Episódios de Humor à Primeira Vista

Ricardo Araújo Pereira (parte 1): “Sinto-me um novato na comédia, continua a fascinar-me”

12 de maio de 202646min
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Depois de vários anos a rejeitar voltar a fazer stand-up, incluindo em declarações ao Humor À Primeira Vista, Ricardo Araújo Pereira cedeu à insistência e já está em digressão com “Verificando Se Você É Humano”. Trata-se de, oficialmente, o primeiro solo da carreira, apesar de até se ter destacado quando subia a palco no “Levanta-te e Ri”. O humorista já atuou no Porto, segue-se a MEO Arena em Lisboa, a 5 e 6 de junho, em sessões esgotadas. No mesmo mês, vai aos arquipélagos da Madeira e Açores. Promete mais datas pelo país na segunda metade do ano e ir ao estrangeiro no futuro. 

No regresso ao Humor À Primeira Vista, com Gustavo Carvalho, a conversa é feita em duas partes. O humorista explica como preparou o seu regresso ao stand-up, reage a uma atuação antiga no “Levanta-te e Ri” e rejeita ter uma pose como humorista.

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Participantes neste episódio2
G

Gustavo Carvalho

HostJornalista
R

Ricardo Araújo Pereira

ConvidadoApresentador
Assuntos6
  • Regresso ao Stand-upRicardo Araújo Pereira · Verificando Se Você É Humano · Crise da meia-idade · Vaidade · Decisão emocional vs. racional
  • A plateia como 'bicho de mil cabeças'Público · Confiança · Solidão no palco
  • Processo de escrita e teste de piadasComedy clubs · Eventos corporativos · Testes em plateias · Máquina de escrever portátil
  • A ausência de pose na comédiaPose · Estética minimalista · Davi Henrique Alves · Humoristas com pose
  • Atuação antiga no 'Levanta-te e Ri'Tecnologia de lâminas de barbear · Anúncios publicitários · Estilo da época
  • Humor e ComédiaNovato na comédia · Estaca zero · Sátira política
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Depois de vários anos a rejeitar voltar a fazer stand-up, incluindo em declarações a este podcast, Ricardo Arujo Pereira cedeu à nossa insistência e já está em digressão com o Verificando Se Você É Humano. Oficialmente o primeiro solo da carreira, apesar de até se ter destacado quando subia a palco.

No Levanta-te e ri, o humorista já atua no Porto, segue-se a Méo Arena em Lisboa, a 5 e 6 de junho, em sessões esgotadas. No mesmo mês, vai ainda aos arquipélagos da Madeira e Açores, e quem sabe lá fora, no futuro, a nossa conversa vai ser longa, por isso o episódio terá duas partes. Bem-vindo novamente ao Humor à Primeira Vista, Ricardo Rios Pereira. Obrigado, Gustavo. Viva! Humor à Primeira Vista

Com Gustavo Carvalho. Nas boas séries de investigação, basta um detalhe para mudar tudo. É como a Vodafone, que tem 24 meses de Netflix incluída nos pacotes fibra para passar de caso em caso, sem perder o fio à meada. Adere à Vodafone e tem 24 meses de Netflix incluída. Together we can. Vodafone.

Estamos a falar depois de, obviamente, ter estreado no Porto. Eu ainda não vi o espetáculo, vou vê-lo quando estiveres em Lisboa. Tu referiste a decisão de estreares este teu primeiro sol, verificando se você é humano, como algo que surgiu de uma crise de meia-idade. Foram palavras tuas. Certo. Dirias que foi a primeira decisão emocional, em vez de racional, que tomaste na tua vida, ou tens outros exemplos?

Eu digo muita coisa, não é? Repara, quando eu avancei com várias explicações A crise da minha idade é só uma Coisa que são as outras Nem sequer sei se é mais forte Porquê que a gente faz isto? Para já eu devo registrar, em primeiro lugar Sublinhar o rancor com que tu disseste logo no início

Depois de dizer que não fazia, incluindo aqui Não, não, meses antes de anunciar À frente de Mariana Cabral Incluindo Não, não, isto é muito chato Mas tenho que assinalar isto Que é terem andado Anos a dizer, faz lá, porquê não fazes? Quando é que fazes? Quando é que fazes? E eu digo, está bem, pronto, vou fazer agora Porquê que...

Porquê? Porquê? Porquê que estás a fazer? Isso é engraçado Mas as razões, vamos lá ver Eu nunca escondi Sempre que recusava Eu dizia que qualquer dia talvez isso acontecesse E nunca escondi que eu tenho Interesse nisto, no sentido de que isto é Repara, é a minha profissão A minha profissão pode ser desempenhada de várias maneiras Aliás, há pessoas que têm a minha profissão E nunca fazem stand-up na vida Isso também não é essencial E algumas das, por exemplo, a Tina Fey Sei lá E a minha profissão

E há outras que só fizeram stand-up, por exemplo Bill Hicks, se calhar Não sei, talvez Não sei se há alguma vez uma boa razão É como para ter filhos, sabes? Não há uma boa razão para ter filhos Se tu te pões a pensar numa razão Das duas, uma Ou são coisas chocantes De tão frias que são Se alguém diz assim Não para perpetuar a espécie

Não é isso, não é por causa disso Que importância que tens Ou então a tua versão da espécie Exatamente Ou então há pessoas que dizem assim Para dar sentido à minha vida Não pões isso, não pões esse peso Nas costas de um ser Que de repente existe para dar sentido à tua vida Essa é a sua função Pelo menos a vida dele só tem sentido Quando ele tiver filhos e não sei o que Ou essas coisas de não porque dá muita alegria Com certeza, mas não vai gerar No

Mas foi uma decisão com base em emoção ou não? Foi com base... Não, não estás pronto para desprezer aí. Eu acho que há... Devíamos fazer um diagrama, um daqueles pie charts em que... Mas tu não vais gostar, acho eu, não vais gostar porque há uma porcentagem de racionalidade que é, racionalidade muito fria, que é Epá, eu fiz 52 anos na semana passada. Acho que está na altura, não é? Está na altura de me deixar de coisas e fazer uma coisa assim. Isso é racional.

