nano#3. Quarentena
É realmente tão necessário quarentenar peixes novos? E quais peixes eu devo quarentenar? Neste episódio nano eu trago alguns argumentos bons (espero) para falar da importância e da razão de se quarentenar novos peixes - embora boa parte dos hobbystas sequer tenha estrutura para isso (meu caso, inclusive).
Speaker A
- Quarentena e o peixe discoAcaradisco · Muco dos pais como 'leite materno' · Epiderme sensível do disco
- Importância da quarentena de peixesInfecção cruzada por floras bacterianas diferentes · Protozoários e patógenos invisíveis em peixes · Estresse do transporte e vulnerabilidade do peixe
- Estresse como Mecanismo de DefesaLiberação de cortisol · Redução da atividade imunológica · Janela de vulnerabilidade
E aí, pessoal, tudo bem? Aqui vai mais um episódio nano do podcast Aquarismo para Todos. Espero que vocês estejam com bom astral, né? Eu tô gravando esse aqui depois que o Brasil foi eliminado pela Noruega. Não vou entrar em futebol aqui, mas para muitos a vida segue, e para a gente também. Mas é aquilo que eu falei, não vou mudar minha a minha pausa, porque logo depois vem as minhas férias. Então podcast mesmo no formato tradicional volta só em agosto mesmo, mas ainda dá tempo de fazer mais um episódio nano com uma coisa que sempre me perguntam aqui no dia a dia.
E eu resolvi ir a fundo e achava que valia a pena fazer um tiro curto aqui com vocês, que é quarentena, né? Muita gente fala de quarentenar peixes como uma boa prática, embora a gente sabe que nem sempre É uma coisa viável, dependendo do hobbista, de quem for. Para as pessoas que só têm, de repente, um aquário, só o aquário principal, você ter uma estrutura só para receber peixes para ficar um tempo ali observação, alguma coisa assim, será que é possível?
Será que é importante? E aí as pessoas vêm com um certo desdém isso daí. E ao mesmo tempo, quando tem alguma perda, as pessoas pensam assim, poxa, Então quer dizer que para ter peixe eu tenho que ter essa estrutura? Pô, é muito mais investimento do que eu pensava. E aí resolvi entrar um pouco mais a fundo disso aí, né? E aí eu quero trazer para vocês um pouco de por que que existe essa figura da quarentena, e especialmente é os casos que mais se aplicam, né?
Primeiro ponto é, pô, será que eu preciso quarentena porque os peixes da loja são ruins? Será que eu tô comprando no lugar errado? Não necessariamente, tá? É óbvio que você tem que escolher a loja que vocês compram seus peixes e você tem uma loja confiável. Mas a principal razão de você fazer quarentena é que às vezes, porque assim, todo aquário, naquela microbiota do aquário, ou seja, naquele ambiente, você tem uma determinada, um determinado conjunto de bactérias que habitam aquele lugar.
Tem uma determinada flora bacteriana. E aí, muitas vezes, por melhor que seja assim o manejo do teologista, e às vezes o manejo é impecável, muitas vezes melhor do que o nosso, eles têm floras bacterianas diferentes. E o que acontece? Às vezes os peixes que estão naquela loja têm defesas para aquelas bactérias daquela flora daqueles aquários E quando vem para o nosso aquário é uma flora bacteriana completamente diferente. Não significa que o seu manejo é pior ou que alguma coisa relacionada ao lojista, é só porque é diferente.
Então nesses casos o peixe vem de outra realidade no final das contas, né? E no muco dele vem aquelas bactérias. E aí às vezes acontece o que a gente chama de infecção cruzada, ou ele traz uma cepa de bactérias diferente no muco dele que infecta os peixes do seu aquário, ou o seu aquário tem uma determinada flora de bactérias que infecta o peixe que você comprou, né? E aí isso, quando é uma forma abrupta e também aliado a um estresse do transporte, da captura e transporte, você pode ter um problema, né?
