Episódios de 5 Continentes

A relação dos EUA com a Europa ainda é especial?

02 de maio de 202640min
0:00 / 40:01

Relação bizarra de Trump e Putin contra a resistência ucraniana surpreende? Bruno Cardoso Reis analisa ainda a crise no Médio Oriente, numa altura em que Cuba, segundo Trump, é o próximo alvo dos EUA.

See omnystudio.com/listener for privacy information.

Participantes neste episódio1
J

João Gosta e Silva

Host
Assuntos7
  • Relações InternacionaisHistória da relação especial · Críticas ao termo 'relação especial' · Períodos de tensão e reaproximação · Papel da monarquia britânica · Assimetria crescente na relação · Impacto do Brexit na relação
  • Política Externa de TrumpDeclarações de Trump sobre a derrota militar da Ucrânia · Relação de Trump com Putin · Apoio russo ao Irã · Guerra naval e uso de drones pela Ucrânia · Resistência ucraniana com apoio europeu
  • Possível intervenção Trump em CubaAmeaça de ação militar de Trump contra Cuba · Contexto das declarações de Trump · Subestimação do adversário por Trump · Resistência do regime cubano · Erro estratégico de abrir novas frentes de guerra
  • Crise Econômica no IrãComemoração iraniana da derrota portuguesa em 1622 · Disputa sobre o nome do Golfo Pérsico/Arábico · Declarações do Guia Supremo do Irã · Controle iraniano sobre o Estreito de Hormuz · Cenários de escalada militar e acordo limitado · Capacidade militar do Irã (drones, mísseis)
  • Saída dos Emirados Árabes da OPEPHistórico da OPEP e seus membros · Motivações para a saída de membros · Significado da saída dos Emirados Árabes Unidos · Tensões entre Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita
  • Tarifa dos EUA sobre carros da UEDecisão de Trump sobre tarifas · Impacto económico para a União Europeia · Impossibilidade de acordos duradouros com Trump · União Europeia como inimigo comercial de Trump · Necessidade de medidas anticoerção económica
  • A Mais Bela MaldiçãoLivro de Luke Kemp · Investigação sobre colapso civilizacional · Abordagem histórica de longo prazo · Dimensão cooperativa humana
Transcrição102 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Ao sábado é dia de viajar pelos temas em agenda e que marcam a atualidade nos 5 continentes, sempre aqui na Rádio Observadores e também em podcast. Eu sou João Gosta e Silva. Olá, Bruno Cardoso Reis. Seja muito bem-vindo. Obrigado. Ouvi a edição da semana passada. Estava atento, estava atento. Nós ameaçámos aqui fazer um questionário. Tu e a Vanessa Cruz.

Não vamos fazer, até porque a Vanessa não está cá, ela é que seria ótima. Exato, exato. Fazer esse tipo de coisa. Estou safo, estou safo para já. Bem, vamos começar esta nossa semana na Ucrânia. Trump vai ser o protagonista desta edição, vamos falar muito dele. Trump que falou com Putin e afirmou que a Ucrânia está militarmente derrotada, alegando que já nem tem marinha. Bruno, isto é uma leitura correta da realidade militar no terreno ou é mais um pretexto da retórica de Donald Trump para...

forçar aqui uma negociação de paz que possa ser em moldes, digamos assim, favoráveis para Moscouvo. Bem, realmente é extraordinário e vale a pena continuar a notar estas coisas extraordinárias, que é, na mesma semana, até foi no mesmo dia, ou foi no dia a seguir ou algo assim, em que o chefe militar máximo dos Estados Unidos, o general Dan Kane, foi ao Congresso e, embora não tenha, digamos, em sessão aberta...

detalhado, afirmou taxativamente que os Estados Unidos têm provas de que a Rússia está a ajudar o Irão nos seus ataques aos Estados Unidos, enfim, a suspeito, tecnicamente, com coisas como intelligence, informações, no fundo, enfim, informação via satélite, etc., mais que o Irão não tem para ajudar a atingir alvos. Enfim, nós falámos aqui, por exemplo, que era muito pouco provável que o Irão por si só conseguisse fazer... Dr. Dr.

Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr. Dr

Aquela tentativa de ataque à base de Diego Garcia. E, portanto, basicamente no mesmo dia, Donald Trump tem uma chamada de mais de uma hora com Putin e a conclusão dessa chamada é Donald Trump a seguir dizer que a Ucrânia está derrotada.

Ou seja, o que nós percebemos é, aparentemente, a Rússia estar a ajudar o inimigo dos Estados Unidos num contexto de um conflito armado, não altera esta empatia, esta confiança que o Donald Trump tem em Putin. Nós já vimos isso, inclusive no primeiro mandato, o Donald Trump a afirmar explicitamente

que confiava mais no que lhe dizia Putin do que naquilo que lhe diziam os seus próprios serviços de informações. E, portanto, quer acreditar que os serviços de informações dos Estados Unidos estejam a dizer ao Presidente a realidade, ou seja, que isso de facto não é assim. Dizer certamente terá sido algo que Putin terá dito a Trump.

Dizer que a Ucrânia não tem marinha, bem, isso realmente é verdade, mas a Ucrânia não tem marinha desde 2014, nem sequer... Não é um fato novo. Não é um fato novo, ou seja, a Ucrânia perdeu a sua marinha porque confiou nas garantias de segurança dos Estados Unidos e da Rússia, no chamado memorando Budapeste de 1994.

