Arcebispíada
#5 Enquanto Há Força (Orfeu, 1978), em que se fala em que se fala de hierarquias eclesiásticas, de expressões portuguesas que parecem latinas e cartões contactless.
André Marques
Raimundo Henriques
- Análise da canção ArcebispiadaHierarquias eclesiásticas · Expressões portuguesas · Terminação 'Iada' · Crítica à Igreja Católica · Anticlericalismo · Camilo Torres · Teologia da Libertação · Igreja dos Privilégios · Franco · Estado Novo · Música africana · Papel da igreja nas colônias · Padre Marx · Lipir de Freitas · Fanhais · Vô Cavernoso · Tonsura · Experimentação musical · Michel de Laporte · Contactless · World building · Panfletarismo · B. Fachada · PIDE · Bufo · Usurário · Latifundiário · Capelão · Vender a nação · Foice e martelo · Alfabetização · Pinochet · Fátima
- Análise musical de ArcebispiadaVoz falada, não cantada · Percussão · Pratos · Xilofones · Maracas · Sermão · Experimentalismo · Texturas sonoras · Instrumentos africanos · Monocórdica
- O podcast Roda e a VezPodcast sobre canções de Zeca Afonso · Próximo episódio com convidado · Barracas de Ocupação · Contato via e-mail · Comentários no Spotify · Redes sociais · Instagram @cadaesquinapodcast
Olá, sejam muito bem-vindos ao Cada Esquina, um podcast sobre as canções de Zeca Afonso. O meu nome é André Marques e comigo está, como sempre, o Raimundo Henriques. Olá. Hoje vamos falar sobre a quinta canção do álbum Enquanto à Força, que se chama Arcebispiada. Pregais o Cristo de Braga. Fazeis a guerra na rua.
Sempre virados para o céu. Gostaste da maneira, como eu disse, arcebispiada? Eu gostei, pá, sem dúvida. Até porque eu durante algum tempo achava que se chamava arcebispada. Ah!
Pois é, então começamos já por aí, pelo nome e por esta terminação em Iada, que em português geralmente é associada a obras literárias narrativas épicas, como os Lusíadas, que é a história dos Lusos, ou a Ilíada, que é a história de Ilion, e também serve para designar eventos de grande magnitude, como a Olimpíada, por exemplo.
E esta é uma arcebispiada, o que parece... Bem, dá a entender que é... É óbvio. Sobre arcebispos. E parece... As aventuras dos arcebispos. A épica. A épica dos arcebispos. Pois. Bem, e aí também se percebe que é sobre o topo da hierarquia da Igreja Católica. Não é sobre os padres, não é? Não é a padríada.
Mas o que é que está acima? São os arcebispos acima dos bispos ou vice-versa? Eu acho que é os arcebispos acima dos bispos. Há muito menos arcebispos do que há bispos, não é? Não sei. Deve ser porque arcebispo deve vir de arqui, não é? Sim. Mas cardeal ainda é mais acima ou não? Pois. Perguntas difíceis. É o que me estás a fazer. Achas que não sabemos nada sobre arquias da igreja?
Eu acho que sei menos sobre hierarquias da Igreja do que sei sobre hierarquias militares. Ainda menos. Ainda menos. Se não me recordo, não sabes nada sobre hierarquias militares, ou sabes? Por exemplo, sei que general está acima de capitão. Sim, ok. Já é alguma coisa. Sei que papa está acima de arcebispo. Exato. Não, desculpa, eu não... Acho que estava aqui a tentar perceber se nós não sabemos nada de hierarquias no geral.
Eu não sei se, por exemplo, a hierarquia da nobreza medieval, se me fizeres perguntas sobre isso eu talvez saiba alguma coisa. Ah é? Ah não, eu sou muito mais básico nas minhas hierarquias. Não, mas por exemplo, às vezes estás a... Desculpe, também estou ao lado do Zeca neste momento, mas às vezes estás a ler os russos, os russos do século XIX, e de repente aparece-te um príncipe.
