Episódios de Renascença - As pessoas têm que se acalmar, imediatamente!

SUGESTÃO: O Código Farioli | O Pensador - Episódio 2

11 de maio de 202626min
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Foi em Florença que se fez filósofo. Farioli era um aluno discreto, daqueles que assistem às aulas no fundo da sala. No momento de concluir o curso, surpreendeu um dos mais experientes professores da universidade com uma proposta diferente: uma tese sobre como o guarda-redes é um filósofo.

Neste episódio, mergulhamos na tese “A filosofia do jogo: a estética do futebol e o papel do guarda-redes" e visitamos o filósofo Sergio Givone na sua casa-museu, onde há meio milénio viveu o pintor Rafael.

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Participantes neste episódio3
E

Eduardo Soares da Silva

HostJornalista
F

Francesco Farioli

ConvidadoTreinador de futebol
S

Sérgio Givone

ConvidadoFilósofo e professor
Assuntos6
  • O guarda-redes como filósofoGuarda-redes · Filosofia · Lev Yashin · Victor Valdés
  • Tese de FarioliA filosofia do jogo · A estética do futebol · O papel do guarda-redes · Francesco Farioli · Sérgio Givone
  • Filosofia e FutebolFilosofia · Futebol · Schopenhauer · Heráclito
  • A filosofia de FarioliFilosofia · Futebol · Aba absurdo, sequitur quodlibet
  • Mourinho vs GuardiolaJosé Mourinho · Pep Guardiola · FC Porto · FC Barcelona
  • Florença e o RenascimentoFlorença · Renascimento · Rafael · Michelangelo · Botticelli
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Está a ouvir um podcast de Renascença. A tese tem uma epígrafe. Sabes o que é uma epígrafe? Estamos a ouvir o filósofo e antigo professor Sérgio Givone. Ele passa-me uma pasta cheia de folhas e convida-me a espreitar.

Leio na primeira página, Universidade de Florença. Título, A filosofia do jogo, a estética do futebol e o papel do guarda-redes. Ano letivo 2011-2012. Orientador, Sérgio Givone. Candidato, Francesco Farioli. Tenho nas mãos uma tese de licenciatura. Ainda cheia de post-it amarelos com as anotações do professor. Ele pede-me para folhear até chegar à epígrafe, que é normalmente uma citação, um pensamento que introduz o tema.

De certa forma, é o que define o espírito da tese.

Nunca esqueceremos este dia. As emoções, as sensações, as imagens ficarão connosco para o resto da vida. Viver com más memórias é uma tragédia. Viver com boas memórias é o que nos dá força para continuar a lutar.

Sejam vocês mesmos, não percam a identidade. Joguem como uma equipa, lutem como diabos e vençam. Sejam vocês próprios, não percam a identidade. Lutem como diabos. De quem é o pensamento que inspira Farioli?

Vamos ficar a saber neste episódio, mas por agora, diga apenas que esse homem é hoje um dos maiores rivais do treinador do Porto. É inacreditável. O meu nome é Eduardo Soares da Silva e este é o Código Farioli, um podcast de Renascença. Episódio 2, O Pensador.

Sérgio Givone vive mesmo no coração de Florença, uma das capitais culturais da Europa. Foi aqui que começou o Renascimento. E é por aqui que passa a definição do espírito crítico de Farioli. Givone foi o orientador da Teste Francesco e convida-me a visitá-lo em sua casa para conversarmos sobre filosofia, estética e futebol. Calcio. O professor tem uma ligação inesperada ao Porto e até ao clube, mas isso só mais tarde descobrimos.

Dou por mim e estamos em frente à catedral, o icónico Duomo. Logo ao lado, a estátua do Porto Celino, um javali de bronze. A lenda diz que se lhe esfregar o nariz, atirar uma moeda e ela não ficar presa na grade, voltarei em breve à Florença. Outra meia dúzia de passos e chega à Piazza della Signora. É um verdadeiro museu a céu aberto. Uma cópia da estátua de David, Michelangelo, mais umas 20 esculturas e mil turistas americanos.

Logo à direita, eis a entrada da galeria Uffizi, uma das maiores coleções de arte do mundo. O nascimento de Vénus de Botticelli, a medusa de Caravaggio, obras de Rafael, de Giotto, de Leonardo da Vinci. Ainda tenho algum tempo livre antes de me encontrar com Sérgio Givona e tento a minha sorte. Eu sou jornalista. Você sabe se eles deixam jornalistas para gravar algum vídeo? Jornalista italiano, sim. Não, não. Só italiano. Muito obrigado.