Mas também há outras coisas como, por exemplo, há uma fatia aí de, sei lá, de vaidade, provavelmente. Porque é que uma pessoa mete na cabeça que vai subir a um palco e falar para uns milhares de pessoas. É provavelmente porque está convencida de que tem alguma coisa para lhes dizer ou de que elas vão querer ouvi-lo e aí haverá uma dimensão qualquer de...

Disso, são sentimentos que não são assim tão novos Mas há também uma vertente que eu diria emocional Apesar Na ideia de vou morrer Então tenho que me despachar a fazer isso É capaz É capaz também de haver aí qualquer coisa Essa é a dimensão de crise da meia-idade É de pensar Isto está Já não tenho outro tanto Portanto está na hora de

Por exemplo, o podcast, assim vamos ter de falar de outra maneira, bem como o regresso da Michória Temáticas, numa altura em que tinhas até diários de programa de Isto é Gozar com Quem Trabalha e Michória, portanto, rádio de manhã, televisão à noite, também surgiu desta sensação de vou morrer, tenho que me despachar a fazer coisas. Na verdade, não. Deve dizer-se a meu favor que eu não tenho culpa disso. Sim, eleições. O governo fez a desfeita de cair. Pois meteu este trajeito.

Não podia imaginar Já sabia, já sabes Já estás a parar que isto acontece O governo não tinha sido eleito assim há tanto tempo E de repente cai e é isso E de repente eu vejo-me a fazer rádio todas as manhãs E televisão todas as noites É uma coisa realmente absurda E a gente, tanto num sítio como no outro Lá tenho os meus amigos Com quem eu chego lá com o meu textinho Na comercial e fazemos aquilo com...

com os meus amigos com quem eu já fazia edições anteriores e também com o Manuel Cardoso, que agora também encontrei lá. E aqui na SIC, quando a gente tinha de vir fazer o programa, também estava acompanhado. Ou seja, é uma floresta escura, mas alguém me está a dar a mão. Estou de mão dada com alguém, é mais fácil. E alguém te deu a mão neste processo do stand-up? Neste não. Neste é um em que não estás de mão dada com ninguém. Estás de facto sozinho. Essa solidão, esse desamparo.

É bastante assustador, pá Isso não nego E confirmas que aí tu usaste várias vezes A metáfora do bicho de mil Cabeças Confirmaste isso no Porto Eu confirmo isso em todo lado Eu acho que sim Que o público é um bicho de x cabeças É a lotação da sala Isso fica muito claro Por exemplo, quando a gente está no campo pequeno Ainda no outro dia estava a atuar no campo pequeno Uma coisa de Essa parte de

Quer dizer, privada, corporativa Exatamente E aquilo é giro no campo pequeno porque os bastidores São os bastidores da tourada É o sítio onde os forcados estão antes de Entrarem para Enfrentar um bicho Que só tem uma cabeça E por isso ali fica muito mais claro Fica muito mais claro essa ideia de que vais sair Para enfrentar um bicho E que o bicho tem aquelas cabeças todas Mas é engraçado porque de facto O que é isso?

O público, as plateias, uma plateia, é uma espécie de... é uma entidade orgânica. É uma, mas não há duas iguais. É preciso controlá-las de uma maneira às vezes diferente. Às vezes as coisas ficam bem...

desde o início parece depois uma bola de neve a cair e imparável outras vezes é mais difícil é preciso por uma razão qualquer houve qualquer coisa na nossa relação que emperrou e é preciso olhar aquilo voltar a ganhar o domínio daquilo há outra coisa que aproxima as plateias de um bicho

Que é, eu acho que instintivamente a plateia cheira com os bichos. Se tu tens... Cagufa. Cagufa, se tens confiança. Que cheira é que achas que a plateia sentiu quando entraste em palco no Porto? Pá, eu estou muito habituado. Por causa da minha vida.

Fingir que está tudo sob controle Estou muito habituado a isso Porque, por exemplo, ninguém sabe Que todos os domingos Todos os domingos Os meus intestinos não funcionam Estamos a saber agora? Normalmente, todos

Porque eu sei que vou ter que fazer aquilo à noite E devo dizer-te que Vários dos meus colegas têm a mesma A ideia de A Mariana Cabral lembra-me também de falar disso A ideia de antecipar esse momento em que Hoje à noite vai ter que ser Vou me empurrar ali para dentro e eu vou

Mas estou habituado a isso Faço isso todos os domingos Havia o acrescente Não só mais público É uma sala muito maior Do que o auditório Onde gravas aqui aos domingos na SIC E uma experiência diferente porque É um espetáculo de uma hora Sim, sim, é preciso Não tens as VTs a entrar Não tenho esse apoio E também não tenho teleponto Tenho uns tópicos Escritos em umas folhaspatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpat

No outro dia tiraram-me uma fotografia Lá no Porto justamente E a Bumba Mandou-me essa fotografia E ampliou E vêm-se as minhas folhinhas no chão São as amarelas não? Não, não, não, são as folhas brancas Escritas lá com os tópicos E ela Fartou-se de fazer pouco disso Porque nem

Porque, enfim, ela usa, sei lá, meios mais tecnologicamente avançados do que coisas escritas numa folha. Mas eu não confio na tecnologia. Mas que cheiro é que achas então que a plateia sentiu? Algum receio? Confiança? Não, eu acho que a plateia sente... Eu acho que a plateia, apesar de... Acho que eu consigo ludibriar a plateia nesse sentido, no sentido em que estou muito habituado a fingir que sei fazer aquilo.

