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🧠 Lacan e o objeto a — a causa do desejo

04 de maio de 202610min
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NEXUS Cortex · Pulses Cognitivos
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  • Objeto A em LacanConceito e origem do Objeto A · Objeto A como causa do desejo · Distinção entre necessidade, demanda e desejo · As quatro formas canônicas do Objeto A (seio, fezes, olhar, voz) · Consequências clínicas e operacionais do Objeto A · Crítica à ideologia da satisfação · Leitura lacaniana do amor · Análise das compulsões contemporâneas
  • Desejo e vontade humanaDesejo como movimento em torno de um objeto inalcançável · A perda constitutiva do sujeito · O desejo como resto entre necessidade e demanda
  • As pulsões parciaisPulsão oral e o seio como objeto A · Pulsão anal e as fezes como objeto A · Pulsão escópica e o olhar como objeto A · Pulsão invocante e a voz como objeto A
  • Psicanálise lacaniana e aceitaçãoAngústia como sinal de perigo · Angústia como sinal da presença do real (Objeto A)
  • Medicina e éticaA culpa de ceder ao próprio desejo · Sustentar a falta e manter o desejo em movimento
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Bem-vindo ao Nexus Cortex. Hoje vamos atravessar um dos conceitos mais singulares e mais incompreendidos da psicanálise lacaniana. O objeto A, ou objeto pequeno A, escrito em letra minúscula e em itálico para distingui-lo do grande outro, escrito com A maiúsculo.

O objeto A é a invenção mais original de Jacques Lacan, aquela que ele próprio considerava sua única contribuição verdadeiramente sua à teoria psicanalítica. Em torno desse objeto, gira toda a estrutura do desejo humano, gira a fantasia, gira o gozo, gira aquilo que nos faz viver e aquilo que nos faz sofrer. Vamos hoje desdobrar o objeto em quatro movimentos sucessivos. Primeiro, vamos situar o objeto no aparato conceitual lacaniano, entender de onde ele vem e que problema ele responde.

Segundo, vamos examinar o objeto A como causa do desejo, distinguindo cuidadosamente causa de objeto, distinguindo desejo de demanda. Terceiro, vamos analisar as quatro formas canônicas do objeto A, os quatro modos pelos quais ele se apresenta no campo da pulsão. O seio, as fezes, o olhar e a voz.

Quarto e último, vamos extrair consequências operacionais, o que esse conceito implica para a clínica, para a leitura da subjetividade contemporânea e, sobretudo, para a forma como cada um de nós toma decisões cotidianas atravessadas pelo desejo. Comecemos pelo começo. O objeto aparece pela primeira vez nos seminários de Lacan no início dos anos 60, mais precisamente no seminário 8, A Transferência, e no seminário 10, A Angústia.

É no Seminário 10, ministrado entre 1962 e 1963, que Lacan formaliza o objeto como conceito central, aquele em torno do qual toda a teoria do desejo vai se reorganizar.

O contexto teórico é o seguinte. Lacan estava revisitando Freud, em particular o texto de 1926, Inibição, Sintoma e Angústia, no qual Freud reformula sua teoria da angústia. Para Freud, a angústia não é mais o efeito de uma libido recalcada, como ele pensava antes, mas um sinal, um sinal de um perigo. Lacan retoma essa ideia e dá a ela uma torção decisiva. Para Lacan, a angústia é o único afeto que não engana.

Todos os outros afetos podem nos enganar. Todos os outros afetos podem ser deslocados, transformados, simbolizados. A angústia não. A angústia é o sinal da presença de algo real. E esse algo real é o objeto A. Quando o objeto se aproxima demais, quando ele deixa de operar como causa do desejo a uma certa distância e passa a se presentificar com uma presença massiva, a angústia surge. Isso é uma chave clínica fundamental.

Mas o que é, afinal, o objeto A? A primeira coisa a entender é que o objeto A não é um objeto no sentido comum da palavra. Não é uma coisa que se pode ver, tocar, encontrar. Ele é o que Lacan chama de um objeto causa, isto é, um objeto que causa o desejo e não um objeto que satisfaz o desejo. Essa distinção é decisiva. A teoria psicanalítica anterior, e mesmo certa leitura ingênua de Freud, tendia a pensar o desejo como uma força que busca um objeto.

e que cessa quando esse objeto é encontrado. O modelo era pulsional no sentido biológico. A pulsão tem uma fonte, uma meta e um objeto. E quando o objeto é alcançado, a tensão se descarrega e a pulsão se aplaca.

