Episódios de No escuro

A Inteligência Artificial vai exterminar-nos? Primeiro No Escuro ao vivo

08 de maio de 202645min
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Ghost in the Machine, de Valerie Veatch, foi um dos títulos em destaque no último Sundance Film Festival e foi um dos filmes programados no Indielisboa, festival que ainda decorre. Por causa desse documentário, No Escuro saiu pela primeira vez do estúdio de gravação e participou num debate — aconteceu no último fim-de-semana, na Culturgest, em Lisboa — que tentava enquadrar a torrencial muralha de informação, dúvidas e angústia que do filme se liberta.

O que é a Inteligência Artificial e que forças, ideológicas, políticas, a dominam? Onde já vai a idade dourada, salvífica, da relação do homem com a tecnologia? É o tempo, hoje, do "tecno-fascismo"?

Em suma, é desta que vamos ser exterminados? Ou esta angústia é apenas a enésima variação de um medo ancestral do homem perante a máquina?

Participaram neste debate dois cépticos e um optimista. É o que podemos chamar, optimista, a José Bragança de Miranda, professor da Lusófona, especialista em Teoria da Cultura e dos Media, Cibercultura e Artes Contemporâneas. Talvez seja, no caso dele, a sedução do caos.

Já Bruno Abib, que estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e desde 2017 trabalha como montador em curtas e longas-metragens de ficção e documentário, e Catarina Rao, designer gráfica que tem desenvolvido o seu trabalho numa vertente mais pessoal e também para marcas comerciais, têm metido as mãos na massa, como se costuma dizer. Utilizam ferramentas da IA. E estão num momento de dúvida e de questionamento pessoal.

Oiçam-nos.

No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).

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Participantes neste episódio1
A

Alexandra Prado Coelho

HostJornalista
Assuntos5
  • Inteligência Artificial e o Futuro do TrabalhoO que é a Inteligência Artificial · Medo ancestral do homem perante a máquina · Tecno-fascismo · IA como ferramenta de divisão e manipulação · IA e a substituição do trabalho humano · IA e a crise climática · IA e a política
  • O documentário Ghost in the MachineValerie Veatch · Sundance Film Festival · Indielisboa · Culturgest · IA como ferramenta de divisão e manipulação
  • IA na indústria criativa e cinematográficaIA e o cinema de animação · IA e a montagem cinematográfica · IA e a criação de personagens virtuais · IA e os Oscars · IA e a Academia Portuguesa de Cinema · IA e a RTP · IA e o ator Val Kilmer · IA e o cinema de autor · IA e os grandes estúdios
  • A relação humana com a tecnologia e a IAOtimismo vs. Ceticismo em relação à IA · IA como ferramenta de experimentação · IA e a ética na criação · IA e a perda da humanidade na arte · IA e a distinção entre designer e artista · IA e a resistência artística · IA e a fabricação cinematográfica · IA e a imortalidade na arte · IA e a computação quântica · IA e a computação molecular
  • Definição de InteligênciaInteligência como fator planetário · Inteligência sem corpo · Inteligência artificial como acréscimo ao planeta
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Este episódio do podcast No Escuro foi gravado ao vivo durante uma sessão na Culturgeste, em Lisboa, integrada no Festival Indie Lisboa. O pretexto foi o documentário Ghost in the Machine, da realizadora norte-americana Valerie Vitsch, sobre as origens da inteligência artificial e a sua relação com o poder.

Olá, boa tarde a todos. Obrigada por terem ficado para assistir a esta conversa. Eu vou começar aqui só por apresentar os nossos convidados. Depois o Vasco vai explicar um bocadinho melhor o contexto desta conversa. Vamos ter connosco a Catarina Raum.

Ela tem um percurso na área da animação e da direção artística, viveu e estudou no Reino Unido, trabalhou, entre outras empresas, com a Google, a Meta, a Amazon, portanto, tem uma experiência também desse lado de trabalhar com empresas ligadas à inteligência artificial e na linha da frente desta área. Trabalha com cinema de animação, diretora de arte, realizadora, e, no fundo, cruza estes dois universos, este que eu já referi, e também um trabalho muito mais, chamemos-lhe, não sei, artesanal, e, no fundo, cruza estes dois universos,

em que tem uma prática artística mais pessoal, que ela depois explicará também um pouco melhor. Depois temos o Bruno Abib, que estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e desde 2017 trabalha como montador em curtas e longas metragens de ficção e documentário.

Foi assistente, por exemplo, de montagem do Great Yamur's Provisional Figures, do Marco Martins, e A Cemento do Mal, do Gabriel Abrantes, entre outros. E realizou também duas curtas, A Rapariga de Berlim, em 2015, morta em agosto, em 2023, e está a trabalhar numa outra curta, Live, Love, Love, onde faz reencenações com recurso à inteligência artificial, que ele também explicará depois.

E temos o José Bragança de Miranda, foi meu professor na faculdade, quando eu andava na Faculdade Nova de Lisboa, no Departamento de Comunicação Social, mas agora está ligado à Universidade Lusófona e tem-se dedicado a estudar e a refletir sobre cultura, mídia, cibercultura e todos estes temas que aqui vamos também discutir.

Tu és Alexandra. Pronto, o Vasco agora explicará o resto. Eu sou o Vasco, nós temos um podcast que se chama No Escuro, este debate vai ser gravado e esta sessão acontece... Um podcast no público. Esta sessão acontece... Vejam só estes quatro momentos recentes. Ontem...

A Academia de Artes e Sistema de Gráfes de Hollywood comunicou que qualquer filme que tenha intervenção da indústria artificial a nível de argumento e de atores fica indisponível para ser nomeado aos Oscars de Hollywood.

