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Café Brasil Expresso 1036 - O bode expiatório

01 de julho de 202615min
0:00 / 15:23

Um homem rouba um pão e passa o resto da vida carregando um rótulo. A partir dessa história de "Os Miseráveis", este episódio mergulha na teoria de René Girard para mostrar como sociedades em crise escolhem bodes expiatórios para aliviar suas tensões. De Jean Valjean a Rivellino, de Wilson Simonal a Bolsonaro, passando pelas redes sociais e pela política, uma reflexão sobre nossa necessidade de encontrar culpados e o risco de transformar pessoas em símbolos de problemas muito maiores do que elas.

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Participantes neste episódio2
L

Luciano Pires

Host
J

Julián Gutiérrez

Convidado
Assuntos4
  • A Expiação e RedençãoDesejo mimético · Escolha de culpados · Alívio social · Transformação de pessoas em símbolos
  • Redes Sociais PoliticaBolsonaro · Redes sociais · Cancelamento · Monark · Apologia ao nazismo
  • Casamento e submissão no contexto bíblicoLevítico · Yom Kippur · Transferência de culpas
  • Ouvinte Julián Gutiérrez e o alcance internacional do podcastJulián Gutiérrez · Chile · Venezuela · Aulas de português
Transcrição5 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async
?Voz A

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Publicado em 1862, Os Miseráveis acompanha a França do início do século 19, Um país marcado pela pobreza, pelas desigualdades e pelas consequências da Revolução Francesa. No centro da história está Jean Valjean, que rouba um pão para alimentar a família. É um crime, não tem como negar, mas o que acontece depois é muito mais interessante do que o próprio roubo. A sociedade decide que aquele homem deve carregar para sempre a marca daquele ato.

Valjean é preso Cumpre pena, sai da prisão e descobre que a condenação não terminou. Ela apenas mudou de forma. Seu documento o identifica como ex-presidiário. As portas se fecham. Os empregos desaparecem. As pessoas o evitam. Não importa quem ele é. Importa quem disseram que ele é. Uma das cenas mais marcantes ocorre logo após Jean Valjean sair da prisão. Depois de 19 anos encarcerado, ele vaga pela cidade carregando um documento que o identifica como ex-presidiário.

Rejeitado em hospedarias e casas, encontra abrigo na residência do bispo Miriel. Durante a noite, dominado pelo ressentimento e pela desconfiança, Valjean rouba talheres de prata da casa e foge. Capturado pela polícia no dia seguinte, ele é levado de volta diante do bispo. Os policiais esperam que o religioso confirme o roubo Mas em vez disso, o bispo afirma que havia dado a prata de presente a Valjean e acrescenta que ele esqueceu de levar dois valiosos castiçais.

A polícia então o libera. Quando ficam a sós, o bispo diz, em essência, que está comprando a alma de Valjean para Deus e que ele deve usar essa segunda chance para se tornar um homem honesto. É um momento decisivo porque, pela primeira vez em muitos anos, alguém se recusa a enxergá-lo apenas como um criminoso. E a partir dali começa sua transformação. A certa altura da história percebemos algo muito curioso: o problema já não é o pão roubado, é a necessidade que a sociedade tem de continuar enxergando naquele homem a personificação do crime.

É como se a comunidade precisasse dele naquele papel. E foi aí que eu me lembrei de René Girard. Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil Expresso e eu sou Luciano Pires. Posso entrar?

?Voz B

Olha, já vai começar o programa. Não, não quero ser um cocô.

?Voz A

René Girard foi um pensador francês que ficou conhecido por uma ideia simples e perturbadora: nós aprendemos a desejar ativando os desejos dos outros. Ele chamou isso de desejo mimético. Quando muitas pessoas passam a desejar as mesmas coisas, como poder, prestígio, reconhecimento, surgem rivalidades que podem contaminar toda a sociedade. Mas Girard também fez uma outra reflexão fundamental: quando uma comunidade enfrenta tensões, conflitos, medos e incertezas, Ela tende a concentrar tudo isso numa pessoa ou num grupo específico.