Contento-me com uma pausa nas margens do ar de uma contemplar a Ponte Vecchio. É a última paragem antes de chegar ao destino final. Sérgio Givone, 82 anos. Dei aulas em Florença desde 1991 até 2014.

O meu último aluno foi o Francesco Farioli. E foi por isso que lhe atribuiu uma tese que não é exatamente filosófica, mas uma abordagem filosófica sobre futebol.

Sérgio está à meia-luz, ao fundo da sala, um velho relógio de pêndulo. Da janela vê-se a cúpula do Duomo. No escritório há uma secretária, dois sofás onde estamos sentados e todas as paredes estão preenchidas com livros e mais livros. Ele é um produto da Escola de Pensamento de Turim. Dedicou a vida a estudar o niilismo e a estética. Aprendeu com outros intelectuais como Humberto Eco, Luigi Parison e Gianni Vattimo.

Givone é também parte de uma instituição que gera o Centro Histórico de Florença. Trata da renovação dos monumentos e da divulgação dos eventos culturais da cidade. E, acima de tudo, tem como prioridade não deixar que Florença pare no tempo, que se torne apenas um ponto turístico, mas que continua a ser um foco de desenvolvimento cultural. Até a casa de Givone é quase um património histórico. Sabe quem foi o primeiro hóspede desta casa?

Não estou a dizer aqui mesmo. Não sou. Estas são pinturas modestas. Mas o Rafael viveu aqui desde 1504 até 1506. 1504 foi o ano em que acabou de pintar O Casamento da Virgem, uma das obras mais icónicas do Renascimento. Pergunto-lhe como é que a estética e a filosofia se podem aplicar a um desporto. Neste caso, ao futebol.

O Farioli explica isto muito bem, melhor do que eu consigo. Por trás da ideia do futebol, e o Farioli explica isto, há uma ideia de mundo.

Há beleza, há fracasso. Há o bom e o mal. Há solidariedade entre os jogadores. Há todo o mundo. O mundo como vontade e representação, disse Schopenhauer. O futebol como vontade e representação, disse Farioli. A beleza pode estar num golo.

ou na cúpula de Santa Maria del Fiore. Pode ser o David de Michelangelo. David de Michelangelo. Givona explica-me que estas não são ideias novas. Remontam aos primórdios da filosofia. É Heráclito, um pensador grego, conhecido pela ideia de que tudo está em constante mudança, que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, porque o rio e a pessoa já mudaram entretanto.

O mundo é uma criança que joga, que joga à bola. Não é futebol, os gregos não tinham uma bola de borracha, era de tecidos. O Farioli parte deste fragmento de Heráclito. O Heráclito era um filósofo e o Farioli é um filósofo.

É curioso pensar em Francesco Farioli desta forma. Para mim, Farioli é um treinador de futebol, o treinador do Porto. E desde o último verão que o ouço falar quase de 3 em 3 dias do trabalho defensivo de Kivior e Bednarek, do incansável Froholt, de como evoluiu Samu. Mas para Sergio Givone, Farioli não é nada disso. Farioli é um filósofo.

Ele vinha às aulas e ficava no fundo da sala, silencioso. Não era de conversar muito com os outros colegas. Era um miúdo discreto, tímido, mas gentil e muito linear e claro nas suas ideias. Givoni não se lembra de ter conversado com Farioli até o momento em que ele lhe entra pelo gabinete com uma proposta um pouco louca.

Um dia estava no meu escritório, na universidade, e fez-me um miúdo entrar. Era o Farioli. Muito tímido, tranquilo. Disse-me que queria fazer uma tese sobre a estética do guarda-redes. Eu perguntei o que é que significa isso e ele disse-me que tinha uma ideia.

Uma ideia filosófica. Eu perguntei porquê. Eu entendo a ideia da estética do futebol, no sentido da teoria filosófica, da sensibilidade, do jogo, da vida. Mas o guarda-redes? Os minutos que se seguem são de argumentação intensa. Conseguirá Francesco impressionar Givone?

mas o que leva um miúdo de uma pequena vila na Toscana ao gabinete de um professor de filosofia da Universidade de Florença, uma das mais antigas e mais prestigiadas do mundo.

Devo dizer-lhe isto. Para mim, a filosofia é uma coisa que ele herdou da mãe. O pai Máximo entrega os créditos à mulher. A minha mulher, Roberta, é uma mulher inteligente, que se interessa sobre tudo o que a rodeia. Gosta muito de ler, tal como o Francesco, e acho que esse foi um dom que a minha mulher transmitiu ao Francesco.

