Porque é que uma esponja pode despertar o desejo filosófico? Rodrigo Guedes de Carvalho explica-nos
No episódio de estreia, o convidado que filosofa com David Erlich e Catarina Barosa é Rodrigo Guedes de Carvalho. Pivot da SIC e também escritor, revela as suas duas grandes inquietações: a origem do mal e a morte, dois temas que mantêm a sua mente em alvoroço. Entre o mal e a morte, muitos outros pensamentos foram sendo tecidos durante a conversa.
O neologismo “apipocar” serve para caracterizar crianças e adultos e uma certa nova forma de estar no mundo atual. O convidado deixa claras as suas preocupações em relação ao rumo do jornalismo e dos jornalistas; as ameaças das novas ferramentas de Inteligência Artificial (IA), criadas por acontecimentos totalmente gerados por IA, que podem ter uma resposta reativa no mundo real. Isto pode estar na origem do mal.
No final, Rodrigo Guedes de Carvalho é desafiado a fazer escolhas entre vários desejos filosóficos e, por incrível que pareça, uma esponja de lavar a louça torna-se o objeto que mais desperta o seu desejo filosófico. Ele explica a razão de tal escolha.
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Catarina Barosa
David Erlich
Rodrigo Guedes de Carvalho
- Origem do mal e da morteMaldade inata vs. adquirida · Natureza humana · Serial killers · Extremismos e ódios · Anonimato e invisibilidade
- Jornalismo e Inteligência ArtificialDeepfake · Ataques cibernéticos · Verdade jornalística vs. literária · Preguiça e o uso da IA · Jornalismo e a busca pela verdade
- Crise do Jornalismo e MídiaClickbait e omissão de informação · Métrica da atenção vs. verdade · Sensacionalismo e gore · Clivagem entre imprensa e televisão · Capital de confiança do jornalismo
- A era do 'apipocar' e a perda da verdadeSuperproteção infantil · Frustração e resiliência · Era da hiperinformação · Medo das verdades · Tédio como motor da imaginação
- O desejo filosófico e a escolha de objetosCaixa de clipes · Cebola · Pequena estátua de um moço · Mini aparelhagem · Esfregão de lavar a loiça
Bom, foi de facto a confirmação de que tivemos aqui um convidado muito bom. Eu acho que ele tem de facto a fama de ser aquela pessoa muito séria, mas tem uma justificação. E sobretudo, essa seriedade não é encenada e é uma seriedade que mistura duas coisas, ímpeto, ânimo.
e convicção. E diria até uma terceira, independência. E mesmo estando enquadrado numa estrutura, da qual hoje até falou, há independência. Isso é muito importante. E eu acho que há uma visão, é mais do que uma visão, eu acho que é visionário. Ele está a ver as coisas a encaminharem-se num certo sentido.
que é um sentido que ele considera mau, a maldade, e está muito inquieto e muito preocupado porque não vê nada acontecer que contraria essa tendência. Há aí um compromisso com a polis, um compromisso com o futuro, uma preocupação com o futuro. Exatamente. E que acompanha esta autenticidade com que ele se apresentou nesta bela conversa.
E acho que foi por isso que muitas vezes o vimos em televisão, em momentos determinantes, a falar, a sair do contexto profissional em que estava e a dirigir-se às pessoas. Claro, desde essa autenticidade, que não é ensinada, é realmente quem não é. É real, é real. Muito bem. Tivemos um bom convidado. Excelente.
Inquietação, inquietação. É só inquietação, é só inquietação, inquietação. É sempre qualquer coisa que está para acontecer.
Princípio da Inquietação, o podcast para filosofar porque não sei ainda. Olá, bem-vindo ao Princípio da Inquietação. Eu sou a Catarina Barosa e comigo está o professor de filosofia David Erlich. Olá, Catarina.
Este é um espaço onde pensar é um verbo que se exercita às vezes a sós, outras vezes em boa companhia. Aqui, dezenas de filósofos nacionais e internacionais partilham connosco os seus pensamentos em voz alta sobre o medo e tantas outras inquietações. E depois há os nossos momentos a três, em que a Catarina e eu convidamos pessoas de diferentes áreas para conversas sem rede, onde as certezas são postas em causa e as dúvidas ganham o estatuto de virtude.
Bom, lá no fundo estamos aqui para praticar a nobre arte de pensar. Mesmo que isso não nos leve a conclusões nenhumas, mas sim a novas perguntas. A dúvida pode ser um bom princípio. Princípio da Inquietação. O podcast para filosofar. Porquê não sei ainda?
Espanto, Festival Internacional de Filosofia. Este ano vamos pensar sobre o desejo. Entre os dias 13 e 28 de junho, em Cascais. Garanta já o seu lugar. Hoje junta-se a nós um homem da comunicação. Queria ser publicitário, mas é pelo jornalismo que dá a cara quase diariamente e em prime time.
Também escreve romances e devagarinho, devagarinho já lá vão dez. O último deles chega à livraria ainda este mês e chama-se O Meu Primeiro Apocalipse. Rodrigo Guedes de Carvalho vem hoje filosofar connosco. Obrigada, Rodrigo, por estares aqui e pergunto-te já o que é que te inquieta? Qual é a tua grande inquietação?
