Episódios de Canal Café Brasil

LíderCast 419 - Angelina Bejgrowicz - Inteligência Cultural

09 de julho de 20261h24min
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A convidada de hoje é Angelina Bejgorwicz, que é estrategista global, fundadora da AB – GlobalConnections e criadora do Global Intelligence Framework, modelo que integra inteligência decisória, cultural e negocial. Polonesa radicada no Brasil, Angelina é fluente em seis idiomas, com mais de 15 anos de experiência internacional e atuação em mais de 30 mercados. Ela ajuda líderes a entenderem o que realmente está em jogo quando uma decisão precisa ser tomada em ambientes multiculturais.Sua provocação central é simples e poderosa: o mundo mudou, mas os instrumentos de decisão das organizações não. No LíderCast, conversamos sobre cultura,estratégia, negociação e os sinais invisíveis que fazem líderes brilhantes tomarem decisões equivocadas. 

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Participantes neste episódio2
L

Luciano Pires

Host
A

Angelina Bejgrowicz

ConvidadoEstrategista global
Assuntos6
  • Literatura e CulturaTriângulo Cultural: contexto, eu e o outro · Comunicação intercultural e feedback · Construção de confiança em diferentes culturas · O papel do cinema e literatura no aprendizado cultural
  • Exposição e Críticas na Era DigitalO poder das narrativas na formação da realidade · O Mago do Kremlin e a criação de narrativas · Redes sociais como ferramenta e filtro · Liberdade e responsabilidade na escolha de narrativas
  • Desenvolvimento CulturalComportamento em ambientes multiculturais · Tomada de decisão em contextos diversos · Global Intelligence Framework
  • Agenda Cultural de BrasíliaDiferenças de comportamento e consumismo · Lógica do passado e economia · Brasiliência e improviso
  • Mentalidade EmpreendedoraA jornada de Angelina Bejgrowicz no Brasil · Fundação da AB Global Connections · Desenvolvimento de habilidades interculturais
  • Tomada de DecisãoTomada de decisão em ambientes de incerteza · O papel dos valores nas decisões · O mapa cultural de Inglehart e Wenzel
Transcrição172 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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LPLuciano Pires

Learn more at surfernetwork.com. Olha só, ao final do dia todo mundo foi embora, mas a decisão ficou com você. É você que tem que escolher se avança ou se recua. Você que contrata ou demite, você que insiste ou encerra. E quase sempre, cara, você decide sozinho justamente aquilo que pode mudar o rumo da sua empresa, da sua carreira e da sua vida. Que baita solidão! Você já se sentiu assim, sozinho? Bom, essa solidão tem um preço, porque sem alguém confiável para pensar junto, o medo se disfarça de prudência, Os nossos vieses parecem bom senso e a dúvida começa a paralisar.

Cara, que problema! Então, nos dias 1 e 2 de agosto, das 9 às 13, eu vou conduzir a mesa. Tem uma crase nesse a, é um convite. Um convite para um encontro online e ao vivo para empresários, líderes e profissionais que estão cansados de carregar sozinhos as decisões que mais importam. Vão ser 2 dias de casos, reflexões e conversa para melhorar a qualidade das suas escolhas em ambientes de incerteza. Olha, daqui você não vai sair com respostas prontas, não.

Vai sair é com muito mais clareza para encontrar as suas próprias respostas. Meu nome é Luciano Pires. Reserve seu lugar à mesa. Link na descrição deste episódio. Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um Lidercast, o podcast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. A convidada de hoje é Angelina Bejgrovics, que é estrategista global, fundadora da AB Global Connections e criadora do Global Intelligence Framework, modelo que integra a inteligência decisória, cultural e negocial.

Polonesa radicada no Brasil, Angelina é fluente em 6 idiomas, com mais de 15 anos de experiência internacional e atuação em mais de 30 mercados. Ela ajuda líderes a entenderem o que realmente está em jogo quando uma decisão precisa ser tomada em ambientes multiculturais. Sua provocação central é simples e poderosa: o mundo mudou, mas os instrumentos de decisão das organizações não. No Lidercast, conversamos sobre cultura, estratégia, negociação e os sinais invisíveis que fazem líderes brilhantes tomarem decisões equivocadas.

E um pouquinho de cinema. Muito bem, mais um Lidercast. Como sempre, eu conto como é que a minha convidada veio parar aqui. Só que foi um email da sua assistente, foi ela que mandou para mim?

ABAngelina Bejgrowicz

Foi ela, foi a Regiane.

LPLuciano Pires

Isso, mandou para mim, eu olhei aquilo lá, falei, nossa, que história interessante, terei uma polonesa aqui. Vamos lá, né? Eu começo com 3 perguntas, tá bom? São as únicas que você não pode errar, o resto você pode chutar à vontade, essas 3 tem que ser na lata. Seu nome, sua idade e o que que você faz.

ABAngelina Bejgrowicz

Então, meu nome é Angelina, Beigrovich sobrenome, tenho 39 já, 39 anos, e o que eu faço? Eu faço um monte de coisas, mas posso dizer que sou uma criadora de pontes. Ó, acho que isso pode ser uma criadora de pontes. Isso.

LPLuciano Pires

Você é polonesa, nascida na Polônia. Eu vou tentar agora, o sobrenome dela se escreve, eu vou ler em português, tá? Bejigrovicz, que se fala Bejigrovicz. Isso aí, né? Nasceu na Polônia?

ABAngelina Bejgrowicz

Nasci na Polônia, na Silésia Alta, exatamente em Będzin, uma região muito industrial.

LPLuciano Pires

Sim. E chegou no Brasil quando?

ABAngelina Bejgrowicz

11 anos atrás. Foi meu grande sonho de viver no Brasil. Então, com 28 anos, com duas malas, sem ter trabalho, sem ter família, sem ter namorado, cheguei aqui.

LPLuciano Pires

Mas da onde veio essa fascinação pelo Brasil? O que que você viu na Polônia do Brasil? Foi Copa do Mundo? Foi futebol?

ABAngelina Bejgrowicz

Não. E o que mais incrível, por mais incrível que pareça, foi uma propaganda na televisão do café brasileiro que me fez pensar e sonhar sobre o Brasil. Então, quando eu era criança, não sei, tinha 5, 8 anos, eu vi na televisão uma propaganda do café com cafezal bonito, planícies maravilhosas assim, com música brasileira, e me apaixonei. Até perguntei ao meu pai, mas que idioma é esse? E alguém me disse, o meu pai naquele momento me disse que é o português e que o Brasil Então eu tinha na cabeça isso e sempre sonhei que um dia vou aprender português e vou viajar para lá.

LPLuciano Pires

Como é que você explica isso? De onde veio isso? Se você falasse para mim assim, ah, eu vi futebol, vi os jogadores, aquela coisa, vi as praias, vi o Brasil, tudo, uma propaganda de café com cafezais.

ABAngelina Bejgrowicz

Olha, não tem coisas impossíveis, como podemos ver.

LPLuciano Pires

Sim, sim, eu fui em 2008 Eu fui para o Polo Norte num navio quebra-gelos nuclear russo, do Exército Russo. E aí, visitando o navio, eu desci. E o navio tem duas usinas nucleares dentro dele, né, reatores nucleares dentro dele. E tem a sala de controle do reator, que é um negócio totalmente hermético dentro do navio. Então não existe lugar mais trancado no mundo do que aquilo lá. Você entra ali, parece um calabouço, né. E na parede os caras botaram uma foto maravilhosa do Rio de Janeiro, do Brasil, as praias, o rio todo.

Falei, pô, consigo entender o sonho desse cara de ir para uma praia dessa aí, né? Você tem irmãos?

ABAngelina Bejgrowicz

Tenho irmão mais novo, sim, o Lucas, lá na Polônia. Sim, ele mora também na Alemanha, às vezes viaja muito também.

LPLuciano Pires

Seu pai, sua mãe fazem, faziam o quê?

ABAngelina Bejgrowicz

A minha mãe já está aposentada. E o meu pai faleceu há 3 anos.

LPLuciano Pires

3 anos. O que que ele fazia?

ABAngelina Bejgrowicz

Ele era mineiro.

LPLuciano Pires

Mineiro?

ABAngelina Bejgrowicz

Mineiro.

LPLuciano Pires

Mas mineiro que é de entrar na mina e exatamente minerar a mina mesmo?

ABAngelina Bejgrowicz

Exatamente, é isso mesmo. Na Polônia nós temos muitos, e principalmente na região onde eu cresci.

LPLuciano Pires

Tem apelido? As crianças têm apelido na Polônia quando são pequenininhas? Tem apelido como tem no Brasil?

ABAngelina Bejgrowicz

Não, acho que não. Aqui o Brasil é mestre nisso.

LPLuciano Pires

Você não tinha apelido? Você então, quando era criança, te chamava de quê? Angelina?

ABAngelina Bejgrowicz

Angelina, Angela, Ângela. Assim.

LPLuciano Pires

O que que a Angelina sonhava fazer quando crescesse?

ABAngelina Bejgrowicz

Eu queria, eu sempre gostava muito de aprender sobre outros países. Então, por exemplo, eu gostava muito de assistir a programas de viagens, de, eu estudava todas as capitais dos países Eu me interessava muito por esses temas. Então, para mim, foi muito claro que o meu trabalho precisa estar relacionado com viagens. Eu preciso viajar, preciso viver em outros países, preciso vivenciar outras culturas. E assim acabei fazendo.

LPLuciano Pires

Mas o que que você se formou em? Que sua formação?

ABAngelina Bejgrowicz

A minha formação, eu tenho bacharelado e mestrado em biotecnologia e tenho também bacharelado em gestão e engenharia da produção.

LPLuciano Pires

Cara, eu achei que você ia falar que era comércio internacional, relações exteriores.

ABAngelina Bejgrowicz

Mas sempre trabalhei com isso. É engraçado que a minha, a minha formação é totalmente diferente do que atuação, porque quando saí da universidade e comecei a trabalhar, eu comecei com comércio exterior, com desenvolvimento de negócios para uma empresa polonesa de máquinas agrícolas, e eu estava responsável pela expansão da empresa para mercados da língua alemã, Portugal, Espanha. Então Então eu sempre trabalhei com isso, mas ainda estou me formando também.

LPLuciano Pires

Posso te fazer umas perguntas sobre a Polônia?

ABAngelina Bejgrowicz

Claro, por favor.