Com parte do esforço para acomodar as necessidades de segurança, de estatuto da Rússia, a Ucrânia aceitou bases militares russas, a manutenção de bases militares russas, nomeadamente a principal base naval russa no Mar Negro, em Sebastopol, na Crimeia, quando a Crimeia era território ucraniano. E como resultado disso, os russos utilizaram precisamente essa base e essa presença militar para, em 2014, ocupar a Crimeia toda e de caminho.

no fundo tomar conta da Marinha Ucraniana, que também estava baseada aí no essencial. Obviamente, a Ucrânia basicamente tem costa para o Mar Negro, portanto era essa a sua base militar principal. Agora, já que estamos a falar de Marinha, em termos de guerra naval,

a Ucrânia está claramente em vantagem, quer dizer, se há uma área onde essa vantagem tem sido evidente, é exatamente essa. Aliás, com grandes implicações para todos os Estados e para todas as marinhas, inclusive um Estado como Portugal, que é um Estado em que a segurança marítima deve ser uma prioridade, ou para os Estados Unidos. Basicamente, o modelo que a Ucrânia usou com sucesso para derrotar a frota russa do mar negro é o modelo que o Irã agora está a usar também.

Ou seja, usar sobretudo drones, drones aéreos, drones navais, drones subaquáticos, portanto meios não convencionais, mísseis, para atingir estas plataformas tradicionais, estes grandes navios tripulados das grandes marinhas tradicionais, com grande eficácia ao ponto de forçar a Rússia a retirar os seus meios da zona de Sebastopol, não os consegue usar praticamente no conflito com a Ucrânia.

e basicamente retirou-os para a parte mais afastada possível da costa russa do Mar Negro em relação à Ucrânia. Portanto, realmente nada disto faz sentido, mas é revelador realmente desta proximidade, desta empatia, desta simpatia, desta confiança entre Donald Trump e Putin, que justifica realmente que se pense que a pressão dos Estados Unidos, e enfim, também tudo o que temos ouvido em público vai nesse sentido.

A pressão dos Estados Unidos é sempre sobre a Ucrânia e, portanto, nesse sentido, tendo a favorecer realmente um acordo que fosse mais nos termos que a Rússia deseja. Aqui o que está realmente a correr mal é precisamente que a Ucrânia...

continua a resistir militarmente, tem revelado até grande eficácia na utilização de novos drones, inclusive drones terrestres também, digamos, no combate terrestre, drones aéreos e mísseis com ataques cada vez mais frequentes e mais eficazes contra as infraestruturas críticas que permitem, por exemplo, à Rússia produzir, refinar, exportar petróleo e gás, que são cruciais para alimentar a máquina de guerra.

E tem feito isso, sobretudo, já agora, também vale a pena sublinhar isso, com o apoio europeu. Portanto, uma das grandes dúvidas, e era uma dúvida real, era se a Ucrânia conseguiria continuar a defender-se, se não haveria um risco de colapso da resistência ucraniana, se conseguiria continuar a defender-se apenas com o apoio europeu.

enfim, ainda com algum armamento, algumas munições norte-americanas, mas mesmo essas pagas pela Europa e sobretudo com apoio militar europeu e obviamente da própria indústria de defesa ucraniana, que também se tem desenvolvido e tem inovado muito. E a resposta, aparentemente, é que sim, a Ucrânia realmente continua a conseguir resistir. Portanto, de facto, aqui a conclusão factual que podemos tirar é desta proximidade.

uma bizarra, paradoxal, entre Putin e Trump, mesmo no contexto em que a Rússia está a ajudar o Irã. E que já conheceu também muitos avanços e recursos. Precisamente no Irã, o IE Supremo fez uma declaração no dia do Golfo do Pérsico, que celebra a derrota portuguesa.

em abril de 1622. Nesta crise, Bruno, que parece avançar em câmara lenta no Medio Oriente, quem é que tem o tempo do seu lado? O Irão com a sua paciência estratégica ou o Ocidente com a pressão diplomática? Que cenários é que se abrem aqui nesta crise no Medio Oriente?

Bem, realmente esta comemoração é interessante, eu não sabia que ela existia, não é assim tão antiga, mas começa a partir de 2005 e faz parte, por um lado, deste constante cultivado, uma cultura estratégica de resistência contra o Ocidente. Os iranianos tendem a esquecer-se que, como já falámos aqui, a perda, digamos, de Hormuz pelos portugueses...

que estavam na altura em União Dinástica com a Espanha, com os Habsburgos de Madrid, em 1622, é feita com a ajuda dos ingleses, portanto é, no fundo, o início da presença inglesa nesta zona, que depois se vai tornar hegemónica no século XIX. Portanto, não é assim uma coisa tão simples como a versão, digamos, nacionalista iraniana do regime quer fazer crer, mas também tem a ver com o facto

de não é apenas Donald Trump que vive obcecado com alterar nomes no mapa, a questão do Golfo do México passar a Golfo dos Estados Unidos, desde a década de 60 que os países árabes insistem em chamar ao Golfo Pérsico, e essa é a designação mais corrente por todo o mundo e da organização cartográfica internacional, mas insistem em chamar-lhe Golfo Arábico.

com o argumento que há mais países árabes em torno do Golfo do que apenas um persa, que é o Irão. E, portanto, é também parte, digamos, dessa guerra de palavras, mas, neste caso, realmente foi um protesto para mais uma declaração do Guia Supremo que continua desaparecido, mas continua, digamos, a comunicar por via destes discursos. E há muitas notícias a circular sobre esse desaparecimento, não é?

