EP 91 - Troca de folhas
Tem terreiro que acredita que consegue caminhar sozinho. Que axé se sustenta sem troca. Mas Umbanda nunca foi tocada no isolamento. Ela nasceu do encontro, da circulação, da partilha de saberes, folhas, experiências e sobrevivências.
Quando um terreiro se fecha nele mesmo, todo mundo perde um pouco. Porque o conhecimento para de circular, as lideranças ficam sozinhas e a comunidade enfraquece sem perceber. Axé parado enfraquece. Axé compartilhado se expande.
Intercâmbio de saberes é entender que visitar outro terreiro não ameaça fundamento nenhum. Trocar experiências não diminui casa nenhuma. Pelo contrário: fortalece visão, amplia escuta e cria rede. E rede sustenta.
A gente precisa voltar a conhecer os terreiros da nossa cidade, saber quem são as lideranças que seguram esse chão junto com a gente, criar vínculos reais e parar de transformar tudo em disputa de ego.
Neste episódio de Risca Ponto, conversamos sobre isso.
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Dario Forguieri
Caioan Cerqueira
- Troca de folhas na UmbandaImportância do intercâmbio de saberes entre terreiros · Riscos do isolamento e do egoísmo nos terreiros · Fortalecimento da comunidade através da circulação de axé · Visitar outros terreiros não ameaça fundamento · Rede de apoio e sustentação entre lideranças
- A importância da comunidade e do encontroMacumba acontece no corpo em movimento, na escuta, na relação · Relação de verdade só existe com encontro e comunidade · Responsabilidade coletiva como prática e convívio · Sair da bolha para fazer a Umbanda crescer
- A dimensão política da Umbanda e dos terreirosPolítica decide quem tem direito de existir com dignidade · Terreiro como território político · Lidar com moradia, racismo, intolerância religiosa, violência policial · Falta de neutralidade em realidade periférica · Acesso a espaços institucionais e públicos · Discurso crítico sobre racismo religioso e direito ao atabaque
- Diversidade de tradições religiosas afro-brasileirasFechamento para o Candomblé, Jurema e Kimbanda · Conhecer outras tradições desmonta certezas · Jurema e seu conhecimento sobre cura e território · Kimbanda e a caricatura que inventaram dela · Raiz compartilhada que atravessa diferentes tradições
- Gestão e sobrevivência material dos terreirosTerreiro não paga boleto sozinho · Conversar sobre gestão, organização e sobrevivência material · Abordar questões de gênero, sexualidade, acolhimento, racismo, machismo, dinheiro · Terreiro como espaço de abrigo e reprodução de violências · Acesso a políticas públicas e editais de cultura
- A encruzilhada como metáfora e práticaLugar onde caminhos diferentes se encontram sem disputar · Conecta, mistura, distribui, faz circular · Espaço de invenção e novas respostas construídas coletivamente · Movimento que mantém o axé vivo e ativo
Se você já vem acompanhando o risca ponto há algum tempo, você já percebeu que macumba não se aprende de fora do terreiro para dentro do terreiro. Nem também só na teoria. E se você está chegando agora, já pega essa. Macumba acontece no corpo em movimento, na escuta, na relação acontecendo.
E relação de verdade só vai existir quando tiver encontro, quando tiver comunidade. Só que tem um movimento meio esquisito aí ganhando força. Muita gente tá caminhando como se quisesse viver numa ilha isolada do mundo. Como se o próprio terreiro fosse dar conta de tudo.
Como se não existisse mais ninguém no entorno para somar, para trocar, para tensionar, para fortalecer. Então hoje a conversa vai ser justamente essa. A gente vai falar de circulação, de se aproximar para dividir fundamento, para somar, de entender que a responsabilidade coletiva não fica só num discurso bonito, nem só em presença online.
É prática, é encontro, é convívio. É sair da bolha pra gente conseguir somar, pra fazer a Umbanda crescer. Porque o axé, o inguso, não existe pra ficar aí parado, pra ficar ilhado dentro de um terreiro e num circular. Ele corre, atravessa, encontra outros caminhos, se refaz no movimento. E quando essa força não é compartilhada, ela enfraquece. Então a gente precisa entender que quando ela circula, ela se expande.