A minha grande inquietação, lamento ser tão comezinho, é de facto o mistério da morte. E é cada vez mais. Tenho uma outra grande inquietação que é um grande combustível dos meus livros, que é onde nasce a maldade.
Essa inquietação é bonita porque leva-nos, é filosófica para já, porque remete-nos para o princípio das coisas, que é um exercício filosófico, a causa da maldade. E conseguiste já chegar a alguma conclusão? Não, conseguiste chegar à conclusão de que ela é absolutamente transversal. Nos países, na história, nos géneros, nas raças.
Eu defendo muito numa época em que se preza tanto que tudo é adquirido e que tudo nasce da educação. Inquieta-me e interessa-me muito a natureza com que as pessoas nascem.
para a minha neta recém-nascida e estava a pensar, isto é uma pessoa que terá a nossa educação, os nossos princípios, os nossos valores, mas ela ali dentro já habita um outro ser humano que nós não sabemos quem é nem como vai ser. Por exemplo, dou-vos este exemplo, a história está cheia de pais chorosos de serial killers, que não imaginaram que poderiam ter aquele filho.
E, portanto, a questão da maldade é uma coisa que me interessa bastante quando escrevo e quando estou a perguntar, porque eu escrevo mais a perguntar, e nesse aspecto acho a literatura e a filosofia irmãs, gêmeas quase, fazemos a coisa desnecessária, mais necessária de um, ambos.
e acho que isso é muito interessante e é das coisas mais importantes é nós lermos isso nas pessoas e ser absolutamente imprevisível porque por exemplo esta explosão este nome que se deu agora dos extremismos e dos ódios e de como as pessoas por exemplo nas redes sociais só sabem reagir numa guerra que já não é uma guerra de concordo mas ou concorda em parte e
ou é vermelho ou azul, ou te amo ou te adoro, ou te professo isso nasce-se muito de uma ideia de maldade que algumas pessoas são capazes de operar sobre os outros eu posso dar-te o exemplo e algumas pessoas que eu conheço mas eu só falo por mim
Por mais que leia uma coisa que me enerva, ou às vezes até que me enoje, eu sou incapaz do gesto ativo de entrar naquela página e insultar aquela pessoa ou desejar-lhe a morte, ou seja o que for. Eu acho que esse tipo de impulso a que o anonimato e a invisibilidade criou um enorme escudo, isso diz imenso das pessoas.
Estavas a falar da maldade e no início parecia-se estar a defender que a maldade, em certo sentido, uma parte dela é inata, uma parte dela nasce connosco, uma propensão que nasce connosco, mas agora já estavas a identificar circunstâncias sociais como o anonimato que podem propiciar a maldade. Acho que será sempre um misto de tudo. Mas nós imaginamos...
Depois aqui entramos na velha questão de sermos ou não russianos, ou não, de acreditarmos que nascemos todos bonzinhos, ou pelo contrário, se somos todos selvagens que poderiam estar no Senhor das Moscas, perdidos naquela ilha e cederem à sua natureza bestial. Mas isso existe, e nós vivemos numa sociedade que está...
a pipocar e a colocar tanto algodão doce em tantas questões que por vezes esquecemos-nos que isso existe. O que é que seria a pipocar? A pipocar é formar um escudo protetor como se fosse uma espécie de esferovite, aliás visualmente é parecido. Tem os contornos. Em que, por exemplo, eu acho que estamos a cair no erro de fazer muito isso.
com as crianças. Estamos a fazer muito isso às crianças, a colocá-las numa redoma sem as deixar experimentar o mundo, não é? Não as deixamos sair, não as deixamos sujar-se e não sei o quê, mas ao mesmo tempo há coisas espantosas. Perto de mim vive um desses casais superprotetores das crianças, não sei o quê.
mas que, por exemplo, se passeiam na rua principal do bairro, que é Alcatruada, onde passam carros, com criancinhas em bicicletas de rodinhas, o que é um perigo brutal, é uma negligência que deveria merecer uma atenção quase da polícia. O senhor não pode pôr esta criança assim em risco. Atenção, vizinhos do Rodrigues de Cavalho, estão aqui a ter uma denúncia pública. Mas achas que às vezes... Desculpa, desculpa, força.
Não, e a perguntar, exatamente, voltar às crianças e à questão da origem do mal. Estas crianças que tu vês a serem educadas dessa maneira, quase apipocadamente, achas que podem tendencialmente vir a ser maus seres humanos? Ou seja, terem potencial... Més, é preciso... Més, é preciso...
Em potência todos somos bons e maus, não é? Depois depende da forma como nós gerimos isso nas nossas vidas e do contexto em que estamos. Mas vê-se estas crianças que são apipocadas, ou que são extremamente mimadas, ou que são... Vejo...
O que é que tu vês? Qual é que pode ser a consequência disso nas nossas sociedades? Estamos sempre, vamos assumir aqui uma coisa que eu acho maravilhosa, em muitas discussões que todos nós já tivemos com grupos de amigos, há sempre um amigo que nos diz não podes generalizar. Ora, eu discordo.
nós passamos a vida a generalizar. E não há outra forma de estarmos neste mundo, ou de conversarmos, que não seja a generalidade. Nós não podemos dizer, falar de um povo qualquer, ter a característica, os suecos são muito frios, e alguém dizer, não, mas eu conheço um tipo em Gothamburgo, que é um tipo muito afável e que não é nada frio. Haverá sempre isso. Portanto, obviamente que nós, nós generalizamos. E, portanto, quando vamos falar aqui...
das novas crianças, eu estou a generalizar. Acho que o apipocar, o colocá-los dentro dos ferovites, está a criar duas coisas. E a primeira é não os preparar para o mundo. E, sobretudo, não os preparar para a ideia de frustração.