Ah, o príncipe Nikolaevich Raskolnikov, o príncipe, e tu pensas, é o único? Não, e há 70 príncipes no romance inteiro, não interessa se é príncipe ou não. Eu neste momento gostava que isto fosse uma collab com más influências, que tu tivesse dito essa frase, e nós reagíamos a esta tua... Porque eu senti-me burro neste momento. Por eu ter dito que leia russos no século XIX?
Sim, e elas brincam com isso Pois eu não estou a par Desse podcast, eu não sei como é que elas Conheço obviamente Elas são muito engraçadas Vou espreitar Muito bem, então esta Arcebispieda É uma canção Julgo eu sobre o Topo da hierarquia da Igreja Católica E é uma crítica, uma frosz crítica A esse topo da hierarquia E Tem voz Uma fuga
Voz, que eu até diria que não é usada de uma maneira cantada, o Zeca não canta, o Zeca diz, profere estas palavras e tem apenas percussão a acompanhar. Tem pratos, eu também apanhei uns xilofones, umas maracas. E a pergunta que tenho para ti é muito crua e muito simples. O que é que tu achas disto? Isso não vale! Eu nem te vou perguntar o que é que tu achas desta canção, eu vou-te só perguntar o que é que tu achas disto.
Olha, uma coisa que acho é que não é uma canção, de facto. Ou seja, no sentido em que, claro que é uma música com uma pessoa a cantar num certo sentido vago, mas no sentido em que formato canção não é, não tem. É uma coisa mais parecida com um sermão.
E é isso que o Zeca está a tentar imitar. Claro, exato. E honestamente acho a canção mais estranha do Zeca que eu conheço. Completamente. Esta canção é mesmo muito estranha. E não sei muito bem o que fazer dela, porque mesmo tentando perceber o texto, o poema, se lhe quisermos chamar assim, é porque depois ainda é isso. Isto também não é claramente um poema. Ou seja, não é claro que isto seja um poema. Em que sentido? Desculpa, é um sermão.
Mas também não é um sermão, isto cai num espaço muito estranho. É um pastiche de um sermão. Exato. Mas, ou seja, não sei se é um poema no sentido de um pastiche de um sermão, pode ser um poema eventualmente, mas não sei se é. Ah, sim. Ou seja, tem um lado de experimentalismo que é mais diferente do que a gente tem visto até agora. Sim, sim, sim. Que é sem dúvida engraçado, mas ao mesmo tempo eu tenho muita dificuldade em perceber quem é que está a falar e quais é que são as ideias que estão a ser transmitidas porque não encontram uma coerência.
Tens dificuldade em perceber as ideias que são transmitidas? Sim. Dá-me exemplos. Oh pá, estou a pensar sobretudo aqui no fim. Por exemplo, há esta menção ao Camilo Torres. Uhum.
que é um padre católico e guerrilheiro colombiano, que morreu enquanto numa batalha, e é, pertenimento, um dos precursores da teologia da libertação. Portanto, é um padre, mas é de esquerda. E, portanto, já lá vem o Camilo Torres com o seu fuzil a sangrar.
Portanto, aqui parece-me haver uma espécie de aviso, portanto, seria na voz de um arcebispo, um aviso, cuidado com os vermelhos, que são refletidos dessa forma antes, já aí vêm e já estão a ameaçar a própria igreja. E depois segue para Igreja dos Privilégios, mataste o Cristo a galope. Também Franco, o assassino, mandou benzer o garrote.
É, acho que é simples, é só o Zeca alterna entre o bispo a falar, ou o arcebispo a falar, e ele, Zeca, a criticar a igreja diretamente. Mas não há nada na canção que lhe indique isso, na forma de falar barra cantar do Zeca, não há nada que... É o tempo verbal, não é? Quando ele começa com, pregais o Cristo de Braga, fazeis a guerra na rua, sempre virados para o céu, sempre virados para a Virgem, é Zeca a falar.
