Cafe Brasil Expresso 1041 - O efeito Cobra
A história das cobras de Délhi mostra como uma solução aparentemente racional pode criar incentivos para ampliar o problema que pretendia eliminar. A partir do chamado Efeito Cobra, o episódio aproxima Frédéric Bastiat, a vidraça quebrada, os programas sociais, a inflação e a encenação política descrita por Bezerra da Silva em “Candidato Caô Caô”. O fio que une esses exemplos está na diferença entre aquilo que o poder exibe e os custos que permanecem espalhados, sem rosto e sem cerimônia. A investigação não condena o amparo aos vulneráveis, mas pergunta quando a ajuda deixa de ser ponte e passa a depender da permanência do próprio problema.
Host: Luciano Pires - @lucianopires – lucianopires.com.br
Takeaways
- Políticas públicas podem fracassar quando recompensam indicadores visíveis sem considerar os comportamentos que esses incentivos produzirão.
- O benefício entregue pelo governo é facilmente identificado, enquanto seus custos aparecem diluídos em impostos, inflação, dívida e oportunidades que não chegaram a existir.
- Uma política social deve ser avaliada não apenas por quantas pessoas alcança, mas por sua capacidade de conduzi-las da proteção para a autonomia.
Capítulos
As cobras de Délhi
Quando a solução alimenta o problema
A vidraça de Bastiat
O benefício que aparece
A conta que se mistura à vida
O candidato que visita a pobreza
Quando o amparo não conduz à saída
Quem mantém o criadouro funcionando
Links relevantes
- Mundo Café Brasil: https://mundocafebrasil.com
• Livraria Café Brasil: https://livrariacafebrasil.com.br
See omnystudio.com/listener for privacy information.
- Compra de votos e corrupção política· PoliticaBenefícios personalizados · Débitos anônimos · Inflação · Oportunidades perdidas
- Impacto da cobra na culturaEfeito Cobra · Índia · Recompensa por cobras mortas · Criação de cobras em cativeiro
- Mudancas Economicas· EconomiaCarestia de alimentos · Crédito caro · Insegurança econômica · Lula
- Redução da Dependência de Programas SociaisTransferência de renda · Custos dispersos · Autonomia vs. dependência · Bolsa Família
- A vidraça quebrada de BastiatFrédéric Bastiat · O que se vê e o que não se vê · Custos ocultos de políticas públicas
- Painéis de vidro na USPJoão Gomes · Carreira acadêmica USP · Vandalismo e morte de aves
- Narrativa e Perspectivas Conflitantes· SociedadeMachado de Assis · Captura por narrativas · Algoritmos
Você que pertence ao agronegócio ou está interessado nele precisa conhecer a Terra Desenvolvimento. A Terra oferece métodos exclusivos para gestão agropecuária, impulsionando resultados e lucros com tecnologia inovadora. A equipe da Terra proporciona acesso em tempo real aos números de sua fazenda. Permitindo estratégias eficientes. E não pense que a Terra só dá conselhos e vai embora, não. Ela vai até a fazenda e faz acontecer.
A Terra executa junto com você. E se você não é do ramo, está interessado em investir no agro, a Terra ajuda a apontar qual atividade melhor se encaixa no que você quer. Descubra uma nova era na gestão agropecuária com a Terra Desenvolvimento. Transforme sua fazenda num empreendimento eficiente, lucrativo e sustentável. Terra.desenvolvimento.com.br. Há 25 anos colocando a inteligência a serviço do agro. Imagine a cidade de Dili durante o domínio britânico na Índia.
Não era a metrópole congestionada que a gente conhece hoje, não, com seus milhões de habitantes, avenidas tomadas por automóveis e prédios modernos. Era uma cidade ainda cercada por terrenos abertos, vielas estreitas, mercados ao ar livre e casas onde o limite entre o espaço urbano e a natureza era muito menos definido. A presença de cobras venenosas preocupava as autoridades coloniais. A solução parecia tão lógica que provavelmente foi aprovada sem muita discussão.
O governo pagaria uma recompensa por cada cobra morta entregue aos funcionários britânicos. O raciocínio cabia numa linha, cara: se matar cobras desse dinheiro, mais pessoas passariam a caçá-las. Quanto mais caçadores, menos cobras. Quanto menos cobras, mais segura ficaria a cidade. E durante algum tempo, os números pareciam confirmar o plano. Homens começaram a aparecer diante dos postos do governo carregando serpentes mortas.