Quando foi divulgado que tu ias apresentar este espetáculo, eu escrevi na altura para a newsletter que faço aqui para o Expresso que iam existir alguns desafios e vou citar-me de forma muito pertenciosa. Cita-te, aposto que são coisas... Mas não, pelo contrário, eu dizia, um espetáculo de stand-up comedy é por norma apresentado depois de vários meses a testar e limar piadas. A partir de agora, o convidado de surpresa da nossa noite de comédia preferida pode muito bem ser Ricardo Araújo Pereira.

Além de ter ficado claro que eu não sou muito bom a adivinhar o futuro, porque acho que pelo que percebi isso não... Aconteceu, foste a uma noite do Guilherme Fonseca, do Sol Dão, mas aqui referia mais a noites de comédia a bares, não é? Sim. Eu queria perceber porquê que não seguiste necessariamente esse caminho? Por várias razões. Porque, primeiro, eu tenho outras formas de fazer isso. A tua expressão é boa, que é limar. É uma coisa que tanto tem a ver com o texto,

Como tem a ver com o resto, com a maneira como tu o dizes. Se eu experimentar dizer isto de uma maneira mais irada, ou de uma maneira mais calma, ou de uma maneira displicente, isso pode provocar, pode ter um efeito completamente diferente. E sim, essas experiências ajudam a perceber que tipo de coisa é que é mais eficaz, digamos assim.

Mas eu tenho todos os domingos uma plateia de mais ou menos 100 pessoas à frente aqui e eu falo com a plateia antes de o programa começar. Faço aliás questão de estar lá antes para falar com a plateia, antes do programa começar.

Depois testando uns textos. Além disso, tenho, às vezes, há esses eventos corporativos que eu te disse que normalmente decorrem em arenas. Ou porque uma seguradora faz 150 anos, ou porque um banco apresenta... Então andaste a testar testes nas grandes arenas do país, mas em eventos privados. E a questão é a seguinte, eu acho que isso é mais próximo do resultado final. Ou seja, isso produz um resultado mais próximo do que eu pretendo.

do que um comedy club. Porquê? Pela dimensão do espaço? Não só pela dimensão, mas também pela energia do sítio. Ir a um comedy club, onde estão, vamos dizer, numa noite até a ser razoável, com 50 pessoas. E há um telintar de copos, as pessoas, algumas estão de lado para o palco.

Aceita-se que estejam a conversar. Há um determinado tipo de energia na sala e também da tua parte, que tu tens de ter para dominar esse tipo de espaço, que é muito longínquo daquele que é requerido, por exemplo, para fazer uma arena. E, portanto, há coisas, e eu já tenho, por acaso, visto isso acontecer, há coisas que resultam otimamente num comedy club.

que têm até mais gorduras, digamos assim. São mais conversadas. E isso resulta num comedy club, porque o ambiente é esse. Mas depois dificilmente resulta numa arena onde está tudo calado. Não há nenhuma outra distração. As pessoas estão todas viradas para ti. E esse é o único foco de atenção daquilo. Eu tenho visto, por exemplo, no outro dia estava a ver umas pessoas que estavam habituadas a atuar em comedy clubs e foram fazer stand-up à televisão.

E o resultado foi trágico. Eu estava em casa a sofrer porque eu estava a perceber o que estava a acontecer. Que era a atitude de comedy club não funciona naquele sítio que não é um comedy club.

seja o público que estava na televisão a vê-los não é outra coisa mas não achas que por exemplo uma piada que resulte num ambiente que às vezes um comedy club como estás a dizer alguém está a conversar ao mesmo tempo ou um copo cai ou o que seja, uma piada que resulta aí é assim, isto nunca é uma coisa perfeitamente científica mas uma piada que resulta aí a probabilidade depois de resultar se calhar numa arena é

Alta, diria. Sim, eu acho que sim. Ou nem é só isso, é que funciona várias vezes em vários complexos. Exato, não há dúvida. A probabilidade depois de resultar numa arena é alta, não é? É, acho que sim, mas...

Há um problema de... O problema que eu identifiquei persiste, que é um problema de atitude. E às vezes até... Às vezes, uma determinada atitude no Comedy Club faz com que um texto... E neste caso já nem sequer estou a referir-me a uma piada. Esta setup e esta punchline funcionaram várias vezes em vários sítios.

Estou a referir-me a, digamos, uma espécie de envolvimento com o público do Comedy Club que essa energia proporciona e que é irreprodutível no outro sítio. Eu acho que há um fator que, não sei se isto... Além de outras coisas que têm a ver comigo próprio. Era isso que eu ia dizer. Tu vais a um Comedy Club e as pessoas sabem que és tu que estás a atuar num Comedy Club.

um jovem que esteja a começar isso não acontece, ou seja, não há também já uma expectativa antes de sequer começar a dizer o teu texto e eu não digo que isso seja para mim uma vantagem, eu não sei se é uma vantagem ou uma desvantagem pois exatamente, pode ser uma desvantagem eu não sei se é uma vantagem ou uma desvantagem o que eu sei é que isso condiciona aquilo que eu vou lá fazer

Porque também podem rir mais Por já A partir de estarem convencidos Isso pode acontecer Ou pode ser repelente No sentido em que eu não estou habituado a ver Este tipo de Animal Neste jardim geológico

