Sobrinho Simões: “Não gosto da palavra excelência. Prefiro a competência”
Patologista excelente, especialista mundial em cancro da tiróide, professor, conversador vivo e criativo, o portuense Manuel Sobrinho Simões vive para “fazer a diferença.” Não tem feito outra coisa.
See omnystudio.com/listener for privacy information.
- Principais realizações de Sobrinho SimõesIPATIMUP · Prêmio de patologista mais influente do mundo (2015) · Escola Europeia de Patologia · Atividade na Europa de Leste e América Latina · I3S
- Desafios de Portugal na ciência e medicinaParalisação do desenvolvimento após 2000 · Aumento da desigualdade · Dificuldade em colaborar e planificar · Ausência de inovações sociais · Falta de sentido de comunidade
- Formação e mentoria de Sobrinho SimõesProfessor Daniel Serrão · Influência do pai e avôs · Anatomia patológica como vocação · Valor das perguntas
- O papel do patologistaEvolução da patologia · Patologia intraoperatória e citologia · Alterações genéticas e tratamento · Importância do prognóstico e seleção terapêutica · Ensino aos médicos
- Influência Familiar e SocialTransmissão de testemunhos familiares · Influência pré-natal · Transmissão de cultura e estilo de vida · Mudança de comportamento e biologia
- Importância da ciênciaAprender fazendo e errando · O papel do professor · Arriscar e inovar · Formação de novas gerações de patologistas
- Trabalho e envelhecimentoDedicação ao trabalho · Longevidade biológica vs. cronológica · Adaptação às limitações da idade · Atividade contínua após a reforma
- Competência vs. ExcelênciaUso de superlativos em Portugal · Valor da competência
- Prevenção e futuro da medicinaPrevenção primária e secundária · Seguimento de lesões incipientes · Inteligência artificial na medicina · Centro Internacional de Investigação em Câncer na Madeira
Música Música Música Melhor é difícil É um podcast em que Maria João Avilejo entrevista portugueses que são exemplos de excelência São os melhores nas suas áreas e contam como chegaram ao todo Música
Chama-se Manuel Sobrinho Simões, mas também podia chamar-se o patologista genial. Especialista mundial em câncer da tiroide, inventor do hepatimup, o português Sobrinho Simões pratica diariamente a excelência na universidade, na medicina, na ciência.
com gênio, invenção, descobertas, estudo e trabalho infinitos. E tem tantos prémios que eu não consegui contá-los. Em resumo, melhor é difícil. Bom dia, Manel Sobrinho Simões. Exagerei. Exagerou muito. Não faz mal. Eu sei. Eu assumo a responsabilidade. Eu sou, porque eu disse logo.
Maria João, eu acho que a palavra excelência é uma palavra péssima em Portugal, porque nós usamos superlativos, estamos a exagerar nos superlativos, e tiramos a verdade, e portanto, é verdade que eu, por exemplo, gosto muito de competência, em vez de excelência, quer dizer, porque para mim tem muito a ver com alguma coisa que tem realidade.
E a competência porque passa por perceber as coisas e fazer bem as coisas. Muito bem, então eu passarei a dizer competência. Olha, eu queria recordar que vem de uma família de filhos únicos, todos médicos, e sobretudo que o Manoel Sobrinho Simões acredita na força da passagem dos testemunhos familiares entre gerações. É verdade.
É muito verdade, isso é verdadeíssimo. E é verdade porque cada vez mais, de resto, é curioso, nós antigamente tínhamos a ideia de que as pessoas eram tudo o que eram os pais. E é verdade porque nós estávamos a falar de, em Portugal, por exemplo, nós estávamos a falar de 5%, ou no máximo 10% de visíveis. Havia 90% de pessoas que eram invisíveis. E quando a Maria João faz essa descrição, apesar de tudo, faz a descrição das famílias da burguesia.
Sim, claro. Portanto, é verdade que Portugal tinha...
90% invisíveis. Dentro dos visíveis, as famílias. Portanto, as famílias é indiscutível. Outra coisa que a Maria João falou e que é importantíssima é a ideia do filho único também. Agora, o filho único, por exemplo, no meu caso, eu é pior porque eu tenho três irmãs, mas eu sou o mais velho e o único rapaz. O meu pai, o meu avô e o meu bisavô é que eram todos filhos únicos.
Há essa ideia. Agora, o que está a dizer, o que eu acho que vale a pena, porque eu adoro estar a conversar consigo, porque eu acho que há uma evolução notável do que a gente aprende através da biologia. Quer dizer, quando a gente diz as crianças aprendem muito nos primeiros dias de vida, é melhor ainda. Já sabemos que as gerações já são influenciadas pelo pré-natal.
E é biológico, quer dizer, nós transmitimos de facto, através das gerações, nós transmitimos muitas coisas, transmitimos o género, já sabíamos, o que nós não sabíamos é que nós transmitimos também cultura, estilo de vida, ternura, civilização, sentimento, e isso também tem valor e tem repercussão biológica, isto é.
