LUCIANA TEMER | RivoTalks #130
Delegada de polícia aos 23 anos, professora de Direito Constitucional na PUC há mais de três décadas e fundadora do Instituto Liberta, Luciana Temer é uma das vozes mais consistentes no combate à violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil.
No episódio, Luciana fala sobre como a delegacia da mulher moldou sua visão de mundo, o relato pessoal de quando foi vítima de violência sexual e por que ficou em silêncio, e os dados alarmantes que o Instituto Liberta levantou com o Datafolha, incluindo que 1 em cada 3 brasileiros sofreu alguma violência sexual antes dos 18 anos. A conversa passa pelo impacto da pornografia na sexualidade de jovens, a diferença entre pedofilia e abuso, a adultização de crianças no Brasil, e por que chamar todo abusador de pedófilo é um desserviço.
Um papo denso, necessário e conduzido com seriedade — sem sensacionalismo, mas sem papas na língua. Solta o play!
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Luciana Temer
- Violência Sexual e EducaçãoEstupro e abuso sexual · Silêncio das vítimas · Impacto da pornografia na sexualidade · Adultização de crianças · Pedofilia vs. Abuso · Dados sobre violência sexual infantil
- Carreira e Ativismo de Luciana TemerTrajetória como delegada de polícia · Ativismo contra violência sexual infantil · Instituto Liberta · Delegacia da Mulher · Lei Maria da Penha
- Normalização da violênciaCultura pop e influência na sexualidade · Naturalização da exploração sexual · Pornografia e seu impacto · Músicas com apologia ao estupro · Casamento infantil · Gravidez precoce
- Politicas PublicasImportância da educação sexual · Regulação de plataformas digitais · Planejamento familiar · Redução de danos · Braços Abertos (programa social) · Empoderamento feminino pela renda
- Influência Familiar e SocialEducação e valores familiares · Influência dos pais na carreira · Michael · Ditadura Militar
- O Papel da Linguagem e da ConsciênciaQuebrar o silêncio · A cura pela linguagem · Consciência sobre violência · Educação para a cidadania
- A Complexidade do AbusadorAbusadores como pessoas comuns · Traumas na infância de abusadores · Diferença entre pedofilia e abuso
Olá, sejam bem-vindos a mais um Rivotalks, esse espaço maravilhoso de conversa que abre portas para que vocês conheçam o... O Rivot News, nosso resumo semanal de notícias, toda sexta-feira, meio-dia e trinta. É o programa que batiza esse canal no qual você tem que se inscrever agora. Agora. Agora. Se inscreveu?
É, já está querendo ver essa entrevista? Antes mesmo de se apaixonar por ela, que eu tenho certeza que vocês vão amar, clica no botão de inscrição. Ajuda muito a gente, vocês não têm ideia. Exatamente. E sempre lembrando, isso tudo aqui é feito com o apoio da Intermesa Escola de Música e da produtora Camaleão. E estamos hoje aqui com a sensacional Luciana de Toledo Temer Lulia. Seja bem-vinda, Luciana. Obrigada. Depois de sensacional, eu já estou super bem-vinda.
Muito bom te receber aqui, Luciana. A sua bio do Instagram, ela é quase uma síntese de vida, né? É professora de constitucional por vocação, militante de direitos humanos por convicção e fotógrafa por paixão. Eu queria começar esse papo te perguntando o que está por trás disso, né? Você viu muita coisa como delegada, depois você viu muita coisa como gestora pública e hoje você vê muita coisa como ativista também.
Em que momento você percebeu que a sua vida ia ser essa disputa entre a lei no papel e o Brasil real? Porque eu acho que é mais ou menos por aí que vai o seu ativismo. Eu acho que sim, Gabriel. E eu acho que não teve um momento que eu percebi.
Eu acho que as histórias são muito diversas. Eu brinco que tem gente que é linear. Então, tem gente que entra num escritório de advocacia como estagiário, daí vira advogado efetivado, daí vira sócio, e passa a vida inteira ali, e ali tem uma certa previsibilidade que é confortável para a pessoa e ela segue ali. Eu morreria.
se tivesse acontecido isso comigo. E acho que isso é um perfil. Então, as coisas foram meio acontecendo. Eu não sei te dizer em que momento que eu entendi qual era o meu papel nessa história, entendeu? Mas a vida foi me levando para uma lógica...
Eu tenho uma formação legalista, eu sou advogada, eu sou parecerista, inclusive, filha da PUC, meu filho Cologral agora também, recentemente na PUC. Tem um lado legalista, mas tem uma experiência, e eu vou dizer para você, eu acho que não tem um momento, mas tem sim um...
Uma virada aí de, talvez, de caminho, que foi quando eu me tornei delegada de polícia. Aos 23 anos. Cedo, né? Muito cedo. É uma irresponsabilidade do Estado. Mas só que eu acho que tem coisas que forjam uma pessoa e que constroem uma pessoa, né? Ninguém também te colocou ali de bobeira. As pessoas viam que existia uma... Não, deixa eu te contar, foi de bobeira sim.
Eu vou te contar o que aconteceu. Mas foi a professora Maria Inês, não foi? Então, mas olha o que aconteceu. Eu acho que eu brinco que foi de bobeira, porque eu nunca tive a intenção de ser delegada de polícia. E isso é uma coisa interessante, porque eu queria mesmo, eu tinha estagiado na assistência judiciária, que hoje é o equivalente à defensoria pública, que não havia na época. E eu estagiei o tempo inteiro na procuradoria de assistência judiciária criminal, no Fórum Criminal.
Então, eu estudei para prestar concurso para a procuradora do Estado, na época. E não passei. Passei na primeira fase, não passei na segunda. Fiquei muito chateada, tinha estudado muito. Eu falei, vou passar no primeiro concurso que aparecer, agora eu vou passar. E qual foi? Delegada de polícia. E passei super bem no concurso, estava muito preparada. E falei, eu não vou assumir. Eu nunca quis ser delegada de polícia.
Eu só quis passar no primeiro concurso para me provar. E aí a Marinês, que era professora da PUC, uma pessoa que eu acho admirável, sempre foi uma pessoa que eu gostei muito e ela me pegou na sala dos professores, eu já era assistente de direito constitucional e falou, você passou, parabéns. Eu falei, rapaz, sim, mas não vou assumir. Vai sim, vai vencer minha assistente na Delegacia de Defesa da Mulher de Osasco. Que legal.
Então, mas é isso que eu acho. Não necessariamente o ofício. É isso, mas é um de bobeira que eu quero dizer. Aos 23 anos, quando olha-se para uma menina muito jovem e fala assim...
eu vou puxar como minha assistente, é porque a gente vê potencial. E é um potencial que não se constrói à toa. Vocês, quando viajavam pequenininhas ali, as irmãs, no carro com seu pai, recitando na Viu Negreiro de Castro Alves na íntegra. Vocês fizeram a lição de casa. É claro que uma educação desse nível traz muitos benefícios. Sem dúvida. Mas a minha dúvida não é pelos benefícios.
É pelas vezes as dificuldades, porque eu imagino que vocês tinham uma coisa diferente aí, a partir do momento que vocês ouviam esse tipo de coisa, com uma naturalidade que talvez nenhum ou pouquíssimos pais ofereçam. Qual foi talvez a dificuldade, Luciana? Eu acho que, assim, quando eu era menina até oitava série na minha época, eu estudei no Sion, né? Que é um colégio tradicional, de Freira, de São Paulo e tal. E eu me lembro, deu muito pequena.
E os meus pais eram MDB. E todos os pais dos meus amigos eram Arena. Quem não sabe, Arena era o partido do governo e o MDB era oposição. Na ditadura militar. Na ditadura militar. E a gente ficava na frente da televisão branco e preto, assistindo a propaganda política, que aparecia fotinho só do fulano, do baixo. E eu lembro que era...
Cecília, é um estranhamento, porque só eu sou o MDB. Então, tinha uma coisa ali... Já diferente. Diferente de alguma coisa que... E acho que, como você diz, escutar o navio negreiro, escutar o operário em construção, e muito pequena, vendo aquelas imagens daquele horror do navio negreiro, aquela indignação, e o operário em construção, a hora que ele sobe na construção, olha em torno e diz não.
Não dá, não dá para negar que isso é uma formação que, sim, foi muito importante. E eu tinha uma mãe. Eu sei que era expansiva, né? Muito interessante. Tem uma mãe, né? Porque ela está viva, 87 anos, está viva e bem.
Mas ela era uma figura muito maluca também, porque ela, uma vez, eu vou contar essa história, não sei se já contei em algum lugar, mas uma vez, meu pai era escritário de segurança, e ela soube que tinha uma mulher de rua que tinha sido estuprada na rua, e era uma pessoa com...
questões mentais e tal, e não sei porque minha mãe soube disso. Ela não teve dúvida, ela pegou o carro, ela foi lá, botou a mulher dentro do carro e trouxe para casa. Mentira, padre, não. A gente devia ter uns 13, 14 anos de idade. E a gente não sabia o nome da mulher. E a mãe falou, não, a gente vai achar a família dessa mulher. Bom, conclusão, a mulher ficou dois dias na minha casa, morando na minha casa. Então, assim...
Tem um pouco essa coisa do meu pai. Ela ainda era casada com o seu pai? Era, meu pai era escritório de segurança. E aí? Aí minha mãe começou a mexer o mundo ali, vamos achar quem é essa mulher, assistência social e tal, foi localizando, conseguiu localizar, descobrimos que a mulher chamava Fátima. E...
E aí, encontramos a família da Fátima. Mas seu pai ficou de boa? Ela ficou escondida em casa. Entendi. Porque, assim, imagina, é o oposto do que a gente pensa, né? Não, mas o meu pai é uma pessoa muito generosa, mas ele não tem esses arrobas. É isso que eu tô falando. É até complicado pegar uma pessoa e botar uma de casa. Claro, é óbvio. Mas a gente tinha uma edícula em casa, no Pacaembu, e aí minha mãe botou lá a Fátima. Maravilhosa. Toma Maria Celia, muito ousada. E resolveu, encontrou.
Se resolveu, Gabriel, é difícil falar, porque essas coisas são muito complexas. Mas sim, num primeiro momento, minha mãe conseguiu tirá-la da rua, tirar da situação de violência que ela estava. Cafézinho, tédio. Oba, obrigada. E encaminhar para...
Para a família. Para a família. Caramba, é muito interessante. Então, eu tinha esses pais que não eram pais muito... Convencionais. Convencionais, né? Os dois. Quando a gente é criança, a gente reproduz muito aquilo que a gente escuta em casa, em outros ambientes. Eu tenho uma história muito boa. Na verdade, eu reproduzi em casa uma coisa que eu ouvi em casa, mas a minha mãe conta, eu acho que eu tinha dois anos, e aí eu ganhei de aniversário um caminhãozinho do exército.
Com um monte de soldadinhos dentro.
E eu fiquei muito alegre com aquele presente. E eu virei e falei, olha, gente, eu ganhei um caminhão cheio de imbecis. E aí meus pais entraram, né, ficaram muito preocupados. Meu Deus, o que essa criança tá escutando? Será que ele tá achando que Milico é imbecil? É, de onde você tirou isso? De onde ele tirou isso? E a minha mãe ria do outro lado da sala. Aí ela vira e fala, não, gente, é que ele anda muito no carro comigo. E eu sou um pouco esquentada no trânsito.
Então eu chamo os outros motoristas de imbecil. E ele entendeu que motorista é imbecil.
Entendi. Você tem uma história relativamente parecida com essa, embora muito mais nobre, que é a história da forca, né? Quando você tá ali na alfabetização jogando forca e você escolhe a palavra constitucional porque era a aula que o seu pai dava na PUC. Exatamente.
Não sei se vocês ainda não entenderam, mas Luciana é filha do presidente Michel Temer. Isso é muito forte, né? Sem dúvida. Esse tipo de influência. Que tipo de filha nasce quando a referência afetiva é dessa monta, de uma ideia, de uma aula? Eu acho que...
Isso, acho que quando você tem pais muito fortes, eu tenho um pai e uma mãe que são, cada um, à sua maneira, pessoas muito fortes. Isto é admirável, por um lado, você olha e fala, nossa, por um outro lado é um peso.
