Episódios de Os Segredos da Seita do Yoga

Último episódio: O júri chegou a uma decisão | Os ficheiros do caso Carlos Castro

11 de maio de 202640min
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Renato Seabra diz que queria acabar com um “demónio” ao matar Carlos Castro. No julgamento, os jurados têm de decidir: foi raiva ou doença mental? Renato pode ou não ser responsabilizado pelo crime?

"Os ficheiros do caso Carlos Castro" é o novo Podcast Plus do Observador. É narrado por Joana Santos e tem banda sonora original de Júlio Resende. 

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Participantes neste episódio1
J

Joana Santos

Narrador
Assuntos10
  • Caso Benício XavierAssassinato de Carlos Castro · Renato Seabra · Julgamento e veredito · Doença mental vs. raiva · Peritos e testemunhas
  • O veredito e a sentençaConsiderado culpado de homicídio em segundo grau · Pena mínima de 15 anos · Pedido de desculpas de Renato Seabra
  • Diagnóstico e defesa de Renato SeabraEpisódio maníaco agudo · Transtorno bipolar · Perícia psicológica e psiquiátrica · Alegação de simulação (malingering)
  • O julgamento em ManhattanDeclarações iniciais da acusação e defesa · O papel do júri · Confissão de Renato Seabra · Testemunhas da acusação e defesa
  • A versão da defesa sobre doença mentalAto impulsivo e descontrolado · Vulnerabilidade biológica · Incongruência entre orientação sexual e exploração
  • A versão da acusação sobre fúria e manipulaçãoMotivação por ira e frustração · Acusação de simulação de sintomas · Escala de hostilidade e manipulação
  • O papel da procuradora Maxine RosenthalUnidade de crimes sexuais · Casos anteriores (Joe Brooks, Harvey Weinstein) · Estratégia de acusação
  • A vida de Renato Seabra na prisão e recursosTransferência para a prisão de Clinton · Recursos para redução de pena e impugnação da condenação · Possibilidade de liberdade condicional
  • Podcast Plus do ObservadorOs ficheiros do caso Carlos Castro · Joana Santos (narradora) · Júlio Rezende (banda sonora)
  • Práticas de Yoga e AutoconhecimentoGuru manipulador · Recrutamento em escola de yoga · Casas de massagens eróticas
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Este episódio contém descrições de violência que algumas pessoas podem considerar perturbadoras. Noite de domingo, 9 de janeiro de 2011. Carlos Castro foi assassinado há cerca de 48 horas.

A partir do Largo da Igreja em Cantanhedo, o Jornal da Noite da SIC arranca com uma entrevista à irmã de Renato Siabra. Joana explica que o irmão mais novo é uma pessoa calma e não violenta. Garante que ele viajou para Nova Iorque a trabalho e revela que ao longo desta dia nos Estados Unidos se manteve sempre em contato com a mãe.

Em rodapé, vão passando informações sobre o caso. Mãe de Renato Seabra viajou esta manhã para os Estados Unidos.

Família de Renato Seabra contratou advogado nos Estados Unidos. O senhor, em algum destes últimos dias, neste período, manifestou alguma preocupação, algum problema? Nos últimos dois dias, quando ele falava com a minha mãe, dizia que não estava a dormir muito bem, que a comida era estranha, que não sabe o que estava a passar, que a comida estava diferente.

e que estava um bocado cansado de lá estar, queria vir para casa e que estava um bocado farto com a luxúria toda que estava à volta dele. Ele até descozeira à minha mãe, eles querem me comprar com esta luxúria, eu estou farto, sinto-me numa prisão, quero vir para casa, estou farto. Há pelo menos dois dias que Renato Seabra não estava bem, revela a irmã mais velha. Queria até voltar para Portugal mais cedo.