A Academia Portuguesa de Cinema nomeou um filme do Edgar Pera, que se chama Cartas Telepáticas, que levou já a um protesto de várias associações por a imagem do filme ser construída através de inteligência artificial. Portanto, são duas decisões que vão em sentido contrário.

Estudou há pouco tempo na televisão, na RTP, uma série, toda ela a nível de animação e de cenário, toda ela de inteligência artificial, chama-se 3000 depois de Cristo. E o ator Albano Jerónimo, num espetáculo que esteve em exibição no CAM, chamado Carne X, dialogava, digamos assim, interagia com inteligência artificial.

Bom, vocês os três, nós já estivemos a falar um bocadinho antes desta sessão, portanto já dá para perceber que está aqui um otimista e dois céticos, razoavelmente céticos. Fale-me deste filme, o que é que vocês sentiram com o filme? O que é que o filme, o que é que é isso ter estado exposto a isto?

Catarina, se calhar começamos por ti. Bem, o filme é confuso, é um pouco, como digo, overwhelming. É assim, é muita informação, muita informação, e a primeira vez que eu vi, eu precisei de ver duas vezes para realmente conseguir entender aqui alguns conceitos, porque há vários conceitos que eram, que são novos para mim, não enquanto conceito, mas ligado ao AI, ou seja, ela conectou, a realizadora conectou... ...

o AI com muita coisa que eu ainda não estava a conectar. E eu acho que isso, de certo modo, foi um abro-olhos. Foi importante porque até agora ela fala muito deste... Ela diz muito que o nome Inteligência Artificial é Marting. E realmente eu não discordo desse nome porque nós todos falamos Inteligência Artificial, Inteligência Artificial, mas o que é que realmente isso significa? Então eu fui pesquisar a intenção da diretora.

E ela realmente, a director, não, da realizadora, e ela realmente quer aqui um pouco tornar mais acessível algo que ela chama que é literacia da inteligência artificial, ou seja, que seja mais acessível para todos compreendermos um pouco a origem, etc, etc. E achei interessante nesse ponto de vista. Obviamente ela não tem dois lados. Ela tem um lado, ela é bastante...

ela diz não é não, pronto eu não sou extremista em nenhum caso ou seja, eu penso que no extremismo também não florescemos não é simplesmente dizer não e deixar isto assim não concordo com isso mas há certos pontos válidos que me deixaram a pensar muito sobretudo na minha experiência que eu trabalho com clientes com multinacionais por um lado e num âmbito de... é sempre artístico porque é...

São campanhas de publicidade, onde realmente tentamos trazer algum, entre aspas, sentimento e tocar o público, mas é uma multinacional lá mesma, ok? E, por outro lado, trabalho em animação, um processo muito artesanal e todo dirigido a esta pintura. Então, eu estou aqui numa grande contradição. Eu não me vou pôr contra.

Porque é o meu sustento também. Mas também não me vou pôr totalmente a favor porque está a matar a minha arte ao mesmo tempo. Bem, é uma contrarição. Acho que muita gente sente a mesma coisa. Claramente a realizadora pôs-se contra. Vamos observar também o porquê. Tem as suas razões válidas. Mas é isso. Foi o que eu senti. Eu estou no meio ainda. É difícil estar no meio depois de assistir estas barbaridades todas. Mas por outro lado... Bem, é isso.

Bruno, tu também és um criador como é que te posicionas e como é que te sentes depois de ver este filme? Bom, eu acho que o filme contextualiza muita coisa que é uma coisa muito política é uma visão muito política sobre toda a criação e como é que isto está sendo instrumentalizado pelas big techs e todo o envolvimento digamos capitalista que isto tem mas eu acho que falta entender no filme...?

Primeiro, o enquadramento que a realizadora tem com a inteligência artificial, porque a verdade é que, pelo que eu percebi do que li sobre o filme, isto também partiu da relação que ela tinha com a experiência que ela teve a trabalhar com o chat GPT, por exemplo. Eu acho que falha no filme é precisamente o enquadramento dela enquanto indivíduo perante aquela realidade. Ou seja, eu acho que é um filme que denuncia...

imensos problemas que são inegáveis, mas ao mesmo tempo falta para mim um enquadramento do que é que ela, como é que ela se insere enquanto humana naquilo. E depois eu sinto também que falta também para mim entender no filme, eu acho que o filme poderia funcionar como uma série em que isto seria o primeiro episódio.

Porque falta entender também quais é que são as repercussões que isto pode ter para o futuro das pessoas, não é? Porque estamos só a falar quase de um contexto sociopolítico, mas falta entender também os efeitos que isto pode ter no futuro. E estas ameaças são todas coisas...

Eu acho especulativas, mas falta entender também qual é o peso que essas coisas vão ter para as pessoas. Eu sinto isso. Mas eu reconheço que é inegável e acho que aprendi algumas coisas com o filme também, obviamente. Mas eu sinto que a minha relação com a inteligência artificial é uma relação também que vem de um lugar de experimentação.

mais do que de otimismo com a tecnologia em si. Mas eu acho que é isso. Eu sinto que também no trabalho que eu estou a fazer em que eu insiro a inteligência artificial, eu estou também a enquadrar um pouco o meu lugar enquanto pessoa perante aquilo. E eu também tenho a ver precisamente... É um filme autobiográfico em que eu estou a contextualizar perante aquela tecnologia.

