A economia global sobreviverá a um conflito com o Irão?
O impacto da tensão no Médio Oriente e a era dos robôs na Ucrânia surpreendem? Bruno Cardoso Reis analisa ainda a nova postura da Coreia do Norte e os riscos ambientais e políticos no Ártico.
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- Impacto energético global do conflitoImportância da geografia e pontos de estrangulamento geoeconômico · Transporte marítimo e comércio global · Impacto no mercado global de energia (gás e petróleo) · Crise energética e racionamento em países asiáticos e africanos · Planos de investimento para contornar o Estreito de Hormuz · Alternativas rodoviárias e ferroviárias para o comércio chinês · Estratégias de reservas e diversificação de fornecimento · Cenário de escassez de combustível e estagflação
- Conflitos MilitaresGuerra dos drones e robôs na Ucrânia · Vantagens dos drones como niveladores de poder · Custo de drones versus sistemas antiaéreos · Criação de um ramo dedicado a drones e guerra eletrónica na Ucrânia · Sistemas de drones remotamente pilotados e automáticos · Inteligência artificial na análise de alvos e defesa ativa · Desafios éticos e legais no uso de tecnologias autônomas · Implicações para a aquisição de novo equipamento militar
- História da RússiaSituação no Mali e ataques coordenados · Assassinato do Ministro da Defesa do Mali · Aproximação do Mali à Rússia e afastamento do Ocidente · Perda de controle da cidade de Kidal · Eficácia militar e apoio aos regimes militares · Avisos de Maquiavel sobre mercenários · Africa Corps como reencarnação do Grupo Wagner · Homenagem às tropas nazis na África do Norte
- Riscos ClimaticosImpacto das alterações climáticas e aquecimento global · Eventos extremos: tsunamis e incêndios · Implicações para a vida no Ártico e ecossistemas · Impacto nas populações de peixes, como o bacalhau · Conselho do Ártico: criação e funcionamento · Cooperação e conflito entre potências no Ártico · Acordos de pesca entre Noruega e Rússia
- Imigração e AcolhimentoVolume de migração global e tendências de crescimento · Causas da migração: conflitos, insegurança e eventos climáticos · Impacto político e surgimento de movimentos nativistas · Migração assimétrica e concentração em países prósperos · Crise migratória na África do Sul e ataques xenófobos · Crise entre Nigéria e África do Sul · Crise migratória na Venezuela e impacto na América do Sul · Acolhimento e tensões com migrantes venezuelanos
Está na hora de embarcarmos em mais uma viagem pelos cinco continentes, programa de análise da atualidade internacional, com a assinatura do historiador Bruno Cardoso Reis. Bom dia, Bruno. Olá, obrigado. Alguns ouvintes queixam-se de que falamos muito de Trump, se calhar há boas razões para isso, mas hoje vamos olhar para algumas grandes tendências globais associadas aos temas que todos os dias irrompem casa adentro de cada um de nós.
através da televisão, rádios e jornais. Sugeres que comecemos por abordar o impacto económico global da guerra contra o Irão e que implicações pode ter a prazo. Há motivos para recearmos? Bem, para começar, no fundo dizer que eu percebo que, de vez em quando, haja comentários no sentido de dizer, bem, falamos demasiado do Trump, não é?
Aí é importante, em nossa defesa, dizer... Como não. Exatamente, ele põe-se de muita jeito, vamos dizer assim, quer pelo estilo de fazer política, quer por ser, sobretudo, o presidente dos Estados Unidos. Ou seja, é difícil ignorar uma ameaça, uma promessa, uma declaração de alguém que, de facto, tem, sobretudo no campo da política externa, na política interna até está um pouco mais condicionada, embora ele aí também não se descondicionar muito, mas no campo da política externa, da política de defesa, realmente tem um enorme poder.
E, portanto, é difícil ignorar isso. Mas é verdade que, às vezes, podemos, de facto, deixar-nos distrair por toda esta, digamos, esta enxurrada de declarações, de polémicas, etc., e não dar tanta atenção a aspectos mais estruturais, mais de fundo, a grandes tendências. E, portanto, como dizias hoje, a ideia, o desafio é um bocadinho tentar fazer isso.
Em relação ao conflito que envolve o Irão e que se estendeu basicamente a todo o Médio Oriente, uma das estratégias do Irão foi exatamente o que nós chamamos de uma escalada horizontal, ou seja, alargar o mais possível o conflito para aumentar ou, se quisermos, distribuir os custos.
por múltiplos países vizinhos e também aumenta muito o impacto na economia global. E nesse sentido eu acho que o Irão teve algum sucesso e acho que esse sucesso realmente tem implicações a prazo e tem implicações para além desta região.
Uma das coisas centrais é chamar a atenção, novamente, para a importância da geografia destes pontos de estrangulamento na geoeconomia global, que está muito assente no transporte marítimo. À volta de 80% dos bens do comércio global são transportados por via marítima.
Mesmo na Europa, que obviamente é um continente muito mais integrado e que tem excelentes comunicações rodoviárias, ferroviárias, etc. Enfim, Portugal eventualmente na parte ferroviária menos, mas mesmo aí 60% do comércio europeu é feito também por via marítima.
