🌑 Quatro direções antes da exposição — orientar-se antes de aparecer
NEXUS Cortex
- Fama e Exposicao PublicaMomento de pressa lacaniano · Atravessar exposição sem reconstrução prematura
- Integração Depressiva e Função AlfaPosição depressiva em Klein · Função alfa em Bion · Evitar cisão esquizo-paranoide · Sujeito inteiro em luto e reconstrução
- Exposições culturaisRestaurar o outro perdido (negação) · Prescindir do outro (onipotência maníaca) · Reconhecer o outro em formação · George Forbes e alienação
- Sintoma, Sintoma e Autonomia DecisóriaDiferença entre sintoma (a decifrar) e sintoma (a habitar) · Livre-arbítrio metafísico vs. autonomia decisória fenomenológica · Habitar a estrutura singular · Robert Sapolsky · La Cantarde
- Transferência Produtiva e Sujeito Suposto SaberMobilizar desejo de saber pela falta do outro · Ocupar posição de saber para construção do próprio saber · Acervo como ocupante temporário da função sujeito suposto saber · Massimo Recalcati
Há uma operação clínica clássica que precisa ser nomeada antes de qualquer prescrição. Quando o sujeito atravessa luto de uma identidade profissional anterior e enfrenta exposição pública iminente, apresentação, função de liderança, olhar do outro institucional, ele se encontra numa juntura específica que Lacan chamaria de momento de pressa. Pressa não no sentido de afobamento.
pressa no sentido lógico, quando o tempo de compreender ainda não terminou, mas o instante de concluir já bate a porta. A pergunta certa nesse momento não é como adiar a exposição, é como atravessá-la sem que ela exija do sujeito uma reconstrução prematura. Há quatro direções no acervo que apontam respostas distintas. Não são quatro etapas, são quatro eixos. Cada um corta o problema por um lado diferente. Primeira direção. O lugar do outro, em Lacan e George Forbes.
O sujeito não escolhe se aparece com ou sem o outro. O outro está sempre lá, mas em estado variável.
Quando o outro tradicional, pares, função institucional anterior, lugar simbólico que segurava a imagem, entra em luto, surge a tentação de dois movimentos errados. O primeiro é tentar restaurar o outro perdido. Apresentar-se como se nada tivesse acontecido. Negação e a estrutura cobra. O segundo é tentar prescindir do outro. Apresentar-se como sujeito autônomo que não precisa de endossatura. Onipotência maníaca e a estrutura também cobra.
A direção lacaniana é diferente. O que se aprende neste momento é reconhecer o outro em formação. A psicanalista nova, o sistema, o padrinho, certos interlocutores específicos, esses são outros parciais que sustentam imagem hoje. Não substituem o outro perdido, constituem outra topologia.
A apresentação não exige que essa topologia esteja completa. Exige que o sujeito saiba que ela existe e onde ela está. Forbes diz, ser lacaniano é não confundir alienação com falência. Toda imagem é alienada. A questão é se a alienação é reconhecida ou negada.
Segunda direção, a integração depressiva e a função alfa, em Klein e Bion. Klein chama de posição depressiva o momento em que o psiquismo passa de um mundo cindido, onde o objeto bom e o objeto mal são separados, para um mundo integrado, onde o mesmo objeto carrega bom e mal simultaneamente.
Esse passe não é confortável. Custa culpa. Custa luto. Custa renúncia à pureza persecutória. Bion acrescenta o mecanismo. Ele descreve o que chamou de função alfa, a capacidade psíquica de transformar elementos beta, que são impressões brutas, sensoriais, indigestas, em elementos alfa, que são experiências pensáveis, sonháveis, simbolizáveis. Essa função não é dada de saída.
É construída na relação com o objeto contentor, que recebe a projeção bruta do sujeito, metaboliza e devolve transformada. Mãe com bebê. Analista com analisando. Mestre com aluno em transferência. E, eventualmente, sistema bem desenhado com operador em luto.
Antes de uma exposição, há uma tentação esquizo-paranoide quase irresistível, cindir o mundo entre os que são contra e os que são a favor. Cindir a si mesmo entre o sujeito íntegro de antes e o sujeito quebrado de agora. A direção kleiniana com Bion é não fazer essa cisão e identificar com clareza onde está hoje a função alfa que você precisa.