Então vem cá, me explica aí, por que os terreiros estão se afastando uns dos outros? E o que a gente perde quando a gente deixa de trocar com os outros? Vamos falar sobre conhecer os terreiros da sua cidade, saber quem são as lideranças que sustentam esse chão. E entender, claro, que a macumba não se faz sozinho. Ela é múltipla, diversa, cheia de caminhos possíveis.
Salve Umbanda, Saravá! Sejam todos muito bem-vindos, bem-vindas e bem-vindes a mais um episódio do Risca Ponto, podcast de Umbanda. Eu sou Dario Forguieri, um homem branco, historiador e sacerdote de Umbanda. E esse aqui é um espaço umbandista e antirracista, onde a gente resgata a afro-brasilidade da Umbanda, o chão de terreiro e toda a sua potência política e social. Vamos abrir a gira? Vamos nessa!
Episódio de hoje, Trocar Folhas.
Antes da gente começar o episódio, eu queria pedir uma coisa pra você. Se você tá acompanhando a gente aqui e ainda não segue a gente aí no seu tocador preferido, vai lá e adiciona a gente. Compartilhe esse episódio com quem você acha que precisa ouvir o que a gente fala aqui. Isso é importante pra levar o nosso podcast pra mais gente e assim mais pessoas conseguirem ouvir o que a gente fala por aqui. Beleza? Vamos lá.
Por que tanto terreiro virou uma ilha? Sério mesmo, tem casa que se fechou de um jeito que qualquer outro terreiro já é visto com desconfiança antes mesmo de virar uma possibilidade de troca. E isso vai criando aí um clima meio esquisito, meio pesado, onde ninguém circula, onde ninguém se fala, onde ninguém conhece ninguém e todo mundo vive achando que o outro representa ali algum tipo de perigo.
E o mais engraçado é que isso chega num ponto às vezes até meio bobo, né? Tem pai e mãe de santo que não sai do seu terreiro, que não visita outras casas de jeito nenhum. E isso é esquisito, né? Porque a gente sabe que o povo de terreiro sempre sobreviveu justamente aí, na troca. A força da macumba nunca teve no isolamento. Como ensinou pra gente o nego bispo...
A potência nasce da confluência do encontro entre caminhos diferentes. O rio não vai perder a força dele quando ele encontrar outro rio. Esse rio vai aumentar, ele vai ganhar força. Quando a gente corta essas conexões, tudo começa a ficar meio repetitivo. A casa vai ficar girando em torno dela mesma. Ela vai repetir os mesmos conflitos, os mesmos discursos, os mesmos problemas vão aparecer, sem perceber que, às vezes, a resposta para o que se está passando...
está logo ali, no terreiro vizinho, ou então num terreiro da rua de baixo, num terreiro do bairro. E nesse processo de virar concha, muitos terreiros vão se afastando não só de outros terreiros de Umbanda, mas vão se fechando também para o Candomblé, para a Jurema, para a Kimbanda.
Só que esse afastamento vai uma hora cobrar um preço, porque quando a gente perde contato com outras formas de saber, a prática vai ficando empobrecida. E não é só o ritual que se perde, se perde também a visão de mundo, se perde repertório, se perde possibilidades.
E enquanto isso, a gente sabe, tem macumba acontecendo em todo canto. Tem liderança enfrentando problema parecido com o seu. Tem terreiro encontrando solução criativa, fortalecendo comunidade, acolhendo gente, resistindo. E muitas vezes a gente nem fica sabendo disso porque resolveu ficar fechadinho numa bolha.
A ancestralidade nunca caminhou sozinha. Muito menos desse jeito isolado. O conhecimento sempre circulou. As festas sempre aproximaram as pessoas. As trocas fortalecem alianças. O saber sempre foi construído coletivamente e não guardado como um segredo de empresa competindo por cliente. Vamos se ligar nisso. E muitas vezes o que impede essa aproximação é puro ego mesmo.
A ideia de que meu terreiro sabe tudo, meu fundamento me basta, não preciso aprender mais nada com ninguém, eu já sei tudo que eu preciso. Só que quem acha que não tem mais nada para aprender, já começou a emburrecer faz tempo, né?