LPLuciano Pires

Interessa muito a Polônia, né? A Polônia tem uma história, uma história em certos momentos pesada, especialmente quando passa pela Segunda Guerra. Sofreram muito com a Segunda Guerra, né? Mas hoje é muito interessante porque a gente olha a Europa e vê vários países europeus com muitas dificuldades, com, estão sendo invadidos, tem aquela imigração, tá sendo islamizada, tá uma bagunça total lá. E a Polônia não. E quando se conversa lá com, eu não me lembro se é chanceler, presidente, o que que é da Polônia, ele fala: aqui não.

Ele fala: vai bagunçar lá? Aqui não. E o mundo inteiro: nossa, que horror! Ele: aqui não. Então me parece que há um senso de preservação ali da identidade polonesa, que é uma coisa muito forte. Eu não fui mergulhar para entender o que que é, como é que é, né? De onde vem isso? Você acha que são resquícios da Segunda Guerra, de tudo que aconteceu? De onde vem isso, essa visão de que nós poloneses não vamos deixar nossa cultura ser, sei lá, ser ultrapassada, ser assimilada por outras culturas?

ABAngelina Bejgrowicz

É uma pergunta difícil porque eu fui recentemente à Polônia, eu fiquei lá algum tempo e me parece que não tem respostas fáceis nesse sentido. Por exemplo, quando eu estava lá, eu vi que tem várias narrativas. Claro, o presidente, ele é mais contra da imigração justamente por causa do medo também. Mas, por exemplo, quando eu lembro, quando nós estudamos na escola, nós sempre tivemos esse senso de messianismo, que a Polônia, por exemplo, antigamente, não sei se você leu a história do Jan Sobieski, que venceu o Império Otomano quando que entrava lá em Viena.

Então nós tivemos sempre um senso muito forte de um último bastião do cristianismo na Europa. Assim, então esse pensamento que nós temos uma missão grande até hoje ainda existe no povo polonês, que nós, por aquele momento lá no passado, pelo Sobieski, assim que ele fez contra o Império Otomano, que não entrou lá mais, e foi perigoso também naquela época. E me parece que ainda hoje tem essa narrativa de messianismo, que nós precisamos nos proteger, e até por causa da história.

Nós, se nós olhamos para a da história da Polônia, nós não existimos por mais de 123 anos, não existimos no mapa, nós desaparecemos. 3 países nos abocanharam assim.

LPLuciano Pires

Existia antes disso, havia uma região não com a formatação que tem hoje, mas era uma reunião, era uma região até maior.

ABAngelina Bejgrowicz

Nós tivemos, nós historicamente, a Polônia era um país muito grande. Nós tivemos, por exemplo, união com a Lituânia de hoje Sim, então a região polonesa foi muito grande, assim, um país foi muito grande. Depois, claro que por causa das invasões, batalhas, guerras, o território mudou, mudava constantemente. Mas, por exemplo, antes da Primeira Guerra Mundial, nós tivemos uma região, um território relativamente grande, e depois desaparecemos.

Assim, Rússia, Prússia e Áustria abocanharam todo o território. Então depois, 123 anos, não tivemos mais, mas lutamos muito contra os invasores. Então esse senso de pertencimento, uma nação muito grande, muito forte senso de nação, nós sempre tivemos. E hoje em dia, quando nós também lembramos do passado, o que foi com Rússia, com Império Russo, depois União Soviética, Alemanha, nós também queremos preservar. Tem esse sentimento.

Mas por que eu disse que é um tema muito difícil de responder? Porque até hoje nós tivemos muitas narrativas ainda na Polônia. Por exemplo, a questão de quem é o maior inimigo hoje em dia, é Rússia ou Ucrânia? Por exemplo, nós recebemos muito, a Polônia recebeu muitos ucranianos e claro que foi uma coisa totalmente óbvia para receber o nosso vizinho durante tantas essas circunstâncias.

LPLuciano Pires

Mas havia uma relação de amizade, tem uma relação amistosa, não é Índia e Paquistão que estão sempre se pegando.

ABAngelina Bejgrowicz

Aqui é um problemático, um tema problemático e também não tão claro, porque, por exemplo, tem uma história, uma situação durante a Segunda Guerra Mundial onde os ucranianos numa territória de Volhynia se chama esse território, mataram muitos poloneses. Então até hoje não fica ainda resolvido esse problema. Ou seja, poloneses querem, os poloneses querem muito que os ucranianos reconheçam essa situação e os ucranianos não querem.

Então por isso é difícil de dizer, porque mesmo tendo as mesmas fontes de informação, as interpretações de dois lados são diferentes. Então aqui na Europa O que eu vejo muito, que nós ainda tivemos muito, muito problema com o passado, não conseguimos ainda resolver certos pontos delicados. E até por isso digo que até hoje tem narrativas distintas entre os poloneses pensando quem é maior inimigo hoje em dia, se quem precisamos temer mais, os ucranianos ou os russos.

LPLuciano Pires

É interessante que essa tua explicação de que o passado não foi resolvido, de que as coisas têm interpretações, ele vale se eu aplicar para Rússia e Ucrânia, se eu aplicar para Israel e Palestina, Índia e Paquistão. Esses grandes conflitos mundiais todos estão assim, né? A gente não conseguiu resolver o passado, existem leituras diferentes. É muito complexo isso para nós brasileiros, então é muito complicado, porque A gente não sabe o que é guerra.

O Brasil viveu algumas, mas é muito tempo atrás. E o Brasil é tão grande que foram regiões, uma no extremo sul do Brasil, outra no extremo norte do Brasil, e o meio do Brasil a gente não se lembra mais, né? Não teve essa vivência. E para você está muito perto, tá muito próximo, né? Claro, a história tá viva ali ainda, né? Claro, muitas pessoas vivas que passaram por um uma coisa terrível lá na época, especialmente a Segunda Guerra, né?

Cara, é complicado. Eu não consigo imaginar o que é você. É muito complicado de nascer e viver num lugar assim, né?

ABAngelina Bejgrowicz

É muito complicado. E devo confessar porque eu não sou histórico, senão não estudei história. Eu gosto de estudar, eu tento ler muito porque eu quero entender. Para mim é interessante entender. E eu sempre me pergunto, porque você conhece, provavelmente, como gosta muito de história, a situação com a importância do xadrez na União Soviética. Então Kasparov, Garry Kasparov, famoso assim até hoje em dia. E tem uma batalha muito famosa lá entre Kasparov e Karpov.

LPLuciano Pires

Sim.

ABAngelina Bejgrowicz

E eu estava pensando, eu assisti essa batalha entre esses mestres assim de xadrez E eu estava pensando, as pessoas tão inteligentes, tão analíticas, que sabem os próximos passos, sabem estratégia, e chegaram a totalmente diferentes conclusões sobre a ideologia, sobre no que elas acreditam como pessoas. E eu estava me perguntando por que é assim, se o conhecimento, a inteligência não é suficiente para entender. Porque, por exemplo, como nós sabemos qual foi a postura ideologia do Kasparov e do Karpov.

Depois, quando nós olhamos, por exemplo, para os Estados Unidos, nós vemos esses debates famosos entre Vidal e Buckley.

LPLuciano Pires

Sensacional.

ABAngelina Bejgrowicz

E eu também me perguntava, gente, as pessoas tão inteligentes, educadas, por que chegam a conclusões diferentes assim?

LPLuciano Pires

Tem um livro do Jonathan Haidt chamado A Mente Moralista. Você já viu?

ABAngelina Bejgrowicz

Não, não.

LPLuciano Pires

Leia, porque ele pega esse ponto, ele fala como é que pessoas podem se separar por uma crença, por uma religião, por uma fé, pela política, pela ideologia. Então ele conta lá que existem visões de mundo que são difíceis, tem uma visão de mundo voltada para um lado, a outra é para o outro lado, as duas são antagônicas, são diferentes. E como é que a explicação disso? Não tem uma explicação, ah, foi porque a pessoa foi educada só, não é só isso, tem alguma coisa a mais ali. O livro é bem legal, ele dá uma explicação.

ABAngelina Bejgrowicz

Obrigada pela dica.

LPLuciano Pires

A mente moralista.

ABAngelina Bejgrowicz

A mente moralista é interessante. Eu estava pensando, porque também eu sozinha tentei também decodificar isso, eu leio muito, tento pelo menos, me interessa, me interessam esses temas. E eu, até onde eu cheguei, me pareceu que está relacionado com os valores, no que nós acreditamos, quais valores, o que é mais para nós importante. E tem um mapa cultural de Inglehart e Wenzel muito interessante, que tenta mapear as sociedades perante como elas escolhem os seus presidentes, assim.

E ele tem uma, por exemplo, uma dimensão entre valores mais tradicionais e mais seculares, e outra dimensão que também divide essas sociedades pelo valor da segurança, que para essas sociedades ainda segurança física, segurança econômica é muito importante, até porque que não chegaram ainda ao nível de ter satisfeitos essas necessidades. E expressão, autoexpressão, como eu expresso quem sou eu. Então me pareceu que também pode ser uma resposta relacionada aos valores e o que é importante para nós.

LPLuciano Pires

É interessante isso, né? Porque você tem casos de irmãos criados na mesma família, na mesma cidade, do mesmo jeito, e um sai com a cabeça de um lado, o outro do outro, E teoricamente os valores deviam ser os mesmos, tem alguma coisa ali que compõe, mas essa é uma discussão grande que a gente precisava de—

ABAngelina Bejgrowicz

É interessante, não é?

LPLuciano Pires

Claro que é, claro que é, né? Mas de qualquer forma é fascinante, a gente lê, eu leio muito a respeito daquela região e a Polônia sempre foi para mim uma, tem algo diferente ali. Quando a gente vê, estudei muito sobre a Segunda Guerra, né? A forma como cada país foi tratado nas invasões. Então tem uma coisa que a brutalidade da invasão tá ali, mas quando você pega a Polônia, a coisa é ao cubo, né? O que aconteceu na Polônia foi muito pior, ou mais agressivo, mais sangrento do que aconteceu na França, na Áustria, e assim vai, né?

E talvez a explicação seja essa coisa secular que você falou aí, ó. Ali os caras são bravos, então terra arrasada, né? E bom, de qualquer forma Mas aí a menina de 28 anos pega suas malinhas e vem para o Brasil. Você veio para o Brasil com a intenção de ficar aqui ou veio ao Brasil, deixa eu ver como é que é, deixa eu conhecer? Como é que foi?