Mas sentiste, por exemplo, quando foste a essa noite de 100 soldos no sol do Guilherme Fonseca, que ele anda em digressão com o amigável, conseguiste tirar conclusões? Mais do que quando foste, por exemplo, ao Campo Pequeno em eventos corporativos? Ou não ajudou mais esse ambiente? Repara que, perceba o que é que estás a dizer, que é, sendo um ambiente mais... sendo 100 pessoas, que acho que era o que havia em 100 soldos, mhm.

não sei se chegava a 100 aliás isso é muito diferente atuar para 100 pessoas em 100 soldos do que atuar para sei lá, 4 mil funcionários de uma empresa no campo pequeno não há dúvida

Quer dizer, deu-me indicações que, repara, para mim as indicações nunca são definitivas. Eu tenho uma tendência de personalidade que é não festejar quando as coisas correm bem.

e portanto não ficar triste quando corre a mão não, aí é que está é que isso seria o ótimo isso seria o ótimo é um critério, não é? não me faz nada como no poema do Kipling nem o triunfo, nem o fracasso eu trato esses dois impostores da mesma maneira não é verdade, no meu caso

hipotéticas vitórias eu não celebro hipotéticas derrotas eu sei que eu sei que me vão deixar destruído então houve algum receio também de expor de expor desse ambiente sim com certeza, mas devo dizer que em sem soldos aquilo foi ótimo, quer dizer o público também estás a ver, essa é outra questão de repente o público é muito generoso porque por exemplo o Guilherme disse o Guilherme foi lá fazer o seu espetáculo e então os números de abertura eram o Guilherme foi lá

João Miguel Costa, o jovem humorista João Miguel Costa e o idoso humorista eu e o João Miguel Costa, eu pergunto-lhe, queres ir primeiro ou queres que eu vá primeiro? e o João Miguel disse, não, eu vou primeiro e quando o João Miguel diz e agora senhoras e senhores, Ricardo Arousa Pereira o Guilherme diz até tu entrares no palco as pessoas pensavam que ele estava a gozar pensavam que era gozo

Resultado Essa ideia de Olha que surpresa Estás a perceber? Esse fascínio Eu diria que é um fascínio É surpresa É como chegares a casa e a tua Tens uma surpresa A tua namorada está na cama com um senhor É um fascínio É surpreendente E portanto eu acho que é isso Olha, estava à espera disto Essa ideia de Essa ideia de

Isso condiciona o que eu estou a dizer Mas isso também pode acontecer nas arenas, atenção Pois pode, e mais uma vez é isso Eu não fiquei, quando Nós fomos para o Porto Repara, a minha sexta-feira Eu vou dizer o fim de semana todo Eu levantei-me sexta-feira, acordei Às 5 da manhã, não porque eu tivesse posto o despertador Mas porque pelos vistos Estava um bocadinho ansioso

Luntei mais 5 da manhã e pensei Bem, aproveito e vou escrever a crónica da Folha de São Paulo Já agora fica despachado isso Não tenho nada para fazer, é interessante E enviei para a Folha de São Paulo Depois, às 11, vim aqui à SIC gravar o Governo Sombra E depois fui apanhar o comboio Optei por ir de comboio para o Porto Por alguma razão?

Eu gosto do comboio Eu também gosto É um meio de transporte que eu aprecio E dá para estar sossegado Dá para escrever, para estar a pensar na vida E nas coisas que vou ter que dizer Depois faço um espetáculo no Porto Na sexta-feira, faço outro no sábado E domingo de manhã Volto para Lisboa Aí já não no comboio, mas num furgão Para vir escrever E apresentar o Essa questão

Isto é a usar com quem trabalha de domingo E algures aí nesse fim de semana Calculo que depois também Tenham que estar atentos De repente acontecesse alguma coisa E ter que se mudar qualquer coisa E portanto sim, isso foi o fim de semana E isso é uma coisa

É bizarro, é uma coisa bizarra Uma completa estupidez Eu acho que a Joaninha está Acho que a Joaninha tirou assim umas semiférias Da Renascença Para fazer, bem, mas ela meteu-se numa Empreitada É uma coisa inacreditável Ela está a fazer

Está a percorrer, isto é o país inteiro Eu acho que não vai haver uma pessoa Em Portugal Que não veja Depois temos que confirmar com ela quantos bilhetes Ela dizia que era 85 mil Até há umas semanas quando estava aqui A sério, estavam 85 mil vendidos? Pá, vê bem É realmente, é uma bruta

Mas queria-te ainda insistir sobre uma coisa nesta ideia da importância dos testes. Há umas semanas o Chris Rock escreveu sobre a Nikki Glaser para a revista Time e ele dizia e ele elogiava a Nikki Glaser dizendo que ela tem a decência para ter medo. Não achas que faz parte do contrato do stand-up chameleon?

Ter essa decência de agora vamos pôr aqui a um sítio em que as condições não são perfeitas. Não, certo. Gostavas de alguma forma, também estás, como dissemos, o facto de seres tu também condiciona mais a ideia dos testes. Mas gostavas de ter tido mais a experiência de se calhar ter mais tempo para testar, mais ir a bares. Oh Gustavo, se ter medo é uma coisa decente.

Eu sou das pessoas mais decentes deste país E eu tive Mas ele diz isso por oposição Às pessoas que ele acha que não se expõem ao medo Sim, que não se expõem ao medo Mas eu estou sempre exposto, repara E a questão é essa Eu fiz tudo A questão é a seguinte De facto Eu não fui a Comedy Clubs

Mas eu estive perante plateias. Estive perante plateias semanalmente aqui e com alguma frequência nos outros sítios de que te fui falando. Eu não tenho a certeza, apesar de as coisas estarem muito diferentes, a gente ainda não tem o circuito de comedy clubs dos Estados Unidos. Não é a mesma coisa. Isso nunca teremos. Mas repara, não é sequer próximo. Sim, sim. Não é a mesma coisa. E portanto, quer dizer...