E, de preferência, sem Carlos Castro. Quando regressar de Nova Iorque, Odília Pereirinha também vai dar uma entrevista. Mas ao Jornal Sol. Vai contar como achou o filho magro, pálido e em choque. E vai revelar como, dois dias antes do crime, Renato terá começado a queixar-se. Sentia que dependia de Carlos Castro para tudo.

E nem telemóvel tinha, para poder comunicar com quem quisesse. Em tribunal, a defesa vai apoiar-se nestes e noutros relatos, para tentar provar que, pelo menos dois dias antes do crime, Renato Siabra já estava na fase inicial do episódio maníaco agudo que lhe havia de ser diagnosticado. Primeiro no Hospital Roosevelt, depois no Bellevue.

O psicólogo Jeffrey Singer vai ser um dos peritos ouvidos e vai explicar que não é raro que doenças como o transtorno bipolar sejam identificadas pela primeira vez na idade do arguido.

É muito comum que o primeiro episódio psicótico de uma pessoa com perturbação bipolar ocorra por volta dos 21 anos. Normalmente isso acontece entre os 16 e os 25 ou 26 anos. Para mim, era muito óbvio que ele estava a ter um episódio psicótico.

Mas a acusação vai pôr em causa toda esta argumentação. Primeiro, questiona o diagnóstico, que foi assinado por um médico interno das urgências e não por um psiquiatra. Depois, acusa Renato Seabra de ter exagerado e fingido sintomas quando estava internado. E afirma que os advogados dele o instruíram nesse sentido.

Para conseguir enganar o júri e escapar a uma pena de prisão, disseram-lhe que tinha de tentar parecer maluco.

Maxine Rosenthal é a procuradora do Ministério Público, responsável pelo caso contra Renato Siabra. Faz parte da unidade de crimes sexuais e é conhecida por ser minuciosa, persistente e implacável. É temida por erguidos e advogados de defesa.

Em 2009, Maxine Rosenthal foi a responsável pela acusação a Joe Brooks, realizador e compositor, vencedor de um Oscar, acusado de 11 crimes de violação, que acabou por cometer suicídio antes de chegar ao julgamento. Dentro de alguns anos, quando o movimento Me Too rebentar, será também Maxine Rosenthal a responsável pelo processo contra o produtor de Hollywood, Harvey Weinstein.

Por agora, a procuradora está concentrada em preparar o julgamento de Renato Siabra. Vai ser um processo relativamente rápido. Em menos de dois meses e ao fim de apenas 22 sessões, o júri vai chegar a um veredito. A acusação liderada por Maxine Rosenthal vai chamar 22 testemunhas. Já a defesa encabeçada por David Tugger vai chamar apenas duas.

Renato Siabra não vai sentar-se no banco de testemunhas. Mas vai falar. Os ficheiros do caso Carlos Castro.

É uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Rezende. Episódio 6 O Júri chegou a uma decisão.

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5 de outubro de 2012 quase dois anos depois do crime e após inúmeras audiências preliminares atrasos e pedidos de adiamento que deixaram o juiz do Supremo Tribunal de Manhattan à beira de um ataque de fúria o julgamento de Renato Seabra vai finalmente começar justamente no dia de aniversário de Carlos Castro a ser feitura

Maxine Rosenthal não deixa passar a coincidência. É a primeira a falar. Na declaração inicial da acusação, recapitula os três meses que vítima e arguído passaram juntos. Descreve detalhadamente os dias de lua de mel em Nova Iorque. Depois de relatar a descoberta do corpo mutilado do cronista social no interior do quarto 3416, conclui.

E Carlos Castro, que hoje, 5 de outubro, completaria 67 anos se nunca tivesse conhecido Renato Siabra, foi declarado morto. A sala está cheia. A mãe de Renato Siabra está presente. As irmãs de Carlos Castro também. Há dezenas de jornalistas americanos e portugueses. Rodrigo Freixo é um deles.

O Renato estava apático. Ele parecia que não estava lá. Não estava lá, não estava lá. Ele era outra pessoa, era um estranho naquela sala. Parecia que estava a viver em outro mundo. Renato Seabra fez 23 anos há menos de um mês. Passou o último ano e meio preso na cadeia de Rikers Island, de onde foi trazido esta manhã sob forte aparato policial.

