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Iberê Thenório, no Manual do Mundo: como gostar de ciências

03 de maio de 202638min
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Num momento em que se discute o potencial viciante da reprodução automática do YouTube e seus riscos de exposição a discursos extremistas, um criador de conteúdo parece ter a total aprovação de mães, pais e cuidadores: o jornalista Iberê Thenório, criador do canal Manual do Mundo, no Youtube, junto à esposa Mariana Fulfaro, terapeuta ocupacional que hoje ocupa a direção-executiva da produtora de vídeos.

Desde 2008, Thenório transformou o que começou com vídeos caseiros que mostravam o funcionamento de objetos comuns numa das maiores produtoras de entretenimento educativo do país com o foco centrado em ciências e engenharia. São mais de 20 milhões de seguidores nas suas redes e mais de 4 bilhões de visualizações no canal do YouTube. Além dos vídeos, o Manual do Mundo também tem 17 livros publicados e uma marca de 1 milhão de unidades vendidas, além de produtos licenciados.

“A partir de uma certa idade, as pessoas começam a ter um pouco de resistência às exatas, às ciências da natureza. E aquilo começa a fazer parte da identidade da pessoa, não gosta de matemática, não gosta de física, não gosta de química. A nossa missão aqui é desviar desse filtro que essas pessoas criam”, fala sobre ao Podcast da Semana sobre educação e telas.

Na entrevista a Gama, Thenório conta sobre como é educar pelo Youtube e sobre o fato de os meninos serem a maioria do seu público. “A gente vive em uma sociedade que cria uma resistência [sobre ciências e exatas] nas meninas. Elas são desde cedo estimuladas a seguir carreiras da área da saúde, de humanas, e acabam sendo direcionadas para aquilo. Uma menina com dez anos já acha que engenharia não é para menina.”

No episódio, o jornalista dá dicas de como assistir ao YouTube de forma mais saudável, fala sobre como escolhe os assuntos a serem destrinchados e explica porque é tão obcecado por bolas perfeitas.

Roteiro e apresentação: Isabelle Moreira Lima

Assuntos9
  • Tecnologia e Segurança OnlineRiscos de vício e extremismo na plataforma · Manual do Mundo como conteúdo seguro · Cuidados com o YouTube Kids e plataformas de streaming · A importância da supervisão parental · Televisão como tela social e compartilhada
  • Inspiração profissional através do Manual do MundoImpacto na escolha de profissões · Realização pessoal ao inspirar outros
  • Comunicação científica com público leigoDesmistificando a resistência às ciências exatas · Conteúdo seguro e curadoria para famílias · Resíduo de aprendizado e curiosidade · Missão de despertar interesse e criatividade
  • Criação de Conteúdo e IAInfluência do jornalismo na didática · Uso de comentários e estatísticas do YouTube · Equilíbrio entre atratividade e conteúdo relevante · Estratégias para ensinar conceitos complexos de forma acessível
  • Mulheres na CienciaFaixas etárias de maior interesse · Predominância do público adulto e infantil · Desafios em atrair o público feminino para exatas · Mudança de linguagem para atender a família
  • Criação de conteúdo para YouTubeConvivência com o algoritmo e dinâmicas da plataforma · Evitar conteúdo apelativo e perigoso · Manutenção da credibilidade a longo prazo · Recusa de desafios físicos e teorias da conspiração
  • Seleção de pautas e temas do Manual do MundoAcompanhamento de notícias e eventos atuais · Capacidade de produção e recursos disponíveis · Criação de conteúdo duradouro e educativo · Diversidade de assuntos para atender a todos
  • O fascínio pelas bolas perfeitas no Manual do MundoDesafio maker e exploração de materiais · Uso de materiais inusitados como dentadura e moedas · Conexão com engenharia e aprendizado final
  • Processo de aprendizado e pesquisa de Iberê ThenórioPesquisa contínua para cada vídeo · Uso de inteligência artificial para pesquisa de fontes · Aprendizado acumulado e esquecimento · Cursos online gratuitos como fonte de conhecimento
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Minha preocupação é a seguinte, as pessoas, a partir de uma certa idade, elas começam a ter um pouco de resistência a exatas, no geral, né? As ciências da natureza. É mais nessa área, mas também pode acontecer com humanas, tem gente que não gosta de redação, tem gente que não gosta de matemática, mas no Brasil o nosso problema tá mais na área de exatas. Então as pessoas, aquilo começa a fazer parte da identidade da pessoa, né?

Não gosta de matemática, não gosta de física, não gosta de química. A nossa missão aqui é desviar desse filtro que essas pessoas criam.

Se tem alguém que parece ser uma unanimidade para mães, pais e cuidadores quando o assunto é o YouTube, é o Iberê Tenório do Manual do Mundo. O jornalista criou há 18 anos o canal e é ele o convidado dessa edição. Eu sou Isabelle Moreira Lima e você está ouvindo o podcast da semana, que a cada sete dias traz um tema novo para você.

O Manual do Mundo começou em 2008 de uma forma bem caseira, mostrando o funcionamento das coisas. Hoje, 18 anos depois, é uma das maiores produtoras de entretenimento educativo do país, com foco centrado em ciências e engenharia. São mais de 20 milhões de seguidores nas redes e mais de 4 bilhões de visualizações no canal do YouTube.

Além dos vídeos, o Manual do Mundo também tem 17 livros publicados e atingiu uma marca de 1 milhão de unidades vendidas, além de ter produtos licenciados. Na entrevista que você ouve a seguir, o Ibereta Nório, que fundou o Manual do Mundo com a Mariana Fulfaro, com quem ele também é casado, conta um pouco sobre como é educar pelo YouTube. Ele comenta sobre o fato de os meninos assistirem mais ao canal do que as meninas e critica a ideia de que elas não são desatas.