Lacan rompe radicalmente com esse modelo. Para Lacan, o desejo humano não funciona assim. O desejo humano não busca um objeto que o satisfaria. O desejo humano gira em torno de um objeto que ele nunca alcança. E é justamente o fato de não alcançá-lo que mantém o desejo em movimento. Se o desejo encontrasse seu objeto, ele cessaria.

Mas o desejo não cessa. O desejo persiste. O desejo se desloca de objeto em objeto, sempre insatisfeito, sempre faltante. Por quê? Porque o objeto verdadeiro do desejo, o objeto A, é estruturalmente perdido. Ele é perdido desde o começo, perdido no próprio ato de constituição do sujeito. Aqui entra uma das teses mais densas de Lacan. O sujeito se constitui por uma perda. Não é que primeiro existe um sujeito e depois ele perde alguma coisa. É o contrário.

A perda é constitutiva. O sujeito surge no exato momento em que algo é perdido. E esse algo perdido é o objeto A.

Lacan vai buscar essa ideia em Freud na noção de objeto perdido do luto, mas também e sobretudo na descrição freudiana do estágio do espelho, na descrição do desmame, do controle esfincteriano, da descoberta da diferença sexual. Em todos esses momentos, há uma operação de corte, uma operação na qual algo é separado do corpo do sujeito, algo é destacado, algo é perdido. Esse algo destacado...

Esse resto que cai do corpo é o objeto A. O seio que se separa da boca quando o desmame ocorre, as fezes que se separam do ânus quando o controle esfinteriano se instala, o olhar materno que se separa do campo visual quando a mãe se vira para outro lugar, a voz que se separa do ouvido quando o silêncio se instala. Em cada um desses momentos há um corte, e o que cai do corte é o objeto A.

Mas atenção, o objeto não é o seio, não é as fezes, não é o olhar, não é a voz. O objeto é aquilo que se perdeu nesses momentos, aquilo que ficou para trás, aquilo que não pode ser recuperado. O seio biológico, as fezes biológicas, o olhar concreto, a voz audível, esses são objetos no mundo, esses são objetos que se podem encontrar. O objeto é o que esses objetos perderam ao serem separados, é o brilho.

A aura, a mais-valia gozosa que nele se inscreveu e que nunca mais pode ser plenamente recuperada. É por isso que Lacan dirá no movimento conceitual decisivo que o objeto é uma mais-valia. Ele importa esse termo de Karl Marx.

Assim como na economia capitalista, a mais-valia é aquilo que o trabalho do operário produz e que o operário não recebe. Na economia do desejo, o objeto A é aquilo que o sujeito perdeu na sua constituição e que ele nunca recebe de volta. O sujeito está sempre tentando recuperar o objeto A. E essa tentativa, essa busca, é o que chamamos de desejo. Vamos agora ao segundo movimento.

o objeto A como causa do desejo. Lacan formaliza isso com uma escrita matemática própria. Ele escreve o sujeito como um S barrado, S maiúsculo cortado por uma barra, indicando que o sujeito é dividido, é faltante, constituído por uma falta. E ele escreve a fantasia fundamental como uma fórmula. S barrado losango A. Lê-se. Sujeito dividido em relação ao objeto A.

O losango, esse pequeno quadrado virado em pé, indica uma relação específica de envelopamento, de aspiração, de inclusão e exclusão simultâneas. O sujeito está incluído no objeto A, mas também separado dele. O sujeito gira em torno do objeto A, mas nunca o alcança. Essa fórmula, S barrado losango A, é a estrutura da fantasia. E a fantasia é o que sustenta o desejo. Sem fantasia, não há desejo. Sem objeto A no centro da fantasia, não há fantasia.

Aqui é importante distinguir três conceitos que se confundem facilmente. Necessidade, demanda e desejo. Lacan dedica vários seminários a essa distinção, em especial o seminário 5, As Formações do Inconsciente. A necessidade é biológica. Eu tenho fome, preciso comer. A necessidade tem um objeto que a satisfaz. Comida. Quando como, a fome cessa.

A demanda é simbólica. Eu peço comida ao outro e ao pedir, transformo a necessidade em demanda. Mas a demanda nunca é apenas demanda de comida. Toda demanda, no fundo, é demanda de amor. Quando peço comida à minha mãe, não estou só pedindo comida. Estou pedindo prova do amor dela.

E é exatamente nesse ponto que algo se perde. Porque a comida pode satisfazer a fome, mas a comida não pode satisfazer a demanda de amor. Sempre vai sobrar algo. E esse algo que sobra, esse resto entre necessidade e demanda, é o desejo. O desejo é o que resta da subtração. Demanda menos necessidade.