O André de Freitas que esteve aqui no último episódio e que está a viver em Nova Iorque diz que às vezes atua seis vezes num dia Exato E há plateias a rodar e ele atua seis vezes num dia até porque não atua sempre no mesmo sítio ele vai ser MC num sítio Vai passeando pela cidade Entre sessões Sim, no Brasil por exemplo, quando eu

estive a atuar no Brasil, os meus companheiros, eu estava lá naquele festival, e eu entrava, depois entrava outro, e esse outro que tinha acabado de entrar ali, depois dizia, agora, bom, até, olha, é um prazer, vou a Curitiba agora, ou vou aqui a outra coisa em São Paulo.

Que é uma cidade com milhões de habitantes Sim, isso Tenho dúvidas de que Se eu tivesse Ido fazer Esse tipo de coisa Que o resultado Tivesse sido especialmente proveitoso Mas eu também não digo que não é isso Às vezes vou a comedy clubs E não sei o que E vejo aquela Vejo aquele Essa criança

A mesa lá dos comediantes Aquele frio na barriga antes de entrar Ver quem é que está hoje aqui A comer umas asinhas de frango Isso também tem o seu encanto Não digo que não tenha O que eu digo é que Tenho dúvidas De que o resultado No meu caso concreto

Que o resultado disso seja melhor, mais proveitoso para mim do que eu fazer o texto à frente desta plateia, à frente de plateias nesses outros eventos e, sei lá, sem soldos.

Tu disseste no podcast do público o que fazer quando tudo arde que o guião estava a ser dolorosamente composto sempre quando é que acabaste de escrever este guião dolorosamente composto? Não sei se já acabei não sei se já acabei o que apresentaste no Porto o que eu apresentei no Porto eu acho que acabei eu acho que o que eu apresentei no Porto acabei um segundo antes de entrar no palco no sentido em que eu acho que o que eu apresentei no Porto

No sentido em que as coisas estavam lá Os tópicos estão lá E eu sei que com aqueles tópicos eu consigo Recuperar o texto Da maneira certa Mas à entrada Ocorre-me o seguinte Ah, pera Naquele momento específico É melhor dizer assim em vez de dizer De outra maneira E isso aconteceu Isso vai acontecer continuamente Aliás, o plano é Como eu agora vou Essapatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpat

Lisboa 5 e 6 de junho Lisboa 5 e 6 de ilhas Vou fazer ilhas durante junho E depois em outubro, acho eu Vai voltar E vou andar Ainda não está anunciado, mas estás aqui Ah, não está, acho que não Mas acho que é isso, acho que está previsto isso E vou andar pelo país e se calhar estrangeiro E tal Talvez, acho que sim

E eu sei que isso vai ser que aquilo vai ser uma coisa orgânica, que há partes que vão que eu percebi agora que aquilo é melhor dito desta maneira Ou até no outro dia estava a dormir, acordei com uma ideia para acrescentar a um

a uma coisa específica lá isso mas o ato de escrever, não sei se escreveste isto à mão se foste... escrevi de todas as maneiras que tu possas imaginar todas, rabiscada em guardanapos, depois passado para outro sítio, depois computador, outras vezes eu tenho várias rotinas de escrita basicamente é a minha vida, a minha vida é fazer isso e portanto, entre as canetas as máquinas de escrever e aí

uma coisa que eu comprei no outro dia que é realmente absurda é uma espécie de são uns gajos que prometem o seguinte são uns gajos que prometem o seguinte a vida contemporânea é cheia de distrações você não gostaria de um dispositivo que lhe permitisse escrever ele não tem acesso a google nem à internet mas e aí

tem Wi-Fi. Ele tem Wi-Fi, ou seja, o texto que a gente escreve lá é uma espécie de máquina de escrever portátil, elétrica, que não precisa estar ligada à corrente, porque tem bateria e não sei o quê, e o texto que tu escreves lá está numa nuvem que depois tu entras no teu computador...

normal e ficou lá guardado e está lá guardado é fisicamente é uma máquina de escrever parece uma máquina de escrever ainda por cima aquilo tem uma a que eu comprei os gajos fizeram, aquilo é de propósito percebes, aquilo tem uma coisa do

Tem um protocolo com a fundação Hemingway E então diz lá Hemingway E tem umas Remete para o Hemingway Para uma pessoa ficar toda contente Ele usou isto Quando não usou de todo Mas tu perguntas E tens boa razão para perguntar Mas isso porquê que não Limitas a Sei lá, pegas no iPad E tiras o Wi-Fi E depois se quiseres passar o texto Que escreveste lá No Paulo

E é portátil essa máquina? É portátil, é portátil. Também tenho assim uma malinha mesmo com as máquinas de escrever mas é bastante mais leve do que uma máquina de escrever não recomendo porque quer dizer, é uma extravagância porque ainda por cima não é barato e não faz sentido Ou seja, foste escrevendo partes em vários momentos em vários sítios e depois juntaste tudo até porque a rotina de escrita era o que eu te estava a dizer

Inclui Estar a pensar com a mão Estou a pensar, estou a escrever e a pensar Estou a tentar resolver um problema Porquê é que isto estou a tentar pensar Porquê é que isto me interessa Porquê é que este tema De que maneiras é que eu posso olhar para ele E depois há uma coisa na máquina de escrever Que me agrada imenso Que é o barulho E esta mantém o barulho E esta mantém o barulho Embora não seja exatamente o barulho De uma máquina de escrever Essapatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpat

mas tem umas teclas que, sim e o próprio barulho enfim, digamos que talvez seja uma não estás assim muito agradado com a barulha não, não, não, eu até gosto daquilo reconheço que é uma extravagância que é uma extravagância estúpida de comparar aquilo, mas eu gosto daquilo não há dúvida mas a máquina de escrever tem aquela coisa tem um barulho muito mais