Conhecer outro terreiro não vai diminuir o seu. Pelo contrário, vai aumentar a sua visão, vai fortalecer seu entendimento e até melhorar a forma como você vai enxergar seu próprio terreiro. Porque quando a gente conhece outras formas, outros jeitos de organização, a gente percebe que existem muitos caminhos possíveis.
outras possibilidades. E claro, você não precisa virar melhor amigo de ninguém nem concordar com tudo de ninguém. Intercâmbio de saberes não é sobre uniformizar ou padronizar os terreiros. É sobre circulação, respeito. É sobre conseguir sentar, conversar, observar e aprender sem transformar tudo numa disputa. Quando essa troca acontece de verdade, vai nascer uma rede de conexões. E rede sustenta...
protege, acolhe. Num momento difícil, saber que tem outra liderança pra trocar ideia, pedir orientação ou só desabafar mesmo, botar pra fora, vai mudar muita coisa. Saravar todas minhas irmãs e irmãos de santo, todos os pais e mães de santo da nossa rede. A gente precisa fortalecer a comunicação entre a gente. Esse ano é um ano de eleição, estratégias tem que ser traçadas. É hora da gente juntar e não de dividir ou se isolar.
Se liga, os protestantes, todas as denominações estão juntinhos num propósito que a gente sabe muito bem qual é. Riscaponto, riscaponto, riscaponto, riscaponto, riscaponto, riscaponto, riscaponto.
Agora deixa eu fazer uma perguntinha sincera pra você. Você conhece os terreiros da sua cidade? Ou você só conhece o caminho até o seu terreiro? Porque às vezes a gente fala tanto de comunidade, de união, de povo de santo, né? Mas não faz ideia de quem tá tocando gira no terreiro três ou quatro ruas depois da nossa.
E isso parece um detalhe pequeno, só que não é. Porque quando aparece uma denúncia absurda, um vizinho racista, uma perseguição religiosa, quem normalmente está segurando essa bronca são lideranças que muitas vezes a gente nem sabe o nome. Tem mãe e pai de santo carregando terreiro nas costas faz décadas, enfrentando polícia, preconceito, falta de grana, intolerância, abandono político. E mesmo assim, eles continuam mantendo a porta aberta para o povo chegar e ser acolhido.
Essas pessoas existem e estão bem perto da gente. Mas muitas vezes a gente nem parou para ouvir essas histórias e saber quem são. E aí vai entrar uma coisa importante. Conhecer os terreiros da sua cidade. Conhecer os terreiros das cidades vizinhas. Isso é construção de vínculo. É saber quem está caminhando junto nesse território. É entender que terreiro não existe sozinho no mundo.
Claro que a gente sabe que tem terreiro que ninguém vai querer contato porque a gente sabe como são, mas no geral não é assim. Porque às vezes a gente se fecha tanto na nossa própria casa, no nosso próprio terreiro, que começa a acreditar que só ali tem fundamento, que só o meu fundamento é o forte, que só o meu guia é o que sabe tudo. Para, né? Porque isso vai estreitando a visão.
vai fechando o seu campo de visão. O intercâmbio de saberes, a troca de folhas, como a gente gosta de falar, acontece justamente quando se cria esse tipo de conexão, porque aí você vai ganhando aliados, você vai ganhando conexões e vai aumentando essa malha, essa rede. Agora vem cá, você já entrou num terreiro de candomblé?
Não para comparar nada, mas para conhecer mesmo, para sentir outro ritmo, outra organização do tempo, outra forma de se reverenciar ao sagrado. Porque o que mais tem, a gente sabe, é gente que cria opinião sobre tudo sem nunca ter pisado em lugar nenhum.
Porque o que mais tem hoje, né? Vamos combinar. É especialista de TikTok. E a Kimbanda? Você conhece de verdade a Kimbanda ou só conhece essa caricatura que inventaram dela? Porque muita gente fala de Kimbanda sem nunca ter nem sentado a bunda numa gira, né? Sem nunca ter ouvido o ponto, sem nunca ter entendido a lógica do que tá acontecendo ali.
