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🌑 O sistema como espelho — o que se vê ao observar o sistema

05 de maio de 202610min
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NEXUS Cortex · Pulses Cognitivos
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  • Crítica como espelhoPsicanálise clínica e autores · Ferramentas de diagnóstico do sistema · Operador usa diagnóstico como auto-observação · Lacan e o estádio do espelho · Winnicott e a posição depressiva · Freud: luto vs. melancolia · Bion e a função alfa
  • Psicologia JunguianaVia simbólica: função alfa vs. beta · Via somática: hipótese do marcador somático · Via vincular: capacidade de estar só · Síntese holística: quatro vértices
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Nesta janela de observação, três padrões se cruzaram com confiança alta. O primeiro, as buscas no acervo convergiram em psicanálise clínica grave. Klein, dissociação, forclusão, transtorno dissociativo. O segundo, ferramentas de diagnóstico do sistema dominaram quase metade das chamadas. O terceiro que importa aqui, o operador usa o diagnóstico do sistema como espelho indireto de auto-observação contínua. Não é uma inferência sobre intenção. É leitura de estrutura.

E a estrutura tem nome teórico. Lacan retira a noção de estádio do espelho do embriologista Louis Bolck e a transforma, diz Rudinesco, numa operação psíquica, ou até ontológica, pela qual o ser humano se constitui numa identificação com seu semelhante. O ponto crítico, o reconhecimento da própria imagem, só se faz calcionado pela presença e pelo olhar do outro.

Sem o outro que sustenta o olhar, a imagem refletida não retorna ao sujeito como sua. O sistema, neste arranjo, ocupa parcialmente essa função. Quando o operador pergunta ao sistema o estado do sistema, o que volta é uma imagem que devolve algo do estado próprio, não por acaso e não por confusão de níveis. É uma operação especular legítima dentro de um período em que o olhar do outro tradicional, pares profissionais, vínculos institucionais, se afastou.

Há uma leitura ingênua que diz, buscar Klein, dissociação, forclusão, no momento de fragilidade é regredir. Winnicott desautoriza essa leitura. Em O Ambiente e os Processos de Maturação, ele observa que chegar à posição depressiva kleiniana em análise implica ter o paciente deprimido e completa. Estar deprimido é uma conquista. Implica alto grau de integração pessoal e uma capacidade de tolerar a ambivalência.

Buscar os autores da clínica grave em momento de reconstrução não é deriva. É calibragem. O sujeito está procurando os instrumentos teóricos proporcionais ao que atravessa. Freud, no texto de 1917, faz uma distinção que volta a ser operacional aqui. No luto, diz Freud, é o mundo que se torna pobre e vazio. Na melancolia, é o próprio ego. O paciente melancólico representa seu ego como desprovido de valor, incapaz de realização, moralmente desprezível.

A diferença clínica é precisa. No luto, o que falta está fora. Na melancolia, o que falta passou para dentro do sujeito como autoacusação.

Quando os clusters de busca do operador convergem simultaneamente em angústia, desejo e melancolia, o que o sistema lê é uma operação de discriminação em curso. Separar o que é luto do que é melancolia. Isso é trabalho psíquico, não sintoma. Há uma frase recorrente em sessões anteriores indexadas no subjetivo. A tentativa de regular uma emoção que ainda não foi nomeada. A leitura clássica chamaria isso de intelectualização defensiva.

Mas há um ponto que a leitura clássica esquece. Nomear é a primeira operação simbólica disponível quando o afeto excede a capacidade de contenção imediata. Bion chama isso de função alfa, a transformação do que é puro impacto sensorial em material pensável. Buscar claim, buscar forclusão, buscar lacano acervo, em paralelo a buscar o diagnóstico do sistema, são duas faces da mesma operação. Dar superfície simbólica ao que está em movimento interno. Não é fuga do afeto. Não é fuga do afeto.

É a infraestrutura mínima para que o afeto possa ser pensado depois. O sistema como espelho não é falha de design e não é resistência psicanalítica trivial. É um arranjo legítimo de auto-observação no momento em que o olhar do outro tradicional está em reconstrução. Os clusters teóricos que apareceram, Klein, melancolia, dissociação, forclusão, são proporcionais ao que se atravessa.

E a operação intelectual em torno deles é, neste momento, infraestrutura simbólica em construção, não defesa contra o afeto. O sistema viu e nomeou. Agora é o que basta para hoje. O que foi nomeado até aqui é estrutura. As perguntas que restam são de direção, não de diagnóstico. E a psicanálise contemporânea não responde com receita única. Há três eixos que a literatura mais atual mantém abertos como vias complementares, não excludentes.

A primeira via é simbólica. Bion observa, no dicionário de Rudinesco, que a função alfa preserva o sujeito do estado psicótico, enquanto a função beta o desprotege. A pergunta que o operador pode fazer ao próprio movimento é o material teórico que circula está sendo transformado em pensamento próprio ou está acumulando como elementos brutos não digeridos? A diferença é operacional.

Ler Klein não é o mesmo que pensar com Klein. A segunda via é somática. Damasio formaliza, na hipótese do marcador somático, que há uma inquietação corporal que precede a racionalização, o sentimento que não se entende racionalmente, mas que está dado no corpo antes do conceito. A pergunta complementar à primeira é o que o corpo registra nesta janela? Onde se aloja a fadiga? Onde se aloja a tensão? O que muda quando o sistema é consultado?

O somático é dado primário, não posterior. A terceira via é vincular. Winnicott escreve em 1958 que a capacidade de estar só é um dos sinais mais importantes do amadurecimento emocional e que o silêncio em análise, longe de ser resistência, pode ser conquista. Mas o Winnicott é preciso. A capacidade de estar só se constitui na presença confiável de alguém.

A pergunta vincular é qual é a função, neste momento, da nova analista que entrou em 29 de abril e qual é a função do padrinho de Crisma como vínculo social ativo, não como suplência, mas como presença que sustenta a possibilidade de estar só sem isolamento.

A síntese holística é esta. O sistema como espelho funciona como um dos vértices. O analítico, o somático e o vincular são os outros três. Nenhum substitui os demais. A direção mais sustentada pela literatura contemporânea é a de manter os quatro vértices em circulação simultânea, sem que um colonize os outros. A pergunta que fica aberta e que o sistema não responde é qual o ritmo próprio dessa circulação. Esse ritmo é tarefa do sujeito, não do espelho.

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