Porque você olha para aquelas figuras e fala, mas tá bom. E eu sou quem? Sim. Quem sou eu? Porque você primeiro fica sempre referenciada. Claro. Você acabou de me referenciar. Eu tenho 56 anos e eu sigo referenciada. Isso não é um problema mais. Mas já foi quando eu tinha 20.
principalmente no mesmo meio sim, exatamente por um lado, Gabriel eu tenho muito orgulho dos meus pais dos dois, acho que são pessoas admiráveis mas não é fácil ser filha ser filho de pessoas que
que são muito marcantes na vida de outras pessoas. Não é à toa, Maristela e Clarissa foram virar psicólogas, né? É, não é à toa. Não é à toa. Não é à toa que as duas viraram psicólogas. E eu, como primogênita, lógico, segui o caminho do pai. Mas é interessante, porque eu acho que... Eu discuto isso hoje, né? Bem ou mal, eu tenho um filho de 20... Está fazendo 25 anos hoje. Ah, meu Deus! Hoje, que não é hoje quando vocês vão assistir, mas é hoje quando a gente está gravando.
o Pedro fez isso, e a Marina, que vai fazer 24 agora, e eu olho para eles, eles têm um pai criminalista, tem uma mãe que bem ou mal está aqui dando entrevista para vocês, que tem uma certa projeção numa causa que defende, e eu olho e falo nossa, é muito legal.
mas também é pesado, né? Porque é isso, é escutar do amigo, aí eu sigo a sua mãe, entendeu? Eu sigo a sua mãe, é difícil no Instagram. Demora até ser uma coisa boa, né? Acho até que para os meus filhos agora, que têm essa idade, que estão formados...
Mas sim, eu acho que tudo tem dois lados nessa vida. A gente ter pais fortes, dá um exemplo, e abre muitas portas. Claro. Eu não negava as portas que meu pai abriu para mim na vida, inclusive no direito. Abre porta, mas olha só, eu sou professora da PUC há 33 anos.
Eu comecei muito cedo com um professor maravilhoso que eu tive, foi o meu orientador de mestrado e doutorado, Luiz Alberto Araújo, e que tinha sido assistente do meu pai, né? Então, tem esses ciclos e tal. E eu lembro que quando eu comecei na PUC...
Eu comecei sempre com a lógica de que é a filha do Temer. Então, ela está aqui sempre nessa lógica, porque ela é filha do Temer. E, no final, você demora muito tempo para entender que você não é café com leite. Entendeu? Eu demorei muitos anos, Cecília, para entender que eu estava ali porque aquele era o meu lugar, graças à relação com os alunos, né? Os reconhecimentos. Mas, durante muito tempo...
No fundo, no fundo, tem aquela sensaçãozinha de, ah, é que eu tô aqui, mas eu sou café com leite, sabe? Era esse tipo de dificuldade que eu queria entender, porque a cada vez que você falava uma coisa, até fora, você usava uma palavra, às vezes, que ninguém usava, todo mundo já devia te olhar e falar, ah, lá vem a filha do Pem.
Já vem as mesócrises Não alcancei esse nível Mas eu acho que tem muito Vão se criando Pechas em torno da sua imagem Eu tenho uma brincadeira que eu faço com os meus filhos Que é a seguinte
As pessoas, o seu nome sempre chega antes nos lugares, né? Então, seja onde for. Então, cada um tem uma imagem do seu pai. Uns gostam muito, outros detestam, né? Mas dificilmente você tem uma pessoa que é isenta a essa referência.
E eu digo o seguinte, também sobre a filha do Temer recai uma imagem. Claro. E a imagem é a seguinte, a Luciana, a Maristela, a Clarice, enfim, o Michelzinho, são filhos do presidente. Portanto, eles devem ser arrogantes, metidos, né? Tem uma imagem, assim. Então, eu brinco muito com os meus filhos, que é o seguinte, a gente tem uma vantagem sobre os outros, porque a gente é normal. E quando a gente é normal e as pessoas conhecem a gente, o que eles acham?
Que a gente é ótimo. São maravilhosos, claro. Estava esperando o pior, né? A gente estava esperando uma pessoa horrível e chega uma pessoa normal. Que gosta de carnaval. Mas então ela é ótima. Que gosta de carnaval. É isso. Entendeu? Então é muito doido isso, porque tem essa vantagem. Claro. As pessoas acham que você é incrível só porque você é normal. Muito bom.
E ao mesmo tempo, apesar de tudo isso, é exatamente quando você está trabalhando no estágio ali, no PAJ, quando você está fazendo estágio ali, que você diz que a realidade é esfregada de forma brutal na sua cara. Porque uma coisa é a gente ouvir sobre determinadas coisas, outra coisa é a gente ver, ouvir, ver os relatos muito de perto ali.
E o que apavora aí, meninas de 19, 20, 21 anos nessa fase, na verdade, te deu mais sede de justiça. Na verdade, não te afastou. Você ouvia das suas colegas nesse sentido, já de a pessoa diferente? Tipo, você está louca? Você vai querer trabalhar com isso mesmo? Eu aposto que sim, porque a minha esposa é advogada, filha da PUC também, e os penalistas da turma são sempre os malucos.
Eu vou te contar uma coisa, você sabe que eu acho que eu me cerquei muito de pessoas parecidas, entendi. Certo. Então, eu não vivi muito isso não, porque, você veja, boa parte dos meus amigos são criminalistas, inclusive eu tenho uma amiga...
porque é amiga de colégio e faculdade, que é a Flávia Raal, uma grande criminalista, que montou no Brasil o Innocence Project Brasil. Entendi. Que revê penas injustas de condenados. Então, eu acho que, de alguma forma...
Lógico, está falando de um grupo que é o grupo mais próximo. Mas eu acabei tendo uma compreensão muito grande das minhas opções e dos meus caminhos a partir de me aproximar de pessoas que pensavam parecidas. Você casou também ali o pai dos seus filhos e é criminalista. É criminalista, exatamente.
Trabalha para empresa, né? Outra lógica. Mas não deixa de trabalhar com o crime. Ele é ótimo, viu? Mas ele é empresarial. Mas é uma área difícil, né? Porque você se depara com uma realidade que é muito dura o tempo todo. Hoje o direito criminal, ele tem muitas faces. Eu brinco com ele. Porque, na verdade, ele trabalha muito mais com pessoa escritório, né? Trabalha muito mais com pessoa jurídica do que com pessoa física.
E a dor mesmo está na pessoa física, né? Que é o que você encontra na delegacia. Claro. Que você encontra na delegacia. E aí, Cecília, tem uma coisa interessante, porque veja só, quando eu quis prestar concurso para assistência judiciária criminal, na verdade, procuradoria, eu tinha uma vocação, que era soltar pessoas. Claro.
E eu virei delegada de polícia, que prende pessoas. Eita, que crise. E isto foi sempre uma questão para mim. Porque, lógico, que a função de delegada é muito importante. Claro. Não só por prender, mas por fazer justiça. Perfeito. Eu sempre disse, eu fiquei cinco anos em Osasco, na delegacia.
E eu sempre pensei que a gente tinha que rever muito as políticas para as delegadas e delegadas de polícia e para as polícias em geral. Porque você sabe que tem dois lugares que ficam abertos 24 horas para a população. Pronto Socorro e Delegacia de Polícia. Quando acontece alguma coisa ruim, é para lá, que de um jeito ou de outro as pessoas correm. E mais do que isso, é no quente do momento que você consegue, às vezes, fazer justiça.
Porque depois a coisa esfria e aí entram as outras versões e outras... Então, é uma função muito relevante, muito importante, né?
que infelizmente acaba sendo um pouco desprestigiada, na minha época muito mais desprestigiada, a gente tinha pouca estrutura na delegacia e tal. Mas enfim, eu tinha essa questão, porque a minha vocação era soltar e eu fui parar no lugar que eu prendia. Sim, e quando você estava na faculdade, sua professora te pesca para a delegacia da mulher, lá de Osasco, inclusive foi criada pelo seu pai, a instituição da delegacia da mulher.
Num Brasil que não tinha a lei Maria da Penha, não tinha o tipo penal do feminicídio.
nós ainda temos, mas naquela época era ainda mais forte, uma cultura que tratava a briga doméstica como cotidiana, como qualquer coisa. E aí eu fui procurar mais algumas idiosincrasias brasileiras sobre esse tema.
A gente só declarou a legítima defesa contra o homem constitucional três anos atrás. É inacreditável. Não havia um entendimento definitivo sobre isso. E a anulação do casamento, caso o marido descobrisse que a mulher já havia sido deflorada, usando a expressão que estava na lei, só caiu de vez no Código Civil de 2002. É nesse Brasil que você chega numa delegacia da mulher. O que você viu primeiro?
Olha, acho que entrar em contato com essa realidade... E até aqui, Cecília, você falou que eu era muito duro quando eu estava na PAJ Criminal e tal, mas na PAJ Criminal eu ainda tinha uma relação muito com o papel. Pouco com os assistidos, porque, na verdade, ele chegava ali para a gente fazer audiência e tal, o resto estava tudo nos autos. Então, você não tinha esse espaço realmente de proximidade. Na delegacia, não.
Na delegacia, eu sentava com a vítima, eu sentava com o autor, olho no olho, ficava duas horas conversando. Então, de fato, aí que eu entro em contato com essa realidade. E aqui, Gabriel, era um Brasil que enxergava a violência contra a mulher de outra maneira.
de uma maneira muito estereotipada. Porque eu sempre digo que violência contra a mulher era questão de mulher periférica. Não era Dana Hickman, Luisa Brunet, não são mulheres empoderadas, que hoje a gente sabe que sofrem violência, assim como mulheres da alta vulnerabilidade social. Então, tinham muitos estereótipos. Você pensava, por exemplo, e eu brinco com essa frase, eu tinha uma equipe maravilhosa, eram mulheres superlegadas, a gente estava de um outro tempo. Sim.
Então, eu lembro da escriva chegando para mim, falando assim, ó doutora, a moça está aí, mas ó, não tem nenhum roxo. Não tem nenhum roxo porque também no estereótipo, a violência tinha que ser visível.
hoje, pela lei Magapenha, a gente sabe que essa violência pode ser psicológica, pode ser patrimonial, tem várias ordens de violência, mas isso não estava naquele momento. A gente estava falando de uma outra relação da sociedade com a violência contra a mulher. É a mulher periférica que apanha, ponto.
Do marido bêbado, né? Ou bandido. E ela está lá porque ela quer e não sai daquilo porque ela quer. E você veja, a gente rompeu totalmente com esse problema. Não resolvemos o problema da violência contra a mulher ainda, até seríssima, mas nós enxergamos essa violência como ela é e a gente cria mecanismos, está tentando criar mecanismos de enfrentamento.
A partir do quê? Porque eu sempre digo o seguinte, você só cria mecanismos efetivos e eficientes de enfrentamento se você tem um bom diagnóstico. Você só tem um bom diagnóstico do problema quando você enxerga o problema como ele é, sem os estereótipos.
Então, é muito processo de consciência obrigado aos movimentos feministas que foram pautando a sociedade, pautando a imprensa, produzindo dados e trazendo consciência que nós temos hoje na sociedade. Mas realmente, olha, eu digo sempre o seguinte, imagina uma situação na qual um sujeito que briga bêbado com um amigo no bar e dá um soco vai responder pelo mesmo crime que quando ele está em casa e dá um soco na cara da mulher dele. Era o mesmo crime.
É muito impressionante. E são cobranças que se agradeceu também, Movimento Feminista, mas cobranças que você fez de 2019. Vamos abrir isso aqui, vamos ver o que é violência contra a mulher também. Não vamos ficar sem separar as coisas, violência infantil, violência... É ir abrindo isso para ter dados. Mas a separação, Cecília, que acho que eu...
ajudei a construir aí e que eu pego sempre a história do movimento feminista e da consciência da violência contra a mulher, porque eu acho que nos últimos 30 anos a gente viveu isso e por isso nós estamos nesse momento agora de enfrentamento. Quando a gente montou o Instituto Liberta, que o presido, agora estamos no décimo ano, de enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes, é um instituto de comunicação e conscientização, não atendemos vítimas.
Mas quando eu peguei no começo, é interessante, porque a questão da violência sexual infantil, ela não aparecia. Ela aparecia esporadicamente como uma notícia do fantástico. Muita gente não considerava questões que são violência sexual infantil como violência sexual infantil. Também.
Você deu uma entrevista para a gente no timeline da Rádio Gaúcha, a Luciana trouxe a informação, são 34 mil casamentos no Brasil. Segundo o último censo do IBGE, 34 mil meninas se autodeclaram casadas entre 10 e 14. Elas não sabem que estão sofrendo violência sexual. Estão sofrendo uma violência institucional. Institucional, enfim, de modo geral. Uma falência em todas as etapas.
Vou dar um outro dado, em 2020, que acho que eu dei para vocês também. Em 2023, nós tivemos 38 bebês nascendo por dia, filhos de mães de até 15 anos. É absurdo, é muito impressionante. Não há país sustentável, gente. Enquanto não olhar para isso, não tem jeito. Já já a gente vai falar disso, você traz números interessantes também. Mas é muito curioso que...
mesmo trabalhando uma delegacia, com essa tomada de consciência. Você conta que você aprendeu em casa a regra do elevador, né? Então, tá todo mundo no elevador. Entrou alguém, para de falar. Seu pai ensinava, né? Eu já não te achou essa. Eu adorei. Eu adorei. A pesquisa é profunda. A ideia que teu pai te ensinou é deve-se falar muito das coisas, pouco das pessoas e nada de você. Ó, tá vendo? Não aprendi nada, pai.