Então com isso, é a principal razão é essa. Agora, realmente isso acontece sempre? Não necessariamente, tá? Uma outra coisa que pode acontecer em determinados casos é que você pode ter algum protozoário, algum outro patógeno invisível naquele peixe. Ele tá ali, parece saudável, não tem como você detectar se ele tem, tá portando alguma doença ou não, por conta disso tudo, aquela flora, aquela coisa ali. Às vezes ele já tá doente, mas não tá dando sinais aí ainda, né?
Acontece muito nas doenças mais comuns, que é no caso de Oodinium e Ichthyo. Oodinium é aquele veludo que dá, né? E até costíase também, tem uma coisa que é um caso protozoário externo, né? E o íctio, aquela bolinha branca, às vezes traz nele e traz para os outros peixes. Ou então já tem no teu sistema, só que nunca chega a infectar. Aquele peixe que você compra, ele sofreu estresse do captura e do transporte, ficou naquele saquinho, então ele já vem imuno, imuno suprimido, ele vem com imunidade mais baixa.
E quando entra, quando entra no teu aquário Aquele protozoário que não infecta os teus peixes infecta o peixe que tá com imunidade mais baixa. E aí você tem esse problema de doença. Às vezes não é culpa da loja, ele não veio doente da loja, às vezes já tá no teu sistema e você não vê. Ele nunca infecta ninguém por conta do equilíbrio dele, tá? E aí, no caso de você fazer uma quarentena, você consegue observar um tempo, fazer o que chama de uma barreira sanitária.
Você observa ali e tal. Aí, em alguns casos, as pessoas Faz algum tipo de tratamento para poder limpar. Eu particularmente prefiro selecionar de onde eu compro, então dificilmente eu compro peixe em lugar que eu nunca vi na vida. É assim, há muito tempo que eu não— também que no Rio de Janeiro, onde eu vivo, não tem tantas lojas novas assim. Aí as que eu compro já há algum tempo eu já conheço, conheço as pessoas, converso, e não é por causa do podcast, eu já conhecia, entendeu?
Então não tem tanto problema com isso. Tá, agora, antes de eu falar dos casos especiais, vou falar aqui o que que acontece, como é que é essa vulnerabilidade do peixe, como é que é o mecanismo de estresse do peixe, né? Quando o peixe ele é capturado, colocado no saquinho e transportado e vai para o novo ambiente, às vezes com um choque de temperatura, o organismo dele, por conta do estresse, começa a liberar altas doses de cortisol, né, que é um hormônio, né?
E aí isso acaba indo para água, aquela coisa toda. E com isso, com essa, com esse estresse A ação desse cortisol é reduzir a atividade dos macrófagos do sistema imunológico dele, e isso cria uma janela de vulnerabilidade. Geralmente esse estresse, o peixe demora em torno de uma semana para se recuperar do estresse do transporte. Então se for um peixe mais frágil, esse uma semana é o suficiente para ele cair no teu aquário, pegar uma coisa diferente e ter algum problema sério, né?
Claro que tem os peixes mais fortes, peixes mais fracos, né? Nessa linha, né? E assim, aí dependendo do tipo de peixe que você tem também, né? Tem alguns peixes são mais sensíveis do que outros, tá? Qual que é o peixe que me fez pensar nessa pauta e trazer para vocês? Claro, acaradisco, né? O acaradisco é um peixe que muitas vezes você pode ser o melhor vendedor do mundo, você tem um aquário mais perfeito do mundo, você tem um problema por conta dessa infecção cruzada.
E eu falo isso porque eu tive esse problema no ano passado. Ano passado eu tinha Eu tava com 3 discos aqui em casa, 3, 4 discos aqui em casa. Comprei mais 2, né, de um cara super confiável. Os que eu tenho, super confiáveis também. E de repente todos eles, os do meu aquário e os que eu comprei, ficaram doentes. Ficaram todos escuros lá em cima, nadando torto. Tipo assim, parece que eu ia perder os 2 peixes. Eu não conseguia entender isso até que me explicaram esse mecanismo da infecção cruzada.