ABAngelina Bejgrowicz

Foi com tudo, porque a minha ideia foi assim: eu tive dinheiro para ficar 6 meses, porque o turista pode ficar até 6 meses no Brasil. Então eu tive dinheiro guardado para ficar 6 meses e Vou tentar, vou enviar o meu currículo, vou tentar emprego. Se eu conseguir, eu vou ficar. Senão, pelo menos realizei meu sonho, visitei o Brasil.

LPLuciano Pires

Você não conhecia o Brasil?

ABAngelina Bejgrowicz

Nunca.

LPLuciano Pires

Você já veio com a ideia de ficar e sem ter trabalho?

ABAngelina Bejgrowicz

Porque muitas vezes, assim, na maioria das histórias que eu conheço dos poloneses no Brasil, são ou pelo trabalho ou pelo amor. Ou seja, se apaixonaram e chegaram aqui. E no meu caso foi um paixão pelo país mesmo, assim, vamos ver o que acontece, assim, sem conhecer.

LPLuciano Pires

Como é que você, com 28 anos, como é que você falou para o seu pai, para sua mãe, estou indo embora para o Brasil?

ABAngelina Bejgrowicz

Olha, foi difícil isso, eu demorei 2 anos para explicar para eles bem, de forma bem detalhada, o que eu quero, qual é o meu sonho, qual é o meu plano também. Eles, claro que na cabeça deles foi assim inseguro, assim, uma questão de segurança muito forte. Eles sabiam que o Brasil não é um país mais seguro do mundo nesse sentido. Então demorei 2 anos para explicar para eles o meu sonho, o meu plano. Mas a minha mãe falou, você sabe o que faz, então vá.

LPLuciano Pires

Eles chegaram a vir visitar você aqui?

ABAngelina Bejgrowicz

Não, ainda não.

LPLuciano Pires

Eles nunca vieram?

ABAngelina Bejgrowicz

Nunca. Só eu visito.

LPLuciano Pires

Só a mãe que Seu irmão também não veio? Nenhum deles teve curiosidade de ver o que aquela maluquinha— como é que é maluco em polonês?

ABAngelina Bejgrowicz

Shaloner.

LPLuciano Pires

O que aquela shaloner tá fazendo lá no Brasil? Não vieram ver?

ABAngelina Bejgrowicz

Não, ainda não. A minha mãe, eu já convido faz um tempo, convido a minha mãe, mas ela disse: não, eu ainda não quero, ainda não chegou o momento, ainda um dia eu vou visitar, ainda não agora.

LPLuciano Pires

11 anos se passaram e ainda não está pronta. Mas você chegar aqui então sem falar o idioma, você já tinha estudado português?

ABAngelina Bejgrowicz

Já estudei, já estudei na universidade. Por isso comecei, como eu comecei a estudar muito tarde, porque só na universidade, então eu não perco por nada esse sotaque polonês.

LPLuciano Pires

Sim, mas não perca, fique com ele aqui, né? Então você chegou aqui, já dominava o idioma, você já conseguia falar e entender bem o português? Bom, pelo menos isso, né? E aí você chega aqui com a, o quê, foi para um hotel? Jogou currículos e falou, deixa eu ver o que acontece.

ABAngelina Bejgrowicz

Não, eu já aluguei um quarto assim numa mansão também, que não sabia quais são os preços também, outra história também. E comecei a enviar os currículos, realmente uma empresa.

LPLuciano Pires

Tinha poloneses aqui que te deram um suporte, parente, amigo?

ABAngelina Bejgrowicz

Nada, nada, tudo sozinha assim, tudo sozinha. Eu comecei a procurar, eu tive um contato com uma empresa ainda da Polónia, quando trabalhei para outra empresa, essa de máquinas agrícolas. Então eu escrevi para eles que, ah, eu estou no Brasil, como se fosse visitando o país pela empresa lá onde eu trabalhava. Então eles me convidaram para conversar, etc. E no meio da conversa, eu apresentando ainda a empresa onde eu trabalhei, no meio da conversa eu coloquei, ah, por acaso eu já não trabalho mais nessa empresa, aqui é o meu currículo, assim, se vocês quiserem, aqui estou à disposição para trabalhar.

E a pessoa foi um alemão que trabalhava lá também na empresa. Foi uma empresa brasileira, mas conduzida, gerenciada pelos alemães, alemães, alemães. E ele gostou desse comportamento. Opa, se ela é tão ousada no seu comportamento, ela vai chegar longe. Ele me contratou e consegui o trabalho lá. Trabalhei 8 anos na empresa.

LPLuciano Pires

Você começou a trabalhar aqui com visto de turista ainda?

ABAngelina Bejgrowicz

No primeiro momento, sim. Depois, a empresa entrou num processo de obtenção de visto de trabalho para mim. Eu consegui. Primeiro visto foi de 2 anos, porque é possível somente para 2 anos. Mas olha que interessante, no meu caso também eu vivenciei toda essa reviravolta impeachment da Dilma, depois Temer, Michel Temer. Então, no momento quando eu estava querendo prorrogar o meu visto de trabalho porque vencia 2 anos e mais 2 anos, a situação mudou.

Ou seja, facilitaram a obtenção do visto permanente para os estrangeiros naquela, naquele momento. Então eu, depois de 2 anos com visto de trabalho, consegui visto permanente.

LPLuciano Pires

Legal, já.

ABAngelina Bejgrowicz

Então tudo é para, tinha que ser.

LPLuciano Pires

Você tem que dar chance para sorte, né? Tem que. E você deu, você deu muita chance. Que cidade que você ficou quando você veio para cá?

ABAngelina Bejgrowicz

Primeiro foi Rio de Janeiro, fiquei lá uma semana.

LPLuciano Pires

Era de se imaginar que você foi visitar, foi para o Rio.

ABAngelina Bejgrowicz

Rio, com certeza, Rio. Depois, como já sabia que todo o trabalho acontece em São Paulo, então cheguei aqui. Comecei a— eu tive essa entrevista com o Davi, com alemão. Como ainda não tinha nada, não sabia como vai ficar a situação, eu fui para São Bento do Sul, lá Blumenau também, do sul mesmo. Fiquei lá um mês também para procurar lá emprego. E quando estava lá, recebi o convite para trabalhar daqui. Então voltei para São Paulo.

LPLuciano Pires

Qual foi o seu choque? Quando você chegou no Brasil, qual foi o choque? Além de você sair do avião e receber 40 graus de temperatura.

ABAngelina Bejgrowicz

Isso foi choque. Tinha muitos choques, na verdade. Um choque muito grande que eu vivenciei foi relacionado com os preconceitos que eu tive. Porque, por exemplo, eu como uma polonesa cujos pais ensinaram para economizar dinheiro, eu, por exemplo, não comia fora. De casa. Eu almoçava, tomava café da manhã, jantava em casa. Eu fiquei muito surpresa quando vi que muitos brasileiros passam tempo fora de casa nos shoppings. Então o meu pensamento foi: mas eu pensei que as pessoas aqui não têm tanto dinheiro para gastar no shopping.

Então essa questão com dinheiro, shopping, esse consumismo, consumpcionismo, desculpa, consumpcionismo, para mim foi um choque que eu vivenciei, que eu pensei que que deveria ser um pouco diferente, que as pessoas deveriam economizar mais. Mas depois também eu fiquei sabendo, também lendo um pouco mais sobre a história, eu fiquei sabendo da situação com inflação enorme, que as pessoas não estavam incentivadas para economizar. E também a questão do— agora fugiu o nome do que foi fechado nos bancos, as pessoas não tiveram.

LPLuciano Pires

Assim, quando o Collor prendeu o dinheiro de todo mundo.

ABAngelina Bejgrowicz

Sim, exatamente.

LPLuciano Pires

Também tem histórias e tem histórias aqui no Brasil, né? Tem uma coisa, nós temos uma coisa cultural aqui que é meio que inexplicável, né? Não dá para entender um país onde as pessoas, se você for ver o salário mínimo brasileiro, é uma vergonha perto do resto do mundo, mas o iPhone aqui é o mais caro do mundo. E continua vendendo, né? Automóvel aqui é o mais caro do mundo e continua vendendo. Você vai num shopping lá no JK, aquele é outro mundo.

Tem um tênis de R$5.000 que alguém tá comprando. Então tem uma disparidade aí que inclusive hoje na hora do almoço tava conversando com amigo meu, né? Falou, cara, o que que tá acontecendo? Olha o preço do apartamento onde foi parar. Um apartamento de 88 metros quadrados custa R$1.200.000, né? Num país que tem essa Tem uma miséria grande de um lado e de repente não dá para entender muito bem como é que as coisas andam no Brasil.

Já desisti de tentar entender, então eu vou tocando a vida aqui, né? Mas a minha curiosidade é sempre que converso com alguém que veio de uma cultura, e você veio de uma, você veio adulta, então você chegou aqui com a tua formação toda pronta, com 28 anos, entra no Brasil que é esculhambado, que esculhambado, tá? Que você sentou para conversar comigo, perguntou para mim, não, como é que é a entrevista? Eu falei, você fica tranquila, você já tava num, por favor, o que que você vai?

Não, fica tranquila que é um bate-papo de brasileiros, tá bem tranquilo aqui, né? E aí a gente vê a diferença cultural. Você tá, pô, eu quero, eu sou europeia, né? Eu quero tudo certinho. Aqui não, essa baita, e a coisa acaba andando, né? O negócio que eu uma expressão que eu criei um tempo atrás, chama-se brasiliência. Eu peguei a palavra resiliência com brasileiro, juntei os dois, deu brasiliência. Bonito, que essa coisa inexplicável, entendeu?

Tá tudo um horror, tá tudo uma porcaria, tá se ganhando pouco, a segurança é horrível, mas se você botar umas garrafinhas de cerveja aqui, uma carninha, todo mundo vira amigo, todo mundo sorri, tá tudo certo, vamos em frente, né? O Brasil, esse é o Brasil, né?

ABAngelina Bejgrowicz

Mas vamos lá, você vem para o Brasil com seu diploma Eu ainda queria adicionar, porque me parece muito interessante isso, que olha só que o quanto as experiências do nosso passado, o que nós vivemos, por exemplo, no meu caso, essa questão da escassez, guerra, necessidade de economizar dinheiro porque nunca se sabe, isso gerou certo tipo de comportamento. E eu, na cabeça minha, tive muito claro que não, para ter dinheiro eu preciso economizar dinheiro.