As autoridades contavam os animais, pagavam as recompensas e registravam o resultado. Dia após dia, o volume de cobras entregues aumentava. Para quem observasse apenas aquelas planilhas, a política pública era um sucesso. Mas tinha alguma coisa estranha, cara. Se tantas cobras estavam sendo eliminadas, por que que continuavam chegando em quantidade cada vez maior? A resposta teria sido descoberta algum tempo depois. Alguns moradores perceberam que caçar cobras na natureza era trabalhoso, perigoso e imprevisível.
Criá-las em casa era muito mais eficiente. Surgiram então pequenos criadouros clandestinos. As serpentes nasciam em cativeiro, eram alimentadas até atingir o tamanho adequado, mortas e entregues ao próprio governo, que desejava eliminá-las. Os britânicos pensavam estar financiando caçadores, na prática haviam criado um mercado de produção de cobras. Quando as autoridades perceberam a fraude, tomaram outra decisão que também parecia óbvia: cancelaram imediatamente a recompensa.
E nesse momento, as cobras mantidas nos criadouros perderam o seu valor. Já não havia razão para alimentá-las e muito menos para continuar correndo o risco de mantê-las dentro de casa, né? Seus donos então fizeram o que parecia mais conveniente: abriram as gaiolas e soltaram os animais. Segundo a história, Dili terminou com mais cobras do que tinha antes. Olha, a gente não sabe exatamente quando é que isso teria ocorrido, não.
Não conhecemos o nome do funcionário que propôs a recompensa, o valor que foi pago e nem quantas cobras foram entregues. Na verdade, pesquisadores que procuraram documentos da época não encontraram provas suficientes de que a criação em cativeiro tenha acontecido daquela maneira. A história, porém, atravessou o tempo. Em 2001, o economista alemão Horst Silbert deu a ela um nome ao publicar o livro O Efeito Cobra. A expressão passou a designar aquelas situações em que uma solução não apenas fracassa, mas cria incentivos para que o problema se torne ainda maior.
A autoridade olha para o resultado que deseja, oferece uma recompensa e presume que as pessoas agirão conforme sua intenção. Só se esquece de que ninguém responde às intenções. As pessoas respondem aos incentivos. Talvez a história das cobras nunca tenha acontecido exatamente assim, mas basta olhar ao redor para perceber que o mecanismo descrito por ela acontece todos os dias. Criamos uma regra para reduzir um problema e alguém aprende a lucrar com a regra.
Escolhemos uma medida para avaliar o desempenho e as pessoas começam a trabalhar para melhorar a medida. E não o desempenho. Oferecemos ajuda para aliviar uma dificuldade e, sem perceber, tornamos mais vantajoso conservar a dificuldade do que superá-la. Foi isso que Frédéric Bastiat tentou nos ensinar quando escreveu sobre aquilo que se vê e aquilo que não se vê. As autoridades britânicas viam as cobras mortas chegando aos postos de coleta.
Era o resultado imediato, concreto, contável. O que não viam eram os criadouros sendo montados atrás das casas. E talvez seja justamente aí que começam muitos dos nossos problemas, no momento em que confundimos aquilo que conseguimos contar com aquilo que realmente está acontecendo. Bom dia, boa tarde, boa noite! Este é o Café Brasil Expresso e eu sou Luciano Pires. Posso entrar? Olha, já vai começar o programa! Não, não quero ser um Eu me lembrei de um exemplo recente, bem brasileiro, que ajuda a enxergar a diferença entre intenção e consequência.
Em 2018, a Prefeitura de São Paulo, na gestão João Dória, anunciou a substituição de boa parte do muro da Raia Olímpica da USP por painéis de vidro. A ideia parecia muito moderna, né? Abrir a paisagem, integrar a cidade ao espaço universitário, trocar a barreira opaca por transparência. Ia ficar lindo, cara! E o que se via era bonito, simbólico, quase uma peça de propaganda sobre uma cidade mais aberta. Como é que ninguém nunca pensou nisso antes, cara?
Dória mobilizou empresas que fizeram doações e logo a parede de vidros foi instalada. O que não se viu apareceu depois. Os vidros se rompiam com a trepidação do trânsito e com a ação de vândalos, e ainda provocavam a morte de aves por colisão. Com a saída de Dória, as empresas doadoras abandonaram o projeto, obrigando a USP a assumir o prejuízo. Em 2022, ela precisou investir mais de R$3 milhões para instalar grades e criar um corredor verde.