Quando a grávida tem a criança e a criança ouve, por exemplo, neste caso é um feto. Sim. É melhor no feto do que no embrião. A gente já sabe é no feto. E no feto, e ela ouve música, ele modifica.
E nós sabemos que ele fica diferente. E nós sabemos isso. E, portanto, essa coisa que a gente diz que as pessoas passam de geração em geração, é verdade que depois passa, ainda mais importante, passa muito do que é, no fundo, o estilo de vida. O exemplo.
Um exemplo que é extraordinário A atitude e o comportamento Tudo isso, mas isso também já vem de antes E outra coisa que também Para mim é muito importante É que as pessoas têm que perceber que esta coisa De mudar o comportamento Também é biológico
isto é, a gente muda os neurónios e as células radiais que estão lá percebem o que quer dizer? percebe, percebe não é elétrico não, não, exatamente sim, exatamente olha, eu também queria ainda recordar que foi um aluno brilhantíssimo o melhor aluno do Liceu Alexandre Colano que é sobre
A professora primária nunca mais a esqueceu, porque ela despertou em si, mas sobretudo que um dia o grande professor Daniel Serrão o convidou para ser assistente em anatomia patológica, que o ensinou, o escolheu e o perfilhou.
Pergunto, nós também somos o que outros fizeram por nós antes de nós? Era um pouco também o que estava a dizer, mas agora eu estava a falar para lá das famílias. Não, para lá das famílias e para lá ainda a idade, isto é, até quando é que nós continuamos a ser marcados pela nossa experiência de aprendizagem? Eu, por exemplo, é verdade, falou nisso, eu adorava a Lola Maria da Graça. Claro que era a professora primária.
Ela foi tão boa, e a nossa família achava tão boa, que uma das minhas irmãs foi depois, ela foi explicadora de uma das minhas irmãs, porque ela era estupenda. Porque era estupenda. Mas quem teve aí a parte de leão, enfim, o grande impulsionador, o que o descobriu, a competência, para não dizer excelência, que Sobrinho Simões viria a adquirir, foi o Daniel Serrão. Foi.
Foi indiscutível, mas também, repare, é porque é mais próximo do objetivo final. Sim. Isto é, eu tive uma influência de professor no liceu extraordinária. Atenção, mas não tenho... Ela tem que pegar essa força mesmo assim para dar pressa. As pessoas têm que saber. Não, eu estava a fazer sinal. Repare-se. Ouça-me uma coisa, senão não fazemos isso tempos de menos.
Não, não vamos fazer tempo de menos, não. E é muito importante, os professores têm toda a razão. Os professores no meio, quer dizer, eu acredito, antes de mais nada, eu acredito na aprendizagem e na educação. E eu tive professores no liceu também extraordinários. E tive professores na faculdade muito bons, e é verdade que o melhor foi o professor Daniel Serrão.
Que era uma pessoa extraordinária. Era fora de série. E teve uma coisa extraordinária, porque eu aprendi imenso com ele e ele deixou-me ser o que eu quisesse ser. E agora voltamos de resto àquela nossa sua primeira pergunta. Por exemplo, o professor Serrão era de direita e eu era vagamente esquerdista. Não teve importância nenhuma. Nenhuma fui contratado por ele. Com certeza. Com certeza.
E atenção, ele achava graça e eu também achava porque éramos elitistas. Não é incompatível. Não é incompatível de forma nenhuma. E ele estimulou, como eu sempre, a ideia de que nós temos que ir o mais longe possível. Isso é o que se distingue. Isso é o que distingue a competência. É indiscutível. E isto, repare, é para si e para os outros.
E nesse aspecto, a anatomia patológica foi para mim uma descoberta e foi porque ele foi o meu professor que eu quis ir para a anatomia patológica, embora eu também tenha a certeza, se eu agora começar a pensar quem é que me influenciou mais, claro que foi o meu pai, o meu pai era um tipo que fazia muitas perguntas e vamos discutir isso depois consigo, porque é o valor das perguntas.
Mas eu fui com ele, com o meu pai, foi com o professor Sá, um indiscutível, e foi com o meu avô do Bom Barral e com o meu avô da Aroca. Porque eram... Eram dois avós que eu sei que o marcaram muito, muito, muito. Numa altura em que eu não sabia querer ser médico clínico e depois até não quis ser.
Mas eu queria ser médico, no sentido de saber estudar as doenças, etc. E quando isto se juntou com o professor Serrão, eu percebi que a antepatológica era a resposta para as minhas coisas. Ah, claro. A procura da... Para quem queria ser médico, quem queria fazer perguntas, estudar doenças, mas não ser clínico. Mas não ser clínico. E, portanto, fez todo o sentido.
Tenho aqui uma grande curiosidade, que era para a excelência, mas eu agora vou ser obediente e disciplinada e dizer competência, ou seja, como é que se aprende o caminho para fazer a diferença? Como é que se ensina a ter um lugar cativo na ciência e na medicina internacionais, como é o seu caso? Como é que se faz este caminho? Como é que se faz? O meu caso foi muito simples, foi fazendo sempre...