Sim, então para mim esse raciocínio foi Para mim foi minha lógica do comportamento meu. Mas quando cheguei aqui, e eu também preciso confessar para você que eu julguei esse comportamento, mas como assim a pessoa não tem dinheiro e gasta dinheiro? Mas é interessante também, em vez de julgar, fazer a pergunta mais profunda: de onde vem esse comportamento? Porque como depois eu comecei a estudar um pouco mais essa questão de inflação enorme, que as pessoas não estavam incentivadas para economizar esse dinheiro, para poupar, essa questão de também do dólar Color de Melo também, que as pessoas não tinham segurança nas instituições financeiras.

Senão, como economizar quando eu não confio no banco assim? Então eu comecei a pensar e parei de julgar, porque não dá para julgar. O nosso comportamento, o que nós fazemos, tem certa lógica do passado. E até nós não mudamos a lógica quando não começamos a confiar no novo sistema, no novo no novo, na nova forma de viver, vai ser difícil de mudar o comportamento.

LPLuciano Pires

Então, ou você tá lá, ou você sabe quando é que eu descobri isso de forma clara? Eu fui para, eu fui para o Nepal em 2001, fui para Katmandu, de lá eu peguei um avião e fui para Lukla, que é a cidadezinha que começa a trilha do Everest, o aeroporto que é o mais perigoso do mundo, aquela coisa toda. Eu desci ali no aeroporto e do meu lado direito tinha uns destroços do avião que tinha caído no aeroporto no ano anterior. Isso é folclórico, caem aviões lá porque o aeroporto é muito difícil, toda hora tem um acidente lá e morrem pessoas, aquela coisa toda, né?

E eu saí do helicóptero, vi os destroços, fui lá, né? Meu, o que que houve aqui? Caiu. Como assim caiu? Não, caiu. Como caiu, cara? Caiu, caiu, todo ano cai 2. Como assim? Aí eu vi as pessoas falando aquilo com uma naturalidade tão grande que eu fui entendendo, que eu falei, cara, eu estou entrando numa cultura que é absolutamente diferente completamente da minha. O que me deixa horrorizado aqui, para eles faz parte do dia a dia.

Cara, eu tô no ambiente alta montanha, neve, 2, 6 meses por ano que é inviável ficar aqui. Como é que essas pessoas vivem? Como é que elas tratam vida e morte, né? E ali eu entendi, falei, cara, eu não posso julgar de jeito nenhum, eu tenho que entrar no mundo deles e ficar na minha. E ali começa a acontecer coisas que para mim são E aí eu descobri que eu não podia praticar coisas de brasileiro naquele lugar que para eles era um horror, né?

Trombei com essa coisa da cultura e para mim ela ficou clara. Então julgamentos, no more, deixa rolar. Posso até ficar indignado, nossa, como fazem, mas é a cultura deles aí, né?

ABAngelina Bejgrowicz

É cultura deles e a lógica deles. E isso me parece muito interessante, que eu, por exemplo, aprendi muito mais sobre mim mesma quando saí da Polônia, porque muitas vezes, não sei se você parou para pensar, me parece que nós estamos condicionados a certos tipos de conversa, tipo comportamento. Por exemplo, aqui eu sempre dou esse exemplo com o Brasil, no Brasil, que quando aqui o Brasil, o brasileiro pergunta: oi, tudo bem? Qual a resposta correta?

Tudo bem. E na Polônia, por exemplo, se alguém perguntar: Angelina, como você está? A pessoa vai começar a reclamar, porque não é natural que a situação seja boa assim. Normalmente a pessoa reclama. Então também é interessante, mas por que tudo bem, tudo bem? Porque temos esses certos códigos comportamentais que, e se por exemplo responder que não está bem, começar a reclamar, gente, que pessoa estranha assim, como assim, como ela pode se atrever a reclamar assim?

Então é interessante também parar para pensar sobre o nosso próprio comportamento, de onde vem esse código comportamental, código social, essas expectativas sociais, que eu preciso fazer, como eu preciso responder naquele momento, está estou com fome? Não, não estou com fome, tá tudo bem, não preciso nada.

LPLuciano Pires

Você voltou à Polônia várias vezes? Você estranha hoje quando volta lá? Você é mais brasileira do que polonesa já?

ABAngelina Bejgrowicz

Eu estranho, mas tem dois motivos por trás disso. Primeiro, que a minha brasileirice, tropicalizei um pouco assim, realmente me sinto mais, um pouco mais brasileira do que antigamente. E outra questão, que o meu país também mudou muito. Muito, que eu saí totalmente de outro país. Agora a Polônia cresceu economicamente de forma muito visível. Então quando agora eu visito a minha mãe e eu vejo as mudanças, eu me surpreendo de forma muito positiva.

LPLuciano Pires

Mas mudou culturalmente também?

ABAngelina Bejgrowicz

A cultura também, também. Porque, por exemplo, quando eu saí da Polônia 11 anos atrás, eu não ganhava muito dinheiro ainda. A minha economia lá, a economia do país não era tão a ser desenvolvida para a maioria das pessoas.

LPLuciano Pires

Hoje, de 2015, é anteontem, é 15, 11 anos, e mudou muito.

ABAngelina Bejgrowicz

Hoje em dia, quando eu falo com as pessoas, elas já economicamente já são muito mais poderosas do que eu 11 anos atrás, assim como depois da universidade. Até na universidade, gente, eu não conseguia comprar tanta coisa na universidade como os estudantes hoje em dia conseguem comprar. Então, 11 anos, uma década Mas mudou muita coisa, muito.

LPLuciano Pires

Que coisa interessante. Quando você— desculpa, eu tô te explorando porque é raro eu pegar assim alguém tão fresca, de— é muito pouco tempo, e ter vindo adulta para cá, né? Quando você fala assim, eu abrasileirei um pouco, que que você nota que aconteceu com você?

ABAngelina Bejgrowicz

Eu acho que eu sorrio muito mais.

LPLuciano Pires

Sorri mais?

ABAngelina Bejgrowicz

Sorriu assim Sorriso na minha boca. Eu estou muito mais— eu gosto de conversar. Antigamente, por exemplo, nos meios de transporte, eu estava muito mais assim séria. Como assim conversar com alguém? Não conheço essa pessoa, não vou conversar com essa pessoa. E hoje em dia eu gosto de conversar, gosto de sorrir, gosto de fazer amizades de forma mais fácil.

LPLuciano Pires

Aprendeu a abraçar?

ABAngelina Bejgrowicz

Claro, também, também. Até na Polônia faço isso.

LPLuciano Pires

Esse, que isso, né? É um abraço estranho lá, né? Eu tô abraçando o quê aqui, né? Que legal!

ABAngelina Bejgrowicz

Aprendi, aprendi, é verdade, aprendi.

LPLuciano Pires

Mas teve alguma coisa que mudou você em termos de, vamos falar de trabalho, tá? Do teu trabalho, de produtividade, de que a gente tem uma discussão muito grande no Brasil aqui, que a gente é um país que nós temos um problema com produtividade histórico, né? Aqui é muito complicado, aqui as coisas realmente aquela coisa de vai fazendo do jeito que der e não tem planejamento e dane-se, faz meia-boca. Agora então tá terrível, qualquer serviço parece que você põe a mão, tem alguém fazendo de qualquer jeito aí, né?

Isso impactou em você também, que você chega aqui com tudo certinho e de repente entra num vamos trabalhar, vamos.

ABAngelina Bejgrowicz

É interessante porque eu tenho outra perspectiva, outra visão disso, porque por exemplo eu na Polônia eu era muito metódica. Tudo tem seu plano, horário, cronograma, tudo.

LPLuciano Pires

Você ou o polonês?

ABAngelina Bejgrowicz

O polonês também. Somos muito parecidos com alemães nesse sentido, não tão organizados como os alemães. Ainda temos esse improviso. Então, por exemplo, para mim esse improviso brasileiro também é algo que eu reconheço, porque nós tivemos também por causa da história. Da Polônia também. Mas o que eu vejo, que de um lado tem essa questão de relacionamentos, e também o que é interessante aqui, nós podemos ver que aqui no Brasil, para fazer as coisas, para, não sei, conseguir emprego, é muito relacionamento.

Até famoso quem indica, Kuai. Mas por quê? Isso também, como nós, como nós, isso também muda muito a forma como nós relacionamos e como nós trabalhamos. Porque antes de começar a trabalho, a trabalhar, eu preciso gerar uma confiança em outra pessoa. Então, relacionamento, quem sou eu? Eu me lembro que no início eu estava muito chocada quando alguém me perguntou, mas que time, qual time eu torço aqui? Porque a pessoa quer saber, se estamos aqui para trabalhar, porque a pessoa quer saber que qual time eu Então as perguntas me chocaram no início, depois eu entendi que como o trabalho, como nós criamos e construímos a confiança é diferente na Europa, na Polônia, Alemanha, Rússia, e no Brasil aqui muito relacionamento tem.

Quem Angelina é para Angelina poder trabalhar nesse emprego, nesse trabalho, ela precisa mostrar quem ela é. Agora na Europa, na Polônia, é muito mais é etos do trabalho, ou seja, como, o quanto Angelina é eficaz e eficiente no que ela faz. Essa capacidade determina a confiança da outra pessoa em Angelina. Então, por exemplo, hoje em dia, essa primeira distinção que eu vejo, que a forma como as pessoas trabalham é diferente, pelo simples fato do que é importante, a confiança, como é construída.

E outro ponto também que O brasileiro pode não ser muito organizado, mas sempre faz o que precisa ser feito. Ele improvisa muito bem, nosso famoso jeitinho.

LPLuciano Pires

Isso, então eu digo assim, é o que nos tira de todas as frias em que ele mesmo nos coloca.

ABAngelina Bejgrowicz

E assim, de um lado, claro, eu não estou assim dizendo que é uma coisa maravilhosa, porque é preciso também ter uma organização. Mas o que quero dizer, que muitas vezes Esse saber lidar com improviso e saber lidar com as incertezas é muito forte aqui. Eu aprendi muito isso, que me parece que europeu tem dificuldade de lidar com imprevisibilidade. Então um alemão, por exemplo, ele se frustra muito quando não, não, a pessoa não chega no horário certo, por exemplo.

Mas por quê? Porque ele gosta de controlar. Controle é muito importante. Então toda a questão de organização agenda perfeita, tudo está relacionado também com o senso de controle, o quanto eu consigo controlar as coisas. Então aqui eu diria que tem dois pontos interessantes. De um lado, sempre podemos aprender a ser mais organizados, mas do outro lado, o quanto nós conseguimos lidar com as coisas que não conseguimos controlar.

E a vida nos ensina que não controlamos tantas coisas que pensamos que controlamos.