Ele fala sobre como assistir ao YouTube de forma mais saudável, sobre como escolhe as pautas do Manual do Mundo e explica por que é tão obcecado por bolas perfeitas. Ouve aí, meu papo Moeli. Oi, Berê, que bom ter você aqui hoje no Podcast da Semana. Obrigada por ter topado.

Imagina, é um prazer. Vai ser muito bom. Iberê, então, começando do comecinho, Manual do Mundo já tem 18 anos, se tornou um canal super importante para despertar o interesse científico nas crianças. E a gente vê que mesmo os pais que lutam contra as telas permitem que os filhos assistam aos vídeos do Manual do Mundo. Então, já vou começar te perguntando qual é o segredo, Iberê. Por que que pode o Manual do Mundo?

Vamos lá, isso que você falou é o tipo de relato mais comum que a gente recebe aqui no manual quando vai lançar livro, né? Porque a gente recebe famílias todas que vão lá, geralmente o avô assiste junto com o neto, o pai assiste junto com o filho, o irmão mais velho passou para o irmão mais novo e sempre eles falam isso. Ah, pode, não deixa eu assistir nada na internet, só pode assistir o manual do mundo. O que eu tenho a impressão? De que os pais encontram um conteúdo seguro, sabe? De que...

Sempre que você vê alguém falando, é diferente de você ver um desenho animado, né? Porque o desenho animado costuma ser muito bem produzido, passa por uma série de filtros. Então você vai assistir Turma da Mônica, Galinha Pintadinha, Mundo Bita e tal. São conteúdos que foram feitos com muito esforço, muita curadoria. Quando a gente vai ver canais que são feitos por pessoas que estão gravando em casa, com celular e tal, você tem que assistir muito aquilo para começar a confiar.

em quem está apresentando o vídeo, você não vai falar nenhuma besteira assim, poxa, eu vou deixar meu filho na frente dessa pessoa, vai ficar horas e horas assistindo essa pessoa. E aí, o que é legal do Manual do Mundo? A gente faz o conteúdo pensando nisso. Então, o nosso conteúdo é para a família, é um conteúdo que eu não vou falar palavrão, eu não vou entrar em bola dividida de coisas que vão causar problema depois que eu ensinei. Eu tenho noção de que eu não posso...

ultrapassar algumas coisas para algumas idades. Para você ter uma ideia, eu nem falo que Papai Noel não existe no Manual do Mundo, que eu sei que já vai dar problema em certas famílias, sabe? Então a gente tem toda uma curadoria aqui para esse conteúdo poder entrar em casa de qualquer família, para pessoas de qualquer idade.

E sempre também um conteúdo que acrescenta alguma coisa na vida da pessoa. Mesmo os conteúdos de você olhando à primeira vista, eles são uma brincadeira, um desafio e tal, sei lá, a gente faz bolas perfeitas aqui no Manual do Mundo. Tem uma série só construindo esferas de materiais diferentes, mas todas elas têm alguma história, tem alguma coisa por trás. E quando você terminar o vídeo, você aprendeu alguma coisa. Então esse resíduo de aprendizado que a gente se esforça muito para que tenha, eu acho que é uma coisa muito valiosa, né? Porque...

A gente que é adulto, você parar pra pensar, na hora de dormir você para e pensa, pô, o que eu aprendi de novo hoje de verdade? Será que tem alguma coisa nova que eu aprendi? Se você assistiu um vídeo do Manual do Mundo, eu tenho certeza que você aprendeu alguma coisa nova, sabe? Alguma coisinha ficou, pode ser uma coisinha pequena, mas ficou. E é isso que a gente deixa, é esse resíduo que a gente quer deixar.

E aí, o que eu acho que é importante também, qual é a missão maior do Manual do Mundo? É fazer com que as pessoas se interessem pelas coisas. Não só por ciência, mas até se interessem pelas coisas da vida mesmo, como tudo funciona. As pessoas se interessem mais por ser curiosas, se interessem por ser mais criativas, se interessem por entender o mundo que rodeia e tudo mais.

Essa é a nossa missão número 1. Por isso que muitos professores gostam do Manual do Mundo, porque quando eles chegam para dar aula, o aluno já está interessado no que ele vai ensinar antes mesmo de ter contato com a matéria. Se os pais percebem isso, é uma coisa muito legal, de você, poxa, meu filho começou a se interessar sobre automóveis, agora ele quer saber qual a diferença do carro elétrico para o carro combustão, como funciona uma caixa de câmbio, não sei o quê. E você fala, poxa...

Que legal, né? Porque as crianças no mundo que a gente vive hoje, elas são atraídas por uma série de coisas que não são muito legais, que não acrescentam muita coisa, ou que são feitas para viciar, que são feitas para tirar dinheiro de você, que tem uma série de agendas por trás, que não são exatamente despertar o interesse da criança por alguma coisa bacana.

Então, eu acho que a gente trabalha muito para construir essa credibilidade para que qualquer pessoa possa ligar o Manual do Mundo na televisão, no celular e assistir tranquilo, que é um conteúdo que não é nocivo, que não traz nada perigoso.

E, Iberê, uma coisa que eu sempre achei engraçada é que você é jornalista. Você não é cientista e também acho que você não tem formação em pedagogia, né? Não. Não. E você está há muitos anos ensinando, né? Como é que é o processo de produção?

dessas suas, vou chamar de aulas, eu sei que são programas, mas são aulas também, né? Imagino que também faz muito tempo que você está fazendo isso, imagino que a produção mudou bastante, se adequou. Sim. Queria te perguntar quais são as suas preocupações hoje e como é que você define as suas pautas, como é que você monta roteiro. No começo do manual era tudo feito de um jeito muito intuitivo, idêntico ao que eu fazia no jornalismo antes.