Eles não conseguem lidar com a frustração. E é muito importante as crianças, os seres humanos, adquirirem essa capacidade desde cedo, porque isso sim vai defendê-los perante a vida, saber que as coisas nem sempre correm como queremos, que por vezes temos de esperar, que por vezes os outros não são aquilo que nós projetávamos neles, e tudo isso. Eles crescem num mundo absolutamente idealizado.
por pais que julgam estar a fazer o melhor para eles, e depois têm enormes...
enormes desilusões assim que chegam a outros sítios. A mentalidade do ensamental. Estava aqui a pensar se são apenas as crianças que estão apipocadas ou se nós próprios estamos todos mais apipocados e até que ponto é que esse neologismo, que acho que nunca foi repetido tantas vezes no podcast, tem a ver com uma certa distância confortável face à verdade. Até que ponto é que vivemos na era da hiperinformação e da constante informação, mas temos medo das verdades.
Nós temos demasiadas coisas. Estamos demasiado adormecidos. E quando eu falo de crianças, falo de crianças, algumas crianças que já cresceram nisto e que hoje já têm 20 e tais, 30 e tais, ou 40 e tais, se for o caso disso. E não sou nada daqueles que faz o generation gap e que os miúdos comportam-se assim e os velhos comportam-se assado. Por exemplo, o meu pai...
Tem 83 anos, desde que descobriu os iPads e os e-mails e não sei o quê, e os vídeos da internet, ninguém o tira dali. Isso é uma coisa... Há uma embriaguez que é absolutamente geral e que nesta altura já não distingue...
adultos e crianças. A grande questão e foi uma das coisas que me animou a escrever o primeiro Apocalipse passa-se não naquele futuro distópico do ano 3000 com discos voadores e idas a Marte, que isso não me interessa minimamente, eu quero que toda a gente vá para Marte e que me deixem aqui sossegado com os restaurantes abertos e os campos de golfe mas que é a única coisa que me interessa, mas um futuro que é perfeitamente plausível que é um discurso a 40 anos Música
Ou seja, eu projetei o mundo por altura do meu centenário, sem sequer elaborar muito se estou cá ou não estou. Mas é um tempo, repara, não é curto nem longo. E onde eu ponho muito do que nós somos ainda, porque haverá crianças que estão neste momento a nascer, que serão os adultos de 40 anos desse mundo.
Que mundo é que eles têm? A tua neta, por exemplo. A minha neta, por exemplo. O que é que eles herdaram e o que é que eles fizeram com o que herdaram? Pronto. E essa, aqui entra o meu tipo de interrogação e de perguntas que eu gosto de elaborar mais sobre isso. Eu não tenho nenhuma resposta concluente. Tenho uma ficção, uma imaginação que eu coloquei ao serviço de um livro.
Mas tudo isto para dizer, sim, tens razão, isto já não são só as crianças. Todos nós estamos nesse mundo confortável. E eu lembro-me que um dos grandes motores da minha imaginação, e às vezes falo com escritores mais velhos, ou vejo entrevistas de escritores mais velhos e todos referem isso, um dos grandes motores da imaginação foi, nas nossas infâncias, o tédio. Nós tínhamos o tédio, então de repente não havia nada para fazer. E nós tínhamos que fazer qualquer coisa, tínhamos que pôr.
a cabeça a mexer, necessariamente. O único objeto que havia, porque a televisão era uma coisa absolutamente reduzida e com programas que não interessavam a ninguém e com horários muito específicos, era de facto o objeto livre.
E eu não quero aproveitar esta conversa para fazer publicidade ao objeto livre, mas é dos meus maiores medos. Faz a vontade. É o medo que está presente neste futuro distópico que eu imagino. É precisamente essa perda. A morte dos livros? Antevez a morte dos livros? Antevez o livro, depois vai por outro lado e há sempre... Não dês spoilers. Não, não dês spoilers. Mas sim, é baseado...
Talvez não na morte do livro, mas se o conteúdo que tivermos lá dentro for absolutamente inócuo, se for serradura, se for palha, vai dar ao mesmo. Ou seja, achas que, fazendo futurismo, a capacidade do ser humano imaginar vai deteriorar-se.
vai deteriorar-se e o que mais me custa é que nós, o ser humano, está alegremente a construir esse estado de coisas. A inteligência artificial da qual toda a gente louva...
Ah, mas depois o Serviço Nacional de Saúde vai poder ser tão bem organizado e na economia consegue prever os cenários quinquenais, essas coisas todas. E eu não estou a ser irónico, a inteligência artificial terá espantosas capacidades ou a capacidade de organização das torres de controle dos aeroportos, o que eu muito aplaudo, isso tudo. Agora, há uma ou outra zona que me está a preocupar.
que é, eu estou a ver a chegar alegremente alunos, estudantes, que, como o próprio nome indica, deveriam estar a estudar, a interessar-se pela vida e por este mundo, e que entraram numa lógica que foi descoberta uma fórmula para eles poderem passar de ano.
