Ana Leoni: maternidade e finanças
O que muda nas finanças pessoais com a maternidade? Além do aumento nos gastos, como as mulheres em especial lidam com essa nova realidade? No caso das mães solo, que chefiam 14,9% dos lares brasileiros, quais são as maiores dificuldades?
A entrevistada deste episódio do Podcast da Semana, a planejadora financeira Ana Leoni, fala dos caminhos possíveis para fechar as contas com a chegada dos filhos -- considerando a realidade de um país em que as mulheres ganham 21% a menos do que os homens.
Ana Leoni é CEO da Associação Brasileira de Planejamento Financeiro, a Planejar, sócia e cofundadora da BEM Educação, comentarista da Rádio CBN e autora do perfil Dinheiro com Atitude, que nasceu de sua vontade de compartilhar seus 30 anos de experiência no mercado de capitais e de ajudar as pessoas a colocar a vida financeira em ordem.
Na conversa com Gama, Leoni fala da mudança de prioridades com a chegada da maternidade, da necessidade de planejar gastos e das estratégias das mulheres que são chefes de família para fechar a conta no final do mês. "Nasce um senso de proteção e uma visão de longo prazo", diz.
Roteiro e apresentação: Luara Calvi Anic
- Mães soloConstrução de rede de apoio · Políticas de apoio · Capital social · Mecanismos de proteção · Busca por ajuda profissional
- Presença maternaMudança de prioridades financeiras com a maternidade · Aumento de gastos com filhos · Estratégias de mulheres chefes de família · Visão de longo prazo e senso de proteção
- Dúvidas Pessoais e FinanceirasDesafios financeiros das mães solo no Brasil · Crescimento do número de lares chefiados por mães solo · Necessidade de rede de apoio para mães solo · Políticas de apoio a mães solo
- Endividamento das famílias brasileirasAcúmulo de pequenos gastos · Juros altos · Linhas de crédito abundantes
- Endividamento e gastos invisíveisAlto índice de endividamento no Brasil · Acúmulo de pequenos gastos e desperdícios · Gestão financeira doméstica pelas mulheres · Gastos invisíveis no orçamento familiar
- Planejamento FinanceiroImportância do planejamento estruturado e intencional · Previsibilidade como alívio para angústias financeiras · Revisão de gastos e controle financeiro · Diferença entre gastar e ter dinheiro
- Planejamento financeiro e disciplinaDiferença entre gastar e ter · Disciplina como chave para tranquilidade · Processo contínuo e cotidiano
- Investimentos em LCABaixa cultura de poupança no Brasil · Importância de seguros (vida, educação) · Desenvolver o hábito de poupar · Capital social como rede de apoio
- Autonomia FinanceiraDisciplina como fator chave para tranquilidade financeira · Independência financeira como processo contínuo · Manter a disciplina para sustentar conquistas
- Sacrifício financeiro e meritocraciaExpectativas sociais sobre sacrifício financeiro na maternidade · Aflições financeiras em diferentes classes sociais · Desafios da longevidade e aposentadoria · Meritocracia e esforço financeiro
O que a gente não vê são os outros fatores importantes para uma independência financeira e para um planejamento estruturado financeiro. Então, não apenas você conseguir gerenciar o dia a dia do seu fluxo de caixa, ou seja, o que entra e o que sai.
mas você precisa fazer jus aos outros dispositivos importantes de um planejamento, que é ter uma reserva para as eventualidades. Então, como o orçamento é muito apertado, qualquer respiro fora do ritmo faz com que as pessoas se dividem. E no caso das mulheres que já têm essa carga da responsabilidade, isso pode se agravar.
O que muda nas finanças pessoais com a maternidade? Além do aumento de gastos, como as mulheres, em especial, lidam com essa nova realidade? E no caso das mães solo, quais são as maiores dificuldades? Em um país em que as mulheres já ganham menos do que os homens, como fechar essa conta com a chegada dos filhos?
Sobre esse tema, eu converso hoje com a planejadora financeira Ana Leone. Eu sou Luara Kalvenick e este é o podcast da semana. A cada sete dias, a gente traz um tema novo para você.