E, portanto, esse é um aspecto, ou seja, não por acaso começámos a ver, por exemplo, especulações de que podíamos ver também a tentativa de algum sistema de controle e até de cobrança de peagem, aquilo que o Irão está a declarar que quer fazer em Ormuz, por exemplo, no Estreito de Malaca. O Ministro das Finanças da Indonésia veio falar nisso, o Ministro dos Senhores Estrangeiros veio falar nisso, pois foram obrigados a desmentir o Presidente, sei que não estava realmente a pensar nisso.
Portanto, esse é um ponto. Como consequência disso, e tendo em conta também a importância central do Golfo Pérsico na questão do mercado global de energia em particular,
do gás, do petróleo, 25% de gás, 20% de petróleo, no gás ainda, eventualmente, com mais peso, porque ainda é mais complicado contornar os treitores muis. Mas, portanto, também aí há um impacto importante. Colocaste esta questão, que eu acho que as pessoas estão a colocar, que é, mas será que vamos ter realmente uma crise energética, não apenas nos preços, não apenas na inflação de preços, mas em termos de abastecimento, de necessidade de racionamento, fatos combustível.
Eu diria que nós já estamos um pouco a viver isso, ou melhor, nós não, mas há países que já estão a viver isso. Já falámos aqui um pouco disso, países na Ásia ou em África.
com menos recursos ou mais dependentes e ou mais dependentes do abastecimento a partir do Golfo Pérsico. Estamos a falar, no caso, por exemplo, de um país como a Coreia do Sul, 75% de dependência, por exemplo, do petróleo que vem do Estreito Hormuz, que vem de passar pelo Estreito, aí realmente já há mais racionamentos, já há mais constrangimentos, sobretudo os países mais pobres da África também, que têm menos possibilidades económicas de, no fundo, comprar mais caro e buscar onde for preciso pagar mais.
Para já isso ainda não nos atingiu muito, com exceção eventualmente do combustível para os aviões comerciais, aí a questão parece ser um pouco mais complicada, mas tudo isso no fundo aponta para necessidades de resposta que também vão ter implicações a prazo, ou seja, enfim, o Financial Times costuma estar bem informado sobre estas questões, nomeadamente económicas, por exemplo, diz que os países do Golfo estão todos eles ativamente a preparar planos de investimento.
para contornar o Estreito Hormuz, ou seja, a Arábia Saudita, por exemplo, provavelmente duplicar a capacidade do seu oleoduto leste-oeste, que vai até o Portianbu no Mar Vermelho, que já quadriplicou, digamos, a quantidade de petróleo que passa por lá. A Arábia Saudita já tinha esse oleoduto, digamos, com muita capacidade sobrante, que é algo que um país com muito dinheiro consegue fazer e com alguma visão estratégica, mas eles querem fazer, põe-se a hipótese de fazer ainda um outro oleoduto.
O Catar, por exemplo, não tem possibilidade de escoar o gás, não sei por via marítima, através do estreito, está a pensar fazer gasodutos através da Arábia Saudita até o Mar Vermelho, até o Egito, eventualmente outros através do Iraque, do Coeito do Iraque até a Turquia, até o Mediterrâneo. Portanto, realmente isso é o tipo de...
Opções que vamos ver aqui, certamente, onde, aliás, há muito dinheiro, isto vai custar milhares de milhões, mas para estes países não é muito importante, é mais importante garantir a possibilidade de continuarem a ser exportadores, digamos, e ter todo o retorno financeiro que isso traz, mas noutras regiões provavelmente vamos ver estratégias desse tipo. A China, por exemplo, está ativamente também, que tem sempre uma visão estratégica de longo prazo.
a procurar criar alternativas rodoviárias, ferroviárias, através da Birmania, através do Paquistão, portos, investir em portos na Birmania, no Paquistão Gaudar, por exemplo, que já falámos aqui, para contornar o Estreito Malaca, para contornar a zona do Sri Lanka, mas, por exemplo, sobretudo o Estreito Malaca é um grande estrangulamento, à volta de 70% do comércio chinês passa por aí, de exportação ou de importações de energia ou do que for.
E, portanto, isso é uma tendência que vamos ver a nível global e também ao nível dos países consumidores, duas estratégias de mais reservas, portanto, criar, no fundo, depósitos com mais capacidade, por exemplo, a ter jet fuel, obrigar os aeroportos, por exemplo, a reforçar as suas capacidades, etc.
E diversificar também, procurar diversificar e ter em conta a dimensão geopolítica, o risco geopolítico nessa diversificação. Por exemplo, Portugal está ativamente, aparentemente, a reforçar as compras de petróleo ao Brasil, mas, por exemplo, aqui no Atlântico, uma boa notícia é que a Guiana, que também temos falado várias vezes, tornou-se um grande produtor de petróleo nos últimos quatro ou cinco anos e, portanto, é também mais uma vez uma alternativa. Na Ásia vemos, por exemplo, os países a procurarem...
comprar no Brasil ou na Guiana, mas também procurarem comprar, por exemplo, no Brunei, que é um produtor mais local, vamos dizer assim, na Ásia Oriental. Mas tudo isto, em última análise, o que significa é que vamos ter realmente um mundo em que a dimensão de risco geopolítico
vai pesar muito mais nas decisões económicas, e isso tem um custo. A questão é, o que ainda não conseguimos saber é que custo é que irá ter. Num cenário pior, de que esta aqui se prolongue muito, porque estas alternativas não são instantâneas, realmente demoram há alguns anos a construir, mesmo que seja num ritmo muito acelerado, mas aí podemos ter um cenário, enfim, de escassez de combustível, com impacto tremendo na economia global.