Pensava, é verdade, eu pensei sempre. E apesar de tudo é uma coisa que agora é muito difícil, porque as pessoas não têm tempo para pensar. Eu tinha tempo para pensar. E adorava perguntar, porque eu queria saber. E não tinha vergonha de fazer perguntas estúpidas. Perguntava. E depois eu arrisquei sempre. Isto é, eu gosto de fazer coisas. E aprendi sempre a diferença fazendo coisas, às vezes com erros. E nós aprendemos muito mais com erros eumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumumum
do que com a repetição. E, portanto, quando pergunta como é que eu fiz a diferença, eu fui fazendo, errando e aprendendo. E, portanto, esta noção de que nós temos que experimentar fazendo e temos que avaliar o resultado do que fizemos. E se foi mal...
Foi erro, mas aprendi. E eu, é engraçado, como eu fui sempre professor, que é o que eu adorei ser sempre. Mas já lá vamos. Foi sempre a academia antes da medicina e da ciência. É uma coisa extraordinária. Exatamente. Não, é dos...
enfim, do mundo da medicina, das pessoas mais consideradas, se não a mais considerada em Portugal, mas a academia vem à frente e isso é uma honra tão grande da sua parte. Gostava muito de ser professor, percebe a atenção, porque ser professor é uma responsabilidade extraordinária e é também notável, quer dizer, o que a gente faz sendo professor faz coisas que mais ninguém faz. E portanto eu adorava... O que é que é o que mais ninguém faz? É preparar uma pessoa para a vida. Exatamente. É levá-la pela mão.
Não, é deixar que o outro vá mais longe que nós, que é muito engraçado, quer dizer, e isto é extraordinário, e é verdade que só se faz isto se a gente arriscar. Exatamente. E portanto, a nossa cultura é uma cultura muito conservadora, agora não estou a dizer do ponto de vista político, é conservadora, e às vezes instalada. E instalada, e nós temos que arriscar.
E portanto, voltando à mesma coisa, eu que adorava fazer experiências, eu usei e fazia com os alunos, e tive sempre alunos de muitas idades, porque tinha alunos que eram antes, ainda eram alunos de medicina, mas depois os internos da anatomia patológica, os que estavam a aprender a anatomia patológica.
E eu adorava também fazer isso com eles. E, portanto, eu fiz a diferença fazendo, no fundo, ajudando a fazer gerações de patologistas. Médicos primeiro e depois patologistas. Isso foi, fiz a diferença.
Exatamente, muito bem. Eu gostaria que elegesse mesmo, de forma infelizmente um pouco breve, aquilo que o Manel Sobrinho Simões considera os seus maiores ex-libris. Vou dar um exemplo.
Quando se diz hipatimup ou IC3, IS3, é como dizer o seu nome. E quando se diz câncer da tiroide, tem que se acrescentar que em 2015 o Manuel recebeu um prémio inglês ao ser considerado o mais influente patologista do mundo nesse ano. Eu até estou quase a tremer a dizer isto, porque isto foi verdade. Foi, em 2015. Do mundo. Foi, do mundo. Mas repare, mais influente, não fui o melhor.
Não, mas influente pode ser até mais importante. Não, voltamos à mesma coisa. Agora, os ex-libris. É verdade o que diz, não se identifica comigo. É engraçado que em Portugal nós temos muita tendência para personalizar as instituições. Não é verdade. Ou por outra, infelizmente é verdade e é por isso que a maior parte das instituições desaparecem quando as pessoas desaparecem.
No nosso caso não vai acontecer, vai ver que o IPATIMUP e o ITRESS vai ser porque a gente fez uma instituição. Sólida, profunda, claro. E fizemos, repare, que é impressionante, o número de pessoas que nos ajudaram imenso desde o princípio. Atenção, desde logo também para criar condições, que foi o Mariano Gago e o Alberto Amaral. Exato. Ele era o ministro. Quando estava no governo, criaram essas condições.
condições. E o Alberto Amaral foi o melhor reitor do Porto que nós tivemos e deixou fazer, estimulou que fizéssemos. E nós fizemos o Hipatimup e é verdade como uma instituição. Se eu tiver que pensar, a coisa que eu tenho mais orgulho é de facto fizemos o Hipatimup e continua de grande sucesso. Vamos só dizer Hipatimup Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto. Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto.
A outra coisa que disse, e que também tem muita graça, é porque é que eu fui considerado o mais influente em 2015. Porque eu tive sempre a mania de ligar à Europa, porque Portugal era muito periférico, e, portanto, nós apoiámos muito sempre, no fundo, a Sociedade Europeia de Patologia. E nós fizemos, em 91, a escola...