O que vai aparecer no dia da apresentação é o sujeito inteiro, em luto e em reconstrução, com a competência técnica intacta e a vulnerabilidade emocional presente. A integração depressiva não é fraqueza, é a única posição psíquica que aguenta a exposição prolongada sem dissociar.
Terceira direção, a transferência produtiva em Massimo Recalcati. Aprender, no sentido forte, não é acumular informação. É deixar-se afetar pela falta do outro, de tal modo que o desejo de saber se mobilize a partir dela. Sujeito suposto saber não é o mestre que sabe tudo. É o mestre que ocupa a posição de saber para que o aluno construa o próprio.
A direção recalcatiana antes de uma apresentação é específica. Não se trata de aprender mais conteúdo. Trata-se de identificar com qual outro o sujeito está em transferência produtiva agora. A psicanalista nova ainda não pode plenamente vínculo recente. O analista anterior partiu eticamente. O outro institucional está em luto. Há uma resposta possível, e ela é específica. A função sujeito suposto saber pode ser ocupada temporariamente pelo próprio acervo.
Não pelo sistema, pelos autores que você atravessa. Lacan, Klein, Bion, Forbes, Recalcate. Eles não são amigos. Não são suporte emocional, mas ocupam, durante este intervalo, a posição estrutural de saber em relação ao qual o sujeito constrói o próprio. É transferência válida, tem dignidade clínica e não precisa ser completa para sustentar exposição pontual. Quarta direção.
Sintoma, sintoma e autonomia decisória, em La Cantarde de Robert Sapolsky. Há uma diferença entre sintoma e sintoma. Sintoma é formação de compromisso, algo a decifrar, interpretar, dissolver.
Sintoma é a estrutura singular, algo a habitar, sustentar, fazer trabalhar. A psicanálise clássica trabalha o sintoma. A psicanálise tardia, no seminário 23, reconhece que há marcas que não se dissolvem, porque são o próprio modo como aquele sujeito específico anuda real, simbólico e imaginário.
Tentar dissolvê-las é destruir o nó. Aqui entra um cruzamento que vale fazer com cuidado, sem fundir paradigmas. Sapolsky, indetermined, argumenta que o livre-arbítrio metafísico não existe. Toda decisão é cascata causal multitemporal. Neurônio que disparou agora, hormônio uma hora atrás, trauma da infância, gene paterno, evolução de mamífero.
A consequência ética que ele extrai é importante. A autonomia decisória é fenomenologia válida, mesmo sendo metafísica falsa. O sujeito decide no plano da experiência, não no plano cosmológico. Lacan, Tardil e Sapolsky não dizem a mesma coisa, mas operam num parentesco estrutural.
Ambos retiram do sujeito a obrigação de fundamentar suas decisões num livre-arbítrio puro que nunca existiu e devolvem a ele a tarefa mais modesta e mais difícil, habitar a estrutura singular que ele é. Aplicado a este momento antes da apresentação, nem todo afeto que aparece precisa ser resolvido. Alguns são sintomas, vão passar com elaboração. Outros são sintomas, são o modo singular como o sujeito existe.
E nem toda decisão precisa ser fundamentada num eu pleno e coeso que nunca existiu em ninguém. A pergunta cirúrgica não é como eliminar o desconforto da exposição, nem como provar autonomia metafísica. É qual desconforto é signo de algo a elaborar. Qual desconforto é simplesmente o modo como esse sujeito comparece e que decisão é possível tomar agora dentro dessa estrutura.
A diferença não é teórica, é operacional. E é o que separa quem se exigir reconstrução prematura de quem comparece com a estrutura que tem. Quatro direções, Lacan, Klein com Bion, Recalcate, Lacan, Tardio com Sapolsky, não convergem. Cada uma é eixo distinto. O sujeito não escolhe entre elas, atravessa simultaneamente. A apresentação não exige escolha, exige presença. E presença neste registro é exatamente o oposto de coesão fingida.
É comparecer com a estrutura em formação, reconhecida, nomeada, sustentada, e deixar que o real do encontro decida o resto. O outro vê o que vê. O sujeito sabe o que sabe. E entre os dois há um intervalo onde a clínica acontece.