Sim, é realmente algo muito estranho e, portanto, que justifica todo o tipo de suspeitas, desde que ele não está, desde que está em coma, portanto, no fundo é uma espécie de fantasma, de feiticeiro de Oz, algo assim, portanto, uma fachada para outros setores, nomeadamente a guarda revolucionária, setores mais duros, no fundo, tentarem dominar a agenda política iraniana, até que está gravemente ferido, desfigurada, etc. Portanto, há aqui realmente algo de estranho, mas a verdade é que é assim que...

E, portanto, essas declarações têm algum significado. No fundo, procuram passar a mensagem de que o Irã está disponível para algum tipo de acordo, mas não a qualquer preço, e, sobretudo, voltam a insistir nesta ideia de que o Golfo e que o Estreito serão iranianos a prazo.

Isso realmente parece algo inaceitável e extremamente perigoso. Aliás, nesta semana já ouvimos, por exemplo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Indonésia, que é um país que temos falado muitas vezes, que controla o Estreito Malac e também o Estreito Sunda, que são dois estreitos que são cruciais para ligar todo o Extremo Oriente, toda a Ásia Oriental ao resto do mundo. Como eu disse nesse discurso, há volta de 70% do comércio da energia.

que circula entre a Ásia Oriental e o resto do mundo, passam por ali. E, portanto, vem dizer, e se calhar devemos começar a cobrar também. E, portanto, realmente falámos já aqui disso, mas temos aqui prova de que a questão cada vez mais está a ser colocada em cima da mesa, que é se isto é assim com o Irã, que ainda por cima este estreito é um estreito claramente internacional, ou seja, de um lado temos o Irã, mas do outro temos o Oman.

como também no Estreito Maláquia, de um lado temos a Malásia, do outro lado temos a Indonésia, mas se esta moda pega, no fundo, criamos aqui um presente perigosíssimo. Mas, portanto, o que podemos concluir daqui é que, olhando também para as declarações do lado de Donald Trump, portanto, do lado do Guia Supremo, as declarações são no sentido, o Irã nunca vai deixar de resistir e nunca vai desistir do Estreito.

Do lado dos Estados Unidos, o general Trump veio dizer qualquer coisa como o Irã já nem tem militares, o que mais uma vez também não é verdade. As estimativas dos próprios espíritos americanos é que o Irã continua a ter à volta de 40% dos drones, 60% dos lançadores de mísseis, muito graças a abrigos subterrâneos, etc. Continua a conseguir lançar mísseis, atacar países por toda a região.

até o cessar fogo, continua a conseguir condicionar a navegação segura no estreito Hormuz mas portanto o problema aqui é que os dois lados parecem continuar convencidos que estão a vencer e portanto aqui a questão que colocava é realmente central é, na verdade a quem é que o tempo favorece?

Mas à partida, eu diria, se nós olharmos para o histórico, o tempo tende a favorecer, digamos, o ator aparentemente mais fraco, mas que opta por um conflito de tipo irregular, assimétrico, e que é o ator local. A grande potência que à partida teria vantagem, e que tem muito mais meios, mas tem de estar a projetar e a sustentar, a alimentar esses meios.

extremamente pesados, extremamente expendiosos, a milhares e milhares de quilómetros do seu próprio país e tem de justificar isso constantemente em termos também políticos, não é? Estamos a falar de gastos estimativos entre 500 milhões e mil milhões por dia.

Portanto, eu diria, o histórico aponta para o tempo favorecer mais o Irã. Ainda mais quando isto coloca um problema enorme à economia global. Nós temos estimativas de que, se isto não se alterar até setembro, basicamente em setembro temos um colapso, digamos, da economia dos hidrocarbonetos, com necessidade de racionamento extremo em termos de combustíveis, etc.

Portanto, além do custo económico que se vai acumulando, que já vemos na inflação do preço de combustível, dos fertilizantes, portanto, produtos derivados, e portanto tudo isso realmente aponta para uma vantagem para o lado do Irão. Agora, em termos de cenários, só para terminar, eu diria que há aqui um cenário que é o mais racional, que é avançar-se num acordo mais limitado.

para abrir o estreito enquanto se negocia outras coisas. Aparentemente o Irão estaria a propor algo desse tipo, os Estados Unidos estarão a recusar, o que me parece completamente irracional, mas, enfim, nem sempre a razão prevalece. A outra possibilidade é voltar-se, de facto, ao conflito armado.

seja numa modalidade, digamos, semelhante à anterior, mas mesmo aí apenas guerra aérea, dificilmente isso seria possível ser uma escalada, porque os alvos mais evidentes, militares, por exemplo, muitos deles já foram atingidos, portanto teríamos de passar para coisas como aquilo que Trump foi ameaçando, pontos, infraestrutura crítica e energética no Irão. O Irão iria retaliar, certamente, com ataques ainda mais pesados, por exemplo, contra a infraestrutura energética de países como a Arábia Saudita, aquele oleoduto que liga...

a costa leste ao mar vermelho, e eventualmente uma escalada também horizontal, ou seja, a entrada dos úteis e, portanto, ameaçar não apenas o Estreito de Hormuz, mas também o Estreito de Adan, o que obviamente obrigaria a desviar forças navais para garantir também a segurança desse outro ponto de estrangulamento da navegação global. E, portanto, esse cenário de uma escalada militar parece-me bem possível, até porque temos indicações de que tem havido um reforço dos meios e também da logística de apoio.

aos meios militares norte-americanos, e portanto acho que corremos o risco de isso poder acontecer. Um terceiro cenário dentro desta escalada seria eventualmente até ações terrestres, anfíbias e norte-americanas, algo que se tem também especulado.