de produtos derivados, enfim, coisas como luvas para os hospitais ou a parte do fertilizante que se fala muito, e um cenário de estacoflação, ou seja, de inflação muito elevada e recessão económica, que foi o cenário que vimos noutros choques petrolíferos, que até foram menos sérios em termos da quantidade, digamos, de petróleo que foi retirada do mercado, por exemplo, em 73 ou em 79, e, portanto, esse cenário mais grave existe, mas mesmo no cenário mais otimista, parece-me evidente que vamos ter aqui uma economia...
no fundo mais cara, onde tem de haver mais investimento para ter aqui alguma segurança, alguma redundância algumas reservas, portanto ter uma série de mecanismos para atenuar este tipo de choques no mundo que realmente está muito mais propenso a conflitos armados e onde se percebe que mesmo um ator militar com limitações, como o Irão, por exemplo, comparado com os Estados Unidos consegue com alguma facilidade causar enormes perturbações na economia global e aí
Portanto, nós realmente vivemos aqui décadas excepcionais do ponto de vista da paz e da segurança e dos retornos que isso tem em termos económicos, mas agora vamos pagar o preço de um mundo muito mais conflituoso. Da guerra no Médio Oriente para o conflito no leste da Europa, um conflito armado entre Rússia e Ucrânia que tem revelado um peso crescente dos drones, uma guerra dos robôs, é a expressão que usas, Bruno. Entramos numa nova era dos conflitos armados. Que implicações?
Sim, ou seja, acho que claramente já estamos numa nova era, mas ainda há muita coisa nova para acontecer. Portanto, estamos, se quisermos, no início dessa mudança, mas, por exemplo, a Ucrânia, foi o próprio Presidente Zelensky que deu conta.
que agora em abril, pela primeira vez, uma posição militar russa arrendeu-se apenas a drones e a robôs. Portanto, não havia tropa ucraniana, no sentido de soldados, de carne e osso, de facto, a atacar essa posição. E, portanto, realmente nós já vemos combates entre drones, já vemos um campo de batalha extraordinariamente condicionado por isso, na Ucrânia e também no caso do Irão.
Temos este dato fundamental que é, os drones têm esta enorme vantagem que são grandes niveladores de poder, ou seja, são muito fáceis de produzir em grande quantidade, de forma muito barata, em termos relativos, enfim, nada é barato numa guerra, mas estamos a falar de drones que às vezes custam 4, 5 mil dólares, drones armados custam 10, 20 mil dólares.
isto quando os sistemas de intersecção antiaérea muitas vezes têm interceptores que cada um deles, cada míssil, custa 500 mil, 1 milhão, 3 milhões de dólares que são produzidos enfim, às dezenas por mês enquanto que os drones podem ser produzidos aos milhares por mês com custos muito mais baixos e portanto, de facto, temos aqui este dado novo já a nível da...
das lições aprendidas destes dois conflitos. Realmente a centralidade dos drones, a Ucrânia já há algum tempo criou, aliás, um novo ramo, portanto, a par da Força Aérea e da Marinha do Exército tem um ramo só dedicado aos drones e à guerra eletrónica de um modo geral.
E como eu dizia, isto está a começar. Para já temos visto sobretudo o protagonismo de drones aéreos, em grande quantidade, alguns drones navais, mas a Ucrânia cada vez mais está a usar drones terrestres também. É importante sublinhar que isto não são sistemas autónomos, portanto não são ainda propriamente falando robôs.
porque são sistemas que são remotamente pilotados, portanto não está lá uma pessoa, mas está à distância às vezes de bastantes quilómetros, mas está alguém a controlar de facto esse meio militar. Mas já temos alguns sistemas que são automáticos, pelo menos, portanto, onde há uma dimensão de inteligência artificial, pelo menos na fase final, por exemplo, portanto, no fundo o drone é direcionado para atacar um determinado alvo.
na parte final, para evitar interferências, etc., ele tem autonomia para atingir da melhor maneira esse alvo. Ou sistemas também de defesa ativa, por exemplo, os carros de combate, para conseguirem superviver minimamente neste contexto, têm sistemas automáticos de defesa, que detectam automaticamente uma ameaça, um drone, um...
um morteiro, e automaticamente interceptam sem necessidade de uma intervenção humana, a não ser para ativar o sistema, portanto, obviamente, esses sistemas só são ativados num contexto de teatro de guerra, mas, e já temos também a inteligência artificial muito envolvida, por exemplo, no caso do Irão temos notícias muito seguras disso, os Estados Unidos atingiram à volta de 17 mil alvos nesta campanha.
Isso é, enfim, centenas de vezes mais do que teria sido possível sem utilizar a inteligência artificial para analisar toda a informação, toda a intelligence e depois a aquisição de alvos. Tudo isto coloca grandes desafios. Eu focava-me em, pelo menos, dois. Um é desafios, digamos, éticos legais, ou seja, como é que se evita aqui uma espécie de corrida desenfriada.
para estas novas tecnologias em que a partida, por exemplo, pode ser muito mais eficaz militarmente esses sistemas plenamente autónomos, realmente robôs a combater robôs, como é que se garante que, de facto, esses sistemas não se descontrolam, não é que tipo o cenário Terminator, ou mesmo que não vamos por aí, eles não querem acabar com a humanidade, mas que simplesmente, enfim, tomem decisões que coloquem em risco vidas, civis, etc.
portanto, como é que se garante realmente esse controle, o respeito pelas regras, embora também é importante dizer que este debate não é assim tão simples, ou seja, há autores que defendem, há vantagens num modelo mais autónomo, no sentido que o cansaço, o erro humano, fatores como preconceitos, raiva, etc., portanto, todas aquelas coisas que são muito humanas, também podem levar a crimes de guerra, também podem levar a erros.