Então, estão todos a recorrer à inteligência artificial. Vocês saberão, tanto como eu, a quantidade de exemplos que há neste momento, sobretudo em universidades. De trabalhos com o chat GPT. De trabalhos que são com o chat GPT. Que são e que são mais.
eles são feitos com um único intuito, que é um intuito de ceder a um dos nossos sete pecados, que é a preguiça. É só isso. E faz-me aflição. E ainda há tempos me apareceram alguns formandos que são cada vez mais novos, que aparecem como estagiários no jornalismo, que eu noto na maneira de fazerem as coisas, que estão no jornalismo.
O jornalismo caracteriza-se por, uma das magias do jornalismo é nós que quando acordamos não sabemos que notícias vamos dar à noite, na verdade. Há essa magia. Depois há a magia de pegarmos numa história que nos atribuem e podermos dar o nosso cunho pessoal, fazer a nossa narrativa. Eles introduzem, como se fossem elementos de cenoura e ovo cozido e massa, introduzem numa panela, que é a inteligência artificial, e dizem que faz uma notícia. E a minha pergunta é,
Qual é o gozo, que gozo retirarão estas pessoas da profissão que escolheram? Para que é que andaram sequer a estudar? Isto leva-me aqui a este tópico fundamental da história da filosofia, que quase é o tópico central da filosofia, que é a verdade. Estava a ouvir-te sobre a IA e ia-te perguntar a propósito da IA, em certo sentido, tanto o jornalista...
como romancista, como filósofo, a filosofia, o jornalismo e a literatura procuram a verdade. E perguntar-te-ia, que diferenças haverá e que semelhanças entre a verdade jornalística, a verdade literária e a verdade filosófica, e se aí há, é uma ameaça às três? A verdade literária, eu penso que não se aplica. Pelo menos, eu escrevo só romances, mas os meus romances são absoluta ficção.
Mas não expressam uma verdade universal os romances? Não. Eu não escrevo com essa pretensão. Eu não escrevo o romance. E acho que ainda outro dia estava a ver uma entrevista do Javier Cercas. Concordo plenamente. Acho que qualquer romance que é escrito de base, com mensagem, com sermão, com... vou através da minha história fazer a crítica à sociedade, está morto à partida. O romance deve ser...
bem escrito. É isto que ele deve ser. E deve ser uma história bem contada. Mas ter, sobretudo, uma estética. A boa literatura distingue-se da outra pela estética. Não é pelas temáticas, porque, como já todos os escritores concordámos, está tudo dito, sobretudo. Nós encontramos maneiras de nos expressar. E aí a verdade...
não é necessária. Isso levava-nos para uma outra discussão. Agora, no jornalismo, eu estou tão preocupado que estou basicamente em pânico. E estou em pânico porquê? Eu lembro-me que foi, parece que foi ontem, que o mundo foi surpreendido.
não sei se lembro, com uma notícia que foi dada como graça, pelas próprias televisões, que pela primeira vez foi colocada uma imagem que parecia o Barack Obama a discursar, que tinha a voz do Barack Obama, a imagem do Barack Obama, e não era o Barack Obama. É chamado deepfake, não é? E toda a gente se riu, e eu não me ri, porque disse, isto vai ser o nosso futuro.
É o princípio do mal, não é? É o princípio do mal. É o princípio do mal. Porque imediatamente o ser humano tem uma capacidade de pegar no seu extraordinário engenho naquilo que é capaz de construir e imediatamente saber como é que vai aplicar aquilo ao mal. Desde cedo eu lembro de uma reportagem que fiz sobre doping, que foi interessantíssimo, no início da minha carreira, que eu perguntava, mas...
Como é que continua a haver doping? Porque os melhores cientistas são pagos pelas farmacêuticas que fazem doping.
Elas fazem uma espécie de casting e um dia aliciam os melhores cientistas. Então, os que estão a lutar contra o doping são os cientistas número 2 ou número 3. Os melhores estão do lado do mal. O mesmo acontece com muitos dos ataques cibernéticos, que depois a polícia acaba por recrutar.
bandidos do crime cibernético, que eram de facto os melhores. A batalha entre autenticidade e ilusão parece que por vezes as melhores armas estão do lado dos que querem instituir ilusão e não autenticidade. E neste momento nós estamos numa conjuntura absolutamente explosiva que não passa por este...
Esta até é uma encenação de século passado, esta coisa que eventualmente terá havido com o Trump quando está a descer de popularidade. De repente há mais um atentado que não sei o quê. Levanta muita especulação. Mas o que se passou não tem necessariamente a ver com a inteligência artificial. O que vai poder acontecer muito rapidamente é termos acontecimentos totalmente gerados por inteligência artificial que terão...
uma resposta no mundo real. Por exemplo, tu ter alguém e laborar 12 horas de um noticiário que não existe, com pivôs como eu que não existem, com imagens que não existem, e dizer que um templo católico foi incendiado em Karachi, no Paquistão, fazendo 200 mil mortos. E desencadear um conflito, a partir daí...