Mas, ao mesmo tempo, isso também talvez explique você ter se mantido em silêncio em momentos tão delicados da tua vida, mesmo quando você era delegada, que é o caso que você conta muito triste do estupro quando você era delegada e não era mais delegada. Eu tinha pedido exoneração há menos de um ano. Mas eu tinha acabado de sair da delegacia. Então, tinha trabalhado ali na delegacia durante muito tempo.
E acontece o crime durante um assalto contra você e você se cala, porque tipo, o que vai adiantar? Não é o que vai adiantar, sabe o que eu acho que é? E aqui não tem a ver com essa lição do meu pai e não tem a ver, porque eu acho que isso é uma característica que perpassa as vítimas de violência sexual.
Sejam adultas, sejam crianças, crianças e adolescentes, mais seriamente, depois a gente vai falar um pouquinho de dados, né? Por ser uma violência intrafamiliar. Mas a verdade é que a gente se relaciona muito mal com essa questão da violência sexual. Porque confunde-se violência com sexo. Eu acho que tem uma... Quando você fala de um estupro...
Você não está falando sobre sexo, você está falando sobre violência. Mas isso não é muito claro. Então, eu acho que as pessoas que são vítimas de uma violência, como eu fui aos 27 anos, e já com toda a consciência, como você disse, tendo trabalhado na Delegacia de Defesa da Mulher, sendo uma militante dos direitos de mulheres, eu acho que...
Primeiro, o meu pai era, na época, acho que presidente da Câmara, ou seja, teria uma grande repercussão. E a verdade é que, naquele momento, eu não queria ser exposta. E eu me sentiria exposta.
Tá. A desculpa é o que adianta, mas no fundo era a exposição. É, o que adianta, não vão pegar mesmo, não sei o quê, não vai adiantar nada, não vão pegar mesmo. Mas não importa, porque hoje eu sei que mesmo que não vá pegar, você tem um dado importante que é a produção, justamente dados. Sim. Nós temos que registrar a ocorrência, porque isso dá uma noção do tamanho desta violência.
Mas olha, eu... Assim, acho que a gente vai... A vida vai ensinando a gente. E eu não sei se até 10 anos atrás, antes de começar a trabalhar com o Liberta, se eu já tinha consciência da importância de falar sobre isso. Porque eu acho que este meu trabalho, ao longo dos últimos anos, me deu a noção da perversidade do silêncio.
Porque eu falo sempre que o silêncio é amigo do criminoso. Total. Sobretudo quando você fala de violência intrafamiliar e dentro de casa e tal. Mas toda e qualquer, todo e qualquer silenciamento. Agora, a nossa lógica de olhar para essas violências faz com que as vítimas se sintam constrangidas. Sim.
E aqui eu vou fazer até uma diferenciação para ver quanto constrangido de fato a gente se sente. Porque como você disse, eu fui estuprada num assalto. Portanto, tinha uma pessoa armada, uma pessoa com quem eu não tinha relação nenhuma. Não havia o que eu pudesse fazer. E mesmo assim eu me constrangi. Agora, imagina uma colega de trabalho que sai...
o colega à noite, acaba estuprada numa situação, imagina o nível de constrangimento dessa pessoa que não está com uma arma, que conhecia, que saiu... Então, é assim, é muito doido, a gente tem que falar sobre todas essas situações e quebrar essa lógica de constrangimento.
E são camadas de violência, né? Camadas. Tanto que a gente vê, tem sido cada vez mais recorrente, sai uma denúncia de estupro e desta denúncia, ou de violência sexual, ou de agressão, e desta denúncia vão surgindo dezenas de outras, do mesmo homem, eventualmente, com o mesmo modo de operando. As pessoas se encorajam, né? Isso. Se encorajam. Agora, você sabe, Gabriel, tem uma coisa que a gente diz sempre, no Liberta, a gente fez uma pesquisa com o Datafolha em 2022,
que mostrou que um terço da população brasileira sofreu alguma violência sexual antes dos 18 anos. E a brincadeira que eu faço é, a gente está aqui nessa sala, ou imagina uma sala com 100 pessoas. Uma pessoa levanta a mão e diz, eu fui vítima de violência sexual antes dos 18 anos. Vamos fazer o recorte antes dos 18 anos.
E aí, lógico, apoio, mas também constrangimento. Porque, gente, é estranho. Tem um burburinho, tem uma coisa. Mas aí outra pessoa fala, mas eu também fui. Mas eu também fui. Vamos combinar que da sala de 100, 30 foram? E que se 30 falarem, é muito menos constrangimento. É muito menos.
A gente fez em 2022, o Liberta fez um movimento que era Agora Você Sabe, onde a gente convidava pessoas que tinham sido vítimas de alguma violência sexual antes dos 18 anos, e a gente explicava, porque são vários níveis de violência sexual, não é só o estupro. E aí as pessoas gravavam um videozinho com o rosto, dizendo violência sexual infantil é uma realidade, eu fui vítima e agora você sabe.
E depois a gente saiu... Não, e a gente saiu, foi a coisa mais linda de morrer, porque a gente convidava as pessoas, era uma coisa super bem feita, tinha um prômpter, então ela lia e gravava. E aí, num belo dia, saiu todo mundo numa passeata virtual, foi transmitida pela UOL, pela Folha.
Onde a gente saia com todos os rostos subindo, como se fosse uma passeata mesmo, e falando todas as vozes ao mesmo tempo. Foi muito emocionante a gente falando em linguagem de libras, enfim. Foi muito impactante. Muitos homens, surpreendentemente, que eu achei que não teriam coragem.
que aderiram, mas é essa coisa da lógica de quebrar esse silêncio, sabe? E é isso, de uma sala de 130 sofreram alguma violência sexual. É muito impressionante. E tem sempre um constrangimento também, né? A gente está com esse caso aí no Rio Grande do Sul, do médico que...
teria estuprado 42 mulheres ao longo de toda a sua carreira. E nós fizemos lá na rádio um programa especial, ouvimos duas vítimas dele, foi muito duro.
justamente numa tentativa de conscientizar as pessoas da importância de falar, sem condenar a mulher que não quer falar, porque existem milhões de razões para isso, mas tentando trazer a relevância, a importância de falar. E nós recebemos muitos comentários no chat da live questionando essa mulher.
quer dizer, uma delas muito simples, ela dizia assim eu fui, achei aquilo estranho aí um ano depois eu tive um problema no coração e voltei lá e aí as pessoas dizem, mas voltou, então é porque gostou o nível de perversidade a gente tem um problema cultural pra resolver também
Um problema cultural e um problema de identificação de violências. Às vezes as pessoas passam por violências sem compreender. Isso. Porque como a gente não fala sobre isso, gente, a verdade é o seguinte. Quem sabe isso? Sem informação, como é que vai ser? Isso é um não assunto. Isso é um não assunto. Eu falo o seguinte, você...
Senta com os amigos no bar e discute. Legalização do aborto, descriminalização das drogas, feminicídio, tudo isso você discute. Agora, seis registros de estupro de menores de 14 anos por hora no país, você não discute. Por que você não discute? Por que isso não está na nossa pauta?
então eu acho que a gente tem que falar sobre isso você fala que a cura vem pela linguagem é uma coisa que você sempre marca é importante falar essa fala não é minha, é da Vera e da Connelly eu saí que você replica eu repito mas você replica porque é verdade você tem que romper o silêncio tanto que o Guia Saber Liberta que foi lançado
Dando informações do tipo, informe, passe adiante e tal, ele vem e na hora que vocês divulgam, o site cai. Isso mostra que existe uma demanda de pessoas. A Ana Maria Braga é poderosa pra caramba. Também. Foi bom.
Mas só que ela pode ser poderosa, mas há um interesse. Lógico, não. Eu estou brincando com isso, porque ela divulgou. Mas você tem toda a razão. Ela podia ser a pessoa mais poderosa do mundo se as pessoas não se conectassem com o tema. Se não tivesse a demanda. É que, gente, de novo, 30 em cada 100, ou 3 em cada 10. É muita gente. É muita gente. Que, de alguma maneira, se conecta. Agora, só voltando para uma questão, você sabe, Gabriel, que essa coisa de...
não condenar quem não fala, porque eu acho que isso é muito importante. Na época do Agora Você Sabe, eu recebia muitas mensagens de pessoas que eu nem conhecia e que diziam assim para mim, eu estou muito impactada com a campanha, eu me reconheci vítima, eu sei que eu sou vítima, mas eu não tenho coragem.
E eu falava, tá tudo bem, se você não tem coragem, não venha, não é? Mas que bom que você pode refletir sobre isso, que bom que você pode... Procure alguma pessoa próxima para conversar sobre isso, porque é muito assim, as pessoas às vezes, elas não têm condições mesmo. Não tem.
E está tudo bem, está tudo bem. Eu acho que não é uma questão individual, é uma questão coletiva. Se fosse encontrar ou não o apoio. E a coisa de reviver o trauma, para muitas mulheres, falar sobre isso é reviver aquela violência. É que não falar, e aqui eu volto para a Vera Iaconelis, eu acho que eu escutei algumas histórias de pessoas que tiveram problemas muito graves com...
com essa violência mais tarde. Inclusive, uma moça que conversou comigo, que eu cheguei a entrevistar, ela tentou suicídio e tinha feito faculdade, tinha vivido uma vida... Tinha uma coisa que eu nunca tinha contado, ela tinha sofrido uma violência por parte do tio e era uma família muito próxima e os pais dela muito conectados e tal. E ela nunca tinha contado para ninguém.
E aí, quando ela teve a tentativa de suicídio, o psiquiatra atendeu e ela contou para ele. E ele falou, ela levou-te medicar, você vai ficar bem e tal. Mas você tem que contar para os seus pais, porque se você não conta, você não cura. Então, eu falo, não precisa aparecer na passeata virtual, agora você sabe, não precisa ir na delegacia de polícia. Mas eu vou dar um outro dado, que eu acho que é esse dado que é bem importante também. Nessa pesquisa do Datafolha que a gente fez...
o universo de pessoas, 32% das pessoas tinham sofrido alguma violência sexual antes dos oito anos. Deste universo, só 11% denunciaram. Portanto, você imagina que não são seis, são 60 por hora, 11% denunciaram. Mas só 26% tiveram coragem na vida de contar para alguém. E isso foi feito anonimamente, foi uma pesquisa muito séria.
Mas imagina, só 26% tiveram coragem de dividir uma violência sexual na infância com um amigo, com um marido. E eu escuto histórias, Gabriel, mas eu escuto histórias. Assim, às vezes eu estou no táxi e estou dando uma entrevista, falando com alguém no táxi.
E o taxista vira para mim depois e fala, ah, a senhora trabalha com isso? Pois é, a senhora sabe? Vou contar uma coisa, eu fui vítima. O taxista... Eu contei as histórias mais bonitas, ele falando, sabe? Eu fui vítima, e aí eu tenho dois filhos. E aí eu... E era um primo mais velho e tal, não sei o que. E eu vi os meus filhos crescendo, com 11, 12 anos, eu comecei a ficar muito aflito.
E aí eu cheguei para a minha mulher e eu contei para a minha mulher, eu nunca tinha contado. E aí ela me apoiou e tal, e eu falei, você acha que eu devo contar para os meninos? Porque eu queria alertar os meninos, proteger os meninos. Ela falou, claro, tem que conversar e tal. E aí eu fui conversar com os meus filhos e eu disse para eles, e eu estou escutando, olha, eu vou contar uma coisa que vocês vão ficar com muita vergonha do seu pai.
E contaram a história. Mas eu estou contando para vocês. Veja, vocês vão ficar com muita vergonha do seu pai. Porque esse fosse sujar a imagem. Sujar a imagem. Então, assim, a gente precisa, primeiro, é preciso ter muita clareza de que nenhuma criança ou adolescente vítima de violência
É culpada de nenhuma forma. Nem violência física, nem violência sexual. Porque você não tem como se opor. Ou porque você não sabe, a gente está falando de conhecimento, né, Cecília? Ou porque você não sabe, você não tinha como saber. É importante as pessoas saberem que nem toda violência sexual contra crianças e adolescentes acontece de forma violenta. Porque também dentro dos estereótipos que existiam contra a mulher, existem contra a criança, e são iguais, viu? Criança vítima de estupro é menina periférica. Não é verdade.
Então, primeiro, a violência sexual não é só com determinada classe social. Depois, ela não obrigatoriamente é violenta. Ela se dá a partir do processo de sedução, muitas vezes. Manipulação. Manipulação. É alguém próximo, que a criança gosta, ela não sabe. A gente não está falando de estupro com penetração, que podia implicar em dor. Então, a criança pode ter até prazer.
E a gente tem que falar abertamente sobre isso para poder entender que isso não descaracteriza a situação como uma violência. É a mesma abordagem que muita gente faz sobre droga, né? Não vira para o seu filho e fala assim, droga é péssimo. Porque a primeira vez que ele experimentar e gostar da sensação, ele vai falar, mas sempre me disseram que era péssimo. Se você falar, não, é bom, mas faz muito mal. Pode prejudicar a sua... É diferente. Há uma abordagem completamente diferente. E ser honesto.