E, de resto, eu tenho uma versão da letra que tem aspas quando o padre fala. Que é quando fala latim, quando diz a medicina é teia, não cuida da salvação. De resto, não sei se há qualquer coisa na maneira como o Zeca diz estas partes que fica ligeiramente diferente. Mas quando fala latim... O... abre anúncio e o vada é retro. Isso é português?
Abre anúncio, vá de retro. Abre anúncio? Abre anúncio é tudo junto. É uma interjeição. Entretanto, a minha letra tem separado, mas é entretanto o priverandismo que é uma interjeição que desde... Olha, vês? Leio os russos novecentistas, mas não sabia que isto era português. Portanto... Mas o que é que quer dizer abre anúncio? É uma interjeição de rejeição. É como vá de retro.
Ah, ok. Ah, está bem. A versão que eu tenho da letra, retirada mais uma vez e como sempre, da Associação José Fonse, tem algumas aspas, mas não são coerentes. Por acaso, o abrenúncio e o vado retro aparece, entre aspas, numa parte, e noutra parte já não.
Mas isto não me parece nada difícil de perceber a mensagem deste texto, desta canção que lhe quer chamar. Parece-me até nem ter mensagem, por ser tão direto. Uma mensagem implica que as coisas estão dita de certa maneira a que se queira dizer uma outra coisa, não é? E aqui está-se a dizer o que se quer dizer.
que é esta igreja reacionária que está, bem, ferozmente contra os vermelhos e que os quer perseguir e matar.
Sim, eu também acho que no geral é um bocado isso. É o Zeca aqui a denunciar o papel que a Igreja, e se calhar mais do que a Igreja no certo sentido clara, ou seja, é o anticlericalismo do Zeca. É um bocado a denunciar o papel que teve no fascismo. Mas eu também me pergunto sobre isso, sobre esse anticlericalismo, porque eu não sei se é total. Ele fala de Padres Vermelhos e que os ouve.
E há, claro, uma tendência de certa maneira de esquerda dentro do próprio catolicismo. Quando ele diz, Igreja dos Privilégios mataste o Cristo a galope. Acho que está a falar disso. O que ele está é contra o topo da hierarquia. Ele está contra os arcebispos.
Pois, e o papel que a igreja teve durante o Estado Novo e continuou a ter? Porque também parece que há aqui uma... É, sim, isso também parece, sim. É.
Uma coisa que é engraçada, eu encontrei, eu procurei, eu tenho até de procurar umas coisas sobre esta canção, canção? Chama-lhe canção? Pronto, esta música. E encontra-se muito pouco. E uma coisa que encontrei num artigo do site, por assim dizer, Altamonte, escrito pelo Duarte Pinto Coelho sobre o disco, era uma frase, mas que eu achei interessante, porque não tinha pensado nisso, que diz o seguinte, ilusoriamente despida a saber...
Ilusoriamente despida, arcebispíada, é falada qual sermão, mas tem por baixo uma série de sons de chuva africanos. Eu não consegui encontrar grande coisa sobre sons de chuva, mas de facto há esta... Eu sei que há estes instrumentos africanos que fazem sons...
que lembram o som das chugas. Aliás, eu tento pensar, na verdade, provavelmente em instrumentos australianos, mas não sei, mas percebe-se de que é que se está a falar, e ele está claramente a falar da parte musicalmente mais interessante, se calhar não sem dúvida, musicalmente mais interessante desta canção, que é a percussão, da qual ainda faz sentido se calhar falar mais, mas...
O que eu achei que interessante é realmente, depois de ler isto, eu voltando a ouvir a canção, pensei, realmente há aqui qualquer coisa de africano na produção. É, eu também acho. E aí faz-me pensar noutra dimensão desta crítica que o Ezequiel está a fazer, que é o papel da igreja nas antigas colónias.
