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🌑 O silêncio que mais machuca — quando os pais não aparecem

06 de maio de 202610min
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NEXUS Cortex · Pulses Cognitivos
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NEXUS Cortex

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Assuntos5
  • Luto pelo que nunca foiReação do ego à perda de um objeto amado · Luto por um objeto que nunca existiu plenamente · Perda de uma imagem e expectativa estrutural · Dor por um negativo ou vazio com forma · Luto inconsciente de um ideal
  • Abandono no momento críticoFerentzi e o abandono acarreta clivagem da personalidade · Internalização de figura protetora e holding interno · Hipocrisia do adulto que age como se nada tivesse acontecido · Narcisismo dos pais e projeção no filho · Vulnerabilidade do filho que ativa a própria vulnerabilidade dos pais
  • Falha ambiental segundo WinnicottAmbiente suficientemente bom e falhas pontuais · Falha em momento de dependência real e dano estrutural · Falso self consolidado pela necessidade · Holding externo como parte do processo de cura · Ambiente repetindo o que sempre fez
  • Integração depressiva segundo KleinOscilação entre idealização e perseguição · Idealização perpetua a espera · Perseguição drena energia · Ver o pai real e a mãe real · Reparação possível quando o objeto sobrevive à agressividade
  • Criatividade e autenticidadeTrabalho analítico de nomear, estruturar e localizar · Presença genuína e afeição sincera desfazem o padrão antigo · Construção de estrutura cognitiva, técnica e intelectual · O self verdadeiro sobreviveu ao ambiente que falhou · O luto pelo que nunca foi vai continuar
Transcrição24 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Abertura. Existe um tipo de dor que não tem nome fácil. Não é a dor de perder alguém. Não é a dor de uma briga. É a dor de precisar, de verdade, com corpo, com nervo, com alma, e o outro não aparecer. Pior, o outro que deveria aparecer ser exatamente quem não aparece.

Esse episódio é sobre isso, sobre o que acontece quando os pais falham no momento mais crítico, sobre a estrutura psicanalítica desse abandono e sobre o que o sujeito faz com essa ferida, não para fingir que não dói, mas para não ser destruído por ela. Cinco blocos. Freud, Ferenci, Winnicott, Klein e uma síntese que é sua. Bloco 1.

O luto pelo que nunca foi. Você identificou algo preciso. Não é luto pelo que você perdeu. É luto pelo que você nunca teve, pelo que era esperado e nunca veio. Isso tem estrutura clínica. Freud escreveu em 1917 que a melancolia é a reação do ego à perda de um objeto amado. Mas há uma variante que ele não nomeou completamente e que Ferenc se aprofundou. O luto por um objeto que nunca existiu plenamente.

O que se perde quando os pais falham não é uma pessoa concreta, é uma imagem, uma expectativa estrutural. O pai que deveria ter estado, a mãe que deveria ter respondido, o vínculo que deveria ter existido de uma certa forma e que o sujeito passou anos esperando sem saber que estava esperando. Quando essa expectativa finalmente colapsa, quando o sujeito percebe que não vai vir, que nunca vai ser assim, a dor é real, mas é uma dor estranha.

Porque você não está chorando por algo concreto que existiu. Está chorando por um negativo. Por um vazio com forma. Ferentzi chamou isso de luto inconsciente de um ideal. A tristeza que não tem nome claro porque o objeto perdido nunca foi completamente real. Era uma projeção de uma necessidade legítima sobre pessoas que não podiam ou não quiseram respondê-la.

E esse tipo de luto é o mais difícil de processar, porque não tem ritual, não tem velório, não tem data, tem só uma manhã em que você olha para a relação e vê com clareza o que não está lá. Bloco 2. O abandono no momento crítico. Mas há uma camada ainda mais específica.

Não é só o luto pelo que nunca foi. É o que aconteceu no momento de doença, de afastamento, de vulnerabilidade real, quando você precisou e eles não apareceram. Não responderam. Não conversaram. Rejeitaram. Isso é diferente. E tem nome técnico em Ferentzi. Ferentzi descreveu o que acontece quando o sujeito se sente ferido, decepcionado, abandonado. Ele escreveu com precisão. O abandono acarreta uma clivagem da personalidade.

Uma parte do sujeito começa a desempenhar o apel do pai ou da mãe, com a outra parte tentando tornar o abandono nulo e sem efeito. O que isso significa na prática? Quando os pais não aparecem no momento de maior fragilidade, o sujeito faz o que pode, internaliza uma figura protetora, torna-se seu próprio pai, sua própria mãe, cria um holding interno, porque o externo falhou. É um movimento de sobrevivência, mas deixa a marca.

porque ninguém deveria ter que criar seu próprio holding no momento em que mais precisava do holding do outro. Ferent também descreveu a hipocrisia do adulto que deveria proteger, quando age como se nada tivesse acontecido, como se a dor do outro não fosse real, como se o silêncio fosse uma resposta aceitável. Ele não só abandona, ele confirma ao sujeito que sua dor não merece resposta, que sua necessidade é excessiva, que ele está errado em precisar.

Isso é o que o silêncio dos pais faz. Não é neutro. É uma mensagem. E a mensagem é, você está sozinho nisso. Freud escreveu sobre o narcisismo dos pais, como eles projetam no filho uma extensão de si mesmos. E o que acontece quando o filho entra em colapso, quando adoece, quando precisa, é que isso perturba a projeção. O filho vulnerável quebra a imagem que os pais precisavam manter.