Agora, pra ser honesto com o seu filho, você primeiro precisa ser honesto com você mesmo, né? Total. Então a gente precisa educar os adultos, pros adultos poderiam educar as crianças. Por isso que é bonita essa história do taxista, né? Ah, é linda. Eu fiquei tão emocionada, Gabriela. Porque aí eu falei, mas imagina, o senhor tá protegendo seus filhos. É, foi isso que eu pensei. Eu pensei que eu tinha que fazer isso e tal. Eu falei, ah, não, eles são ótimos.
Eles foram ótimos e tal. Que gracinha. Eu falei, o senhor tá vendo? Às vezes já até com uma conscientização maior do que a do pai, de que aquilo não é razão pra vergonha, né? Eu falei, o senhor tá vendo?
A gente recebeu aqui no ano passado a Ana Paula Padrão, que depois de todo o período midiático dela, tanto como jornalista quanto no entretenimento, adotou como missão de vida empoderar mulheres a partir do conhecimento e ela vem de uma linha muito clara de raciocínio.
que é, ela acredita que o empoderamento feminino, ele vem através da renda.
Para ela, isso é uma condição sine qua non para que uma mulher possa, de fato, se dizer livre de verdade. Você repete bastante que independência só existe quando você paga as suas contas. Eu aprendi com o meu pai, exato. Mais uma, né? Isso é um conselho de liberdade, é um conselho de sobrevivência num país que não perdoa ninguém. É as duas coisas. Você acha que para as mulheres isso tem um peso ainda mais forte? Tá, então vamos lá.
Primeiro, adoro a Ana Paula, ela é super parceira nossa do Instituto, maravilhosa, está com uma luta super incrível e com muita competência.
Eu acho que esta frase da independência serve para homens e para mulheres. Você é livre quando você paga as suas contas. Você não tem liberdade para decidir. O que não quer dizer que eu não respeite outras escolhas. Eu acho que essa questão é bem importante. Eu acho que também tem uma pressão para que você obrigatoriamente faça uma determinada escolha na vida. E eu sou defensora das liberdades. Eu acho que cada um pode decidir o que é bom para si.
Eu tenho amigas que resolveram ser mães, criar filhos. E eu respeito, elas são excelentes mães, dá um trabalho gigante, um trabalho que eu não encarei dentro integral, porque é muito difícil. O trabalho às vezes desafoga a gente. É, desafoga a gente, dá um respiro. Mas eu...
Eu acho que a primeira coisa, você tem que respeitar. E acho que a gente está num momento que a gente faz discursos, como a violência contra a mulher, a desigualdade é muito grande ainda. Então, quando a gente fala disso, a gente está sempre pensando em mulheres. Mas hoje eu conheço homens que abriram mão das suas carreiras para acompanhar as mulheres CEOs de empresa, embaixadoras. E aí, esse cara o que é? Um frouxo? É isso também?
Entendeu? Não pode ficar com essa pecha. Não pode ficar com essa pecha. Então, acho que assim...
Cada pessoa sabe o que é bom para si e a gente tem que respeitar as escolhas, desde que elas sejam feitas livremente. Certo. Que nem ter sido coagido àquela escolha. Então, esse é o primeiro ponto. Depois, eu acho que quando a gente fala de vulnerabilidade social e de renda, e aqui eu vou citar um trabalho que eu sou fã absoluta, que é o da Rede Mulher Empreendedora, da Ana Fontes, que vocês também deviam trazer para entrevistar, que ela é maravilhosa.
A Ana faz um trabalho belíssimo e é isso, você tem que dar condições para a pessoa escolher. Até para a pessoa escolher, ela tem que ter condições de escolha. E o empoderamento de mulheres é fundamental. Agora, veja só, quando a gente fala de renda aqui, a gente tem que olhar, eu vou voltar para a violência, a gente sabe...
que muitas meninas engravidam precocemente. A gravidez precoce é um dos fatores importantes de evasão escolar.
Quando você tem evasão escolar, isso é pesquisa, quando você tem evasão escolar, você tem uma mulher, uma menina que não se capacita e, portanto, não consegue entrar no mercado de trabalho e, à medida que ela não consegue entrar no mercado de trabalho, ela vai ficar submetida a subempregos ou exploração sexual ou a uma violência doméstica.
A chance disso acontecer é muito grande. Ah, Luciana, toda menina que engravida precocemente vai ter esse destino? Claro que não. Agora, num país de vulnerabilidade como o nosso, a chance de ser esse o resultado é muito grande. Então, sim, quando você fala de mulheres, você tem que empoderar pela renda, só que você tem que olhar para trás e ver o percurso que a gente não está conseguindo fazer.
A gente precisa proteger meninas, porque se a gente proteger meninas, talvez a gente não precise empoderar mulheres, porque elas vão crescer empoderadas. Elas já sabem o papel delas, né? Eu falo o seguinte, é muito mais fácil você proteger e empoderar uma menina de 12 anos de idade
do que você salvar uma mulher de 40 que passou a vida inteira submetida à violência. Porque isso já vem na formação. Já vem na formação. Então, é louco, né? Porque a gente tem uma dificuldade imensa para falar de prevenção. A gente está sempre botando dinheiro onde é mais caro, menos eficiente, que a repressão.
Você fala em violência sexual, por exemplo, o que vem na cabeça das pessoas? Cadastro de pedófilos, castração química, aumento de pena. A gente chega de aumento de pena, a gente tem pena dura pra caramba. A gente tem penas seríssimas. A gente precisa que o crime não aconteça, tem que investir educação em prevenção.
E se isso resolvesse, pelo menos sobre esse assunto especificamente que a gente está falando, não haveria mais cometimento de violência. Agora, olha só que interessante, Gabriel. As pessoas querem aumentar a pena, mas a gente sabe que 10% dos casos são notificados. Então, mesmo que você aumente a pena e puna, você vai punir 10% dos crimes que de fato acontecem. Ainda vai ter um monte de gente solta e se sentindo à vontade. Exatamente. Então, a gente tem que trabalhar a base das questões.
Não, a quantidade de agressor com tornozeleira eletrônica que é reincidente, que se aproxima da mulher que está com medida restritiva, quer dizer, a punição não está coibindo. Eu acho que, ao mesmo tempo que falar sobre muitas coisas é importante, a gente ainda vive numa sociedade com pensamentos às vezes tão bitolados e conservadores.
que é difícil a gente conseguir ter uma discussão saudável, ainda mais na sociedade que a gente vive hoje. Ah, lógico. Estava outro dia ouvindo uma conversa, e tinha um grupo de mulheres acompanhando um grupo de crianças com deficiência, cada uma de uma idade, assim, conversando.
E elas, trocando ideia ali, elas falaram assim, sabe o que está acontecendo? É assim, os homens não arrumam mais emprego porque as mulheres estão no mercado de trabalho. Então, tem mais concorrência. Todos os salários diminuíram. A mulher agora, ela trabalha e ela faz todo o trabalho de casa. Então, a gente só trabalha mais, os homens estão ficando sem emprego, a renda está ficando menor. É uma conclusão de uma situação.
que é muito complexa, ao mesmo tempo que o trabalho, por vezes...
da independência, liberta, tal, ele pode virar mais um fator, às vezes, de pressão em muitas famílias. Não lembro mais o percentual de mulheres que são a rima de família. Não tem número agora também, mas é gigante. É um número avassalador. São mães solo, inclusive. Ao mesmo tempo, tem aquela história dramática que você conta, de uma conversa que você teve na delegacia, que a mãe tinha vários filhos, e eu acho que ela ilustra muito bem.
a importância de haver uma renda extra. Eu queria que você contasse essa história, que era muito simbólica. Foi o primeiro caso de estupro de vulnerável, de criança, que eu peguei na delegacia. E eu lembro que era uma menina, uma menina que devia ter uns 12 para 13 anos, e a denúncia...
chegou pela escola, acho que isso é também importante, o número, a maioria das violências contra crianças e adolescentes chega pela escola. Hoje tem um projeto de lei tramitando no Congresso Nacional, uma provocação nossa para a deputada Duda Salaber, que apresentou o projeto, para que no boletim de ocorrência conste...
o dado de quando a notícia de violência contra crianças e adolescentes chega pela escola. Porque a escola é hoje um espaço enorme de proteção e as pessoas estão destruindo a imagem da escola só trazendo o lado de violência. Sim, tem violência na escola. Mas se você olhar o dado específico do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do número de violências que acontecem na escola e que acontecem dentro de casa...
É muito maior dentro de casa. Claro. Então, bom, só para falar que chegou pela escola a denúncia dessa menina. E eu lá no auge dos meus 23 anos, me deparando com uma menina de 13 anos estuprada pelo pai.
Eu fiquei muito chocada e eu chamei todo mundo para ouvir a menina. Eu falei, era um outro tempo mesmo, né, Gabriel? Você sabe que hoje tem a lei de escuta protegida, que pressupõe uma escuta especializada. Eu não sabia o que fazer, porque você imagina. Como é que eu ia perguntar para a menina o que aconteceu? Eu pedi um sanduíche, uma Coca-Cola, botei lá na minha frente e tentei fazer uma conversa com a menina, mas sem preparo nenhum.
E aí, depois com o pai, e eu fiquei muito nervosa com o pai, que absurdo. Xingou o pai. Xinguei o pai, fiquei... E aí...
Tem o delegado atípico, né? Sim, sim. E aí, típico do estereótipo. Do estereótipo, porque tem muito delegado maravilhoso. Do estereótipo. E aí, ele falou para mim duas coisas que eu acho que são importantes nessa história. Uma foi que ele falou para mim alguma coisa do tipo, doutora, eu não entendi que a senhora está tão brava. Fui eu que fiz. Vamos usar, eu tenho direito de usar primeiro. Tenho direito. Esta frase não é isolada, gente. Esta frase está no Brasil.
esta frase está no Brasil.
Não é uma situação isolada. A menina é uma posse. A avassaladora. A menina é uma posse. Eu estava almoçando, tomando café hoje de manhã com uma pessoa que me contou uma história de uma menina que foi estuprada pelo pai aos 16 anos. Ela foi dopada e estuprada pelo pai com a ciência da mãe. E no dia seguinte, quando a menina acordou, o pai falou assim, você, isso aqui em São Paulo, tá?
E aí, você gostou da noite ontem? Ela falou, não sei, não entendi nada, eu estou dolorida, eu não vi nada. Ah, deve ter gostado, porque você não vai dar para o seu namorado? Se você vai dar para o seu namorado, você vai dar para mim. O pai, consciência da mãe. Então, a gente não está falando do Marajó, do interior do sertão da Bahia, né? A gente está falando da cidade de São Paulo. Então, bom, essa foi a história. E a mãe, quando eu também fiquei com uma mãe, sabia, é uma loucura e tal. E ela, do jeito dela, falou para mim.
doutora, eu tenho, sabe quantos filhos a gente tem? Cinco. Sabe o que a gente come em casa? Arroz. Sabe quem põe o arroz? Ele. Eu estou sacrificando uma para dar de comer para cinco. Fiquei totalmente sem reação. E aí sim, você tem que permitir geração de renda.
Para. Agora, vamos lá, vamos voltar. Dez casas, Cecília. Pega essa mulher que tem cinco filhos. Primeiro, não é para ter cinco filhos. E a gente precisa parar com essa hipocrisia e entender que tem que ter planejamento familiar. Claro. E laqueadura, que ainda não se faz, que tem resistência para fazer, vasectomia que tem resistência para fazer, enfim.
O nosso sistema é muito conservador e retrógrado. Então, a gente tem que falar em planejamento familiar. Depois, a formação dessa mulher deve ser zero, precisa de alguma forma dar uma estrutura. Depois, precisa dar estrutura para ela ir trabalhar. Porque quem vai cuidar de cinco filhos? Exato. Se você não tiver creche, se você não tiver educação em tempo integral, como é que você vai... Então, assim, é todo um contexto que tem que acontecer para você permitir que essa mulher tenha renda.
Mas eu vou fechar aqui só para dizer o seguinte, tem muita mulher com renda, vivendo em estado de violência, inclusive violência contra os filhos, e que não sai. E não tem a desculpa da renda. Então, a gente tem que entender também que a questão é muito complexa e que a gente tem que ir tirando os impedimentos. Então, sim.
A renda, indiscutivelmente, é um impedimento concreto e que não é só a renda, é a renda e o contexto da política pública, que precisa ser construída para cercar de proteção essa mulher, essa criança. Proteção não é policial, é proteção de política pública. Eu estou muito impactado com esses relatos dos pais. Como que você não endurece?