E, portanto, este tipo de tecnologia, à partida, não se cansa e não seria, digamos, suscetível, pelo menos, desse tipo de erros. Mas há essa questão e depois há uma questão também importante, por exemplo, a um país como Portugal, que é as implicações disto em termos de compras de novo equipamento, de aquisição de novo armamento.
Todos os países estão a investir muito mais em defesa, pelas razões que já referimos antes. Estamos num mundo muito mais perigoso, muito mais conflituoso. O ano com mais conflitos desde a Segunda Guerra Mundial foi 2024. Ainda não temos números consolidados para 2025, mas é provável que a tendência se mantenha. E, portanto, aí é fundamental perceber, vamos comprar plataformas tradicionais.
grandes navios, aviões de combate, digamos, tradicionais, que são, em muitos casos, muito vulneráveis a estes sistemas. Vamos comprá-los, mas com sistemas já adaptados com sistemas de defesa ativa que sejam capazes de evitar, que sejam vulneráveis, por exemplo, a drones, a meios muito mais básicos. Isso implica, por exemplo, ter sistemas de intersecção muito mais eficazes e muito mais baratos. Não podemos ter mísseis a custar um milhão de dólares a interceptar drones. Centenas de drones, potencialmente, custam.
10 ou 20 mil, até porque os navios têm capacidade limitada em termos de munições a bordo, por exemplo, mas, portanto, isto tem grandes implicações aí. Temos de comprar muito mais drones, isso a mim parece-me evidente, inclusive drones armados, para um país como Portugal, isso é um grande nivelador de poder em relação a potências muito mais fortes, mas, no fundo, que combinação fazer aqui entre estes meios novos, meios mais tradicionais que têm de ser adaptados, e, portanto, isso é um problema para todos os Estados, inclusive também para um país como Portugal.
Ainda temos aqui mais dois minutos. Continuamos a falar da Rússia e da influência de Moscovo no continente africano, muito em particular através do grupo paralelitar Africa Corps, formado por mercenários. No caso do Mali, as coisas não estão a correr particularmente bem. Que balanço desta ação da Rússia em África? Bem, realmente no Mali as coisas não estão a correr nada bem, ou seja...
Tivemos nas últimas semanas um ataque coordenado a todas as grandes cidades do país, inclusive à própria capital, inclusive, digamos, ao bairro militar.
a grande base militar na capital de Bamako, onde é morto o ministro da Defesa, o ministro de Câmara que era o grande promotor, foi o grande promotor da aproximação da junta militar que toma o poder em 2020, 2021, num golpe, e que foi o grande promotor, digamos, do afastamento da França, dos países europeus, dos países ocidentais e da aproximação à Rússia, a aposta nestes mercenários russos. Portanto, foi morto. O presidente foi obrigado a assumir e...
precisamente o presidente Goitá foi, o general Goitá foi obrigado a assumir também o Ministério da Defesa, ou porque ninguém queria assumir o cargo, que era potencialmente fatal, ou porque ele próprio tinha medo que alguém assumisse e eventualmente desse um golpe, tendo em conta, digamos, estas perdas, perderam o controle da principal cidade do Nordeste, Kidal, que os russos basicamente abandonaram, chegaram a um acordo com os judistas, saíram, deixaram lá as tropas de Mali lidarem para serem aprisionadas.
E, portanto, realmente, do ponto de vista da eficácia militar, o balanço é péssimo. Do ponto de vista do apoio aos regimes militares, é realmente uma aposta de sucesso, ou seja, inclusive eles vieram-se gabar nos últimos dias que impediram um golpe, uma tentativa de golpe contra a junta do Mali, mas, portanto, eu diria que isto valida aqueles avisos clássicos do Machiavelli no Príncipe sobre a questão dos mercenários.
de estar excessivamente ou inteiramente dependente de mercenários.
realmente os mercenários tendem a não ser muito leais, a não ser à questão do dinheiro, e apesar de tudo, o dinheiro não paga tudo e, portanto, em circunstâncias mais difíceis, em muitos casos, acabam por operar por desertar. Isso já era assim, por chegar a um acordo com quem está a vencer e evitar perdas maiores, isso já era assim na Itália do Renascimento, também assim na África Ocidental, ou no Seil, com este grupo Africa Corp. Vale a pena já agora só para terminar, sublinhar?
O Africa Core, no fundo, é a reencarnação do Grupo Wagner, depois daqueles episódios em 2023, e, portanto, em 2025, basicamente, o que restava do Grupo Wagner em África é substituído por este Africa Core. O que é aqui extraordinário é que eles mantêm o tema nazi.
E ainda o deixam mais claro. Portanto, a África Cor, para quem não sabe, era o nome, digamos, das tropas nazis que vão ajudar a Itália, na Líbia, na Tunísia, portanto, na África do Norte, com o Rómel, com o general Rómel. E, portanto, é realmente extraordinário, como muita gente que tem simpatia por Putin no Ocidente está sendo muito preocupada com o nazismo na Ucrânia, que é dirigido por um presidente judeu, mas, aparentemente, não se preocupa nada com a Rússia ter, declaradamente, um grupo destes, um grupo armado.
cujo nome vai buscar, é uma homenagem, digamos, às tropas nazis na África, durante a Segunda Guerra Mundial. E é com este movimento de mercenários em África que terminamos a primeira parte de cinco continentes, com o historiador Bruno Cardoso Reis. Voltamos já daqui a pouco e para falar de riscos ambientais e políticos que decorrem das alterações climáticas.