E diga-te-lhe as colónias de propósito, para juntar o tempo em que eram colónias e... Certo, certo, certo. Está boa, não iria tão longe. Percebo o que eu possas dizer, mas como o texto é tão direto e tão in your face, porque é que ele também não o poria no texto? Mas está lá, está lá com o Camilo Torres.
a Colômbia não foi uma antiga Colômbia mas faz parte do fulgo global, para agora usarmos uma pessoa na crónica e é um guerrilheiro pois pois por isso é que eu digo, ou seja, se ele fala no Camilo Torres é porque reconhece que houve uma parte da igreja e nós vivemos num tempo em que o Papa se posiciona contra o Trump eu por acaso agora pergunto-me se isto terá sido escrito antes ou depois da morte do Padre Max, mas eu acho que é antes bom dia
Não, o padre Marx não morreu logo pouco tempo depois do 25 de Abril. Eu julgava que sim, mas agora há pouco tempo tive a sensação, parece-me ter visto qualquer coisa que falava do... Ah, não, não, sim, foi dentro de ter sido, claro, isso foi... 76, 76, claro. Bem, e o... E já falámos do Lipir de Freitas, não é? Que foi padre. Os exemplos não são curtos dentro da Igreja Católica. O Fanhais, claro.
E eu agora ia dizer qualquer coisa que me esqueci, mas já me lembrei. Boa. Pronto, já fizemos esta pequena apresentação da canção, já falámos sobre o texto e sobre a percussão. Dissemos que era uma canção muito estranha, eu concordo. Faz-me lembrar uma ou outra, vê se concordas, que é a Vô Cavernoso. Sim, sim, sim, sim.
E que também tinha uma espécie de crítica velada à igreja, não sei se te lembras, falámos disso na altura que havia lá uma personagem qualquer que poderia ser o cardeal de Sergera. Era o cabelo, pá, como é que se chama? A Tonsura? Tonsura. Poxa, já ganhei mais um ponto, já está... Fogo, infelizmente, isto está a ser uma tareia. Mas ainda assim, eu não... O Zeca que me perdoa, eu não gosto nada desta canção.
E há mais um ponto, desculpa, já vou comentar o ponto central, mas há mais um aspecto no qual é parecido com o Avô Cavernoso, que é o Avô Cavernoso tem aquela coisa cantada, mas numa só nota, portanto, naquela espécie de monocórdica. Sim. E aqui também no Abra não se o Vá de Retro, também tem uma coisa parecida com isso mesmo musicalmente a essa afinidade.
Sim. Ou seja, no geral há, mas nesse aspecto particular. Sim. Mas sim, epá, eu também isto não é bem a minha praia. Agora, mas eu acho que há muito valor no que está a ser feito na textura que está por trás da voz do Zeca. Ou seja, isto é daquelas coisas que eu acho muito bom. Pá, acho incrível eu ter feito isto em 78. Este grau de experimentação. Vindo de uma pessoa que, lá está, tipo, é isto que é genial no Zeca. Começa no fato de Coimbra e, tipo, em 78 está a fazer isto que não sabemos bem o que é que é.
Sim, sim. E está a explorar texturas na percussão e diga-se que eu não... Lá está, não se consegue perceber ao certo quem são os instrumentistas que fazem o quê, mas parece que o Michel de Laporte é um deles e continua a estar aqui ainda, não é? Sim, este é o último em que ele participa, portanto, o Se Caderes foi tudo Michel, esta percussão. Eu aparecia acreditado na plataforma de ouvir músicas na qual eu ouvi... Portanto, aparecia a Zeca Afonso e Michel de Laporte.
A plataforma de ouvir músicas, muito bem. Exatamente. Isso faz-me lembrar, desculpa, estes parentes.
quando os cartões de crédito começaram a... podias não ter de inserir o cartão de crédito para pagar nos multibancos, num restaurante ou assim, e o termo universal foi adotado também em Portugal, o contactless, e fui a um restaurante uma vez em que a pessoa que estava a servir à mesa disse É de encostar!