E acho que isso é dos poucos caminhos que eu sinto que possam ser éticos. Mas só para as pessoas, se calhar nós vimos, mas quem não viu, explica só melhor como é que tu trabalhas isso. Sim, pronto, então isto é um filme, é uma curta-metragem que eu estou, está em pós-produção e que tem a ver com a descoberta de um, isto vem aliás do contexto de uma residência de cinema que se chama um cinema digital em que se...

em que se força ou que se promove a utilização de vários dispositivos como arquivos de internet, CGI, trabalhos de via-efectos, inteligência artificial, para fazer cinema. E vem um bocado também do espírito de experimentação com as tecnologias e perceber como é que elas também podem ser ferramentas úteis para se criar um novo tipo de cinema.

E nesse contexto eu acabei por descobrir, durante a pesquisa para fazer um filme no contexto desta residência, descobri um canal antigo de YouTube que eu tinha, que eu quis ser YouTuber quando tinha 17 anos, em 2010, e fiquei focado com aquele material porque era ridículo, era péssimo. Mas ao mesmo tempo eu tive esta coisa de não conseguir sequer memorizar na minha cabeça que aquele período da minha vida existiu.

E também como uma pessoa que eu cresci numa geração em que nós realmente atravessámos desde crianças esta mudança tecnológica do analógico para o digital, para o virtual e tudo mais, muitas das minhas memórias de vida e de experiências de vida são passadas online ou no virtual ou em videojogos, porque eu também já fiz outra corta-metragem que tem videojogos.

E então eu sinto que a parte da nossa experiência de vida e da nossa realidade também é consumida e é vivida no virtual. E dentro dessa lógica de comparação eu também comecei a questionar um pouco porque é que eu queria fazer vídeos do YouTube e o que é que isso me dava naquela altura e compará-lo com a realidade de hoje em dia.

que na verdade eu acho que em 2010 era um período da internet ou do mundo em que estávamos no início da era do boom das redes sociais. Então a internet ainda era um lugar um pouco distante e que não era uma coisa que nós vivíamos constantemente com notificações no nosso telemóvel.

e hoje em dia já não é assim eu acho que esse otimismo que eu tinha em 2010 com 17 anos perante as tecnologias hoje já não é igual e o filme compara um bocado isso e eu aproveito-me das tecnologias de hoje como a inteligência artificial também para questionar isso

Mas eu acho que... Usando a tua própria imagem. Usando a minha própria imagem. Eu reincendo coisas de 2010, pronto, com inteligência artificial e é uma coisa que não seria possível fazer sem aquela ferramenta, sem aquela tecnologia. E eu acho que, pronto, apesar de todo este contexto que este filme dá, eu acho que deve haver um espaço para nós questionarmos se todas estas coisas maléficas podem ser usadas a nosso favor.

ou não, não é? E eu acho que também o trabalho de um criador é precisamente esse, é confrontar-se com os dilemas da nossa realidade constantemente, as coisas que nos desafiam e o cinema também mudou como o som no cinema também mudou graças a evoluções tecnológicas o som não fala só do cinema muito para o cinema falado fala mesmo até de som digital de analógico para digital melhorou em 200% o trabalho de som no cinema, por exemplo e aí

Eu acho que estas tecnologias podem servir para outras coisas. Baragansa, uma pergunta. Será que esta ansiedade que a inteligência artificial está a criar é mais uma vez uma declinação de uma velha história que é a história do homem e da máquina e que a máquina vai tirar o lugar ao homem e que o homem vai deixar de estar no topo da hierarquia. Toda a gente se lembra daquela sequência do 2001 o dissenso espaço do...

conversa entre o Dave e o Al, ou seja, este filme é resultado dessa ansiedade? Ou pronto, é muito barulho para nada? Vou juntar a pergunta com a primeira da Alexandra, sobre o filme. Eu senti que a única tese que há ali é não contra a inteligência artificial.

e uma denúncia entusiástica e desvertiplicada da inteligência artificial, mas na verdade nunca chega a ser analisada a questão do case de inteligência artificial.

que trata-se verdadeiramente de uma distopia que se baseia na seleção e no corrigir dos traços mais negros que podemos encontrar no real, e depois reuni-los no filme, e a questão que se coloca é se isso realmente nos permite pensar ou não o que é isso de inteligência artificial.

Na verdade, o FIBA não tenta definir. Nós sabemos que a inteligência artificial hoje não é unificada, nem nunca foi, corresponde de alguma maneira aos desenvolvimentos de processos computacionais que se expressam numa infinidade de aplicações, dispositivos, procedimentos vários, que não são compatíveis entre si.

Há diferenças entre o cloud, o gem, o chat GPT, como há diferenças com o DALE e as apps de imagem e de vídeo, como há diferença com as imagens sobre programação e administração matemática, como há diferenças relativamente às máquinas que trabalham sobre...

a biologia molecular, a genética, etc. Portanto, ou seja, tendo-se a confundir uma infinidade de coisas sob um nome que claramente em si mesmo não é claro nem é evidente que possa ser tematizado de uma maneira como esta, unificada.

segundo uma ideia que vocês todos seguiram, que nos levaria a uma visão quase apocalíptica do mundo, uma visão quase apocalíptica do que está a chegar, mas, como dizia aqui o nosso Bruno, dali não se pode antecipar o futuro, não se pode perceber o passado, embora fale muito do passado, mas também não se pode claramente perceber o ponto onde nós estamos. Porque a questão onde nós estamos é como ter uma relação possível com as máquinas.

e nesse momento as marcas computacionais, que seja uma relação não de competição, mas cooperativa ou associativa, que permita fazer um trabalho em conjunto, como sempre ocorreu em qualquer relação artística ou produtiva qualquer.

O exemplo que posso já dar, é que eu gosto sempre desse exemplo, é a fusão do violino com o violino, em que o violino não está à guerra com o violino, o violino não se revolta nem rebela contra o violinista e qualquer coisa que sai excede a presença dos dois. É muito mais forte do que o violino e o violinista.