No fim, A solução estética pensada para substituir um muro terminou produzindo novos custos, novos riscos e a necessidade de construir outra barreira. Não foi falta de boa intenção, não. Foi falta de atenção aos efeitos que não cabiam na fotografia da inauguração. É assim que o efeito cobra costuma começar. Esta semana fiz uma das reuniões online do meu MLA. E propus uma conversa para entender como o momento político e econômico está sendo sentido por cada um dos participantes.
Temos empreendedores, altos executivos de grandes multinacionais, de bancos, médicos, enfim, uma representação interessante da sociedade. Foram quase unânimes: a situação econômica está além de preocupante, todos temem pelo futuro. E aí eu perguntei como os clientes deles estavam reportando, e o cenário foi o mesmo: não sabem como a população mais pobre está comendo. Uma ida ao supermercado é um susto atrás do outro. Compra-se hoje com R$100 o que se comprava com R$50 2 ou 3 anos atrás.
E eu fiquei pensando, cara, se a gente acreditar na pesquisa da opinião pública que aparece por aí, o que a mídia distribui por aí, né, um parênteses aqui, eu não acredito mesmo, né. Existe algo aparentemente contraditório no apoio que o Lula ainda conserva entre parcelas da população mais atingidas pela carestia. O preço da comida pesa, o crédito continua caríssimo e a sensação de insegurança econômica acompanha muita gente até o fim do mês.
E ainda assim, o governo consegue se apresentar justamente como defensor daqueles que mais sentem esses problemas. Olha, a explicação mais cômoda seria dizer que o eleitor não percebe a realidade, né? Mas isso não parece verdadeiro, não? Quem vive com o orçamento apertado conhece o preço do arroz melhor do que qualquer economista. Não é preciso acompanhar o Banco Central para descobrir que o dinheiro está acabando antes do final do mês.
A realidade é percebida. O que nem sempre é percebido é a relação entre suas causas. Em O que se vê e o que não se vê, publicado em 1850, O economista, jornalista e deputado francês Frédéric Bastiat propõe uma distinção simples: toda decisão econômica produz consequências imediatamente visíveis e outras que permanecem escondidas. Um mau economista, dizia ele, observa apenas o primeiro efeito, o visível. O bom economista tenta enxergar também aquilo que não aconteceu, o recurso que foi retirado de outro lugar e as possibilidades que desapareceram pelo caminho.
Seu exemplo mais conhecido é o da vidraça quebrada. Um menino quebra a janela de uma loja. Alguém observa que o prejuízo ao menos dará um trabalho ao vidraceiro. O serviço do vidraceiro é o que se vê. O que não se vê é aquilo que o comerciante teria feito com o dinheiro que ele usou para pagar o vidro, caso não precisasse consertar a janela. Talvez comprasse um sapato, ampliasse o estoque ou guardasse o valor. A janela nova aparece, o sapato que deixou de ser comprado não aparece.
No Café Brasil 448, O que se vê e o que não se vê, eu mergulhei fundo na obra de Bastiat. Muito bem, o mecanismo político funciona de maneira semelhante. Quando o governo deposita um benefício na conta de uma família, a transferência é concreta. Há uma data, um valor, um aplicativo e uma autoridade disposta a assumir a autoria. O dinheiro recebido é o que se vê. O que não se vê é de onde vieram aqueles recursos, quanto custou a estrutura usada para distribuí-los e quais atividades deixaram de acontecer porque parte da renda da sociedade foi transferida para o Estado.
Não se vê o investimento adiado, o emprego que não foi criado, o produto que ficou mais caro, O pequeno negócio que não abriu ou a dívida pública que será paga no futuro. Isso não significa que programas sociais sejam necessariamente ruins. Bastiat não nos obriga a concluir que toda transferência de renda seja ilegítima, não. Ele nos obriga a fazer uma pergunta que a propaganda prefere evitar: além da família que recebeu, quem pagou, quanto pagou e o que deixou de fazer com esse dinheiro?
Em junho de 2026, a inflação acumulada em 12 meses permanecia acima do centro da meta, com alimentação e habitação entre os grupos que pressionavam os preços. Detalhe: essa é a inflação das planilhas dos técnicos do governo, que é muito diferente da inflação que o povo sente direto no bolso. O próprio Banco Central reconhecia que a alta recente vinha sendo impulsionada principalmente por alimentos e combustíveis. Nada disso cabe numa fotografia de entrega de benefício.
O governo pode apresentar R$100 transferidos, mas não consegue mostrar com a mesma facilidade os R$5 perdidos aqui, os R$8 ali, a compra parcelada com juros maiores ou o salário que não acompanhou o custo de vida. O cidadão sente essas perdas, naturalmente, mas elas não chegam acompanhadas de uma etiqueta que identifique o responsável. O que se vê tem autor, o que não se vê parece obra do destino. Essa é uma parte importante da permanência do apoio político.