E o objeto desse desejo, o objeto que o causa, é o objeto A. Por que isso é importante? Porque significa que o desejo nunca pode ser satisfeito por aquilo que ele pede. Quando você deseja alguma coisa e finalmente a obtém, há sempre uma decepção. Há sempre o sentimento de que não era exatamente isso, de que faltou alguma coisa.

de que o objeto obtido não está à altura do desejo. Esse desencontro entre desejo e objeto não é um acidente. Não é que você escolheu mal o objeto, é estrutural. Nenhum objeto pode preencher o lugar do objeto A, porque o objeto A é estruturalmente perdido, é estruturalmente impossível de recuperar. Os objetos do mundo, os objetos com os quais você se encontra, são apenas semblantes, são apenas máscaras provisórias do objeto A.

Cada um deles brilha por um instante com a luz do objeto A e depois empalidece. E o desejo segue em frente, em busca do próximo semblante. Isso tem consequências clínicas profundas. O paciente que chega ao analista frequentemente vem dizer que está insatisfeito, que falta alguma coisa em sua vida, que não consegue alcançar o que deseja. A escuta lacaniana não vai tentar identificar o objeto que falta para depois ajudar o paciente a obtê-lo.

Isso seria uma pedagogia do desejo, uma psicologia do ego e não uma psicanálise.

A escuta lacaniana vai, ao contrário, mostrar ao paciente que essa falta é estrutural, que ela não pode ser preenchida, que ela é a própria condição do desejo.

O objetivo da análise não é fazer o paciente encontrar o objeto A. O objetivo é fazer com que o paciente entre em uma relação diferente com a falta, uma relação em que a falta deixe de ser sentida como uma deficiência a ser corrigida e passe a ser reconhecida como o lugar mesmo do desejo, o lugar mesmo da subjetividade. Vamos agora ao terceiro movimento.

As quatro formas canônicas do objeto A. Lacan, ao longo dos anos 60, vai progressivamente identificar quatro formas específicas pelas quais o objeto A se inscreve no campo da pulsão. Essas quatro formas correspondem a quatro pulsões parciais, e cada uma delas tem uma topologia, um circuito, uma economia próprios.

As duas primeiras, Lacan herda de Freud, em parte de Carl Abraham, são o seio ligado à pulsão oral e as fezes ligadas à pulsão anal. As duas últimas são uma invenção propriamente lacaniana, e isso é importante destacar. Freud não tinha pensado o olhar e a voz como objetos pulsionais autônomos. Foi Lacan quem identificou que, junto com a oralidade e a analidade, há uma escopia, uma pulsão escópica, e há uma invocação, uma pulsão invocante.

Cada uma dessas quatro pulsões parciais tem o seu objeto a próprio. Comecemos com o seio. O seio é o objeto da pulsão oral, mas o seio como objeto A não é o seio biológico, não é a glândula mamária. O seio como objeto A é o que se perde quando o desmame ocorre. É o brilho do contato boca-mamilo. É a unidade fusional entre o lactente e a mãe que se rompe no momento em que a separação se instala.

A pulsão oral, depois do desmame, vai continuar a girar em torno desse objeto perdido. Toda a economia oral subsequente, comer, beijar, falar, fumar, cantar, toda a economia oral é uma tentativa de recircular esse objeto perdido, de encontrar substitutos, de aproximar-se dele sem nunca alcançá-lo plenamente. É por isso que comer não é apenas comer, beijar não é apenas beijar. Há sempre uma dimensão de gozo que excede a função biológica.

E essa dimensão de gozo é o objeto aoral. As fezes são o objeto da pulsão anal. Mais uma vez, não é a matéria fecal biológica. As fezes como objeto são o que se perde no momento do controle esfinteriano, quando a criança aprende a reter e a expelir, quando a defecação deixa de ser um ato espontâneo e se torna um ato simbolicamente regulado.

O que se perde aí é uma certa relação com o corpo, uma certa imediatidade, uma certa mestria sobre o próprio funcionamento. A pulsão anal vai continuar a girar em torno desse objeto perdido e toda a economia anal subsequente, o controle, a retenção, a doação, a avareza, a generosidade, a obsessividade...

Toda essa economia é uma tentativa de recircular o objeto anal. A clínica da neurose obsessiva é, em larga medida, a clínica de uma fixação no objeto anal, uma fixação no controle e na retenção, como tentativa de não perder o objeto.