Ainda agora mostrei-te uma máquina de escrever na mão Que é Remington É uma fábrica de armas E é curioso que a máquina de escrever Provavelmente sim, por causa do barulho As metáforas mais associadas à máquina de escrever São as de um piano de jazz E de uma metralhadora Ah, sim, sim

E é giro que os fabricantes de máquinas de escrever eram também fabricantes de armas no início. Aquilo é uma máquina, uma coisa bruta, percebes? É uma coisa bruta que se leva para a guerra e não apanha vírus. Os repórteres de guerra andavam com aquilo.

E eu gosto de estar lá A fazer uma espécie de exercício De escrita automática Aqueles exercícios em que tu sentas-te a escrever E dizes, quero falar sobre este tema Deixa ver o que é que sai E vou continuar Se a certa altura pensas assim Olha, acabou-se Acabou-se Espremei-te a pasta de dentes E a bisnaga já não tem mais Escreve, experimenta começar Não tenho mais nada para dizer De repente, já recuperei Essa parte de

O que interessa é não parares aquele movimento No fim Tu fazes isso para escrever? Sim, aquilo é ótimo Imagina que no fim tens 3 páginas de palha Mas Há 2 ou 3 momentos Vais lá depois com uma canetinha vermelha E há 2 ou 3 momentos em que tu dizes Olha o que saiu aqui Isto é capaz de ser o botão de uma ideia Eu consigo construir qualquer coisa à volta disto Isso é o fluxo de pensamento É isso que chama É isso mas é uma coisa, né?

Mas isso serve-me para tudo Quando estou a fazer, sei lá Qualquer ideia, Michord As coisas da comercial Ou as coisas do programa Ou a crónica da Folha de São Paulo A crónica do Expresso Há assim um trabalho prévio Que tem a ver com isso Deixa-me encher aqui três páginas

De apalpar o terreno Mas nessa viagem de comboio Que estavas a dizer que fizeste para o Porto Ias a quê? A montar o puzzle ainda? Não, o puzzle já estava montado Mas eu ia pensar Ia tentar perceber Se conseguia debitar uma hora daquilo

Ah, ias debitando na... Sim, exatamente E a tua memória ajuda, não é? Ajuda um bocado, depois eu fiz uma coisa que é Há algum tempo antes Umas semanas antes, eu comecei a Eu gravo o texto aqui no telefone E depois ouço Ouço-me a dizer O texto grava assim em segmentos Cinco minutos, cinco minutos Essa foi outra coisa Foi outra coisa boa de sem soldos Que foi, a certa altura pensei Vou levar aqui quatro páginas Essa foi outra coisa

E essas quatro páginas renderam a quase um quarto de hora. E portanto eu fiquei muito... Percebeste 15 minutos e já estamos. Exatamente. Ou seja, isso era... Porque repare, normalmente eu tenho aquilo escrito num formato...

que me costuma indicar que cada página leva dois minutos a dizer. Ou seja, quatro páginas serão oito minutos. Aliás, foi isso que me deu aqui. Com os risos. Exato. O dobro. Com os risos, com os à parte, com isso, com a respiração de estares a dizer aquilo perante o público, deu quase 15. Sentes-te um novato no stand-up, apesar de ter feito pela primeira vez do Levanta a Terrer? Sabes o que é que é curioso? É que eu me sinto um novato.

na comédia em geral eu acho que isso é uma coisa é realmente uma coisa que me continua a fascinar eu sinto-me um novato sempre que a gente vem aqui se encontra aqui de manhã ou domingo para escrever o programa

É a estaca zero. É a estaca zero outra vez. Como é que se faz isto? Que tipo de coisa é que temos hoje? Como é que podemos abordá-la? Que tipo de coisa é que podemos pedir ao Luís Rodrigues o Insónias em Caravão para ele desenhar ou para ele fazer um vídeo em que alguma coisa acontece. É a estaca zero todos os dias. É a estaca zero. Não há nenhum dia em que eu diga em que eu diga

Pronto, eu... Ok, eu agora já sei fazer Mas ou seja, se pensarmos no panorama português Um humorista agora quer começar a fazer sátira política À partida tu tens mais experiência do que ele em sátira política É possível Mas do ponto de vista, por exemplo, mesmo comparado com o Guilherme Ou o João Miguel Acosta, que estavas a dizer que atuem sem solto Eles como estão a atuar regularmente stand-up de repente

apesar de já teres começado há 20 e tal anos no Levanta-te e rir parece que as posições invertem-se um bocado é engraçado esse paradoxo eu assinalei logo no início que é sou um principiante e ao mesmo tempo sou das pessoas que fazem isto há mais tempo no país

Eu fui há uns tempos Fiz uma espécie de documentário Áudio da história do Levanta e Terri Certo E na altura desencantei Aqui uma parte de uma atuação tua Que achei curiosa porque Confronta-me com coisas que eu fiz há 25 anos Sim, sim, vais adorar Gostava que comentasses Eu lembro-me Da Gillette ser uma lâmina Bastava uma lâmina, cortava o pelo Uma lâmina cortava o pelo Essa lâmina cortava

Depois apareceu uma gilete com duas lâminas. A primeira levanta o pelo e a segunda é que corta o pelo. E agora já há uma gilete com três lâminas. A primeira levanta o pelo, a segunda corta o pelo. E quando o pelo julga que já não há perigo, vem a terceira e lhe dá mais um golpe.