Não é estamos perto. Nós estamos sentados em cima desta frigideira. E eu não sei como é que ainda não aconteceu. Agora vejo estes programas que a SIC tem, a TVI também, os polígrafos e os verificas e os não sei o quê.
E vejo ali uma perda de tempo que os meus colegas estão a ter com coisas de... Rumos de redes sociais. Quem era, afinal, a namorada que o príncipe levou? Seria não sei quantos? É verdadeiro ou falso? Eu. Não é isso que interessa. Parece que o ângulo e o espectro devem ser mais alargados. Claro. E, sobretudo, nós...
Como é que nós... O jornalismo está a viver o seu maior desafio. Há uma relevância, não é? Nós tivemos durante décadas uma relevância para a qual contribuíram os seus profissionais, porque o jornalismo está intimamente ligado a quem o serviu, não é? Como é que nós vamos continuar a provar a nossa relevância quando tens um...
Óticas jornalísticas e editoriais que cedem à facilidade, que cedem à própria ideia das redes sociais, uma lógica de redes sociais, e quando vamos poder ser confrontados com um tipo de imagens e de informação que nem nós próprios, na verdade, somos capazes de assegurar se são ou não verdades.
Essa é a grande questão e isso é a grande preocupação. A mentira ou a verdade mentirosa podem efetivamente banalizar o mal.
depois há um outro conceito. Esta é a questão que me preocupa, porque é a questão factual do que é possível, nesta altura, fazer em deepfake, que é, basicamente, tudo. Eles podem fazer tudo, têm a capacidade de fazer tudo. Depois há a questão filosófica da verdade, que nasce, em minha opinião, ou nasce ou amplifica-se no tempo da pandemia. E porquê?
Há um primeiro ensaio dos grandes extremismos na pandemia que é sou provacina ou sou antivacina, que colocou metade do globo uns contra os outros. E depois, se vocês bem se lembram, é o primeiro momento em que há uma espécie de um movimento não nomeado de redes sociais que decide pôr em causa o jornalismo oficial.
E com o lema pela verdade. Com o lema pela verdade, médicos pela verdade, não sei o que. E esta chamada verdade mentirosa. Claro, após a verdade. Nós tivemos frases extraordinárias dessa época, que é quando há um grupo de pessoas que começa a difundir a ideia e muitas pessoas a aceitarem de que é possível cada um ter a sua verdade, o que anula a própria essência da palavra.
Então, eu lembro-me dessa altura de um tipo dizer assim, numa reportagem de televisão, eu já não acompanho os telejornais que isso é tretas. Então, quais são as suas fontes de informação? É um grupo de WhatsApp que eu tenho com os amigos.
Ele considerava... É a falência do espaço público. É a falência da esfera pública. Ele considerava como boa... Não, mas não ia ser a falência do jornalismo enquanto... E é também dessa época essa palavra tão insultuosa do jornalismo, não é? O jornalismo, sim, sim. Eu fiquei preso no bom sentido a uma frase que disseste que é o jornalismo e a lógica das redes sociais. Até que ponto é que...
Pode parecer uma afirmação, mas é genuinamente uma pergunta. Até que ponto é que hoje, algum jornalismo, nessa lógica das redes sociais, se tiver de optar entre uma verdade, se tiver de optar entre a verdade e o impacto, porque às vezes a verdade pode ser não ter muito impacto, ainda estamos à procura, ainda estamos a pesquisar uma conclusão, se a verdade e o impacto... Se arrisca.
E se a verdade e o impacto contrastam, se hoje em dia o jornalista por vezes não prefere ter mais impacto e um pouco menos de verdade? Pergunto. Obviamente que nasceu, eu lembro dos primeiros tempos das redes sociais, nós termos reuniões com o Balsemão e com uma empresária, dizia, ok, o que é que isto vai ser? Como é que isto afeta o nosso negócio? Uma empresa é um negócio. Como é que nós entramos nesta lógica? Como é que competimos? Como é que combatemos? O que é que nós fazemos?
O que eu acho que se está a fazer é as redes sociais nem sequer vão precisar de matar o jornalismo porque o jornalismo está-se a suicidar. Dou-te um exemplo. Tu tens neste momento e já não é só os órgãos ditos sensacionalistas. Tu tens órgãos do mais prestigiado que existem que colocam nas redes sociais e já não é só o jornalismo.
Notícias que, na verdade, ali, naquele momento, dizem só assim. Um homem deslocado entrou numa escola e matou 14 crianças. E tu lês isto em Portugal, uma coisa genérica, imediatamente clicas. E depois lá de dentro eles dizem. Um homem não sei o quê, não sei o quê, não é? No sul da Austrália. A omissão do sul da Austrália A omissão do sul da Austrália
é propositada. É o clickbait, não é? E a omissão do Sul da Austrália é a morte do jornalismo. Porque é uma manipulação. É um engano. É mais do que isso. Eu acho que é um engano. É isso. Não, mas... Engana a pessoa que vai estar a ler. Mas o jornalismo, o jornalismo que ainda vai tendo uma espécie de advogados espertos da sua causa, quando tu disseres isso, o jornalismo disse assim, é tu.