Ana Leone é CEO da Associação Brasileira de Planejamento Financeiro, A Planejar, sócia e cofundadora da Bem Educação, comentarista da rádio CBN e autora do perfil Dinheiro com Atitude, que ela criou a partir da vontade de compartilhar seus 30 anos de experiência no mercado de capitais e de ajudar as pessoas a colocar a vida financeira em ordem.
Na conversa com Gama, ela fala da mudança de prioridades com a chegada dos filhos, da necessidade de planejar gastos e das estratégias das mulheres que são chefes de família para fechar a conta. Ela também traz dicas para ensinar os filhos a terem uma relação saudável com o dinheiro. Escuta esse nosso papo.
Ana, muito obrigada por estar aqui com a gente hoje e eu queria começar falando de maternidade e finanças. Muito bem, um prazer estar aqui com você para falar desse tema que é super interessante, envolvente e desafiador. É uma pergunta bastante direta que é o que costuma mudar na vida financeira das mulheres de uma mãe quando nasce um filho?
Bom, quando nasce o filho, nasce uma mãe e nasce uma mulher muito mais consciente sobre proteção. Tem até algumas estatísticas muito interessantes que mostram quando a pessoa se casa, a gente acaba tendo uma prosperidade financeira maior, porque o estado de consciência muda.
a construção de projetos conjuntos, a união de duas rendas, muitas vezes, e isso faz com que a capacidade financeira do casal cresça. Mas quando a gente está falando de mulheres, nasce esse senso de proteção e essa visão de longo prazo, que muitas vezes é a maior motivação que as mulheres têm em relação aos filhos.
Até muito se fala que as mulheres são mais conservadoras nos seus investimentos ou na gestão do seu dinheiro, mas isso não está relacionado diretamente à escolha de produtos ou categorias de produtos que sejam mais conservadores, mas sim à motivação muito mais de proteção.
e essa proteção olhada no longo prazo, do que a masculina, muitas vezes, que tem o objetivo muito ali de ganhar no curto prazo, de ter resultados que sejam resultados mais instantâneos. Então, acho que essa é uma característica muito forte quando a maternidade chega.
porque a gente tem ali um ser para cuidar em muitos aspectos e o financeiro é um deles também. Então eu queria te perguntar, andando junto com essa consciência de que é preciso poupar, enfim, essa consciência que chega com a maternidade, entra também um certo descontrole em decorrência desses novos gastos e também da falta de tempo?
Para planejar? Olha, a gente tem uma questão muito objetiva. Eu escrevi uma coluna uma vez dizendo justamente isso. O título era, na maratona financeira as mulheres largam no pelotão de trás. Isso é fato. A gente tem uma renda média inferior ao do homem em quase 30%. A gente tem que buscar essa diferença em algum lugar.
Ou é produzindo mais renda, que muitas vezes, principalmente na maternidade, o tempo fica mais escasso. Então, não há capital humano suficiente para essa produção de renda extra. E acaba caindo pela outra ponta, que é o controle dos gastos. Então, ou a gente produz 30% a mais ou a gente gasta 30% a menos. Em um momento da vida que as despesas aumentam.
Sem dúvida nenhuma, isso faz com que o cenário seja bastante desafiador. Custos aparecem de todos os lados, sejam custos bastante objetivos, com alimentação, com cuidado, é necessário, portanto, criar até uma rede de apoio, e depois outros custos, com escola, educação, saúde e segurança de uma maneira geral. Sem dúvida nenhuma, isso traz um desafio adicional, não é o gatilho central.
de se perder nas finanças, existem vários outros fatores, nunca é um fator só. Quando a gente olha esse número de endividados no Brasil, não dá para a gente colocar na conta apenas de uma coisa, mas de um conjunto.
de fatores que levam a essa situação. Juro alto, pequenos empréstimos, linhas de crédito abundantes, o uso disso no dia a dia financeiro. Então, isso faz com que, ao decorrer do tempo, a gente acaba perdendo, de fato, o controle. E isso tem que ter um cuidado. E no momento de tanta mudança na vida de uma mulher...
que ela se torna mãe, já tem tantas inseguranças, tantas incertezas, a variável financeira talvez seja a mais objetiva que ela pode endereçar para cuidar, por mais desafiadora que possa parecer. Pois é, ótimo você trazer isso dos endividados. Os dados recentes mostram que 80% dos brasileiros têm alguma dívida. A gente falou disso.
aqui na gama, no podcast, com o Cauê Lopes, que acaba de lançar o livro Parcelado pela editora Fósforo, em que ele fala justamente dessa prática bem brasileira de lidar com o dinheiro. E esse acaba sendo um ralo muito grande para as pessoas, porque quando a gente olha vários estudos, levantamentos, por isso que acho que vale nesse contexto da maternidade que a gente está conversando.