Porque quando a gente conhece outras tradições, algumas certezas começam a se desmontar. E isso é muito bom, porque faz a gente sair daquele lugar automático, onde tudo que está na cabeça da gente já parece pronto e explicado. Cadê a curiosidade, a dúvida, o questionamento, a crítica?
E a Jurema, então? Tem gente dentro da Umbanda que nunca ouviu um mestre juremeiro cantar. Nunca sentiu a força de um rito. Nunca percebeu como a mata, as ervas, os encantados carregam um conhecimento profundo sobre cura e território. Mas tá lá incorporando o Zepp Lintra achando que é um bandista e que sabe tudo. Pensa aí. Quanto mais a gente circula, mais aprende, mais percebe que existe uma raiz compartilhada que atravessa tudo isso aí.
Mudam os nomes, mudam os ritos, mudam os sotaques, mudam as entidades, mas tem uma memória ancestral que costura todos esses caminhos. A Lélia Gonzalez falava sobre essa formação amefricana justamente para mostrar que nossa identidade nunca foi pura, separada ou isolada. A gente nasceu da mistura, do encontro, do cruzo e a macumba carrega isso aí na base.
Mapear os terreiros da cidade, então, é criar laço. É saber quem chamar, quem apoiar, quem fortalecer e também quem evitar. É aparecer sim na festa do outro, mandar mensagem, divulgar um evento. Tá presente sem transformar tudo numa disputinha de ego. Às vezes, até se forçando um protagonismo que não se tem.
Porque presença também é cuidado. Quando um terreiro recebe uma visita de uma outra casa, aquilo ali fortalece. Mostra que existe reconhecimento, respeito e troca. E isso faz toda a diferença num tempo de individualismo, em que tanta gente tá cansada e muitas vezes sozinha, sem ter com quem falar. No fundo, quem se recusa a conhecer outros terreiros, geralmente não tá protegendo fundamento nenhum. Tá ali só alimentando uma vaidade.
Ponto, risco ponto
A gente sabe que conduzir um terreiro é pesado e pesa de verdade. Quem já segurou uma casa sabe que não tem glamour nenhum aí. É problema, é bucha o tempo todo, treta, né? É gente chegando batendo pino, conflito pra resolver, conta pra pagar, orientação, decisão difícil pra tomar. A liderança, às vezes, vai dormir cansada e acorda mais cansada ainda já tentando apagar incêndio.
Só que junto desse peso tem um comportamento que vai piorando essa situação, que é o que a gente está falando aqui. Muita liderança vive fechada numa bolha. Sempre os mesmos contatos, sempre as mesmas três ou quatro pessoas em volta, o mesmo grupinho que vai validando tudo. E isso vai limitando sem a pessoa perceber.
Porque quando essa troca acontece sempre ali nesse mesmo círculo, vai virando um ciclo vicioso. Tudo começa a se repetir. As ideias, os vícios, os conflitos, as certezas. Vai ficando confortável, mas também vai endurecendo o pensamento. E o terreiro endurecido vai perder o quê? Vai perder o axé, vai perder o movimento, vai perder o inguso.
E o intercâmbio de saberes entra justamente aí, na possibilidade de liderança conversar de uma forma honesta, sem necessidade de ser um personagem, sem disputa de ego, sem necessidade de parecer que está tudo certo e sob controle, porque a gente sabe que não está.
Tem coisa que só outro pai ou mãe de santo vai entender. Tem cansaço que só quem conduz uma casa vai saber reconhecer no olhar do outro. E quando essa troca acontece, muita agonia diminui. Aquele frio na barriga vai diminuir. Porque a pessoa vai perceber que ela não está vivendo aquilo sozinha. Que isso acontece com outras pessoas em outros terreiros. Às vezes um terreiro está quebrando a cabeça com organização financeira, manutenção da casa, dificuldade com filho, filha, filho de santo.
enquanto o outro já encontrou um jeito bem simples de lidar com aquilo. E essa circulação de experiência vai evitar esses desgastes desnecessários. Porque, como a gente não cansa de falar por aqui, terreiro não paga boleto sozinho. E fingir que o terreiro vive só de doação é uma lenda da carochinha. Conversar sobre gestão, sobre organização...
sobre sobrevivência material, também é cuidado axé. E essas conversas também precisam tocar em assuntos que durante muito tempo não foram falados no terreiro. Questões de gênero, sexualidade, acolhimento, racismo, machismo, misoginia, dinheiro, tudo isso atravessa o terreiro. Tudo isso atravessa a comunidade. E se você acha que não, você está precisando sim procurar mais gente para conversar.