Ou a destruição por via aérea de cargo, ou tentar tomar a ilha de cargo, ou marinhos, forças especiais, etc., ou algumas ilhas na zona do Estreito Hormuz para tentar facilitar a ação militar aí. Mas isso, à partida, é muito arriscado em termos de baixas e dessas forças também depois poderem tornar um alvo. E, Bruno, em dois minutos, a perguntar também a importância que tem neste contexto a saída dos Emirados Árabes Unidos, da OPEP, a Organização de Produtores e Exportadores de Petróleo. Temos dois minutos.

Bem, a OPEP é criada em 1960, em Bagdá, é a organização dos exportadores e exportadores, porque, enfim, os Estados Unidos produzem o dobro da Arábia Saudita, mas, obviamente, são eles próprios grandes consumidores, portanto, o principal exportador é a Arábia Saudita, importa produzir muito e consumir pouco, e os países do Golfei são cruciais.

Portanto, ele é fundado realmente em 1960, com cinco Estados-membros, o Irã, o Iraque, o Coet, a Arábia Saudita e a Venezuela. Atualmente são a Argélia, o Congo, a Guiné-Equatorial, o Gabão, o Irã, o Iraque, o Coet, a Líbia, a Nigéria, a Arábia Saudita e a Venezuela. Depois mais a Rússia, na chamada OPEP+.

Mas realmente aqui os Emiratos não são o primeiro país a sair. Angola já tinha saído, por exemplo, em 2024, antes disso o Equador, o Catar ou a Indonésia, geralmente porque ou se querem focar noutros negócios ou deixaram de ser exportadores, é o caso da Indonésia, passaram a importar, ou Angola quer aumentar as cotas. Aqui o especial significado disto é que os Emiratos Árabes são o outro grande produtor com capacidade soberana de produção a par da Arábia Saudita.

e, portanto, nesse aspecto tem importância e, sobretudo, significa também uma ruptura na coesão, digamos, na aliança estreita entre os países do Golfo. Significa que os Emirados Árabes Unidos estão mesmo muito chateados com a Arábia Saudita e outros países do Golfo, que não lhe deram o apoio que eles achavam que deviam ter tido quando se tornaram o principal alvo dos ataques do Irão, e importa sublinhar isso, os Emirados Árabes foram mais atacados do que Israel pelo Irão, e, portanto, isto é um sinal realmente também dessa insatisfação e de que esta guerra...

pode criar problemas e tensões na região, para além simplesmente da questão do Irã ou de Israel. Neste caso está a criar claramente tensões também entre os Emirados Árabes e Arábia Saudita. Na segunda parte vamos falar de Donald Trump, que reedirecionou o discurso e de Cuba pode ser mesmo o próximo alvo, e também do país em destaque esta semana, que é a Grabertenha. Até já, Bruno.

Mas não pesquiam. E é de rapazes bonitos. Os Ficheiros do Caso Carlos Castro é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. Aquilo era um dos momentos mais felizes do Carlos, em que ele parecia estar mesmo a viver uma paixão.

As testemunhas, as mensagens e os vídeos que ajudaram a polícia a desvendar a forma como Renato Seabra assassinou Carlos Castro em Nova Iorque. Estes são os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Episódio 4. Alguém não está a cumprir o acordo. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.

Estamos de regresso para a segunda parte dos 5 Continentes. Eu sou o João Costa e Silva, está comigo também o historiador Bruno Cordoso Reis. Bruno, ficámos aqui com um assunto pendente da primeira parte, um assunto que foi desenvolvido ao longo das últimas horas, declarações de Donald Trump que ameaçou uma ação militar contra Cuba. Será isto uma boa ideia antes de resolver aquilo que falávamos na primeira parte, a questão do conflito no Irão?

Bem, mais uma vez eu acho que temos de, enfim, eu percebo que há pessoas que já estejam um bocadinho fartas de Donald Trump, e já ouviu falar de Donald Trump, mas realmente ele, lamento, mas é o líder da potência, da grande potência mais poderosa a nível global. Dita as regras nesse sentido. Nesse sentido, é um bocado difícil ignorar coisas do género, vamos atacar Cuba, não é? Mesmo que seja, e portanto era isso que eu queria aqui, mesmo que seja...