Ao longo deste período, tem sido observado e analisado por peritos, psiquiatras e psicólogos, contratados pela defesa ou pela acusação. Agora, chegou finalmente a hora de ouvir a argumentação de cada uma das partes. Apesar de nos últimos meses ter visto obrigado a melhorar o inglês, Renato se abre a conta com a ajuda de um intérprete, que está sentado à direita dele.

O Renato teve sempre de olhar muito compenetrado. Quando estás a pensar e olhas o infinito, centrou-se muito no juiz, mas não se viu muito sentimento, não se viu desespero, por exemplo, não se viu culpa, tampouco.

Ricky Duranes também está na sala. É um dos quatro fotógrafos autorizados a registar o julgamento. Só podem fotografar o arguído imediatamente antes da sessão começar e apenas durante 30 segundos. Durante o resto do dia, têm de pousar as câmaras e ficar só a assistir.

Maxine Rosenthal terminou a argumentação a acusar Renato Siabra de ter assassinado Carlos Castro movido pela ira, fúria, desilusão e frustração causadas pelo fim da relação. Do lado da defesa, quem faz as declarações iniciais não é David Tugger, mas o colega dele, David Sinens. Começa por deixar bem assente que este não é um caso de raiva, mas de doença mental.

Logo depois, arruma definitivamente a questão da autoria e da violência extrema do crime. A prova mostrará que Renato Seabra matou Carlos Castro naquela divisão de hotel. Isso dizemos já. Mais ainda, mostrar-se-á que durante o incidente, Renato Seabra pegou num saco a rolhas e atacou violentamente Carlos Castro.

Aos 12 jurados, escolhidos aleatoriamente a partir de listas públicas de cidadãos residentes no Estado de Nova Iorque, não vai ser pedido que decidam sobre se Renato Seabra matou ou não Carlos Castro. A tarefa deles é determinar se ele pode, ou não, ser responsabilizado criminalmente pela morte.

Ou seja, o que lhes é pedido é que decidam se, no momento do crime, o arguído tinha capacidade para distinguir o certo do errado, ou se, pelo contrário, deve ser considerado inimputável por motivo de doença ou anomalia mental.

Para o fazerem, as oito mulheres e quatro homens que fazem parte do júri vão ouvir dezenas de horas de depoimentos de testemunhas e vão poder consultar os milhares de páginas de provas que fazem parte do processo. A defesa fez tudo para tentar riscar um documento dos autos.

Mas três semanas antes do julgamento arrancar, o juiz decidiu rejeitar a moção interposta pelos advogados de Renato Siabra. Por isso, os membros do júri vão poder ler e ouvir a confissão do arguído. Tudo aquilo que Renato Siabra disse à polícia de Nova Iorque, 24 horas depois do crime, vai ser usado em tribunal. Muito provavelmente, contra ele.

Ninguém questiona um ponto. O crime foi cometido com violência extrema. Mas há uma divergência fundamental. O que provocou esse episódio de violência? A acusação acredita que a motivação de Renato Seabra foi a fúria contra Carlos Castro. Chama 22 testemunhas para tentar provar essa tese.

Entre elas estão Wanda Pires, a amiga da vítima em Nova Iorque, a empregada de limpeza que foi a última pessoa a vê-lo com vida, o segurança que descobriu o corpo no quarto de hotel, os detetives que analisaram a cena do crime e interrogaram Renato Seabra e o taxista que o transportou até ao hospital. Já a defesa argumenta que a violência extrema é a prova de que Renato Seabra estava a sofrer um surdo psicótico naquele momento.

E só vai chamar duas pessoas para o tentar provar. A primeira é o psicólogo Jeffrey Singer. Foi um ato extremamente impulsivo e descontrolado. Ficou claro que não houve qualquer planeamento, preparação ou premeditação. Foi um ato psicótico.