O olhar é o objeto da pulsão escópica. E aqui Lacan faz uma das suas inovações mais radicais. O olhar como objeto não é o ato de ver. Não é a função visual. O olhar é o que está do lado do objeto e não do lado do sujeito. Quando você vê, você é um sujeito que vê. Mas há também um olhar que cai sobre você. Um olhar que vem do mundo.

um olhar que faz de você um objeto visto. Esse olhar do mundo, esse olhar que precede e excede o seu olhar, é o objeto aiscópico. Lacan ilustra isso com vários exemplos clínicos e culturais. O exemplo da mancha, em que algo, no campo visual, escapa ao seu controle, algo brilha, algo te olha de volta. O exemplo da pintura, em particular as anamorfoses, como o famoso crânio na pintura.

Os embaixadores de Hans Holbein, em que um objeto está presente na pintura, mas só é visível de um certo ângulo. O exemplo do espetáculo, do palco, da cena, em que o sujeito se exibe para um olhar que ele não consegue plenamente situar. Toda a economia escópica gira em torno desse objeto A. E toda a clínica do voyeurismo, do exibicionismo, da paranoia visual, é uma clínica do objeto A-escópico. A voz é o objeto da pulsão invocante. Mais uma vez, não é o ato de falar.

Não é o som articulado. A voz como objeto é o que resta da fala depois que se subtrai o significante. É o silêncio que habita a fala. É a entonação que excede o sentido. É o brilho sonoro que faz com que duas pessoas dizendo a mesma coisa não estejam dizendo a mesma coisa. A voz materna que embala o lactente antes mesmo que ele compreenda as palavras.

A voz do líder político que comove uma multidão sem que se saiba exatamente porquê. A voz que ressoa em sonhos. A voz alucinada na psicose. Toda essa economia é uma economia do objeto a invocante. E aqui Lacan dialoga com Freud sobre o supereu, esse comando interior que não cessa de falar dentro de nós, mas que não é exatamente nosso.

O supereu é, em larga medida, uma instância vocal, é uma voz interiorizada que opera como objeto a invocante. Antes de passarmos ao quarto movimento, é preciso registrar que Lacan vai além desses quatro objetos canônicos em sua elaboração tardia. Nos seminários dos anos 70, em particular no seminário 19 e no seminário 20, em Cori, ele introduz novas considerações sobre o objeto A. Ele o relaciona com a topologia do touro, com o crosscap, com a garrafa de Klein. Oração

Ele explora a relação entre o objeto A e o gozo feminino, sugerindo que o gozo feminino não passa pelo objeto A ou passa por ele de uma maneira diferente da do gozo masculino. Essas elaborações tardias são extremamente complexas e exigem um estudo dedicado. Para os fins deste podcast, ficaremos com os quatro objetos canônicos. Seio, fezes, olhar, voz. Passemos agora ao quarto e último movimento. As consequências operacionais.

O que esse conceito implica para a leitura da subjetividade contemporânea e para a forma como tomamos decisões cotidianas?

Em primeiro lugar, o conceito de objeto permite uma crítica radical da ideologia da satisfação, que é a ideologia dominante do nosso tempo. A propaganda, o marketing, as redes sociais, todo o aparato discursivo da economia capitalista contemporânea opera produzindo objetos que prometem satisfazer o desejo. Compre este produto e seu desejo será saciado. Use este aplicativo e você se sentirá completo. Adquira esta experiência e a falta será preenchida.

A psicanálise lacaniana nos mostra que essa promessa é estruturalmente impossível de cumprir. Nenhum objeto do mundo pode preencher o lugar do objeto A, porque o objeto A é justamente o que falha em todo objeto do mundo. A insatisfação que sentimos depois de comprar,

depois de consumir, depois de obter, não é um sinal de que escolhemos mal. É um sinal de que o desejo é estrutural e que ele não pode ser satisfeito por consumo. Em segundo lugar, o conceito de objeto a permite uma leitura do amor que difere radicalmente das psicologias românticas e das narrativas hollywoodianas.

O amor, na perspectiva lacaniana, não é o encontro de duas almas que se completam mutuamente. O amor é a operação pela qual o sujeito faz, do objeto amado, o suporte do seu objeto a. O outro amado é investido como portador, ainda que provisório, do objeto a do sujeito. É por isso que o apaixonado vê no amado uma luz especial, uma aura, um brilho.

Esse brilho não está objetivamente no amado. Esse brilho é o objeto, a do sujeito apaixonado, projetado, condensado, alojado no amado. Isso explica também o desencantamento que tantas vezes acompanha o aprofundamento da relação. Quando o cotidiano dissolve o brilho, quando o amado deixa de portar o objeto A, o sujeito sente que o amor acabou. Mas o amor não acabou.

