Episódios de Política

'Planalto aposta suas fichas em encontro entre Lula e Trump, mas há temor'

05 de maio de 20269min
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O encontro entre o presidente Lula e o Donald Trump está previsto para a próxima quinta-feira (7). Bernardo Mello Franco fala sobre as expectativas para a reunião e analisa que, embora o Planalto "aposte suas fichas" na viagem para "mostrar poder de reação de Lula", há receio de que o tiro saia pela culatra.

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Participantes neste episódio3
C

Cássia

HostJornalista
S

Sallenberg

Host
B

Bernardo Melo Franco

ConvidadoJornalista
Assuntos3
  • Lula e TrumpExpectativas do Planalto · Temor de tiro pela culatra · Imprevisibilidade de Trump · Humilhações a outros chefes de Estado · Normalização das relações diplomáticas
  • Contexto político de LulaDerrotas políticas no Congresso · Rejeição de indicação ao STF · Fragilidade do governo · Oposição cantando vitória
  • Reuniões e assembleiasCriminalização de organizações criminosas · Sanções comerciais ao Brasil · PIX e perda de receita de empresas americanas · Terras raras e cooperação com os EUA · Investigação da Resolução 301
Transcrição22 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Conversa de Bastidor, com Bernardo Melo Franco. Bernardo. Boa tarde, Sallenberg. Boa tarde, Cássia. Boa tarde, ouvintes da CBN. Boa tarde, Bernardo.

Bernardo, o nosso tema é o encontro do presidente Lula com o presidente Trump, enquanto marcado para esta quinta-feira, mas ainda a gente não tem detalhes sobre a pauta, sobre o tema dominante, enfim, o que é que você nos traz? Pois é, Sarsenberg, essa pelo menos é a expectativa do Palácio do Planalto, que ainda não confirmou oficialmente a realização do encontro, mas ele foi noticiado ontem, primeiramente no site do Jornal Globo.

e, de fato, há uma movimentação para que ele ocorra na quinta-feira. Hoje mesmo, de manhã, chegaram ao Washington os integrantes do chamado escalão avançado da presidência. É aquele pessoal que faz ali a preparação da segurança, da logística da visita presidencial, mas estão esperando aí até a última hora a confirmação oficial da Casa Branca para poder bater o martelo. Dito isso...

Sardenberg e Kassi, vamos fazer um contexto. O presidente Lula acaba de sair do que foi provavelmente a pior semana do seu terceiro mandato, a semana passada. Lula sofreu duas derrotas políticas muito importantes no Congresso. Uma delas já era esperada, que era a derrubada do veto em relação ao famigerado PL da dosimetria, que na prática reduz o tempo de pena do Jair Bolsonaro e de outros condenados pela tentativa de golpe.

mas sofreu também uma derrota imprevista ou não esperada, que foi a rejeição do ministro Jorge Messias à sua indicação ao Supremo Tribunal Federal, algo que, como a gente vem falando aqui desde a semana passada, não acontecia desde 1894. Então, o presidente Lula vem de uma semana muito negativa, muito fragilizada e com a oposição praticamente já cantando vitória nas eleições de outubro.

tratando o governo como encerrado. E é nesse contexto que o presidente Lula busca criar fatos, produzir notícias, mostrar poder de reação e passar a imagem de que ele não é aquilo que os americanos chamam de um pato-mão, aquele presidente no fim do mandato, que nem o copeiro do Palácio chega mais para servir o café para ele.

Então, o Lula está preparando essa imagem, essa visita ao Trump, com a ideia, com o objetivo de se mostrar um personagem ainda ativo, um personagem com poder de iniciativa, com respeitabilidade no mundo e com uma pauta para tratar, ou seja, com o governo para tocar.

Claro que tem aí um fator também de risco, Sardenberg e Kassar, porque a gente sabe que o Donald Trump é um personagem marcado pela imprevisibilidade, ele está longe de ser um diplomata e ele já usou visitas à Casa Branca como armadilhas para outros chefes de Estado. Sempre é lembrado o caso do presidente Zelensky, da Ucrânia, mas também o caso do presidente Ramaphosa, da África do Sul.

Esses dois foram até a Casa Branca para se encontrar com o tempo e lá foram praticamente humilhados, destratados diante das câmeras, o que produziu para eles internamente.

um efeito muito negativo. Então, evidentemente, é uma viagem na qual o Planalto aposta suas fichas, no sentido de mostrar poder de reação do Lula, mas também há esse temor, um certo receio de que acabe se tornando um tiro pela culata se o Trump vier com uma postura mais agressiva ou com um discurso mais inconveniente.