LPLuciano Pires

Interessante, né? Você hoje tá na Fundação Dom Cabral. O que que você faz hoje? Hoje, qual é o teu trabalho hoje?

ABAngelina Bejgrowicz

Hoje em dia eu tenho a própria empresa, a B Global Connections, que ajuda as empresas a desenvolverem suas habilidades interculturais e conseguirem—

LPLuciano Pires

Quanto tempo você tá com a empresa?

ABAngelina Bejgrowicz

8 anos já.

LPLuciano Pires

Cara, então você só ficou empregada 3 anos na empresa e aí abriu sua própria empresa? Você é uma empreendedora no Brasil há 8 anos?

ABAngelina Bejgrowicz

Há 8 anos.

LPLuciano Pires

Parabéns!

ABAngelina Bejgrowicz

Obrigada. Há 8 anos já tenho o próprio negócio. Então aqui ajudo as empresas, de um lado ajudo as empresas a internacionalizarem seus negócios, e também faço, essa é uma parte da minha atuação, e a segunda é educação também. Eu faço workshops, treinamentos sobre inteligência cultural, inteligência negocial e decisória, ou seja, um framework Global Intelligence, como tomar melhores decisões no mundo que muda de forma tão rápida.

LPLuciano Pires

Você está ouvindo o Lidercast, um podcast voltado para liderança e empreendedorismo. De onde veio este, tem muito mais. Por exemplo, a minha mentoria MLA, Master Life Administration, um programa de treinamento contínuo em que reunimos pessoas interessadas em conversar sobre temas voltados ao crescimento pessoal e profissional. Comunidades online oferecem conexão, compartilhamento, apoio, aprendizado e segurança. O Emelei é mais do que isso, é um mastermind para profissionais com encontros mensais presenciais e online, promovendo uma sensação de comunidade e uma troca muito valiosa de experiências.

Olha, tem vagas disponíveis. Se você se interessa em estar comigo, acesse mundocafebrasil.com e clique no link para saber mais. Você trouxe um livro para mim aqui, Inteligência Cultural: Desenvolvendo Competências Globais para o Sucesso Internacional. Descubra como comunicar, negociar e inspirar em qualquer contexto cultural, cara. Que brabo isso aqui, no mundo que tá conectado, e você fala então de vaso inteligente. O que que é?

O que que te levou a fazer esse livro aqui? E exatamente o que que é que trata ele?

ABAngelina Bejgrowicz

Esse livro foi a minha jornada, o que eu aprendi durante esse tempo. Eu sempre gostava de aprender sobre outras culturas, sobre outros países, mas percebi que quando você sai do seu lugar do seu país e começa a navegar outros mares, você percebe que, você, primeira coisa, você começa a perceber várias perspectivas e as coisas que você pensou que são certas certezas que nós tivemos não são mais certezas. E segunda coisa, você começa a se conhecer muito mais, você começa a ver o quanto você pode ser condicionado a certos comportamentos e formas de pensar.

Então, como eu sofri na própria pele essas diferenças culturais pelas conversas que eu precisei, por exemplo, aprender, eu sempre gosto de mencionar as primeiras conversas telefônicas aqui no Brasil, como foi a diferença entre Polônia e o Brasil. Na Polônia, nós apreciamos e respeitamos muito o tempo da pessoa. Ou seja, se eu ligo para o meu cliente, eu sei que ele tem agenda cheia, muitas coisas para fazer. Então eu, respeitando o tempo do meu cliente, eu sou muito rápida na conversa e muito direta ao ponto.

Ou seja, eu ligo, me apresento, quem sou eu, e pá, ao ponto, direto ao ponto. Eu acho que eu sou polonês e vou direto ao ponto, porque Na minha, a minha intenção é respeitar e não desperdiçar o tempo do meu cliente. Agora, com o mesmo comportamento aqui no Brasil, também com melhores intenções do mundo, que eu quero, eu respeito o tempo do cliente, não quero que ele fica assim desperdiçando o seu tempo, eu fui percebida como uma pessoa arrogante, mal educada, grossa.

E assim, com boas intenções. Eu notei que muitas vezes nós, os nossos comportamentos e o que nós fazemos com boas intenções não necessariamente são recebidos com boas, com bons olhos.

LPLuciano Pires

Exatamente. Eu trabalho muito com marketing cultural, marketing digital, né? E tem um negócio chamado SDR, eu não sei se você conhece, não, mas basicamente, uma forma muito, muito simplista, né? Alguém precisa te vender um produto, então em vez dele chegar para vender você um produto Ele coloca um pessoal para telefonar para 1 milhão de pessoas que vão fazer para você 4 ou 5 perguntas para descobrir se você tem dinheiro suficiente e é interessante para comprar o produto, ou transformar você num lead, né?

E aí fica as pessoas te ligando. Então manda email, liga para você, e aí vem uma conversinha que alguém botou o seguinte: ah, tem que estabelecer um relacionamento. Aí toca o telefone, eu atendo, entra alguém que eu não conheço. Seu Luciano? Pois não, aqui é o Zé, eu sou da empresa tal. Tudo bem com o senhor? Tudo bem. Ai, que bom, seu Luciano. Olha, e aí começa uma conversa que você vê que é uma intenção de forçar uma aproximação que eu tô ocupado demais para ter, que eu não quero aquilo, entendeu?

Cara, por favor, você quer vender alguma coisa? Me diz o que é, eu vou ver se interessa para mim. A gente continua. Senão, não, não vou perder nem teu tempo nem o meu, né? E é mais ou menos isso que você colocou, quer dizer, tem, eles estão tentando pegar uma característica cultural e enfiar isso pela goela dentro de um ambiente que não quer isso, cara. Tô no ambiente de negócio, tô super ocupado. Me ligou para me vender? Me diz o que você quer, né?

Não vem com esse papo: ah, não, mas vendas é assim, vendas é relacionamento. Eu sei que é, mas depende do ambiente onde você tá, depende da estrutura, depende do contexto que você tá colocado, cara. Eu tô com pressa. Se você vier com conversinha mole, eu vou te dar uma cortada. E aí você vai me considerar um grosso, né? Porque você não entendeu que devia estar respeitando o meu próprio tempo. Então varia muito, né?

ABAngelina Bejgrowicz

Com certeza.

LPLuciano Pires

Mas então, com base nessas coisas, você foi entendendo e foi montando uma cultura para chegar nesse livro aqui?

ABAngelina Bejgrowicz

Não montando cultura, mas tentando entender um pouco porque nós comportamos de certas formas. Porque me parece que para podermos conviver bem, e assim como nós começamos a nossa conversa hoje sobre os conflitos, sobre o passado não resolvido ou mal resolvido ainda, Principalmente na Europa, que são países pequenos e perto uns dos outros. Me pareceu que para conviver bem com o outro precisamos entender o outro. E para mim foi uma coisa muito importante, tentando entender.

Eu tento, eu não digo que eu entendo todo mundo, claro que não, mas tento. Eu tenho essa curiosidade para conhecer o outro, porque de onde vem a forma como a pessoa pensa, de onde vem a forma como a pessoa se comporta. E me parece que quando nós temos um repertório maior de perspectivas, de tentar entender o outro, a lógica do outro, me parece que podemos diminuir tanto os atritos culturais entre os países quanto também podemos trabalhar de forma melhor e mais eficiente com culturas diferentes.

Porque se eu, por exemplo, entendo que para brasileiro é importante construir laços e conhecer outra pessoa, eu já sei como me comportar, que não preciso ser direta direta ao ponto, porque a pessoa não quer que eu seja direta ao ponto, ela quer investir na relação, no relacionamento. Então, se eu conheço isso, eu posso me adaptar, eu posso entender o outro lado. Se eu não sei, eu sempre vou pensar que, ah, mas eu tenho melhores intenções aqui, deveria funcionar tudo bem, e não funciona porque não entendo a lógica do outro.

Então me parece que essa competência de tentar entender o outro hoje em dia no mundo onde de novo temos uma certa reglobalização, de novo, que essa hiperglobalização desacelerou um pouco por causa dos acontecimentos recentes e não tão recentes. É bom entender a lógica do outro e tentar entender o comportamento do outro, a forma de pensar do outro, e faz parte do nosso repertório como ser humano. Melhor, eu sei que é uma palavra muito grande aqui, não quero que se entenda que aqui eu quero aqui mudar totalmente o mundo, mas me parece que eu acredito muito que nós podemos construir os relacionamentos genuínos com outros, não somente instrumentais, que eu quero vender mais, então eu vou me adaptar ao outro, mas simplesmente de forma genuína tentar entender as motivações do outro.

É um pouco como eu mencionei sobre essa questão do julgamento das pessoas no shopping. Eu julguei no primeiro momento, Porque para mim a lógica que eu aprendi na Polônia, a lógica da escassez, foi diferente. Agora, quando eu percebi e comecei a ler mais sobre a história do Brasil, eu comecei a entender a lógica das pessoas, porque as pessoas se comportam dessa forma. Então me parece que tudo tem seu significado, tem seu motivo, e é bom entender o porquê.

LPLuciano Pires

Quer dizer, você tá dizendo que E tem um trabalho de casa meu antes de eu tentar me começar a me relacionar com você pessoal, profissionalmente, que eu vou, que é de onde veio, qual é. Se você fosse brasileira, eu falei, já entendi, já sei que eu posso, podia, né, não sei se posso mais, mas eu posso brincar com ela, eu posso ser caloroso com ela, eu posso elogiá-la, eu posso abraçar, posso, porque o Brasil é assim, né. Se eu tiver na Europa, eu não posso fazer isso.

Hoje em dia já mudou bastante, mas eu tô entendendo isso. Quer dizer, você entendeu o contexto onde você tá. Quando você coloca isso numa perspectiva internacional, que aí o bicho pega pra valer, que eu acho que até o interesse aqui, né, do teu livro foi isso aí, né? Que você— vamos colocar isso aqui num mundo onde eu tô fazendo um negócio com chinês, com japonês, com italiano, com americano, com sul-americano, Isso é uma salada de frutas.

Como é que é isso? Você vai ficar louco, porque tem uma etiqueta para cada um. Como é que funciona?

ABAngelina Bejgrowicz

Com certeza.

LPLuciano Pires

É, primeiramente, uma reunião de uma empresa global, tem um paquistanês, um indiano, um chinês, um brasileiro, italiano e americano na mesma mesa, em horários diferentes do mundo, cada um com comportamento diferente, e Quero ir aí. Eu não posso falar o que eu penso, não posso agir do jeito que eu acho, não posso interromper, né? Mas para cada um é de um jeito.