A flora bacteriana dos peixes que vieram infectou os que estavam no meu aquário, que não tinha resistência para ele, e a flora bacteriana do meu aquário infectou os peixes novos. Então assim, tive um, assim, uma tempestade perfeita, e eu tive que separar esses peixes. Aí eu não tenho um aquário de quarentena, então eu monto um aquário de quarentena quando nesses casos eu peguei um uma caixa organizadora, coloquei água e fiz um tratamento para poder limpar esses peixes.
Normalmente tem N tratamentos, não vou recitar tratamento, mas é basicamente, eu coloquei sal grosso na água, então quantidade X de sal grosso que ajuda a limpar, e alguns medicamentos que me foram indicados por um especialista para poder fazer a limpeza. Ficou uma semana, os peixes ficaram tinindo, voltaram para aquário, estão bem até hoje, estão super ativos e tal. Isso foi o que, foi o que Foi a medida que funcionou. E aí isso me deixou muito curioso para saber por que especificamente o acaradisco tem essa coisa.
E eu fui buscar alguns artigos até, né, e eu vi que assim, não é simplesmente o machismo, não é porque o disco é um peixe frágil, pelo contrário, é resistente. Mas existe uma característica nos acaradiscos que deixa eles suscetíveis a esse tipo de ação de bactéria e ação de parasita externo, que é justamente uma das coisas mais encantadoras do disco. O disco, quando ele ocorre desova, os filhotes nos primeiros, sei lá, 15 dias de nado livre dos alevinos, das larvas, não sei o nome correto, alguém pode me corrigir, mas tudo bem, eles se alimentam do muco dos pais.
E aí existem estudos científicos, tá? Eu peguei um estudo publicado em 2010 por Buckley, Mounder, Foy, Pierce, Zloman e sei lá mais quem, que o nome do estudo é Biting the Mother's Back: Patterns of Parental Care in Amazonian Discus Fish, que é específico estudando o muco dos discos, porque que ele é tão importante. E aí esse estudo ele traz a seguinte informação: o muco deles é tipo, entre aspas, leite materno dos discos. Então tem anticorpos, proteínas e hormônios que ajudam filhotes a se desenvolverem nesse inicinho até ele conseguir comer e tal.
Só que pelo fato desse muco ser especial, a epiderme, a estrutura de epiderme dos acaradiscos é mais sensível e fica mais vulnerável a esse tipo de patógeno. Por isso que muitas vezes determinados peixes você consegue colocar direto no aquário, e o acaradisco você corre muito mais riscos nesse caso. Mas não é porque ele é mais frágil, porque é uma característica específica do acaradisco, você tem que ter um pouquinho mais de cuidado.
Existem outros 1, 2, 3, 4 artigos que falam isso, né, que falam sobre essa questão da epiderme dos discos. Mas eu quis só deixar esse exemplo, tá? Isso é basicamente de 2005 para cá, estudos interessantes. O objetivo aqui não é me aprofundar, senão não seria nem um nano, né? Mas é só para ver que assim, não é simplesmente machismo, papo de vendedor. A cada disco realmente ele requer uma quarentena ou uma maior atenção no início por conta de uma característica dele, morfológica dele, por conta da espécie mesmo, por conta desse cuidado parental.
Então ele tem uma pele mais vulnerável a protozoários e parasitas externos e ataques bacterianos, tá? Os outros peixes, assim, é sempre bom, né? Como eu falei no início, é sempre bom. Mas eu, por exemplo, não faço aqui em casa. Eu tive pouquíssimos problemas. O único peixe que eu tive problema, o disco, e foi por conta disso que eu contei para vocês, tá? Espero que tenha ajudado a esclarecer essa questão das quarentenas. Tá? Se quiser mais, tiver mais ideias de outros episódios, eu tenho ainda alguns aqui que eu quero falar, mas tiver outras ideias de episódios que eu possa falar em coisa de 10, 15 minutos, manda para gente aqui que a gente explora aqui no novo episódio do ano, mesmo depois quando entrar o segundo semestre mesmo de verdade. Ok, pessoal, um grande abraço e até a próxima!