Então, algumas coisas básicas do jornalismo é, você tem que fazer um conteúdo que sirva para todo mundo, um conteúdo que ele esteja bem organizado, que as pessoas que não têm familiaridade com aquele assunto possam entender. Então, eu trabalhei com ciência no jornalismo antes do Manual do Mundo. Poxa, ciência era isso, né? Você vai explicar como que um estudo mostrou que a Amazônia tinha cidades ali na região, onde hoje é o Acre, por isso a gente tem geoglifos, mas peraí, o que é geoglifo, né?

Vamos explicar o que é geoglifo. Então, sempre eu tive muito esse carinho de tentar pegar na mão de quem está do outro lado e falar, não, peraí, eu vou te levar para um caminho tranquilo, a gente vai chegar lá. Vamos devagar, vamos passo a passo que a gente vai chegar lá. Isso no começo era muito intuitivo. Depois, a gente começou a seguir a muito pelos comentários. Então, era uma via de mão dupla muito forte. Tudo que o pessoal comentava, pô, não entendi isso direito.

Pô, isso para mim não ficou muito claro. Parei na metade do vídeo porque achei chato.

Isso somado à estatística que o YouTube já me dá, ele me dá um gráfico dizendo onde as pessoas abandonaram o vídeo, que parte elas ficaram mais e tal, já me dá uma noção muito boa de onde eu estou errando, como é que eu faço para chamar mais atenção e tal. E aí a didática, ela vira uma necessidade até de mercado para mim, porque se eu não for didático o suficiente, as pessoas vão embora. Se elas estiverem achando chato, elas vão embora. Então eu tenho que ser muito atraente, né?

E ao mesmo tempo um cuidado que a gente tem com as pautas, né? Elas têm que construir alguma coisa para a vida das pessoas, mas elas não podem ser chatas. Então a gente fica entre essas duas coisas. Hoje eu já tenho uma noção um pouco mais acadêmica, sabe, do que eu estou fazendo. Então qual que é a minha preocupação? Minha preocupação é a seguinte, as pessoas, a partir de uma certa idade, elas começam a ter um pouco de resistência às atas, no geral, né, às ciências da natureza.

É mais nessa área, mas também pode acontecer com humanas. Tem gente que não gosta de redação, tem gente que não gosta de matemática. Mas no Brasil, nosso problema está mais na área de exatas. Então, aquilo começa a fazer parte da identidade da pessoa. Não gosta de matemática, não gosta de física, não gosta de química. A nossa missão aqui é desviar desse filtro que essas pessoas criam. Então, como é que eu faço um vídeo?

para uma pessoa que não gosta de matemática e fala alguma coisa de matemática sem ela perceber. No momento que ela já está tão interessada que ela já não se importa mais em falar de matemática porque ela quer ver aquilo que eu estou mostrando. Então eu vou te dar um exemplo. A gente fez esses dias a bola perfeita de ouro.

Então, ela não é de ouro de verdade. Eu cobri com uma folha de ouro. Mas eu precisava calcular quanto eu ia precisar daquelas folhinhas de ouro que vão em decoração de comida e tal, que é ouro de verdade, mas é muito baratinho. Qual é a área que eu precisava cobrir na bola? Pô, a gente precisa calcular a área de uma esfera. Vamos pegar o livro de matemática do Manual do Mundo aqui. A área da esfera. Tá, fizemos o cálculo da área de esfera.

E aí eu cobri, normal, passou batido, fiz um cálculo de ar de esfera. Aí chegou no final do vídeo, eu falei, pô, eu fiz um truque aqui, né? A bola não é de ouro, mas e se ela fosse de ouro maciço? Quanto essa bola ia custar? Epa, então agora a gente vai ter que calcular o volume da esfera. E aí toca calcular o volume da esfera. Chegamos no volume da esfera, mas isso não me diz quanto ela custa. Ah, eu tenho que cruzar com a densidade do ouro. Aí eu descobri o peso...

disso em ouro. Aí a gente precisa de uma regra de três para descobrir quanto que vai... Pô, no fim do vídeo você calculou a área da esfera, o volume da esfera, densidade, regra de três, é uma série de conceitos de exatas, sabe? Num vídeo de bola perfeita. Então é muito isso que a gente tenta trazer. Essa é uma preocupação que a gente tem a todo momento. E como é que a gente escolhe os temas? A gente escolhe primeiro pelo que está rodando no mundo.

Então, esse ano aqui a gente fez vídeo sobre a polilaminina, aquela substância que está sendo pesquisada no Brasil para acidentes que causam paralisia. Aí toca a gente pegar nosso esqueleto aqui e mostrar onde passa a medula, mostrar que quando acontece um acidente corta ali a medula, como que funciona toda a polilaminina. Aconteceu esse ano também um acidente com cloro em que...

Uma moça se intoxicou por cloro, morreu lá numa academia. A gente fez um vídeo só falando sobre o que é cloro, por que ele é perigoso, o que a gente pode fazer em casa para esse tipo de acidente não acontecer. Aí depois teve a série do Césio 137 aqui, sobre o que aconteceu em Goiânia. A gente gravou um vídeo explicando o que é Césio, por que o Césio é perigoso, qual que é a diferença de radioterapia e raio-x, né? Porque a máquina não era de raio-x, essa que a gente vai no dentista e tem, era outra máquina. Então, o primeiro critério é esse.