Deu a Escola Europeia de Patologia Que fizemos em Turim Repare, no tempo de Turim Em 91 Tem graça porque ele Chamava-se Bussolati Chamava-se? Gianni Bussolati E o diretor enganava-se E chamava-lhe Gianni Bussolini Que era um Meu Deus Sim
Que é uma coisa para a Indiana. Sim, para a Indiana, absolutamente. Mas então, nós fizemos isso e ainda existe hoje. E eu, por exemplo, passei a minha vida a fazer escolas nos diferentes países da Europa de Leste. Nós fizemos lá embriões de escolas de patologia lá.
E, portanto, eu passei a vida na República Checa, na Hungria, na Polónia... Estamos a falar de que anos? Entre 1991 e 2010. Ah, pronto, está bem. Eu de 1991 sim, mas até onde? Até 2010, durante 20 anos. Tanto assim, repare que tive uma coisa muito chata, porque nós, quando começámos a fazer isto na Europa de Leste, eram muito pior que nós. E, infelizmente, eu estou todos a passar por nós. Nesta altura, o único que é pior que nós é a Bulgária.
Eu sei, eu sei, eu sei. A terra, a terra, a terra, a terra, a terra, a terra, a terra já está melhor que nós. Eu sei, eu sei. E depois, o que é que nós fizemos? Fizemos uma ligação com a América Latina e com o Norte da África. E eu também fui para a América Latina e também fui para o Norte da África fazer escolas.
ensinar não é isso portanto porque é que quando se fazem a eleição eu ganho essa coisa do básico mas não é provavelmente os americanos, os canadianos e os ocidentais são os da Europa de Leste e os da América Latina seja quem for um prémio britânico do mais influente do ano 2015
Está bem, mas é por isso, repare, de novo, é pela minha atividade de professor. Sim, sim, sim. Ensinar, quer dizer. Mas foram uns ex-libris. Foram, discutimos. As duas coisas. Fizemos o IPATIMU, que é estupendo, continua a ser estupendo. Quantas pessoas trabalham no IPATIMU? Nós agora, repare, nós mesmo dentro do IPATIMU, que está agora articulado no I3S, nós dentro temos 120 pessoas a trabalhar, mas no I3S nesta altura são mais de 1.500. Pois, claro.
E o 3S? É o laboratório associado. Nós éramos três associações privadas sem fins lucrativos.
E juntámos as três para fazer um laboratório associado ao I3S. Exatamente. E nós, e portanto o IPATIMUP continua a trabalhar no I3S e paga uma renda ao I3S. Os nossos investigadores básicos passaram do IPATIMUP para o I3S e nós ficámos com os investigadores clínicos, os investigadores de translação.
Tudo inteligente e bem de crescer. Mas que se liga com a realidade. E com a medicina, quer dizer. E com a utilidade. Porque nós também, eu acho que em Portugal, vamos ter muita dificuldade em manter ciência se ela não estiver ligada à realidade. Com certeza. Aos corpos humanos vivos. Exatamente. Exatamente. É utilidade porque vai ser muito difícil. É muito caro. E nós temos uma tendência muito grande para enquistar. Nós temos um problema. Mas se eu tiver que identificar a minha maior tristeza...
na universidade, na academia, como diz, é pouca ligação da academia com as empresas e com a medicina. E com a medicina, claro. As faculdades de medicina funcionam mal em articulação com os hospitais escolares. Escolares, claro. Ó Manel, vai todos os dias ao hepatimub.
De manhã vou para o São João e à tarde vou para o Ipatimú. Irá todos os dias da sua vida. Sim, portanto eu estou reformado há oito anos e fiz sempre, só tive uma semana na Covid que não fui. Sim, imagino. O meu filho, foi o meu pai que me convençou, o pai não vai, o pai está muito velhinho na Covid. Muito velhinho. Tenho aqui uma pessoa tão nova, tão jovial, tão enérgica. Não, mas foi.
Mas ao fim de uma semana a minha mulher diz Você desaparece daqui Quando eu não aguento aqui o homem E portanto eu voltei A sua maravilhosa mulher Mas agora é só contar Que eu faço Oh Manel vou-lhe só pedir para me contar A seguir temos que fazer aqui uma pequena pausa Mas voltamos já já a seguir
O Renato estava apático. Ele parecia que não estava lá. As testemunhas, as mensagens e os vídeos que ajudaram a polícia a desvendar a forma como Renato se abra assassinou Carlos Castro em Nova Iorque. Até hoje, gostava muito de perceber o que aconteceu. Estes são os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal.
Os Ficheiros do Caso Carlos Castro é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Rezende. Último episódio. O júri chegou a uma decisão. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
Então estava-me a contar que... Estava-me a contar que nós, portanto, eu fui sempre, fiz sempre a mesma vida, que é trabalhar de manhã no hospital, que é na faculdade, que é em conjunto, e à tarde no Epátio Mundo, sempre. E a minha secretária, que trabalha comigo há 43 anos... Fátima? Sim, que trabalha comigo há 43 anos.