Ninguém chega a um estado de endividamento da noite para o dia, de uma hora para a outra. Ele acontece com um acúmulo de pequenos gastos. Em geral, não é por um grande trauma, não é como um grande trauma aqui ou um grande acontecimento. Um grande trauma é uma mudança que vem a acontecer na vida da gente.
Então, quase nunca é por uma doença grave ou porque perdeu repentinamente o emprego, ou aconteceu alguma coisa, um divórcio pode ocasionar, mas não são nesses grandes acontecimentos da vida que esse processo inicia.
É aquela coisa escondida de pequenos gastos e desperdícios que vão se acumulando e quando a gente olha, é como vazamento, né? O vazamento vai acontecendo quando você vê o teto caindo na sua cabeça. Então, tem estudos interessantes que mostram isso. Então, na maternidade, é claro que tem um episódio que acontece que vai mudar a vida da mulher dali pra diante, né? Dali pra frente.
Vai mudar de patamar, seja de patamar de gastos, seja patamar da preocupação em relação ao futuro, mas ele não é necessariamente, isoladamente, um fator que pode levar a um endividamento. Ao contrário, as mulheres se conscientizam da importância de se planejar e de se organizar.
E por mais escassa que seja a renda, essa consciência acaba levando a uma organização até muitas vezes intuitiva da vida financeira, mas de certa maneira muito positiva. Ana, ótimo você trazer isso dos gastos pequenos, que acabam passando despercebidos, mas afetam muito a conta no final do mês.
Será que a gente pode dizer que esses gastos, muitas vezes, são feitos pelas mulheres, porque, no geral, são elas que estão ali gerindo a casa e de olho nas necessidades do dia a dia? Queria que você falasse disso um pouco, desses gastos invisíveis, entre aspas, e dessa mulher que gere essa casa.
Olha, tem um ponto interessante nisso que você traz, porque além do que eu comentei, que na maratona financeira a gente está no pelotão de trás, cada vez mais a gente vê mulheres assumindo a frente dos seus lares. Não à toa, os próprios programas sociais, eles são direcionados às mulheres e não aos homens, porque a mulher, independente do contexto de como se configura a relação...
Em geral, trazendo aqui, generalizando mesmo, os filhos ficam com a mãe, a mãe fica com essa responsabilidade do lar. Então, ela acaba sendo essa fonte de organização financeira, de organização doméstica. Então, hoje, quando a gente olha, a última estatística já é um pouco antiga, mas deve estar em torno disso mesmo. 45% dos lares no Brasil são liderados por mulheres e mulheres que estão ganhando menos.
Mas, quando a gente olha, nós brasileiros, nós brasileiras, temos uma habilidade de gestão das finanças domésticas absurda. As mulheres fazem milagres. E quando a gente analisa o Brasil, a gente precisa fatiar. O país é muito grande, a gente tem extremos.
financeiros muito altos, se a gente pega o topo e a base da pirâmide. Mas a gente, olhando para o meião da pirâmide, as mulheres têm uma habilidade de gestão doméstica muito boa.
O que a gente não vê são os outros fatores importantes para uma independência financeira e para um planejamento estruturado financeiro. Então, não apenas você conseguir gerenciar o dia a dia do seu fluxo de caixa, ou seja, o que entra e o que sai.
Mas você precisa fazer jus aos outros dispositivos importantes de um planejamento, que é ter uma reserva para as eventualidades. Então, como o orçamento é muito apertado, qualquer respiro fora do ritmo faz com que as pessoas se endividem. E no caso das mulheres que já têm essa carga da responsabilidade, isso pode se agravar.
É necessário se pensar em investir. E aí, quando eu falo isso, as pessoas falam, mas as pessoas estão tão endividadas, né? E como é que elas vão investir? Se a gente olha estatísticas, a classe A no Brasil investe muito pouco. Até os mais endinheirados no Brasil investem muito pouco. A gente tem mais da metade dos brasileiros que não tem nenhum recurso guardado.