É bem gostar, exato. E é a tradução de contactless para português. No meu caso, na Música Maçã, eu na Música Maçã parecia acreditado o Michel de Laporte. E eu acho...
Faz sentido haver... há uma cabeça aqui a pensar nesta textura, não é claro? Sim, sim, sim, sim. E é genial. O xilofone, creio eu, que está do lado esquerdo, mas do lado direito há outra coisa parecida com o xilofone, portanto um instrumento de percussão melódico, mas que não me parece um xilofone, então é outro tipo de xilofone. Eu acho que parece-me ser outro tipo de xilofone, sim.
Ou um xilofane preparado, com alguma coisa que altera o timbre, não sei, como fazem com os pianos. É preparado que se diz, agora estou a ter uma branca. Olha, não sei. Sim, creio que sim. Mas, para os pratos que aparecem de vez em quando...
as maracas que tu já mencionaste pá, criam eu acho que contribui também, esta textura toda contribui para te deixar um bocado em dúvida sobre o que é que está a acontecer isto não corresponde a nenhum ou seja, a referência mais direta que eu consegui encontrar depois de ler esse tal artigo, é realmente uma atmosfera influenciada pela música africana porque de resto este o universo, ou seja há aqui um aspecto de world building como é que se diz? Construção de mundos
No termo em português não sei. Ou seja, estás num universo próprio desta canção, mas que não é nada, não consegues perceber o que é que é. Porquê é que há de estar um arcebispo a pregar, mas depois, na verdade, as coisas que ele está a dizer, na verdade, vêm da voz do Zeca. Pronto, o Zeca aqui é entendido como um sujeito poético. Sim. Ou seja, eu acho que continua um bocado para toda esta estranheza que isto tem, que não chega a ser cómico, mas também tem qualquer coisa... Não sei, meio sarcástica. Sarcástica, sem dúvida. Sim, sim, sim.
Pois, pese embora isso, essa experimentação inventiva que ele estava a fazer, o uso engenhoso que o Michel de Laporte fez da percussão aqui, ainda assim, eu acho que há qualquer coisa nesta canção... Por um lado, a crítica ser tão... In your face, como eu estava a dizer, tira-lhe um bocado o encanto, e esta...
É um bom exemplo para mim de uma canção de intervenção em que o Zeca não consegue fazer aquilo que fez noutras, como os fantósticos de Kissinger, como... Bem, uma de que falámos aqui, um homem novo veio da mata, que é falar de coisas muito diretas, ser panfletário sem o ser. Eu aqui acho que ele é mesmo só panfletário. E a sensação que tenho a ouvir esta canção é...
Eu, enquanto ator, fui muitas vezes a muitos espetáculos que não se sabia o que era. Era só, olha, aqui está isto em cena, vamos ver o que é. E entras na sala e o espetáculo começa e há logo alguma coisa que é assim muito, muito má. E tu ficas, epá, será que vai ser isto? Vai ser isto o espetáculo inteiro? E depois passa mais um bocado e fica pior. E pior. E depois fica tão mau que fica bom. Que... E depois fica...
dá essa volta. E eu fico com esta sensação ao ouvir esta canção. Sim. Por causa da crítica, a qualidade da crítica parece-me tão panfletária.
Mas eu por acaso, eu discordo dessa parte, pá. Ou seja, eu percebo um bocado aquilo que está a ser, até mesmo ali está o Rio, quando ele diz, a mim quem me vence é o patrão, ou alguma coisa assim no fim. Tem essa coisa, é meio, pronto, é panfletário, mas fica ali bem, de alguma forma faz sentido. Pelo menos eu gosto. Eu aqui por acaso não acho, ou seja, a minha crítica para esta canção, não é, eu aqui ia mais um bocado... Os vossos novos clientes, além do pido e do bufo.