Então tudo que estiver rolando notícia a gente tenta encaixar com o nosso know-how aqui de explicar e tentar explicar aquilo de um jeito que você passe a entender melhor o que está acontecendo no mundo. Um segundo critério é o que a gente é capaz de fazer naquele momento. Precisamos publicar um vídeo, o que a gente tem na nossa mão aqui que a gente consegue fazer que é muito legal? Pô, vimos um cara fazer um pião gigante de madeira, pô, acho que a gente consegue fazer isso em impressão 3D. Tá, vamos usar toda a nossa...

nosso esforço maker aqui para fazer um peão gigante. Então toca alguém aí começar a produzir um peão gigante. Aí outra pessoa está produzindo carne dentro da resina. A gente vai colocar carne dentro da resina para tentar ver se consegue, um ano depois, se a gente abrir a carne está conservada lá dentro ou não. E aí, poxa, já vamos falar de mioglobina, de enzimas que tem na carne que digerem a própria carne, ou que algumas que ali tem bactérias, elas não funcionam sem oxigênio, então é muito provável que a carne esteja conservada quando a gente abrir. A gente faz uma aposta.

Então são esses dois pilares principais que guiam nossa escolha de pauta.

E é difícil, porque existem uma série de exigências hoje. Por exemplo, o que está indo bem no YouTube hoje são vídeos mais longos. Então, a gente não pode fazer vídeos de menos de 10 minutos. E, poxa, 10 minutos é um tempo muito grande para o tipo de vídeo que a gente produz. São vídeos que exigem muita produção, muita pesquisa. Então, poxa, 10 minutos de texto é muita coisa. Ou então, construir um pião gigante, construir uma caixa de câmbio impressa em 3D, construir carne na resina, enfim. É um trabalho bem...

que exige muita energia da gente. E ao mesmo tempo, o lado bom disso é que são vídeos que a gente faz para eles ficarem. Então se você voltar daqui 10 anos e quiser saber o que aconteceu em Goiânia, no acidente do Césio, o vídeo do Césio ainda serve. Então, do mesmo jeito que eu fiz um vídeo em 2013, sobre como funcionava o motor do carro, esse vídeo é usado em autoescola até hoje para dar aula de...

de curso de formação de condutores. Então a nossa preocupação também não é tão factual. A gente vai no factual para suprir essa demanda da sociedade de entender melhor o que está acontecendo, mas ao mesmo tempo tenta criar explicações que fiquem para a história, que o professor possa usar na sala de aula, que você precisa entender de algum assunto, você vai procurar no Google e vai achar aquele assunto.

A ideia é sempre manter essa diversidade muito grande de assuntos para que o canal seja sempre um canal que atende todo mundo. Se a gente começa a falar muito de uma coisa específica, ele vai nichando. E você tem esse recorte de quem é teu público? Tenho um pouco. Primeiro porque... É difícil de fazer esse recorte. Primeiro porque a gente não fica só no YouTube. A gente está no YouTube e a gente está nos canais fast da televisão.

Então se você comprar uma televisão, ela já vem com canais e um dos canais é o Manual do Mundo. Porque a gente está em várias marcas de TVs diferentes.

Aí a gente está no Instagram, no TikTok, enfim, são muitos produtos de diferença. Mas no geral, o que a gente percebe? Que existe um interesse muito grande na faixa entre os 8 e os 13 anos, que é uma faixa em que as crianças estão ativas, elas já sabem construir coisas, elas começam a se interessar pelo mundo, elas já entendem assuntos mais complexos, estão alfabetizadas.

Depois a gente vai ter um gap, que é adolescência. Aí eles querem saber já de fofoca, de se arrumar, brincadeira, começar a ver coisa que não é da idade deles, vão começar a querer furar esse bloqueio e tal. E aí eles voltam. Quando tem os 20 anos, eles voltam. E aí ficam.

Então, se você olhar a estatística de hoje do YouTube, 75% do público é adulto. E eu sei que não é verdade essa estatística, porque muita gente vai entrar com as contas dos pais. Mas mesmo se eu excluir todo mundo que eu imagino que tenha entrado na faixa errada, vamos supor, as pessoas entre 8 e 13 anos hoje, então tem pais que têm entre 35 e 40 anos, se eu apagar essa faixa dos adultos e jogar para o adolescente, mesmo assim...

O nosso público ainda é a maioria adulto, porque os adultos entram para tirar dúvida. O adulto quer saber o que aconteceu no acidente do CESI 36 e 37, ele quer saber como que troca de marcha do carro. E a gente, isso já faz mais de 10 anos, deu uma mudada na linguagem. Se você assistiu os primeiros vídeos, eram temas mais infantis. Então a gente fazia mágica, origami, receitas que sempre tinham uma cara bem infantil.

e a gente foi mudando para ser um canal que atende a família inteira, mais ou menos como é o Discovery, vai. As crianças se interessam muito mais, os adultos assistem sem se sentir envergonhados. E aí o que acontece é que como a gente tem 18 anos, teve muita gente que começou a assistir e não parou mais.

Então é muito legal quando a gente faz lançamento de livro, os livros são infantojuvenis, mas eles também têm essa pegada de que o que tem dentro deles, com certeza um adulto não sabe. A gente acabou de lançar um livro sobre dinossauros, em que cada página tem a foto do fóssil, a foto de como a gente imagina e uma curiosidade sobre o bicho.

Ninguém sabe aquilo, ninguém tem esse conhecimento. O livro anterior era sobre astronomia. Pô, o que as pessoas sabem de astronomia de verdade? Muito pouco. Então, são livros que atendem bem ao público infantil juvenil, mas o adulto vai adorar ler esse livro. Então, a gente trabalha sempre nesses dois lados. O vídeo tem que ser muito rico visualmente falando, você vê muita coisa interessante, e aí vai interessar para uma criança de 8 anos.

mas também um conteúdo que vai um pouquinho além do que a gente está acostumado a ver na televisão. Então, quando eu vou visitar uma fábrica, vai ser difícil você achar um programa de televisão que chega naquela profundidade. Normalmente eles são mais superficiais, ou porque não tem tempo, ou porque...