O normal, quando um presidente vai atacar um país, ou ameaçar atacar um país, é fazer essas declarações, enfim, num contexto devidamente preparado, com um discurso também devidamente preparado. Neste caso, o que temos é, Donald Trump estava a falar, tanto quanto eu percebi, das alterações arquitetónicas na Casa Branca, e, portanto, a respeito disso fala do seu arquiteto preferido, com quem ele tem trabalhado muito, que é um cubano-americano, o Rick Gonzalez, e depois a pretexto, vamos pôr isto aqui entre aspas, não é? Portanto...

já que eu estou a falar de Cuba, se calhar podemos ir a seguir a invadir Cuba. E, portanto, é neste contexto que surge esta ameaça de invadir um país. E, portanto, de caminho, o que é que vale a pena aqui sublinhar? Bem, realmente isto mostra que o Donald Trump está cheio de vontade de resolver a questão do Irão, declarar a vitória e seguir em frente. Portanto, o que ele diz é...

quando resolvermos a questão do Irão, quando estiverem a regressar esses meios, ele fala do porta-aviões, digamos, mais recente, mais avançado, o USS Abraham Lincoln, pode tratar de Cuba. Mais uma vez revela o mesmo problema que existiu no Irão, que é subestimar o adversário, portanto diz, Cuba está acabada, é verdade que sim, o regime parece estar, de facto, numa situação crítica, mas a verdade é que já ultrapassou múltiplas crises.

desde 1959, muitas vezes à custa do facto de ser um regime autoritário repressivo, que não quer saber da economia, da qualidade de vida para a população, mas a verdade é que tem resistido muitas vezes. Apesar de tudo, é importante dizer que realmente Donald Trump parece ter a noção de uma coisa fundamental que tu referiste na questão, que é...

faz sentido começar uma nova guerra quando ainda não se acabou esta. Mas a resistência possivelmente seria diferente, se calhar idêntica à questão da Venezuela, não é?

Sim, a partir do regime cubano, em termos militares, também temos todas as indicações que está muito enfraquecido, não teria as capacidades que tem o Irão. Agora, portanto, militarmente isso talvez não pusesse grandes problemas, agora nunca se pode escolher coisas como, por exemplo, uma guerrilha a seguir ou algo desse tipo. Sim, sim. Em todo caso, seria provavelmente um alvo mais fácil, mas nunca é boa ideia subestimar completamente o adversário, portanto dizer que o regime está acabado, bem, o regime ainda não acabou, continua lá.

A Rússia fez isso com a Ucrânia, ainda que em moldes diferentes. E o facto é que o conflito continua, passados quatro anos. E os Estados Unidos claramente fizeram isso também com o Irão nesta campanha. Portanto, isso parece-me sempre, digamos, problemático, perigoso, mas em todo caso é verdade que Donald Trump diz, bem, mas primeiro vamos acabar esta, vamos acabar o Irão e depois é que...

mas, portanto, ele parece dar por adquirido que isso do Irão se irá resolver rapidamente com uma vitória decisiva norte-americana, não me parece todo claro. Se isso não acontecer, não sei se Donald Trump não se sentirá tentado, no fundo, mudar a conversa, mudar o tema, fazendo algum tipo de ação contra Cuba, enquanto as coisas não estão ainda resolvidas no Irão. E isso realmente é, na estratégia, um grande erro. A partir de uma das regras básicas da estratégia é...

nunca, por opção própria, às vezes não é possível evitar isso. Por exemplo, na Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos foram forçados a combater uma guerra em duas frentes, contra o Japão no Pacífico e contra a Alemanha e os seus aliados no Atlântico, na Europa, e contra o Japão na Ásia, mas a verdade é que isso, digamos, não foi uma opção norte-americana. Sendo possível, deve-se obviamente evitar ter mais do que uma guerra, mais do que uma frente.

Porque isso obviamente obriga a dispersar recursos, a dispersar meios, torna muito mais difícil conseguir uma vitória decisiva. Foi um dos problemas que os Estados Unidos tiveram com o Afeganistão e o Iraque, aliás, nas últimas décadas. E, portanto, vamos ver se realmente Trump evita cair nesse erro.

Estaremos atentos para perceber os próximos episódios Sabemos que Donald Trump é sempre muito imprevisível Vamos agora para o país em destaque esta semana Agra-Bretanha, mas em particular o destaque agora para a longa história de relação com os Estados Unidos Aqui Bruno, tu queres abordar a ideia desta relação especial com os Estados Unidos da América Será que ainda é o pilar que os britânicos gostariam e também qual é o papel diplomático da monarquia britânica neste caso em tudo isto?

É realmente uma longuíssima história, mas há realmente na cultura estratégica americana, a partir da Segunda Guerra Mundial, muito esta ideia da relação especial, um pouco como Portugal tende a ter também com países como o Brasil ou Angola, portanto, no fundo a ideia de uma antiga colónia que se torna realmente mais poderosa do que a antiga metrópole.

e a antiga metrópole de alguma forma procura retirar algumas vantagens desta proximidade histórica, cultural, linguística, embora isso também suscita algumas reações. Aliás, precisamente coincido com esta visita o atual embaixador britânico na Grã-Bretanha, portanto foi...

foi passada à imprensa uma conversa que ele achava que era à porta fechada com um grupo de estudantes, embora provavelmente pudesse ter sido mais podente, em que ele diz precisamente que não gosta desse termo, uma relação especial, acha que isso é uma coisa um bocadinho passadista e faz com que a Grã-Bretanha apareça estando aqui numa posição, digamos, muito, a expressão em inglês é needy, portanto, muito à procura, digamos, de proximidade, sinais de proximidade com os Estados Unidos.