Ela também trabalha de manhã comigo no hospital. No hospital e à tarde, no hepatimulo. E eu mantive a minha vida exatamente na mesma. Claro que eu, porque é que eu perdi? Perdi as aulas aos alunos, que eu tenho muita pena, porque eu adorava dar aulas aos alunos de medicina mesmo. Só dou uma aula extraordinária uma vez por ano. Mas continuei a fazer o ensino dos internos. Portanto, as pessoas que estão lá comigo a aprender anatomia patológica.
E, portanto, de manhã no São João faço isso. E faço, por exemplo, como eu sou especialista de cancro da tiroide, quando se faz as altas de todos os doentes que têm diagnósticos de cancro da tiroide ou patologia da tiroide, eu entro com o grupo de endocrinologistas, cirurgiões, etc., que fazem as altas. Portanto, eu mantivo uma atividade exatamente normal. E depois vou de manhã, faço isto, à hora do almoço, com uma sânduice e vou para... Uma sânduice.
Sim, ou então se tiver convidados fazemos, almoçamos na ordem dos médicos que fica na passagem Olha, eu fui uma dessas privilegiadas convidadas até chamam a cantina do Sobrinho Simões Ah, pois é natural que chamem, é natural Mas sempre fiz sempre isso, repare atenção que mudou a minha vida porque eu estou com esta coisa toda mas é verdade que eu tinha muitos vivia muito de consultas de casos difíceis de todo o mundo e oumum
De consultas? Sou de cancro da tiroides. Sim. Benigno ou maligno? Sim. Mas a hipótese fosse cancro. E eu fazia, imagina, eu fazia 250 a 300 casos de todo o mundo de graça, mas que me davam para fazer muita investigação.
Mas 200 ou 300 por ano. Por ano, sim. Portanto, o que dá 50... Repara, são 52 semanas e nós fazíamos 5. Um caso por dia, em média. Sim, sim, sim. Aqueles 365, mas... Eu atualmente, e isto é que tem graça da velhice, provavelmente as pessoas pensam que eu já morri. Eu passei agora dos 250 a 200. Agora já só faço 50 a 100. E, portanto, eu passei a tempo.
menos trabalho no hipatismo para fazer, passei a fazer agora mais atividades de ligação à sociedade. Olha o que estamos aqui a fazer, quer conversar? Já lá vamos, já lá vamos, mas disse aí uma palavra que tão deslocara a seu propósito, eu sei que disse também com uma certa ironia, a velhice, o Manel não tem absolutamente nada a ver
com o velhice, nem olhando para si fisicamente, nem a velocidade do seu raciocínio, a sua memória, a sua inteligência na conversa, isto não são elogios assim de borla, é o que eu acho, não pode dizer a palavra velhice, pode dizer idade se quiser, mas... Não, mas é velhice, percebe? Mas sente-a? Sim, claro, a mobilidade, por exemplo, é uma...
Eu passo, por exemplo, eu continuo Eu também tive um AVC Exatamente, não vou falar nisso nem quero E tenho problema da linguagem E por exemplo eu continuo a fazer palavras cruzadas Repare que eu continuo a fazer palavras Todos os dias palavras cruzadas Eu treinei, de resto a minha mulher irrita-se Porque eu às vezes levo as palavras cruzadas Quando eu vou dormir às duas da manhã E levo a esferográfica Sem esferográfica Porque eu, repare, porquê?
Porque o que a Maria não está a dizer Uma coisa que é verdade, a palavra velhice É verdade
É uma descrição. A longevidade descreve uma coisa que tem anos. É cronológico. Eu tenho 78 anos e tenho. Depois é verdade que a longevidade biológica ou metabólica varia muito de pessoa para pessoa. E é verdade que há pessoas que tiveram a pouca sorte de envelhecer muito rapidamente o rim ou o coração ou o cérebro e há outros que se aguentam melhor. E portanto, isso agora... O Manoel aguenta-se muito melhor. Olha...
Há dias disse-me que, no tal almoço na Ordem dos Médicos, que eu tive o privilégio de ter sido convidada por si lá no Porto, que, ou li, já não me lembro, que um patologista não tem glamour, que está nos bastidores, mas com ou sem glamour, não há diagnóstico sem o patologista.
É verdade, mas se calhar eu devo ter explicado mal. É verdade que durante muitos anos o patologista era o tipo que fazia autópsias. As autópsias, de resto não era por acaso, porque a antropatológica era sempre no primeiro piso e o subsolo, que é onde nós fazíamos as autópsias.
E repare que era uma coisa muito importante porque eram autópsias, isto é, era assim que a gente aprendia como é que a gente era. Sim, como é que a gente era, sim. É autópsia, não é uma decrópsia, não, é autópsia. E nós agora não, como diz, é verdade que nós tínhamos essa ideia que éramos os tipos que sabíamos tudo, mas era tarde demais. A graça que toda a gente diz, o patologista sabe sempre tudo, mas é tarde demais. É tarde demais, claro.
Nós não. Nós agora, eu já faço muitas coisas que são, por exemplo, durante o ato cirúrgico e nós vamos... Ah, exatamente, durante uma, o que se chama uma operação, uma cirurgia, sim. O interoperatório, que nós chamamos de temporário, mas é intraoperatório. Nós fazemos agora imensa citologia, portanto.