Eu imagino que a produção não se debruça tanto sobre as coisas técnicas quanto a gente gosta de debruçar. A gente quer ir até o fim, entender detalhe por detalhe. Se a gente vai mostrar no vídeo ou não, a gente decide depois, mas a gente quer entender perfeitamente. Então isso tem feito bastante diferença. Nossos vídeos são muito usados em aula de engenharia, sabe? Porque o professor quer mostrar como...

Pô, como é feito o Whey Protein? Você digita no Google, você vai achar o Manual do Mundo e provavelmente vai ser um dos vídeos mais bem produzidos ali de que fala daquele assunto, né? Então, a gente, pô, 20 minutos falando de como é feito o Whey Protein vai valer para a aula de engenharia. Então, acaba que o nosso público, ele é todo muito diverso. Muito, muito diverso. E você acha que nos dois gêneros também...

ou são mais meninas? Não, essa é uma tristeza nossa. A gente tenta bastante alcançar as meninas, mas é mais difícil. A gente vive uma sociedade que faz com que as meninas... A nossa sociedade, ela cria essa resistência nas meninas. Eu que tenho estudado muito isso de filtro de identidade,

que essa coisa de você achar que você não serve para alguma coisa, eu acho que no caso das meninas isso é muito plantado de fora para dentro. Elas são desde cedo já estimuladas a seguir para carreiras que são mais da área da saúde, mais da área de humanas e acabam sendo direcionadas para aquilo. Então a menina com 10 anos já acha que engenharia não é para menina. Acho que é um cenário que está mudando muito.

Na nossa época já não tem nada a ver com o que é da época da minha filha Helena. Hoje, pra ela é normal ter uma engenheira, uma mulher engenheira, ou uma astronauta mulher. Ela já cresceu vendo uma mulher ir pra Lua, sabe? Isso é uma coisa que te preocupa quando você vai fazer uma pauta, de tentar puxar o interesse, assim, é uma coisa que tá no teu radar? Eu pensei nisso até porque você é pai de duas meninas, né?

Sim, eu sou pai de duas meninas, isso faz muita diferença para mim. Em casa, qual é a educação que eu dou? É que não existe nada que vocês não possam fazer, vocês podem fazer o que vocês quiserem, não tem problema nenhum. Inclusive, eu nem fico interferindo muito nisso de querer que elas gostem de ciência, de exatas, das coisas que eu gosto, sabe? De física, de engenharia. Elas gostem do que elas quiserem, não tem problema nenhum. O que eu acho importante é que elas...

estudem o suficiente para que quando elas têm a idade de tomar essas decisões de profissão, elas possam escolher o que elas quiserem, porque elas foram preparadas o suficiente. Mas no manual a gente tem essa preocupação sim. Agora, por exemplo, eu contratei alguns estagiários e eles começaram a aparecer nos vídeos. Em todo vídeo aparece um dos estagiários que entraram aqui. E a gente se esforçou bastante para que fossem meninos e meninas.

E aí vai ser muito legal, né? Porque agora a gente tem a Fernanda aqui, que é bióloga. A Fernanda já não é nem estagiária, ela já é formada, está fazendo mestrado. E a Júlia, que é de química. Então, poxa, já temos as meninas aparecendo mais e tal. E acho que isso vai fazer bastante diferença.

Outra questão que eu fiquei pensando de ser tão próxima aos meninos é que hoje tem um movimento muito forte na internet masculinista, né? E você tá aí falando direto com os meninos, quando eles ainda são muito novos, tudo bem, mais velhos também, mas muito novos. Esse é um assunto que, não sei, de alguma maneira você tenta chamar atenção, eu não sei, se isso é uma coisa que tá no teu radar, sabe? Esse é um tipo de assunto que eu evito.

Mas o que eu acho é que, para mim, o que é mais importante é o exemplo, sabe? Então, se eu no vídeo, quando eu estou interagindo com uma mulher, eu trato essa mulher com respeito, nos Boravês, a gente gosta muito de fazer entrevista com mulher em fábrica, né? Porque é um ambiente que normalmente se associa a um ambiente mais masculino. Poxa, como que o Manual do Mundo está tratando as mulheres nos vídeos? Como que isso está acontecendo? É a contribuição que eu posso dar.

Eu não gosto de lidar com esse assunto porque não é minha área. Entrar em bola dividida para mim vai fazer com que as pessoas entendam... Ah, então o Iberê é daquela outra turma, não quero mais aprender o que ele está ensinando. Eu acho péssimo porque daí a pessoa vai deixar de aprender.

Uma coisa que não tem nada a ver com aquilo. Mas eu tomo cuidado sim para que esses exemplos não... Sabe? Para que a gente não fique puxando para esse lado. E é muito fácil de ir para esse lado, né? Porque toda a atmosfera, todo o ecossistema, ele está girando em torno dessa masculinidade perigosa aí que evita. Mas eu acho que eu, no meu comportamento no vídeo, ele diz muito, sabe? A pessoa que eu sou ali, eu sou muito transparente nas coisas que eu falo, do jeito que eu sou.

já diz bastante, sabe? Então você não vai me ver defendendo coisas que estão muito nesse mundo. A gente evita que algumas coisas apareçam no vídeo. Por exemplo, arma. Pô, tem muita coisa legal de ciência que dava pra gente fazer. A gente queria falar de Kevlar outro dia. Pô, podia trazer um colete à prova de balas aqui pra mostrar como funciona o colete à prova de balas. Pô, mas só seria legal um colete à prova de balas se a gente pudesse atirar no colete de prova de balas. Falar, pô, mas atirar no nosso vídeo, não sei, sabe? Não vai ficar legal.