Foi uma manifestação psicótica de raiva, um momento em que a pessoa não tinha controle sobre as suas faculdades mentais. Tanto que, quando sei, ele nunca tinha tido comportamentos violentos. Também não tinha antecedentes de consumo problemático de substâncias, nem qualquer histórico de doença mental.

Pelo que pude perceber, era uma pessoa bastante estável, até se ver envolvido naquela situação. Este conjunto de circunstâncias ultrapassou completamente a capacidade dele de se manter ancorado na realidade. E a forma como assassinou o Sr. Castro foi verdadeiramente horrível.

Disseram que encontraram três conjuntos diferentes de pegadas de ténis e, obviamente, o saca-rolhas e a castração também têm um significado simbolicamente primitivo e revelam bem o grau de psicose em que ele se encontrava naquele momento.

Jeffrey Singer recorda a brutalidade do crime e ensaia uma explicação para a origem do surto psicótico diagnosticado a Renate Seabra horas depois do crime, nas urgências do Hospital Roosevelt.

Com o passar do tempo, e tanto quanto o Renato sabia, a carreira dele estava na mesma, apesar de estar a cumprir a sua parte do acordo com o Sr. Castro. Eventualmente, penso que a incongruência entre a orientação sexual primária do Renato e a sensação de estar a ser extremamente explorado acabou por ultrapassar a capacidade que ele tinha para lidar com a situação.

além disso, tudo indica que ele já tinha uma vulnerabilidade biológica que o deixou mais propenso a sofrer um episódio maníaco, neste caso, um episódio maníaco-psicótico, associado à perturbação bipolar. As circunstâncias alinharam-se todas.

Não creio que soubesse verdadeiramente o que lhe estava a acontecer. Estava só a agir como uma pessoa psicótica e a natureza do seu comportamento durante o homicídio reflete isso. A defesa diz que, dois dias antes do crime, Renato Seabra começou a evidenciar sinais compatíveis com o início de um surto.

a forma efusiva como se comportou no jantar no Polinos com Wanda Pires e o namorado dela, os brindes que propôs e as queixas que foi fazendo à mãe pelo telefone sobre a comida que tinha um gosto diferente e as noites passadas sem dormir, que compensou com cestas na viagem de carro à Atlantic City.

Os advogados de Renato Siabra apoiam-se nos relatórios clínicos e nas avaliações dos peritos contratados pela defesa. Mas também no relatório feito pelo único perito chamado pela acusação.

William Barr é neuropsicólogo. Esteve com Renato Siabra três vezes, em sessões de duas horas cada. Sempre no gabinete da procuradora. E sempre na presença de pelo menos um dos advogados de defesa e de um intérprete.

para escrever o relatório apresentado agora em tribunal, para além de avaliar o arguído, consultou os autos da polícia, o relatório elaborado por Roger Harris, o psiquiatra contratado pela defesa, e entrevistou Wanda Pires e Mónica Pires, filha dela. É justamente em declarações feitas por Wanda Pires a William Barr que a defesa se apoia para tentar convencer o júri de que Renato Seabra não pode ser responsabilizado pelo crime.

O Renato parecia completamente louco e estava muito acelerado, descreveu Wanda ao neuropsicólogo. Mas, quando Carlos lhe ligou no dia do crime, nitidamente com medo de Renato, disse-lhe que parecia que ele tinha dupla personalidade.

Para a defesa, é uma prova irrefutável. Até a testemunha principal da acusação, a melhor amiga de Carlos Castro em Nova Iorque, diz que Renato Seabra não estava mentalmente são. Na confissão que fez à polícia e que o detetive Richard Tirelli leu na íntegra aos jurados, Renato Seabra disse que Carlos Castro lhe revelou que já tinha antecipado a viagem de regresso a Portugal. Para David Tugger, isso não prova nada.