O terreiro sempre foi um espaço de abrigo para muita gente que apanha do mundo o tempo inteiro. Mas isso não significa que dentro do terreiro não vão existir reproduções dessa violência. E quando as lideranças se escutam sobre essas questões, conseguem vislumbrar, conseguem perceber onde ainda precisam mudar.
Então, quando os terreiros começam a se conectar, essa força vai mudar de tamanho. Um mandorinha não faz verão, um terreiro sozinho também não faz verão. Dez casas articuladas conseguem movimentar um bairro inteiro, até uma cidade se for preciso. Isso é intercâmbio de saberes, compartilhar soluções, contatos, estratégias.
estratégias e apoio. Quem troca, aprende. Quem aprende, se movimenta. E liderança que continua se movimentando, não endurece, não fica parada no tempo, não emburrece na própria vaidade e não transforma o terreiro numa prisão emocional para quem está dentro.
Tem uma coisa que a gente precisa parar de tratar como se fosse um assunto proibido dentro da Umbanda. Você tem ideia do que eu tô falando? Política. Esse, 2026, é um ano eleitoral. Tem que ser um assunto recorrente dentro do terreiro.
Porque enquanto muito terreiro continua repetindo que não gosta de política, a política continua decidindo quem vai ter direito de existir com dignidade e quem vai continuar sendo empurrado para a margem, para a marginalidade. Eu estou falando de consciência coletiva, de entender que terreiro também é um território político.
Porque lida diretamente com moradia, com racismo, com intolerância religiosa, com violência policial, saúde mental e abandono social todos os dias. Então me explica aí como é que o terreiro vai fingir neutralidade enquanto a comunidade no redor dele está sem saneamento, está sem segurança, está sem acesso básico e sendo alvo constante de violência do Estado.
Não tem neutralidade possível, meu irmão, para quem vive essa realidade periférica, sacou? Por isso os terreiros precisam estar juntos, organizados e conectados. Os terreiros precisam construir sim essa rede de comunicação, precisam conhecer outras lideranças.
Saber quem atua no bairro, quem ocupa conselho comunitário, quem conversa com secretaria de cultura, assistência social, direitos humanos. Tem muito pai e mãe de santo que não sabe nem por onde começar quando surge um problema mais sério. Não sabe como denunciar uma intolerância religiosa, como buscar um apoio jurídico.
Como legalizar o terreiro, como acessar a edital de cultura, como conversar com o vereador, com o defensor público ou então uma secretaria municipal. E isso não é culpa da pessoa, né? E isso faz parte do afastamento político que enfiaram na cabeça de muito pai e mãe de santo.
O problema é que quando o terreiro não aprende a ocupar o espaço institucional, outras pessoas vão ocupar por ele. E geralmente ocupam para decidir contra nós. Os terreiros precisam saber acessar os poderes públicos, precisam entender que têm direito de disputar recursos, de ocupar conferência de cultura, de participar de conselho de igualdade racial, de pressionar a prefeitura quando tiver perseguição religiosa.
Porque enquanto a gente não se organizar coletivamente, a gente vai continuar dependendo da boa vontade de quem quase nunca conhece a realidade do povo de terreiro. E isso aí também passa por construir um discurso crítico, beleza? Saber explicar o que é umbanda sem cair nessa linguagem higienizada feita só pra tranquilizar o olhar racista. Saber falar de racismo religioso. Saber defender o direito ao atabaque.
ao culto, à ocupação cultural e espiritual dos territórios periféricos. Quando os terreiros começarem a se enxergar como rede organizada, vai mudar muita coisa. A informação vai circular mais depressa. Um terreiro vai ajudar o outro a entender documentação, regularização, direitos básicos. Lideranças têm que aprender juntas como acessar políticas públicas sem depender de um atravessador.