O eleitor não precisa acreditar que a sua vida está boa, basta acreditar que sem aquele governo ela estaria ainda pior. O benefício deixa de ser avaliado em relação ao custo que ajudou a produzi-lo e passa a ser comparado com o medo medo de perdê-lo. Eu vou repetir, ó: o benefício deixa de ser avaliado pelo custo de produzi-lo e passa a ser comparado com o medo de perdê-lo. A política social então adquire uma força que vai além do seu valor econômico.
Ela estabelece uma relação moral. O governo não aparece como administrador de recursos retirados da própria sociedade, mas como entidade generosa que concede alguma coisa aos necessitados. Quando um político afirma que deu dinheiro aos pobres, quase ninguém pergunta de quem ele retirou o dinheiro. Menos gente ainda pergunta se parte dos pobres não está pagando a própria ajuda por meio dos impostos sobre consumo, da inflação e da menor oferta de oportunidades.
A transferência é tratada como um presente, embora o governo não produza os recursos dos recursos que distribui. O Estado lembra um garçom que recolhe comida de todas as mesas, monta um prato com o que tirou e depois exige aplausos por ter servido o jantar. É tentador transformar essa constatação numa condenação exclusiva da esquerda ou de Lula, não é? Pois é, cara. O problema é que o mecanismo é mais antigo e mais amplo. Governos de diferentes partidos gostam de exibir benefícios concentrados e esconder custos dispersos.
Subsídios empresariais, proteções setoriais, obras públicas, desonerações seletivas e privilégios corporativos obedecem a mesma lógica: quem recebe sabe exatamente o que ganhou. A população que paga raramente percebe sua pequena parcela da conta. Cara, mas no caso do Lula Essa assimetria encontrou uma narrativa especialmente eficiente. Durante décadas, o petismo construiu a imagem de que seus programas representam não uma política pública entre outras possíveis, mas a própria presença da compaixão do Estado.
Criticar o desenho, os custos ou os efeitos desses programas passa a soar como uma crítica às pessoas pobres. Com isso, a discussão econômica econômica é transformada numa disputa moral. De um lado, com o painho, estaria quem protege, e do outro, o fascista que tripodia sobre os pobres. Desaparece do debate justamente a pergunta bastiatiana: o que não estamos vendo?
Oi, Luciano, bom dia, tudo bem? Tô aqui hoje novamente passando Porque há pouco tempo eu mandei um áudio para você também parabenizando pelo episódio humilde do Café Brasil, e convido todas as pessoas a ouvirem aquele podcast, que é um dos melhores que eu ouvi até hoje. Mas o áudio que eu tô enviando hoje é para falar um pouquinho sobre o episódio O Anjo Rafael, e eu quero te parabenizar pela reflexão. Eu gostei muito que você partiu do de Machado de Assis para falar de um tema tão atual, né?
Essas realidades paralelas que a gente vê sendo criado por grupos, ideologias, até algoritmos, né? E o episódio me fez pensar bastante sobre como é fácil a gente ser capturado por uma narrativa quando ela confirma aquilo que queremos acreditar, né? Então foi daqueles conteúdos que ficam ecoando depois que acaba. Parabéns pela profundidade, pela clareza e pela forma que você conseguiu ligar literatura com comportamento humano e o nosso, o nosso tempo, né, de hoje.
Então, mesmo escrito há tanto tempo, é muito atual. Sucesso para você e vida longa ao Café Brasil.
Esse é o Rafael Liston. Obrigado pela escuta tão atenta, meu caro. Esse ponto das realidades paralelas se conecta diretamente com o episódio de hoje. Muitas vezes a gente não enxerga a realidade como ela é, mas como os incentivos, os grupos e os algoritmos nos ensinam a percebê-la. Olha, dessa vez a gente foi de Machado de Assis para Frédéric Bastiat, que chamava atenção para aquilo que se vê e aquilo que permanece escondido. O desafio é justamente esse: escapar da narrativa confortável e procurar os efeitos invisíveis das ideias, das escolhas e das políticas que a gente defende.
Grande abraço, Rafael, muito obrigado pela audiência, viu? Então, não estamos vendo apenas o dinheiro retirado dos contribuintes, né? Também não vemos os incentivos criados, as escolhas alteradas e as reformas adiadas. Um programa que deveria servir como ponte pode acabar tratado como destino permanente. O sucesso deixa de ser medido pela quantidade de pessoas que conquistaram autonomia e passa a ser anunciado pelo crescimento do número de beneficiários.