O advogado de defesa garante que Renato Seabra não matou Carlos Castro porque ele queria voltar para casa mais cedo e terminar a relação. Até porque Renato também disse na confissão que achava que Carlos estava a dizer aquilo só para o irritar. Mas esta justificação vai ser igualmente rebatida. E a acusação tem uma testemunha e várias fotografias para o comprovar.

a funcionária do Hotel Intercontinental, que na tarde do crime pôs os novos bilhetes de avião debaixo da porta do quarto 3416 e as inúmeras imagens captadas pela equipa forense que mostram a capa azul onde os bilhetes estavam guardados, aberta e vazia, em cima da cama.

Porque estas iniciações implicavam que houvesse uma relação sexual com ele. Mas ele não me disse isso. Esta é a história de como dezenas de portuguesas se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabam em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. O que é que eu estava a fazer? O que é que eu estava ali a fazer?

Os Segredos da Seita do Yoga. É uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Daniela Roa, com banda sonora original de Benjamin. As piores coisas que acontecem neste mundo começam com um segredo. As piores. Pode ouvir todos os episódios no site do Observador, nas plataformas de podcast ou no YouTube.

Em inglês, existe uma palavra que exprime o ato de simular ou fingir os sintomas de uma doença. Malingering. Esta palavra vai ser central para o caso. E ao longo de todo o julgamento, vai ser repetida 133 vezes.

Jeffrey Singer foi o último dos três peritos a avaliar Renato Siabra. Falaram nos dias 16 de julho e 9 de agosto de 2012, mais de um ano e meio depois do crime. Ainda assim, é no relatório assinado por este psicólogo que surge um dos detalhes mais perturbadores sobre o homicídio de Carlos Castro. Há uma coisa que Renato Siabra revelou a Jeffrey Singer que não contou a mais ninguém.

Acha que depois de matar o cronista social, bebeu parte do sangue dele. No contra-interrogatório ao psicólogo contratado pela defesa, a procuradora reage a esta descrição com uma das palavras que mais usou durante todo o julgamento. Malingering. O arguido está a inventar sintomas para tentar parecer maluco.

O relatório assinado por William Barr vai exatamente nesse sentido. O neuropsicólogo contratado pelo Ministério Público acusa Renato Seabra de acrescentar detalhes e piorar a história de cada vez que conta a versão dele dos factos. E dá três exemplos para o comprovar. 1.

Aos detetivos da polícia de Nova Iorque, Renato Seabra contou apenas que cortou os pulsos tomado por um instinto animal. Mas seis meses mais tarde, ao psiquiatra Roger Harris, contratado pela defesa, Renato deu mais uma informação. Revelou que, depois disso, pousou os testículos de Carlos Castro sobre os próprios pulsos feridos para ter proteção. E disse...

Misturar o sangue dele com o meu era proteção. 2. A primeira vez que Renato Seabra disse a alguém que tinha assassinado Carlos Castro depois de ouvir vozes, também foi durante uma das sessões com este psiquiatra. 3. Também foi a este médico contratado pela defesa que ele relatou uma suposta profecia que lhe teria sido revelada através de números numa pulseira.

Eu era o escolhido, como no Matrix. Eu tinha de erradicar o mal. Era a minha missão erradicar o mal e começou com o Carlos. Foi-me dada essa profecia. Pode ler-se num relatório entregue ao tribunal no dia 27 de julho de 2011. Quando o caso da defesa parece não poder piorar mais, William Barr faz outra revelação.

Acusa o advogado David Tugar de ter interferido durante a avaliação psicológica que fez a Renato Siabra. Diz que, no final da segunda de três sessões, o advogado de defesa o chamou de volta à sala. Renato tinha-se esquecido de lhe dizer uma coisa. No final da entrevista, tínhamos estado a discutir a ideia de que o Sr. Siabra teria retirado um demónio do Sr. Castro.