Mas quem é que está a falar? O Zeca! A chamar clientes aos crentes. Exato. Novos clientes. Em 78 não havia propriamente uma grande adesão à Igreja Católica em Portugal. Eu não sei o que é que se está a falar. É a sensação que eu tenho. Ele está exatamente a falar disso. Está a dizer que a Igreja Católica trata os fiéis como clientes. Além dos novos. Ou seja, o PIDE e os bufos. Esses são novos clientes. Esses já eram antigos.
Pois, exato. Os vossos novos clientes, além do Pido e do Bufo. Mas quem são os novos clientes? Amigos do usurário. Além do latifundiário. Mas espera, mas quem é que são os novos clientes? Percebes? É isso que me deixa confuso aqui. Está bem, mas acho que estás a entrar em minudências do poema. É pá, pois, mas eu não... Ou seja, estou, mas eu não acho que isso seja... Percebes? Eu acho que não é por acaso. Eu acho que o Zeca...
Eu aqui vou mais ao encontro daquilo que o B. Fachada dizia no sentido do Zeca...
de pôr na situação, mas não te indicar numa direção para ir. E eu acho que ele está a fazer isso aqui. Ou seja, ele está a... Ele indica várias direções, mas elas estão feitas de uma forma, e com esta percussão acho que contribui para isso, que eu não sei ao certo qual é que é a natureza... Imagina, eu acho que a natureza da crítica é, sim, aquilo que tu estás a dizer, de criticar a igreja neste sentido e tudo mais. Aliás, acabei de dizer isso aqui. Mas...
isso parece-me, apesar de tudo, uma descrição geral da crítica que ele está a fazer, mas eu sinto que há outros aspectos do poema que eu não percebo como é que se encaixam nessa crítica, qual é exatamente o ângulo. Isso não parece por acaso. E eu concordo com essa ideia do B Fachada e aquela frase do Zeca, é uma frase famosa sobre isso, de que as canções não devem indicar o caminho.
apareceu-me agora também no 25 de Abril, à frente, e estou totalmente de acordo com ela. Há vezes em que ele é mesmo direto, há vezes em que ele é mesmo bavultário. E eu acho que este é dos exemplos mais crus disso. A Santa Cruzada Manta, matar o Chib Vermelho. Mas aí é o ex-bispo a falar, ou não? Não, eu acho que isto é o Zeca.
É o Zeca a dizer que é o que a Santa Cruzada, a Igreja, manda fazer. Contra a foice e o martelo, contra a alfabetização, curai de ganhar agora os vossos novos clientes. Precisas agora de novos clientes, que são os reacionários. Já tens o PID, já tens o bufo, amigos do usurário, além do latifundiário, amigos do capelão. Mas depois abre-no um civado de retro, querem vender a nação.
Pois, esta parece-me ser a parte do Arcebispo. Mas é o mesmo tipo, o Zeca não diria o Chibo Vermelho, não é? Ou seja, aí já há pelo menos discurso indireto livre. Sim, sim, sim, exatamente. Mas o que eu acho também aqui engraçado é que contra a foice e o martelo, contra a alfabetização...
E isto é engraçado, porque lá está, contra a foice e o martelo, parece uma perspectiva completamente exterior ao movimento socialista em Portugal nesta altura, depois de 25 de Abril. E o que o Zeca diz ao pôr logo a seguir contra a alfabetização é dizer que as pessoas que estão acima a ser designadas como a foice e o martelo, na verdade, são as que estão a dinamizar a alfabetização em Portugal. E para estes padres e ar-sebispos reacionários eram.
Mas na verdade nenhum padre ou arcebis vai dizer que vai ser contra a alfabetização. Vai ser contra a foice e o martelo e o Zeca está a dizer que ao serem contra isso são contra a alfabetização. Não, eu acho que não. Eu acho que alguns eram contra a alfabetização. Epá, mas talvez... Eu acho mesmo que sim. Não sei, pá. Eu acho que são aqueles que estão contra a medicina. A medicina é teia, não cuida da salvação. Epá, mas alguém diz isso.