E a gente tem países com renda per capita menor do que a nossa e uma configuração social parecida que investem mais. Então, a cultura da poupança também é uma cultura muito recente no brasileiro. A gente precisa de dispositivos de proteção como seguro. A gente tem uma penetração baixíssima de seguro. Talvez uma mulher que acaba de se tornar mãe, a primeira coisa que ela deveria pensar é fazer um seguro de vida, fazer um seguro que proteja a educação do filho.
lá na frente, esse é um produto baratíssimo pelo retorno e pela tranquilidade financeira que ele pode proporcionar, porque é um seguro de vida para ser usado em vida, boa parte dos seus benefícios. Enfim, então é necessário ali que a gente dê uma amplificada no que é planejamento, justamente porque é pelo planejamento estruturado e intencional que a gente vai conseguir.
perpetuar ou pelo menos dar um pouquinho mais de longevidade à saúde financeira, seja da mulher ou do homem, enfim. E quando você fala dessas mulheres que reorganizam os gastos, elas costumam priorizar gastos, os custos dos filhos, em detrimento aos gastos dela, dessa mulher? Como é que é isso? Como a gente melhora essa realidade?
Olha, você e quem está nos ouvindo aqui, uma parte já deve ter andado de avião, ou ao menos já viu como que funcionam as regras de segurança, as regras de sobrevivência no caso de uma emergência. Máscaras de oxigênio primeiro em você e depois ajude quem está do lado. É claro que quando a gente está falando dos nossos filhos, quando eles são pequenos,
eles dependem da gente. O ser humano é o ser mais vulnerável, que nasce mais vulnerável na natureza. Ele precisa da mãe para absolutamente tudo, para sobreviver. Então, é claro que quando a gente está falando de crianças, de bebês, essa proteção é natural, ela é extintiva e isso tem que acontecer no âmbito financeiro também. Mas, com o passar do tempo, muitos pais, e esse eu vejo um erro muito recorrente, tem que tem mais tem mais tem mais tem mais
de famílias, de pensarem excessivamente no futuro financeiro dos filhos e não pensar no próprio futuro financeiro. Eu costumo dizer que a melhor herança que a gente pode deixar para os nossos filhos é a nossa independência financeira, para que a gente não seja um fardo para eles lá na frente.
Porque eu vejo muitas famílias que estão provendo tudo para os filhos e depois esses filhos têm que se desfazer de tudo aquilo que ganhou para poder sustentar os pais que cada vez estão mais longevos. Esse é também um desafio muito grande na nossa sociedade. A gente vai viver muito tempo, talvez os nossos filhos que estejam nascendo agora, os filhos que já estão aí, vão viver 100 anos no mínimo.
E como que a gente vai estruturar essa longevidade do ponto de vista do capital financeiro? Então, quando há essa preocupação excessiva em prover para os filhos sem se preocupar consigo mesmo, isso é um problema que está sendo repassado de herança para os filhos. Isso acaba sendo um grande problema. Hoje, no Brasil, mais da metade dos brasileiros acredita que vai viver do INSS na aposentadoria. Isso em todas as classes sociais, isso é uma maluquice.
A gente precisa trazer esse senso de urgência. E os nossos filhos têm uma coisa que a gente tem menos a nosso favor, que é o tempo. Quanto mais tempo você tiver, mais chance você tem de organizar a sua vida financeira e de planejá-la ao longo prazo. Quanto mais tempo passa, você vai precisar de mais esforço. São as duas variáveis mais importantes que a gente precisa, tempo e dinheiro. Quanto mais você tem um, menos você precisa do outro.
Então, os nossos filhos têm todo o tempo do mundo. É claro que a gente precisa dar uma estrutura, investir na educação deles. Talvez seja o melhor investimento que os pais possam fazer é na educação dos filhos, mas que permita a eles seguirem o próprio rumo, sem levar isso, né? Quando nasce uma mãe, nasce culpa também, mas sem trazer isso, olha, não, eu preciso ajudar meu filho, eu preciso abrir um negócio para meu filho, eu preciso ajudar ele a empreender. Não, pense em si.
porque isso vai ser uma grande herança que vai deixar para os filhos, porque muitas vezes os filhos precisam cuidar dos pais e que isso aconteça por desejo, não por necessidade. Você fala disso de prover demais para os filhos, desse lado que no futuro pode ser que esses pais, por estarem ali não tão preparados, os filhos acabam tendo que gastar com eles.