E eu estou preocupado por isto. Porque é evidente que a barba está a ver os anúncios. E os pelos conversam. Os pelos não são parvos. Ouve lá, viste aquilo? Parece que a primeira só levanta e a segunda... Ah! E os pelos agarram-se mais à cara. E baixo, no segundo, a lâmina passa. E por isso o futuro. É a gilete 257. Com 257 lâminas. A primeira atrai o pelo para um beco escuro. A segunda conta o mandato ao pelo.

A terceira e por aí fora. Bem, nota-se que já falavas de tecnologia na altura. Sim, sim, sobretudo a tecnologia avançada das... Vamos começar pelo embaraço, não é? Que é... Ah, aqui uma voz aflautada deste rapaz, não é? Mas reparaste quando diz o 257 metes a voz grave. Põe a voz de anúncio publicitário. Tenho muitos recursos, Gustavo. Não te esqueças disso.

A voz aflautada deste rapaz Ele está desesperado Sabes que há algumas pausas Como é que mudaste a voz? Não se faz assim Deve ser o tabaco E o bagaço Há ali umas pausas Que não são motivadas Pela gestão do público

São pausas para Umedecer os lábios porque a boca está muito seca Está demasiado seca Não sei se queres ver como é que estavas vestido Vou-te mostrar aqui no computador Pois eu cago na... Eu percebo que haja interesse Não, não, é só para ver o estilo da época É só para datar isto Estou com um ploverzinho Estou com um ploverzinho Estou com coisas piores Pois foi

Sabes que eu acho que... Pá, eu tenho sempre essa... Às vezes as pessoas... Há pessoas que ligam isso, que dizem... Viste como ele... Pá, eu sinceramente acho que ligar ao que um humorista tem vestido é como estar a ler um livro e concentrar-se na gramagem do papel. Olha, olha, olha aqui o papel. É importante. É mesmo tão raro. Sabes que estás a ver o... Sei lá, a Mona Lisa, a Quinta Sinfonia e o Memorial do Convento.

Tens ideia do que é que o Leonardo da Vinci E o Beethoven e o Saramago tinham vestido Quando... E não é muito interessante Não é interessante Mas quer dizer, há aqui Quem é que escolheu o fato então? O fato é ótimo, é uma farda Entregaram-te aquilo e foi... Sabes que os meus alfaiates Os senhores Rosa e Teixeira Ali da Avenida da Liberdade

Eles sim vibram imenso com aquilo Sempre que eu vou lá tirar as medidas Eles dizem, oh pá Ricardo, olha para isto É a maneira como isto descenta No outro dia eles fizeram o Já não sei que fato era E então no outro dia Chego lá e está uma Está uma revista deles aberta E estou lá eu Como se fosse um modelo

Alguém compra isto por causa Ah, espera, se este palhaço está vestido assim Deixa-me então Ir casar também com este Fatinho Eles responderam afirmativamente? Por acaso não sei Por exemplo, luzes e coisas da cena Não te preocupaste com nada Não, isso há luz Quer dizer

Para tornar aquilo... Mas não te preocupaste com isso? É o que eu estou a dizer. Isso são coisas diferentes. A questão é... Porque quando uma pessoa que é o meu caso, pretende ter uma estética minimalista isso é uma estética. É minimalista, mas é uma estética. E portanto eu digo eu quero uma estética minimalista. Eu quero um foco. E quero um jogo de luzes simples atrás.

E é isso, e quero um microfone com o pé e com o fio. Mais nada.

Tu em entrevista ao observador falavas desta ideia Dizias que não tens pose Rejeitas a ideia de que A ausência de pose é pose Mas no entanto Até quando estávamos a conversar no início Até apontavas que naquele gráfico No pie chart De repente esquece-me como é que se diz em português Um gráfico de... Não é tarde? Não é tarde, é um gráfico Não é de barras É de... Circular Nopat

Bem, fica assim Eu usei matemática, devia saber isto Mas no entanto indicavas lá está a vaidade como uma dessas partes Isto não é um ligeiramente contraditório a ideia de não ter pose mas ao mesmo tempo ter alguma vaidade ou se calhar tu sabes que tens vaidade mas não o demonstras através da pose? Não, não, isso é uma boa pergunta e vai no sentido correto que é o de identificar a pose e aí

como realmente uma coisa que pretende convencer, que está ao serviço da vaidade. Ou seja, que pretende convencer os outros de alguma coisa. E essa coisa é artificial. A pós é um artifício. Não é natural. Eu rejeito no sentido em que me parece que...

A disposição humorística rejeita a pose. O que a disposição humorística faz, o que o olhar humorístico faz, é identificar, olha, isso é uma pose, isso é, tu estás a fingir que tu pretendes incutir nas pessoas uma determinada ideia. Acho que a vaidade é mais simples do que isso. É só, olha, tenho um...

Uma ambição De repente sim Quero fechar uma sala Com gente que vai estar a olhar para mim E eu vou lhes dizer coisas Mas após, isso é uma coisa curiosa Porque de facto às vezes Não tem a ver com estética Nem sequer com a forma Por exemplo, tu podes dizer que Quando nós estamos a dizer o texto Por exemplo

Há um aspecto que não tem a ver com o conteúdo. Se a gente supuser que o conteúdo é o texto, há um aspecto formal que tem a ver com a maneira como tu o dizes. E isso tem um espectro muito alargado, no sentido em que, por exemplo, o Stephen Wright dizia daquela maneira e o Robin Williams dizia de outra maneira completamente diferente.