Eu endureço. Mas você continua lutando esse tipo de declaração. Entendeu por que eu fiz a pergunta lá com 19, 20, 21 anos, quando você escuta certas coisas? Como é que você continua depois dessas? Eu acho que tem uma coisa. Primeiro que eu sou uma pessoa otimista. Eu celebro as pequenas vitórias. Eu acho que é um erro quem não celebra. Porque o nosso trabalho, gente, é de formiguinha. Cada um faz o seu trabalho de formiguinha.
Eu só acredito em política pública, macro. Os grandes problemas da sociedade, o Liberta não vai resolver, as maiores organizações não vão resolver. Isso é uma questão de política pública. Então, a gente tem que tratar no macro.
Agora, isso não quer dizer que a gente não faça o nosso papel. É por isso que eu falo que eu celebro as pequenas vitórias. Se não, fica insuportável, Gabriel. Você tem que entender que conquista. Eu falo, quem patrocina, quem construiu e idealizou o Instituto Liberta, a ideia de fazer esse perturbanho, foi o Eli Horn, que é um grande filantropo, empresário, fundador da Cirela.
a quem eu devo todo esse trabalho desses 10 anos. Ele é o único patrocinador do Instituto. É um menshe, como a gente diz na comunidade judaica. Um homem bom. Um homem bom. Um homem bom e que tem uma sabedoria, porque nós pensamos muito diferente em relação a várias questões.
E, no entanto, a gente construiu uma relação de confiança e foi avançando nessa questão conjuntamente nos últimos 10 anos. Ele é uma pessoa excepcional. E por que eu estava dizendo isso mesmo? Ah, sim, porque quando eu falei, quando ele me chamou para conversar e eu topei montar o instituto...
Ele falou, vamos acabar com a violência sexual contra meninas, que o foco dele era só meninas. E eu falo, eu não tiro meninos da equação, porque tem muitos meninos vítimas de violência e a gente pode falar um programa inteiro só sobre os meninos. Mas eu falei, doutora Eli, a gente não vai acabar com a violência. Se é isso que o senhor quer, nem vamos começar.
Mas eu posso me comprometer a cumprir uma missão. Fazer o Brasil falar de violência sexual infantil. É o que a gente está fazendo aqui. Isso vocês estão fazendo muito bem. Mas é que é muito chocante. É muito chocante. Porque o que o crime acontece a gente sabe, né? Mas que ele é justificado dessa maneira é muito alucinante. Mas o empresário que paga para uma modelo de 15 anos para transar também é a mesma coisa. É isso. Entendeu? É a mesma coisa. Vocês assistiram Manas?
Não. Ah, não. Não, não, não. Nem vou continuar a entrevista. Vou embora. Não, conte. Todo mundo tem que assistir Manas, um filme que quase foi representar o Brasil no Oscar. Foi o grande concorrente do Ajante Secreto. A Mariana Brenan fez um filme maravilhoso. Eu tive a oportunidade de ler o roteiro em 2017.
Nossa, olha quanto tempo para ser uma produção brasileira. Ela fez um mergulho profundo no Marajó. Na realidade, Marajó, ela fez uma ficção. No início, ela queria fazer um documentário, depois ela viu que ia ser muito difícil. Acabei de lembrar de toda a história. Ficou muito conhecida, verdade. Então, foi o filme que quase foi representar o Brasil no Oscar. E é um filme lindíssimo. É um filme de causa sobre essa relação de violência, estupro e exploração sexual na região do Marajó.
E aí, Gabriel, você vai ver o que é esta naturalização. Tem um outro livro que vocês têm que ler, chama Psica. Ah, então, mas não foi esse que inspirou o Manas? Não, não, inspirou o Manas, não. Tem um documentário. A série Psica. Não é o Manas, eu estou pensando no Psica, é isso? Não, olha só, Manas é um filme, tem que assistir, maravilhoso, não sei onde está. Eu estou pensando no Psica. O Psica.
É uma série que está totalmente inspirada no livro, que é um livro maravilhoso de um jornalista paraense, o Edir, esqueci o sobrenome dele agora, mas é um livro de tirar o fôlego, assim, livro pequenininho, falando do tráfico de meninas na região... Absolutamente natural, né? Absolutamente natural. Porque, gente, a exploração sexual...
de crianças e de meninas no Brasil. Tem um relatório, está no site do Instituto Liberta, se alguém tiver curiosidade. Se eu não me engano, é o relatório de uma CPI que foi feita em 2018, eu acho, foi o relatório. Antigo, mas muito atual.
que até foi conduzido pela Maria do Rosário, enfim, outras grandes deputadas que rodaram o Brasil inteiro, só havendo situações de exploração sexual, que é quando você paga para uma menina... Prostituição, né? É, a gente não usa o termo prostituição, Gabriel, mas eu vou te explicar porque...
a gente não usa prostituição, usa exploração. Porque a prostituição não é crime. E a prostituição adulta não é crime. Então, se você pagar para ter relação sexual com uma mulher ou um homem de mais de 18 anos, está tudo bem a sua relação com a questão. Mas se você paga para o menor de 18 anos, isso é crime e é exploração sexual. Então, só para não misturar os conceitos. E não misturar os conceitos, porque a sociedade mistura os conceitos.
E naturaliza a exploração sexual. Então, quando você olha para os índices de exploração sexual, Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia
Você vê que é assustador também no Brasil. E a Natas... O Samuel Klein. Isso. Que foi o caso do Samuel Klein. Eu lembro que eu escrevi um artigo para a Folha, na época, que era o silêncio dos bons. Todo mundo sabia. Todo mundo sabia. Não, é, sim. Todos os outros... Mas a menina estava lá porque ela queria. A lógica de que a menina está lá porque ela quer... Foi vender uma coisa que era dela. Entendeu?
sobre isso, é muito chocante. A nossa Constituição, em teoria, ela é muito bem escrita. A nossa Constituição cidadã, ela promete dignidade e proteção integral à criança, direitos sociais.
que a gente acabou de falar aqui sobre inúmeros casos, enfim, os dados que você trouxe, tudo muito acachapante. O que significa hoje ensinar direito constitucional?
num país em que parece que transformou muitas das promessas da Constituição de 88 em uma ficção. Veja, a nossa Constituição de 88 é uma Constituição muito bonita. Acho que ela é uma Constituição bonita, que hoje está desgastada por um monte de emendas e tal.
Mas ela nasce, a gente precisa contextualizar historicamente. A Constituição nasce como uma resposta a 20 anos de ditadura. Então, ela é uma Constituição que busca garantir o maior número de direitos, preservação de liberdades e garantias. O artigo 227 da Constituição diz que criança, adolescente e jovens são prioridade absoluta, responsabilidade da sociedade, da família e do Estado.
É o único lugar da Constituição em que você tem prioridade absoluta. Não é o que a gente vê acontecer. Mas eu vou defender a Constituição aqui, não só porque eu sou constitucionalista, mas porque eu acho que você ter um instrumento legal, Gabriel, é o que te dá a possibilidade da briga, inclusive da briga jurídica.
Vou dar um exemplo concreto aqui. Quando você tem, por exemplo, em 2017, se eu não me engano, mudaram a lei do casamento para dizer que menores de 16 anos não podem casar de forma absoluta. Então, foi até um projeto da Laura Carneiro.
Não pode casar, antes podia, com autorização judicial, agora não pode mais. Ah, Luciana, então acabaram todos os casamentos? Não, não acabaram, eu acabei de dar o dado aqui das meninas de 10 a 14 anos casadas. Mas é uma mensagem importante que o Estado e a sociedade dá para a própria sociedade.
Então, eu leio a Constituição, Gabriel, como algo que é um desejo da sociedade, porque a sociedade pode ter desejos diferentes, poderia ir em um outro sentido. A gente tem esse desejo, nós da área jurídica, mas não só nós, mas a sociedade civil organizada, tem na Constituição um instrumento para brigar pela concretização desses direitos.
ela resolve o que está escrito, o papel aceita tudo. Claro. Está falando de mudanças que são mudanças muito estruturais. Mas sem aquela declaração, talvez fique mais difícil a briga. E é muito louco que você começa a estudar, não tem ainda essa Constituição, né? Não.
Essa Constituição vai sendo construída junto com você, na verdade. Você sabe que na PUC só tinha um ano de Direito Constitucional? Hoje são dois anos e meio. Um ano de Constitucional. E o ano que eu estudei foi em 1988, que era o ano de... Exato. E foi minha grande sorte, Cecília. Porque eu tive uma professora incrível, a Leda, já falecida, Leda Pereira da Mota, que ela era uma cabeça. Era uma cabeça. E ela falou, bom, a gente não tem uma Constituição, mas não tem problema.
Porque não importa a Constituição. Se vocês entenderem os fundamentos da Constituição, vocês leem e compreendem e interpretam qualquer Constituição. Então, eu passei um ano estudando os fundamentos do direito constitucional. E aí pode vir a Constituição que vier, a gente sabe. Já está com os indicadores encaminhados. E você bate num ponto, Luciana, que...
O Gabriel bem frisou aqui, é um tapa na cara do imaginário, né? Que o abusador muitas vezes é uma pessoa querida, na maioria das vezes ele não é um monstro no beco escuro, como um monstrinho que você viu quando você era criança, se masturbando num campo, você era jovenzinha, você passou, olhou, chegou em casa, o seu pai secretário de segurança, você falou, viu uma coisa horrível e solucionou os problemas que muitas vezes... Muitas vezes.
99% das vezes não acontece. Aquele homem continua ali. E mulheres vulneráveis ou meninos, enfim. Qualquer pessoa mais vulnerável passa por ali e vê aquela situação. Essa ideia de que o malvado não é malvadão, né?
ele, na verdade, pode ser uma pessoa muito, como você já frisou, do bem, querida. Você acha que isso produz uma certa negação nas pessoas? Porque custa muito, como você já mencionou, olhar para o seu tio, para o seu pai, para o seu vizinho, para o seu amigo, para o melhor amigo do seu pai, como ele é uma pessoa ruim? É, será que a gente não discute isso no bar? Porque em algum momento a gente vai ter que pôr a mão na consciência?
Talvez. Eu preciso pichar meu tio, eu preciso pichar, eu preciso... Você sabe que é interessante essa questão da imagem, do imaginário popular deste abusador. Tanto aqui que você fala, não fale com estranhos, você fala para os seus filhos, não fale com estranhos. Está certo, não vai falar com estranhos, mas como é que você vai dizer, não sente no colo do seu tio?
e a gente precisa ensinar sem criar um terrorismo porque é muito a linha entre criar um terror e trazer consciência é uma linha muito tênue, mas ela existe é possível tanto é que aqui eu vou fazer o marchando Liberta a gente tem no site do Instituto Liberta um guia, que é o guia para familiares e cuidadores de crianças de 0 a 10 anos como é que você educa seu filho, sua filha, neto, neta
para que ela cresça mais protegida de violências, sobretudo a violência sexual, é muito fácil. Não vai falar de sexo nem de violência. Vai lá e dá uma olhadinha. Bom, feito o marchand, vamos tentar falar sobre essa figura. Uma das coisas que eu acho que é um grande serviço é a gente chamar esse sujeito de pedófilo. E eu falo isso sempre e muitas vezes eu apanho, mas eu vou explicar direitinho para vocês. É muito boa essa explicação, já até sei qual é. Eu já sabe qual é. Então, olha só.
A pedofilia é um transtorno mental reconhecido como tal pela Organização Mundial de Saúde. Então, o pedófilo é um doente. Ai, Luciana, você está dizendo, então, que ele é um coitadinho? Não, eu estou dizendo que o pedófilo é um doente e que ele pode vir a praticar crime ou não. Isso não justifica nada. Se ele vier a praticar crime, porque há pedófilos que nunca praticam crime e que se tratam, mas se ele vier a abusar de uma criança, ele vai preso e acabou, ponto final, liquidado o assunto. A questão é...
Tem uma pesquisa publicada, numa tese de doutorado da psiquiatria da USP, que mostra que dos presos pelo crime de estupro de vulnerável, que a gente chama de abuso de crianças, no estado de São Paulo, só 20% podiam ser diagnosticados com o transtorno da pedofilia. Então, 80% dos presos não tinham doença nenhuma.
Então as pessoas falam, bom, mas se ele não é um doente pedófilo, por que ele abusou de uma criança? Porque é cultural. Porque é cultural. Primeiro ponto. Acho que primeiro ponto, porque é cultural. Segundo ponto, depois eu posso contar uma historinha de quando eu estive no presídio conversando com abusadores.
Dos 50 homens, 21 tinham passado por algum tipo de violência sexual na infância. Então, e aqui eu não quero dizer que todo mundo que foi abusado vai abusar, então muito cuidado com isso, isso é estigmatizar e eu sou totalmente contra. Mas são pessoas que passaram por traumas. Mas por que é um desserviço falar em pedófilo? Porque quando você fala da pedofilia, você pensa no maluco.
naquele desencontrado socialmente, quando a maioria deles não é desencontrado socialmente. Ele está ali, ele vai ao culto, ele tem emprego, trabalha, convive na família, na comunidade. Ele não é um alijado social. E a figura do homem de saco que vai te pegar na rua e levar seu filho...