Mas tem um outro lado aí, que é o fator da educação, né? Como é que essa pessoa em que o dinheiro sempre foi dado, sempre esteve ali, dado pelos pais, como é que essa pessoa aprende? Como ensinar essa pessoa a ter uma relação saudável com o dinheiro? Olha, esse é um desafio, sabia? Porque também não tem evidências, vários estudos mostram que pais...
Poupadores não necessariamente terão filhos poupadores, pais perdulários não necessariamente terão filhos com a mesma característica. Como dizem, o exemplo não é a melhor forma de educar, mas talvez seja a única, porque é como você ajuda os filhos a... não é dar valor ao dinheiro, eu acho que é mais do que isso.
porque o dinheiro é apenas um dos recursos que a gente tem que administrar ao longo da vida. Então, coisas importantes que a gente pode mostrar para os nossos filhos desde muito jovens é saber esperar, priorizar, saber fazer escolhas, causa e efeito das decisões. Então, muitas vezes, a gente poupa muito os nossos filhos de algumas decepções.
E essas decepções fazem parte de aprendizado. Eu me lembro que meu filho, quando ele era pequenininho, ele já ganhava a mesada dele lá, semanada, porque ele era muito novinho. E ele juntou um dinheirinho e queria comprar um carrinho que vendia na padaria do meu bairro. E era bem porcariazinho, mas ele queria porque queria. A gente falou, olha, se você quer comprar, vamos lá, porque se eu tenho o seu dinheiro, vamos lá comprar.
E ele comprou. Chegou em casa, brincou duas vezes, o brinquedo quebrou, ficou arrasado.
Mas foi um aprendizado para ele. Depois disso, ele passou a selecionar mais o que ele queria comprar, ele passou a olhar com mais atenção as coisas. Ah, mas será que vale a pena? Será que não vale a pena? Então, se eu tivesse poupado ele daquela decepção...
que custava, sei lá, 5, 10 reais aquele carrinho, talvez o aprendizado não tivesse sido registrado. Então, o que a gente precisa ensinar para os nossos filhos é, de fato, deixá-los errar dentro de um ambiente controlado, porque...
É um treino para a vida adulta, os erros e os acertos. E a gestão dos recursos escassos, eles acontecem a todo tempo. Sempre o desafio é, eu sou sócia de uma empresa de educação financeira em escolas particulares.
Então, sempre o desafio, nossa, o que a gente vai ensinar para as crianças e adolescentes da elite, das grandes centros que estão nessas escolas, que são escolas de elite? Poxa, que têm acesso a tudo, que acabam ganhando presente dos pais, mesada, viagens, etc. E aí a gente sempre costuma, eu sempre costumo dar esse exemplo, que é o seguinte, olha, não é porque você não entra no...
Você não liga o seu chuveiro para tomar banho e vai jantar, vai assistir televisão e depois você volta para tomar banho. Você não faz isso porque você tem a consciência de que aquilo é um desperdício, mesmo você podendo pagar a conta de água. Então, ter o dinheiro não significa ser habilitado ou estar autorizado a desperdiçar um bem que é escasso. É mais escasso para uns, menos escasso para outros. Então, a gente precisa ajudar os nossos filhos a gerir recursos.
Então, ensinar eles a gerir recursos que não são os financeiros no dia a dia, necessariamente, ou há grandes chances deles também aprenderem a fazer isso da mesma forma com o dinheiro. Então, a gente precisa priorizar, jamais dizer para os nossos filhos, que eu costumo dizer também, Luara, que é o seguinte, tem sempre aquela pergunta crítica que os nossos filhos vão fazer para a gente. Somos ricos ou somos pobres?