Quando Francesco decidiu o curso, os pais aprovaram. A filosofia é algo que realmente te abre a mente. Por isso, passas a ter um pensamento diferente e fez as coisas numa perspetiva e num modo diferente do de muitos outros estudos.

Em muitas conversas com antigos parceiros, a licenciatura em filosofia é apontada como definidora. É o caso do treinador Massimiliano Malhulho. Ele é licenciado em filosofia, sabias? Fez uma tese sobre a beleza do futebol. Para o antigo colega de equipa Francesco Pécchia, a escolha fez todo o sentido.

Ele sempre foi assim. Para ele nada era assim tão simples. Ele queria saber tudo sobre tudo. Foi essa sede de conhecimento que o levou a conseguir o inesperado. Voltamos à sala-museu do professor Giovanni. O ritmo da tarde continua a ser marcado pelo relógio. A cada meia hora, o pêndulo ecoa pela sala.

Ele disse-me que o guarda-redes conhece o segredo do futebol. O guarda-redes conhece o segredo do futebol. O que significa isso?

Sabe o segredo porque joga e não joga. Está no meio do campo, mas está fora. Porque ele tem uma visão diferente. Está parado e a equipa está a jogar noutros passos. Isso permite ao guarda-redes ter uma visão diferente, filosófica. E filosófica porquê? Porque o filósofo é o homem que participa, mas está fora. Observa e está envolvido. Entra na política e julga. O guarda-redes.

Entra no lago político, mas o judica. É de portaria. Inse e fora, ao mesmo tempo. Fora e dentro ao mesmo tempo. Givone deixou-se encantar por aquele rapaz. Que dia, disse, este garoto, não deu mal. A testa. Naquele dia eu pensei, este miúdo tem uma boa cabeça, é inteligente. E depois provou isso mesmo. Tema aprovado. Farioli vai para casa e põe-se a trabalhar até nascer a obra.

2012, Universidade de Florença. Filosofia do jogo, a estética do calcio e o rol do portiere.

Em que pensa Farioli? Ele diz que pedir a uma criança que se livre da bola, que é ferramenta essencial para o sucesso do jogo, é obviamente pedir a coisa mais sem lógica e de certa forma imoral que um treinador pode pedir de um jogador. E quem o inspira? De quem são as palavras que ouvimos no início do episódio? Sejam vocês mesmos, não percam a identidade como equipa. Joguem como uma equipa. Lutem como diabos e vençam. Isto é típico do Mourinho.

José Mourinho, o próprio. Uma equipa para chegar à final da Champions League. O dia 24 de maio de 2004. E que o Porto não é uma grande equipa em Portugal, é uma grande equipa na Europa. Final da Liga dos Campeões, Porto 3, Monaco 0. Porto são os campeões da Europa.

O triunfo de Gelsen Kirchner que levou Mourinho à glória do futebol mundial. E anos antes de sonhar que algum dia treinaria o Porto, Farioli citava José Mourinho. Na altura ídolo, hoje rival. E a vida pode ser engraçada porque anos mais tarde Farioli vai treinar o Porto e o Mourinho não está em Portugal, mas volta nesse mesmo ano. É inacreditável.

Farioli compara também Mourinho a Guardiola e lembrem-se que escreveu a tese em 2012 no auge da rivalidade Real Madrid-Barcelona. Intitulam-os de dois ideólogos de um novo futebol. À sua maneira, ambos são filósofos. Mourinho é comparado ao mágico Udini, que ilude o público com o truque das algemas. O Higuaín vai em banquilho. Não o queres saber? Queres saber do Pedro León?

É problema tu. Elogia-lhe a capacidade de se erguer como um homem honesto num futebol corrupto, preparado para assumir qualquer responsabilidade. Diz que Mourinho é o campeão das mil batalhas. E talvez até vejamos um pouco deste Mourinho no Farioli de hoje.

Já Guardiola é um grande chefe de cozinha, mas também um magnífico maestro. Fariola imagina o Barcelona daquele tempo como uma orquestra. Guardiola está no piano. O trompete é o boss. Aqui está o Messi. De dois, três, quatro... Maravilha, maravilha, maravilha! O que bom é ele? O defesa Puyol no trompete, para os momentos que precisam de choque. Os médios Xavi e Iniesta estão na flauta, ditam o tempo, o ritmo, a velocidade.