Sinto que já não é mais um vídeo para a família toda, sabe? Então não vamos fazer, vamos deixar para a próxima. Então a gente toma cuidado com esses assuntos que vão entrar muito nesse campo aí que está muito perigoso na internet hoje. E ao mesmo tempo acho que é importante que os meninos tenham um exemplo masculino também, que seja legal, assim, pô, eu não quero ser dessa turma aí extrema. Então...

vem pro meu lado, tá tranquilo aqui, aqui tá tudo bem, a gente não entrou nessa onda. É porque a internet virou essa coisa assim muito incrível, muito maravilhosa e muito perigosa também, né? Com muitos... e eu fiquei pensando que era uma oportunidade de falar sobre esses temas, porque você tá muito dentro há muito tempo.

Uma outra coisa que eu pensei em conversar com você é que você está em uma plataforma, você está em várias, mas você está numa majoritariamente, o YouTube, que recentemente foi defendida pelo CEO como uma grande biblioteca. Ele falou isso numa entrevista no New York Times. Mas a plataforma é também muito atacada e perdeu um processo agora incrível, que foi o primeiro.

pela reprodução automática e infinita de vídeos, que pode viciar, que foi o caso do processo, mas que também pode levar ao extremismo, né? E aí eu queria te perguntar se isso, de alguma maneira, afeta o manual do mundo, se isso é uma coisa que também orbita ao seu redor.

Sim, essa é uma questão muito complicada, porque ao mesmo tempo em que a gente tem essa redenção que foi o YouTube, quando eu comecei no jornalismo, ou você entrava num grande veículo, ou você não tinha chance nenhuma de aparecer, de fazer. Então, o que eu faço hoje não existiria mais de forma alguma.

Você ia ter que virar um Bikman aí da televisão, conseguir entrar na TV Cultura para apresentar um programa. Não, eu nunca iria por esse caminho porque eu não me acharia capaz de fazer o que eu faço hoje. Nunca me enxergaria fazendo, né? E aí eu não iria buscar. E eu acho que...

milhões de outros casos podem servir como exemplo. Esse é o lado bom. E o lado ruim é que isso deu margem para mil outras coisas. Então, o YouTube eu ainda acho que é uma das plataformas mais seguras de todas. Se você for considerar esses conceitos de o quanto a plataforma vicia, esse scroll...

Ou quanto que ela te leva para conteúdos perigosos. Ou qual que é a relação dessa plataforma com os criadores. Então a relação que a gente tem com o YouTube, poxa, é muito antiga. As formas de monetizar os vídeos são super consolidadas. Não muda faz 15 anos que é igual, que você pode ter alguma confiança daquele chão que você está pisando, sabe? Com outras plataformas a gente já teve experiências muito ruins. Então eu acho que dentro dos filtros possíveis de se criar hoje...

São um dos melhores... A gente ainda está dentro da casa mais segura. Isso não quer dizer que ela seja segura, né? Ser a mais segura não quer dizer que ela seja 100% segura. Em casa mesmo, eu tomo muito cuidado quando as meninas estão no YouTube. Elas têm que assistir com a gente, comigo, com a Mari. Porque não dá para largar a mão e deixá-las assistindo sozinhas.

É isso que eu ia te perguntar, você que tá aí dentro, que sabe de tudo, Iberê, como é que você faz em casa? O YouTube tem essa plataforma, o YouTube Kids, que é bem mais filtrado, aí não vai aparecer esses canais perigosos e tal. A gente deixa elas assistindo o YouTube Kids com uma bela filtrada, né? Tem uma série de coisas que são pra criança, mas a gente também acha que elas não deveriam assistir. Então a gente filtra bastante.

E aí, nas plataformas de streaming, isso fica um pouco mais fácil, né? Porque daí você tem um controle bem melhor, mais organizado, e são coisas que são feitas já com aquele cuidado de curadoria que eu falei no começo, né? Então, é bem mais tranquilo. Então, a Helena queria assistir o Castanhari esses dias. Pô, tem uma série legal do Castanhari no Netflix, assiste lá e tal, super bem produzida. E... Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris Boris

Então ela assistiu pelo... é fã do Castanharo e pelo Netflix, não pelo YouTube, porque a gente, pra assistir o YouTube, elas têm que estar junto com a gente. Então a gente tem esse cuidado de ficar em cima do que elas estão assistindo e é nisso que o Manual do Mundo acaba levando vantagem em uma série de famílias, né? Porque também é o canal que os pais deixam assistir ali no YouTube. Mas a gente tem esse cuidado, sim, porque no fim das contas, se você tá logado numa conta de adulto ali assistindo o YouTube normal, é uma porta pra qualquer coisa, né?

E a criança no controle do próximo vídeo é muito perigoso deixar sozinha. Tem que ter esse controle sim. E uma coisa que eu acho legal é que a criança sempre assista na televisão.

A televisão está ali para todo mundo ver, é compartilhada com a família. É uma tela grande que você senta do lado, vê o que a pessoa está assistindo, vai tomar um café, volta. E ao mesmo tempo também é um compartilhamento mais... É estranho falar isso hoje. Mas a televisão é mais social que o celular ainda. Se fosse na época dos nossos pais, eles falavam, não, tem que brincar na rua, não tem que assistir televisão. Mas a gente sabe.

Porque a realidade nem sempre vai ser assim. Então, se vai assistir, ainda acho que a televisão é uma tela bem mais social do que o celular. E como é que você concilia, voltando para a coisa da produção, o seu conteúdo responsável com as dinâmicas do algoritmo? Para não cair num conteúdo apelativo e ainda assim ser bem assistido pelo público? A gente tem vários limites aqui que a gente não quer cruzar. Então, por exemplo, o título do vídeo...