E muitos pais têm mais medo de responder essa pergunta do que de responder de onde vêm os bebês. Se prepara que ela vai chegar. E é uma coisa que assusta as pessoas. Como assim? O que eu vou dizer? Ainda mais numa sociedade tão desigual que a gente vive. É constrangedor a gente se posicionar nessa pirâmide, que é uma pirâmide tão vasta e tão extrema. Mas a verdade é que nós somos mais ricos que uns e mais pobres que outros.
o tempo inteiro, isso é a verdade da coisa, né? Porque os nossos filhos também sabem quando a gente não está falando a verdade. Então, a gente também tratar o tema com naturalidade, sem dar a eles os mesmos tabus nos quais a gente foi formado, isso também vai ajudar eles a terem uma relação mais saudável com o dinheiro. Então, é um exercício cotidiano, que não é simples, mas é possível.
E agora voltando aqui para o Dia das Mães, eu estava aqui fazendo essa pesquisa para a nossa pauta e cheguei aqui numa pesquisa de uma universidade do Canadá que fala dessa mudança financeira que você nos trouxe aqui no Converso da Conversa e fala também das expectativas sociais em relação a essa mãe, a essa maternidade e da necessidade de um sacrifício financeiro para que o melhor chegue para os filhos. Como você observa essa ideia de sacrifício financeiro?
Olha, é interessante porque por trás disso que você traz essa pesquisa, ouvindo você falar, o que ela traz? O esforço, não é nem o sacrifício, o esforço, e que está muito relacionado à meritocracia. Quanto mais você se esforça, mais digno você é de conquistar ou de ter aquilo que você lutou para.
Mas é interessante que também a gente precisa entender que isso é um sacrifício para todo mundo. E eu também uma vez escrevi outra coluna que o título era o seguinte, as aflições financeiras independem do tamanho do bolso. E que eu acho que por trás traz um pouco dessa questão desse sacrifício, da dificuldade que as pessoas têm de lidar com isso.
Quando a gente fala da baixa renda, da base da nossa pirâmide, o que a gente está falando? De pessoas que têm a aflição de não conseguirem sair daquela situação. Então, a gestão é tão escassa do dia a dia que elas praticamente delegaram para a geração seguinte a possibilidade de mudar a realidade. Então, é beira a desesperança ali. Poxa, eu já luto tanto e eu só consigo para o básico, dar mão para a boca ali.
Então, a aposta é muito grande de que os filhos vão ter uma realidade diferente da delas. E isso é muito interessante, porque aí a gente vê um incentivo muito maior à educação, a gente vê, de fato, a preocupação que pais têm e a consciência maior da importância de investir nos filhos.
pela esperança de mudar uma realidade. Quando a gente vai para o meião da nossa pirâmide, dado que a gente sempre tem idas e vindas na economia brasileira, é aquela sensação de que você está no jogo da vida e você caiu naquela casa que você tem que voltar.
várias casas para trás. Então isso acontece muito, né, daquelas pessoas que conseguem colocar o filho numa escola particular, conseguem comprar um plano de saúde, conseguem colocar o filho num curso de inglês, fazer a própria pessoa estudar, né, e aí vem alguma crise, alguma...
um juro alto, um endividamento, que faz com que as pessoas tenham que voltar para trás naquilo que elas já conquistaram. Isso é muito aflitivo, porque uma vez que você conquista aquilo, é muito difícil você retroceder. Então, há um exercício de decepção e de sacrifício que, poxa, vou ter que começar tudo de novo. E quando a gente vai para o topo da pirâmide, a aflição está muito mais...
nos filhos não conseguirem gozar do mesmo conforto financeiro dos pais, porque é uma geração que o mercado de trabalho está mais desafiador, são pessoas que vão viver mais, são pessoas inseridas, jovens inseridos num mercado muito mais competitivo, com carreiras menos lineares, e isso traz um desafio que os pais ficam aflitos, poxa, os meus filhos talvez não tenham os mesmos múltiplos de prosperidade que eu tive na minha vida, então para eles também é uma aflição.
Então, percebe que em cada camada você tem essa angústia de alguma maneira e parece que assim, para que você saia daquilo, para que você vença essa angústia, você tem que vir com esse senso de sacrifício absoluto, porque daí valeu a pena.