O Chris Rock diz o texto aos gritos Ele próprio diz ao Seinfeld Eu não era capaz de dizer como tu Tu tens muita confiança no teu texto Por isso é que o dizes em voz baixa Eu preciso de estar a dizer o meu texto aos gritos Nenhuma dessas maneiras é melhor do que outra É só uma forma

de tornar eficaz para o intérprete aquilo que ele está a dizer. E a forma normalmente afeiçoa-se, digamos, à pessoa. Outra coisa diferente é a estética, que era aquilo que eu estava a dizer. De facto, uma estética minimalista é uma estética. Agora, a ausência de pós não é pós. Isso é a mesma coisa que dizer tu bebes o café com açúcar. Não. Ah, mas a ausência de açúcar também é um açúcar. Não é, filho. Não é, não.

Ou seja, a pose é de facto Uma máscara Artificial Na qual eu não tenho interesse Até porque acho que faz parte Do meu trabalho Apontar para Poses Mas tu sentes que há muitos humoristas sem pose Até estou a falar no espectro internacional Sim É difícil apontar Cada vez mais Cada vez há mais humoristas com pose O Dave Chappelle tem uma pose Essapatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpatpat

ou isso é estética eu acho que é pose não, eu não diria que é estética mas também diria que podemos admitir que sim por exemplo, o Mark Norman tem uma pose o Nate Bargatze tem uma pose o Neil Brennan tem uma pose

Não sei bem, mesmo o Bill Burr Não vejo que ele tenha uma pose Não vejo que ele tenha pose Eu percebo o que tu dizes, por exemplo É interessante tu dizer isso do Dave Chappelle Que é, ele às vezes está a fumar Olha para este style Eu tenho ficado Eu não sei se fiz o último especial do Dave Chappelle Eu acho que ele de repente desistiu Quer dizer, ele está Isso é aquilo que foi ao vivo, não é?

Eu acho que ainda não vi esse Sim, este último Eu disse que tinha nos anteriores Ah, poxa, neste é uma coisa Mas ouvi uma entrevista dele recente Eu odiei aquilo A NPR que ele já tinha ali Algumas ideias diferentes Sobre aquelas polémicas que tinha existido Com ele sobre as piadas Que tinha feito sobre pessoas trans E ir aos

à Arábia Saudita a justificar-se sim, ele neste momento está feito um pregador é uma espécie, este último especial dele começa com uma frase digamos, aquelas filosofias de plástico que é preferida pela mãe dele que lhe diz, a certa altura diz-lhe filho, tu és um cordeiro mas para seres um cordeiro tu precisas de ser um leão para depois então poderes ser um cordeiro, por amor de Deus e ele faz daquilo uma coisa e depois e depois

Repara, esse especial, em que ele, para aí, a meio, ele diz bom, vou então terminar. E eu, o quê? Já. E ele começa com uma história, pá, que pode até ser interessante do ponto de vista histórico, em que ele tenta justificar que há um pugilista negro que fez qualquer coisa bastante importante pelos direitos civis americanos.

E de repente o Stevie Wonder entra nisso E a música Happy Birthday to You É sobre o aniversário Do Martin Luther King E faz parte da luta para tornar O aniversário do Martin Luther King Um freado nacional E a maneira como isso é importante E de repente aquilo é uma TED Talk Eu não estou a dizer que sou um purista O que eu estou a dizer é que Há várias maneiras de fazer comédia Há várias maneiras de fazer comédia Há várias maneiras de fazer comédia Há várias maneiras de fazer comédia Há várias maneiras de fazer comédia Há várias maneiras de fazer comédia Há várias maneiras de fazer comédia Há várias maneiras de fazer comédia Há várias maneiras de fazer comédia Há várias maneiras de fazer comédia Há várias maneiras de fazer comédia

Eu agradeço é que seja comédia. Ou seja, não é um comício. Não é uma TED Talk. Não é uma sessão de psicanalista. É comédia. E há largos momentos em que me parece que ele desistiu. Não está a tentar fazer isso. Mas toda a carreira de De Chapelle, só para terminar este assunto, também tem a ideia da pose referente a ele ter saído da...

Exato De Comedy Central Abandonou milhões E o próprio regresso Eu regressei agora Eu tolerei isso durante bastante tempo Mas o meio americano também tem essa tendência Para criar narrativas à volta de tudo E sobretudo para a foleirice Eles têm uma inclinação Para a foleirice E para o piroso

que normalmente se verifica nisso, em filosofia de plástico, em apelos à emoção, no sentido falacioso da expressão apelos à emoção, do sentimentalismo, que é uma coisa que me deixa indisposto. Ricardo.

Fica por aqui a nossa primeira parte, vamos a meio da conversa. Na próxima semana vamos falar ainda sobre este tema da pose, sobre os céticos e os líricos no humor, sobre o caso que levou o jornal satírico The Onion a subverter uma plataforma americana de teorias da conspiração e tentamos perceber se faz falta os deputados utilizarem mais humor no parlamento.

Podem seguir a digressão do Ricardo no Instagram em verificando se você é humano ou humor à primeira vista em humoràprimeravista.podcast com enxertos em vídeo do episódio. As fotografias do episódio são de Matilde Fieschi, a fotografia de capa é de José Fernandes com design de Tiago Pereira Santos. Um agradecimento especial ao Tiago Filipe pela voz do genérico e ao Rui Mirama pela ajuda. A coordenação é de Joana Beleza e direção de João Vieira Pereira.

Eu sou Gustavo Carvalho, estou no Instagram e TikTok em Gustavo Rito Carvalho, quinzenalmente, à sexta-feira, escrevo sobre o que se anda a passar no mundo da comédia, na newsletter Humor à Primeira Vista.

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