Mas a verdade é que isso tem sido um pilar na cultura estratégica e na política externa britânica há muitas décadas. Mas realmente a história é muito longa. Enfim, podemos talvez, para facilitar, dividi-la em alguns períodos para evitar, digamos...

Portanto, temos, obviamente, o período da própria independência, da guerra da independência, que começa em 1775, a declaração de independência em 1776. Obviamente, aí a monarquia, digamos, é um irritante, é um alvo. A declaração de independência, no fundo, aparece como uma listagem de acusações contra o monarca, contra o rei.

Jorge III. Já agora vale a pena dizer que esse distante avô, quinto avô, parece do rei Carlos III, que ele aliás referiu nos seus vários discursos nesta visita, na verdade em privado até era favorável a uma solução negociada com os colores norte-americanos. Achou que a linha dura do governo provavelmente não era a mais sábia, mas a verdade é que a Grã-Bretanha já estava a evoluir para uma monarquia constitucional, embora o monarca ainda tivesse muitos poderes nessa época.

E, portanto, o Jorge III, também na sua correspondência privada, eu, quando estive lá nos Estados Unidos, tive a oportunidade de ver uma exposição magnífica sobre os dois Jorge, o Jorge III, o rei da Grã-Bestanha na altura da Guerra da Independência, e o Jorge Washington, que, obviamente, foi chamado Jorge porque o seu pai era um leal sub-dito britânico e, portanto, em homenagem aos vários reis Jorge.

Há uma ligação. No século XVIII, mas depois se torna, obviamente, o líder do exército independentista, mas nessa correspondência, por exemplo, o Jó III deixa claro que ele, no fundo, está a ser um rei leal ao Parlamento. Portanto, isto é uma guerra do Parlamento contra os colonos americanos e que ele está, no fundo, a defender o seu Parlamento, o seu governo, apesar de poder ter aí algumas dúvidas. Mas, portanto, esse período, basicamente há um período, podemos dizer, entre 1776 e 1815,

de relações muito tensas, muito conflituosas. Temos a Guerra da Independência, que termina em 1783 com o Acordo de Paz e o Reconhecimento Forçado da Independência pela Grã-Bretanha. Mas depois temos muitos momentos de tensão. É um período de guerras também, guerras globais. Não se chamam guerras mundiais, mas, por exemplo, as guerras napoleónicas. São guerras globais, sobretudo navais.

E, por exemplo, aí a Grã-Bretanha tem esta política de tentar impor um bloqueio naval à França e isso cria muitos conflitos com países neutros que querem continuar a exportar, a fazer comércio, como os Estados Unidos, foi por isso que se tornaram independentes também e, muitas vezes, esses navios são interceptados pela Marinha Britânica e isso cria muitos conflitos e acaba por levar, aliás, a uma Segunda Guerra. Os americanos até chamam, por vezes, a Segunda Guerra da Independência, 1812, 1815 ou 1814.

que leva a que os britânicos inclusive ocupem durante uns dias a capital, Washington que ainda estava em construção e aliás queimem a Casa Branca portanto também o Rei Carlos nesta visita não deixou de dar essa nota em relação a estes planos de mudança da Casa Branca de Donald Trump dizendo, bem, eu devo confessar que nós também tentámos fazer isso aqui há uns anos atrás e portanto era uma referência não sei

até à ideia de que uma das razões por que a Casa Branca é branca embora aparentemente isso não seja muito histórico científico, é que foi pintada de branco para ajudar a disfarçar digamos as manchas do incêndio provocado pelas tropas britânicas

Depois temos um período de coexistência e gradual reaproximação, mas sempre com tensões, com problemas, que basicamente é todo o século XIX, desde esta paz do treco de 1814 até ao final do século XIX.

Há disputas fronteiriças, por exemplo, nós não nos podemos esquecer, o Canadá continua a ser uma colónia britânica, e durante muitas décadas, Donald Trump agora voltou a isso, mas durante o século XIX havia muitos norte-americanos que achavam que o Canadá naturalmente devia ser parte dos Estados Unidos, e portanto isso cria ali várias tensões. Há uma disputa fronteiriça no Oeste, na zona do Oeste, onde a fronteira não estava definida.

Mas isso é um primeiro exemplo de um acordo que Londres cada vez mais privilegia manter boas relações com esta potência emergente que são os Estados Unidos. Portanto, em 1846, até com algumas queixas dos canadianos, eles aceitam uma delimitação que é relativamente favorável aos Estados Unidos, desta fronteira do Oregon.

Depois, na Guerra Civil Americana, há um novo momento de tensão, também com estas questões navais de comércio, etc. Os norte-americanos têm muito receio que a Grã-Bretanha reconheça os Estados do Sul como um Estado independente. Aí, a aversão britânica à escravatura, a impopularidade da escravatura na opinião pública britânica é muito importante para evitar isso, porque do ponto de vista estratégico podia fazer algum sentido. O facto de isso não ter acontecido ajuda a melhorar as relações. Portanto, é um bocadinho um ponto...

de viragem, mas, por exemplo, logo em 1866 há um raid de irlandeses independentistas, republicanos, contra o Canadá, contra o Império Britânico, a partir dos Estados Unidos. É isso que vai, aliás, ajudar a formar depois a Federação do Canadá em 1867. Portanto, continua a haver aqui tensões a partir do final do século XIX. Começa a haver uma viragem, mas ainda há uma última crise importante, 1902-1903, que leva, aliás, ao chamado corolário Roosevelt.