Você tem que ir no limite de ser um clickbait, não pode ser um clickbait. No vídeo a gente tem que manter a bola lá em cima o tempo todo, a gente acompanha as curvas de decaimento de audiência. Mas eu não acho que o algoritmo selecione coisas muito diferentes do que o público quer ver. Ele não vai forçar o público a ver uma coisa que não quer, é muito pelo contrário, ele vai te estimular a ver exatamente o que você quer. Então eu tenho que trabalhar...

Servindo ao público, servindo bem ao público. Teve muita discussão já entre os criadores de conteúdo. Poxa, vamos... O algoritmo agora quer isso, o algoritmo agora quer aquilo. Eu não acredito muito, não. Eu acho que é o público mesmo que quer, não é o algoritmo. O algoritmo a gente sabe, por exemplo, que o YouTube vai querer que se assista o máximo possível.

Então se eu fizer vídeos mais longos que prendem a sua atenção, vai funcionar melhor. Porque você assiste o máximo possível. Também nos vídeos mais longos cabe mais publicidade. Então comercialmente o YouTube vai estar melhor se eu tiver vídeos que tem espaço para mais publicidade. Então se o vídeo tem meia hora eu consigo colocar cinco publicidades. Se ele tem um minuto dá para colocar uma só. São coisas que a gente sabe que agradam ao sistema que a gente está trabalhando.

Agora, pensar que, poxa, eu preciso fazer coisa bombástica em todo vídeo, eu preciso me submeter a coisas fisicamente perigosas em todo vídeo para chamar atenção, aí a gente acha que tem uma questão de credibilidade que precisa ser cultivada ao longo de anos. Então, ao longo de 18 anos, a gente vê que tem uma série de decisões que a gente tomou que foram certas. Uma época, por exemplo, estava na moda fazer desafios físicos. As pessoas...

Vou dar exemplos de coisas que eu vi, tá? Ah, vamos ver quem consegue tomar uma garrafa de cachaça num gole só. Ou vamos ver quem tem coragem de enfiar a cara no formigueiro. E as pessoas mandavam pra gente esse desafio. E, Beren, eu duvido você comer um sabão. Eu falei, poxa, não vou comer sabão, não vou enfiar a cara no formigueiro, não vou encher a cara de cachaça. Não é isso que eu acho que a gente tem que fazer. E na época isso deu muita audiência e tal. Faz mais de 10 anos. Mas, enfim...

um cuidado que a gente tem que ter é de conseguir ouvir o público e saber filtrar o que vai fazer bem para a gente, o que a longo prazo a gente quer que continue. Então, acho que a gente perde um pouco de não entrar nessas ondas, nessas grandes modas.

A gente perde um pouco de não exagerar, não entrar, por exemplo, falar de teoria da conspiração. Para a gente, está fora. Se é teoria da conspiração, a gente não vai comentar, nem que seja de mentira. Às vezes a gente tem que combater, sei lá, fala que o homem não pisou na Lua. Poxa, isso faz parte do nosso assunto aqui. A gente gosta muito de astronautica e tal, de falar de foguete. A gente vai bater nessa tecla, que a Terra é redonda, que o homem pisou na Lua.

mas a gente não vai levantar uma teoria da conspiração do nada, que ninguém conhece, para apresentar a teoria da conspiração para depois desapresentar, sabe? E aí acho que já está indo além do que a gente acha que é um bom conteúdo. Então, a gente acaba convivendo com alguns reveses de não chamar tanto a atenção, de de repente não fazer parte de vários círculos aí que a galera faz parte e tal.

Mas eu acho que é o que mantém a gente aqui com a consciência tranquila, sabe? Que, sei lá, daqui 18 anos a gente possa voltar a ter essa conversa e não ter escorregado nenhuma casca de banana. Olha, eu estou chegando já para o final e para terminar eu trouxe duas perguntas de crianças. Vamos lá, vamos lá. Eu comentei que eu ia entrevistar você, Iberê, foi um auê entre a minha pequena comunidade infantil. Ah, que legal. Dos meus filhos e dos amigos deles. Então, as duas melhores estão aqui. Um deles perguntou.

Como é que ele aprendeu tudo que ele sabe? E aí eu complemento, né? Você é jornalista, ensina sobre ciências. Você usa internet, ferramentas de IA. Agora eu sei que você tem uma equipe, como é que você faz? Primeiro que todo vídeo que eu vou fazer eu tenho que pesquisar muito. Então são horas de pesquisa.

O vídeo de hoje, em que a gente ensina como funcionam as marchas do carro, eu já sabia o básico, mas eu não sabia como se chamavam as peças do mecanismo que a gente criou aqui. Poxa, foi mais de uma hora para descobrir o nome de cada peça, sabe? Então, tem muita coisa que eu sei hoje, porque eu fui acumulando ao longo dos anos, mas todo vídeo vai ter alguma coisa que eu ainda não sabia que eu tenho que aprender para fazer aquele vídeo. E aí um exercício muito legal que eu faço é aqueles vídeos de Iberê Responde.

Eu respondo 40 perguntas no vídeo só e cada uma delas exigiu um tempo de pesquisa. Uso bastante inteligência artificial para me indicar as fontes. Então hoje eu uso bastante aquele perplexity, porque ele faz pesquisa só em fontes. Nem todas são confiáveis, mas ele não alucina, tudo que ele fala foi baseado em alguma referência. Aí eu vou naquelas referências para dar uma olhada se está tudo certo o que foi relacionado ali no perplexity.

e consigo montar as minhas respostas. Mas não é sempre que eu consigo tirar tudo de lá, não. E mesmo lá eu tenho que checar todas as fontes. Mas o que eu acho muito legal é, uma vez que você aprende um assunto, abre portas para milhares de outras coisas. Então, cinco anos atrás, por exemplo, eu não sabia nada de astronomia.