Mas, de facto, um homem entrou numa escola e matou 14 crianças. E tu dizes, mas está bem, caramba, estou em Portugal. Isto está em português. A imagem parece Portugal. Obviamente que eu acho. Queres saber onde é que foi? Estava a pensar até que ponto é que isso não estará relacionado com uma métrica que nunca antes tivemos, porque mesmo no tempo das audiências televisivas, que ainda se medem...
Nós não conseguimos medir quantos segundos teve uma pessoa no seu sofá olhar para a televisão, mas nas redes sociais conseguimos. Até que ponto esta métrica... Os audímetros, por acaso... Os audímetros conseguem, mas não é o... Mas creio eu que talvez não há o ponto das redes sociais. Não, não fazem a sintonia fina das redes sociais, percebem o que estamos a fazer. O segundo em que abandonamos um vídeo... E até que ponto é que essa métrica da atenção é compatível com a procura desinteressada pela verdade?
Essa é a grande questão, que se calhar o jornalismo ele próprio, vamos cá ver, o jornalismo não existiu sempre.
Houve uma altura que ele nasceu. Algumas pessoas, às vezes vejo pessoas que acham que, quando se fala do sensacionalismo, pessoas que têm uma visão muito poética, que o jornalismo nasceu como sendo uma coisa muito nobre, muito fantástica, e agora está-se a perder. Não, eu remeto-os para os tempos do Jaco Estripador, que, não, o jornalismo sempre foi essa chamada de atenção, o gore sempre foi apelativo.
Mas isso não é só o jornalismo, é a sociedade. Eu, às vezes, estou em casa e a minha mulher está deliciada a ver documentários e documentários sobre crimes reais. Nós somos isso, nós somos esse bicho. E, portanto, a minha questão com o jornalismo e o sensacionalismo, para mim, nunca esteve ligado ao sangue, que essa é outra coisa que alguns jornalistas confundem tudo. A questão do jornalismo é...
Uma coisa é nós considerarmos já que ele já não faz sentido, coisa que eu me recuso a fazer. Outra coisa é acharmos que, com o tempo, o próprio jornalismo, de tão confuso, de tão difuso, de tão estranho, de provocar tanta incredulidade, pode desaparecer por si.
isso não sei, nem daqui a 40 anos saberei, mas que é aquilo que eu acho que é o jornalismo que está num risco profundo está, isso acho mas não consideras que o jornalismo para subsistir ou se calhar o...
O lance final pode ser exatamente o único sítio onde se pode encontrar a verdade. Recordo-me de uma entrevista que fiz há muitos anos ao Francisco Pinto Balsemão. Eu diria que foi há 15 anos, talvez, ou 20.
em que ele dizia que achava que no futuro o jornalismo seria qualquer coisa como a figura do respigador. E eu achei esta imagem belíssima, porque consigo imaginar um jornalista em cima de um monte de lixo.
a tentar encontrar o objeto que ali faz sentido e importa. E quando tu referes que estás a ouvir o polígrafo ou estás a ouvir aqueles programas em que se está, obviamente, a tentar prestar um serviço público, eu vejo ali vontade de esclarecer as pessoas. Mas muitas vezes com questões de Ana Caprini, não com verdadeiras questões essenciais. A questão é que no monte de lixo que nós temos todos os dias, é preciso encontrar o objeto...
que desperte as pessoas para a necessidade da verdade. E eu acho que a salvação dos... Eu vou-te dizer qual é a minha opinião, e aqui entra muito a palavra suicídio, dos polígrafos e dos verificadores e não sei o quê, que é o seguinte.
quem vir o polígrafo e os verificamos essas coisas todas dos factos tem uma ideia da sociedade quem vir, costuma-se dizer, quem vir o correio da manhã TV de manhã à noite é pá, põe as mãos à cabeça que acha que é só crimes neste país, muito bem, uma ideia também um bocadinho exagerada, mas há essa perceção, mas também quem vir os polígrafos acha que tudo o que se passa, só se passa nas redes sociais
então aquilo passou a ser um clube restrito das redes sociais às vezes o polígrafo está-me a dar respostas a perguntas que eu não fiz que é, com certeza andava-se a perguntar de quem era aquela música da Taylor Swift não, não me andava a perguntar nada desculpa, mas não, estava a viver outras coisas então tornou-se... estamos todos nas redes a fazer esse próprio problema estamos todos nas redes a comentar as mesmas coisas e portanto...
Este espaço, que é transmitido em televisão, em horário nobre, de alguma forma entrega-se já totalmente a uma lógica de rede social. E depois lá, de vez em quando, vem ali uma questão realmente importante. Isso é completamente verdade e é assustador. E muitas vezes me pergunto se nós queremos ver alguma coisa relacionada com cultura, com livros, com pensamento.
temos que ligar a RTP2, lá aparecem umas coisas. Nos canais privados nós não encontramos nada disso. Não há espaço para o humano, só há espaço para... A atualidade é ditada pelas redes sociais. E eu estou completamente à vontade de falar disto, porque eu falo imenso com os meus colegas, eu felizmente tenho uma...
uma posição na SIC pessoal e profissional que me permite ser ouvido e respeitado. Mas no limite, eu não sou um decisor. Não sou um decisor. Mas podes dizer as verdades incómodas. Eu não os considero verdade. As pessoas sabem que eu tenho as minhas opiniões e que sou muito...
afirmativo, nas minhas opiniões. E muitas vezes, às vezes, tem que ir trabalhar bem-sítimo. Mas, por exemplo, as questões da cultura. E não é só na SIC, nos canais mais generalistas, ou os canais mais de massas, as questões da cultura, nesta altura, estão reduzidas, se tu reparar.