O Renato estava apático. Ele parecia que não estava lá. As testemunhas, as mensagens e os vídeos que ajudaram a polícia a desvendar a forma como Renato se abre assassinou Carlos Castro em Nova Iorque. Até hoje, gostava muito de perceber o que aconteceu. Estes são os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal.
Os Ficheiros do Caso Carlos Castro é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Rezende. Último episódio. O júri chegou a uma decisão. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.
Estamos de volta para a segunda parte do Cinco Continentes, com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, têm surgido notícias sobre o impacto da mudança climática, desde o mega tsunami no Alasca há um ano, ou enfraquecimento da corrente do Golfo, entre outros fenómenos. Uma das zonas mais afetadas é o Ártico, e querias também falar este pretexto do Conselho do Ártico. Que organismo é este e como é que tem funcionado?
Sim, realmente têm surgido muitas notícias sobre esta dimensão, digamos, de crise ambiental. E aqui o que é importante sempre sublinhar é que aquilo que a maior parte dos cientistas dizem, e obviamente um consenso absoluto nunca existe na ciência, e também não é assim que se gere risco, não vamos esperar que todos os cientistas concordem com alguma coisa, algo que nunca aconteceu, nem deve aliás acontecer, é bom que a gente já é discussão, parte-se de uma posição, digamos...
relativamente consensual e que tenha aparentemente uma bobaça factual para gerir o risco, mas aquilo que a generalidade dos cientistas dizem em relação ao problema, digamos, das alterações climáticas, da crise climática, do aquecimento global, o grande problema não é bem o aquecimento em si, porque, enfim, as pessoas podem dizer, mas então mais 1 ou 2 ou 3 graus, ainda por cima no Ártico, onde até está bastante frio, não é?
Eu tinha, aliás, um amigo norueguês no tempo em que estava a fazer o tratamento, que tinha uma t-shirt para irritar os mais politicamente corretos, que era, eu sou da Noruega, portanto, o mundo está a aquecer, eu sou da Noruega, porque é que eu me deixei de chatear com isso? Portanto, a partida é uma coisa boa. Mas o problema aí, obviamente, é que toda a vida no Ártico foi organizada com base num determinado clima padrão, não é? E, portanto, quando isso se altera, tem implicações muito disruptivas.
E depois temos estes eventos extremos que são realmente aquilo que coloca mais preocupação. Enfim, vemos a questão dos incêndios, por exemplo, na Europa do Sul, mas, por exemplo, na Sibéria, na Rússia também. Ou, por exemplo, esta questão do tsunami no Alasca.
resultado da erosão dos glaciares, etc. Provocado pelos glaciares, há uma parte de uma montanha que cai. Felizmente era uma zona muito remota do Alasca, portanto não resultou em mortos, mas potencialmente podia ter resultado, portanto é um tsunami colossal, uma onda com centenas de metros. E, portanto, tudo isto realmente chama a atenção para o facto que uma das regiões onde o aquecimento global terá um impacto mais disruptivo será exatamente esta zona.
É uma zona que é adjacente às zonas que nos importam muito, no fundo é o extremo norte do Atlântico, se quisermos, e realmente, por exemplo, tem grandes implicações para algo que é muito importante para os portugueses, que é o bacalhau, por exemplo. Uma das questões que aqui está a ser colocada é a questão do impacto destas mudanças nos toques, digamos, de peixes, e depois temos uma outra dimensão muito importante a sobrepor-se a isto, que é a dimensão geopolítica de conflito.
entre potências. Este Conselho do Ártico é uma organização intergovernamental que é criada no pós-Guerra Fria, em 1996, Declaração de Oitava, reúne, portanto, todos os estados desta região do Ártico, portanto, desde os Estados Unidos e do Canadá.
até à Rússia, passando pela Finlândia, pela Noruega, pela Dinamarca, muito por via da Grunelândia. Aliás, é a Dinamarca que tem agora a presidência rotativa, portanto, cada dois anos um Estado vai assumindo essa presidência rotativa, é agora a Dinamarca que tem e, na verdade, delega, no fundo, esse papel no ministro dos nossos estrangeiros do governo autónomo da Grunelândia.
Mas, obviamente, isso coloca problemas. Ou seja, a presidência anterior foi da Noruega, 2024 a 2026, ou 2024 a 2025. A Noruega retomou realmente o funcionamento do Conselho?
insistindo neste ponto que está presente desde o início, que isto não é para discutir questões militares ou de geopolítica, é sobretudo questões ambientais, questões económicas, questões de segurança marítima no sentido de, por exemplo, busca e salvamento, etc. Portanto, no fundo a ideia é que é uma região onde os perigos são tão grandes, onde é tão difícil sobreviver, que é importante que haja cooperação de todos.
para garantir isso e até há muito esta ideia, portanto, que levou à criação do Conselho uma espécie de exceção do Ártico, portanto, o Ártico estaria, digamos, salvaguardado dos conflitos geopolíticos, das disputas entre grandes potências, etc. Agora, a verdade é que parcialmente isso pode ser assim, mas não é inteiramente assim. E a verdade é que entre 2022 e 2024 o Conselho teve suspenso, não funcionou, porque era a Rússia ainda por cima a presidir e, entretanto, invada a Ucrânia em fevereiro de 2022.