E é isso mesmo que se chama música, é aquela música específica. E isso sucede em relação a todas as máquinas. Nós não nos relacionamos com a técnica em geral, não nos relacionamos com a computação em geral, mas através de procedimentos simples que escolhemos ou que estão à disposição.

com as quais podemos ser mais ou menos produtivos. Portanto, senti que a dimensão da relação com a inteligência artificial estava totalmente por fazer. Até, aliás, a própria autora, como vocês viram no filme, reconhece que a inteligência artificial, ela nem é capaz de definir, que é uma infinidade de procedimentos. Em relação ao que estava a dizer o Vasco sobre as máquinas, é verdade que há, aparentemente, uma guerra entre as máquinas e os humanos.

por menos desde o Homero, não é evidente para mim isso, não é? Se vê-se que, por exemplo, o Aristóteles defende que seria um mundo mais livre aquele em que os escravos não existissem e as máquinas pudessem fazer o trabalho dele, portanto isso está em dois mil e tal anos há uma sensação de que qualquer coisa de importante vem através das máquinas mas elas só se libertaram historicamente com a modalidade, quando se libertaram das cargas simbólicas, dos encadeamentos

religiosos, das piagens dos domínios e dos poderes, e cresceram em massa. A modalidade foi o crescimento encantado de dupla das máquinas. É a verdade, conforme as máquinas foram surgindo, entrando em nossas casas, umas simpaticamente com os frigoríficos, e outras simpaticamente com a televisão. E isso parece, no caso da nossa autora, demoniacamente com os nossos computadores.

sentiu-se a sua presença excessiva não podemos deixar de responder de alguma maneira é esse novo ser que veio que entrou na nossa vida e com características que em 200 anos nós fomos observando que se transformou crescentemente se multiplicou crescentemente mais plástico e se está a tornar crescentemente mais inteligente

E a questão que se coloca, quanto a mim, é mesmo essa. Como nos relacionarmos com essa estrutura, se tivermos uma visão de que serão uma espécie de escravos ou seres para serem usados, ou como qualquer coisa de inerte ou puramente matérico, como, sei lá, uma pedra ou uma ferramenta, quando elas cada vez são menos, na prática.

Acho que aí a pedra de toque é a questão da inteligência, não é? Porque se as máquinas faziam o trabalho, se até agora elas podiam substituir o nosso corpo, de alguma maneira, como os nossos braços, etc., a ideia de que podem substituir o nosso pensamento assusta mais, não é?

Sim, eu percebo o argumento. O argumento contra o que está a passar tem a ver com aquilo que se pode definir como o estacionalismo humano. Nós, seres humanos, somos especiais, fomos esperados pelo Universo. Se nós desaparecermos o Universo e fecharmos os olhos, o Universo também desaparece e fica com uma perda irremediável.

Só que nós não fomos nem esperados, nem criados. Surgimos pela própria espontaneidade dos acontecimentos da vida na Terra, dos acontecimentos do pensamento na Terra. E hoje estamos no ponto onde esse grande acontecimento, que foi o acontecimento do pensamento, no fundo, como já tinha ocorrido o acontecimento da matéria, como ocorreu o acontecimento do pensamento, está hoje a sofrer mutações essenciais.

Enquanto a mim, se trata-se apenas de atacar a chamada inteligência artificial a partir de um conjunto de princípios que não têm razão de ser. Por exemplo, há dois que são para mim evidentes. Um é que, por exemplo, a inteligência está atribuída a cada indivíduo ou a cada coisa e, neste caso, até exclusiva dos humanos. Nós sabemos muito bem que a inteligência é um fator planetário, está totalmente distribuída entre vírus, vegetais de todo o género, animais, humanos.

e claro também máquinas que também estão a chegar, e que não há inteligência que seja na posse de ninguém. Todos nós participamos e escrevemos nesse processo, que é um processo planetário, não é um processo que tem a ver contigo, comigo, com ninguém. Em segundo lugar, a ideia, que é onde o erro todo vem quando se analisa a inteligência artificial, de que é possível uma inteligência sem corpo, e normalmente o argumento é que a inteligência artificial não tem corpo.

Ou seja, que fosse possível uma consciência sem haver o corpo humano, por exemplo. Mas é evidente que nós não nos relacionamos de nenhuma maneira com a inteligência artificial que não seja através de incorporações várias, mais ou menos mecânicas, mais ou menos elétricas, mais ou menos computacionais, máquinas mínimas ou máquinas virtuais de todo o género, mas estão sempre incorporadas. A ideia de que essa inteligência anda a pairar por qualquer lado e está a penetrar em tudo é um total erro.

nós relacionamos com ela justamente porque só podemos relacionar, ter um contacto com ela, através daquela máquina, através daquela aplicação, através daquele trabalho que estamos a fazer, através daquela estrutura cooperativa que vai surgir, etc. E, portanto, não há inteligência artificial separada.

e a concorrer com a nossa a transição artificial é um acrescento radical ao planeta que desta vez, ao invés de ser menos estúpida, é um bocadinho mais inteligente tem mais inteligência Catarina, o que este filme me fez pensar e eu tenho andado a pensar desde ontem porque eu fui ontem

É o seguinte, antigamente eu meio que via a inteligência artificial com essa ilusão que é um robô, um dia acorda, dama um tiro e eu morri. Pronto, ou a humanidade inteira neste caso. Só que o que eu percebi é que isto não é máquinas versus homens, mas sim homens versus homens. Eu estou a perceber que a inteligência artificial está a ser utilizada por um certo grupo para dividir.

de certa forma, para continuar a dividir a humanidade, talvez, e que não é a máquina, é uma ferramenta do homem com uma intenção. Porque todos nós temos esta ideia, esta distopia dos robôs, a dar-nos tiros e isso tudo, mas nunca foi o robô. É a forma como utilizamos o robô. O robô é utilizado pelo homem.