ABAngelina Bejgrowicz

Eu vou ficar louco, com certeza. Acho louco não. O quanto mais você tem— eu acredito muito no repertório. O quanto mais você lê, gosta de conhecer outros países, outras culturas, outras formas de se comportar, me parece que você amplia o seu repertório. Você começa a enxergar que, por exemplo, por exemplo, silêncio pode ser percebido de uma forma para um paquistanês e da outra forma para um estadunidense, por exemplo. Um silêncio, a pessoa pode, por exemplo, pensar que você não está muito aberto, está escondendo algo, por exemplo, ou você não se sente muito à vontade ou seguro.

Um simples silêncio pode ser interpretado de forma diferente. Eu, por exemplo, Também gosto muito dessa comparação, que no Brasil normalmente quando temos as reuniões online ou presenciais, normalmente o brasileiro não para, ele fica como a pessoa precisa interromper para começar a falar. Ou seja, o quanto eu, quando eu fico calada como europeia, eu não gosto de interromper. Agora estou aprendendo também, eu interrompo tempo. Mas normalmente o brasileiro, por exemplo, tem essa que precisa falar mais, porque se a pessoa não fala nada, ele precisa falar.

Então tem essa questão de uma pessoa precisa interromper para poder falar. E na Europa não. Na Europa, por exemplo, eu escuto, a pessoa termina a sua fala, eu começo as perguntas, por exemplo, ou falar de forma diferente. Então se nós também não entendemos as dinâmicas da conversa profissional, conseguimos nos comportar de acordo com as expectativas, vai ser difícil. Então pode ser desafiador, pode, se nós não conseguimos construir o nosso repertório, como devemos nos comportar e ver de forma—

LPLuciano Pires

você falou um negócio aí que eu me lembrei de uma coisa. Olha que interessante isso. Eu te falei do podcast infantil, né, do Café com Leite, né? E o Café com Leite tem um sistema de gravação interessante porque A Bárbara lê os textos todos, leu o dela e o da Babica, que é personagem dela. Na edição é aplicado um efeito e a voz da Babica vira uma voz de criança. E aí o editor monta aquilo tudo lá, né? E eu sistematicamente brigo com o editor porque a Babica tem uma característica: quando tem alguma coisa muito legal, então a Bárbara fala, Babica, vamos falar sobre chocolate?

A Babica fala, vamos! Eba! Ela sempre faz isso, né? E eu teimava muito com ele porque eu falava o seguinte, cara, não espere terminar o eba para colocar a Bárbara. Eba, silêncio, Bárbara. Falei, isso é horrível, não é assim que flui. E agora que você tá falando, tá me chamando atenção. Fala, cara, é verdade. Eu falo para ele, coloca em cavala, o eba dela tem que terminar em cima, embaixo da voz da Bárbara, porque é assim que nós falamos, né?

ABAngelina Bejgrowicz

Olha que interessante.

LPLuciano Pires

Mas é assim que é o jeito brasileiro. Talvez se tivesse no Japão, isso fosse, cara, tá interrompendo, não esperou até terminar. Exatamente isso, né? E você tem que estar atento para tudo isso, cara. É muita coisa para uma pessoa, é muita coisa.

ABAngelina Bejgrowicz

Mas sabe, eu acho que tudo começa com curiosidade, simples curiosidade. Se você, por exemplo, gosta de cinema, e parece que você gosta de cinema, eu gosto de aprender também sobre essas coisas pelo cinema, através do cinema. Recentemente, até posso dar dica aqui, eu adoro o filme Dica de um filme novo português do Pablo, se não me engano, é Pedro, desculpa, Pedro Pinho, Pedro Pinho, A Faca e o Riso. A Faca e o Riso, só rir.

LPLuciano Pires

Riso, A Faca e o Riso.

ABAngelina Bejgrowicz

Muito bom filme português, 3 horas e meia. 3 horas e meia, 3 horas e meia no cinema assim, mas muito interessante também para descobrir algumas dinâmicas entre portugueses, colonização portuguesa em Guiné-Bissau, lá na África. Então me parece que o cinema pode ser uma boa maneira de tentar entender essas diferenças culturais, de tentar entender outros pontos de vista, outros problemas, porque querendo ou não, nós entramos nos problemas do outro país, do outro contexto.

Então eu acho que é uma boa maneira de também tentar entender um pouco melhor os outros.

LPLuciano Pires

No livro você botou algum método? Tem um método aqui? Tem alguma coisa assim?

ABAngelina Bejgrowicz

Tenho, tenho método. O método é triângulo cultural, que fala basicamente sobre 3 dimensões. Primeira é contexto. Que nós temos contextos diferentes. E contexto no sentido de contexto cultural, político, contexto econômico do país, religioso. Tudo isso faz parte da nossa identidade. Como nós falamos também, como idioma impacta a nossa forma de pensar, por exemplo. Então, contextos. E por isso, por causa dos contextos, temos esses famosos choques culturais.

Que eu, no meu contexto cultural, se espera que a pessoa, quando tudo bem, vai responder tudo bem, mas no outro contexto é, a pessoa vai reclamar, como eu comentei com os poloneses. Então temos vários contextos. Depois, né, segunda parte do triângulo é eu, meu espelho cultural. Então uma reflexão de como o contexto em que eu estou inserida impacta, me impacta o meu comportamento, ou seja, Como por exemplo o idioma polonês impacta a minha forma de me comunicar com os outros, como a religião em que eu fui, por exemplo, eu cresci, me impacta quais são os valores dessa religião que é importante para mim.

Como tudo isso, geografia do país também impacta profundamente, como nós até inclusive no Brasil, por causa do clima, nós temos vestimenta diferente do que, por exemplo, na Alemanha. É mais informal um pouco. Então, como isso tudo impacta como eu me comporto, como eu penso? Então, essa autorreflexão, segunda parte, essa autorreflexão sobre os meus próprios valores, o que realmente é meu e o que foi condicionado de alguma forma.

E a terceira parte desse triângulo é quando já conheço que existem vários contextos no mundo, que eu tenho essa reflexão sobre mim, quem sou eu, Então, de verdade, quais são os meus valores verdadeiros? Eu consigo me comunicar e conectar melhor com o outro. Então, terceiro, o terceiro pilar é eu com o outro. E aqui eu falo muito sobre 8 dimensões: comunicação de alto, baixo, contexto, como eu me comunico. Então, se eu preciso ser muito literal na minha fala ou eu posso ser menos direta, como por exemplo na No Brasil tem uma comunicação de autocontexto, na Polônia eu sou mais direta.

Feedback, como é o do feedback? Se eu posso dar feedback de forma mais assertiva ou preciso desses famosos sanduíches, assim, método sanduíche para—

LPLuciano Pires

No Brasil você não pode ser assertiva.

ABAngelina Bejgrowicz

Não, não se pode. Como, qual a questão da liderança? Se a liderança é mais top-down, mais hierárquica ou mais igualitária? Como, como construímos a confiança? Que dei um exemplo da Polônia, por exemplo, que nós construímos a confiança através das tarefas, ou seja, o quanto bom, boa eu sou no que eu faço, eu consigo construir essa confiança. Ou pelo quem sou eu, ou seja, relacionamento, como eu persuado também. A forma de persuadir é muito cultural também.

Se eu preciso dar mais exemplos e explicar de forma mais teórica, ou explicar de forma mais teórica antes de preparar. Então, como eu preparo apresentação no trabalho depende muito também da cultura. No Brasil, por exemplo, é muito mais, por exemplo, tem cursos como se comunicar bem. Mas por que eu preciso me comunicar bem? Para ganhar promoção na empresa, para ganhar mais. Então sempre tem um motivo por que eu preciso comunicar Não somente para se comunicar melhor, não.

Você tem uma coisa que você quer conquistar com isso, é mais instrumental. Mas, por exemplo, na Polônia nós estudamos muitas coisas, como balé, por exemplo, como assistir ao balé e entender o que está acontecendo. Nós temos esses cursos e gostamos de aprender para entender melhor como, por exemplo, olhar essa arte, essa arte, por exemplo, né?

LPLuciano Pires

Então, como nós Isso é sensacional, porque te dá uma outra dimensão, te ajuda a entender e apreciar até as coisas. E se eu não conheço nada, para mim é um monte de gente. Eu fiz um tempo atrás um episódio do Café Brasil, meu podcast principal, sobre ópera. E eu ia, queria, eu falei, eu quero fazer um episódio sobre ópera para quem não gosta de ópera. Como é que eu vou fazer para construir um episódio que quem não curte ópera vai curtir ouvir ópera, né?

E aí eu olhei para aquilo e falei, cara, só tem um jeito de eu fazer, eu tenho que arrumar um contexto. Se eu conseguir colocar dentro desse contexto a ópera, a pessoa vai entender do que se trata, por quê. E aí eu fui conseguir encontrar e montei um programa maravilhoso que é um dos meus prediletos até hoje, né, que mostra a ópera como um instrumento de expressão de um autor, né. Então eu pego o Verdi Pega uma música dele, uma ópera famosa dele, que tinha tudo a ver com a libertação da Itália, né, e que de repente num evento moderno, com o presidente da Itália presente, ela é utilizada pelo povo que está presente como uma forma de expressar o seu descontentamento contra políticas que estavam sendo aplicadas no país, e aquilo foi na cara do presidente.

Então esse evento aqui, a ópera nesse evento aqui, explicada, mostrada aqui, ela explica toda essa história. E a hora que eu contei, ficou sensacional o programa, porque não era só alguém gritando, né? Não, cara, olha, olha quem compôs, olha por que compôs, olha o que quer dizer a letra, olha o que aconteceu naquele país na época em que foi composta, olha a história desse, como isso aí impregnou o mundo todo, e olha como é que ela foi usada cento e tantos anos depois como algo válido ainda e que tem a ver com o nosso dia a dia.

Quando você entende isso, você fala, cara, Então não é só uma ópera, é um— e tem vários. Você gosta de cinema, né?

ABAngelina Bejgrowicz

Adoro.

LPLuciano Pires

Poderoso Chefão 3, a cena da escadaria no final tocando Cavalaria Lusitana. Cara, não precisa falar nada, não precisa dizer, não tem uma palavra naquela cena, é só uma sequência de atos com um trecho de uma ópera tocando ao fundo. E você olha aquilo e fala, cara, aquilo é um gênio ao cubo. Se eu tiro essa ópera, mudava toda, mudava completamente aquela cena, né? E não precisou ter uma palavra para explicar. Mas eu tenho que ter o repertório para entender o que tá acontecendo ali e falar, cara, entendi.