Depois é decidido, por iniciativa da Noruega, com a concordância dos demais, realmente retomar os trabalhos nestas dimensões, gestão de risco ambiental, por exemplo, questões de pescas, enfim. Agora, com a Dinamarca, temos este dado novo, que é a questão da Grunolândia, e em que o conflito é entre duas potências do Ártico, os Estados Unidos.
e a Dinamarca, e supostamente até aliados, portanto nem sequer é a Rússia que está aqui a aparecer no papel, digamos, de agressor potencial, são os Estados Unidos, e portanto realmente no fundo põe-se essa questão até que ponto é que o Conselho conseguirá continuar a funcionar ou não.
Outra questão, voltando e terminando com a questão do bacalhau, que talvez seja a que nos interessa aqui mais, por exemplo, há um acordo bilateral, mas que depois também faz parte destes acordos mais amplos, entre a Noruega e a Rússia para gerir os toques de bacalhau, portanto o bacalhau da Noruega na verdade é uma espécie de bacalhau russo-norueguês, porque o peixe oscila entre as fronteiras, portanto, obviamente o mar.
Não tem fronteiras para o peixe, não é? Portanto, a Noruega faz fronteira com a Rússia, no extremo norte, e, portanto, o peixe anda entre uma zona e outra, e, portanto, há acordos para permitir a pesca, quer de noruegueses, quer de russos, de acordo com determinadas cotas, mas, no fundo, evitar uma pesca que interfira com, digamos, com esses ciclos naturais do bacalhau. São 2 mil milhões, por exemplo, para a Noruega, o bacalhau da Noruega.
E isso agora está a ser posto em questão. Há países que criticam, no fundo, essa cooperação entre a Noruega e a Rússia, o facto de permitir o acesso de certos navios russos. Será que estão só a pescar ou que também estão a espiar? A Noruega tem defendido isto com a questão da necessidade ambiental de gestão de estoques, com a possibilidade de haver algum controle, alguma monitorização, de acordo com os termos desse acordo.
Mas realmente tudo isso mostra como realmente o mundo mais conflituoso levanta todo o tipo de problemas, põe em causa todo o tipo de expectativas, inclusive, eventualmente, até a nossa possibilidade de comprar a preços razoáveis bacalhau da Noruega, enfim, para as nossas mesas.
E como não falar de Donald Trump. É também um tema que se liga às consequências das alterações climáticas, às migrações. Surgiu há pouco o novo relatório da Organização Internacional para as Migrações. Quais são, Bruno, as grandes tendências? Isto também a propósito da crise migratória e do nativismo na África do Sul ou a ponta Nigéria se oferecer para retirar cidadãos deste país vítimas de ataques xenófobos.
Sim, ou seja, realmente a Organização Internacional das Migrações publicou o seu relatório anual, que é sobretudo ainda focado em 2024, porque realmente, enfim, no fundo, em muitos casos é difícil consolidar dados logo para 2025.
No fundo, o relatório insiste que, digamos, o volume de migração no sentido amplo, inclui refugiados, inclui migrantes económicos, ainda é apenas, portanto é assim que eu expõe a questão, à volta de 300 milhões.
para 2024, e se representa apenas 13,7%, portanto 4%, se quisermos, da população mundial, portanto é um número, dizem eles, relativamente reduzido, tendo em conta o enorme impacto que isso está a ter na política a nível global, e portanto já vamos ao caso da África do Sul.
Mas a verdade também é que vale a pena sublinhar que são bastantes mais do que eram, por exemplo, aqui há umas décadas atrás, em 1970, estávamos a falar de 80 milhões. Portanto, a tendência tem sido realmente de crescimento, de crescimento relativamente sustentado. Então, obviamente, se tivermos mais conflitos armados, se tivermos mais insegurança, se tivermos mais eventos climáticos extremos, mais catástrofes, vamos ter mais deslocados. À partida, as pessoas preferem sempre deslocar-se no interior do próprio país.
e, portanto, essa tendência também se mantém, mas em muitos casos isso não é possível e, portanto, acabamos por ter realmente fenómenos migratórios, digamos, transnacionais e, portanto, essa tendência aparentemente veio para ficar e para se acentuar. E, realmente, o impacto político que isso tem, o surgimento de movimentos nativistas
É bastante claro. Tem muito a ver com o facto desta imigração, destes movimentos migratórios serem também muito assimétricos, ou seja, tendem a concentrar-se em determinados países que são vistos como mais ricos, mais prósperos. Obviamente os migrantes podem estar a fugir da insegurança, mas não quer dizer que vão para qualquer país a seguir. As pessoas estão informadas, têm telemóveis e, portanto, procuram de forma compreensível.
ir para sítios onde pensam que terá um futuro não só mais seguro, mas também mais próspero, onde muitas vezes também têm rede já, portanto, este fenómeno também da imigração que se vai reforçando a si própria, o efeito de chamamento, e isso acontece na Europa.
e no caso da Europa, por exemplo, muito mais em Espanha do que em Portugal, ou muito mais na Alemanha do que em países mais pobres na Europa. No caso da África, por exemplo, acontece muito em relação à África do Sul. E aí realmente tem havido nos últimos anos, mas nomeadamente também nos últimos meses, novamente um acentuar de manifestações, de ameaças, de assassinatos, ou seja, há, por exemplo, neste momento uma crise entre a Nigéria, o mais populoso país africano, e a África do Sul.
