Voz A

Ou reações a traumas ambientais. Ou, como vimos, consequências diretas de ciclos de dor física.

?Voz B

A intromissão moral da sociedade sobre o ritmo de desenvolvimento do controle dos esfíncteres cria um ambiente tóxico onde a criança é punida por algo que o próprio corpo dela ainda não tem maturidade para gerenciar.

?Voz A

E o diagnóstico bem compreendido serve justamente para desculpabilizar. Mostra para os pais que a criança não está lutando contra eles, ela está lutando contra um sintoma. O clínico acaba agindo como um escudo entre a biologia imatura e a impaciência do mundo adulto. E essa é a provocação que a gente deixa para quem acompanha a gente, para quem estuda ou convive com desenvolvimento infantil. Se tudo isso é tão involuntário, por que a gente ainda insiste em transformar o desfralde em uma prova de disciplina moral e militar?

Fica o convite para a gente repensar como a linguagem clínica, quando bem aplicada, tem o poder real de resgatar a dignidade de quem tá num dos momentos mais vulneráveis da vida.

?Voz B

Com certeza. Oferecer suporte empático para enurese ou encoprese deveria ser tão natural e isento de julgamentos quanto engessar aquele osso quebrado que a gente falou lá no início.

?Voz A

Sem tirar nem pôr. Fica aí a reflexão.

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