São pessoas em que são os patologistas, quando têm um nódulo no pulmão ou na tiroide, fazem uma biópsia. E aí já é um médico ativo, já tem uma ligação muito grande. E, por outro lado ainda, agora passamos a ter muitas alterações genéticas que são muito importantes para o tratamento. E nós também somos nós que passamos a ter a importância daquilo que está a dizer.
É que antigamente, na tal tempo que era pouco importante porque a autópsia, tínhamos um nome, o diagnóstico, tínhamos um nome. Agora as pessoas querem que a gente diga qual é o prognóstico e qual é a seleção terapêutica.
E, portanto, nós... Tuma evolução científica extraordinária. E somos nós que, apesar de tudo, continuamos a fazer o ensino aos médicos. E, portanto, do ponto de vista agora da importância social da patologia, ela cresceu imenso. Não tem tido repercussão económica, porque o cirurgião, ou o gastroenterologista, ou o dermatologista, é muito mais importante do ponto de vista social e ganha muito melhor. Pois, pois claro.
A nossa única limitação É que nós ganhamos pouco Para o trabalhão que temos O trabalhão que tem E a responsabilidade Era isso que eu ia dizer A responsabilidade de afirmar um diagnóstico De dizer é A ou B E dizer o que é que vai acontecer Provavelmente E como é que eu trataria Hoje em dia podemos selecionar A terapia Quantas horas trabalha por dia?
Antigamente trabalhava das 8h30 às 8h30 Sempre, sempre Da manhã 12 horas E portanto eu comia Agora é muito engraçado Eu agora continuo a começar Às 8h15, 8h30 É engraçado que eu às 5h30, 6h Estou de gatas e tenho que ir para casa
Mas vai de gatas para casa Com dossiers Ah sim, claro E o tablet e tudo E a minha mulher era meio reitadíssima com isso Porque gostava que o Manoel parasse um bocadinho Ou lesse uma rádio Não sabe parar
E aí é um defeito grave, que isso é um vício, quer dizer, é aditivo. É aditivo, não é? O trabalho pode ser aditivo, ai percebe tão bem o que está a dizer. E o trabalho para mim é horrível porque eu não sei fazer outra coisa, e portanto eu tenho sempre a trabalhar, estou sempre a trabalhar.
Não vai a um concerto? Não, quer dizer, é raríssimo A um cinema? Não, isso vejo na televisão Vê séries na televisão, por exemplo Permanentemente, até altas horas Então dorme pouco Muito pouco, mas adoro ler É verdade, mas só que eu, por exemplo, agora não consigo ler romances Porque eu já sou muito grande E tenho duas coisas, mas esqueço-me das personagens
Ai, não parece que se esqueça de nada. Não se esqueça de nada. E outra coisa que também é muito chata, e o romance para mim também é mortal. Primeiro, esqueço-me. E depois, para mim, eu leio agora muito mais devagar. Não sei se sente isso, mas eu sinto. Eu antigamente lia aquela coisa em diagonal, mas eu lia e percebia. E agora lê mais devagarinho. Mas também teve... Não tenho dúvida, mas quer dizer... Mas isso também tem a ver com as alterações cognitivas. E, portanto, nós perdemos eficiência.
Não tenho dúvida. Não, com certeza. Porque senão não éramos humanos, quer dizer... E não tínhamos envelhecido. É isso mesmo que eu queria dizer. Mas, portanto, só para dizer que eu levo esse trabalho para casa e faço essas coisas todas em casa, porque adoro fazer. E como já estou calmo, posso fazer melhor. Mas é verdade que eu já não faço à mesma velocidade.
À mesma velocidade. Mas, olha, eu tenho estado aqui, maravilhada e deliciada ao mesmo tempo, a conversar consigo. Não posso deixar de me lembrar que fui, tenho um orgulho enorme nisto. A primeira pessoa que o entrevistou publicamente, há muitos anos, ainda a SIC era encarnascida e não havia SIC notícias. Mas estamos a falar de idade, de envelhecimento, do passar do tempo.
Estou a falar com a mesma, como é que é de explicar, a mesma fluidez. Sim, sim, sim, sim. Eu assumo, eu assumo. Olha, também me disse... E agora fica a saber que eu adorei essa sua entrevista. Que estou. Não, porque eu adoro ser entrevistado para perceber. Percebe, é porque nós só conversamos é que a gente... Sim. E pensar.
Hoje não é de maneira nenhuma por vaidade ou por se pôr em relevo. Não, é que a gente tem o outro tipo que está a pensar também. Pois claro. E pergunta. Claro. E eu adoro isso. Mas é o valor da pergunta, que há pouco falávamos disso. E de resto, agora posso dizer que você apertou-me com o elitismo e tinha sido o João Lobo Antunes que tinha-lhe dito assim. Pergunta ao Manel o elitismo porque ele é um exagerado no elitismo.