E a informação adicional que ele queria que eu soubesse era que esse demónio, na verdade, era a homossexualidade. Conta o neuropsicólogo. Questionado pela procuradora sobre se esse foi o único momento em que a defesa tentou interferir no trabalho dele, o perito contratado pela acusação diz que não. Houve outra altura em que me disseram que havia um historial de abuso na família.

Não há, em todo o processo, qualquer outra referência a estes alegados abusos. No relatório do psicólogo da defesa, Jeffrey Singer, pode ler-se que Renato Seabra teria sido vítima de abusos sexuais com apenas 8 anos. Mas o agressor é identificado como um vizinho. Este é também o único momento, em todo o caso, em que o assunto é referido.

O perito contratado pela acusação diz ainda que Renato Seabra não exagerou apenas nos sintomas. Foi erradamente diagnosticado com perturbação bipolar. Não vi nenhuma das normas de elevação do perfil que se observam na perturbação bipolar, ou, mais importante ainda, das características residuais que se veriam numa pessoa que, supostamente, tivesse tido um episódio maníaco há um ano. Mas vi elevação noutra escala.

Diz ao microfone, sentado no banco de testemunhas. Guiado por Maxime Rosenthal, o neuropsicólogo está prestes a dar o golpe final.

Explica que, segundo os testes que fez, na escala que mede a hostilidade, a capacidade de manipulação e a raiva, Renato Seabra teve resultados pressivos. Quando a procuradora lhe pergunta em que situações costumam registar-se este tipo de valores, William Barr tem a resposta pronta. Isto observa-se frequentemente em pessoas que são delinquentes violentos. Pessoas que cometeram crimes violentos.

Na verdade, as prisões estão cheias de pessoas que lhe apresentaram elevações nesta escala. Na fase final do julgamento, Renato Seabra vai deixar de estar presente nas sessões. O interrogatório do psiquiatra Roger Harris, contratado pela defesa para o avaliar, vai a meio.

As testemunhas já foram quase todas ouvidas. Mas Renato nem sempre foi capaz de permanecer impávido perante os argumentos da acusação. Chegou a ser chamado à atenção pelo juiz por estar a rir ou por falar demasiado alto. Agora, ao 18º dia, o advogado David Tugger pede ao juiz que o cliente seja autorizado a ausentar-se. É muito, muito claro que ele não quer estar aqui.

Até ao resto do julgamento, Renato Seabra vai ter de continuar a fazer diariamente a viagem desde a prisão de Rikers Island até ao tribunal no centro da cidade. Mas em vez de sentado no banco dos réus, vai permanecer numa cela sozinho, no topo do edifício. Quando o juiz manda perguntar se Renato mudou de ideias, ele faz saber que só à força o poderão levar a assistir ao resto do próprio julgamento.

Mantém-se assim irredutiva até 30 de novembro de 2012. Só no dia do veredito é que vai finalmente voltar à sala de audiências. Nas alegações finais, David Tugger demorou três horas e um quarto a tentar convencer os jurados da inimputabilidade de Renato Siabra.

Descreveu-o como um miúdo de 21 anos de uma pequena aldeia em Portugal, na sua primeira viagem à América. Explicou-lhes que, se o declararem não responsável por motivo de doença mental, Renato Seabre não vai ser libertado. Bem pelo contrário, disse-lhes. Provavelmente ficará institucionalizado para o resto da vida.

E atacou sobretudo o depoimento do neuropsicólogo contratado pela acusação, William Barr. Julga que é a pessoa mais esperta da sala e diz que toda a gente está a mentir, menos ele. A procuradora Maxine Rosenthal foi mais breve.

Defendeu a posição do perito da acusação e questionou, por uma última vez, a tese da insanidade do argumento. Se ele estava tão deslocado, porquê que, durante o crime, retirou o telefone do auscultador, fechou as cortinas, roubou dinheiro à vítima e, à saída, colocou o sinal de não incomodar na porta do quarto.