Já Messi toca a harpa, quando vibra as cordas, quando joga, dá forma, doçura, dá harmonia. Pergunta de Ivone se acha que Farioli é mais Mourinho ou mais Guardiola.

O Farioli é um estudante de todos. Tirou algo de todos os grandes treinadores do passado. Mourinho, Bielsa, o Sachi, aqui de Itália. Quando me perguntam qual é o estilo dele, eu digo que não tem nenhum. Tem muitos e adapta-os no momento certo.

Há ainda uma longa referência ao elegante médio André Apirlo. Recuperaremos essa passagem no outro episódio, quando os dois se reencontrarem num jogo na Turquia. A tese tem ainda um capítulo sobre o futebol moderno, cada vez mais programado, menos imprevisível, menos mágico. É preciso deixar espaço no futebol para a invenção, para a inspiração.

Para aquilo a que os brasileiros chamam de ginga. Vai, faz, não planeias, inventa. Como o Pelé fez no famoso Mundial. A ginga. Aqui em Piemonte, sem sabermos o que era a ginga, tínhamos uma palavra para isso. Gueto. É uma palavra piemontesa que quer dizer exatamente o mesmo.

O estro, como se diz em português, a invenção genial, a fantasia.

Isto é a invenção genial, a fantasia. Há um capítulo na tese de Farioli sobre isto. Ele diz que o futebol moderno será assim, não voltará atrás. Será cada vez mais meticuloso, mais programado, mais obsessivo.

A tese entra depois definitivamente no tema do guarda-redes. Começa por Yashin. É um mítico guarda-redes soviético, até hoje visto como o melhor de sempre. E segue com o espanhol Victor Valdés como protótipo de guardião do futuro. O guarda-redes como primeiro atacante, não como último bastião da defesa. Para Farioli, o guarda-redes aprende a viver com os seus medos. Com a responsabilidade do número que veste. É um homem solitário. E ser guarda-redes é um estilo de vida.

Aquilo é um verão de reflexão e muitas horas no computador. Em setembro, volta a bater à porta do orientador e entrega-lhe 108 páginas. Ele veio ter comigo em maio para combinar a tese. Normalmente, os alunos depois voltam, um pouco depois para correções.

Depois junho, depois as férias e nunca mais o vi. Não voltei a ver o rapaz até setembro, por isso não tive a oportunidade de lhe dar conselhos. Faz isto, não faças aquilo, corriges isto e aquilo, etc. Voltou em setembro com a tese toda feita terminada.

Fiquei irritado. Não realmente irritado, mas disse-lhe Como é que já fizeste a tese? É suposto dialogar, tocar ideias. Pensava que tinha de fazer o meu trabalho como mentor. Ele disse, de uma forma muito tímida, até um pouco desapontado. Fiz o que pude, professor. Leia. Se não estiver boa, faço novamente. Um pouco deluso. Mas eu fiz o que eu pudesse fazer. Professor, veja a lei. Se não vai bem, eu a refaz.

Farioli vai para casa e Giovanni começa a folhear. Lê uma, lê duas, lê três, até chegar às 108 páginas. Lia do início ao fim. Estava tão bem escrito, tão claro, com uma ideia tão linear e coerente. Ele voltou na semana seguinte, para ouvir a minha opinião, e disse-lhe que a tese estava boa assim. Só lhe fiz duas ou três sugestões, coisas pequenas. Isto sim, não é normal.

A apresentação corre bem, nota máxima. E depois, Givone perde-lhe o rastro. Só se encontra-o novamente em 2018. E é Farioli que o procura.

Tinha-me esquecido do Farioli. Nem sabia que tinha começado a sua carreira de treinador. Fui a Benevento dar uma palestra, acho que foi sobre Kant. E no público estava um jovem que não reconhecia a primeira. Ele no final da conferência foi falar comigo e disse Sou o Francesco Farioli. Farioli? O que escreveu uma tese sobre futebol? Sim, sou eu. O que fazes aqui a Benevento? Sim, sim, sou eu. Mas o que faz aqui a Benevento?

Ficam quase duas horas a conversar. Farioli conta-lhe tudo. Os anos a treinar nas divisões inferiores, a aventura no Catar, como convenceu o promissor treinador Roberto de Zerbi a dar-lhe uma oportunidade. São histórias que conto no próximo episódio. Já tinha desenvolvido outra aura nesta altura. Aquela presença de treinador. Penteado. Mas tirando isso era o mesmo. Ele é a prova viva de que a filosofia te pode dar uma vantagem.