porque foram mortos dois nigerianos no quadro destas manifestações nativistas extremamente violentas, extremamente ameaçadoras. O próprio rei Zulu, a África do Sul é uma república, mas como nós já falamos, e que algumas vezes em muitos destes estados africanos continuam a existir as monarquias tradicionais e têm alguma importância.
simbólica, alguma influência política. O mais importante desses monarcas tradicionais na África do Sul é o rei Zulu, fez um discurso há poucos meses atrás, no fundo, a apoiar a expulsão de migrantes estrangeiros. Isto tem grandes implicações, por exemplo, para um país como Moçambique. Eu fui ali às África do Sul e a Moçambique aqui há dois anos atrás.
E, inclusive, pude verificar, através do testemunho dos moçambicanos, que realmente eles queixavam muito deste fenómeno crescente de racismo, de ameaças, de algum maltrato. Um empresário moçambicano, por exemplo, que estava a atravessar a fronteira enquanto estávamos na fila à espera. Uma das queixas moçambicanas também é que eles passam horas nas filas porque não há funcionários suficientes na fronteira.
mas queixava-se, por exemplo, que lhe tinham exigido, ele tinha ido comprar algum material para a sua quinta, lhe tinham exigido uma licença de criação de gado na África do Sul. Ora, obviamente ele disse, mas eu crio gado em Moçambique, estou aqui a comprar caixas, portanto, mas simplesmente para extrair dinheiro ou para...
E, portanto, há realmente essas queixas e é interessante perceber que esse fenómeno existe na Europa, mas não é exclusivo da Europa, existe em África, existe na América do Sul. Neste momento, e para terminar, o país com mais migrantes é a Venezuela, o que é extraordinário. É um país onde não há um conflito armado, mas que com o regime populista, chavista, realmente ficou completamente destruído a sua economia.
tornou-se o país mais rico em termos de recursos, o segundo mais rico per capita na América do Sul, no país mais pobre, e, portanto, temos à volta de 7 milhões de deslocados venezuelanos, muitos deles lusó-venezuelanos também aqui em Portugal, na Madeira, etc. Mas a maior parte na América do Sul, 2 milhões na Colômbia, 600 mil no Brasil, mas, por exemplo, no Chile, nas eleições deste ano, uma das questões foi precisamente o excesso de migrantes e, no fundo, a ideia de que era importante promover o seu regresso.
Ainda que seja importante dizer que, apesar de tudo, os venezuelanos e o seu tratamento na América Sul não parece ser um caso de algum sucesso em termos de algum acolhimento, alguma disponibilidade para acolher, para dar oportunidades económicas. Não quer dizer que não haja algumas tensões, como eu referi no Chile e se apareceu, mas mesmo aí, para já, parece ser relativamente...
Este fenómeno de migração latina para outros países latinos não parece ser dos casos piores a nível do que está a acontecer nestas dinâmicas migratórias. Vamos agora ao país em destaque esta semana e esta semana a Coreia do Norte que retirou da Constituição o objetivo de reunificação com a Coreia do Sul. Uma boa ou má notícia?
Bem, eu acho que os próprios especialistas na Coreia, que eu fui procurar consultar, há alguns colegas que, enfim, vou seguindo, também não têm bem a certeza. Ou seja, à partida, poder-se dizer que talvez sim, porque é importante recordar, às vezes temos falado disto aqui quando falamos do...
Como é que vai terminar a guerra na Ucrânia? Como é que vai terminar a guerra no Irão? A questão de há sempre uma paz. Não há sempre uma paz. Às vezes há um sarfogo, se tivermos sorte, se a guerra não se eternizar, mas há um sarfogo que assim se vai eternizando, mas sem se chegar a um acordo final.
e, portanto, no fundo, sempre com grandes tensões, com um grande nível de militarização e, portanto, o exemplo que eu costumo dar é exatamente a Coreia. Tivemos uma guerra entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, se quisermos, uma tentativa pela força reunificar a Coreia por iniciativa da Coreia do Norte, mas isso é travado
pelos aliados da Coreia do Sul, dos Estados Unidos e outros, mas, na verdade, chega-se ali um certo impasse e, portanto, estabelece-se esse sarfoque que ainda continua. Portanto, não há, formalmente, a Coreia do Norte e a Coreia do Sul estão em guerra desde 1953, embora, felizmente, não em uma guerra, digamos, ativa. E, portanto, podia-se-ia dizer, bem, isto quer dizer que, de alguma forma, a Coreia do Norte reconhece que existe a Coreia do Sul, não vai tentar uma reunificação pela força.
É possível essa interpretação, mas a verdade também é que isto vai de par com o facto de a Coreia do Norte ter declarado a Coreia do Sul o seu inimigo eterno e principal em 2023, de ter realizado quatro ensaios com missas neste mês de abril, foi o máximo.
portanto foi um mês com mais ensaios e portanto nada disto de facto parece sinalizar digamos uma pacificação ou uma mudança digamos da postura da Coreia do Norte que realmente é um país fascinante, enfim vale a pena referir aqui alguns dados, é uma ditadura totalitária, é o país mais fechado do mundo, o regime mais repressivo as pessoas são condenadas à morte por ver séries da Coreia do Sul e...