É a figura que ainda está no imaginário. Por que isso é nome de serviço? Porque quando você fala do pedófilo, você não olha e fala, nossa, meu pai pode ser um pedófilo, meu tio pode ser um pedófilo. Porque o pedófilo é o maluco. Então, não, a gente tem que mudar essa lente. E entender que a maioria dos abusadores são pessoas muito adequadas, muito simpáticas, muito agradáveis.
E que não despertam nenhuma desconfiança. Por isso, você precisa ensinar o seu filho e a sua filha a se defender. Claro. Eu sempre conto uma história que a Duda, outro dia, na escola, minha filha, um menino foi fazer uma graça pra cima dela e meio que deu um tapa no bumbum dela. Ela tinha, na época, sete anos quando isso aconteceu. A reação imediata da minha filha foi dar uma voadora nele. Muito bom.
A escola concordou, eu concordei, o pai concordou. Porque se a gente não cria essa ideia de não pode ser ruim com amiguinho. Que isso? Você tem que legitimar. Legitimar. Ela se defendendo. É isso, é uma defesa. É a maneira que ela encontrou ali na hora de se defender. E ela soube se defender muito rapidamente daquela situação. Mas tem amiguinhas que não fazem isso.
Agora, veja só, Cecília, se a escola, antes de acontecer isso com a sua filha de 7 anos, tivesse feito várias rodas de conversa, que é o que a gente propõe, a gente está capacitando agora o município de Santos, os educadores do município da Rede Pública de Santos, para aplicar, porque esse guia que tem para os pais, familiares e cuidadores, a gente fez para a escola, para educadores de 0 a 10 anos, que tem uma outra complexidade e tal, então a gente está capacitando agora para fazer a suplementação na Rede Pública de Santos.
Mas imagina se tivesse tido várias conversas com este amiguinho, dizendo o seguinte, sobre a importância de cada um cuidar do seu corpo e respeitar o seu corpo e não tocar o corpo do outro sem autorização. E por que a gente não toca o corpo do outro sem autorização? O outro não pode tocar o seu, mas você também não pode tocar o do outro. Quer dizer, talvez ele tivesse feito a mesma coisa. Talvez não tivesse. Porque ele tem noção de limites. Exatamente.
Antes da gente rodar, eu só queria que você contasse desse seu momento conversando com detentos de alunos. Puxa, esse daí é um dos momentos que são mais emocionantes para mim. Tem três horas de entrevista? Quantas você quiser, quantas você tolerar. A beleza da internet.
Porque são muitas histórias, mas essa história é muito bonita. Quando a gente fez, agora você sabe, a gente fez um processo super inclusivo, queria convidar as pessoas a participarem. E eu procurei a administração penitenciária de São Paulo e fiz um convênio. E eles toparam que eu fosse falar em quatro presídios, convidando as pessoas a gravarem e poderem participar da passeata virtual. Eu fui falar em quatro presídios.
e um deles foi um presídio só de abusadores, porque eles ficam separados, até porque o perfil do criminoso é diferente, enfim. Eles ficam separados. E eu fui falar para um grupo de 50 homens.
E eu comecei a minha fala dizendo, olha, eu não sei o que vocês estão fazendo aqui, por que é que vocês estão aqui, não me interessa. Mas eu tenho um palpite, a gente tem um palpite no Liberta, de que se talvez a gente tivesse falado mais sobre isso quando vocês eram pequenos ou durante a vida, talvez vocês não estivessem aqui.
E é sobre isso que eu vou falar, sobre o que é violência sexual. E aí eu fui dando uma palestra sobre o que era violência, sobre os diferentes tipos, tipos do código penal, e falando, a gente está convidando as pessoas que se reconheceram vítimas, para quebrar o silêncio, blá, blá, blá.
O que eu imaginei? Que eu ia acabar de falar, ia ficar um silêncio, ia pegar minhas coisinhas e ia embora. Acabei, um sujeito lá levantou a mão. Gabriel falou assim, ô doutora, a senhora falou muita coisa aí que eu nunca tinha pensado. Eu vou contar a minha história? A senhora me disse que eu fui vítima de uma violência sexual? E a história dele era a seguinte.
E quando ele tinha 9 anos, o padrasto resolveu que ele tinha que aprender a ser homem. E para ele aprender a ser homem, ele tinha que assistir o pai, ele se relacionando sexualmente com a mãe do menino. E eu falei, bom, e o que você sentia? Ele falou, ah, doutora, eu tinha uma raiva, eu queria botar fogo na casa, matar os dois, mas eu sabia que ele estava me ensinando. Então, você foi vítima de uma enorme violência sexual, quem diz isso não sou eu, o código penal.
Se você estaria aqui hoje ou não, se não tivesse vivido isso, não saberemos nunca porque a gente não tem bola de cristal. Com certeza não ajudou. Se o seu padrasto devia estar preso aqui, eu também não sei porque talvez ele tenha aprendido assim com o pai dele.
Então, a gente está falando assim, bom, esse foi o primeiro. E aí, um outro, um outro, um outro, um outro. As histórias mais diversas, nenhum contando de violência sexual de homem. Interessante, porque depois só um veio me contar separadamente, porque era para não se constranger na frente dos outros. Mas os outros todos eram violências.
Um outro, só para contar uma outra história. Ele falou, eu tinha um padrinho, eu adorava o meu padrinho, eu era muito pequeno, e ele me pegava sempre para passear. Eu morava em Santos, ele me trazia para São Paulo para passear e tal, eu adorava. Um dia, quando eu tinha uns 11 anos, ele me trouxe, ele falou que ia me dar um presente de surpresa. E ele me levou num puteiro. E me entregou lá para uma mulher e falou, resolve o moleque aí, né? E aí ele falou assim, eu entrei, eu fiquei muito nervoso e eu comecei a chorar.
E aí ela me trouxe pela mão e devolveu lá na sala com um monte de homem e falou assim, ó, leva esse aí que esse aqui não dá pra coisa não, pode levar que a coisa dele não é essa. O meu padrinho ficou com muita vergonha, me pegou pela mão, me levou embora e nunca mais me levou pra passear.
Por que eu estou contando essas histórias? É emocional também, né? Sabe o que acontece, gente? A gente está falando de pessoas que passaram por violências, que não obrigatoriamente as pessoas reconhecem como violências, que não têm estrutura para lidar com o que viveram, que ninguém foi lá fazer uma conversa com eles. E aí, você sabe que você reproduzir comportamentos?
a partir de traumas não resolvidos, é uma questão.
O fato é, dos 50 homens, 21 gravaram para passeata virtual e estão na nossa passeata virtual. A passeata foi linda, só para acabar de contar, que é muito bonito. A gente tinha um combinado interno, que essa passeata ia passar uma vez, como se fosse uma passeata, e sumia. Nunca mais ninguém ia ver a passeata. E foi o que a gente fez. A única pessoa que tinha essa passeata gravada num pendrive...
Foi o Papa Francisco, que eu fui levar para o Papa Francisco. Quando a gente conseguiu uma audiência com ele, 10 pessoas. E aí contei do Agora Você Sabe. Foi muito lindo. O Papa Francisco falou que tem que... Ai que hablar, ai que hablar. E tem que tirar o esqueleto do armário e tal. E ele ficou. Era a única pessoa que tinha passeato virtual. Que maravilhoso.
É muito chocante, porque a gente entra num misto de ter empatia com pessoas que precisam ser punidas. Isso. E eu acho que a gente não tem que deixar de punir, mas a gente tem que entender as raízes para poder combater.
Porque senão você não compreende. Até porque para quando aquele cara sair dali em um determinado momento, ele saber o que aconteceu e ele não voltar a reproduzir. Cecília, eu vou te contar a parte mais emocionante, que foi a que me fez chorar totalmente. Foi depois que eu saí. Um dia, dois dias, não lembro quanto depois. Eu recebi uma mensagem pelo Instagram. E a mensagem dizia assim, olha, você não me conhece. Desculpa entrar por aqui, você não me conhece, mas eu sou mulher.
do fulano que estava ali, que está no presídio tal, que você foi dar palestra. E eu queria te agradecer. Para eles foi muito importante. Você não sabe, eles não vão ter coragem de te dizer. Mas foi muito importante o que você fez. Deus te abençoe. Porque muitos estão pagando por crimes dos quais foram vítimas. Nossa! Desabei, né, Cecília? Claro. Chorava. É engraçado. Isso passa também... É...
Falando do braços abertos, levando para um outro caminho. Vou chorar de novo aqui também. Cracolã de assistência social. Aquilo ali é o Brasil impossível. É a falência de todas as etapas de governo, de sociedade, de educação, de família. E o instinto do cidadão cansado, do trabalhador, Luciana, é...
E achar que aquela gente tem que ser presa, tem que apanhar, tem que tirar dali a força. Não dá pra gente criminalizar esse pensamento, porque ele também não vem do nada, ele não vem só de uma crueldade, né? É uma exaustão, né? É uma exaustão das pessoas que também são violentadas todos os dias de maneiras diferentes. Por causa disso, sim. Por causa disso também.
Mas você não romantizou e nem demonizou aquele ambiente, né? A ideia ali... O que você aprendeu com esse episódio todo sobre moralismo, políticas públicas?
Você sabe que o Braços Abertos é uma das coisas que eu mais me orgulho de ter feito, de ter participado na vida. Era um trabalho integrado de cinco secretarias. E foi um projeto muito ousado, bancado pelo prefeito Fernando Haddad, que foi muito mal compreendido pela sociedade. A gente não teve tempo de mostrar a importância do trabalho do Braços Abertos. Infelizmente, eu digo que até a imprensa compreendeu mal.
Agora, veja, foi tão emblemático que eu digo que era um programa para 500 pessoas, na situação ali da Cracolândia. Para 500 pessoas numa cidade de 12 milhões de pessoas como São Paulo, foi um tema que pautou o debate de prefeitos. E o Haddad foi o único que defendeu o programa. Todos os outros candidatos, inclusive os mais progressistas,
Por que batiam? Porque era a sensação da sociedade. A sociedade nunca entendeu o programa de braços abertos, porque, em parte, tem essa sensação de que você está passando a mão na cabeça de bandido. É um pouco essa ideia, né? Quando, na verdade, eu me aproximei daquelas pessoas, eu conhecia as pessoas, eu estava ali no território, eu andava ali pela luz.
Eu aprendi que as pessoas estavam ali por diferentes razões. A maioria delas vinham de um processo de extrema vulnerabilidade social. Elas não se tornaram vulneráveis por causa da droga, elas já vinham num processo muito grande de vulnerabilidade. A gente fez um trabalho muito bonito que conseguiu tirar muita gente de uma situação extrema.
de violência. Nem todos pararam de usar droga, alguns pararam, mas eles passaram a conviver com a droga de outra maneira. E você sabe que eu tinha uma disputa comunicacional na prefeitura? Porque a gente tinha um dado, que era um dado muito relevante, que foi muito pouco usado. A gente tinha um dado de que os índices de furto e roubo na região da Luz tinham caído depois do programa.
Esse era o dado. A dignidade da pessoa salvou. Isso é o que importava para mim, mas não é o que importa para a sociedade. E eu lembro que eu tive, na época, eu tive em Amsterdã para conhecer a política de redução de danos da Holanda. E eles disseram que eles levaram 20 anos para consolidar o programa de redução de danos. Porque no começo as pessoas entendiam que estava dando droga.
Para viciado, porque é um programa de metadona. Quando é que eles conseguiram conquistar opinião pública? Com a diminuição dos índices de roubo e de furto. Claro.
que é onde eu reconheço que aquilo faz sentido para mim. É isso, tem um impacto positivo na minha vida, porque quando se trata da dignidade, o benefício é só para o assistido. E a minha dignidade, e o meu direito. O meu direito de andar no centro sem ser assaltado. Dá para a gente conciliar o direito de todo mundo, se a gente fizer direitinho. É isso, parar de brigar entre nós.
É aquele dado maravilhoso que você também traz, quando você fala assim, quando não querem me ouvir por causa dos dados, que me ouçam pelo menos por causa dos números e do impacto no bolso, que você fala do dado de dinheiro, meu Deus do céu. Eu digo o seguinte, Cecília, nem todo mundo se sensibiliza com os direitos humanos dessas meninas, desses meninos estuprados, violados, explorados.
Mas eu falo que eu tenho dois chapéus, né? Eu tenho o chapéu de quem fala da dignidade humana e tem o chapéu de quem fala das questões econômicas. Então, um dado que eu sempre uso é um estudo do Banco Mundial, que mostra que o Brasil deixa de produzir 3,5 bilhões de dólares anualmente em razão de gravidez precoce.