Se você me dá uma aula, me explica o que é ópera, e aí eu vejo ela aplicada ali, eu vou ficar, vou ficar enlouquecido. Eu acabei de gravar um podcast agora à tarde, nós estamos falando exatamente disso, né? Falando sobre o prazer intelectual que a gente tem quando saca uma referência. Aí você falou de cinema, que você adora cinema. Pega um Tarantino, né? No meio do Tarantino, o que que tem aí?

ABAngelina Bejgrowicz

Aqui no livro eu gosto muito de sempre também dar dicas de leitura, de filmes, para entender contexto melhor os países. Aqui, por exemplo, uma comparação cinematográfica para comparar os contextos diferentes aqui.

LPLuciano Pires

Forest Gump, aqui com o contador de histórias.

ABAngelina Bejgrowicz

Exatamente, porque claro, todo mundo conhece Forest Gump, assim que eu assisti mais de 10 vezes, pelo menos. E 4 anos atrás, o diretor, o cineasta indiano, fez uma adaptação indiana, Lal Singh Chaddha, ou seja, o contador de histórias. Ou seja, a história é a mesma, Só que acontece na Índia. E todas as— e eu recomendo fazer uma comparação para comparar os contextos, porque Forrest Gump conta uma história estadunidense com contexto estadunidense, de referências da história.

LPLuciano Pires

Só podia ser lá aquilo, né? Exatamente. Para funcionar só pode ser lá.

ABAngelina Bejgrowicz

Exatamente. E agora foi feita uma adaptação, remake indiano, com todas essas referências indianas. Então é uma coisa muito música também lá, o Quebra-Nozes, para conhecer e entender melhor a cultura russa, para também ler Dostoiévski, Tolstói, assistir o balé lá, Lago de Cisnes, Quebra-Nozes, assim, Giselle. É muito, é muito poderoso também.

LPLuciano Pires

Você colocou um outro aqui que eu amo, cara. Bom, Forrest Gump é fora de série. Doze Homens e Uma Sentença, o original do Sidney Lumet, de 57, é sensacional. E aqui você fala de um russo chamado Doze, também foi Nikita Mikhalkov.

ABAngelina Bejgrowicz

E também outra comparação que eu coloquei aqui também, Taxi Driver, como eu sei que você gosta dos Scorsese, então Taxi Driver, motorista de táxi, não pode faltar. E comparar com o filme peruano, assim também para ter uma referência latino-americana, do Dias de Santiago. Também é basicamente um retrato, só que colocado no contexto do Peru, de um país.

LPLuciano Pires

Eu tava agora à tarde com Arthur Igreja e a gente tava comentando exatamente isso, sabia? E eu vi o sorriso dele a hora que a gente falou desse assunto, né, de como intelectualmente é prazeroso alguém soltar uma referência e você: peguei! E eu usei um exemplo, ele falou: cara, eu tô ouvindo uma música, de repente no meio da música entra um de Here Comes the Sun do George Harrison numa música que não tem nada a ver com aquilo. E o teu ouvido reconhece, falou: cara, saquei, né?

Então é, isso é um estímulo, entendeu? Um presente intelectual isso aí, né? Mas tem que ter repertório.

ABAngelina Bejgrowicz

E como podemos conquistar esse repertório? Realmente assistindo, gastando, não gastando, eu não acho que é gastando tempo, mas investindo o tempo em ler. Eu, por exemplo, agora com essa toda situação geopolítica, o que está acontecendo Principalmente na Europa, o que nós falamos lá, porque lá a situação geopolítica é diferente do que no Brasil. Então lá eu voltei com uma quase depressão, quase de uma depressão. Eu estou relendo agora A Montanha Mágica de Thomas Mann, porque lá ela descreve a situação antes da Primeira Guerra Mundial, o que estava na Europa.

Então fazendo um diagnóstico da Europa antes da Primeira Guerra Mundial. E agora é super prazeroso ler esse livro e ver, opa, que legal, agora eu vejo os padrões parecidos, talvez não iguais, mas parecidos. Então, o quanto nós conseguimos ver esses padrões quando nós temos esse repertório cultural também, quando nós conseguimos ter essa vontade de saber mais, simplesmente. Eu adoro. Recentemente fui ao teatro assistindo a peça Prazer Hamlet, Hamlet Prazer, assim, um Hamlet contemporâneo aqui, muito legal.

Então eu gosto muito, acho que o quanto mais nós conhecemos— outra dica, não sei se você teve também, agora assim, só dicas agora, vou fazer palpites de dicas, mas um filme que eu adoro e também volto periodicamente é o Um Violinista no Telhado. Sim, sim, é belo.

LPLuciano Pires

Exatamente. E é antigo isso, é dos anos 70, 70, 70. Sim, tem obras que são— outro dia eu tava lá, qual foi? Eu puxei um desses em preto e branco, eu comecei a ver e eu não conseguia parar. E aí você fala, cara, não tem nada da técnica atual, não tem nada da, até a atuação dos atores é um negócio meio, meio fake, mas ele tem um envolvimento de história de coisa. Você fala, caramba, que loucura! Eu vou fazer um exemplo mais pop, mais pop para você entender.

Eu não troco King Kong do Marion Cooper de 1930 2003, se eu não me engano, alguma coisa assim, pelo King Kong novo, que foi o cara do Senhor dos Anéis que fez lá, né, que é deslumbrante do ponto de vista técnico. E o outro é completamente tosco, é uma tosqueira horrorosa. Mas eu não troco um pelo outro, entendeu? Então pergunta para mim por quê. Eu não sei por quê. Eu sei que essa loucura toda nova da tecnologia, ela não conseguiu fazer com que eu ultrapassasse a sensação que eu tive quando vi pela primeira vez aquele King Kong anterior.

E é o mesmo filme, mesma coisa, com dois tratamentos diferentes, né? Mas aí você falando isso tudo aí, como é que é isso, essa questão toda tua da inteligência cultural em tempos de rede social, de Instagram, essa loucura toda de todo mundo ser gerador de conteúdo e tá todo mundo envolvido nisso? Não tem mais Não tem mais, não tem nenhum muro mais. A porteira tá arrebentada, né? Entra informação do mundo todo a todo tempo. Aliás, o X implementou uma mudança recentemente que ele já traduz automaticamente.

Então entra na minha, no meu feed, posts do mundo inteiro já me traduzido. Outro dia eu tava vendo um post de turco, o turco em português. Eu comecei a ler, que isso, cara? Era um turco falando de alguma coisa da Turquia interessante. Eu jamais teria acesso a isso, tá entrando traduzido. E de repente explodiu a minha cabeça lá, né? Como é que é isso tudo? Só para melhorar um pouco mais aqui, essas redes, elas derrubam todos os muros, né?

Então nós estamos nos comunicando, eu estou me comunicando com um cara do interior da Polônia que eu nunca saberia da vida desse cara, e de repente um post dele tá chegando para mim aqui no Brasil e tem um chinês vendo ao mesmo tempo, e nós estamos ali comentando aquilo lá. Cara, é um caldeirão sem ter a cultura que eu precisava para isso, sem ter o repertório. Eu tô recebendo essas coisas ao mesmo tempo, né?

ABAngelina Bejgrowicz

Me parece que é como ferramenta, é como faca, esse famoso exemplo da faca, né? Que a faca pode servir para preparar um maravilhoso bolo na mão de melhor cozinheiro, e também a mesma faca pode ter outro final, outro fim, na mão de um assassino, por exemplo. Me parece que é a mesma coisa com as redes sociais. E agora, o que nós podemos fazer com tudo isso é simplesmente fazer critério. Tá bom, o que me interessa? Se esse turco, por exemplo, traz para mim um conteúdo interessante que eu posso aprender algo novo, por exemplo, sobre a cultura turca, ou algo comum que na verdade não acrescenta nada.

Então me parece que podemos aproveitar essas redes, essas redes grandes para aprendermos de forma melhor. Mas para isso precisamos ter cuidado e esse critério de seleção: o que eu quero que chegue para mim, o que é importante para mim. E trazendo esse filtro, me parece que podemos— eu, por exemplo, recentemente eu gosto muito, como você sabe, cinema. Então no Instagram eu tenho um monte de conteúdo sobre melhores filmes japoneses, por exemplo, que recebo dicas assim da melhor cinematografia, da cinematografia melhor do mundo, do Japão, da Turquia, e posso aproveitar isso. Mas basta também fazer certos filtros.

LPLuciano Pires

Comentar. Quer dizer, você tem um trabalho de filtragem aí que até um tempo atrás você não tinha, porque você tinha acesso ao que era possível, né? Era tão restrito, era tão difícil que a hora que aparecia alguma coisa, eu vou ver. Hoje em dia tá tudo escancarado, então eu tenho que gastar tempo filtrando até para ensinar para o algoritmo o tipo de coisa que pode fazer com que o X seja algo nutritivo para mim, né?

ABAngelina Bejgrowicz

Mas que interessante aqui, porque quando paramos para pensar, muitas pessoas estão sempre nessa direção: antigamente era melhor, assim, nós fomos mais sérios, não tinha tanta bobagem. Tem essas falas muitas vezes que comparamos, sim, do presente com passado, e normalmente o presente é menos vantajoso, sim, quando comparamos. Mas me parece que é interessante que agora nós podemos fazer algo usando o nosso livre-arbítrio, escolhendo simplesmente.

Não temos algo dado que você não tem escolha agora, você precisa ler esses livros porque não tem outras. Hoje em dia você tem essa capacidade de escolha mesmo, de escolha, não fazer algo porque você precisa de fazer, precisa fazer, mas simplesmente porque você quer e escolhe fazer. Eu acho que é outra dimensão e chegamos a outro nível de responsabilidade para nós, porque eu posso tudo. Na verdade, hoje em dia, se eu quiser ir no restaurante polonês em São Paulo, eu posso, posso tudo. Agora, o que eu escolho fazer é uma dimensão interessante também.

LPLuciano Pires

É porque ela traz um nível de responsabilidade que a gente não tava acostumado a fazer. Eu tenho uma palestra minha que eu faço uma brincadeira com a turma, eu digo o seguinte, cara, você já subiu em cima de um prédio muito alto, uns subir e tal. Você já chegou bem na beiradinha do prédio para olhar para baixo? Já. O que é que você sentiu ali? E a resposta normal qual é? Medo. Medo do quê? Medo de cair. Não, cara, isso não é isso que você não tem medo de cair.