Ah, não, mas deixa só eu recordar, nós éramos ambos muito, muito amigos e admiradores do professor João Lavo Antunes, e com quem eu me aconselhei para a entrevista consigo ele dizer, vais falar do elitismo, não te esqueças de falar do elitismo. E falou. Exatamente, e falei. Não, porque nós temos esse problema, e agora criámos esta coisa, meritocracia, como se fosse, mas é tudo muito métrica, é tudo muito funcionário, é tudo muito burocrático.
Não, o problema do elitismo, de facto, é a gente sentir que os outros vão mais longe que nós, quer dizer, o elitismo é, no fundo, puxar para cima, e puxar para cima não tem nada de armar aos cagados.
É pura e simplesmente assim, não, pá, você não percebeu bem, vamos lá ver se vamos melhorar. E eu tive sempre esta ideia na cabeça, quer dizer, o meu pai, de resto, passava a vida, coitado, só dizia porquê, porquê, porquê, portanto, e as minhas irmãs diziam assim, deve ser a pressão.
Não, mas é maravilhoso fazer perguntas. Claro. Eu vivo quase de fazer perguntas. Mas repare que eu, por exemplo, fui muito treinado a fazer o porquê e o como. Não sei se está a ver, o como. O como, sim. Quer dizer, como é que se faz. Porque sou muito, depois, e é por isso que quis ser patologista atrás do microscópio, mas depois sem fazer as coisas. Agora, o para quê é muito interessante porque cada vez mais também temos que responder.
E cada vez é mais difícil, e é por isso que agora com a inteligência artificial, isto tem muita graça, porque o para quê? Se forem coisas que nós já vivemos, isto é, se for agora uma prescrição, coisas que já foram feitas, que já soube, vai-se buscar a informação e traz. Agora nós, o para quê? Quando a gente ainda não sabe prever, nós continuamos sem saber. E para mim, como patologista, é extraordinário, porque nós agora podemos seguir no tempo.
E por exemplo, se agora fica a saber que nós estamos a fazer uma coisa na Madeira, seguir um centro de investigação na Madeira que ajudámos a construir, para quê? Para seguir esses casos, isto é, saber o que é que vai... Não é quando nós temos um caso muito avançado, nós sabemos como é que se trata, quais são as limitações.
temos que saber o que é que aconteceu, o que é muito importante, tudo bem. Mas isto, isso é prescrição, a intensidade artificial resolve. Agora, as pessoas que estão com lesões incipientes, são novas, o que é que a gente vai fazer? Nós não podemos resolver o problema mutilando os órgãos, porque a pessoa tem uma alteração no colo do útero ou no estômago. Claro.
Essa coisa que eu estou a fazer, agora vamos fazer com a maneira, e que por minha vontade a gente fazia em toda a parte, é seguir agora as situações prévias, isto é, nós temos que cada vez mais passar a pensar na prevenção, a prevenção no sentido real, quer dizer...
não fumar, não beber demais, aquelas coisas clássicas da prevenção primária, mas também a prevenção secundária, isto é, o rastreio, o diagnóstico precoce. E aí passamos a ter uma coisa extraordinária, que é, nós estamos a ver uma coisa que se está a desenvolver na pessoa, que é a dona Rosa ou o senhor Simões. O que é que lhe vai acontecer? Está a ver a importância nisto? E isto a patologia vai fazer, porque os tecidos são nossos.
E é por isso de resto que a gente pode decidir quais são as que devem fazer ou não terapias imunitárias. Claro, claro. Isso é o que nós vamos fazer. E isto é o único. E está a fazer na Madeira, já fez no continente, está a fazer na Madeira a convite, evidentemente. Não, não foi fizemos. Fizemos uma associação entre o IPATIMUP, a região da Madeira e a Universidade da Madeira. E fizemos o Centro Internacional de Investigação em Câncer.
e outra coisa. De resto, uma das vezes quando foi lá quando estava com o... Sim, sim, exatamente, quando ia entrevistar o presidente do governo da Madeira o doutor Miguel Albuquerque. Foram dez empresários que nos deram, porque nós temos conseguido arranjar a filantropia.
Mas fora do Porto, onde é que há uma coisa igual a essa que vai nager a Madeira, ou que já nageu? Não sei. Ah, não sei. Não sei. Sei que a São Paulo e o Mô têm uma capacidade muito grande. Não, claro. Mas é muito para tratar. O que nós estamos a fazer é o estudo. O antes. Claro. É o antes. O antes é importantíssimo. Claro, mas dá poucos votos e pouco dinheiro.
Mas devia ser o contrário, tal e qual. Eu sei, mas o que dá votos e dinheiro é doença. Que horror que me está a dizer, claro. Não, eu percebo, eu percebo. Olha, não tenho muito, muito tempo, mas apesar de tudo não posso deixar de lhe fazer esta pergunta.