Trump também agora veio voltar a falar à doutrina Monroe. O Presidente Teddy Roosevelt vai dizer bem, os britânicos, os alemães estão a intervir na Venezuela para tentar cobrar dívidas, é essa a crise em 1902, 1903. Nós não achamos isso bem, não vamos tolerar isso no futuro. Vamos ser nós, se houver necessidade de algum tipo de intervenção militar para lidar com uma guerra civil, um Estado que, nas Américas, que não está a cumprir as suas obrigações internacionais, seremos nós a fazer isso.

e a Grã-Bretanha acaba por aceitar isso, também aceita arbitrar a delimitação de fronteiras entre a Venezuela e a colónia britânica da Guiana, também já temos falado aqui várias vezes desses conflitos que agora voltaram e aceita no fundo resolver isso como mediação norte-americana portanto reconhecendo no fundo um certo papel dos Estados Unidos

E depois, o que temos durante o século XX é, no fundo, o começar do forjar dessa relação especial e depois o consolidar disso. Na primeira metade do século XX, até à Segunda Guerra Mundial, ainda como uma aliança de iguais, ou seja, os Estados Unidos já são claramente uma grande potência. A partir da década de 80, de 90 do século XIX,

com a segunda revolução industrial, os Estados Unidos já são economicamente maiores do que a Grã-Bretanha, portanto uma economia maior, mais pujante do que a Grã-Bretanha, mas obviamente a Grã-Bretanha continua a ter o seu vasto império, e portanto cada vez mais esta ideia não de uma relação assimétrica com um Estado que está ainda a emergir, um Estado independente, jovem, frágil, no início do século XIX.

Portanto, há aí uma relação especial, mas equilibrada, um pouco entre iguais. Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, obviamente, Churchill está nas grandes chimeiras com Stalin e com Roosevelt, mas com a Primeira Guerra Mundial e, sobretudo, com a Segunda Guerra Mundial, realmente...

Isso vai provocar um enorme desgaste do poder britânico, que depois leva também, ajuda a explicar a descolonização, o fim do império, que acentua ainda mais esta assimetria crescente de poder entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. Portanto, a partir de 1945, e portanto, obviamente, aqui os Estados Unidos foram cruciais, a sua intervenção foi crucial para decidir quem vence a Primeira e a Segunda Guerra Mundial ao lado da Grã-Bretanha, mas os Estados Unidos saem da Segunda Guerra Mundial, vale sempre a pena sublinhar estes números.

basicamente como metade da produção industrial do mundo. Portanto, o resto do mundo, somado, produz tanto como os Estados Unidos, que são a única grande potência, a única grande economia que não é diretamente atingida pela guerra. E, portanto, a partir daí, a Grã-Bretanha vai basicamente ter como prioridade a sua política externa, não ter crises sérias nas relações com os Estados Unidos, ter as relações o mais próximas possíveis.

E a crise do Suez, que é a última grande crise nas relações bilaterais, em 1956, uma intervenção britânica e francesa no Egito, que eu aliás aqui referi também a respeito agora destas queixas de Donald Trump por a NATO não o apoiar no Irã. A NATO foi criada em 49, foi muito uma iniciativa também britânica e norte-americana.

mas não está obrigada a apoiar ações militares britânicas no Egito, como não está obrigada a apoiar ações militares norte-americanas no Irão. Mas em 1956, o presidente Eisenhower não só não apoia, como publicamente critica, distancia-se, pressiona os britânicos e os franceses a retirar.

A lição da França, que a França retira disso, logo dois anos depois vem de golo, é nunca mais vamos estar dependentes dos Estados Unidos, autonomia estratégica no nuclear, por exemplo. A lição britânica é nunca mais vamos permitir que haja aqui este género de tensões diferentes e, portanto, vão-se colar muito mais ainda aos Estados Unidos. Por exemplo, em termos nucleares, a Grã-Bretanha não tem um programa nuclear, não tem armas nucleares completamente autónomas, mas depende da tecnologia de cooperação com os Estados Unidos.

Esta relação especial tem levado, de facto, muitas vezes, os primeiros ministros britânicos a apostar a uma colagem quase a qualquer preço, e vimos isso, por exemplo, com Tony Blair na guerra do Iraque em 2003. É verdade que a Sturman realmente não seguiu essa linha, desta vez no Irã, também porque Trump é extremamente impopular por toda a Europa, inclusive na Grã-Bretanha. Continua a haver alguma realidade nesta relação especial? Por exemplo...

o mercado americano é crucial para as exportações britânicas. Por exemplo, em termos de defesa de informações, a proximidade, a interpenetração entre os britânicos e os americanos não tem realmente paralelos. Por exemplo, em termos de recolha de informações de intelligence, os famosos Five Eyes são os cinco países de língua inglesa, a Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Grã-Bretanha e Estados Unidos.

que colaboram para recolher informações, por exemplo, intersecção de comunicações etc. por todo o mundo, depois partilham essas informações de uma forma que não fazem com mais ninguém. Mas realmente é uma relação cada vez mais assimétrica, em que cada vez mais os Estados Unidos pesam e a Grã-Bretanha muitas vezes se sente quase que obrigada a seguir e às vezes isso não é evidente que seja no interesse realmente da Grã-Bretanha.