Da parte da diplomacia brasileira, Sardenberg e Cássia, o que eu ouvi hoje cedo de embaixador que está participando dessa negociação é que não tem nenhuma expectativa de algo concreto, ou seja, assinaturas de tratados, anúncios a serem feitos, não. É uma viagem dentro daquele contexto de tentativa de normalizar as relações diplomáticas com os Estados Unidos. O tempo praticamente rompeu relações com o Brasil quando anunciou aquele tarifácio de 50%.

inclusive tentando interferir no processo judicial que corria aqui contra o Bolsonaro. E aí foram muitos meses até que os dois presidentes se encontrassem, já se encontraram duas vezes, até que as tarifas fossem retiradas e até que a lei Magnitsky deixasse de ser aplicada.

contra ministros da Suprema Corte brasileira. Então, é nesse contexto de normalização das relações diplomáticas que o Itamaraty está vendo a possibilidade dessa visita. Agora, Bernardo, não é usual que a gente tenha uma viagem do presidente marcada para se encontrar com outro chefe de Estado e que às vésperas dessa viagem ainda não haja a confirmação oficial do encontro. Pelo menos não era usual antes do novo governo de Donald Trump.

É verdade, Cassia, mas muita coisa que não era usual nos Estados Unidos está passando a ser. Não era usual o presidente americano destratar jornalistas dentro da Casa Branca, como tem ocorrido. Não era usual o presidente atropelar, com tanta falta de cerimônia, os órgãos multilaterais, as próprias Nações Unidas. A gente sabe que o tempo se comporta como se fosse uma espécie de um imperador do mundo. Isso se reflete naturalmente também nas relações dos Estados Unidos com outros países soberanos. Agora...

Tem alguns pontos nesse encontro, nessa possível pauta, que também inspiram uma certa preocupação do governo brasileiro. Acho que era importante a gente falar disso. O primeiro deles, que está sendo visto, inclusive, nesse contexto de possíveis armadilhas, seria o Trump levantar a questão de criminalizar, ou melhor, de tratar como terroristas, classificar como terroristas organizações criminosas que operam no Brasil. Isso da parte do governo brasileiro...

é visto como uma armação ou uma instigação feita por setores da oposição, setores bolsonaristas, os mesmos que no ano passado articularam o tarifácio contra o Brasil. O setor privado aqui tem falado várias vezes, a gente já noticiou também.

que tem preocupação com isso, porque essa classificação pode acabar servindo de pretexto para sanções comerciais ao Brasil. Ou seja, se o Brasil for visto internacionalmente pelos Estados Unidos como um país que abriga o terrorismo, que dá guarida a organizações extremistas.

Isso poderia ter consequências, inclusive, no bolso dos brasileiros. Mas é um terreno pantanoso porque o governo, ao dizer isso, acaba sendo acusado pela oposição de defender os criminosos, de ser sócio das facções, etc. A gente sabe que esse discurso pega muito da parte da extrema-direita na internet. Outras duas questões que também estão na pauta, Cássia, são a questão do PIX e a questão das terras raras. O PIX por quê? Porque o PIX significou...

perda de receita de empresas americanas administradoras de cartões, que reclamam aquelas empresas que são os meios de pagamento, a maior parte delas está assediada nos Estados Unidos, e no momento que o Brasil desenvolveu um sistema de transferência imediata sem ônus, sem cobrança aos usuários, essas empresas, claro, perderam dinheiro e estão reclamando.

A outra questão é a questão das terras raras, na qual já houve ali uma troca de farpas dos dois governos, o Lula dizendo que ninguém vai botar a mão nisso aqui, mas, ao mesmo tempo, os americanos tentando acair o Brasil para uma cooperação que, pelo menos, exclua a China desse negócio. E tem, por último, a famosa questão ali da investigação da Resolução 301.

uma resolução que trata de comércio internacional, os Estados Unidos estão deixando o Brasil e cerca de 60 países pendurados nessa investigação. É um instrumento de pressão, diz o seguinte, olha, vocês estão sendo desleais, vocês estão incorrendo em práticas predatórias, contra a concorrência, a gente pode sancionar o país. E aí o Brasil tem que ficar explicando que não, veja bem, na verdade os Estados Unidos têm superávit e não déficit na relação comercial.

com o Brasil, enfim. O interesse do governo brasileiro seria que essa investigação fosse arquivada, mas não tem muito otimismo da parte do Itamaraty de que isso vai acontecer após essa visita. Cássia e Sarnembert.