E aí eu volto ao ponto que um planejamento bem estruturado e intencional alivia isso porque ele te dá mais previsibilidade. E não tem nada mais tranquilo e calmo para o coração do que a previsibilidade, mesmo que essa previsibilidade seja difícil. Ela não seja o que a gente espera, mas ao menos ela é mais previsível. E quando você fala de previsibilidade, você está falando de desenhar?
o que se vai gastar naquele mês, o que vai ser gasto nos próximos meses, basicamente é rever os seus gastos, lição número um das finanças pessoais. É, aquela coisa que quando você sai de casa, você tomou uma decisão do caminho seguir, se você vai de ônibus, se você vai de casa, se você vai a pé, como vai ser a sua agenda, e a gente deixa, o tempo inteiro a gente toma decisões, mas a gente deixa muitas decisões financeiras.
ao fluxo do vento, né? E isso não é saudável. A gente falando aqui, né, antes de começar a gravar, foi curioso, né, o que a gente estava falando. Poxa, que delícia saber que está no controle. Mesmo que esse controle não seja o resultado que você espera, mas ao menos você está sentada na direção e consegue conduzir aquilo sabendo do percurso que você precisa ter.
A gente estava falando aqui sobre ter que parar para fazer o imposto de renda, que é algo um pouco chato, é inegável, mas é uma possibilidade de rever os gastos do ano. E eu trouxe sobre fazer aquela tabela de gastos, que também dá bastante trabalho, mas é muito bom para a gente olhar tudo ali que está sendo gasto, o que está entrando e o que está saindo.
E é importante mesmo, o controle começa pelo entendimento do que você faz, quanto entra, o quanto sai, mas isso é a base, isso é o que você ganha, é o que você gasta, mas como você se equilibra?
como você se organiza, que é o que vai fazer você mudar o comportamento. Então, ter uma vida mais planejada, ela fica mais previsível, mesmo que ela seja muito difícil. Melhor ter um planejamento que seja desafiador do que não ter nada, porque aí realmente você perde o senso de direção, fica tudo muito opaco e fica difícil de você, inclusive, achar saídas.
E uma coisa que eu costumo sempre aconselhar é que quando você senta para fazer isso, é um desgaste emocional enorme. Eu costumo dizer em toda entrevista, só para ficar claro, eu sei teorizar muito sobre o dinheiro dos outros, sobre o meu dinheiro eu tenho as mesmas aflições.
porque o dinheiro dos outros é um ativo. Para mim, o meu dinheiro é a possibilidade de eu proporcionar algo a mais para a minha família, é eu poder garantir o meu futuro, o meu conforto, é a incerteza das decisões certas e erradas que eu tomo ao longo do tempo. Então, sempre as emoções vão estar inseridas.
Então, é difícil até para mim, que trabalha 20 anos com educação financeira e trabalha 30 anos no mercado financeiro. Então, não é uma coisa simples, não é uma coisa prazerosa, mas muitas vezes as coisas que não são prazerosas no curto prazo, elas trazem benefícios muito interessantes no longo prazo.
seja alimentação saudável, cuidado com a saúde, cuidado com o corpo, com o físico, com a mente e com o dinheiro. Então você abre mão de um prazer, você enfrenta a resistência de curto prazo, mas quando você vê, você começa a colher os benefícios e o prazer está no benefício e não necessariamente no você eliminar ou você evitar.
Aquela parte chata. Então, é super legal ter músculos e estar super vigoroso, estar bem, em saúde, com a aparência que você quer, com os exames tudo em ordem. O chato é você ter que levantar cedo para o tênis e caminhar, e ir para a academia. Mas você só vai entender que a parte chata valeu a pena quando você começar a colher o benefício, e isso também acontece com a vida financeira.
Ótimo, Anny. Para finalizar, eu não queria deixar de falar sobre as mães solo, que a gente falou rapidinho no começo, mas é uma particularidade aqui muito importante que eu acho que vale a gente se aprofundar. O Brasil tem 11 milhões de domicílios chefiados por mães solo, segundo o levantamento recente do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, e em 10 anos esse contingente cresceu quase 18%. Então, além da falta de entrada, de dinheiro...