E isso fortalece até a proteção contra intolerância, porque perseguição adora isolamento, adora quem está sozinho. Quando um terreiro está sozinho, ele vira um alvo fácil, presa fácil. Quando tem articulação entre os terreiros, presença coletiva, o cenário muda. O que falta muitas vezes é transformar isso numa articulação prática. Reunião entre lideranças, formação comunitária, troca de informação.
construção de rede jurídica, cultural e social, porque não dá para sobreviver espiritualmente enquanto a comunidade continua morrendo materialmente.
E quando a gente chega nesse ponto da conversa, tudo vai desembocar num lugar que a Macumba sempre entendeu muito bem, que é a encruzilhada. E não só como ponto de força, mas também como forma de pensar a vida. Um lugar onde os caminhos diferentes se encontram sem precisar disputar qual deles vale mais. A encruzilhada conecta, mistura, distribui, faz circular. E talvez seja justamente isso que o Intercâmbio de Saberes tenta lembrar pra gente o tempo todo.
Que o encontro fortalece o axé, ele movimenta. Exu ensina isso o tempo todo. Nada é totalmente reto, fechado ou definitivo. Tem conversa, tem atravessamento, negociação, mudança de rota. Quando os terreiros entendem essa lógica, a troca vira possibilidade. O Rufino fala pra gente que encruzilhada é um espaço de invenção e isso faz todo sentido.
Porque quando o caminho parece fechado, é no encontro que vão surgir novas respostas. Não respostinha pronta, mas saídas construídas coletivamente. E talvez esse seja um dos maiores aprendizados desse nosso papo hoje aqui. Perceber que ninguém precisa caminhar sozinho para manter o próprio fundamento firme.
Quando terreiros diferentes se aproximam, o que circula não é só visita ou então só conversa ou só simpatia. Circula experiência, cuidado, aprendizado. Uma liderança vai aprender com a outra. Um terreiro vai fortalecer o outro, sem precisar abrir mão da própria identidade. Porque o intercâmbio não é misturar fundamento. É conseguir reconhecer o valor do caminho do outro sem precisar abandonar o seu. É conhecer a luta do outro sem desmerecer a caminhada de ninguém.
É entender que se existem lideranças progressistas na sua cidade, é importante juntar, aglutinar e não segregar por pura picuinha pessoal. Porque quando essa abertura acontece, a visão vai mudar. As pessoas começam a perceber que o terreiro não vai caber dentro de uma formulinha fechada ali.
Ele vai aparecer de várias formas, de vários jeitos, em muitos territórios. A própria Umbanda mostra isso pra gente o tempo inteiro. Cada casa abre a gira de um jeito. Canta diferente, toca diferente, organiza a sua gira diferente. E ainda assim, o inguso, o axé, tá ali, forte. Quando a circulação começa, o pensamento abre, o corpo responde diferente, a escuta muda, sacou?
A troca renova até o jeito da gente enxergar o próprio terreiro. E não precisa transformar isso numa coisa idealizada, né? Ou então uma coisa lá longe. Às vezes, você vai começar isso devagarinho. Visitando uma festa, conhecendo uma liderança nova, participando de um evento, trocando um telefone, aparecendo de vez em quando. A Umbanda é a arte do encontro. Então...
Vínculo se constrói na presença, não é no discurso bonito em rede social que se cria comunidade, é na convivência. Cada aproximação vai fortalecer uma memória coletiva que nunca deixou de existir ali. A memória de um povo que sobreviveu porque aprendeu a construir junto, a trocar junto e a se proteger junto.
Até hoje. Então, algumas perguntas vão se somando aqui, né? Quem tá caminhando perto de você, que você ainda não conhece? Que terreiro existe na sua cidade que você nunca visitou? Que liderança você nunca parou pra ouvir de verdade? Você já sabe tudo?