Obviamente a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, o Brexit, ainda acentuou mais essa assimetria.

e essa dificuldade britânica de gerir estas relações com a grande potência americana. Temos quatro minutos até ao final. Bruno, vamos ainda, antes da tua recomendação e de forma breve, falar das tarifas pesadas de 25% sobre os automóveis europeus, além deste impacto económico. O que é que nos diz esta decisão de Trump nesta fase?

Bem, o que nos diz é que Trump realmente não é de fiar, ou seja, e esta estratégia de chegar a um acordo comercial quase a qualquer preço com Donald Trump não resultou. Um dos grandes argumentos era a importância da exportação de automóveis da União Europeia para os Estados Unidos. Este setor é realmente extremamente importante.

Portugal representa mais de 10% do PIB da União Europeia, por exemplo, no caso de Portugal, representa mais de 10% das exportações portuguesas, emprega milhões de pessoas em múltiplos setores, porque não é apenas, digamos, as próprias empresas de automóvel, é todas as outras empresas que fornecem componentes para automóveis, e realmente o principal mercado de exportação da União Europeia são os Estados Unidos, em termos de valor.

E, portanto, mas realmente, claramente com Donald Trump não é possível chegar a acordos duráveis, não é possível, ele não se deixa condicionar por acordos, mesmo quando eles são assinados por ele próprio. Além disso, a verdade é que ele vem dizer, bem, os europeus não estão a cumprir o acordo anterior.

Isso em parte é verdade, porque há ali componentes, por exemplo, de investimentos ou de importações dos Estados Unidos, promessas que foram feitas que eram, obviamente, completamente impossíveis de fazer. A União Europeia não podia garantir isso, porque isso dependia das decisões de privados. E, portanto, sempre me pareceu que Donald Trump, com facilidade, podia utilizar esse argumento exatamente para voltar a pôr em questão o acordo.

Mas isto realmente mostra que, para Donald Trump, a União Europeia continua a ser um inimigo.

um inimigo comercial e que é impossível construir qualquer tipo de relação estável com os Estados Unidos, com Donald Trump. E, portanto, parece-me que realmente é a altura da União Europeia pensar em usar as tais medidas anticoercivas, da anticoerção económica, que não usou anteriormente. Acho que é evidente que se elas foram pensadas para alguma coisa, é para este tipo de táticas que Donald Trump utiliza constantemente.

Tem de ser postas em prática, no fundo. Obviamente, numa guerra comercial toda a gente perde, e portanto isto eu percebo que provoca hesitações nos europeus, mas a verdade é que não vejo outras alternativas. Bruno, estamos mesmo aqui a chegar aos minutos finais, vamos avançar já para a tua recomendação desta semana.

Bem, a recomendação desta semana é um livro... Trazes contigo e tudo. Exatamente, um livro do Luke Kemp, A Maldição de Golias, A História, O Colapso das Sociedades e o Futuro. É uma obra muito interessante, portanto, existe em tradução portuguesa, obviamente saiu recentemente.

É uma obra muito interessante deste Luke Camp, que é diretor, é um investigador do Centro para o Estudo do Risco Existencial na Universidade de Cambridge. Portanto, há cada vez mais, de facto, investigação focada nesta ideia de como é que se gera ou se evita o colapso civilizacional, o colapso de uma economia, de uma sociedade, de um Estado. Como é que se previne isso? Como é que se antecipa esses problemas e se procura reforçar a resiliência, que agora também é uma palavra que está muito na moda?

Aqui o que é interessante também nesta abordagem é que é uma abordagem histórica de muito longo prazo, portanto começa com a Antiguidade, utiliza várias bases de dados com múltiplos casos, com centenas de casos. Há alguns livros que já tentaram fazer este tipo de estudo, por exemplo, o Jared Diamond tem também um livro interessante chamado Colapso, mas com três ou quatro estudos de casos, por exemplo a Ilha da Páscoa, etc. Portanto aqui é uma coisa muito mais ambiciosa, de muito mais longo prazo.

realmente uma história global, se quisermos, do colapso civilizacional, apesar de tudo com um elemento um pouco positivo, portanto, não sei porquê, desde livros académicos a séries de ficção, agora há uma enorme, digamos, tendência para este tema, digamos, do colapso civilizacional, mas a verdade é que o Lucampo insiste num ponto que é...

de facto os seres humanos têm uma dimensão muito competitiva e conflituosa, mas também têm uma dimensão muito cooperativa, desde os tempos mais remotos, desde as tribos, digamos, com organizações mais básicas, que é possível verificar isso, e portanto o colapso civilizacional não é inevitável. Esta ideia de que há um apagão e de repente toda a gente começa a matar toda a gente, realmente não parece ser assim. As pessoas percebem que é inteligente cooperarem umas com as outras, desde que essa cooperação seja recíproca.

Recorda-me só o título. Luke Kemp, A Maldição de Golias, A História e o Colapso das Sociedades e o Futuro, da Bertram. É desta forma que fechamos esta edição do 5 Continentes com o historiador Bruno Cordoza Reis. Bruno, um abraço e boa semana. Obrigado, boa semana.

A relação dos EUA com a Europa ainda é especial? | Castnews Index — Castnews Index