Fala-se de uma coisa, é uma artista, não sei o que mais, e no segundo parágrafo já se está a dizer quantos seguidores é que tem no Instagram, quantas visualizações é que teve no Spotify. É tudo uma quantificação. A medida é a quantidade. É a quantidade. E é de um... Como se aquilo fosse a prova.
do talento, logo a justificação de aquilo ser notícia. O que nasceu como simulacro lúdico, subitamente parece substituir porções do real, não é? Exatamente, e há pouca reportagem sobre cultura e há muita reportagem sobre venda de bilhetes ou...
quem é que vai ao meio arena ou deixa de vir e quantos espectadores é que teve no último concerto? Mas, de facto, o jornalismo está numa encruzilhada porque esses conteúdos não vendem, não geram audiências e, portanto, não há investimento publicitário em conteúdos como esse. E, portanto, eu acho que a lógica do jornalismo, de facto, tem que ser mudada e também não percebo porquê que não fazem nenhum congresso.
Ou porque é que os jornalistas não avançam e não começam a pensar seriamente na sua profissão, que eu acho que é a salvação da verdade, sinceramente. Mas sabes que o jornalismo tem imensos problemas. E um dos problemas que teve em Portugal, e eu fiz parte dessa história, é, e eu sinto isto, já o disse a quem tinha que dizer, há uma clivagem dentro da própria classe.
entre os jornalistas da imprensa, que sempre se consideraram os jornalistas sérios, e os jornalistas da televisão, que sempre foram vistos com alguma distância pelos jornalistas chamados sérios.
O problema é que o jornalismo nunca falou a uma só voz. Porque tiveste muitas vezes os jornalistas jornais, até que as televisões se rendem ou se gerem pelas audiências. Mas, caramba, qualquer jornal que sai para as bancas gere-se pela audiência que consegue gerar, pelo público a que consegue. Portanto, nós seremos sempre empresas. Agora...
A questão aqui é o preço, o preço que nós temos que pagar. Eu falava muito sobre isto com o Francisco Balsemão, que era, nós temos ou não temos as tais linhas vermelhas de que tanto se fala? E conseguimos ter na SIC, apesar de tudo. Tivemos durante muito tempo, espero que continuamos a ter, porque eu acho que o grande futuro do jornalismo vai-se jogar aí. Porque, apesar de tudo, há um capital.
Há um capital que nós ainda temos, que é... Nós passamos demasiado tempo intertítimo nestas espumas dos dias, estas coisas, olha, onde incluo... O Trump despacha-te lá. Há negociações ou não há negociações? Ou o tipo do PS que vira às costas ao tipo do Presidente da Assembleia da República? Isto também se insere na chamada espuma dos dias.
De repente há coisas realmente importantes. Pode-se um eclodir de uma guerra na Ucrânia, ou Deus que queira que não, ou outra pandemia, não sei o que mais. Está provado que nesses momentos, apesar das pessoas andarem distraídas com os amigos, nos momentos fraturantes as pessoas vêm ao jornalismo. Vêm sobretudo à televisão. Saberam, ok? Deixa-me ver o que é que se está a passar. E aí...
A minha responsabilidade, e é isto que eu tento passar aos mais novos, a nossa responsabilidade é brutal. Porque a pessoa está a confiar que nós vamos ser, se não a verdade, pelo menos aquele que a busca.
Exatamente. E aí o jornalismo é profundamente filosófico. O jornalismo aí casa perfeitamente com a filosofia e nessa medida pode de facto ser a salvação. Nós já estamos aqui no fim do nosso tempo. Eu passava já para a caixa dos desejos. Muito bem, vamos à caixa do desejo filosófico. Para a caixa do desejo filosófico que é aqui o momento televisivo e eu fiquei curiosa por saber porque é que há
Eu creio que não, eu creio que vais conseguir antever os objetos que estão aqui. Deixa-me só, antes de fazermos a caixa, eu fiquei muito curiosa. Essa cisão entre o jornalismo de imprensa e jornalismo de televisão acontece porquê? Qual é que é a origem? Sabes que nós fomos uma empresa de ensaio fantástico, a empresa.
O Balsemão tinha os seus dois amores. O Expresso, que é o seu primeiro amor, e a SIC, que ele fundou. Nós vivemos quase 30 anos em edifícios diferentes. E houve sempre uma grande rivalidade entre os filhos de Balsemão.
os expressos, que achavam que o Pinto Balcebão dava mais atenção a nós, nós achávamos que ele dava o expresso, os tipos do expresso que olhavam para nós como se nós nem sequer soubéssemos escrever nós olhávamos para eles como intelectuais chatos do que caraças que ninguém quer saber de não sei o quê
E de repente o Balsemão juntou-nos no mesmo edifício. E é muito curioso hoje, num open space, não é? E olha que não foi imediato. Nós tivemos que aprender a viver uns com os outros. E de repente foi engraçado como pessoas adultas com carreiras cimentadas tiveram de chegar à conclusão, com sorrisos pelo meio, felizmente, de confessar aos outros, eu era preconceituoso em relação a ti e já nem me lembro porquê.
porque a televisão era entretenimento e o jornalismo é mais reflexão e pensamento. Esta é a grande questão da relação entre o espetáculo e a verdade. A televisão é mais espetacular que o jornal. Sabes que esse é que é um erro comum, como eu costumo dizer. Eu sou, eu trabalho em televisão. O meu meio é a televisão.