E eu estou a ver mais a inteligência artificial como isto mesmo, uma ferramenta do homem e não como uma máquina que um dia acorda e tem consciência e pensa e apaixona-se por mim, por ti e por nós. É isso o perigo. O perigo é este para mim, é esta propagação de ideologias do passado, que já foram bizarras para a nossa história e que se calhar agora fica ainda mais fora de controle.

Porque está na nossa casa, eu estou na cama e de repente estou a ter uma conversa com alguém que eu acho, com o chat, do GPT, não é? E que eu iludo-me, que está a pensar, mas é uma coleção de dados de uma informação que já foi manipulada. E é isso que eu acho que é um grande perigo, esta divisão, esta manipulação sem eu ter a consciência que ela pode estar a acontecer.

Portanto, é o homem contra o homem, são certos homens contra o homem e não há máquina contra o homem. Será que isto faz sentido?

A questão de não ter corpo, a consciência, e então a emoção. Pergunto-te isto pelo seguinte, o ator Val Kilmer, que morreu há alguns anos, vai aparecer num filme, uma longa-metragem, que acho que tem um título, não é irónico, mas é chamado As Deep as the Grave, e ele vai aparecer, portanto é o ator principal dessa longa-metragem, com o consentimento da família, e o argumento é a emoção.

Ou seja, é a humanidade. É a ideia de que aquele filme era um filme que ele teria muito querido fazer e como não conseguiu, porque já tinha assado o contrato, mas adoeceu gravemente, a família considera que é uma forma de, digamos, é uma homenagem. Ou seja, é um gesto de humanidade. Há aqui alguma contradição neste gesto de humanidade perante qualquer coisa que é, pelo menos até agora, já acha que é inumano, que não é humano?

José Bragança de Miranda pode começar. Eu gosto imenso de Valquim, não tenho problema nenhum em vê-lo outra vez, nem que seja em inteligência artificial. Como também há muito... Volta e meia volta pegamos no Hamlet, no Divina Comédia, e ela re-worn again, torna-se fígado. Portanto, é a grande característica dessas técnicas, não é da metade escrita, não é?

criou montes de fantasmas cheios de sentimentos e de hesitações, tiro o Hamlet, e as novas eu não vejo que seja tão radical assim, porque se temos a possibilidade de qualquer coisa de essencial que ficou por fazer, no caso do Wilmer, que possa ser feito.

Eu não consigo imaginar que seja qualquer coisa que seja negativo. E que as pessoas digam, não vou ver aquilo, porque trata-se apenas de um filme feito através de meios de atividade artificial. E imediatamente depois colocando-se a ideia logo a seguir em cima, que é um pouco espetafúrgica quanto a mim, que é então é um fake movie. Como se um filme não sejam todos fakes, há já algum filme que seja mais real que outro filme.

que os filmes não resultem por inventividade da capacidade técnica e da ideia, mais ou menos, que isto era ainda com o que eu condujo. Mas havia pelo menos a ideia de que os atores que participavam estariam ali de sua livre e espontânea vontade, que não seria o caso daquilo... Até estaria, por a prova disso, é que ela deixou-se fotografar.

E videografar, etc. Mas não para aquele fim. Sim, mas não vejo que esse seja um argumento que eu dizia sobre o Amnett. Há desses grandes autores que esses personagens criaram, fazem parte da nossa vida. São fantasmas. Não há ninguém que lhes tenha dado autorização para nos assombrarem, nos iluminarem, nos acompanharem, etc. Que isso, em vez de ser feito no teatro da nossa cabeça, seja feito no teatro cá fora, qual é o drama? Não consigo perceber. Imagina que o filme até era fantástico.

e que até era um filme fantástico e era recusado por Hollywood porque as imagens do Wilmer tinham sido gravadas a que é que nós estamos aqui a falar estamos numa dimensão estamos a falar de cinema de atores, de Hollywood mas se extrapolarmos isto para o nosso mundo, para a política

esta ausência de limite de fronteira entre o que é verdade e o que é mentira ou entre o que é verdade e o que é ficção entre o que é verdade e o que é criação pronto, se disser mentira fica logo um juízo do valor isso não é inquietante só é inquietante se tu confundires a política com a arte

Se o Partido Ar tem os seus limites, as suas potências próprias, e a política tem outros limites, outras potências, eu não percebo como é que se possa colocar essa questão. Na política tu tens que... Ou seja, as regras serem diferentes da política e pá. A política, nós na política decidimos sobre as bifurcações que estamos dispostos a dar à nossa vida para ter um futuro que seja vivível e respirável.

enquanto na arte não estamos a lutar por coisas como a vida ou como o futuro é uma forma ao mesmo tempo de resistir mas também de iluminar a vida onde estamos de criar espaços dentro dos espaços da nossa vida é isso que o cinema faz está certo que fechado numa sala aparentemente fica demasiado artificial, está fechado na sala mas essa sala cria um espaço uma espécie de caverna

que está inscrita sobre a vida real, onde uma coisa qualquer que na vida não tem sentido tem lugar. E isso é o que procede com todas as artes. Portanto, custa-me aceitar que a condição para aceitarmos o filme ou não seja a verdade ou não, que nem sabemos bem o que é que seja isso, mas seja a sua potência estética que está em causa.