Em vez de encarar a complexidade do problema, ela escolhe um culpado. Em vez de investigar as causas profundas do conflito, encontra alguém para carregar o peso delas. Nasce assim o que Girard chamou de bode expiatório. O mais fascinante é que o bode expiatório nem precisa ser inocente, e essa é uma das partes mais mal compreendidas da teoria. Jean Valjean realmente roubou o pão, mas a questão não é essa. A questão é que um pequeno delito passa a explicar tudo.

Um homem deixa de ser uma pessoa para se transformar num símbolo. Sua culpa cresce até ficar maior do que ele próprio. É então que o mecanismo se torna visível. O grupo não procura apenas justiça, procura alívio. Procura alguém sobre quem possa depositar seus medos, suas frustrações e suas inseguranças. Ao transformar uma pessoa em culpada absoluta, todos os outros ficam relativamente inocentes. O problema passa a morar na pessoa.

Isso não acontece apenas nos romances do século 19, não, mas nas empresas, quando um único executivo é responsabilizado por uma cultura inteira que produziu determinado escândalo. Acontece na política, quando um líder vira a explicação para problemas que vinham sendo construídos há décadas. Acontece nas redes sociais, quando multidões escolhem alguém para cancelar, expulsar ou silenciar. O ritual é sempre parecido: primeiro surge a acusação, depois a unanimidade, em seguida vem a satisfação moral de participar da condenação e, por fim, uma estranha sensação de paz, como se a remoção daquela pessoa tivesse resolvido o problema.

Mas, cara, raramente resolve, porque o bode expiatório não elimina o mecanismo que produziu a crise, ele apenas o esconde. E talvez seja por isso que Os Miseráveis continue tão atual. Victor Hugo não escreveu apenas sobre pobreza, injustiça ou redenção, ele escreveu sobre a nossa extraordinária capacidade de transformar seres humanos em recipientes para aquilo que não queremos representar em nós mesmos. A reflexão que Girard nos convida a fazer é outra: quando todos concordam sobre quem deve ser condenado, será que finalmente encontramos o culpado ou apenas escolhemos o próximo bode expiatório, hein?

?Voz B

Bom dia, Luciano. Aqui tá falando Julian, do Chile. Eu sou venezuelano, mas estou morando aqui no Chile há 10 anos. Eu conheci com minhas aulas de português, um tipo de live que elas fizeram uma dica para mim de escutar o Café Brasil, que agora eu sou ouvinte do programa. Então, ainda não sou assinante, mas eu acho que isso vai tornar pronto, as coisas melhorado aqui para mim, no trabalho agora. Eu acho que vou poder curtir aí a assinatura do Café Brasil.

Sou muito contente, gosto muito do teu trabalho. Espero que leia o português aí para entender um pouco. E vida longa, como fala a gente, vida longa para o Café Brasil. Gosto muito desse ponto de vista de você e dos que falam no programa. Eu acho que aqui você tem que tornar alguma vez para o programa espanhol, que a gente, eu acho que vai gostar muito, porque as coisas que você fala estão acontecendo no mundo inteiro, não? Então não só no Brasil, no mundo inteiro, no Chile, na Argentina, na Venezuela, na Colômbia.

Então eu acho que você pode ter um alcance muito, muito longo para todas as pessoas que precisam agora mesmo de escutar uma pessoa que seja auditiva, que fale das coisas incômodas que a gente não quer falar na vida comum. Bom, muito obrigado pelo teu trabalho, espero que pronto possa me assinar como assinante de você. Eu acho que falei mal aí. Tchau, tchau!

?Voz A

Esse é o Julián Gutiérrez, grande Julián, venezuelano que vive no Chile, cara. Primeiro, Julián, parabéns pelo seu português, viu? Você não apenas se faz entender, como consegue transmitir algo que vale muito para mim, ó: a sensação de que o Café Brasil ultrapassa fronteiras. Saber que um venezuelano vivendo no Chile encontrou o programa durante aulas de português e hoje acompanha esse trabalho é uma daquelas histórias que dão sentido para tudo que a gente faz.