Mas eu sou mais colega de profissão do que o jornalista da TCF, do que quem apresenta o Big Brother. E esta é a grande diferença.
Percebo, entendi Vamos à caixa Esta caixa tem vários objetos e eu vou tirar dois objetos e vou perguntar-te qual deles desperta mais o teu desejo filosófico podes encarar o objeto de forma literal ou metafórica e podes encarar o objeto como este objeto concreto ou como representante da sua classe de objetos
um fica nessa ronda o que não escolher chai e vão surgindo novos objetos meu Deus até chegarmos ao objeto final que é aquele que vai despertar mais o teu desejo filosófico é muito livre estás preparado? o que é que desperta mais o teu desejo filosófico? uma caixa de clipes ou uma cebola? uma caixa de clipes porquê?
pela minha ideia de organização, que está ligado à organização. E acho que, filosoficamente, nós tentamos organizar um certo caos em que vivemos para o podermos suportar. Muito bom. Sai cebola.
Uma caixa de clipes ou uma pequena estátua de um moço? A caixa de clipes, pelas mesmas razões. Não gosto muito de figuras. Simbologias. De simbologias. Estatuetas de animais. É, não sou muito a dizer. Uma caixa de clipes ou uma mini aparelhagem?
talvez uma mini aparelhagem porquê? porque eu preciso eu sou muito ligado à chamada à chamada música do mundo eu sou muito ligado à ideia de música no mundo quase toda a minha vida foi feita em torno de uma banda sonora eu por exemplo sou daqueles escritores que escreve com música com uma espécie de uma lista e essa é...
Esse jogo de sentidos, de vários sentidos ao mesmo tempo, operar para mim é importante. Portanto, se eu puder pôr aí o meu... Claro que sim, tu é que mandas qual é que fica. Sai a organização e fica a música. De certa medida também organiza, não é? Esta aparelhagem, uma aparelhagem ou um esfregão de lavar a loiça? Um esfregão de lavar a loiça. Porquê? Porque adoro lavar a loiça.
como adoro estender roupa e tudo isso está ligado a algo que eu espero que não seja obsessivo compulsivo mas uma procura de higiene e de purificação
uma das coisas que é notória que eu finalmente dei aso no meu livro é o meu maior medo e acho que vai ser esse esse é que é o grande momento da humanidade é quando faltar água nas torneiras isso é que realmente nos vai transformar de novo em bichos e essa guerra é que vai ser a guerra final mas para mim tudo que esteja ligado a limpar organizar manter é
pronto para a próxima utilização. Portanto, gosto imenso desse objeto. Muito bem. E por último, tudo com o esfregão da louça, revelou esta dinâmica.
Um esfregão de lavar a loiça ou um peso de 3 kg? Mon cœur balance. Mantenho o esfregão, porque é mais constante na minha vida, mas os pesos, da forma mais literal possível, estão ligados desde a minha adolescência ao meu exercício físico, que o faço exatamente com a mesma necessidade com que lavo a loiça.
preciso disso para me sentir bem, para me sentir pronto, para me sentir com resposta para as coisas. Quase que agora, depois dessa observação, te senti na dúvida.
Não, mantenho o esfregão. Sim. Muito bem. Então o esfregão de lavar a loiça é o objeto que mais desperta o teu desejo filosófico. E a propósito de desejo filosófico? A propósito de desejo filosófico, para quem não saiba, deixo já a dica para o Festival Internacional de Filosofia, que vai ter a sua segunda edição já em junho, em Cascais.
e que vai falar sobre desejos, e certamente vamos falar sobre muitos medos, e este medo da sujidade e o medo de... E a necessidade de purificar. Reunem-se mais vezes do que os jornalistas. Exatamente, mas pode ser um convite para os jornalistas acompanharem esta iniciativa. Que teria todo o sentido, haver jornalistas...
na plateia desse congresso e nos painéis e no palco porque é isso que se pretende o meu grande medo é que deixemos de pensar e nos limitamos dessa nossa grande característica que é sabermos pensar Obrigada Rodrigo por este bom pedaço de conversa Obrigada
E para terminar, não podemos deixar de agradecer a quem merece. E os créditos deste episódio do princípio da inquietação vão para a Tale House, onde estamos a gravar. A identidade sonora é uma interpretação do músico e produtor Pedro Luiz da obra Inquietação, da autoria do José Mário Branco, inspirada na versão interpretada pelo grupo Anaifa.
A capa é de Tiago Pereira Santos, com fotografia de Matilde Fieschi, e a imagem do Espanto Festival Internacional de Filosofia. A coordenação está a cargo de Joana Beleza e a direção é de João Vieira Pereira. Pode ouvir o princípio da inquietação em expresso.pt, na SIC e na SIC Notícias, ou também nas restantes plataformas. Eu sou a Catarina Barosa e comigo tenho sempre David Erlich. Voltamos na próxima semana.
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