Sérgio Givone já se encontrou com Farioli este ano, no Estádio do Dragão. Foi convidado para assistir à vitória do Porto frente ao Aroca no fim de Fevereiro. É uma coincidência, mas o antigo professor tem família portuguesa. A filha emigrou para o Porto e o neto é portista.

O que me surpreendeu foi que no final de junho o meu neto falou comigo e disse avô, o Farioli vem para o Porto. E eu disse-lhe, não, impossível, não há nada na imprensa italiana. Pediu-me, fala com ele, ele conta-te as novidades, ele adora-te. E eu mandei-lhe um mail. Espera, eu mostro-te.

Givonia vai buscar um tablet e mostra-me a troca de e-mails com Farioli no verão passado.

Professor, que gosto receber a sua mensagem. Pode dizer ao Gaspar, Gaspar é o nome do meu neto, que o professor Givoni, ou o avô Sérgio, conseguiu convencer-me mais uma vez. Será um gosto receber-vos no centro de estágios e num jogo.

Estava quase a despedir-me de Givone, mas falta uma pergunta. Há uma frase em latim, Aba absurdo, sequitur quodlibet. É quase um lema para Farioli. É tão importante que está na descrição das suas redes sociais, mas o que é que significa? É possível fazer, ao mesmo tempo, duas coisas completamente diferentes e contraditórias. É possível fazer, ao mesmo tempo, duas coisas completamente diferentes, contraditórias.

Filosofia e futebol não têm nada a ver uma com a outra. É absurdo fingir que se é filósofo e jogador de futebol ao mesmo tempo. Mas do absurdo vem o que realmente queres. A surpresa. O amor é surpresa.

A primeira vez que encontras o homem ou a mulher que amas, a primeira emoção é surpresa. Platão chama-lhe uma reminiscência. É absurdo. É perfeitamente racional. Ambos. Quem sabe?

Apresentar a tese foi o fechar de um ciclo. Francesco está pronto para enfrentar o mundo. Pronto para passar a ser farioli, filósofo e treinador. Absurdo, racional, os dois ao mesmo tempo. Termino com uma parte dos agradecimentos da tese. Foram escritos no verão de 2012.

É o início de uma viagem ainda indefinida e em parte desconhecida. Tenho a sensação de me estar a apresentar ao palco do mundo sem saber onde ou como estarei. Por agora, limito-me a agradecer-vos por terem estado ao meu lado, por me terem impulsionado e delineado parte do meu futuro. Orgulhoso de vocês, mas também orgulhoso de mim.

A licenciatura que está prestes a terminar, quero dedicá-la a mim mesmo, pelos quilómetros percorridos na procura de um futuro incerto, mas cheio de expectativas. Pelas refeições rápidas feitas no carro, entre um compromisso e outro. Pela força que tirei das desilusões e das grandes dores, mas também pela alegria das metas alcançadas. Pela serenidade da minha alma e, sobretudo, pelos ensinamentos que defendi com orgulho e firmeza.

Àqueles que, com o suor do seu rosto e a tenacidade das suas mãos, me permitiram estar aqui, a receber este diploma. Francesco Farioli No próximo episódio, mergulhamos no desconhecido com Farioli, no início da sua grande aventura.

Lembro-me de termos uma discussão grande sobre a posição do guarda-redes. A certa altura tive-lhe a dizer, faz como eu digo. Ele era muito convicto das suas ideias.

Mas ele era convinto de aquilo que ele disse. Alguns anos depois, num Benevento a Asi Milan, ele mandou o guarda-redes para o ataque e ele marcou o golo. E depois ligou-me nessa noite. Disse, Mr. Fisch, como tinha feito comigo, recorda-se? E eu disse, sim, lembro-me. Era o fato como nós tínhamos feito. Ele me chamou na noite e disse, te recordo? Digo, sim, me recordo.

Este foi o segundo episódio do podcast O Código Farioli. A ideia original, produção, entrevistas e guião são da minha autoria, Eduardo Soares da Silva.

A sonoplastia é da Beatriz Martel Garcia e do Diogo Casinha, com apoio técnico do Paulo Teixeira e José Luís Moreira. A concepção gráfica é do Rodrigo Machado. O apoio à produção é do Rui Leitão e Inês Braga Sampaio. A coordenação Bola Branca é do Luís Aresta e Hugo Tavares da Silva. A revisão e coordenação multimédia é da Catarina Santos. A coordenação editorial dos podcasts Renascença é da Maria João Cunha.

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O Código Farioli

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