Isso é um dado do estudo do Banco Mundial. Ou seja, estamos perdendo 3,5 bilhões de dólares anualmente em razão de gravidez precoce. Aí você tem que fazer a conexão. O que a gravidez precoce tem a ver com a violência sexual? Mas você sabe, é muito doido, porque esse é outro... Agora que eu estou vivenciando a pré-paternidade, a mulher está grávida, esses dias a gente foi fazer uma consulta na obstetra e estava voltando de táxi para casa.
E a Vitória, no instante que a gente entrou no táxi, ligou pra mãe dela pra contar como tinha sido a consulta e tal. E nós fomos até em casa com ela ao telefone. Quando a gente chegou lá, ela desligou. E aí o taxista virou e disse assim, falou, ô campeão, desculpa, tava escutando a sua mulher.
mas você se deu bem, hein? Aí eu fiquei, por quê? Eu achei que ele ia dizer, vai ter uma filha, que bacana. Ele disse, ah, você viu que acabaram de mudar a licença paternidade para 20 dias, então você vai ter 20 dias de descanso. É maravilhoso esse conceito. E assim, eu venho lendo muito a respeito, consumindo muito conteúdo sobre isso, além do que é instintivo também, se faz tudo numa licença paternidade, menos descansado.
Mas ele falou e foi muito genuíno. Ele não tava...
É cultural, né? É que a gente é uma bolha, né? Vamos combinar? Total! Quem olha a licença paternidade, e eu sou super favorável à aprovação da licença paternidade, realmente, o Liberta apoiou a aprovação da licença paternidade, mas agora aprovado, a gente precisa fazer o trabalho de comunicação sobre o que é uma licença paternidade. Isso, para que não pensem que é descanso. Para que não pensem que é descanso.
Só que a gente é uma bolha que pensa que vai dividir a tarefa tal. Então, cara, a gente tem que falar a verdade também. Tem muita mulher que vai dizer que tem muita mulher que não vai querer que o homem fique em casa. Inclusive dentro da nossa bolha também, né? Não é algo que é tão... Essa crença aí de que os papéis não são... Eu preferia que ele estivesse trabalhando do que aqui na minha casa. Me dando mais trabalho junto com esse bebê. Nossa! Eu queria ter esse bebê e eu fiquei com um bebê grande, né? E aí...
Desculpa, vai. Não, para trazer isso aqui, se você quer continuar... Eu ia trazer uma para levar isso. Ah, então tá, então vem. Mas a gente viu recentemente também o caso de Santa Catarina, que autorizou o governador... Ah, sim.
Sancionou uma lei que obriga as escolas a questionarem os pais quando forem ensinar sobre identidade de gênero, que pode ser discutível, pode não ser, mas dentro desse mesmo palai tem igualdade de gênero. Isso.
Educação sexual. Eu tive na minha infância, ali no ensino fundamental, a aula da camisinha, na banana, todas as doenças venéreas, o que é uma gravidez indesejada, não sei o quê. Só que hoje isso parece que é um tabu muito maior do que antigamente.
Qual é o interesse em manter uma criança sem vocabulário para que ela possa se defender? Por que existe um lugar em que vira lei?
você precisar pedir autorização para ensinar sobre igualdade de gênero. Essa lei não é isolada. Veja, a gente está muito conectada à ideia de escola sem partido, que já foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, mas, de uma forma ou de outra, muitos municípios proibiram a discussão de gênero nas escolas. Isso não é novidade.
Não está inventando nada muito... Então, a gente vem vindo nessa esteira. Eu só queria dizer, Gabriel, que o que você teve na escola não é educação sexual. Você teve uma questão de saúde pública. Como uma aula de biologia. Educação sexual é outra coisa. É falar sobre sexualidade e nunca no Brasil se teve...
Educação sexual, de verdade. O que se chamava de educação sexual, gente, é saúde pública. Ponto final. Prevenção de doenças. Sobre sexualidade saudável, responsável, sobre prevenção. Não se falava com crianças. A gente usa o seguinte termo. Prevenção às violências sexuais com crianças pequenas e sexualidade saudável e responsável com jovens.
E isto, mais do que nunca, é absolutamente urgente. Porque se é verdade que a gente tem uma relação hoje, sempre teve, de violência sexual infantil, e também com adolescentes, é verdade que as questões da sexualidade entre os adolescentes também estão muito complicadas.
Quando a gente olha esses casos de estupro coletivo, por exemplo, que são muitos pelo país, a gente pegou recentemente o caso do Rio de Janeiro, que chocou, eu brinco que eu dou graças a Deus quando um caso cai na malha fina da imprensa. Porque são muitos pelo Brasil e de repente um cai, oba, vamos falar disso. Ó, abre a porteira e a gente... Aí você é chamada para falar em todos os jornais, etc. E aí, maravilha, a gente vai explicando para as pessoas, olha, esse caso aqui não é só esse, olha... E aí
Mas olha só, a gente vive num mundo e aí a gente entra num outro assunto, né? Que é um assunto onde a sexualidade dos jovens está sendo pautada pela pornografia. E isto é um dado que não é irrelevante. Tem um estudo de dois...
professores holandeses que, pegando estudos do mundo inteiro, do comportamento dos jovens na construção da sua sexualidade, perceberam que realmente o que está pautando essa construção é a pornografia. Esta pornografia, ela traz roteiros sexuais que implicam no seguinte, insistência do homem, resistência da mulher faz parte do jogo erótico. Então, insista que o papel dela é resistir.
desigualdade, violência, faz parte do jogo erótico. Então, o que eu digo sempre, Gabriel, é que nós somos uma sociedade absolutamente irresponsável. Nós somos uma sociedade de adultos irresponsáveis.
que não tem coragem de falar, porque tudo é tabu, então você não tem coragem de falar sobre determinadas questões, você permite que uma criança de 10 anos acesse pelo celular a pornografia que ela quiser, e aqui a gente pode falar do ECA digital, que vai impedir que isso aconteça, quer dizer, pela lei já não pode mais, porque vai ter que ter a verificação real de quem está entrando naquele site pornográfico ou em sites adultos, isso só vai passar a valer a partir de janeiro de 2027, efetivamente.
É, o controle disso, né? Mas o fato é...
a gente criou umas pessoas completamente perdidas. Meninos que se comportam desta maneira porque aprenderam a se comportar desta maneira. Meninas que são vítimas de estupro e não se reconhecem como vítimas de estupro. Eu dei uma entrevista para o Fantástico, para esse caso, e o produtor que estava fazendo a matéria falou, olha, conversei com meninas lá do Dom Pedro, e depois as meninas, quando saiu a notícia, elas se reconheceram. A gente volta para aquela coisa do médico, né? Claro.
Se reconheceram vítimas de violência e tal, olha que absurdo.
Como é que uma menina é vítima de uma violência sexual e não se reconhece? É porque ela também aprendeu com esse padrão, Cecília. Tem a frase que ela falou, né? Eu acho que ela fala para a vó. Eu acho que eu fui estuprada. Eu acho que eu fui estuprada. Como você acha, né? Sabe o que você acha? Porque você cresceu vendo aquela situação. Porque se você olhar o site pornográfico ou o filme pornográfico, você vai ver que a menina resiste, a mulher resiste, mas no final ela... Adora. Adora. Ela é estuprada por sete e fica lá feliz da vida.
Então, assim, gente, desculpa, a gente está falando de criança, a gente está falando de jovem, sabe? O que é isso? O que está acontecendo? O que está acontecendo com a gente?
E o mundo mudou, quer dizer, na minha época, a pornografia não foi criada pela internet, ela sempre existiu, mas ela tinha um outro nível de acesso. Na nossa época era o blockbuster e tinha os filmes lá proibidos, que só podia entrar se você tivesse 18 anos, você tinha que comprar o documento, ou seja, primo mais velho, eu comprava o filme e tal, não sei o quê, e aí todo mundo fazia uma sessão e assistia.
Eu vou contar essa história maravilhosa da minha adolescência. Que medo. É isso. As meninas, meninas do meu colégio, tinha uma das meninas que tinha um irmão mais velho. E aí elas falaram, uma delas pegou e falou, peguei a fita do meu irmão do filme, eu vou falar que é muito engraçado, Anos Iluminados. E... E...
Vamos assistir. Mas na casa de quem? Na casa de quem? Meus pais sempre foram muito tranquilos. Eles nunca fizeram drama. Então, vamos lá para casa. Imagina. Vai ver a minha mãe. Imagina essa sessão. Boba de tudo. Boba. Não tinha nem beijado na boca. Nada. Boba, boba, boba. Aí, fomos lá para casa. Eram, sei lá, umas oito, nove meninas.
E aí botamos o filme, e aí aquela risaria, imagina, era para aquele grupo de meninas, era uma grande besteira, entendeu? Ah, é assim que você cumprimenta alguém com essa velocidade, com essa rapidez, com essa timidez e tal. Aí uma delas falou assim, mas também se a gente não vê, como é que a gente vai saber como é que faz? Aí eu fiquei com essa frase na cabeça. Alguns meses depois eu fui ao Planeta Xuxa.
E a entrevistada pela Xuxa no quadro Intimidade era a Marta Suplicy. E aí eu levantei a mão para fazer uma pergunta para a Marta Suplicy. Do alto dos seus? 14 anos. 13, 14 anos. E aí eu peguei o microfone e falei...
aquilo ficou tanto na minha cabeça, e aí eu tinha a oportunidade de ter uma sexóloga falando. Aí eu falei, você acha que a gente aprende alguma coisa vendo filme pornográfico? Aquilo tinha ficado muito na minha cabeça. E ninguém entendeu porque eu fiz aquilo. Aí a Xuxa ficou assim, ó. Aprende?
E olhou para a Marta Suplicy e ela falou, olha, pode até ser que tenha noção de... Mas assim, a parte de violência, de puxar... 1997. Pois é, pois é. Mas assim, isso é o que você falou, vou roubar a fita do meu irmão. O acesso era diferente.
Hoje em dia é um clique. Agora vou te dar um outro dado, é isso mesmo, quer dizer, é a gravidade da recorrência do acesso à pornografia. Você sabe, aqui tem, vou citar duas pesquisas aqui, uma do Common Sense Media, nos Estados Unidos, em 2023, que entrevistou meninos entre 13 e 17 anos, 73% já tinham acessado pornografia, a maioria consumia pornografia, boa parte tinha começado aos 12 anos de idade.
Que sabe menino de 12 anos de idade. Muito bem. Aqui, o Papo de Homem, com o apoio do Pacto Global da ONU, em 2025 fez uma pesquisa também, 4 mil meninos entre 13 e 17 anos, dos quais, de cada 10, 2 se disseram viciados em pornografia. Viciados. É, viciados. Esse é o resultado.
Com a consciência, né? Com a consciência de que eu estou viciando. Em 2019, a Organização Mundial de Saúde inseriu um tipo novo de transtorno, que é a compulsão sexual conectada à questão online. Não está explicitado no CID lá, mas ele surgiu a partir desta experiência e de casos de homens adultos viciados em pornografia que começaram a consumir muito cedo.
Por quê? Porque como toda adicção, seja álcool, drogas e tal, quanto antes você começa a consumir, mais propício será o seu vício. E a verdade é que a indústria pornográfica sabe disso. Então, o target da indústria pornográfica, há muito tempo, são meninos de 11, 12 anos de idade. Por isso que é tudo gratuito.
A questão é que, como todo vício, e aqui entra uma questão mais grave, eu acho, como todo vício, você uma hora não se satisfaz mais com aquilo. Você precisa de algo mais para se excitar. E aí você primeiro entra a história do pagamento.
para acessar outros tipos de filmes. Mais pesados. E aí tem um livro que a gente trouxe para o Brasil o ano passado, retrasado, da Gayle Dines, que é uma socióloga britânica, que estuda essa indústria pornográfica na era da internet, chama Pornoland, a gente traduziu pela editora Kaki. É horrível o livro, é super desagradável de ler, mas fala da indústria pornográfica, como é que ela funciona.
E aí tem o hardcore. Porque se você entrar agora, no site é horror, filme mal feito, as pessoas mandam. Mas está ok, vai, tudo bem, mais ou menos. Mas quando você vai descendo os níveis, as coisas vão ficando bizarras.
Quanto mais bizarro, quanto mais viciado, mais bizarro você precisa. Então, este bizarro está também induzindo a comportamentos que são comportamentos doentios. Então, por exemplo, a Gayle fez uma pesquisa, na época, pedido à Suprema Corte Americana, num presídio de abusadores de crianças. O que ela constatou, Gabriel?
que dos presos por abuso, a maioria não era pedófilo, como a gente teve aqui essa pesquisa, mas que a maioria tinha começado a consumir pornografia infantil envolvendo crianças em atos sexuais entre seis meses e um ano do ato em si de violência contra a criança. Ou seja...
Eram homens que tinham relações sexuais com mulheres adultas, mas eram viciados em pornografia. E aí você vai descendo, vai descendo, vai descendo. O vício ficou tão gráfico, chegaram nesse nível. Chegaram no nível da pornografia infantil. E isto acabou ensejando. Logicamente, gente, isso é super questionável. Tem mil pessoas dizendo, não, não é exatamente isso e tal. Então, eu não estou dando isso aqui como uma verdade científica, mas há estudos neste... Mas o dado existe. E há estudos neste sentido e gente que contrapõe esse...