Isso parece familiar a você, hein? Pois é, cara, é preciso alguma cautela nesse ponto, no entanto, tá? Olha, pesquisas sobre o Bolsa Família não sustentam uma explicação única e simples. Aqui e ali aparecem estudos que encontram a melhora na inserção de beneficiários no mercado de trabalho, enquanto outros estudos identificam efeitos diferentes conforme o setor o valor da transferência e as características locais. A relação entre assistência e emprego é mais complexa do que a percepção segundo a qual todo benefício necessariamente produz dependência.
Tem que olhar com cuidado, né? O risco político não está exatamente na existência do socorro, não. Está na construção de um sistema em que o governante reivindica a paternidade do auxílio e se recusa a assumir qualquer responsabilidade pelas condições que tornam o auxílio indispensáveis, entendeu? Quando os preços sobem, a culpa é do mercado, do clima, dos empresários, do exterior ou da administração anterior. Quando o benefício é pago, o mérito pertence ao governo.
As perdas não têm pai, o pagamento aparece em cerimônia de família. E assim não é necessário que o eleitor ignore a carestia, não. Ele pode percebê-la perfeitamente e ao mesmo tempo atribuí-la a forças distantes, ao nós contra eles, ao empresário malvadão, ao Elon Musk, enquanto associa o dinheiro recebido diretamente à figura do presidente. É uma contabilidade política em que créditos são personalizados e os débitos permanecem anônimos.
Bastiat provavelmente diria que estamos olhando apenas para vidraça. Vemos o benefício depositado, mas não vemos a renda consumida pelos preços. Vemos a obra inaugurada, mas não vemos o negócio que deixou de receber investimento. Vemos o subsídio, mas não vemos o concorrente que paga impostos para financiá-lo. Vemos a família amparada neste mês, mas não vemos as condições econômicas que poderiam torná-la independente nos próximos anos.
A grande disputa política, portanto, não acontece somente em torno da distribuição de recursos, não. Acontece em torno da capacidade de ligar os efeitos visíveis as causas invisíveis. Lembra da história das cobras? O governo olha para o número de beneficiários e apresenta o crescimento como prova de cuidado social, mas raramente pergunta se suas próprias escolhas econômicas estão ajudando a produzir mais pessoas dependentes do auxílio.
Lá em Dili, na Índia, contavam-se cobras mortas enquanto se criavam cobras escondidas. Na política, Contam-se benefícios pagos enquanto permanecem invisíveis os empregos que não surgiram, a renda corroída e autonomia que não chegou. E aí vem a pegadinha, né? Enquanto o governo conseguir separar aquilo que ele entrega daquilo que ele retira, poderá se apresentar como a solução mesmo quando participa da produção do problema. Porque, meu caro, sentir uma perda é diferente de compreender as sua origem.
O supermercado mostra a conta, o governo mostra o benefício. Entre os dois existe uma cadeia de escolhas econômicas, impostos, gastos, dívidas, incentivos e oportunidades perdidas que raramente aparece na propaganda. É nesse espaço invisível que se forma boa parte do poder político. Então, em vez de tentar descobrir por que alguém apoia Lula mesmo vivendo a carestia, a gente tem que ir atrás de algo muito mais difícil: como permitir que o cidadão enxergue ao mesmo tempo o dinheiro que entrou na sua conta e tudo aquilo que precisou desaparecer para que ele chegasse até lá?
Dá para fazer alguma especulação, mas isso estará na versão desse episódio aqui que vai exclusivamente para assinantes. Você não assinou ainda não? Tá esperando o quê? Que a cobra te pegue? Vai lá, mundocafebrasil.com. Aqui termina o Café Brasil, que é produzido por 4 pessoas: eu, Luciano Pires, na direção e apresentação; Lala Moreira na técnica; Cissa Camargo na produção; e é claro, você aí que completa o ciclo. De onde vê esse programa?
Tem muito mais. E se você gosta do podcast, imagine só uma palestra minha ao vivo. Eu já passei das 1.300, cara. Conheça os temas que eu abordo no mundocafebrasil.com. Mande um comentário de voz pelo WhatsApp no 11 96429-4746. E também estamos no Telegram com o grupo Café Brasil. Para terminar, uma frase de Bastiat: na economia, aquilo que não é visto costuma ser mais importante do que aquilo que se vê.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Sponsored by Chumba Casino. No purchase necessary. VGW Group. Void where prohibited by law. 21+. Terms and conditions apply.
Terra Desenvolvimento Agropecuário
Gestão agropecuária