E aí alguns pais recuam, não por crueldade consciente, mas porque a vulnerabilidade do filho ativa a própria vulnerabilidade deles, que não sabem como suportar. Isso não justifica, mas explica. E entender a estrutura não diminui a dor, nomeia ela. Bloco 3. O que Winnicott diz sobre o ambiente que falha no pior momento?

Winnicott dedicou grande parte de sua obra ao que ele chamou de falha ambiental. E uma das coisas mais importantes que ele escreveu é esta. O ambiente não precisa ser perfeito. Ele precisa ser suficientemente bom. O que isso significa? Que falhas pontuais fazem parte do desenvolvimento. A mãe que falha, repara e volta, ensina ao bebê que o vínculo sobrevive à ruptura, que a relação pode ser quebrada e reconstituída.

Mas quando a falha acontece num momento de dependência real, quando o ego não tem recursos para se sustentar sozinho, o dano é diferente. O sujeito não aprende que o vínculo sobrevive à ruptura. Aprende que quando ele mais precisa, o outro some. Isso cria um padrão que Winnicott chamou de falso self consolidado pela necessidade. O sujeito aprende a não mostrar que precisa, a não pedir.

Aparecer autossuficiente, porque pedir já produziu ausência antes e o custo de pedir e não receber é maior do que o custo de não pedir nada. O que você está vivendo, afastamento, nervo comprimido, depressão ativa, vulnerabilidade real, é exatamente o tipo de contexto em que o holding externo importa mais. Em que a presença do outro não é conforto supérfluo, é parte do processo de cura.

E quando esse holding vem justamente de quem não apareceu, dos pais que não responderam, que rejeitaram, que ficaram em silêncio, a ferida não é só emocional, é estrutural. Reativa o padrão antigo. Quando você mais precisa, o ambiente falha. Winnicott diria, isso não é fraqueza sua. É o ambiente repetindo o que sempre fez. Bloco 4.

Klein, a integração e como sair da oscilação Klein, descreveu com precisão a armadilha em que o sujeito cai quando os pais falham de forma significativa, a oscilação entre idealização e perseguição. Ou os pais são protegidos, idealizados, desculpados, justificados, porque a dor de vê-los como realmente são é grande demais.

Ou são perseguidos, odiados, culpados de tudo, porque a idealização colapsou e deixou raiva. Nenhum dos dois movimentos resolve. A idealização perpetua a espera. Você continua esperando que um dia eles apareçam, que um dia mudem, que um dia entendam. A perseguição drena energia. Você continua alimentando a raiva, que é legítima, mas não libera. Klein propõe um terceiro movimento. A integração depressiva. Ver o pai real, a mãe real.

Pessoas com história, com limitações, com feridas próprias, que falharam não por maldade absoluta, mas porque não tinham os recursos internos para responder ao que você precisava. Isso não é perdão no sentido de apagar.

É um movimento estrutural diferente. Reconhecer que eles são ao mesmo tempo os pais que você amou e os pais que falharam. Que as duas coisas coexistem. Que você pode estar com raiva de alguém e ainda reconhecer sua humanidade limitada. A integração não elimina a dor. Ela a localiza. E o que está localizado pode ser processado. O que oscila entre dois extremos, jamais. Winnicott acrescentou, A reparação só é possível quando o objeto sobrevive à agressividade do sujeito.

Quando você consegue estar com raiva dos seus pais, raiva real, legítima, justa, sem destruí-los completamente na sua mente e sem destruir a si mesmo. Essa é a posição integradora. Bloco 5. O que você faz com o que ficou? Você está em análise. Esse trabalho, nomear, estruturar, localizar, é preliminar. O trabalho real acontece na sessão. Mas há algo que você pode fazer agora, em movimento, que não é prematuro. Reconhecer o que a ferida produziu.

Ferenci escreveu que o analista que abandona o paciente no momento de vulnerabilidade confirma o trauma infantil e que a resposta oposta, a presença genuína, a afeição sincera, pode ser o que desfaz o padrão antigo. Você não tem controle sobre o que seus pais fizeram. Não tem controle sobre o silêncio deles, sobre a rejeição deles, sobre a incompreensão deles no seu momento mais difícil. O que você tem é o movimento que fez desde então.

Você não parou de pensar. Você entrou em análise. Você nomeou a dor em vez de anestesiá-la. Você construiu estrutura cognitiva, técnica, intelectual no momento em que seria mais fácil fragmentar. Winnicott chamava isso de elaboração criativa.

O sujeito que o ambiente falhou e que criou no lugar do vazio, algo real. O luto pelo que nunca foi vai continuar. O trabalho de integração vai levar tempo, a raiva é justa e merece espaço. E ao mesmo tempo, sem cancelar nada disso, você está inteiro. Com o nervo comprimido, com depressão ativa, com pais que não apareceram no pior momento. Você está inteiro. E síntese final.

Quatro coisas verdadeiras. A dor com seus pais tem estrutura. Tem nome. Não é exagero. O abandono no momento crítico deixa marca. Mas a marca tem explicação e tem trabalho possível. A integração depressiva não é perdão fácil. É ver o real sem se destruir no processo. E o que você construiu com o que ficou a evidência de que o self verdadeiro sobreviveu ao ambiente que falhou.

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