E até teríamos quase impossibilidade no futuro, a não ser que eles anunciem que foi feito por licença artificial, o filme, por exemplo, da Valerie Vites parece claramente ter sido feito porque licença artificial e não foi, há outros que parecem e não são, ou que não são e parecem, mas pronto, tudo bem, não interessa aqui por acaso. Mas eu diria que são regimes estéticos diferentes. Neste caso do filme, onde é que era o problema do filme, é que o filme procura...

resolver politicamente um problema da estética ou um problema da técnica. Não estamos a falar de uma questão que está para além da verdade ou da mentira, porque na política define-se um caminho de que está para além do comum ou que está contra o comum. E a verdade toda é que o filme basicamente é uma tese política e não uma tese sobre aí.

Porque é um salto muito grande de dizer que, politicamente, ela está na mão dos grandes CEOs, das companhias e do sistema americano, por exemplo. Sim, o filme, de facto, é uma tese política. Da mesma maneira que, por exemplo, o filme sobre o documentário A Partir, eu acho que não era um documentário sobre o Jorge Orwell, mas era A Partir do Jorge Orwell, 2 mais 2 igual a 5.

Nem sequer era um documentário biográfico, porque eu acho que era um documentário sobre o presente, não era sequer sobre o passado. Mas eu acho que os filmes, formalmente diferentes, obviamente, mas eu acho que os filmes têm uma mesma ansiedade. Desenúcia. Sim, têm uma espécie de ansiedade em relação ao mundo de hoje, de uma forma muito crítica. Na minha idade de Tusta, sempre gostei de uma frase que aprendi em jovem, que é a negação só negam negadores. A arte é puramente afirmativa.

E dessa afirmação posso chegar a entrar em guerra e ir com coisas que são essenciais. Mas não é ela própria, é qualquer coisa que é puramente reativa. E eu sinto que o grande problema deste filme a tese, porque este é um filme que tem uma tese para defender,

é que justamente não tem essa ambiguidade que faz parte da estratégia artística necessariamente e portanto isso leva que depois nós temos muito bem que hoje boa parte da inteligência artificial mais forte está na China e na Índia não está nos Estados Unidos

mas o filme é lugar completamente excluído lugares completamente excluídos do filme porque não convém para a tese outro exemplo, dizer que os teóricos todos da AI e da inteligência artificial têm a tese de que as mulheres fazem filhos e os homens fazem computadores é um absurdo, porque a primeira grande teoria dos computadores que existiu e o primeiro algoritmo que depois foi desenvolvido pelo Turing foi feito pela Aydra Lovelace e aí

no século XIX, e foi a primeira. Ou seja, há puras manipulações da informação. Isso só pode ser porque, realmente, tudo o que não cabe na tese central é excluído. E, a partir daí, não há nada que não possa aprovar-se. E eu não gosto de ser, pessoalmente, conduzido para o bom sentido ou para o mau. Prefiro conduzir-me a mim próprio.

Bruno e Catarina como criadores descendo aqui para uma questão mais prática e pragmática que é no vosso trabalho Catarina, há pouco falaste da distinção entre o trabalho que estavas a fazer para alguns clientes e o teu trabalho que teria um lado mais artesanal tu achas que há uma diferença de humanidade de alguma maneira algo do humano que se vê num trabalho e que está ausente do outro? e depois também queria fazer uma pergunta especificamente para o Bruno mas então que comece por ti

e depois passo para ele. Ok, claro, é óbvio que sim. Assim, quando estamos a trabalhar para um cliente, é assim, há uma diferença de ser um designer ou um artista, e eu tenho essa diferença em mim. Um designer responde a um briefing, eu recebo um brief, e eu correspondo com imagens, com pensamentos, etc. Eu, enquanto artista, eu sou...

simplesmente um ser humano e eu exprimo as minhas coisas sem exatamente um briefing que já vem de um cliente, entendem? Então há essa diferença, mas claro que eu continuo a ser o mesmo ser humano, então mesmo trabalhando para a Meta, para a Amazon ou o que seja, nós fizemos sempre campanhas muito humanas, nós sempre pensámos muito sobre isso e etc, mas ao fim do dia é para aquele cliente.

Então, claro que existe essa diferença, onde eu posso sempre entro e tento intervir e tento trazer algo, mas muitas vezes não é possível. Muitas vezes não é possível, então, claro. E por isso é que eles falam muito da resistência e o meu trabalho pessoal é essa resistência para mim, porque há certos clientes que têm essa abertura onde podemos realmente explorar ideias e não há esta aceleração, ou seja...

não nos exigem que tudo seja aí, etc, etc. E aí está tudo bem. Outros precisam de coisas em três dias e dizem explicitamente queremos AI, já nem, pá, façam estes rendas, façam isto, façam aquilo. Pronto, é o meu trabalho. Ok. No meu trabalho pessoal, quem manda sou eu. Então é assim. Ainda. Pois, quem manda sou eu. Não, mas isso é a minha resistência, porque eu não uso AI para o meu trabalho pessoal. Portanto, quem manda sou mesmo eu. Agora.

Bruno, tu disseste duas coisas. Nos teus dois filmes, tu tens no anterior, o Morte em Agosto, trabalhas com animação, não é? E saltas para dentro de um jogo de computador. E neste já usaste aí para com a tua própria imagem.

Qual é a diferença aqui entre a animação a qual nós estamos habituados e a utilização da AI? Isto era uma pergunta e a outra era, falaste há pouco, quando estávamos a conversar lá fora, tiveste uma preocupação de usar a tua própria imagem, ou seja, a ideia de que não tiraste trabalho a ninguém, a nenhum ator. Isso foi uma coisa que esteve presente na tua preocupação ao fazer isto?

Sobre a primeira pergunta, na verdade a minha curta anterior tem animação, mas o que eu fiz foi um trabalho de modificar um videojogo e com o render engine do videojogo gravei planos, fiz modelos do ator do filme, mas aquilo é um trabalho de animação que é mesmo feito com o videojogo, não é uma coisa de animação tradicional.