Não sei. Eu... parece-me que sim. Não me espanta nada que... Epá, epá, epá, sei lá.
Em 72 fôssemos encontrar pregações em que se dizia isto. Pá, talvez, não sei. Mas pronto, o que eu acho... Ou seja, eu concordo com a crítica geral, mas eu acho que realmente isto é... Mesmo o texto é tão estranho e parece-me ter tantas vozes que eu fico mesmo assim sem perceber ao certo... Porque é que o Zé que está a tentar dizer... É pá, num certo sentido eu sei o que é que ele está a tentar dizer, não sei, olha. Pois. Mas sim, mas é pá, não vou ouvir esta canção.
Quando me apetece ouvir o Zé que não é bem esta canção. Claro, claro. Mas ainda bem que ele fez.
Sim, sim, sim, ainda bem que fez e pronto, a minha posição mantém-se esta canção. Não sei se tem assim um lugar predileto nas minhas menos preferidas. Não vai estar no teu top 3 do disco. Bem, olha, digo-te, se o Pinochet concordasse, já em Fátima haveria mais de 30 mil vermelhos a arder de noite e de dia. Estás a ver esta? Se o Pinochet concordasse, o que é que o Pinochet tem a ver com Fátima?
Então é a ligação. Bem, o Pinochet, famoso ditador chileno que mandou matar socialistas e comunistas a torto e a direito, não é? Eu não li tanto esgosto como tu, mas sei que é o Pinochet. Não, não, não. Estou a dizer o que é que o Zeca está a dizer. Estou a brincar. Estou a brincar. Ou seja, este parece-me ser o grau de crítica do Zeca. O Zeca está a dizer que estes padres, estes arcebispos, estão, como o Pinochet, prontos para matar...
Vermelhos em Fátima. Mas não é o que está aqui escrito. O que está aqui escrito é se o Pinochet concordasse. Sim. Mas o Pinochet concordar ou não, não tem nada. O Pinochet não tem influência sobre Portugal. Sim, parece-me ser só uma referência àquilo que o Pinochet fez. Ok, mas então porquê que o Zeca diz assim? Esse é o meu puzzle. O meu... Como é que se diz? O meu... A tua dificuldade. Com esta canção.
Não consegues ouvir se o Pinochet concordasse e tirar daí o sentido que eu lhe estou a pôr. Há uma referência àquilo que se passou no Chile. Sim, eu concordo com isso. Eu só acho que o Zeca pôs assim por alguma razão e eu não consigo perceber qual é que é essa razão. Porque é que ele optou por pôr assim e não de outra forma. E métrica não responde. Métrica não responde, não. Pronto, é só isso. Porque é que isso me deixa tão confuso.
Pois pá, a tua confusão que estás neste momento a ser atacado por um cão. Também o facto de haver um cão a tentar atacar não está a facilitar. Mas bem, é uma incógnita para ti, para mim não é, parece-me óbvio o que ele está aqui a fazer e esteticamente não acho a coisa mais interessante do mundo para o dizer com o eufemismo. Mas boa percussão.
Mas boa percussão. Olha, pronto. Esteticamente não é a melhor coisa que tu fizeste, Zeca, mas boa percussão. É esta a nossa review desta canção. Tens alguma coisa a acrescentar? Não, acho que podemos fechar. Muito bem, então ficamos aqui com... Neste Arcebispiada. Para a semana vamos falar sobre a sexta canção do Enquanto à Força, em que vamos ter um convidado.
É verdade, portanto, para a semana é um episódio especial e juntei-se a nós para a Barracas de Ocupação. Até lá, já sabem, se nos quiserem escrever, podem fazê-lo para cadaesquinapodcast.com ou deixar-nos um comentário no Spotify em que os outros ouvintes também podem ver e pronto, que é isso assim, uma espécie de fórum. E pronto, nós embora não respondamos, nós vemos os vossos comentários. Obrigado por nos escreverem. E vamos responder. Esse dia chegará.
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Mandou vencer o garrote.
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