Você não vai cair, só você pular. O que aconteceu com você é que de repente você deu de cara com a seguinte possibilidade: se eu quiser pular Eu posso. E aí é que o pavor vem, entendeu? Se eu quiser pular, se eu que tá na minha mão, quando a responsabilidade cai no teu colo, essa liberdade, você não sabe o que fazer com ela. Netflix, eu abro a Netflix, tem 1 milhão de filmes lá, eu posso escolher qualquer um. Me dá uma mão na cabeça e eu gasto 1 hora e meia procurando um filme de 1 hora para assistir, porque essa liberdade é muito pesada, cara.

Eu não sei usar. Eu prefiro que você me dê 3 opções para eu poder escolher e cuidar, resolver minha vida. Não me dê 10. Se você me der 10, eu vou ter que usar minha capacidade de julgamento e tomada de decisão. Vai doer, vou ter que pensar. E se o meu repertório for pobrezinho, eu não vou conseguir resolver. Então nós estamos tocando num tema aqui que é fundamental, filosófico até, inclusive. Tem uma, tem uma mudança do eixo de poder que se o poder antigamente era de algumas poucas redes de televisão, distribuidoras de cinema, etc. e tal, que eram muito poucas e colocavam no colo da gente o que elas queriam, ou seja, eu só consigo saber as notícias do Brasil através de 5 jornais, 5 rádios e 5 TVs e 5 revistas.

ABAngelina Bejgrowicz

Mas olha que isso é interessante de novo, porque recentemente eu li um filósofo, um russo Berdiaev, não sei se você conhece. Ele sempre falava muito sobre a liberdade, sobre a necessidade de ser livre, no sentido, claro, ele falava, ele foi exilado também. E também o que curioso, ele foi da mesma época mais ou menos que Ilyin, que totalmente democracia soberana do Putin e do Surkov é justamente pela filosofia do Ilin, que ele ensinava.

E do outro lado, totalmente total oposto, Berdiaev, que fala sobre liberdade, que a pessoa precisa ser livre. E uma coisa que ele falou muito interessante, que nós, a maioria, não, a maioria das pessoas não tem estrutura e responsabilidade para lidar com liberdade. Porque isso dá medo, dá medo. Esse seu exemplo com o prédio é muito poderoso, porque justamente nós temos essa escolha agora. E conectar isso com as narrativas, olha só, porque hoje em dia existe essa fama de pertencimento às narrativas.

É muito difícil de ser também livre intelectualmente, porque você quer pertencer. Se você fala o que pensa, você vai de repente sair de um grupo, do círculo, do circuito. Então me parece que esse tema de liberdade é muito profundo, ele atravessa todas as dimensões da nossa vida, tanto liberdade intelectual, pertencimento às narrativas, no que eu acredito, se eu me identifico, porque se eu não me identifico dessa narrativa, eu vou sair, vou ficar sozinho. Tudo também atravessa esses nossos instintos humanos de sobrevivência também.

LPLuciano Pires

E eu diria para você que essa discussão de liberdade, ela atingiu um nível de maturidade que é muito diferente do que era. Eu fui às ruas aqui no Brasil por liberdade no final dos anos 70, tava abaixo a repressão, aquela coisa toda. Que que eu dizia lá? Cara, eu quero poder falar o que eu quero. Hoje em dia não é mais isso. Não é que eu quero poder falar o que eu quero, Eu quero poder sobreviver no meio desse mundo de narrativas.

E não é só falar o que eu quero, entendeu? É ter a chance de receber a verdade do jeito que ela é. Ela não vem, ela vem empacotada. Eu tive uma experiência interessante quando começou o conflito Rússia e Ucrânia, que começou aquela pauleira toda. Então uns são pró-russos, o outro é pró-Ucrânia, um rolo. Eu fui tentar fazer um programa a respeito, né? E eu falei, cara, deixa eu entender o que tá acontecendo aqui. Quando eu comecei a mexer fui voltando nas raízes históricas, falei, cara, esse treco é tão enrolado, é tão, é tão confuso que eu não consigo mais apontar o dedo para o Putin e falar, seu invasor.

Eu falei, eu não vou conseguir apontar para ele porque tem um histórico aqui que se eu fosse ele talvez eu fizesse igual, entendeu? Ah, tô certo, errado? Não, é muito confuso a situação, né? Mas eu quero, eu preciso ter acesso a essa história Para poder não ser refém de narrativas, que é o grande ponto hoje em dia. O mundo inteiro tá assim, né? Tem alguém— eu até digo uma coisa: não se trata mais de contar uma boa história, não é mais isso.

Agora é contar bem qualquer história, não interessa se é verdade, se é mentira. Se eu conto bem, eu tô na frente.

ABAngelina Bejgrowicz

E outra coisa ainda, na narrativa tem uma camada de poder. Sim, porque não é somente questão de contar bem ou mal uma história, ou boa ou má história. É simplesmente também a questão de qual realidade nós vemos, em qual realidade nós vamos acreditar a partir de agora, a partir dessa narrativa. Porque essa história que nós assimilamos vai ser a nossa realidade, no que nós vamos acreditar. Então também essa perspectiva de poder Não é somente instrumento de comunicação, é instrumento de poder também.

E aqui outra dica, que tanto para você quanto para os nossos ouvintes aqui: eu adorei o filme que também foi recentemente, 2 meses atrás, nos cinemas aqui em São Paulo, O Mago do Kremlin. O Mago do Kremlin é novo, com um livro novo, relativamente novo, baseado no livro de um, ele não é politólogo, mas é um escritor italiano que ajuda aos políticos também, que ele tá muito envolvido na política, mas como uma pessoa que ajuda, não é político, não é politólogo, mas ajuda porque entende de política, principalmente para os políticos italianos.

Ele também vive na Suíça. Giuliano D'Am poli se chama esse autor e ele fez um livro, um livro escreveu um livro depois foi filmado nesse Mago do Kremlin sobre toda a trajetória a partir da mudança nos anos 90 na Rússia todas as mudanças na Rússia nos anos 90 com Yeltsin depois ressurgimento do Putin, ainda o mago na verdade do Kremlin. É claro, no filme não falam, e também no livro também não falam o nome, mas é baseado numa personagem que existe.

Não é Putin também lá, participa, mas lá é Surkov, um mago do Kremlin. É Surkov, ou seja, todo o arquiteto de todas as narrativas e e as maneiras de como se cria a realidade na Rússia, na Rússia. Então eu recomendo tanto o filme quanto— ele está disponível, me parece, na Netflix, O Mago do Kremlin.

LPLuciano Pires

Eu vou procurar hoje lá.

ABAngelina Bejgrowicz

É muito bom. E também o livro, o livro é maravilhoso também, dessa, dessa, dessa, dessa autora. Mas por que eu falo disso? Porque ele fala muito sobre essa questão do poder das narrativas. No que nós acreditamos. E o grande pulo do gato, na forma negativa com certeza, mas pulo do gato do Surkov, Baranov, no filme e no livro, foi que ele percebeu que hoje em dia não basta ter narrativa, basta colocar várias narrativas ao mesmo tempo e as pessoas vão batalhar qual narrativa vão escolher.

Então fazer um caos para que as pessoas não para que as pessoas não possam pensar.

LPLuciano Pires

Sim, você vai dividir para conquistar. Isso, dividir para conquistar. Muito bem, grande papo aqui, ó. O livro chama-se Inteligência Cultural, da Angelina Beigrovics.

ABAngelina Bejgrowicz

Muito bem, acertei?

LPLuciano Pires

Beigrovics, Angelina Beigrovics. Tá à venda na Amazon, todo lugar, tá disponível na Amazon.

ABAngelina Bejgrowicz

Agora estou escrevendo também a Inteligência Negocial, também para negociar melhor. No mundo tão interconectado para ter repertório.

LPLuciano Pires

Eu, e é um livro repleto de planilhas, tabelas aqui, não é um livro, não é um romance não, é muito cheio de exemplo aqui, muito legal.

ABAngelina Bejgrowicz

É um livro na verdade muito assim, também preciso esclarecer um pouco, é um livro para as pessoas que entram no mercado internacional, sim, para mostrar o quanto esse mundo é profundo e também complicado, complexo. Talvez melhor palavra seja complexo. E para tentar navegar melhor no mundo tão complexo, de tantas formas de perceber o mundo, entender o mundo, me parece que trouxe algumas reflexões para pensar sobre nós mesmos, como nós pensamos e por que pensamos como nós pensamos.

Também essa metacognição para nós começarmos a pensar por que eu me comporto dessa forma, e a partir disso também se conectar e entender o outro. Porque se nós queremos viver no mundo tão diverso, com as pessoas de culturas tão diversas, com pensamentos tão diversos, formas de se comportar, nós precisamos ter repertório. E esse repertório, nós até a morte vamos desenvolver, porque tem tantas coisas para aprender, para entender, para conquistar, que não tem fim essa.

Mas para encorajar essas pessoas, para terem interesse, essa curiosidade genuína de tentar entender esse outro, o outro, porque o repertório é infinito, né?

LPLuciano Pires

Você nunca gasta ele, né? Você põe para dentro e pode usar à vontade, que você nunca vai ficar sem ele, né? Muito legal. Quem quiser entrar em contato com você, conhecer você, ver as tuas redes sociais, onde é que você tá? Como é que a gente acha?

ABAngelina Bejgrowicz

Eu estou no LinkedIn, principalmente no LinkedIn, mas também tenho alguns conteúdos no Instagram, no Facebook, tenho site também, mas eu recomendo mais LinkedIn.

LPLuciano Pires

Aí você tá lá como @angelinabeira. Então eu recomendo a você que olhe aqui a thumbnail para ver direitinho como é que escreve o sobrenome dela, polonês, né? E acompanhar lá. Que legal, excelente, adorei aqui. Vou dar uma olhada nesse livro com carinho. Espero que Espero que você goste. Ah, vou gostar. Continue seu trabalho aí, que muito legal. Você tá na Fundação Dom Cabral, né, dando aulas lá, né? Legal, muito bom. Bem-vinda, muito obrigado, viu?

Obrigada. Muito bem, termina aqui mais um Lidercast. A transcrição deste programa você encontra no lidercast.com.br. Você ouviu o Lidercast com Luciano Pires, mais uma isca intelectual do Café Brasil. Acompanhe os programas pelo portal cafebrasil.com.br.

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