3D, pronto. Bom, mas eu acho que a diferença, eu acho que a animação, sobretudo, acho que é uma indústria que está a atravessar uma crise muito grande, porque uma crise mesmo moral até, mesmo o anime, que é a animação japonesa, também tem esse discurso, porque, por exemplo...

É um trabalho que requer muita gente para ser feito e é um trabalho que com a inteligência artificial se consegue fazer uma coisa que quase não se percebe que é gerado por inteligência artificial. E eu acho que isso é uma coisa que sobretudo em certas indústrias grandes que querem produzir animação em massa como por exemplo a indústria do anime no Japão.

em que as pessoas trabalham quase em regimes de trabalhos de escravatura quase, é uma forma de facilitar a produção em termos de custos também de custos e de mão de obra e pronto, e eu também acho que não só a questão da animação, mas eu acho que

Quando eu experimentei com a inteligência artificial, ou por exemplo, mesmo no caso do filme do Edgar Pera que estreou em Locarno, a qualidade da imagem tinha falhas, ou seja, a própria qualidade da imagem enquanto produto, enquanto coisa fabricada, vinha sempre com defeitos e eu acho que isso vem de um... Ou seja, isso atraía uma ideia de, sobretudo para quem queria experimentar com a tecnologia, e estamos a falar há dois anos, as coisas evoluíram muito.

mas acho que alimentava uma ideia de que nós estávamos a conseguir, enquanto criadores, entender que a máquina tem falhas e que nós, ainda como criadores e seres humanos, somos superiores à máquina. Hoje em dia isso já não é assim e eu acho que isso é assustador.

acho que é assustador, mas ao mesmo tempo eu acho que a inteligência artificial vai poder ser utilizada para muita coisa que nós não vamos sequer topar, porque se calhar vão ser apenas correções de coisas, como por exemplo o filme do Brady Corbett.

O brutalista. O brutalista. Ou seja, a voz do ator, que teve um prémio de interpretação, foi corrigida o sotaque. E ela já se começa a falar como é que então se quer um devia ter recebido o prémio de interpretação, porque se há a interpretação dele é construída à propósito. Ora, foi mesmo porque eles queriam manter o sotaque o mais gemino possível e a máquina entrou para corrigir o sotaque dele.

Mas isso eu não vejo um problema, porque, por exemplo, eu cresci a ver filmes italianos que eram dobrados e com atores franceses, com outros atores a fazer voz deles, e há um trabalho de fabricação, que é claro que foi narrado por pessoas, dobrado por seres humanos, mas há um trabalho de fabricação assim. E eu também como trabalho como montador...

Eu acho que parte do trabalho do cinema é precisamente essa fabricação, porque o cinema tradicional são planos filmados sem cronologia alguma e com a montagem cria-se... Dar uma ordem, não é? Sim, e cria-se um sentido, inclui-se sons que não existem nos planos, dobra-se imensas coisas, então o cinema é um trabalho constante de fabricação. Agora, é claro que há implicações éticas, que é tipo, quando isto...

recai para uma substituição do trabalho mas isso, nós estávamos a falar há pouco da Disney ter despedido acho que centenas de trabalhadores inclusive concept designers e tudo mais porque queriam apostar na inteligência artificial para fazer esse trabalho e é curioso porque eu recentemente trabalhei como assistente de montagem num filme que vai ser distribuído pela Disney Plus

e eles no contrato diziam mesmo que o filme não podia ter qualquer envolvimento com AI. Ou seja, há um shift no paradigma dos estúdios, dos grandes estúdios, e eu acho que também, ou seja, eu acho que o uso de inteligência artificial num cinema de autor ou num cinema mais experimental, com um espírito de experimentação com uma tecnologia, eu acho que é válido. Acho que é válido nós também podermos experimentar e compreender, enquanto artistas, o que é que aquilo é no seu trabalho prático, porque não é só carregar num botão, não é?

O problema é que os grandes estúdios querem utilizar esta tecnologia para realmente capitalizar com aquilo, lucrar e substituir o trabalho humano em muitas vertentes. Mas sentiste, como dizia a Catarina, que se sentia, digamos, dividido entre dois lados dela própria, quer dizer, o teu trabalho.

E o filme, este documentário, colocou-te alguma pedrinha na encrenagem? Eu só respondi também a uma outra pergunta que tinha a ver com eu me enquadrar, mas acho, ou seja, eu entrar enquanto ator ou personagem do meu filme.

Mas acho que tem a ver também um pouco com isso, que é, eu acho que nós, enquanto seres humanos, nós vamos sempre debater-nos com tecnologias que têm os seus problemas. Nós criticamos, eu vejo posts de pessoas a criticar o uso de inteligência artificial, literalmente no Instagram, que é de uma empresa chamada Meta, que é um dos maiores investidores de inteligência artificial que existe.

E nós também temos que pensar que muitas das tecnologias que nós usamos também foram usadas para guerras, há todas estas questões morais, que eu sinto que no documentário, eu sinto que é um reflexo um bocado do tempo que nós vivemos, que é o que as pessoas chamam de whataboutismo, que é associar as coisas e por associação nós somos pessoas corrompidas, portanto estamos a associar-nos a determinadas coisas.

E eu acho que o trabalho do artista ou de alguém que faz um trabalho artístico ou cultural, ou seja o que for, é precisamente um lugar de contestação, mas sobretudo também de nos depararmos com as coisas de frente. Ou seja, eu acho que é válido fazer um filme como este e acho que também é um filme que se posiciona num sentido muito mais, acho eu, informativo.