Um cavalete, um bloco de folhas A3, uma lupa, a planta do quarto 3416 feita pela polícia de Nova Iorque e o relatório do detetive Richard Tirelli. Foi tudo o que os 12 jurados pediram ao tribunal quando se fecharam na sala para deliberar. São inesperadamente rápidos. Em apenas 6 horas, o juiz é informado de que o júri chegou a um veredito.

Quando finalmente a porta-voz comunica a decisão a que chegaram, Renato Seabra está na sala. Houve a decisão e houve os jurados confirmarem um a um. É considerado culpado do crime de homicídio em segundo grau. E permanece impassível. Recorda Rodrigo Freixo. As únicas sensações que saíam do Renato, que eu me recordo na altura, já passou muito tempo, mas era aquele baixar de cabeça dele.

Não sei se era um resignar, se era um não sei o que é que estou aqui a fazer ainda. Era muito difícil avaliá-lo, era difícil perceber quem era aquela pessoa que estava ali. Não o conhecendo antes, é difícil dizer, mas falando com amigos, família, colegas da escola secundária dele e toda a gente, aquela pessoa que nós vimos ali em tribunal e aquela pessoa que nós vimos naquele processo não era o Renato Seabra, não era o miúdo de Cantanhete, que toda a gente nos disse que era incrível, que era isto, que era aquilo. Ou seja, não estamos aqui à frente de um assassino.

que de repente acordou e começou a matar pessoas. Não acho que seja isso o caso. Acho que há ali algo que disputou isso e acredito que mentalmente ele tenha ficado efetivamente afetado. Renato Siabra vai ter de passar pelo menos 15 anos na prisão. É essa a pena mínima prevista para os crimes de homicídio em segundo grau no estado de Nova Iorque.

No máximo, pode ser condenado à prisão perpétua. Antes do juiz revelar finalmente a sentença, Renato Seabra vai pedir a palavra pela primeira vez ao tribunal. É o dia 21 de dezembro de 2012.

Renato se abre a quer pedir desculpa à família e aos amigos da vítima. Assume. Cometeu o crime. Matou Carlos Castro. Mas diz que não sabe por que motivo o fez. Que nunca antes tinha sido agressivo. Que não sabe o que se apoderou dele naquele dia. E que não compreendeu a forma como as coisas se passaram. No momento em que entrei no quarto, nesse dia, algo tomou conta de mim.

Depois, coloca-se nas mãos do juiz. Aceito qualquer pena que o juiz me quiser aplicar, porque cometiu o crime. E agora, só Deus sabe o que aconteceu naquele dia. 25 anos, a prisão perpétua. Quando o juiz prefere a sentença, a mãe de Renato se abre a desfaz sem lágrimas.

Via-se na cara dele, via-se nos olhos dele. Ele não estava nele, não era uma pessoa normal que estava ali. Eu acho que ele estava ali quase anestesiado, a viver todo aquele momento e a tentar perceber o que lhe aconteceu. E a mãe, a mãe desesperada. O juiz justifica a pena. Diz que o crime é um exemplo arrepiante da desumanidade do homem para com o homem.

Em janeiro de 2013, Renato Siabra vai sair de Rikers Island para ser enclausurado noutra prisão de alta segurança mais a norte. A prisão de Clinton fica numa zona isolada e gelada, perto da fronteira com o Quebec, e é conhecida como a Pequena Sibéria, aloja alguns dos criminosos mais violentos do Estado de Nova Iorque.

É a partir da cela que ocupa em Clinton que Renato se abre a responda às cartas de uma jornalista portuguesa que acompanhou o processo em tribunal. São mensagens privadas. A primeira coisa que Renato escreve à jornalista, em junho de 2013, é que não se sente à vontade para dar uma entrevista. Ainda assim, as mensagens acabam a ser reveladas na imprensa e num livro sobre o caso.

Nelas, Renato se abre a conta como tenta manter-se ocupado, a ler, escrever e ver televisão. E como nos dias piores, cede à tristeza, chora, reza e pede a Deus ajuda e uma redução de pena. Mas não responde à pergunta mais importante. Porquê?