O que é que foi mais difícil obter de Portugal na sua caminhada? Como é que o país lhe ia respondendo àquilo que era preciso que a ciência e a medicina fizessem? Olha, Portugal tem sido estupendo e foi estupendo até à passagem do século. Nós tivemos, o 25 de Abril foi uma situação excepcional.
E a partir dali as coisas melhoraram extraordinariamente até 98, 99, 2000, 2000. Parou. Mas parou porquê? Não sei. Mas parou. Isto é, nós... Parou o empenho, o apoio... Não sei. O que é a ciência, tudo. Se reparar, se for ver a evolução da sociedade portuguesa, quando me diz qual é o nosso problema hoje, é a passagem. Nós tínhamos uma coisa de crescimento contínuo e muitíssimo bom. Repara, em tudo...
até na educação, e nós paramos. E, portanto, para mim, é o grande problema. Porque nós estamos a ter dois problemas que são horríveis. Um é a desigualdade, que tendo parado o desenvolvimento da ciência, da educação, da medicina, da saúde, isto continua a crescer com o aumento da desigualdade, que é horrível. É horrível. É uma chaga e uma vergonha. Pois é. E, portanto, nós, porquê que a gente não resolve aí?
E porquê que nós, repare, agora a minha opinião é a seguinte, nós, apesar de tudo, nós, do ponto de vista intelectualmente e individualmente, somos inteligentíssimos. Temos muita gente muito boa. Exatamente, é verdade. Que são culturais e que são... É verdade, sim, sim, sim. E, portanto, depois nós somos muito maus a colaborar, a planificar, a fazer instituições. Não conseguimos. E isto é mortal, percebe? Porque nós precisávamos de colaborar mais. Porquê que, repare?
O que se passa em Portugal nesta altura, as inovações tecnológicas e farmacológicas em Portugal, mesmo em Portugal, são fora de série. As inovações tecnológicas e farmacológicas. As inovações sociais. Se é finis, não existe. Já reparou? Porquê que nós não temos, por exemplo, a psicologia individual é estupenda, a psicologia social não é boa. Percebe o que quer dizer? Nós como sociedade... Mas o que é que acontece? Nós não temos comunidade.
Nós não fazemos comunidade. Não temos esse sentido. Não temos. Ou essa necessidade. Temos uma coisa individual, onde somos muitíssimo bons, mas nós não colaboramos com os outros. E nós acreditamos que a solução vai passar, se eu for muito bom, muito bom, não é. Não é verdade. Não, não se pode ser muito bom sozinho. Sozinho. Ou não conta, não interessa. Não, não, não.
Portanto, porquê é que nós não evoluímos na comunicação social? Tem sido má também, porque tenho que parecer a comunicação social podia estimular. Não, tem aumentado, no fundo, o self-centered, quer dizer, as pessoas centradas em si. Portanto, nós temos um problema em Portugal. A ausência de inovações sociais e a ausência de sentido da comunidade e agora cada vez mais também o valor das profissões.
Eu não lhes conto que aquilo que me aterroriza é que as profissões... Eu tinha um orgulho enorme de ser médico, ou ser engenheiro, ou ser advogado. As profissões ligadas ao trabalho. Agora não. As pessoas querem ter um emprego.
Nós deixámos o trabalho, evoluímos para o emprego. O trabalho é uma coisa engraçadíssima. O resto é agora não podemos dizer isto, mas sabe que o trabalho, na próxima peça, que a origem vem do tripalo, que era um instrumento para tomar conta dos escravos. Ah, não, sim, está bem. Mas não é preciso irmos tão longe. Ficou claríssimo aquilo que queria dizer. É o labor, é mais labor do assim, o labor. Para acabarmos, tenho uma pergunta, que sempre foi uma curiosidade minha. Quando há sexta-feira à tarde...
O Manel Sobrinho Simões e a Gu, sua mulher, sua formidável mulher e também médica, vão do Porto para a vossa casa de Vila Praia de Âncora. O Manel entra no Paraíso ou leva também aí relatórios para estudar no fim de semana? Levo.
Não fica com os amigos à conversa? Tem, não? Há um grupo, o vosso grupo de amigos? Não, não, fazemos, atenção, fazemos, temos até um grupo muito engraçado, o grupo dos amigos da rede de bibliotecas de caminha, e fazemos, uma vez por mês, fazemos.
e juntamos à hora de almoço e é simpaticíssimo. Mas o resto do tempo eu estou, de facto, a fazer o mesmo. A fazer o mesmo. Embora também, é verdade, é quando eu leio os jornais, porque, repare, eu não tenho telemóvel e não consigo ler nos coisas, e, portanto, eu leio e aproveito para ler. E adoro ler.
E adoro ler e adoro estar ali diante do Atlântico de Vila Praia de Ancora e aquele cheirinho amarizinho. Manoel Sobrinho Simões, eu não tenho, gostava que acreditasse que eu não tenho palavras para lhe agradecer ter vindo do Porto para conversar comigo. Muito e muito obrigado e muitos parabéns. Obrigado não e adorei vir. Muito obrigada.