Mas acho que também é válido nós utilizarmos estas tecnologias para realmente percebermos o que é que elas são. E, para além do mais, por exemplo, o filme do Edgar Pera, como outros filmes que são feitos com inteligência artificial, são filmes que requerem muito trabalho técnico e conhecimento daquela tecnologia, muita experimentação. E acho que esta coisa da substituição do trabalho humano, apesar de que...

Acho que há casos em que os filmes poderiam ser filmados, não têm necessidade de serem ou de utilizarem esta tecnologia, mas acho que há um trabalho mesmo também de compreender ou ter sensibilidade para utilizar aquilo, porque as primeiras coisas que nós escrevemos, no meu caso não foi isso, porque eu utilizei a minha própria imagem e animei-a e dizia o tipo de animações que eu queria que ela fizesse.

Mas acho que há um trabalho também de compreender a tecnologia. Ou seja, se calhar vão surgir outros trabalhos também graças a isso. Agora, eu acho que também há uma coisa que o cinema está a perder, por exemplo, com esta questão que nós estávamos a falar do Volkilmer, que é esta coisa que o Jacques Rivetti dizia que um filme é um documentário sobre a sua rodagem. E como nós, se calhar no futuro, vamos perder esta ideia de que...

Porque nós estamos a mudar a ideia do que é que é eterno, não é? Porque eu vejo um filme do Godard nos anos 60 com a Ana Karina e eu acho que ela está eternizada naquele filme. O que as pessoas querem fazer hoje, talvez com o nosso fascínio global, com a imortalidade, é que se calhar mesmo depois de um ator morrer ele pode continuar a ser centenas de vezes eternizado. Eu acho que isso é um problema moral.

Acho que a beleza do cinema é também nós revisitarmos lugares e pessoas que já não existem, não é? E que já não estão cá, mas estão nos filmes. E só que pronto, acho que também o cinema é uma arte também do capital, não é? Então vai sempre haver esses instrumentos.

José Bragança de Miranda queria falar. Só uma nota, ou duas, uma porque eu estou despertada aqui pelo Bruno. Eu gosto do cinema do Edgar Pérez e acho bem que um artista ponha como problema a relação com um certo tipo de meios que usa. Penso que é importante que o artista seja capaz

de sair da sua zona clássica e avançar mais longe, levar a experimentação a pontos que permitam que esse meio não seja qualquer coisa de estranho ou de angustiante, como dizia o Vasco. Mas a ideia é, quando nós falamos de inteligência artificial, já vimos que há infinitos problemas.

Não há uma definição dela, mas basicamente o que nós estamos a falar de hoje são de um conjunto de desenvolvimentos que são vitais e de algum modo determinais. Não podemos confundir a inteligência artificial com o texto ou com a imagem, por mais que seja simpático para nós.

Porque se for possível, desde sempre, nós estamos encravados na história pela questão da energia. Durante milhares e milhares de anos, os corpos humanos e animais foram usados por escravos, foram escravos, foram seres, foram usados por tudo e para tudo.

Finalmente surgiu as energias mecânicas e hoje estamos na possibilidade de escapar dessa imensa armadilha histórica da energia. Mas nós chegaremos à energia de fusão nuclear com a inteligência artificial e com a computação. Certeza que estamos há 30, 40 anos a tentar chegar. Já estamos a chegar a resultados interessantes.

Mas temos longe de ter chegado lá. Portanto, há uma infinidade de trabalhos e de novas máquinas, novas matemáticas aí. A mesma coisa sucede sobre a questão da própria computação. A computação, na Vale Ri, mostra bem a imensa parafernália que é preciso para criar um data center. Porque em vida, como eu vos dizia, não há nada desencorporado. Tudo acaba por vir à Terra.

E também a inteligência artificial, quer queira, quer queira, quer queira. Através de nós, através da Terra, chega sempre. E essa dimensão é o instrumento essencial. Mas onde a inteligência artificial, aquilo que se chama super, a inteligência generativa está empencada, é claramente na questão...

da computação. A velocidade de computação estancou. E os data centers irão ser cada vez mais gigantescos, já se fala na hipótese de pôr-nos por causa do refecimento fora da órbita da Terra. Mas a verdade toda é que eles irão crescer comissoravelmente a não ser que a computação quântica se resolva e a computação quântica tem hoje infinidade de movimentos que vêm ligados à computação e à inteligência artificial. Portanto, a mesma coisa sobre o que está a passar.

hoje na genética molecular ou na computação molecular. É evidente que tudo o que se passa hoje sobre a questão das doenças, das vacinas, transplantes de órgãos, de criação de novos órgãos, da engenharia mecânica, etc., está a ser desenvolvido por infinitas outras aplicações e outras matemáticas que parecem cair sobre o tema da inteligência artificial, mas que claramente mostram que isto é um campo de que nenhuma palavra consegue unificar, verdadeiramente, não é?

É evidente, como tudo, e aqui volto então à observação do Bruno, é evidente, como tudo, que tudo o que surge, que entra na experiência, afeta profundamente, provoca por um lado resistências, por outro lado angústias e por outro lado problemas. Este filme é ótimo a mostrar os problemas.

mostra infinitamente as implicações que alguns desses problemas têm e o que é que pode implicar para a crise climática, para a Terra, etc. Mas qual é a solução para isso? E é aqui que eu discordo do Bruno, porque não é uma questão ética, é uma questão profundamente política.

Decidir o que é que vai suceder no caso de desemprego, como é que vai suceder no caso de ultradinheiro gerado por esses dispositivos, como é que outras políticas distributivas são possíveis, etc. Isso corresponde a uma solução política, até corresponde realmente à intervenção de todos nós que estamos a ser afetados, porque pela primeira vez estas tecnologias criaram uma coisa que não existia, que é um sujeito mundial. No mínimo somos todas as vítimas. O que esperamos é que passemos a ser também atores.

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