Até hoje, gostava muito de perceber o que aconteceu, porque nada fazia parecer que este miúdo fosse um, sei lá, nem sei que palavra dizer, porque o que ele fez não tem justificação, é mal demais para poder sequer tentar entender.

Quinze anos depois, o psicólogo Jeffrey Singer continua a garantir não acredita que Renato Siabra tenha exagerado ou fingido sintomas. Tudo é possível.

Tudo é possível. Mas para simular uma coisa dessas, teria de haver sinais de psicopatia extrema, de grande astúcia e manipulação. Muito, muito antes disso acontecer, teríamos de ter visto alguma coisa para alguém ser tão demoníaco?

Ele era um modelo de roupa interior. Para mim, era um tipo simples. Era um homem extraordinariamente bonito, mas psicologicamente era muito simples. Não tinha a complexidade necessária para ser assim tão maquiavélico. Ele não tinha aquela complexidade para ser tão devious. O fato do júri o ter considerado culpado e imputável não significa que Renato Seabra não sofra ou tenha sofrido num momento do crime de doença mental.

Significa apenas que quando assassinou Carlos Castro, Renato Seabra tinha capacidade para distinguir o certo do errado.

Quinze anos depois do crime, Renato Siabra já não está na prisão de Clinton. Foi transferido para a Ática, outra prisão de alta segurança no norte do estado de Nova Iorque, junto às cataratas do Niagara.

David Tugger também já não é o advogado dele. Em 2014, a família contratou Scott P. Tooman, um ex-procurador de homicídios, agora advogado especializado em crimes económicos, crimes violentos e infrações relacionadas com drogas, que já representou Courtney Love, a viúva de Kurt Cobain.

Uma das primeiras ações do novo advogado de Renato Siabra foi interpor um recurso para tentar uma redução de pena, alegando que o anterior advogado não o tinha defendido eficazmente. Em fevereiro de 2018, esse recurso foi interferido. Agora, em 2026, Scott B. Tullman está a ultimar o novo recurso, desta vez para impugnar a condenação.

o advogado diz que está a trabalhar há meses para preparar a moção que vai incluir uma declaração de Renato Siabra. E revela. Desta vez, Renato Siabra está preparado para depor e para se submeter ao contra-interrogatório da acusação. Se, tal como o primeiro, este recurso também for recusado,

Renato Seabra terá apenas uma outra hipótese de sair da cadeia. Dar início ao pedido de liberdade condicional. Mas só poderá fazê-lo em setembro de 2035. Dentro de nove anos. O jornalista Ricky Durães acredita que as probabilidades desse pedido ser aceite são elevadas.

Tem muito a ver com o país de origem. Eu acredito que, devido ao facto de ser português, ser muito possível que ele consiga a liberdade, porque ele vai ser, depois, deportado. Neste momento, ele é um custo para o governo norte-americano, digamos assim.

Se não há possibilidades de reincidência, se há um comportamento normal, eu não vejo porque não, porque não há... Se fosse um cidadão americano, era diferente, poderia haver outros fatores. Neste caso concreto, eu acredito que será uma opção bastante fiável. Eu acredito que daqui a 10 anos ele poderá estar em liberdade.

Significa que, se tudo o resto falhar, a partir do dia 1 de março de 2036, Renato Siabra poderá finalmente regressar a casa. O jovem de 21 anos, que embarcou num avião com Carlos Castro para Nova Iorque, terá, nessa altura, 46 anos.

O Observador tentou falar com o pai, a mãe, a irmã, com o antigo e o atual advogado. E com o próprio Renato Siabra. Nenhum deles aceitou ser entrevistado. Os Ficheiros do caso Carlos Castro. É uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador.

É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Rezende.

O guião e as entrevistas são de Tânia Pereirinha. A sonoplastia e o desenho de som são de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Verazo Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons retirados do YouTube.

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