Gostei especialmente daquela sua observação de que os temas que discutimos não são apenas brasileiros. Quanto ao espanhol, cara, a ideia me seduz há muito tempo. Eu não tenho espanhol suficiente para gravar o programa. Já tentei usar a IA para transformar em espanhol e inglês, mas o resultado ainda é sofrível. Uma hora chega lá. Por enquanto, eu fico feliz em saber que o português está servindo como ponte entre nós. Muito obrigado pelo carinho, pela audiência e pela generosidade das palavras, viu?

Desejo que sua vida continue melhorando no Chile e espero recebê-lo em breve como assinante do Café Brasil. Um grande abraço! A expressão bode expiatório vem de um antigo ritual descrito na Bíblia, no livro de Levítico. Durante o Yom Kippur, que é o dia da expiação dos judeus, os pecados do povo eram simbolicamente colocados sobre um bode, que depois era enviado para o deserto. Era como se a comunidade transferisse suas culpas para aquele animal.

Com o tempo, bode expiatório passou a significar uma pessoa ou grupo que recebe a culpa por problemas que pertencem a muita gente. Girard acreditava que isso continua acontecendo até hoje. Olha, pensa aí numa escola em que existe um clima ruim entre os alunos. Em vez de discutir as causas do problema, todos passam a culpar um único colega. A atenção do grupo se concentra então naquela pessoa. Segundo Girard, esse mecanismo produz uma ilusão poderosa.

Quando o culpado é punido, a tensão diminui. E como a tensão diminuiu, as pessoas concluem que ele era realmente a causa de todos os problemas, entendeu? Mas isso aí, cara, nem sempre é verdade. O bode expiatório pode ter cometido erros, sim. A questão é que a culpa costuma ser exagerada até se tornar maior do que ele próprio. É por isso que Girard nos convida a desconfiar dos momentos de unanimidade. Quando todo mundo parece absolutamente certo sobre quem é o culpado, talvez seja hora de perguntar se estamos diante de um problema real ou de uma necessidade coletiva de encontrar alguém para carregar um peso que pertence a todos.

Essa ideia ajuda a entender muitos fenômenos atuais. Nas redes sociais, por exemplo, basta alguém cometer um erro para que milhares de pessoas passem a tratá-lo como a origem de todos os males. O debate desaparece e surge o ritual da condenação. Olha, como aconteceu com o apresentador do programa Flow, Monark, que foi acusado de apologia ao nazismo, mesmo tendo dito explicitamente que considerava o nazismo do mal. O mesmo acontece em discussões políticas.

Às vezes, a palavra nazista, fascista, comunista ou qualquer outro rótulo deixa de servir para descrever uma ideia e passa a servir para encerrar a conversa. Depois que o rótulo é aplicado, já não é preciso mais discutir argumentos, basta excluir a pessoa do debate. Girard não dizia que não existem culpados, nem que toda acusação é injusta. O que ele queria mostrar é algo mais profundo: seres humanos têm uma tendência permanente a simplificar problemas complexos escolhendo alguém para culpar.

O mecanismo muda de roupa ao longo da história, mudam os slogans, mudam os símbolos e os grupos envolvidos, mas a lógica permanece a mesma: enquanto todos olham para o culpado escolhido, quase ninguém olha para si mesmo. Olha, eu vou continuar essa reflexão na parte exclusiva para assinantes, que vai tá grande, cara, tem muito mais exemplos e algumas recomendações sobre o que fazer para não cair na narrativa do bode expiatório.

Aqui termina o Café Brasil, que é produzido por 4 pessoas: eu, Luciano Pires na direção e apresentação, Lala Moreira na técnica, Cissa Camargo na produção, e é claro, você aí que completa o ciclo. De onde vê esse programa tem muito mais, e se você gosta do podcast, imagine só uma palestra ao vivo. E eu já tenho mais de duzentas no currículo. Conheça os temas que eu abordo no mundocafebrasil.com. Mande um comentário de voz pelo WhatsApp no 11 964 294746.

E também estamos no Telegram com o grupo Café Brasil. Para terminar, uma adaptação da obra de René Girard: a perseguição coletiva é a forma mais antiga de criação de unidade social. Café Brasil.

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