por outra pessoa, que faz toda a diferença, como é que fica a vida financeira dessa mulher? Por que ela acaba sendo mais precária? É um desafio. Eu acho que mães solo precisam construir uma rede de apoio. Isso é fundamental para trazer a segurança que elas precisam para concentrar naquilo que é relevante. Quando a gente olha esse desafio de muitas mulheres e muitas famílias,
A gente percebe que realmente é necessário políticas que ajudem isso. Então, muitas empresas estão se preocupando em promover essa rede de apoio. Nas comunidades, isso é muito natural. A gente percebe que há uma solidariedade enorme entre as comunidades.
nessa ajuda à mãe solo. Então, eu acho que o primeiro ponto é criar uma rede de apoio importante. E essa rede precisa ser criada ao longo da vida. É muito interessante que existem quatro capitais que a gente precisa cuidar na vida. O capital financeiro, que é isso que a gente está falando aqui. O capital físico, que é como a gente faz poupança de músculos para que a gente consiga usufruir dessa poupança ao longo da vida. A mental.
E o capital social, e esse capital social é uma proteção muito importante em diversos contextos, seja para uma mãe solo, seja para um idoso, que a solidão entre os idosos é um fator muito triste e severo para essa fase da vida.
Então, acho que é criar uma rede de apoio, é encontrar caminhos e produtos de segurança. Então, pense em um seguro de vida. É um seguro que, por exemplo, você pode ter cobertura para alguma doença grave, para algum acidente, para algum afastamento de trabalho que você tenha. Então, é uma proteção importante, é um custo muito baixo. E já pense mesmo, nem que for pouco, desenvolver o hábito de poupar.
Pior do que você só investir 10 reais é você não investir nada. Então comece com pouco, porque isso pode fazer diferença. E a gente vê estatísticas de pessoas que têm uma renda muito escassa, que têm essa realidade, mas que com disciplina conseguem a respeito de toda dificuldade.
Então, crie rede de apoios, estude sobre mecanismos de proteção. Existem, acho que, produtos muito interessantes no mercado. Busque uma ajuda profissional. Também eu falo isso, né? A gente sempre, se a gente está doente, a gente vai ao médico. Se a gente quer cuidar do dinheiro, a gente vai para o cunhado, né? Vai para um amigo.
Existem profissionais muito sérios no mercado e eles podem ajudar nesse desafio de organizar um planejamento, de organizar uma estratégia financeira que seja interessante para mulheres que vivem esse contexto tão desafiador. Você falou aí, Ana, de pessoas que estão no topo da pirâmide.
e não conseguem gerir os gastos, não conseguem ter uma reserva. Às vezes, uma pessoa que ganha pouco tem mais dinheiro guardado do que alguém que tem um salário acima da média. Quais as dificuldades para adotar, então, essa mentalidade do planejamento financeiro?
Quando você vê uma pessoa com um carrão na rua, você não sabe quanto ela tem, você sabe quanto ela gastou. É uma diferença muito grande entre uma coisa e outra. É importante a gente ter essa disciplina. Todas as pessoas que têm tranquilidade financeira são pessoas que tiveram muito mais disciplina do que tamanho de conta bancária. Então é um processo longo, é cotidiano.
A independência financeira é algo que a gente tem que buscar todos os dias, não é algo que a gente tem que buscar só lá na frente, até porque não é um lugar de chegada, é um lugar de vivência. Então, não é aquele dia que você chega e fala, uau, alcancei a independência financeira, é como se você subir numa montanha, alcança o cume, coloca lá a bandeira, cheguei. Não, isso não existe.
é um processo que ele leva a vida inteira. Porque você pode até chegar, mas se você não tiver a capacidade de manter essa mesma disciplina, talvez essa conquista fique prejudicada. Então, planejamento financeiro, independência financeira, tem que ser um estilo de vida, não só um objetivo de um lugar que a gente quer chegar. Ana, muito bom te ouvir. Obrigada. Obrigada. Um prazer.
Se você gostou desse podcast, eu te convido a ouvir outros episódios. A gente já falou com Marta Noil sobre os desafios do puerpério, com Lua Barros sobre as dificuldades da criação e com Olivia Bighton sobre solidão na maternidade. Nas principais plataformas de áudio, como o Deezer, o Spotify, o Apple Podcasts e também no canal da Gama no YouTube, você escuta o podcast da semana.
Com roteiro e apresentação de Luara Kalvenick, este é o podcast da semana. A cada sete dias, um tema novo para você. Até semana que vem.
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