Mas o fato é, isto é um fato, as pessoas tinham começado a assistir pornografia envolvendo crianças. É sobre isso, né? Bom, a gente tem um esquema aqui nosso do Rivo de Ouro, que são os nossos membros que ajudam a manter o nosso canal. Eles sabem quem é o entrevistado antes, eles podem mandar a pergunta. E a Luna Bergami mandou uma pergunta aqui para você. Deixa eu rodar aqui.
Oi pessoal da Rivo, como vão? Oi Luciana, tudo bem? Um prazer falar com você. Bom, a minha pergunta é a seguinte, você considera que o Brasil é um país que sempre normalizou a adultização de crianças e adolescentes? E que por isso algumas manifestações culturais podem ser questionáveis?
Era essa a minha pergunta. Muito obrigada pela oportunidade. Até. Luana? Luna. Luna, Luna. Luna, ótima pergunta, Luna. Você sabe que eu falei muito disso quando viralizou aquele vídeo do Felca, que falava de adultização de crianças.
E as pessoas começaram a entender que a adultização de criança era botar para fazer dancinha sexualizada na internet. E o que eu digo sempre é, não, isso é importante, é sério, a gente tem que olhar. Mas as crianças são adultizadas no Brasil há muito tempo, porque trabalho infantil é adultização. O que é adultização? É você colocar a criança numa situação que não é de criança. Isso é adultização. Casamento infantil é adultização.
Gravidez precoce é adultização. Exploração sexual é adultização. Ou seja, quando tinha aquele programa da Xuxa, que as paquitas ficavam dançando, é adultização. E não só, estou pegando a Xuxa aqui, a Xuxa é parceira nossa, obrigada, Xuxa. Mas assim, é uma outra época. Então a gente está falando, sim...
E acho que a gente está falando de crianças há muito tempo serem retiradas do papel de crianças para serem equiparadas a adultos, meninas e meninos. E esta equiparação é sempre perversa para o desenvolvimento saudável da criança, desde um trabalho infantil até uma...
uma sexualização precoce, enfim. Agora, eu preciso voltar para dizer o seguinte, a Luna tem um questionamento que é muito pertinente, que acho que a gente tem camadas, de fato, muito profundas, para além da vulnerabilidade social, do trabalho infantil, do casamento precoce, que a gente está falando de vulnerabilidade, a gente tem que falar de algo que a Gayle Dines, essa socióloga, vem trazendo, como a cultura pop foi sendo influenciada propositadamente Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia
Pela pornografia, pela indústria pornográfica. Porque você vai gerando uma dessensibilização para determinadas questões. Então, eu vou falar uma coisa super polêmica aqui. Mas hoje, você tem videoclipes que são soft pornô. De algumas cantoras, alguns cantores. São soft pornô. E essas crianças assistem. Isso também é adultização.
e as meninas começam a se comportar desta forma. Aqui, gente, desculpa, não tem nenhum discurso moral. Eu não estou falando de discurso moral, eu estou falando de uma realidade. Você não está condenando adultos que se portam dessa maneira. Não, exatamente. Porque aí seria moralismo. Eu estou falando de crianças que não têm discernimento.
jovens que estão se comportando, às vezes como nem adultos deveriam se comportar. Mas, Luciana, aí veio essa pergunta quando eu estava estudando a pauta, e que bom que eu lembrei dela agora, porque existe uma frase que a gente escuta muito é não se briga com a tecnologia, a gente ouve muito.
O avanço vem, veio a lâmpada e quem fazia vela reclamou, veio a televisão, o rádio reclamou, veio a internet, televisão. Então, não se briga com a tecnologia. E tem uma hora que eu acho que não se briga com determinados contextos. A tecnologia está inserida no nosso contexto.
Como é que a gente cria uma limitação? Porque por mais que eu tente tirar a minha filha dessa realidade, ou, minha filha, você não vai entrar em contato, as coisas estão espalhadas na rua, não é só na internet, está no dia a dia, está na mãe que não toma esse cuidado, então, é o limite entre tornar a minha filha bitolada, alijada desse mundo, Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia Asia
ou mostrar a ela e explicar. Seguinte.
Está vendo isso aqui? Não é para a sua idade. Não é legal. Porque eu acho que tem uma hora que não tem como você tentar esconder, você tentar evitar, porque vai estar aí. Cecília, você perguntou e você mesma respondeu. Eu acho que... A gente falou muito sobre isso. Eu vou na linha da sua resposta. Porque eu acho que não se trata... Eu sou muito contrária a demonizar a tecnologia. A tecnologia é maravilhosa. A internet abre caminhos. Hoje um menino...
da periferia consegue entrar no Museu do Louvre e fazer um tour gratuitamente. Isso não tem preço. Isso dá línguas, isso dá uma possibilidade de autonomia. Então, assim, não é sobre demonização do espaço. Agora, tem uma coisa que é, eu acho que tem que haver uma regulação das plataformas. Isso não... Se discute muito isso como censura, como... Não, a gente está falando...
Olha só, a gente já aprendeu, por exemplo, que tem coisas que respeitam a dignidade da pessoa e tal, a gente não pode fazer. Então, o Supremo Tribunal Federal, um tempo atrás, resolveu condenar um editor de livros que pregava o antissemitismo, dizer que o Holocausto nunca existiu e tal. O Supremo Tribunal Federal o condenou e ninguém brigou.
Por quê? Porque tem coisas que não se admitem, porque tem limite para as coisas. Agora, quando você vê movimentos racistas, misóginos, envolvendo crianças na internet, tudo bem porque é um espaço livre? Não. Quer dizer, literatura não é um espaço livre, mas a internet é um espaço livre. Então, acho que é preciso que a gente entenda um pouco que a internet faz parte, que as redes fazem parte, mas que ela também tem que ser regulamentada. Daí, o ECA digital nos ajuda muito. Isso.
Mas vamos sair dessa esfera, porque essa é uma frase que eu dizia sempre, sabe? Antes da UECA Digital. Cecília, eu dizia assim, eu me convenci. Depois da série Adolescência, caiu uma ficha assim, não existe família boa o suficiente, escola boa o suficiente, se não tiver uma regulação de plataformas. Então, pronto. Dito isso, e acho que a UECA Digital vai nos ajudar nisso, se ele for bem cumprido. O mundo está aí e os nossos filhos não podem ser alijados do mundo.
Eu também tenho um filho de 25, uma filha de 24. Então, como é que a gente lida com isso? Eu acredito em consciência. Eu acredito que você fornecer instrumentos para que a sua criança compreenda o que ela está vivendo e possa fazer as escolhas. Eu vou contar duas historinhas aqui. Uma historinha...
da minha filha, que era do coletivo feminista, não sei o quê, da escola e tal. E um dia a gente estava indo, viajando, e ela começou a cantar uma música, que era um funk, era Apologia de Estupro.
Eu já tenho uns 15 anos. Falei, escuta, Amar, olha o que você está cantando. Ai, mãe, o que tem a ver? Não sei o que, a música é ótima. Falei, a música é ótima, mas e a letra? Vamos prestar atenção nessa letra e tal? Ah, mãe, que saco, aquela coisa... Adolescente, não sei o que. E eu falei, não, deixa eu falar uma coisa, a gente tem que ter coerência na vida. Você não pode ser uma feminista...
e cantar uma letra que faz apologia do crime de estupro. E eu vou te explicar por quê. Porque isto não é de graça. Isto naturaliza comportamentos. A palavra tem poder. E não é à toa que faz sucesso também. E não é à toa que faz sucesso. Então, assim, e aqui estou falando do exemplo do funk, mas tem vários exemplos que não são do funk.
E aí você não pode... E aí ela... Sabe que, Cecília, na hora ela foi reativa, depois ela foi indo, indo, indo, e ela me falou assim, mas sabe o que é onde você tem razão? A gente não pode, né? A gente tem que ser coerente, a gente tem que... Então, é um pouco dessa coerência que a gente tem que ter...
ensinar os nossos filhos que eles são livres para fazer escolhas mas que as escolhas têm consequências para a vida deles, para a vida social e que eles façam essas escolhas com consciência e que eles entendam, sobretudo foi uma coisa que eu sempre disse para os meus filhos você pensa que você está fazendo uma escolha mas você está sendo induzido por uma sociedade que empurra todo mundo para o mesmo lugar
e aí você acha que você está sendo livre. Então, tenta parar, tenta respirar, tenta olhar. Isso está de acordo com o que você acredita, com o que você quer fazer, com os valores que você já desenvolveu até essa idade da sua vida?
Salvou meus filhos? Acho que sim, tá tudo bem. Sim, sim. Não acho que não tem fórmula mágica, mas eu acredito em consciência. Sim, sabe? Porque a consciência é a coisa mais poderosa que a pessoa pode ter, gente. De resto. E pode ser em coisas não necessariamente explícitas. Existe uma música que na letra inglês fala If you say you love me, then put me on a Chanel. Tipo, se você me ama, então me dá uma Chanel. Exatamente.
da música, e aí a Duda tava cantando isso, né? sei lá, me hipo, gente, né? 9 anos, eu falei, filha você já reparou, falei exatamente isso que ela tá dizendo que se você me ama você tem que me dar uma chanel, você sabe que dar uma chanel, não é significado de amor, ela tem 9 anos eu não vou falar nada além disso eu só tenho que plantar a sementinha do presta atenção no que você tá ouvindo não vai fazer toda uma tese feminista de empoderamento é
É de acordo. Da Chanel não é um... Não é um símbolo de amor. Você vai com os recursos também. Eu lembro que eu era muito pequeno. Eu ia ter menos de 6, 7 anos. E a minha mãe já me dizia, se alguém tocar aqui, aqui, aqui, você vai correndo contar para a professora, você vem correndo contar para mim.
Não tem que ter vergonha. Tudo isso que a gente estava falando aqui. Claro que ela não explicou o que significava tocar. Mas essa fala é salvadora. É isso. É salvadora. Eu tive o privilégio disso não acontecer comigo. Mas eu tenho certeza que se tivesse acontecido, eu não teria tido problema nenhum em ir contar para ela. É isso.
Isso seria resolvido da melhor maneira possível. Exatamente, exatamente. Por isso que eu acho, acho que a gente não pode subestimar as crianças. Claro. Não pode. Elas têm, crianças e adolescentes, eles têm muita capacidade de competência. Se você tratá-los, lógico, de acordo com a faixa etária, com a idade certa, mas se você instrumentalizar para raciocinar, eles vão ser capazes. Raciocinar, é só isso. Bom.
Falamos sobre tudo, eu acho. É porque assim, dava para falar mais, mas como a gente falou, não vai sair daqui nunca mais. A gente pode fazer várias outras sessões de Luciana Temer conosco. Inclusive de terapia aqui. De terapia, onde a gente vai abrindo aqui, desenrolando as coisas.
Mas para a gente encerrar, Luciana, você passou a sua vida toda tentando tirar debaixo do tapete conversas muito difíceis que o país vem reiteradamente tentando jogar para debaixo do tapete por inúmeras razões. Então eu queria te perguntar, para a gente fechar esse nosso papo hoje, se você pudesse escolher uma primeira mudança cultural, mas que seria no interruptor.
amanhã ela vai acontecer de modo geral na sociedade para que a gente possa evoluir cada vez mais no combate a todos esses tipos de violência que você combate. O que seria? É só essa a pergunta. É só, muito simples. Você pode usar mesóculos. Tirando esse fato de que eu não acredito em bala de prata, eu diria que...
mudar a educação. E aqui eu não estou falando de dar mais dinheiro para a educação, eu quero dizer o seguinte, mudar a compreensão do que significa o processo educacional, inclusive nas escolas. Ele ser menos conteudista e mais cidadão. Se a gente entender que a gente tem que educar crianças e adolescentes para serem boas pessoas e cidadãos responsáveis,
Eu diria que 90% dos nossos problemas estariam resolvidos. Só que, infelizmente, estão ensinando sobre aracnídeos ainda.
Isso dito por uma acadêmica, uma mulher da academia que sabe como é que funciona para entrar na academia. E só essa resposta eu já dava conta de mais uma horinha de papo. Palme por baixo. Luciana, obrigada. É muito rico te ouvir. Gente, adorei conversar com vocês. Que bom, nós também. Que bom, nós também. E a gente faz outras sessões, porque eu sei que as pessoas gostam de ouvir a polêmica, quer ouvir do seu papo.
que é ouvido as suas relações, trabalhou pro Alckmin, trabalhou pro Adair, amiga do Xalita. Xalita é irmão, né? É isso, é irmão de vida. E aí todo mundo quer saber, mas aí a gente faz um episódio 2. Que diferente. Muito obrigada. Obrigada, gente. Foi um prazer. E pra se manter informado, porque informação é vida, Rivo News.
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