E aí eu resolvi fazer um curso que tem na Univesp, que é aquela universidade do estado de São Paulo que é à distância, e lá tem um curso que está no YouTube totalmente de graça, que é Astronomia para Professores de Geografia.

Então, não é uma astronomia super aprofundada, né? Para quem está estudando física, que vai estudar como funciona a relação de gravidade entre o Sol e a Terra. Não. Primeiro vamos entender como funciona o sistema solar, o que é um asteroide, o que é um cometa e tudo mais. Poxa, aí me abriu um campo completamente novo e o básico eu já sei agora. Então, quando eu vou falar de algum assunto, eu consigo pesquisar com muito mais propriedade, consigo pesquisar mais rápido.

Então é isso, não é que eu sei tudo o que... E outra coisa, muita coisa que eu falei eu já esqueci também, tenho que pesquisar tudo de novo. Então quem assiste tem essa impressão de gente, poxa, o Berê sabe tudo aquilo, mais ou menos, né? Muito eu tive que pesquisar e uma parte eu já esqueci. E outra pergunta de criança, e essa eu estou achando mais pertinente depois de conversar com você aqui, que é... Por que ele sempre quer fazer bolas perfeitas?

A bola perfeita é um desafio, que eu gosto muito é de desafio, esse desafio maker, né? O desafio de você construir alguma coisa. E a bola perfeita te dá a oportunidade de trabalhar com materiais completamente diferentes. Então, por exemplo, eu descobri esses dias que a dentadura, ela é feita de uma resina. E é muito legal, porque é uma resina muito gostosa de trabalhar. Eu vi os vídeos das pessoas fazendo dentadura, eu falei, poxa, essa resina é muito bacana, porque ela é totalmente moldável quando ela tá mole ainda, quando ela não fez a reação química.

depois ela endurece e ela dá um brilho absurdo. Eu falei, poxa, vamos fazer a bola perfeita de dentadura. Aí eu arrumei aqui, sei lá, 20 dentaduras, quebrei as dentaduras e eu juntei essas dentaduras com a resina da própria dentadura. Comprei a resina de dentadura e aí eu tive que chamar um psiquiatra.

Pra ele explicar porque que a gente tem tanto nojo de ver os dentes ali, né? Aquela coisa, formou uma bola cheia de dentes, uma coisa estranha. E todo mundo que chegava aqui, olhava e falava, meu Deus, que coisa horrorosa, que que é isso?

E eu falei, não, alguém precisa explicar. Aí no vídeo, além de você aprender qual é o material que se faz dentadura, você ainda aprende por que a gente tem nojo de ver partes do corpo soltas. É uma defesa do que a gente tem, porque se você vê um dente solto ali, significa que alguém perdeu aquele dente ali. É melhor você sair daquele lugar. Não é bom você gostar daquilo. Some dali. Então a bola perfeita é sempre esse desafio. Como é que a gente vai dar conta daquele material?

E tem muita bola perfeita para fazer ainda, tem muito material maluco que a gente está pesquisando. E eu percebo que as pessoas gostam muito porque é uma jornada que você acompanha. Eu falo que vou fazer a bola perfeita, por exemplo, outro dia eu fiz uma bola perfeita de moedas, só de moedas de um centavo de dólar, porque eu não posso usar de real porque destruir a moeda é crime. Nos Estados Unidos pode com fins artísticos ou educacionais, eu falei ambos, eu vou fazer uma bola perfeita aqui.

E, poxa, a ideia era soldar as moedas uma na outra até formar uma esfera oca. E, pô, mas como é que a gente vai fazer isso, né? O que é a solda? Do que é feita a moeda? Será que ela aceita esse tipo de solda? Como que a gente vai construir um molde para acomodar essas moedas de forma que termine numa esfera e tudo mais? Então, acho que são desafios meio de engenharia, né? Que a gente cumpre nas bolas perfeitas. E ainda um desafio de aprender alguma coisa no final.

E aí surgiu uma coisa aqui, depois de tanto tempo fazendo isso, você tem relatos de pessoas que te assistiram na infância e que prestaram vestibular para essas áreas? Isso deve ser bem louco, né? Muito, muito. Essa é a coisa mais legal de todas. É a hora que eu me sinto mais realizado.

É quando alguém chega e fala, pô, eu sou professor de biologia, eu trabalho numa empresa de engenharia, eu cursei matemática por causa do Manual do Mundo, sabe? E muitas vezes, nem é da área exatamente do Manual do Mundo, não é? Porque a gente é muito focado em física, física e engenharia.

É alguma coisa correlata, que não tem tanto a ver, mas a pessoa se sentir inspirada por estudar, por se interessar por coisas novas e tal. E eu acho que, poxa, o ciclo se completou. Acho que a nossa missão foi cumprida ali. Então, acho que é o clímax que a gente consegue alcançar. É quando alguém tomou uma decisão tão importante quanto uma profissão, por causa do Manual do Mundo. Demais, Iberê. Parabéns, hein? Muito legal. Obrigado.

Se você gostou deste podcast, eu te convido a ouvir outros episódios. A gente já falou com a cientista de dados Quisiterra sobre o futuro do trabalho e a inteligência artificial, com o geógrafo Cauê Lopes, autor de Parcelado. A gente falou sobre o endividamento do brasileiro e com a roteirista e escritora Camila Appel, autora de Enquanto Você Está Aqui, o assunto foi envelhecimento e finitude.

Nas principais plataformas de áudio, como o Deezer, o Spotify e o Apple Podcasts. E também no canal da Gama no YouTube, você escuta o podcast da semana. Com o roteiro e apresentação de Isabelle Moreira Lima, este é o podcast da semana. A cada sete dias, um tema novo para você. Até semana que vem!