O que acabou foi a operação imaginária pela qual o objeto estava alojado naquela pessoa. A pessoa continua a mesma. O que mudou foi a posição do objeto A.

Em terceiro lugar, o conceito de objeto a permite uma leitura aguda das compulsões e dos sintomas contemporâneos. As várias formas de compulsão, compulsão alimentar, compulsão sexual, compulsão por compras, compulsão por consumo de mídia, compulsão por jogos, todas essas formas têm em comum uma estrutura, uma tentativa de recuperar o objeto através de uma reiteração sem fim.

O sujeito compulsivo come, transa, compra, consome, joga, e essa atividade produz uma satisfação parcial, uma satisfação que ele sabe que é insuficiente, uma satisfação que o impele a repetir. A repetição é o sintoma do objeto perdido. Cada repetição é uma tentativa de aproximar-se do objeto.

e cada tentativa fracassa, e o fracasso impulsiona a próxima tentativa. A clínica das compulsões é uma clínica do objeto em circuito reiterativo. Em quarto lugar, e isso é talvez o mais importante para o operador prático, o conceito de objeto a permite uma higiene cognitiva sobre as próprias decisões. Quando você se vê tomando uma decisão, comprando uma coisa, escolhendo uma direção, perseguindo um objetivo, vale a pena perguntar, o que está em jogo aqui?

É uma necessidade, é uma demanda ou é um desejo articulado a um objeto A? Se é uma necessidade, o critério é simples, o objeto satisfaz ou não satisfaz. Se é uma demanda, o critério também é razoavelmente simples, o outro responde ou não responde. Mas se é um desejo articulado a um objeto A, então o critério é estruturalmente outro. Não se trata de obter o objeto. Trata-se de assumir uma certa posição em relação à falta.

Trata-se de reconhecer que o que move a decisão não é a meta, mas a causa. E uma vez reconhecida a causa, a decisão pode ser tomada com lucidez, sem a expectativa ingênua de que ela vai produzir uma satisfação plena. Isso aplica-se também à esfera profissional, à esfera política, à esfera espiritual. A escolha de uma carreira, a militância em uma causa, a busca por sentido, são todas atravessadas pelo objeto A. Quem trabalha sabe que o trabalho nunca é apenas trabalho.

há sempre uma dimensão de gozo que excede a função produtiva. E essa dimensão é o objeto alojado no trabalho. Quem milita por uma causa sabe que a causa nunca é apenas a causa.

Há sempre um investimento subjetivo que excede o conteúdo manifesto da militância. E esse investimento é o objeto A. Quem busca sentido sabe que o sentido nunca está pronto, que ele se desloca, que ele é sempre prometido e nunca entregue. Isso porque o sentido último é uma forma do objeto A. Reconhecer o objeto A operando nas próprias decisões

não significa paralisar-se diante dele, não significa abandonar o desejo, significa, ao contrário, deixar o desejo operar com mais clareza, com menos ilusão sobre seus efeitos. O sujeito que reconhece o objeto há em sua operação cotidiana é um sujeito que pode escolher, não porque acredita que vai obter o objeto, mas porque sabe que o desejo é o que dá vida à existência e que viver desejante é melhor do que viver satisfeito.

Lacan tem uma fórmula para isso, no fim do Seminário 7, A Ética da Psicanálise. Ele diz que a única coisa de que se pode ser culpado é de ter cedido ao próprio desejo. Ceder ao próprio desejo significa abandoná-lo, recuar diante dele, deixar de sustentá-lo. E não ceder ao próprio desejo significa, paradoxalmente, sustentar a falta, manter o desejo em movimento, permitir que o objeto a continue a operar como causa.

Encerramos aqui. O objetua é o conceito mais singular de Lacan, aquele em torno do qual gira toda a sua teoria do desejo. Ele é causa do desejo e não objeto do desejo. Ele é estruturalmente perdido e essa perda é constitutiva do sujeito. Ele se inscreve em quatro formas canônicas no campo da pulsão. Seio, fezes, olhar, voz. Ele atravessa todas as decisões cotidianas, todos os investimentos amorosos, todas as compulsões, todos os sintomas.

Reconhecê-lo operando é uma higiene cognitiva, uma forma de viver desejante com lucidez sobre o que está em jogo. Não é uma teoria abstrata, é uma chave clínica e existencial. E é por essa chave que tantos e tantas, há mais de meio século, continuam voltando aos seminários de Lacan, lendo, relendo, formando-se, porque o objeto A, uma vez reconhecido, transforma a maneira como se escuta o outro, a maneira como se escuta a si mesmo e a maneira como se decide. Até o próximo encontro.