Essa conversa me fez lembrar aqui de um rito que eu estava no sacerdócio. Função pesada, demorada. O que eu tinha que fazer? Eu tinha que levar uma panela gigante, aquelas panelas de alumínio, um caldeirão de uns 30 litros, cheio de água quente, de um lugar para outro, uns 20 metros de distância. E eu estava levando ele sozinho e estava indo de boa. E um irmão mais velho meu chegou e falou...
Dario, me dá um lado aí que a gente leva junto. E eu falei, pô, não precisa, eu consigo levar, né? E ele virou pra mim e falou, eu sei que você consegue. Só que junto, a gente vai levar mais fácil. A gente tá fazendo uma coisa junto. A gente tá realizando junto. E fazendo com isso o axé circular. Lição simples, bonita e aprendida. E esse meu irmão mais velho é o Caioan Cerqueira do Terreiro Aruanda.
Aprendi muito com ele e ainda aprendo. Então, talvez tenha muito aprendizado esperando justamente fora do círculo onde você sempre andou. Talvez a resposta para uma dificuldade da sua casa vai estar numa experiência que o outro terreiro já viveu.
E a encruzilhada te oferece isso. A possibilidade de caminho, movimento. E movimento mantém o axé vivo e ativo. Então, o que vai sendo construído é um pacto silencioso entre casas, entre lideranças, entre comunidades. Um pacto de troca, de respeito e de continuidade. Porque a macumba nunca foi feita para funcionar sozinha. Ela cresce no encontro, na circulação e na presença compartilhada. E é aí exatamente que o axé mais cresce.
No cruzo entre pessoas que decidiram caminhar juntas sem precisar serem iguais.
Depois da gente atravessar tudo isso, fica difícil sustentar a ideia de que dá pra seguir sozinho sem pagar um preço caro. O isolamento até pode parecer uma proteção num primeiro momento, mas com o tempo ele vai virar limitação, vai virar repetição, desgaste, né?
O que sustenta a caminhada nunca foi fechamento, sempre foi circulação. O intercâmbio de saberes, a troca de folhas, aparece como uma prática de continuidade. Não como uma coisa pontual, nem como um gesto simbólico, mas como um jeito de se comportar que tem que ser constante diante da vida do terreiro. É a escolha de se movimentar, de conhecer, reconhecer, de construir junto, mesmo quando tem diferenças entre as pessoas.
A gente não está falando de apagar a identidade de ninguém, de terreiro nenhum. Cada terreiro segue com seu fundamento, com seu ritmo, com a sua forma de cuidar. O que se propõe aqui é uma outra coisa, é criar ponte sem abrir mão da raiz. É fortalecer vínculos sem perder referência. Porque quando os terreiros se aproximam, uma coisa maior começa a se formar. Uma rede que protege, que orienta, que sustenta. Uma rede que responde melhor aos desafios do tempo que a gente vive hoje.
porque não depende de um único ponto ali para existir. No fim das contas, também o que está em jogo é a continuidade. Como garantir que o que a gente faz hoje vai seguir vivo amanhã, com força, com sentido, com conexão real com o mundo. E tudo isso passa inevitavelmente pelo coletivo.
Então, vamos lá, fica o convite, sem romantização, beleza? Olha pro lado, descobre quem são os terreiros da sua cidade, aprende o nome das lideranças, se aproxima, escuta, troca, sai da panelinha pequena, permita que outras experiências atravessem a sua caminhada.
Porque isso não vai te enfraquecer, só vai te fortalecer. E mais do que visitar, claro, se posiciona. Quando um outro terreiro, uma outra liderança for atacada, não se omita. Quando houver necessidade, chegue junto, converse. Porque a proteção que você oferece hoje pode ser a que você vai precisar amanhã.
E é isso. Esse foi mais um episódio do Risca Ponto, podcast de umbanda. Eu realmente espero que esse episódio tenha feito você pensar um pouquinho nesse assunto e aguçado a sua curiosidade pra você mesmo buscar mais respostas pras suas dúvidas. Se você gostou, compartilha com quem você acha que precisa ouvir um pouco do que a gente conversa por aqui. Siga o Risca Ponto nas redes sociais, comente, faça sugestões e, claro, nos avalie no seu tocador preferido. Salve, umbanda! Saravá!
E até o próximo episódio de Risca Ponto.