E é um país extremamente militarizado, portanto, as pessoas passam fome. Tivemos episódios de fome em que morreram milhões, mas o essencial do orçamento é gasto no programa nuclear. A Coreia do Norte conseguiu, de facto, desenvolver um programa nuclear com sucesso, ao contrário do Irã, que terá à volta, talvez, de 40 ogivas. E, portanto... A Coreia do Norte
Há aqui um dado que vale a pena referir, que é a Coreia do Norte tem à volta de 25 milhões de pessoas, a Coreia do Sul tem 50 milhões, são países mais ou menos do tamanho de Portugal, portanto a Coreia do Norte um pouco maior, 120 mil quilómetros quadrados a Coreia do Sul à volta de...
100 mil, portanto Portugal tem 90 mil quilómetros quadrados, mas portanto a Coreia do Sul é um caso de extraordinário sucesso económico era um país mais pobre do que Portugal hoje em dia é um país substancialmente mais rico é talvez a 13ª, 14ª economia mais rica do mundo, tem uma economia que é 40 vezes o tamanho da economia da Coreia do Norte
Em termos militares, a Coreia do Norte, com metade da população, com uma economia 40 vezes mais pequena, tem o quarto maior exército do mundo, tem quase tantos efetivos como os Estados Unidos. Tem à volta de 1.3 milhões, os Estados Unidos tem à volta de 1.3...
portanto 1 milhão 328 mil no caso dos Estados Unidos, 1 milhão 320 mil talvez no Coreia do Norte, só são ultrapassados pela China e pela Índia, que são de longe os países mais populosos, ainda tem a volta de 1 milhão e 400 mil soldados, a China a volta de 2 milhões de soldados, e portanto isto diz bem, digamos, da militarização da Coreia do Norte, quais são as prioridades em termos da natureza do regime.
E, portanto, isso realmente faz-nos duvidar que, de facto, a Coreia do Norte, com esta mudança na sua Constituição, esteja mesmo disposta... O que é que motiva esta mudança?
Eu penso que é, no fundo, o consagrar, digamos, do estado de coisas que existe, se quiseres que eu seja claro, eu tenho receio que isto não seja realmente um sinal de maior pacificação. Ou seja, no fundo, uma interpretação possível é, se apesar de tudo o objetivo era a reunificação...
Então, à partida, numa postura muito agressiva em relação à Coreia do Sul, não fazia sentido, porque somos todos coreanos, então como é que vamos estar, no fundo, a ameaçar, matar grande número de sul-coreanos, que são também nossos compatriotas, somos todos coreanos. E, portanto, eu tenho receio que possa eventualmente ser um sinal nesse sentido. Outra possibilidade é simplesmente, no fundo, deixar claro que a dimensão negocial com a Coreia do Norte não é uma prioridade.
e, portanto, pode não ser um sinal de uma postura assim tão mais agressiva, mas pelo menos de que essa dimensão negocial não é o mais importante e, no fundo, procurar consolidar esta ideia de que o regime está para durar, está para ficar, não é preciso fazer cedências também para qualquer esforço de reunificação.
Há muitos rumores de que o atual líder da Coreia do Norte, que faz parte desta dinastia, desta família Kim, que se tem eternizado no poder, basicamente desde 1948, que ele estará a preparar a sua filha para, no fundo, suceder. Portanto, nós tivemos até agora...
digamos, avô, pai, filho, não é? Portanto, três gerações da família Kim a governar a Coreia do Norte e, portanto...
Tivemos, obviamente, o Kim Il-sung, o Kim Jong-il e agora o Kim Jong-un. E, portanto, é também este dado extraordinário realmente que é uma ditadura comunista, portanto, um regime comunista, completa estatização da economia, etc. Mas é, ao mesmo tempo, uma espécie de monarquia absoluta, uma dinastia. O presidente, o fundador, no fundo, da Coreia do Norte, o Kim Jong-il, e, portanto, o mundo,
foi declarado presidente eterno, portanto, no fundo, a Coreia do Norte é formalmente presidida por alguém que já morreu, em 1994, e, portanto, temos também esse dado aqui de algo paradoxal.
extraordinário, de uma república dinástica, de uma república comunista, de um regime comunista que é, ao mesmo tempo, uma espécie de monarquia absoluta, como eu digo, extremamente repressivo, mas isso também mostra que realmente, enfim, todos podemos ser formalmente democratas, mas dentro dessa suposta, desse formalismo democrático, porque realmente eles dão só o trabalho de organizar eleições, ganham sempre com 99,9% e explicam com 1%.
tem a ver com funcionários que estão no estrangeiro e que não podem votar, etc. Mas dentro desse formalismo democrático há espaço para regimes extraordinariamente repressivos, extraordinariamente opressivos e em que claramente a prioridade é esta pequena elite se manter no poder.
Mas, portanto, em relação a esta mudança, a minha impressão é realmente isso, é que tem sobretudo a ver com um esforço para consolidar a mensagem de que a Coreia do Norte é um Estado que veio para durar, não é uma coisa que seja temporária, à espera de uma reunificação com o Sul.
E é com a Coreia do Norte que fechamos a edição desta semana de 5 Continentes. Já sabe, se tiver perguntas, dúvidas, sugestões, pode escrever-nos através do e-mail ouvinte arroba observador.pt. Pode também enviar-nos mensagem através do WhatsApp 91002 4185. 5 Continentes está de cresce na próxima semana, sempre com o historiador Bruno Cardoso Reis.